sábado, 22 de junho de 2019

Bolsonaro gosta de quem o adula, e ignora o risco disso

Demitido na semana passada, Carlos Alberto dos Santos Cruz caiu na desgraça de Jair Bolsonaro no dia 13 de maio, quando circularam nas redes sociais mensagens datadas de uma semana antes em que o então ministro da Secretaria de Governo se referia a um dos filhos de Bolsonaro como “desequilibrado” e a um “Fábio” como “frouxo” — alusões provavelmente a Carlos Bolsonaro e Fábio Wajngarten, o secretário de Comunicação. Na conversa, o suposto Santos Cruz também concordava quando alguém chamava Bolsonaro de covarde. Quando revelada a conversa, Santos Cruz foi a público dizer que se tratava de uma montagem e lembrou que, no horário em que teria se dado o diálogo, estava num voo a trabalho. Sugeriu, ainda, que a Polícia Federal investigasse o caso. O problema é que Bolsonaro nunca acreditou na versão de Santos Cruz. Nascia ali uma fenda na relação de anos entre o general e o capitão, que desaguou na demissão da semana passada. O episódio, entretanto, simboliza um dos traços mais marcantes do jeito Bolsonaro de governar. O presidente gosta de se cercar de quem o venera. Para ele e para seus filhos, a demonstração de apreço incondicional é fundamental. Críticas, em nenhum grau, são bem-vindas. Enfeitiçados pela ideia do “mito”, os Bolsonaros ignoram o risco que é estar cercado por quem não os contraria.


Mais que a competência, o que de fato importa para os Bolsonaros é a lealdade de quem os cerca. Quando descrevem algum ministro ou assessor de que gostam, eles são mais elogiosos com aqueles em que identificam uma paixão sem limites por Jair. Demonstrações públicas de admiração por Bolsonaro valem dois pontos no boletim da família. Na semana passada, quando ministros e assessores atacaram Lula, saindo em defesa de Bolsonaro, o presidente vibrou. Quando Filipe Martins, o assessor de Bolsonaro para Twitter (e relações internacionais), defende o chefe nas redes, a família também aplaude. Wajngarten, o secretário que Santos Cruz nunca engoliu, também é volta e meia citado pelos filhos como um empenhado assessor de Bolsonaro.

Muitos desses apoiadores percebem o valor que essa paixão cega tem para Bolsonaro e usam isso para ganhar prestígio. Santos Cruz não o fazia. Contrariou Bolsonaro em diversos episódios, a exemplo da cobrança que fez ao presidente por não ter passado por ele a nomeação de Wajngarten, seu subordinado. Gustavo Bebianno também não. O ex-presidente do PSL foi um dos que criticaram os excessos de Carlos. Bolsonaro não gostou.

O exemplo mais recente de integrante do governo implodido por questionar Bolsonaro foi Joaquim Levy. O ex-presidente do BNDES nunca abraçou o discurso de que haveria uma caixa-preta de irregularidades prestes a explodir. Aliás, nem o próprio BNDES. Na seção “Perguntas e respostas” do site oficial do BNDES, o banco é claro sobre não enviar dinheiro diretamente para nenhum governo no exterior, mas sim financiar a exportação de bens e serviços de empresas brasileiras lá fora. Levy já havia demonstrado a Bolsonaro que o discurso dele era falso também sobre a suposta prioridade dada a exportações para a Venezuela e para Cuba: o maior destino dessas operações são... os Estados Unidos. Bolsonaro não aceitava o que ouvia.

De certa maneira, Hamilton Mourão também foi vítima dessa falta de predisposição de Bolsonaro para ouvir o divergente. Ainda na campanha, o vice-presidente dissera que não seria decorativo, e Bolsonaro não deu a ele uma função no governo. Sem ser ouvido nos bastidores, Mourão passou a, publicamente, dar seus recados. Criticou a política externa, a Comunicação, a falta de propostas para a Educação. Recentemente, passou a ouvir apelos dos próprios generais para que não falasse mais publicamente. Decidiu dar um tempo nas entrevistas. Engatilhada há tempos, sua entrevista para o New York Times, veículo odiado por dez entre dez olavistas, foi adiada para um futuro ainda indefinido.

A falta de conexão com a realidade preocupa os militares que atuam no Palácio do Planalto. A Secretaria de Comunicação continua sem nenhum contrato com institutos de pesquisa que possam dar ao presidente uma medição de sua popularidade encomendada pelo governo. Bolsonaro não acredita nas grandes empresas de pesquisa, como o Ibope e o Datafolha — o termômetro em que confia é o do calor de suas bolhas no Twitter e no Facebook, sempre medido por Carlos Bolsonaro e assessores como Filipe Martins.

Os mais radicais, chamados ora de ideológicos, ora de olavistas, vêm ganhando boa parte das batalhas junto a Bolsonaro porque sabem explorar esse sentimento da família.

Vale tudo nessa hora: manter o clima de campanha, atacar PT, PSOL e todos os tons de vermelho e até alimentar a narrativa de que Bolsonaro tem um quê de enviado divino — não são incomuns, em conversas privadas com Bolsonaro, as referências à “mão divina” que o protegeu de algo pior na facada.

Percebendo isso, muitos militares e integrantes de outros grupos do governo têm escolhido em quais bolas divididas devem entrar. O curioso é que fenômeno semelhante norteou durante muito tempo a relação que Dilma Rousseff, na posição oposta a Bolsonaro no espectro ideológico, tinha com seus assessores. Dilma também não gostava de ser contrariada. Quem discordasse dela deveria estar munido de muitos dados — aos quais nem sempre a presidente prestava atenção. Deu no que deu.

A notícia ruim para Bolsonaro vem de Nicolau Maquiavel e de seu "O Príncipe", que traz um capítulo inteiro para ensinar o governante a se livrar de aduladores. “Não há outro meio de guardar-se da adulação a não ser fazendo com que os homens entendam que não o ofendem dizendo a verdade”, escreveu o florentino. Mas, no mesmo capítulo, Maquiavel também escreveu que pouco importam os bons conselhos se não há ouvidos dispostos a captá-los: “Os bons conselhos, venham de onde vierem, devem nascer da prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos”. Nestes quase seis meses de governo, entretanto, o reino de Bolsonaro teve mais golden shower do que prudência.
Guilherme Amado

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