domingo, 12 de fevereiro de 2017

A Lava Jato como 'soft power'

Nesta semana, numa roda social em Nova York, o jornalista Charlie Rose, sujeito dos mais bem informados do mundo, batia papo com um grupo de brasileiros.

Rose, âncora do melhor programa de entrevistas da TV norte-americana, queria saber: “quando o país de vocês vai levantar-se novamente”?

Há sete anos, o entrevistador recebia em seu programa um símbolo da ‘Brasilmania”, à época disseminada por toda parte —Eike Batista.

Hoje, Rose seguramente lamenta que o soberano do “Império X” esteja na cadeia. Eike era visto por tantos na elite global como símbolo da arremetida brasileira. Um copiloto do Cristo Redentor decolando do Corcovado rumo à constelação das grandes potências, conforme a famosa capa de “The Economist”.

Eike está na prisão. E o Brasil, em círculos acadêmicos e empresarias mundo afora, vem tendo seu status de “país emergente” severamente questionado.



Há muitas formas de metrificar o declínio brasileiro. Temos nos últimos três anos a pior performance dentre as economias do G20. Não existe um “modelo” de crescimento brasileiro com a garantia de inclusão social que possa referenciar outras nações.

A combinação de populismo tarifário, renascimento da política de substituição de importações, desonerações tributárias e gigantismo no gasto público precipitou uma tragédia da qual países querem distância. Exceção a isso é a Trumponomics, que mantém parentesco de primeiro grau com nossa “Nova Matriz Econômica”.

Na segurança pública, não nos legitimamos para concretizar ambições maiores no campo da segurança coletiva. Os mais de 50 mil homicídios por ano ultrapassam o número de óbitos em conflitos na África e no Oriente Médio.

O alarmante nível de violência em centros urbanos como Rio de Janeiro e Vitória e o horror nos presídios brasileiros não credenciam o país, por exemplo, a assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, tradicional bandeira de nossa politica externa.

É claro que, na América Latina e na África, programas de cooperação técnica ajudam a projetar influência. Contudo, é o peso relativo do Brasil, e não o sucesso de políticas públicas, que continua a sustentar o desejo de fortalecer laços com o país.

Mesmo iniciativas como o Bolsa Família, cujo modelo se pensou “exportável” para países de renda baixa, tem sua viabilidade e atração limitadas num contexto em que a economia não cresce.

Nos últimos meses, muitos argumentam que o pior já passou. Provavelmente é verdade.

Na macroeconomia, o país parou de piorar. A inflação cai. Petrobras, BNDES e Eletrobras estão bem administradas. Algumas reformas estruturais avançam. O terceiro-mundismo na diplomacia ficou para trás.

É certo que boa gestão monetária, fiscal e governança aprimorada nas estatais ajuda na credibilidade do país. Da mesma forma, uma politica externa que não veja, no plano global, a divisão “Norte/Sul” como pertencente à mesma lógica do maniqueísta discurso interno do “nós/eles” habilita o país a parcerias menos ideologicamente orientadas.

Mas isso tudo não é mais que fazer a obrigação. Boa governança e diplomacia pragmática são pré-condições, não diferenciais.

É como se subdesempenho econômico, arquitetura de corrupção sistêmica e desencanto com a política partidária tivessem subtraído do pais seu acervo de “casos de sucesso”. Por essa ótica, o Brasil oferece pouco do que se orgulhar, muito a se envergonhar.

Assim, no campo das relações internacionais, o país supostamente encontra-se exaurido no estoque de “soft power” —o “poder suave”.

O criador desse conceito, Joseph Nye, cientista político de Harvard, define-o como “a capacidade de um país influenciar e persuadir por meio do poder de inspiração e atração, em contraposição ao poder militar ou de coerção (‘hard power’, ou poder ‘duro’)”.

Dentre atributos geradores de poder suave, Nye identifica a admiração que se tem pela cultura ou língua de um país, mas também seus valores, instituições e a maneira pela qual tal nação busca resolver seus próprios problemas.

Se é assim, em meio ao que já chamei nesta coluna de “eclipse global do Brasil”, o “soft power” brasileiro está se projetando graças a uma dinâmica incidental: a Operação Lava Jato.

Nesta semana, em debates na Universidade Columbia e na New School, em Nova York, a grande maioria dos acadêmicos, formadores de opinião e tomadores de decisão no campo econômico demonstrou entendimento de que a Lava Jato é mais do que motivo de orgulho para os brasileiros. É importante ferramenta para o Brasil nivelar sua capacidade de competir internacionalmente.

Parece expandir-se a percepção, manifestada pioneiramente pelo economista de Harvard, Dani Rodrik, há um ano e meio, de que o Brasil se encontra subestimado perante agentes econômicos e a opinião pública mundial. Ele saudou, num debate público, como promotores e juízes estão combatendo a corrupção no marco da lei, com maturidade política e sem paixões partidárias.

Se este é o caso, então o Brasil não está destinado, como enfatizou o juiz Sérgio Moro na palestra em Columbia, a perenemente sucumbir como vítima indefesa à corrupção. E, tampouco, deve-se entender esse mal como uma espécie de “doença tropical”.

Bem ao contrário, o movimento de combate à corrupção no Brasil pode servir como modelo de mudança de paradigma no âmbito da economia política mesmo de nações industriais mais avançadas.

É bem provável que, dada a sua escala e múltiplas frentes, a operação cometa erros. No entanto, os males que a Lava Jato causa são menores que os males que ela cura.

Apenas o êxito da Operação não basta para responder à pergunta de Charlie Rose sobre quando o Brasil se reerguerá. Além de boa gestão, o país precisa de estratégia para inserir-se competitivamente no turbulento mundo contemporâneo.

Ainda assim, o Brasil sinaliza que, quando o assunto é corrupção, muitas instituições, com apoio da maioria de seus cidadãos, estão fazendo a lição de casa.

Isso inspira, e portanto influencia, outros países. Liderar pelo exemplo —eis a essência do “soft power”.

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