domingo, 21 de fevereiro de 2016

O perfil político que o Brasil quer

Qual é o perfil político mais adequado ao momento que o país está atravessando?

Invariavelmente, a resposta a esta pergunta abarca uma bateria de princípios e valores de feição muito previsível.

Os eleitores apontariam certamente, entre outros, conceitos como ética, respeito, responsabilidade, compromisso, decência, zelo, integridade. Tanto nas regiões mais distantes e ainda sob influência de caciques políticos quanto nos centros de maior consciência política, a valoração ancorada na moralidade assume a liderança das preferências.

As demandas nessa direção são diretamente proporcionais ao intenso noticiário midiático dando conta da ladroagem que, nos últimos anos, assaltou o Estado brasileiro.


Por isso, as eleições de outubro próximo deverão ser mais seletivas que as de 2012, na crença de que o eleitorado comparecerá às urnas com um sentimento de que poucos políticos estão a merecer o seu voto. A constatação mais comum que se flagra na interlocução cotidiana é a de que “todos os políticos são farinha do mesmo saco”. Ante a expansão da descrença social, é oportuno resgatar os traços que ornam o perfil político do gosto do eleitor. Vejamos.

A primeira exigência que a população faz é que ele mantenha sintonia fina com as demandas sociais. Não precisa ser ele necessariamente um despachante ou um assistente social distribuindo benefícios. Infelizmente em algumas regiões a figura do despachante é ainda bem popular. Esta sintonia fina se ampara no contato rotineiro com as bases. Por isso, a proximidade com o povo é um conselho a ser respeitado.

A desconfiança que se espraia em relação a tudo que se liga à política leva o eleitor a querer ouvir candidatos, sentir seu pulso, examinar de perto se a palavra dada será cumprida. Afinal, político é, hoje, sinônimo de mutreta.

O cidadão quer enxergar o valor da autoridade. Regra geral, o brasileiro médio sente-se atraído pela figura do pai, que expressa autoridade, respeito, domínio do ambien­te doméstico, o homem providencial capaz de suprir as necessidades da família. Não se deve confundir autoridade com autoritarismo, conceito este que abriga outras componentes, como a arbitrariedade, o castigo imerecido, a brutalidade.

Equilíbrio é outro valor que se exige, pela necessidade de se distinguir um sujeito harmônico, sereno, capaz de traduzir sentimento de justiça. Estes valores se integram e acabam conferindo ao político confiabilidade e respeita­bilidade, valores que foram esgarçados ou mesmo eliminados pelo tufão de escândalos que assola a vida política. Resgatar a crença na política não é tarefa fácil. E só alguns conseguirão ser bem-sucedidos nessa missão.

Os desafios da administração pública e as demandas crescentes das comunidades estão a exigir conhecimento e experiência dos políticos, fer­ramentas necessárias para o encontro de soluções rápidas, factíveis e justas. Quanto à experiência, não carece ela ter sido realizada na vida pública, podendo o candidato trazer da iniciativa privada uma bagagem de empreendimentos e feitos. As pessoas, regra geral, desconfiam de aventureiros e ignorantes por consi­derá-los uma “aposta cega, um tiro no escuro”.

O preparo, o discurso bem ordenado, a fluidez de ideias compreensíveis pode ajudar a elevar a ima­gem. Será melhor ainda se as propostas e os programas dos políticos fossem endossados por grupos sociais organizados e consolida­dos. Ou seja, se ele tiver o endosso de uma entidade de fins sociais. Seria uma maneira de puxar das margens para o centro a matéria política, o ideário, na esteira da desejável democracia participativa.

A sociedade brasileira está bem organizada e representada por enti­dades, algumas muito fortes. Quem tiver condições de fazer estaarticulação, de lá para cá, do poder centrípeto para o poder centrífugo, estará intermediando com legitimidade os interesses da coletividade. Este grupo que assim se comporta abre mais espaços de futuro.

Ao contrário, ao permanecer todo tempo trancado em gabinetes e escritórios, aquele que aspira a vida política corre o risco de jamais sentir o calor das ruas ou o “cheiro das massas”. Distancia-se e se desequilibra, pois os pés de um político devem, todo tempo, caminhar nas trilhas percorridas por suas bases. E o que as pesquisas indicam como valores negati­vos?

Indecisão é um deles por estar associado à ideia de político fraco, temeroso, tíbio. (A propósito, a imagem de ficar em cima do muro é colada aos integrantes de um partido. Por uma questão ética, este escriba omite o nome).

Encrenqueiro e corrupto são outros traços negativos. O brasileiro continua desconfiado de estilos rompantes, im­petuosos, viradores de mesa. É claro que mudanças são desejáveis, contanto que sejam gradativas, sem grandes sustos. Infelizmente, nos últimos tempos, grupos partidários têm se engalfinhado nas ruas em defesa e ataque a seus maiores protagonistas.

Quem está ligado a coisas suspeitas, à teias de corrupção, mensalão e petrolão, enfim, à situações embaraçosas e não bem explicadas, será visto com desconfiança. Precisa se esforçar muito para se purgar. As Operações Lava Jato e Zelotes, que apuram desvios e eventos imorais, serão acompanhadas atentamente pelo olho mais apurado do eleitor. A população está mais atenta aos fatos da política, distinguindo os espaços do bem e do mal, do bom e do mau político. Perfis sem ideias na cachola, sem programas, sem conhecimento, terão voo curto na campanha que se aproxima. Alguns não passarão no primeiro teste.

Há, porém, um valor-conceito que expressa o esqueleto vertebral do político: trata-se da identidade, que abrange a história, o pensamento, a coerência, os sentimentos e a maneira de ser. Se a identi­dade é forte e positiva, o candidato será sempre associado às lembranças boas de seus eleitores e admiradores. Uma boa imagem, porém, não nasce e cresce da noite para o dia. Foquem a lupa para enxergar erros e acertos, pois a população já usa lentes há muito tempo.

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