sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Vilões das queimadas estão no poder

Até onde minha memória alcança — e ela vai longe — se fala em queimadas no Brasil. A diferença entre as queimadas de hoje e as queimadas de antanho é que aquelas tinham autores conhecidos e universalmente execrados, proprietários rurais que recorriam a métodos primitivos e perigosos de limpar suas terras e prepará-las para a produção, e se danasse quem protestasse. O que mudou de antes para agora é que já não se sabe mais com tanta clareza quem são os vilões desse drama.


Na minha remota adolescência, ninguém falava na questão ambiental, fora alguns idealistas esquisitos. Para todos os efeitos relevantes, o ambiente não existia. Hoje “vilão” não é mais o proprietário rural sem consciência do mal que suas queimadas fazem, pode ser um investidor ausente que só vê suas terras em chamas da janela de um avião. Contra os protestos de quem quer a Amazônia como o último refúgio de um mundo que se torna rapidamente irrespirável, ganha força um vilão ao qual só faltava uma coisa para se impor, o poder. Agora, ele está no poder.

À visão romântica de uma Amazônia refúgio impõe-se a do tesouro escondido, muito mais realista e excitante. O que haverá de riqueza sob as árvores da Amazônia, uma vez desmatado tudo e afastados os índios, é difícil de imaginar. Madeira, petróleo, ouro... Nada nos faltará. Salvo, claro, ar.

Falando em memória... Não sei por que, pensei nos Beatles. Já sei por quê. Li numa matéria sobre o mercado editorial que três capas garantem as vendas de livros, no mundo todo: capas em que apareçam Lincoln, Hitler ou cachorros. A matéria não explicava a preferência. Os livros sobre Hitler vendem mais na Alemanha; os sobre Lincoln, nos Estados Unidos; e os sobre cachorros, em toda parte. Comecei a imaginar um encontro de Lincoln e Hitler numa pet shop, mas logo fui tomado por grande melancolia. E os Beatles, por que não eram os mais vendidos? Lembrei que anos atrás o Internacional formou um ataque de jovens que logo ganhou o apelido de ataque iê, iê, iê. Um eco do yeah, yeahyeah dos Beatles, que na época era a referência cultural de uma geração e ninguém mais canta. Enfim, saudade de mim mesmo.

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