quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Lembrancinha natalina


O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.
Hannah Arendt, "A Con­dição Hu­mana”


Voltamos depois da festa

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Pensamento natalino

 


Congresso legalizou roubar voto de pobre

O Congresso Nacional reduziu a pena de quem tentou roubar voto de pobre.

Os que tentaram roubar as armas da República para perpetuar sua facção no poder e matar seus adversários sob tortura também foram beneficiados.

De agora em diante, uma roleta será instalada na porta do Congresso para que o sujeito de direita, em caso de golpe fracassado, já se dirija ao centrão para comprar "revisão de dosimetria" com emendas do orçamento secreto. Aceitarão dinheiro vivo também, Sóstenes, pode ficar tranquilo.


Longe de "pacificar o país", como dizem seus defensores, a revisão de dosimetria foi uma declaração de guerra do Congresso de direita contra os pobres que votaram em Lula.

Para apaziguar meia dúzia de políticos ladrões, militares desertores e pastores estelionatários, o Congresso traiu os trabalhadores brasileiros que tiveram que andar longas distâncias para votar em 2022, driblando os bloqueios de estrada ordenados por Bolsonaro.

A turma que defende a revisão de dosimetria frequenta as mesmas festas de rico que os deputados. Os trabalhadores que ficaram presos nos bloqueios de estrada raramente são convidados.

A pena para quem ordenou e para quem executou os bloqueios de estrada também caiu.

O encarregado de defender o Carnaval da dosimetria no Senado foi Espiridião Amin (PP-SC).

Amin estava na reunião de 30 de novembro de 2022 em que toda a bancada bolsonarista pediu golpe em pleno Congresso Nacional. Na plateia, estava o líder dos acampamentos golpistas, que disse que o evento estava sendo projetado em telões em frente aos quartéis. Perto dele, um dos terroristas que tentou explodir o aeroporto de Brasília na véspera do Natal de 2022. Junto aos dois, líderes caminhoneiros que bloquearam estradas naqueles meses pedindo golpe. Ao final da orgia golpista, quando um dos presentes perguntou por que eles não decretavam o golpe ali mesmo, o presidente da sessão, senador Eduardo Girão, declarou que várias alternativas estavam sendo estudadas.

Amin foi saudado pelos golpistas como um deles e em nenhum momento protestou contra os pedidos de artigo 142 ou de intervenção militar. Quando tomou a palavra foi para assegurar que estava trabalhando para que os pedidos de impeachment de ministros do STF arquivados pela presidência do Senado fossem reabertos.

A vontade é dizer: Amin, como todos os presentes na reunião de 30 de novembro de 2022, deveria ser preso por ter participado da campanha de incitação ao golpe.

Mas de que adiantaria prender? Quinze dias depois, a direita no Senado aprovaria uma "revisão de dosimetria" que lhe mandaria de volta para casa e pagaria jetom pelos dias de cadeia.

Eu teria sido preso pela ditadura Bolsonaro. Durante a última ditadura que Espiridião Amin apoiou, muita gente foi. Dessa vez, até pela falta de apoio social ao golpe, teriam que matar muito mais. Inclusive você, leitor da "Foice de São Paulo".

A Débora do batom estava em cima da estátua para pedir isso: que os militares matassem seus adversários políticos, que constituíam (e, a crer nas pesquisas atuais, ainda constituem) a maioria do povo brasileiro.

Ninguém na direita me ligou para saber se me sinto pacificado agora que caiu a pena de quem tentou me botar no pau-de-arara.

Achei indelicado.

Um escândalo

Não há mobilização política ou comoção social sobre a dosimetria das penas ou as condições de encarceramento dos cerca de 950 mil brasileiros que se encontram no sistema prisional do país (Secretaria Nacional de Políticas Penais).

Desse amontoado de gente, uns 40% ainda nem foram julgados, mas já estão privados de liberdade. O furto e o tráfico de pequenas quantidades de drogas são os crimes que mais levam à prisão provisória, ou seja, infrações que poderiam ser tratadas com medidas alternativas. Mas não são.

Esse quase um milhão de pessoas é tratado pior do que bicho, já que estão submetidos a condições que ferem a dignidade e impedem (ou dificultam) a reabilitação e uma futura reintegração à sociedade.

Por que será que não há "refresco" para essa gente?


Tudo leva a crer que seja porque o grosso da massa encarcerada no Brasil é composta por negros (70% são pretos e pardos pelos dados do Sistema Nacional de Informações Penais), pobres, sem parentes importantes ou contatos influentes no meio político.

E a propositura e aprovação pelo Congresso Nacional do PL da Dosimetria, feito sob medida para reduzir as penas aplicadas a um grupo específico de "cidadãos do bem" (entre os quais estão um ex-presidente da República e militares de alta patente) condenados por tentativa de golpe e ameaça ao Estado Democrático de Direito só corrobora essa impressão ao ir na contramão da história.

Afinal, historicamente nosso parlamento atua para endurecer a legislação penal. Ninguém passa pano para bandido preto, pobre, sem influência política e econômica. O Pacote Anticrime (lei 13.964/2019) é um bom exemplo. A lei (15.181/2025) que agrava o crime de furto, roubo e receptação envolvendo equipamentos de energia, telefonia, transferência de dados e transporte, é outro.

Aliviar o lado de quem planejou um golpe de Estado, invadiu e depredou o Palácio do Planalto, o STF e o próprio Congresso, atentando contra a ordem democrática e a normalidade institucional, é um escândalo.

O governo, o país, o povo

Sempre o governo! O governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquiteto – tudo. Quando um país abdica assim nas mãos dum governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do sol, esse país está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a ação. E como o governo lá está para fazer tudo - o país estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda - é como nos acordamos com uma sentinela estrangeira à porta do arsenal.

Eça de Queirós, "A catástrofe"

Nossa tragédia é o devaneio - conivência parafrastica

Acho um pouco reducionista, mas brilhante, a abordagem do jornalista Antonio Machado no artigo publicado, no fim de semana (14.12), para o jornal Correio Braziliense, intitulado “Questão de ordem”. Referindo-se à conjuntura brasileira, observa que “… o País se perde em bravatas, cassações de parlamentares, operações policiais midiáticas, embates (puramente) regimentais e monólogos de autoridades”. Uma demonstração de que “o Brasil real segue largado à margem”.


O articulista ampara suas afirmações em três hipóteses: “A política alheia ao País”, “O que não se discute”, “Sabemos fazer, e não fazemos”. Reducionista, porque não escancara a ferida da política econômica voltada claramente para redistribuição da riqueza (dos outros), sem uma contrapartida do aumento da produção e da produtividade, legando a tarefa ao ativismo do MST e aos trabalhadores urbanos sindicalizados que, ao contrário, estão conquistando um dia mais de folga na semana: de 6x1 para 5x2. No modelo de trocas que aí está, o redistributivismo tende a beneficiar, sim, os burocratas hegemônicos no Poder: o Judiciário, recorrente, já voltou a reivindicar aumento de 28 % nos salários dos seus ministros e servidores; o Ministério da Fazenda – o órgão redistribuidor – propõe estender para os funcionários da Carf -Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, as vantagens pecuniárias da “periculosidade”. E, assim por diante. Absurdos compatíveis com os devaneios organizacionais da atual gestão de governo.

O problema levantado por Machado centra-se no que ele chama de “Questão de ordem”, numa alusão à indisciplina a que chegou a administração pública e a governabilidade. Conseguiu-se atingir o pico da desordem plena. Uma disputa de Poder entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Deve-se muito a contaminação ideológica do “trabalhismo”, conduzida pelas classes médias e intelectuais que, supostamente, deram origem ao PT. Trata-se de um pretenso partido único, revolucionário, intuído por Lênin. Está mais para uma agremiação mussolinista, no caso da Itália, criado por um ex-socialista que o desenvolveu a partir de uma ideologia nacionalista. Não parece ser mesmo também o caso da gestão política em curso. Confuso: busca a internacionalização, sem apegos à integração continental. Por aqui, conseguiu desestruturar o Estado Brasileiro. Na verdade, desde a Proclamação da República, o Brasil não encontrou seu caminho nas ideologias, nem conseguiu organizar-se devidamente como Estado, por causa da herança patrimonialista, do filhotismo, da troca de favores e das fragilidades impostas à burocracia de Estado como estratégias de governança.

A primeira hipótese de Machado é que “A política alheia ao País”. Ninguém governa. Os cidadãos estão abandonados. A coreografia da desestruturação do Estado somada às barganhas para construção da hegemonia política terminou transferindo para a iniciativa privada uma elite tecno burocrática, com formação superior apurada em gestão de política públicas. Saindo das mãos de uma elite rural, caímos nas mãos de um grupo de intelectuais acadêmicos (doutores em Sociologia, Administração e Economia: Delfim, Símonsen, Celso Furtado, FHC, pessoal do IPEA, da FGV e outros), para chegar ao controle dos sindicatos, cujos afiliados são pouco dado à leituras, sem se dar conta de que foram eles que sustentaram o regime de Benito Mussolini. O Governo abandona as tradições da integração continental para tomar a direção de socialismos em crise – chamados de “nova esquerda” -, e alia-se a líderes que só conseguem se manter no Poder pelo uso explícito da força, e que nada tem à ver com o pensamento e os problemas do nosso Continente. A política externa brasileira sempre se pautou pela autonomia e o não alinhamento. Agora mistura tudo. A mudança de postura se expressa pelo flerte, cada vez mais insistente e inconsistente historicamente, com lideranças autoritárias que se opõe à cultura do Ocidente. Amadurecida por anos de mandatos repetidos, pode, na próxima eleição, criar maior confusão, no caso da eleição de um opositor ao atual grupo no Poder.

O que não se discute (segunda hipótese) …. é a origem de tudo isso na contemporaneidade. Os nomes são conhecidos. Mas só aflora o dos agentes: Lula, Fidel e Zé Dirceu (militei com ele no movimento estudantil: um pequeno burguês, sempre conspirando, nas sombras (Caso UNE), estimulado por partidos ideológicos, e desestruturados pela militarização do Poder ao longo de vinte anos. Aquele trio, agregado de Hugo Chavez, instituiu a polarização, (esquerda x direita) contrariando a democracia pluripartidária, oferecendo no cardápio apenas duas plataformas de convergência política para os que tinham outras opções. Radicalizaram, estigmatizando-os de “extrema-direita”, em atitudes pouco convencionais não necessariamente revolucionárias. Vem aparelhando gradualmente o Estado à busca do Poder hegemônico. Terminam sempre numa Comissão Parlamentar de Inquérito que, por sua vez, tem concluído em pizzas e, ambiguamente, pela culpabilidade dos agentes, porém todo mundo solto e liberados para retornar ao Poder.

Sabemos fazer, e não fazemos. Uma hipótese ousada. Acho que é o contrário; não sabemos fazer. Construímos nosso caminho, vivenciando por décadas “conflitos inúteis”, “devaneios políticos” e não temos programas consistentes de absorção de novas tecnologias. Os projetos de governo estão “presos à poeira do presente”. “Sabemos fazer”. Acho que não. Nossa massa crítica é limitada, a ciência um devaneio e fica-se sem espaço até mesmo em um Parlamento Digital, popular, como ocorreu no norte da África. Em nome das “fake news” encerram-se atividades blogueiras dos parlamentos digitais, cassam-se importantes debatedores, enterram abordagens criativas e teses embrionárias. A intelectualidade corporativa, introduz a desordem na governabilidade, tornando cada vez mais difícil a escalada para chegar a qualquer Prêmio Nobel.

Elites tecnológicas batalham pelo controle do futuro

Tem sido difícil pinçar algo apaziguante sobre o amanhã à nossa espera — o futuro chegou muito antes de 2025 se esvair, e coisa boa não é. Veio a galope, sem pruridos de atropelar a cosmologia anterior. Para o veterano analista Alastair Crooke, ex-agente do serviço de inteligência britânico MI6 e fundador do Fórum de Conflitos com sede em Beirute, o pensamento populista conservador ocidental já conseguiu criar raízes como algo mais bruto, coercivo e radical.

— Kaputt o modelo de uma ordem internacional baseada em regras (se é que alguma vez existiu para além da narrativa) — escreve Crooke no ensaio “Uma nova era de domínio coercivo”.


A guerra pelo poder futuro já é travada — sem regras, sem direito, poucos limites e em ostensivo desdém pela Carta das Nações Unidas. Segundo Crooke, a tática adotada pelos aspirantes a donos do futuro é deixar seus adversários atônitos e imobilizados, figuras congeladas no tempo e na ação. São tempos de transgressão deliberada com o propósito de chocar, mover-se depressa e, no caminho, destruir a (des)ordem anterior. Os Estados Unidos de Donald Trump e o Israel de Benjamin Netanyahu acreditam ser a vanguarda da derrocada do liberalismo global e de suas ilusões.

O ensaísta político Giuliano da Empoli, autor do estupendo romance “Mago do Kremlin”, inspirado na história real da eminência parda de Putin, Vladislav Surkov, pisa mais fundo na sua visão do nosso amanhã. Em novo livro intitulado “The hour of the predator: encounters with the autocrats” (ainda sem edição brasileira), sai de cena toda uma classe política de tecnocratas (tanto de direita como de esquerda), mais ou menos indistinguíveis entre si, que governavam seus países com base em princípios de democracia liberal, em conformidade com as regras de mercado e modulados por algumas considerações sociais, formando o Consenso de Davos. Na pena cortante de Da Empoli, o conchavo anual realizado na Suíça entra para a História como lugar onde a política se reduzia a uma competição entre apresentações em PowerPoint, e o gesto mais transgressor que alguém podia ter era usar uma malha de gola alta preta em vez de camisa azul-clara à hora de bebericar.

As novas elites tecnológicas mundiais — os Musks, Zuckerbergs e Sam Altmans — nada têm em comum com os tecnocratas de Davos. A filosofia de vida desses barões da IA não se assenta na gestão da ordem existente, mas, pelo contrário, num desejo irreprimível de tudo chacoalhar. Ordem, prudência e respeito pelas regras são anátemas para quem chegou depressa à fama e fortuna, quebrando coisas, como dizia o lema original do Facebook.

No incendiário comício londrino que chocou o establishment britânico meses atrás, Elon Musk anunciou a “próxima chegada da violência” e conclamou a todos:

— Ou vocês reagem, ou morrem.

Seu ostensivo e inabalável apoio a movimentos de extrema direita, dos bolsonaristas no Brasil à AfD na Alemanha — não se deve apenas a excentricidades de um bilionário nascido na África do Sul. Segundo Da Empoli, ele revela algo mais fundamental, que ultrapassa em muito as preferências de um único oligarca tecnológico. As palavras de Musk são, diz ele, apenas a ponta de algo muito mais profundo: uma batalha entre elites de poder pelo controle do futuro.

Por natureza e trajetória, os senhores da alta tecnologia atual têm mais em comum com líderes nacional-populistas de extrema direita — os Trumps, Mileis, Bolsonaros e chefes de movimentos semelhantes europeus — que com os políticos que há décadas governaram as democracias liberais ocidentais. Tal como os primeiros, são quase sempre personagens excêntricos que tiveram de violar regras para prosperar. E, como eles, também desconfiam das elites, dos saberes de especialistas, de tudo o que encarna o Velho Mundo. Também estão convencidos de que podem moldar a realidade de acordo com seus desígnios de que a viralidade (e, de lambuja, também a virilidade) prevalece sobre a verdade, a velocidade é posta a serviço do mais forte. Um sólido desprezo por servidores públicos e pelo Estado Democrático de Direito é outro denominador comum.

Tal abordagem revela-se sedutora para uma opinião pública inclinada a considerar o sistema institucional cego, surdo e mudo às aflições populares e convencida de que que votar neste ou naquele político faz pouca diferença para a vida como ela é. Da Empoli teme que grandes e pequenas democracias liberais corram o risco de ser varridas como as pequenas repúblicas italianas do início do século XVI.

— Se, na teologia, um milagre corresponde à intervenção direta de Deus, que contorna as regras normais da existência terrena para produzir um acontecimento extraordinário, a lógica de Trump e de outros líderes nacional-populistas é semelhante — escreve ele. — Quebrar as regras (e, muitas vezes, as próprias leis) para intervir nos problemas que afligem seus eleitores: essa é a promessa do milagre político.

Xô, melhor não acreditar em milagres.

O enxame

Na série “Pluribus”, criada por Vince Gilligan (“Breaking Bad”) para a Apple TV, um vírus extraterrestre transforma a Humanidade em um enxame.

Pensem numa colmeia ou num formigueiro. Abelhas e formigas funcionam como um único organismo. O cérebro desse organismo — a rainha — controla cada formiga, cada abelha. Nenhuma sobrevive sozinha. Não há identidade individual. É isso que ocorre em “Pluribus”. A Humanidade passa a se comportar como uma entidade única, movida por um só propósito e dotada de uma aparente consciência ética e moral.

Em todo o mundo, apenas 13 pessoas resistem ao vírus. Uma delas, a personagem principal, é uma romancista antipática: Carol Sturka, interpretada pela excelente Rhea Seehorn. O enxame trata os resistentes com extrema gentileza, satisfaz todos os seus desejos e responde com franqueza às suas dúvidas e inquietações. A maioria acaba por se render. Carol, não. Ela se recusa a abdicar da própria identidade.

Carol parece acreditar que a identidade individual sempre se impôs à coletiva — e que assim deve ser. Não tenho tanta certeza.

E se o “eu” sempre tiver sido uma ficção provisória?

A individualidade parece-me uma invenção recente. Durante milênios, os seres humanos não se pensaram como sujeitos autônomos, mas como parte de organismos mais vastos — a tribo, o clã, a aldeia, a linhagem, a religião. O nome do indivíduo era, muitas vezes, o do ofício: Ferreira e Ferraz vêm de ferreiro; Teles, de tecelão; Machado, do lenhador. Fulano era o Pastor, o Guerreiro, o Lavrador. Em outros casos, adotava-se o nome da própria comunidade. Ainda é assim em muitas sociedades tradicionais.

Decisões individuais eram exceção — e vistas com desconfiança. A sobrevivência dependia de certa unanimidade.

A Revolução Industrial colocou o indivíduo no centro. Nasceram os direitos individuais, a ideia de liberdade e de responsabilidade pessoal. Porém, talvez isso tenha sido apenas um breve parêntese.

Hoje, com a conexão permanente, o enxame retornou sob nova forma. Estamos ligados o tempo todo. Sincronizados. Emoções propagam-se em ondas. Indignações acendem-se em cadeia. O medo, o luto, o entusiasmo tornaram-se fenômenos coletivos.

Tememos, como a escritora Carol Sturka, que nossa singularidade se dilua. Não queremos abdicar da consciência crítica. Outros abandonam o eu como quem larga um peso antigo — e rendem-se ao enxame. O enxame oferece um sentimento de pertença, segurança, alívio de responsabilidade e uma certa imunidade simbólica.

O problema não é a identidade coletiva, mas a sua nova infraestrutura. O enxame contemporâneo não nasce da convivência ou da memória partilhada, e sim de arquiteturas invisíveis — algoritmos, plataformas, economias da atenção.

Não sabemos quem é a rainha. Mas suspeitamos. E suspeitamos que ela — ou elas — não trabalhe para o bem comum. Desconfio que, no final da série, Carol acabará por descobrir algo assim.
José Eduardo Agualusa

sábado, 20 de dezembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Retomando o fio da meada

Hoje, as agremiações políticas pararam de examinar os problemas mais agudos do país, isto é, de propor alternativas democráticas aprofundadas. Viraram máquinas eleitorais apenas. Distanciados dos movimentos sociais, desprovidos de quadros com capacidade de elaboração teórica e articulação política, os partidos políticos deixaram de atuar como intelectuais coletivos e se transformaram em meros organismos de Estado.

Foram, de certa forma, "estatizados", limitando-se a caminhar do Estado para a sociedade e não o contrário.

Dir-se-ia que a sociedade civil, sempre maior que o Estado por sinal, passou a ser encarada como um detalhe.


Tanto os setores mais reformadores quanto os mais conservadores possuíam quadros de qualidade. A União Democrática Nacional (UDN) estampava formuladores da ordem de Afonso Arinos de Melo Franco, Carlos Lacerda e Aliomar Baleeiro. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) apresentou nomes como Josué de Castro, Leonel Brizola e Alberto Pasqualini. Pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), havia figuras como Nelson Werneck Sodré, Alberto Passos Guimarães e Luiz Carlos Prestes.

Personalidades como Juscelino Kubitschek e Raul Pilla também enriqueceram de forma notável a vida nacional. A atividade política, dos formuladores aos dirigentes, ficou mais debilitada. Por qual razão?

De um lado, a longa vigência do regime militar, com a criminalização consequente da atividade militante, impediu a participação de toda uma geração, aquela que justamente despontava no horizonte político.

Afinal, foram 21 anos de regime de exceção. A política, para além de se tornar uma atividade perigosa, foi sendo, também, mal vista. Os movimentos estudantis, verdadeiros mananciais de futuros quadros, foram duramente reprimidos e acabaram se retraindo. Mais: o diálogo entre a geração de intelectuais anterior a 1964 e aquela que surgiria depois foi praticamente interrompido, cortado. E o conhecimento se refugiou em algumas esferas universitárias, onde a prática política não era muito valorizada, predominando o chamado "intimismo à sombra do poder"; ou a despolitização e um compreensivo receio. Isso tampouco contribuiu.

Repressão política, exílios e divisões internas fizeram com que parcelas consideráveis do campo democrático fossem alijadas da cena nacional, provocando um recuo da cultura voltada para o interesse público. O surgimento e a legalização, ainda sob a ditadura militar, do Partido dos Trabalhadores não facilitou a retomada desse diálogo: a ação política parece ter começado da estaca zero, na visão de alguns de seus dirigentes. E o fato é que o legado de figuras como Milton Santos, Celso Furtado, San Thiago Dantas, Guerreiro Ramos, Darcy Ribeiro e Leôncio Basbaum, para citarmos apenas alguns eminentes pensadores do Brasil, foi praticamente posto de lado.

Em 1998, eu tive a honra de organizar e lançar o livro Tudo é Política, juntamente com o saudoso Nelson Werneck Sodré. Na apresentação da obra, destaquei a necessidade de retomarmos o fio da meada com a produção intelectual anterior a 1964, até para podermos nos habilitar de fato para um novo projeto de nação.

Desde então, o quadro não sofreu alterações. Infelizmente, continuamos sem projeto. A única tentativa nesse sentido, depois do Plano de Metas, no Governo Juscelino, e das chamadas Reformas de Base, no período Jango, se deu durante o Plano Real, de Itamar Franco. No total, se fôssemos somar todas essas três experiências, teríamos pouco mais de dez anos de respiro. É pouco, muito pouco.

Por outro lado, as mutações no aparelho produtivo fazem com que os partidos tenham dificuldades em armar uma política que leve em consideração o trabalhador de novo tipo que surge diante de nós.

Automação, IA, trabalho por conta própria, tudo isso anuncia uma era diferente. O movimento anarquista, queiramos ou não, foi a face política da indústria de corte mais artesanal. O movimento comunista, a expressão do chão da fábrica. E agora carecemos de atuação e reflexão com base nas transformações que atingem a realidade do mundo do trabalho.

Hoje, existe um certo desânimo frente à situação em que o Brasil se encontra. Corrupção desenfreada, violência espalhada por todos os cantos do país, recuo da cultura pública e do convívio minimamente civilizado entre as pessoas, aumento do número de favelas e moradias precárias, mediocridade reinante em instâncias partidárias, o quadro é desalentador.

Prova suplementar de uma certa mediocridade e estreiteza foi dada pelas recentes manifestações em várias cidades brasileiras colocando o Congresso Nacional como "inimigo do povo". Esta atitude, por ser isolacionista, é extremamente perigosa, revelando uma precária visão política e jogando as forças mais moderadas no colo das forças mais atrasadas. E toda vez que as forças moderadas deixam de ser o fiel da
balança, o fator de equilíbrio, as forças democráticas saem perdendo.

Não teria havido 64 sem a adesão do PSD de Juscelino Kubitschek, que inclusive indicou o vice de Castelo Branco, e tampouco Augusto Pinochet no Chile sem a adesão da Democracia Cristã de Eduardo Frei.

Uma coisa são os congressistas, outra o Congresso Nacional, isto é, a instituição. Convém refletir sobre isso. A distância entre o oportunismo e o sectarismo é, muitas vezes, bem curta.

Viramos completamente as costas à necessidade de nos dotarmos de um projeto de nação cujos eixos principais, a meu ver, passam pelo aprofundamento da questão democrática, pela compreensão do novo mundo do trabalho, pela recuperação da identidade nacional tão abalada e pela incorporação da problemática ambiental também. A Educação e a Cultura têm um papel central nesse processo.

O desafio é imenso. Mas não temos outra opção, se queremos contribuir para um Brasil melhor.

Ivan Alves Filho

Chavão abre porta grande

O clichê é um divisor de águas na vida de quem escreve. É a tábua de salvação quando o cérebro aciona o piloto automático, incapaz de qualquer esforço intelectual — e a dificuldade de pensar e elaborar simbolicamente nos faz tirar da cartola, ou do bolso do colete, uma imagem que valha mais que mil palavras.

Via de regra, é só a gente baixar a guarda e... lá está ele, dando o ar da sua graça e apontando a luz no fim do túnel do que parecia um beco sem saída ou o fundo do poço. Chega como uma bala de prata para que não seja preciso ficar dando murro em ponta de faca, enxugando gelo ou chorando sobre o leite derramado.


Não quero dar o pontapé inicial numa caça às bruxas nem esticar a corda para estancar a hemorragia de lugares-comuns que assola a imprensa. Tampouco acionar uma metralhadora giratória e pôr ordem na casa. Não tenho costas largas e viraria saco de pancadas, cavando minha própria sepultura. Mas dói na alma abrir o jornal, o site de notícias, e ler que o Centrão costura acordos, que o presidente americano era a última carta do bolsonarismo, que o governo não quer dar o braço a torcer, que o ministro vai enxugar o orçamento e que certa candidatura pode embaralhar o jogo. É uma dose tão cavalar de clichês que o leitor precisa arregaçar as mangas, suar a camisa e, a duras penas, aos trancos e barrancos, tentar deixar passar em branco esse golpe baixo na linguagem.

Sim, os clichês são uma faca de dois gumes. Se os repetimos tanto é porque tiveram poder de fogo e, em algum momento, foram um gol de placa, um salto qualitativo, um toque de mestre. Mas, para Bachelard, são a inatividade do pensamento. Flaubert chegou a criar com eles um “compêndio da banalidade, da mediocridade e da ignorância pretensiosa”. Cláudio Tognolli dedicou-lhes um livro inteiro (“A sociedade dos chavões”). E o filósofo da MPB Itamar Assumpção acertou na mosca ao dizer que “chavão abre porta grande”.

Abre, mas é uma pedra no sapato de quem escreve coluna semanal, sem aquele tempo de gaveta a que a literatura de verdade faz jus. E aí é um tal de político tentando salvar a própria pele, quadrilhas sendo desbaratadas, suspeitas ganhando corpo. Surgem provas robustas, há ascensões meteóricas, muitas camadas e — nem García Márquez escapou à lei da selva da banalização — a morte anunciada disso e daquilo.

Lutar contra o clichê é briga de cachorro grande. Atire a primeira pedra quem nunca errou na mão ou mordeu a isca e acabou empurrando com a barriga esse compromisso com o erro.

É bom parar por aqui antes que dê com os burros n’água — afinal, tenho telhado de vidro. Por mais que tente, minha escrita não tem precisão cirúrgica, e mexer nesse vespeiro não impedirá que me peguem com a boca na botija, falando em narrativa, saberes, curadoria, performar — nem nos atravessamentos e interseccionalidades que, num passe de mágica, jogam uma pá de cal na legibilidade de qualquer texto.

Apesar dos pesares, entregar-se de corpo e alma à escrita é a prova de fogo de todo escritor. E cabe a ele defender com unhas e dentes seu direito de enfrentar desafios, quebrar paradigmas e não fugir da raia. Nem que apelar para a cereja do bolo seja seu tiro de misericórdia.

E isso é só a ponta do iceberg.
Eduardo Affonso

Reflexões do tipo a quem interessar possa

Peço vênia para repetir o que há tempos tenho feito: uma tentativa de diálogo com quem queira olhar o Brasil com os olhos abertos. Parto do que enxergo sem grande esforço, baseando-me apenas no que me chega pelos jornais.

Tenho para mim que o Brasil não é um país difícil de governar. Somos naturalmente protegidos pela extensão de nosso território e pelas enormes distâncias que nos separam das potências que nos varreriam do mapa se nos encrencássemos com elas no terreno bélico. Sublinhemos também que, pelo menos no setor externo, já não estamos ameaçados por vulnerabilidades como as de meio século atrás, quando a escassez de insumos essenciais nos estrangulava e endividamentos mastodônticos como o da era Geisel eram um tormento constante. Ao contrário, nosso pujante agronegócio e a mineração nos dão certa tranquilidade, sem embargo de serem poucos os produtos que somos capazes de exportar e poucos, também, os países compradores.

É essencial frisar que estamos voando com duas turbinas desligadas, a da indústria (cuja participação no PIB já foi de 27% e hoje está reduzida a 21,3%, na ampla definição do IBGE, que não se restringe à indústria manufatureira) e a debilidade do consumo doméstico. Tudo isso somado deveria abrir nossos olhos para o fato de que somos um país teoricamente robusto, mas vulnerável a graves retrocessos.


A anemia do mercado a que me referi no parágrafo anterior é a que estamos vivendo no momento, de caráter conjuntural. Mas temos de afirmar, em alto e bom som, que quase nada fizemos de relevante para criar uma classe média digna do nome, apoiada em médias e pequenas empresas, capacitada não só a produzir, mas também a inovar, como aconteceu na Itália, e livre da teia burocrática que a cada momento lhe tolhe os passos. Desde o saudoso Hélio Beltrão, tudo o que se disse a esse respeito foi conversa fiada. Visualmente, nossa estrutura social pode ser descrita como uma pirâmide com um minúsculo ápice formado por 1% da população, bilionários que controlam 37% da renda e da riqueza, segundo levantamento feito dois anos atrás pelo Ministério da Fazenda. A chamada “classe média” pode equivaler a 40% ou 60%, dependendo de como se faça a conta, mas não nos esqueçamos de que grande parte dela são crustáceos que fincaram as unhas no casco do Estado: os grupos que denominamos “corporativistas”, que se valem da posição privilegiada que lhes advém do fato de estarem “lá dentro” para inserir todo tipo de privilégio na legislação, nos níveis federal, estadual e municipal.

No setor privado, por classe média deve-se entender as famílias que têm pelo menos uma pessoa trabalhando, em empregos estáveis. Essas não têm muito com o que se preocupar, salvo sua própria passividade, pois pouco ou nada farão para monitorar e pressionar o sistema político, uma vez que mal conhecem seus próprios interesses.

A base da pirâmide nem requer uma descrição detalhada. Uma pequena parte dela é o que, por misericórdia, chamamos de baixa classe média; o resto, que deve compreender pelo menos 30% da população total, são os permanentemente desempregados, os que mal sabem o que vão comer no dia seguinte, os que mal conseguem ler o letreiro do ônibus e que formam a imensa maioria das favelas e periferias das metrópoles. Os mais desprovidos da sorte passam a tarde revirando latas de lixo na esperança de encontrar algo que lhes seja digestivo na refeição da noite.

A chance de nos alçarmos ao nível de desenvolvimento econômico e social pelo menos dos países da Europa meridional é remota. Nossa renda anual por habitante é inferior à do Mississippi, o Estado mais pobre da federação norte-americana. Crescendo 2% ao ano, durante um longo período, levaremos uma geração inteira para sair desse poço em que caímos. O nível da França ou da Alemanha não alcançaremos em décadas, talvez nem em séculos. Não custa lembrar que a Europa sofreu duas guerras devastadoras e se reergueu. Na 1.ª Guerra Mundial, 20 milhões morreram em combate e 21 milhões em decorrência de doenças causadas pela movimentação das tropas.

Em termos realistas, temos de pensar num Uruguai ou num Chile grande, construindo uma sociedade mais justa, capaz de proporcionar saúde, educação e bem-estar a seus cidadãos. Mas já passa da hora de cairmos na real: mesmo isso será muito difícil.

Dado o quadro esboçado acima, é fácil concluir que a eleição presidencial e as legislativas de 2026 serão cruciais. Os nomes que por aí vêm pipocando dificilmente empolgarão nossos 150 milhões de eleitores. Se os poucos atilados que permanecem na vida pública não forem capazes de se aglutinar num centro consistente e confiável, com um candidato competitivo, o velho enredo se repetirá: teremos Lula, que enfiado até o pescoço no velho hábito da gastança, e seu Partido dos Trabalhadores, tentando mais uma vez empurrar a campanha para a velha patacoada ideológica de esquerda versus direita. No ramerrame lulista, permaneceremos onde há tempos estamos. Fellini mostrou-nos uma nave que zarpava, a nossa não partirá.

O Consenso de Londres no Século XXI

Diante dos desafios das últimas três décadas, o mundo assiste ao processo de transição dos princípios econômicos para o Século XXI. Surge a construção, em curso, do Consenso de Londres.

O Consenso de Washington tinha a essência monolítica da ênfase nos fatores econômicos. O Consenso de Londres amplia o foco e incorpora os fatores institucionais e sociais. A economia política.

Do famoso motto “é a economia, estúpido” para o novo motto em construção: “é a política, estúpido”. Da ênfase no lado da demanda agregada e da eficiência estática, para a ênfase no lado da oferta e da eficácia dinâmica: a geração do crescimento com foco em políticas de desenvolvimento produtivas.


Durante três décadas, a partir de 1990, o chamado Consenso de Washington – formulado por John Willianson – estabeleceu diretrizes para a formulação e implementação de políticas econômicas em todo o mundo. Teve sucesso essencial na diminuição da pobreza mundial.

Mas negligenciou a crescente importância dos fatores institucionais e sociais. Hoje o mundo assiste a um processo de transição e mudanças aceleradas. A geopolítica da queda da União Soviética, da ascensão da China, e do declínio ocidental. Hoje, os movimentos imperiais táticos e estratégicos da China, dos Estados Unidos e da Rússia. E a ascensão da Índia.

Ao longo do caminho, são novos os desafios: mudanças climáticas; perda de biodiversidade; a pandemia da Covid 19; as diversas desigualdade (não apenas econômicas); os efeitos perversos da tecnologia na política (populismo); a destruição criativa; a fragmentação econômica global (desglobalização); a polarização; as guerras; e o declínio da democracia liberal.

Mudou o mundo, mudaram-se as circunstâncias e os problemas políticos, sociais e econômicos. Novos princípios em curso. Está em processo de consolidação o Consenso da Londres. Desde 2023.

Tudo começou com uma Conferência na London School of Economics and Political Science (LSE), em maios de 2023, que agregou um grupo de economistas e outros cientistas sociais para explorar a construção de um novo Consenso. No campus da LSE, um “hub” cosmopolita que se move pelo motto centenário do “rerum cognoscere causas” (“conhecer as causas das coisas”, em tradução livre).

Esta Conferência impulsionou dois anos de debates e trocas de reflexões e “insights”, gerando a publicação, agora em 2025, de uma coletânea de ensaios, análises e proposições: “The London Consensus”, da LSE Press. São um conjunto de princípios para embasar formulação e implementação de políticas públicas e lidar com os desafios econômicos, sociais, políticos e institucionais do Século XXI.

O Consenso de Washington tinha/tem um caráter prescritivo e monolítico (a economia), com ênfase, como se sabe, em três bases para a estabilidade fiscal – a fiscal, a monetária, a financeira, com as ferramentas da taxa de juros e da taxa de câmbio. O alvo é a redução da necessidade de dívida pública e a solvência.

Com o motte da “é a economia, estúpido”, adveio a receita básica da liberalização, da desregulamentação e da privatização, claro que com a incorporação dos devidos matizes nacionais e temporais. A premissa do crescimento econômico e o limite da relação dívida pública/PIB.

O Consenso de Londres não é prescritivo e monolítico. Não tem receita de bolo e contempla especificidades regionais/nacionais. Busca a “eficiência dinâmica” através de princípios focados nos desafios e voltados para a criação de paradigmas e diretrizes para as políticas públicas.

São cinco princípios básicos, aqui enumerados sem detalhes, dados os limites deste espaço.

O foco no bem-estar. E não apenas no dinheiro. Uma visão não apenas material de bem-estar. Convergindo eficiência com eficácia e equidade, via “eficiência dinâmica”. Significa que “o crescimento importa, mas a localização também”. Daí a ênfase em escolhas de “o que” produzir, “como” produzir e “onde” produzir – com interação entre as políticas públicas (sociais, econômicas e institucionais), os incentivos à produção e as decisões de inovação, tudo na direção do crescimento/desenvolvimento;

“Construção de resiliência” para enfrentar as incertezas e volatilidades das políticas fiscal e monetária e da geopolítica. Vem daí a ênfase no papel do governo como “garantidor de última instância” (como na pandemia, por exemplo). E a defesa de um “desenho prudencial e regulatório”. É preciso uma política fiscal para além do papel keynesiano, pois a causalidade é múltipla e volátil;

Não há boa economia sem boa política. Com a instabilidade advinda dos fenômenos da globalização e da desglobalização, das mudanças tecnológicas (IA), das mudanças climáticas, e do populismo e polarização, a política será a fonte de choques econômicos. Volatilidade e incerteza. Círculo vicioso: choques econômicos = choques políticos = populismo. Por isto, boas políticas econômicas relaxam a política, mas a política precisa exercer o papel de “tornar possível” o equilíbrio político-institucional. Vem daí a visão moderna de economia política: instituições para consenso e efetividade no processo decisório. Legitimidade, responsabilidade diante da sociedade e coalizões políticas. O foco na Política é central no desenho do Consenso de Londres.

“Estado capaz”. A ênfase na qualidade do Estado, via construção de instituições e estruturas organizacionais modernas. Estado melhor, para além da dicotomia Estado grande “versus” Estado mínimo. “O mítico estado pequeno dos ideais libertários não vê que a economia de mercado requer um conjunto de instituições de mercado como suporte”. Estado forte não significa Estado grande. Não significa estatização.

Neste contexto de princípios e diretrizes que embasam as políticas públicas, a construção do Consenso de Londres é uma obra em movimento. Várias de suas sugestões já estão sendo implementadas mundo afora pelos formuladores de políticas públicas.

Por exemplo, política fiscal prudencial com redução da dívida líquida nos “bons momentos” do ciclo econômico; manutenção da “meta de inflação” do Consenso de Washington; e ênfase do lado da oferta (“progressivismo” do lado da oferta, dizem os autores). Quer dizer, produzir e inovar. Desenvolvimento produtivo na indústria, nos serviços e no agronegócio.

Com capacidade estatal e do sistema político. Da ortodoxia e dos dogmas à flexibilidade de respostas às incertezas e volatilidades.

Boas referências para o debate político e econômico nas eleições gerais de 2026 no Brasil.

Um novo capitalismo em movimento.

A alegria de viver dos cariocas ou o pessimismo dos alemães?

O fim está próximo – pelo menos o de 2025. É, portanto, chegada a hora de arrumar a mala e partir para a Alemanha para passar o Natal com a família. O Rio de Janeiro da maravilhosa Zona Sul se despede com céu azul, 32 °C e praias cheias de banhistas. Dos restaurantes da redondeza vem o cheiro do churrasco das festas de fim de ano.

Esse é o Rio que encanta as pessoas, tanto os cariocas como os turistas que eu encontrei nos últimos dias na praia e que não queriam voltar para a fria Europa. Lá, eu ouço de amigos e parentes, o ânimo está em baixa, a economia não anda bem, uns se incomodam com o número crescente de migrantes, outros têm medo de que a extrema direita chegue ao poder.


Pior do que isso só mesmo o medo da guerra na Europa. E isso que 2 mil quilômetros separam a minha cidade natal do front na Ucrânia. German Angst é como americanos e britânicos costumam chamar esse constante temor dos alemães de que as coisas vão piorar.

Tanto mais estranho, portanto, que as pessoas no Rio costumem estar de bom humor e encarem a vida de forma mais leve. Todos parecem aceitar que os assaltos aumentaram, que em todos os lugares é preciso tomar cuidado para não se ter o celular roubado. No Brasil a economia também não está perfeita, é o que se lê. Um ex-presidente foi mandado para cadeia por tentativa de golpe de Estado . Também no Rio há políticos presos. Isso não é nada de novo, dizem as pessoas – e dão de ombros.

Não são 2 mil quilômetros, mas meros 20 que separam o meu apartamento no Rio do local onde, no fim de outubro, 121 pessoas foram mortas numa troca de tiros que durou horas durante uma operação policial. Quando fui ao local da chacina, dois dias depois, as poças de sangue e as roupas dos mortos ainda estavam lá. Mães choravam por seus filhos, políticos de esquerda estavam lá e davam entrevistas, gritava-se palavras de ordem contra o governador de direita, que era chamado de "assassino" – também isso provavelmente uma maneira de expressar a frustração com a política.

A impressão que tenho é de que, de alguma maneira, as pessoas se acostumaram a esses acontecimentos. Ainda uns anos atrás eu escrevia sobre massacres como o do Jacarezinho em 2021, no qual 27 civis foram mortos. O maior da história, dizia-se então, e todos estavam chocados. E agora são 121 mortos. Quantos serão no próximo? Mas as pessoas parecem que vão se acostumando, como o sapo que vai sendo cozinhado aos poucos, sem perceber que a água vai ficando cada vez mais quente.

Mas talvez elas não vejam outra saída senão o confronto. As pesquisas mostram que uma esmagadora maioria dos cidadãos apoia uma postura linha-dura por parte da polícia. Também nas favelas o apoio é elevado. Políticos que prometem linha-dura e tolerância zero estão vencendo eleições em muitos países da América Latina. O governador do Rio de Janeiro viu sua popularidade até mesmo aumentar em decorrência da sangrenta operação policial do fim de outubro.

No caminho para o aeroporto eu passo pela gigantesca árvore de Natal flutuante na enseada de Botafogo, que à noite brilha em tons de azul e lilás sobre a água. Um Natal quente em vez de um Natal com neve, penso. E já me alegro com o clima frio que vou encontrar na Alemanha.

Um conhecido meu da Itália que mora no Rio sempre diz que a Europa o angustia. Lá onde a vida é sempre planejável e a trajetória parece predeterminada do berço ao túmulo, as pessoas reagem aos percalços da vida com uma sensação de fim de mundo. Ele prefere muito mais o Rio, onde a dor e a alegria podem ser vividas sem contenção.

Chego ao Aeroporto Santos Dumont. Na entrada há um grupo de garotos vendendo balas. Eles usam camisetas do Flamengo, o clube do momento, que acumula um título atrás do outro. Umas pessoas estão deitadas na calçada ao lado da entrada. Seriam moradores de rua, talvez mendigos? Em toda a cidade parece haver mais deles, mas aqui no aeroporto eu nunca tinha visto tantos juntos.

De lá vou para o portão de embarque com destino à Alemanha. Lá os amigos e parentes sempre comentam com que leveza eu encaro a vida. Eu mesmo me sinto um casmurro. E, depois de 25 anos no Brasil, tenho cada vez mais a impressão de não entender mais nem o Brasil nem a Alemanha.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Da Casa dos Mortos

Albert Speer foi o arquiteto e o ministro de armamentos e produção de guerra de Hitler. Duas características o diferenciam dos demais assassinos nazistas. Primeiro, havia nos sentimentos de Speer em relação a Hitler um núcleo de afeto desinteressado, de calor humano que ultrapassava a fascinação animal. Em 23 de abril de 1945, sendo Berlim um oceano de chamas, todas as possibilidades de escapar em segurança quase esgotadas, Speer voltou à capital para se despedir pessoalmente do Führer. A absoluta frieza na reação de Hitler o abalou. Segundo, Speer conservou dentro de si um pouco de sanidade e senso moral durante o circo absurdo do Reich, e depois durante quase vinte anos de prisão em Spandau. São esses dois elementos — o sortilégio que a pessoa de Hitler exerceu sobre ele e a decisão de emergir mantendo a saúde mental depois de duas décadas de sepultamento em vida — que dominam Spandau: O diário secreto, de Speer (tradução do alemão de Richard e Clara Winton, para a Macmillan).

Albert Speer visitando o campo de concentração de Mauthausen (1943)


Nos julgamentos de guerra em Nuremberg, Albert Speer reconheceu que tinha sido ele, em última análise, o responsável por usar os milhões e milhões de trabalhadores escravos no arsenal do Reich. Não estivera diretamente envolvido na mecânica bestial da deportação que trazia esses pobres seres humanos dos territórios ocupados, nem nos maus-tratos e no extermínio rotineiro que tantas vezes se seguiam. Mas o comando da produção e da mobilização industrial estivera a seu cargo, e nesta medida Speer admitiu — na verdade, pormenorizou longamente — sua culpa. A condenação a vinte anos de prisão pareceu brutal desde o início, e houve quem considerasse que ela refletia a insistência dos soviéticos. Logo após Nuremberg, circularam rumores de que as autoridades russas não tinham a menor vontade de ver um empresário tão brilhante no setor de armas e fornecimento de materiais passar são e salvo para as mãos ocidentais.
Speer deu entrada na prisão de Spandau em Berlim no dia 18 de julho de 1947; saiu de lá em 30 de setembro de 1966, à meia-noite em ponto. Somado o tempo que passou na cadeia de Nuremberg durante o julgamento, foram exatamente vinte anos. Speer cumpriu a segunda década da sentença com apenas outros dois homens — Baldur von Schirach, ex-líder da Juventude Hitlerista, e Rudolf Hess.

Speer entrou no caixão ressonante de Spandau aos 42 anos, no auge de suas forças e após uma carreira meteórica. Foi solto aos 61 anos. Mas, durante o cativeiro, ele escreveu: mais de 20 mil páginas de notas no diário, cartas autorizadas e clandestinas, fragmentos autobiográficos. Escrevia em folhas de calendário, em tampas de caixas de papelão, em papel higiênico (o tradicional papiro do prisioneiro). E, clandestinamente, conseguiu remeter essa prodigiosa montanha de material para fora dos muros de Spandau, apesar da vigilância atenta dos guardas americanos, russos, britânicos e franceses. Speer contrabandeou material suficiente para seu primeiro livro, Por dentro do III Reich, para este diário da prisão e, a se confirmarem algumas insinuações, para um possível estudo completo de Hitler. Como ele fez? A explicação de Speer é ao mesmo tempo arredia e curiosamente pormenorizada. Ele nos conta que precisava proteger a identidade das pessoas que o ajudaram. O canal principal foi um dos médicos assistentes da prisão, o qual, por ironia, tinha sido um dos deportados da máquina de guerra do Reich. Mas devia haver outras vias. É difícil evitar a impressão de que as autoridades, em particular as três potências ocidentais, deviam saber algo sobre o volumoso intercâmbio de Speer com o mundo externo e com o futuro. De fato, já em outubro de 1948 a esposa de um importante editor judeu em Nova York entrou em contato com uma pessoa da família de Speer, a respeito de suas memórias (se não a senhora, pelo menos Speer se sentiu enojado com a sutil indecência da proposta).

Hitler paira neste livro como uma bruma negra. Nos primeiros anos de cativeiro, Speer procurou relembrar e expor metodicamente a história de sua relação com o Führer. Há muitas vinhetas memoráveis. Vemos Hitler planejando transformar sua cidade natal de Linz num centro de arte mundial. Podemos observá-lo durante os anos de ascensão sonambúlica ao poder, entre as multidões enlouquecidas ansiando pelo furacão de sua passagem num carro aberto, ou na íntima companhia de seus capangas — discursando, zombando, pontificando e então caindo bruscamente no vórtice silencioso de suas visões. Há alguns instantâneos extraordinários de Hitler com uma disposição doméstica em Obsersalzberg, trabalhando numa socialidade espontânea entre subordinados, ajudantes, simpatizantes cuja vida dependia do ânimo do líder. Speer registra os comentários de Hitler sobre literatura (o sujeito adorava Karl May, a versão germânica de Fenimore Cooper), sobre escultura, sobre o significado da história. Traz à memória os momentos de generosidade do Führer com seus primeiros apoios e associados, e fala da obsessão de Hitler pelo fogo, pelas chamas na lareira e pelas labaredas na cidade.

Speer sabe que Hitler está intimamente entrelaçado com as raízes de sua identidade. A 20 de novembro de 1952, escreve: “Seja qual for o rumo de minha vida no futuro, sempre que meu nome for mencionado, todos pensarão em Hitler. Nunca terei uma existência independente. E às vezes vejo-me aos setenta anos, os filhos adultos faz muito tempo, os netos crescendo, e aonde eu for vão me perguntar apenas sobre Hitler”. Três anos antes, Speer reflete sobre a lógica predestinada de seu encontro com o Mestre: “Eu via Hitler acima de tudo como o preservador do mundo do século xix, contra aquele mundo metropolitano inquietante que eu temia que se estendesse no futuro de todos nós. Sob essa luz, posso ter realmente esperado por Hitler. Além disso — o que o justifica ainda mais —, ele me transmitiu uma força que me elevou muito acima dos limites de minhas potencialidades. Se assim é, não posso dizer que ele me afastou de mim: pelo contrário, foi através dele que encontrei pela primeira vez um fortalecimento de minha identidade”.

No interminável túnel dos dias na prisão, Speer tenta chegar a um retrato nítido do homem que ergueu e esmagou sua vida. Se havia crueldade — embora de uma espécie estranhamente abstrata, indiferente —, megalomania, vulgaridade grosseria, autopiedade, uma falsidade para além do âmbito humano normal, havia também o exato contrário. Speer conhecia Hitler como “solícito páter-famílias, um superior generoso, amigável, dotado de autocontrole, orgulhoso, capaz de se entusiasmar com a beleza e a grandeza”. Este último ponto persegue Speer. As políticas de Hitler nas artes e na arquitetura podiam nascer de uma miopia brutal. Mas, em outros momentos, havia clarões de um verdadeiro discernimento, altos voos de criatividade e erudição. O carisma do homem era profundo, gélido, ao mesmo tempo magnético e paralisante. E assim era também sua perspicácia intelectual em relação à tática política, ao domínio retórico, à penetração psicológica dos atores cansados ou corruptos naquele teatro de sombras, que o encaravam no país ou no exterior. “Ele realmente vinha de outro mundo. […] Todos os militares tinham aprendido a lidar com uma grande variedade de situações incomuns. Mas estavam totalmente despreparados para lidar com esse visionário.”

Não há nada de novo nisso. Outros testemunhos converteram em rotina a imagem do pesadelo. Mas, quando procura diagnosticar o antissemitismo de Hitler, Speer toca de fato em questões de primeira importância. Mal consegue lembrar uma única conversa que tenha tido com Hitler sobre o tema (no miasma nauseabundo das conversas de Hitler à mesa, dificilmente encontramos alguma alusão ao mundo dos campos de concentração). Mas, vasculhando mais detidamente os grandes destroços da memória, Speer chega à conclusão de que o ódio aos judeus era o eixo absoluto, o pivô inabalável do próprio ser de Hitler. A totalidade da política e dos planos de guerra de Hitler “era mera camuflagem deste verdadeiro fator motivador”. Refletindo sobre o testamento de Hitler, com sua visão apocalíptica da culpa dos judeus pela guerra e do extermínio do judaísmo europeu, Speer vem a entender que, para o Führer, este extermínio era mais importante do que a vitória ou a sobrevivência da nação alemã.

Os historiadores racionalistas discutem esse ponto. Têm se empenhado em encontrar um quadro econômico-estratégico “normal” para a carreira de Hitler. Speer está muito mais próximo da verdade. Não há muito como entender o fenômeno Hitler — seu feitiço venenoso e a enormidade da autodestruição — se não se concentrar rigorosamente o foco sobre o tema central do antissemitismo. De alguma maneira tenebrosa, Hitler via na união messiânica do povo judeu, em seu isolamento dos demais, na metáfora de serem “os eleitos”, um contrapeso inabalável que escarnecia de seus mais íntimos impulsos. Ao proclamar que o nazismo e o judaísmo não podiam coexistir, que um dos dois devia ser aniquilado num confronto final, estava afirmando uma verdade alucinada. Ao saber do julgamento de Eichmann e da quantidade sempre maior de provas do Holocausto, Speer anota que seu próprio desejo de sair da prisão lhe parece “quase absurdo”.

Mas o desejo persistiu, claro. Este é o ponto central de toda a literatura do cárcere: a esperança contra todas as esperanças de que mais de 7 mil dias inalteráveis vão se passar e será possível atribuir ao tempo algum sentido ou algum feitio consolador num vácuo de vinte invernos. A asfixia de Speer apenas piorava com os surtos de boatos que se sucediam. John McCloy, o alto-comissário dos eua para a Alemanha, estava fazendo pressão para a soltura ou a redução da pena; Adenauer estava solidário com ele; o Departamento de Relações Exteriores da Inglaterra tinha abordado os russos. Certamente a Guerra Fria levaria à evacuação de Spandau e a uma avaliação mais oportuna dos crimes de Speer. Por que as potências ocidentais deixariam o grande gênio dos armamentos alemães apodrecer na cadeia, quando elas mesmas estavam remilitarizando a Alemanha? Mas, uma a uma, as esperanças se revelavam falsas, e Speer veio a se resignar com a certeza de que teria de cumprir sua pena até a última e quase inimaginável meia-noite.

Ele manteve a sanidade por meios consagrados nos anais do sepultamento em vida. Diariamente fazia caminhadas vigorosas pelos terrenos de Spandau, mantendo uma contagem exata das distâncias percorridas. No final, ele tinha andado 31.936 quilômetros. Mas essa marcha forçada não se resumia a um exercício abstrato. Speer se imaginava andando pelo globo, saindo da Europa, passando pelo Oriente Médio, chegando à China e ao estreito de Bering, então descendo e atravessando o México. Enquanto andava, invocava com os olhos do espírito tudo o que sabia sobre as paisagens, a arquitetura, o clima dos lugares por onde estava passando imaginariamente. “Já estou bem adiantado na Índia”, diz uma anotação típica do diário, “e segundo a programação chegarei a Benares em cinco meses.” E havia também o jardim da prisão. Da primavera de 1959 em diante, Speer passou a devotar cada vez mais tempo e energia ao trabalho de jardinagem. Cada arbusto, cada canteiro se converteu em objeto de persistente atenção e dedicação: “Spandau se tornou um sentido em si. Muito tempo atrás, tive de organizar minha sobrevivência aqui. Não é mais necessário. O jardim se apoderou totalmente de mim”.

Speer era um leitor incansável: história, filosofia, literatura e, algo um tanto sinistro, livros sobre acontecimentos nos quais ele mesmo tinha desempenhado papéis drásticos. Depois de lhe permitirem o acesso a revistas de arquitetura e engenharia, ele se esforçou em retomar suas habilidades e em manter alguma espécie de contato com o mundo em transformação lá fora. Speer fazia projetos residenciais, muito apreciados por seus carcereiros russos, perfis e contornos de monumentos agora em ruínas, e de vez em quando desenhava estranhas cenas alegóricas, de uma solidão gritante. Mais que tudo, ele escrevia, milhares e milhares de páginas. Foi esse fio sólido que lhe sustentou a razão.

Mesmo assim, era acometido de acessos de desespero e chegava à beira da loucura: no final do décimo ano, quando os almirantes Dönitz e Raeder foram libertados depois de cumprir a pena; em junho de 1961, quando o medo de ter perdido uma de suas cartas clandestinas se converteu em pânico descontrolado. Quando parecia iminente o colapso nervoso, Speer se entregava a uma “cura pelo sono”, permitindo-se três semanas de soníferos que lhe garantiam noites bem dormidas e dias vagos e indistintos. Mas ele recorria principalmente à sua tremenda resistência. Depois de uma semana numa solitária, sentado imóvel durante onze horas diante das paredes nuas, Speer saiu “disposto como no primeiro dia”.

Os expedientes usados pelas autoridades aliadas — agindo, claro, em nome da humanidade ultrajada — nem sempre são de leitura edificante. Depois de onze anos de encarceramento, Speer pediu tela e tinta a óleo. Essa perigosa solicitação foi negada. Os prisioneiros nunca eram tratados pelo nome — apenas pelo número que traziam nas costas —, pois chamar um homem pelo nome é honrá-lo em sua humanidade. As visitas dos parentes eram curtas e esparsas. Deviam ocorrer na presença de observadores soviéticos, americanos, franceses e britânicos.

Passaram-se dezesseis anos antes que Speer, graças a um bondoso descuido, pudesse ter um momento a sós com a esposa. Na ocasião, ele estava entorpecido demais até para lhe tocar a mão. Há vários estereótipos nacionais caracterizando os diversos carcereiros e encarregados da prisão (o controle de Spandau tem um rodízio mensal entre as quatro potências ocupantes). Os ingleses são meticulosos. Os franceses ostentam uma arrogância fácil. A inocência e a espontaneidade americana frequentemente têm uma ponta de brutalidade. Em todo “mês russo”, a dieta da prisão despenca verticalmente. Mas o pessoal soviético é avidamente letrado. Enquanto os colegas ocidentais folheiam histórias de detetives ou cabeceiam de sono em cima de palavras cruzadas, os russos em Spandau estudam química, física e matemática, ou leem Dickens, Jack London e Tolstói. Dependendo das oscilações da Guerra Fria, as relações entre os aliados no cárcere ficam tensas ou se distendem, e os prisioneiros são tratados de acordo com essas variações. Na crise dos mísseis em Cuba, a tensão dá aos prisioneiros um centro de gravidade. É o guarda russo que traz as notícias de paz.

São instantâneos como estes, risíveis e trágicos, que tornam suportáveis essas páginas claustrofóbicas. Speer tem olho treinado. Em Nuremberg, ele passa pelas celas de seus colegas à espera da forca: “Como prescrevem as regras, estão na maioria deitados de costas, as mãos por cima do lençol, a cabeça virada para o outro lado. Uma visão fantasmagórica, todos eles na imobilidade; é como se já estivessem no caixão”. No inverno de 1953, o prisioneiro número 3, Konstantin von Neurath, por algum tempo ministro das Relações Exteriores de Hitler, recebe uma poltrona (a saúde do velho estava se deteriorando). Speer reconhece a poltrona: era uma peça que ele tinha projetado para a Chancelaria de Berlim, em 1938. “O forro adamascado está em farrapos, o brilho desbotado, o verniz riscado, mas ainda gosto das proporções, sobretudo da curva das pernas de trás.” As orgulhosas monstruosidades que Speer tinha construído para o Reich, os pilares em vermelho vivo e os pórticos do triunfo em mármore, caíram no esquecimento. Restam duas coisas: a lembrança da impalpável “catedral de gelo” que Speer criou usando as faixas de luz de 130 holofotes durante uma reunião do partido em Nuremberg, e essa poltrona.

Conforme se aproxima a data da libertação, o espírito de Speer começa a lhe pregar peças sinistras. Deixa de ouvir rádio. Manda que a família interrompa toda a correspondência. Sonhos vívidos lhe dizem que nunca voltará ao lar, que a vida que não viveu nunca poderá se converter em algo bom. Faltam três dias: mais uma vez arranca as ervas daninhas do jardim, para que tudo fique em perfeita ordem. Ele sente, como todo prisioneiro de sentença longa, que o relacionamento com a prisão se tornou “semierótico”, que, de alguma maneira absurda, não quer mais sair do caixão do qual se assenhoreou. No último dia, aguardando sua soltura e a de Schirach, Speer acrescenta dez quilômetros à sua viagem pelo mundo. O clímax é um toque de terror e desolação humana que supera qualquer ficção. Estão descarregando grandes montes de carvão no pátio da prisão. Speer fica ao lado de Hess, olhando: “Então Hess disse: ‘Tanto carvão. E a partir de amanhã só para mim’”. Era 30 de setembro de 1966. O velho rufião alucinado, que não chegou a se envolver na pior das atrocidades nazistas pois tinha fugido para a Escócia, ainda está em Spandau, sozinho, guardado por quatro exércitos em miniatura e 38 mil metros cúbicos de espaço murado. As potências ocidentais insistem há tempos que seja libertado. A União Soviética não aceita, para não perder o único ponto militar que ocupa em Berlim Ocidental. Nossa aquiescência à chantagem russa em tal nível de desumanidade está além de qualquer comentário.

Mas dito isso, e reconhecida a força da narrativa e da sobrevivência de Speer, cumpre frisar mais um ponto. Em Spandau havia livros, música, cartas da família, atendimento médico. Em três de quatro meses, a comida era excelente. Havia água quente para o banho, um jardim para cuidar. Ninguém era açoitado, ninguém era mergulhado em excrementos, ninguém era queimado pedacinho por pedacinho até se converter em cinzas. Em suma, vinte anos em Spandau eram literalmente um paraíso em comparação a um único dia em Belsen, Majdanek, Auschwitz ou qualquer uma das centenas de antecâmaras do Inferno construídas pelo regime a que Albert Speer serviu com tanto garbo. A força, a dor deste livro consiste em termos de lembrá-lo a nós mesmos, se não a ele (que agora afirma saber disso). Mas lembrar não basta. Não é apenas em comparação a Belsen que Spandau parece uma estação de repouso: em comparação ao gulag, às prisões psiquiátricas soviéticas, aos cárceres do Chile e aos indizíveis campos de morte da Indonésia, Speer foi apenas um dos construtores — mesmo que, talvez, o mais severamente punido. A arquitetura da morte ainda prospera.
George Steiner, "Tigres no Espelho e Outros Textos"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Litania dos pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos destinos!

Ó pobres! O vosso bando
É tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo…

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece,

Ó pobres de ocultas chagas
Lá das longínquas plagas!

Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho…

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, de indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magia,
De morna melancolia !

Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vêm do largo…

Radiantes de ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Boiam nelas cisnes vagos…

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente
Do velho sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.
Cruz e Sousa (1861/1898), "Faróis"

Gaza e o preço da nossa indiferença

A Faixa de Gaza tornou-se o espelho mais brutal da falência moral da comunidade internacional. O que ali se vive, supera a linguagem diplomática e dissolve qualquer eufemismo político. Chamemos pelo nome, trata-se de um massacre. Um massacre prolongado, sistemático e amplamente documentado, que transforma civis em alvos, hospitais em ruínas e bairros inteiros em lembranças de um lugar que já não existe.

A resposta israelita ao ataque de 7 de outubro foi apresentada como uma operação de legítima defesa. Contudo, a escala da destruição, o colapso completo dos serviços essenciais, a deslocação forçada de quase toda a população e o número inaceitável de mortos civis mostram que esta narrativa, repetida incansavelmente, já não suporta os factos. O direito internacional não desaparece em tempos de medo. Muito menos autoriza punição coletiva e é exatamente isso que se observa quando água, eletricidade, alimentos, medicamentos e corredores humanitários são transformados em instrumentos de pressão militar.


Paralelamente, assiste-se a outro processo silencioso, mas igualmente devastador, o massacre da narrativa. A linguagem torna-se arma quando suaviza a violência, quando substitui “crianças mortas” por “danos colaterais”, quando trata zonas densamente povoadas como “infraestruturas terroristas” ou quando relativiza ataques a escolas e hospitais com explicações que mudam consoante a conveniência política. O controlo do discurso permite controlar a indignação pública, e isso explica por que razão parte do mundo assiste a esta catástrofe com desconforto, mas não com urgência moral.

A construção de um consenso cúmplice é agravada pela posição ambígua, quando não abertamente permissiva, de várias democracias ocidentais. Países que se apresentam como guardiões dos direitos humanos continuam a fornecer apoio político, militar e diplomático a uma campanha que viola esses mesmos princípios. Ao fazê-lo, corroem a legitimidade da ordem internacional baseada em regras e reforçam a perceção de que o valor da vida é variável: umas são choradas, outras contabilizadas.

Importa sublinhar que defender a vida dos civis palestinianos não implica negar o sofrimento dos civis israelitas, não há competição na dor. O que há é uma responsabilidade ética elementar, a de reconhecer que nenhuma sociedade. por mais traumatizada que esteja, tem o direito de destruir outra. Manter esta ideia é essencial para recusar a lógica desumanizadora que transforma populações inteiras em obstáculos a eliminar.

O que se vive hoje em Gaza não pode ser tratado como um episódio inevitável de um conflito insolúvel. É uma catástrofe humana que exige ação política imediata, cessar-fogo permanente, libertação de reféns, acesso humanitário pleno, fim do cerco e mecanismos credíveis de responsabilização por crimes de guerra. Estas medidas não são radicais, são o mínimo ético exigível.

A maior derrota não será apenas a destruição de Gaza, será permitir que este massacre se torne normal, que a dor alheia deixe de nos comover e que a vida humana perca o seu valor universal. Quando o mundo aceita o inaceitável, deixa de ser apenas espectador, torna-se cúmplice.

Um inferno demográfico

“Inverno demográfico”, que se tornou uma expressão com a qual passámos a conviver, é uma metáfora que indica uma tal diminuição da taxa de fecundidade que a população entra em decréscimo.

No tempo em que a população do planeta estava em aumento acelerado e ainda não se tinham tornado completamente caducas as previsões “científicas” de Malthus, segundo as quais iríamos atingir uma situação em que faltariam ao planeta os recursos mínimos para alimentar tanta gente, o que agora é designado como “inverno demográfico” era uma aspiração primaveril. Os processos drásticos de engenharia social na China para evitar o crescimento da população foram uma experiência exemplar, pelos efeitos negativos que produziram e que o governo chinês tenta corrigir, recuperando o imperativo que diz: “Crescei e multiplicai-vos”. Mas parece que nem assim está a conseguir restabelecer a quantidade de força de trabalho necessária para alimentar a sua economia, que já não cresce como antigamente.


Uma observação empírica de quem vive numa cidade como Lisboa é a de que os bebés e as crianças quase desapareceram. Os espanhóis, os italianos e muitos europeus dizem o mesmo das cidades onde habitam. É verdade que as crianças e até os adolescentes saem pouco de casa (a não ser no carro dos pais para ir à escola e regressar), razão suficiente para não serem vistos na rua. Mas se fizermos um pequeno inquérito, como o que já fiz, olhando à minha volta, para o universo de amigos e amigas, verificamos que muitos não têm filhos e quando têm ficam-se pelo filho único — essa instituição narcísica do nosso tempo. E na sua maioria já se divorciaram uma ou duas vezes e alguns até regressaram à casa dos pais. Perante este panorama, dá vontade de rir quando ouvimos os políticos falar nas “famílias”.

Do processo demográfico que já se estende a quase todo o planeta, podemos deduzir esta regra: à medida que as populações vão ascendendo no bem-estar económico e social, diminuem os incentivos para ter filhos. É verdade que é cada vez menor a homogeneidade social, já que onde cresce a riqueza também cresce a pobreza. Mas o ambiente assim criado faz com que actualmente aos que não querem ter filhos se juntem os que não podem ter. Este fenómeno, como tudo o resto, também está globalizado: o que começou no hemisfério Norte estende-se agora para o Sul.

Mas a noção de “inverno demográfico” só tem sentido em função de um regime económico cronofágico, isto é, que devora o tempo e antecipa o futuro sob a forma de dívida. Cada um de nós está em dívida, e essa dívida só pode ser paga por aqueles que vão nascer. E como não é possível parar este processo de endividamento a não ser por ação de uma enorme catástrofe, a corrida continua em grande velocidade mesmo que saibamos que se caminha para o desastre.

A diminuição da população seria uma realidade a festejar se não estivéssemos a consumir tempo futuro. Assim, só os nascituros nos podem salvar. E estes, uma vez nascidos, têm de procurar salvação nos novos nascituros. Eis como uma expressão que inundou a nossa linguagem e parece descrever um estado de coisas objetivo — “inverno demográfico” — tem um sentido ideológico muito forte, oculta a realidade e constrói um cenário baseado numa falsa construção.

É verdade que, para além da cronofagia, há outros factores que desequilibram a balança demográfica (por exemplo, o aumento da esperança de vida). Mas que até um governo neofascista, como é, em Itália, o de Giorgia Meloni, tenha de abrir portas à imigração porque os italianos estão a desaparecer e os que existem não asseguram os serviços que permitem o país subsistir, mostra que nalguns casos já estamos a entrar no estado de catástrofe. Devemos perguntar: os imigrantes vão finalmente passar da condição de indesejáveis para a categoria de salvadores? Nem pensar nisso. Os imigrantes são considerados como um fator logístico, à semelhança das máquinas, das ferramentas, das infra-estruturas. Eles estão em todo o lado em que o trabalho físico não pôde ainda ser eliminado. Mas no fundo são invisíveis. Tão invisíveis como esses novos escravos que entregam refeições ao domicílio. Não é que uns e outros não andem nas mesmas ruas onde nós andamos. Mas foram relegados para a invisibilidade.

Outra lição do “inverno demográfico”: ao decrescimento da população não corresponde um decréscimo da economia, até porque isso significa “crise”. Pelo contrário, enquanto de um lado há paragem, do outro continua a aceleração. Devemos então concluir: afinal, o aumento da população não é um verdadeiro problema. Quantos milhares de africanos são precisos para perfazerem uma pegada equivalente à de Elon Musk? O seu peso já é quase o de um continente inteiro. E virá o tempo em que, observando a Terra do seu observatório espacial, ouvirá uma voz que lhe diz: “Um dia, tudo isto será teu”.

Quando é que o Brasil se perdeu

Vendaval, voos cancelados, tempo perdido nas cadeiras de Congonhas. A única saída é pensar. Uma palavra me veio à mente diante das crises sucessivas do poder em Brasília: entropia. Não a uso com o rigor da termodinâmica, mas no sentido de que algo está se decompondo, como uma barra de gelo. O governo em crise com o Congresso em crise com o Supremo parece ter entrado num labirinto assustador.


Minha tentativa, num canto do aeroporto, é tentar achar a gênese dessa crise, reproduzir a frase inicial do romance de Vargas Llosa: “Quando é que o Peru se fodeu?”. De modo geral, em livros e artigos aponto o custo das eleições no Brasil, um dos mais altos do Ocidente. Ele acabou afastando os políticos do povo. Na verdade, os meios para alcançar o povo — marqueteiros e caros programas de TV — passaram a dominar o imaginário político. Hoje, para reparar isso, o país dá R$ 5 bilhões aos partidos em cada eleição.

No caso específico do Congresso, um marco importante foi a descoberta de que o fisiologismo é a grande alavanca para eleger presidentes. Desde Severino Cavalcante, isso ficou claro, e o tipo de líder que surgiu não é só o que abandona os escrúpulos, mas o que interpreta bem os interesses pessoais dos congressistas. Não há mais grande debate sobre os rumos do país. Isso é poesia diante da tarefa principal: obter o máximo de dinheiro e dar o mínimo de transparência a sua aplicação.

O Supremo tentou conter esse movimento, desde Rosa Weber. Mas em vão. O STF tem uma retaguarda frágil. Os supersalários do Judiciário são um ponto de vulnerabilidade. Mas o que corroeu seu prestígio foi a decisão de que parentes podem advogar, e os ministros não precisam se declarar impedidos ao julgar as causas de clientes de escritórios em que seus familiares trabalham.

A primeira grande crise se deu quando a Receita pesquisou as contas das mulheres de Gilmar Mendes e Dias Toffoli, ambas advogadas. Toffoli era presidente do STF e designou Alexandre de Moraes para instaurar o inquérito das fake news, que perdura até hoje. No princípio, chegaram a censurar a revista Crusoé por ter falado das ligações de Toffoli com o dono da Odebrecht.

Toffoli e Moraes se fortaleceram. Coube ao primeiro anular processos e multas da Lava-Jato. Ao segundo, coordenar a luta contra o avanço da extrema direita. A eclosão do escândalo do Banco Master traz à tona os problemas que resistiram à Lava-Jato e à própria derrota da extrema direita. A questão inicial, soterrada por tantos fatos históricos importantes, continuava viva: os parentes e as fortunas que se fazem nessa advocacia familiar.

Toffoli anulou multas bilionárias da JBS, e sua mulher chegou a trabalhar para a empresa. Toffoli viaja em jatinho com um advogado do Banco Master e resolve impor sigilo ao escândalo financeiro. No celular do dono do Master aparece um contrato com a mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, num valor de R$ 3,6 milhões por mês.

Olhando para trás, vê-se que a Receita estava num caminho válido. As contas das mulheres dos ministros saíram de cena e entraram as fake news. Mas o problema que se queria evitar ressurge com toda a força no escândalo do Master. Bem que Freud lembrava o famoso retorno do reprimido. Aí está ele de volta.