sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O eco perigoso das palavras que ameaçam

Vivemos um tempo em que a política internacional parece ter regressado a uma forma primitiva de comunicação: a da ameaça disfarçada, da insinuação violenta e da agressividade lançada como instrumento de poder. Um líder mundial, nos seus mais recentes discursos públicos, tem dado voz a um estilo de intervenção que mistura desprezo, intimidação e hostilidade aberta — uma linguagem que não apenas perturba, mas que altera o ambiente estratégico global. Há momentos em que se sente, quase fisicamente, o mundo a encolher perante certas palavras; não por serem novas, mas porque reaparecem num tempo que já não tem margem para erros.

A História ensina-nos que a linguagem política nunca é inocente. No século XIX e início do século XX, antes de qualquer declaração formal, um Estado podia enviar uma mensagem inequívoca simplesmente ao deslocar uma frota de guerra para junto da costa de outro país. Era a chamada gunboat diplomacy: uma retórica feita de aço e vapor. Os navios comunicavam mais do que qualquer nota diplomática: diziam “cedam” sem uma única palavra, mostrando que a ameaça não era abstrata, mas física, material, pronta a agir. O analista britânico James Cable estudou exaustivamente esta prática e demonstrou como a presença militar funcionava como linguagem coerciva — eficaz precisamente porque conjugava silêncio e intimidação. Um navio, ali parado, dizia tudo.

Com o pós‑Segunda Guerra Mundial, a exibição de poder mudou de forma, mas não de essência. Já não eram as canhoneiras a pairar no horizonte; era a ameaça, calculada ao milímetro, de destruição total. No auge da Guerra Fria, o teórico Thomas Schelling viria a descrever esta lógica como “diplomacia da violência”: não a violência exercida, mas a violência anunciada. A ameaça torna‑se um instrumento de regateio, uma peça no tabuleiro que permite a cada ator “fazer saber” o custo de uma provocação. Daí que as palavras — mais do que os mísseis, mais do que as tropas — tenham passado a carregar o peso de possíveis catástrofes. A linguagem transformou‑se em arma: cada frase pode aproximar ou afastar o conflito, cada tom pode abrir portas ou fechá‑las para sempre. Schelling dizia que, numa relação tão delicada, a firmeza não podia dispensar a contenção. Um líder que não mede a voz pode, involuntariamente, desencadear aquilo que mais teme.


A Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, tornou esta verdade impossível de ignorar. Quando o mundo esteve a poucos centímetros de uma catástrofe nuclear, não foram gritos, nem bravatas, nem insultos que evitaram o desastre. Foram cartas cuidadosamente redigidas, firmes mas controladas, escritas com a precisão de quem sabe que cada palavra transporta consequências irreversíveis. A correspondência entre Kennedy e Khrushchev tornou‑se exemplar, porque uniu a clareza da exigência ao reconhecimento da vulnerabilidade mútua. Não havia teatralidade; havia responsabilidade. A linguagem, nesse momento, salvou vidas — possivelmente milhões.

É à luz desta História que devemos observar o presente. Nos discursos recentes daquele líder global que tantos ouvem — e muitos temem — surgem elementos que ecoam os piores capítulos da comunicação internacional: a personalização da ofensiva, o desprezo pelos parceiros, o enaltecimento da força como ferramenta natural de relação e a ameaça sugerida como forma de pressão. Não estamos perante meras frases soltas, mas perante um estilo comportamental que fragiliza o sistema internacional, que confunde aliados, que encoraja adversários e que, sobretudo, normaliza a ideia de que a política externa pode ser conduzida ao ritmo do impulso e da humilhação. De uma certa demência, provavelmente.

Num mundo hiperligado, onde cada declaração se transforma em ação potencial, a agressividade verbal já não é apenas um gesto simbólico: é um risco real. Os Estados observam, avaliam e reagem não apenas ao que é feito, mas ao que é dito — e ao modo como é dito. Quando um líder fala como se o mundo fosse um ringue, uma arena, o mundo começa a comportar-se como tal.

Perante isto, a Europa tem uma responsabilidade histórica — talvez a mais importante das últimas décadas. Um continente que nasceu da memória da devastação e que construiu a sua identidade política sobre o primado do direito, da cooperação e da previsibilidade, não se pode dar ao luxo de ceder à tentação de imitar o estilo hostil que hoje se alastra. O que se exige não é silêncio; é altura, elevação. Não é aquiescência; é firmeza sem estridência. A Europa deve responder com a força tranquila das instituições que criou, com a disciplina do discurso que preserva pontes, com a clareza moral de quem sabe que a paz começa na forma como se fala.

A linguagem europeia deve ser ancorada no direito internacional, precisa na descrição dos factos, firme na defesa das normas e, sobretudo, imune à retórica da intimidação. Sempre que a agressividade surgir, a resposta não deve ser subir de tom, mas subir de nível. A serenidade, quando sustentada pela lei e pela convicção, não é fraqueza; é estratégia. A diplomacia não vive de volume — vive de autoridade. E a autoridade, na política internacional, conquista‑se pela capacidade de não perder a cabeça quando outros a perdem.

Se há algo que a história confirma, é isto: as palavras podem precipitar desastres — ou evitá‑los. Hoje, mais do que nunca, precisamos da segunda hipótese.

A língua portuguesa que aprendi

A principal virtude que a linguagem pode ter é a clareza e nada
nos afasta tanto dela como o uso de palavras pouco familiares
Hipócrates

A leitura de muitas páginas dos nossos melhores jornais, bem como a visita de certos centros comerciais, é, para mim, o mesmo que visitar o lado obscuro da lua. A começar pelos títulos, nos jornais, não percebo rigorosamente nada: eles revelam, em condensado, toda a minha ignorância. Por exemplo, na página de CULTURA, do PÚBLICO, do dia 29 do corrente mês, deparo com este charabiá:
A PARTIR DE SÁBADO, a bienal BoCA CONVIDA AO PAUSE EM TEMPOS DE SWIPE E DE SCROLL.

Olho para isto e fico, como qualquer leitor medianamente informado: perplexo e quase em estado de choque. Será esta a minha língua? Estarei em Portugal? Terei morrido e terei entrado em qualquer departamento bizantino do Além?

Hoje em dia, quem não polvilhe os seus textos com uns pozinhos de inglês, não é gente que preste. E quanto mais obscuro o calão usado, melhor. É o CEO, é o SPREADING, é o BUSINESS SCHOOL, é o TOP10, a RENTRÉE (desta vez recorre-se a uma palavra francesa que os ingleses também usam, o que lhe dá um sabor novo), são os cantores portugueses que adoptam nomes ingleses, é o CHAIRMAN, o BOARD, o PORTUGAL CAFÉ, em vez de CAFÉ PORTUGAL, tal como em português, e por aí fora. É como se tivéssemos vergonha da nossa própria língua e precisássemos de a “enfeitar” com um cheirinho anglo-saxónico, usando palavras que têm o seu perfeito equivalente em português. É a piroseira, enfeitando-se de snobeira, no seu máximo esplendor. Aqui mesmo ao pé de casa, existe um sítio em que se servem bebidas, com este título prodigioso: LIQUID HALL. Não é mesmo chic? As lojas, nos grandes centros, são uma contínua homenagem à nossa língua-mãe: Zara Home, Stone by Stone, Silver Field, Body Cosmetics, Best Travel...Tão distinguished! Tão internacional!

Nesta Babel grotesca e provinciana, sinto-me como se deve ter sentido o falecido Príncipe Phillip, Duque de Edimburgo, ao ver-se assim tratado, num país africano: “Fella belonging Mrs. Queen”. Estes utentes lusíadas da língua de Shakespeare fazem-me atrozmente lembrar aqueles utentes da língua urdu a definirem, em inglês, o marido da falecida rainha do Reino Unido.

O grande Stuart Mill dizia, em pecado de flagrante optimismo, que a linguagem é a luz do espírito. Mas esta espécie de urdu anglo-saxónico, que por aí se espaneja, não ilumina, antes obscurece o espírito, fazendo da língua uma amostra de areia mijada.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Criptomoedas – O novo calcanhar de Aquiles das sanções internacionais?

Drones, sistemas antiaéreos, mísseis, todos disponíveis para venda na página de internet da Mindex, o centro de exportação do Ministério da Defesa do Irão. Como forma de pagamento, são aceites criptomoedas. E assim, sem esforço, se ludibria o sistema de sanções internacionais.

Embora as sanções isoladamente, no caso iraniano e nos demais, não resolvam os problemas subjacentes, são um instrumento importante para assegurar uma ordem mundial mais segura, sem recurso a intervenções armadas. As sanções são hoje dirigidas a pessoas, empresas e setores.

As democracias ocidentais têm utilizado os bancos para implementar o sistema de sanções. A lei impõe que verifiquem a identidade dos titulares de contas e a proveniência dos fundos, devendo bloquear transações e informar as autoridades sempre que detetem operações suspeitas ou haja coincidência com os nomes e atividades elencados nas listas de sanções.

Um sistema fraco permite a criminosos comuns e oligarcas utilizar fundos ilegalmente obtidos para proveito próprio, adquirindo propriedades no Ocidente. Mansões em Londres e na Riviera Francesa, clubes de futebol, obras de arte…

A efetividade do sistema vinha sendo promovida, em grande parte, pelos Estados Unidos da América que, até 2024, multaram, severamente, instituições bancárias sempre que detetaram incumprimento de sanções. O valor elevado das multas – a título de exemplo, em 2014, o BNP Paribas foi multado em nove mil milhões de dólares, por processar transações envolvendo o Irão, Cuba e o Sudão – impulsionou os bancos a investir em sistemas de deteção e a colaborar com as autoridades.

A efetividade do sistema (já stressada pelo allure do lucro fácil) está ora minada pelas stablecoins e pela política pró-crypto da Administração Trump.

As criptomoedas permitem transferir fundos sem recurso ao sistema bancário internacional e de forma anónima. A desregulação – dizem-nos… nada pode parar a inovação das fintech, pois é aí que mora o futuro – veio permitir serviços isentos de deveres de identificação e investigação. É o caso das apps no Telegram que permitem transferir criptomoedas entre wallets e oferecem cartões pré-pagos que permitem levantar fundos em caixas automáticas.

Circulando fundos entre wallets anónimas, é possível esconder a origem dos fundos e dificultar investigações criminais. A conversão em moeda, sobretudo dólares, é agora facilitada pela stablecoins. Criptomoedas, em que o emitente deve aplicar montante equivalente ao valor facial das criptomoedas em contas bancárias em dólares americanos e dívida pública americana. Chamaram à legislação que criou o regime das stablecoins “GENIUS Act”, e, na perspetiva da Administração Trump, é certamente genial, pois permite aumentar exponencialmente os clientes de dívida pública americana, libertando da pressão do “bond market” (mercado onde se transacionam os títulos representativos da dívida pública). Este tem um poder imenso, e perante orçamentos do Estado irracionais, faz disparar o custo da dívida pública. No Reino Unido, o governo de Liz Truss, em 2022, durou apenas 49 dias. Em Portugal, no momento da intervenção da Troika, os juros da dívida pública ultrapassavam os 9%.

A par da desregulação – afinal a Administração Trump está apostada em promover o mundo cripto –, o aliviar da pressão penal. Em 2025, as multas aplicadas pelo governo americano foram 64% inferiores a 2024, sendo que, logo após a tomada de posse de Trump, foram suspensas investigações às plataformas de criptomoedas.

No mundo “pós” – pós-Gaza, pós-Venezuela, pós-… – cabe à Europa, e aos seus cidadãos, liderar e assumir os custos de proteger os pilares de uma ordem mundial que (com as suas falhas) permitiu níveis de desenvolvimento humano nunca antes alcançados. Regular as criptomoedas faz parte dessa liderança.
Sofia Santos Machado

Massacre no Irã deixa lições

O Irã é um país distante, eu sei. No entanto não é tão distante quando se sabe que milhares de pessoas são mortas lutando pela liberdade.

Por coincidência, na semana anterior ao massacre eu tinha dado um livro a minha filha: “Lendo Lolita em Teerã”. Sua autora, Azar Nafisi, é uma de minhas referências na tentativa de entender o país. Professora de inglês, autora de ensaios sobre Vladimir Nabokov, ela escreveu uma autobiografia interessante, “Things I've been silent about” (Coisas sobre as quais silenciei).


O livro revela o panorama intelectual do país antes da Revolução Islâmica. Azar Nafisi tinha uma posição privilegiada, pois sua mãe fora parlamentar e o pai, prefeito de Teerã. No livro, ela se preocupa muito com o futuro das filhas criadas numa atmosfera familiar liberal, que poderiam ter um futuro terrível na ascensão dos aiatolás. Interessante ver ilustrações, ainda em 1980, com fotos de mulheres, inclusive a autora, protestando contra o código de vestimentas muçulmano.

Isso me ajudou a entender o forte movimento de mulheres do Irã que mais tarde, em 2022, sacudiu o país. Não só uma jovem foi morta pelo regime na época, como esse tipo de assassinato prosseguiu nos dois anos posteriores. As mulheres são a principal força de oposição ao regime teocrático.

Mas as revoltas de agora trazem fatos novos. O primeiro é a presença dos jovens, aparentemente a maioria dos mortos pela repressão. Seus corpos eram levados de caminhão à morgue de Kahrizak, no sul de Teerã. São dados obtidos pelo jornal Le Monde por meio de testemunhas dos massacres.

Assim como as mulheres são atingidas por um tipo de repressão específica da visão de mundo dos aiatolás, os jovens agora se rebelam contra a falta de perspectiva dramatizada pela crise econômica.

Há outro fator nas revoltas de agora, algo que ainda não era sentido tanto no tempo em que o pai de Azar Nafisi foi prefeito de Teerã: a crise hídrica. Não há água suficiente na cidade e noutros pontos do país. O assunto é de tal gravidade que se chegou a pensar em transferir a capital para outro ponto do país. Mas como fazer a mudança de 10 milhões de pessoas na capital e mais de 4 milhões na área metropolitana? É um problema insuperável, pois os mananciais já estão esgotados. A falta de água, a crise econômica e a permanente opressão das mulheres, num país pressionado por Israel e pelos Estados Unidos, são o cenário de uma crise permanente, apesar da crueldade do sistema teocrático.

A resposta do governo brasileiro ao massacre foi tímida por causa dos laços políticos e comerciais. Os setores progressistas, feministas inclusive, não se comovem quando a opressão e crueldade acontecem no campo adversário dos Estados Unidos. Essa é uma grande vulnerabilidade do campo de esquerda. A sensibilidade seletiva nos leva a caminhos muito perigosos em termos nacionais.

Considera-se a corrupção nas altas esferas como tema sem importância histórica, com isso a credibilidade das instituições vai para o vinagre, até no Supremo Tribunal Federal. Basta dar uma olhada nos comentários nas redes sociais para ver como não só há indignação, como também desalento em relação ao país, pródigo em escândalos. É o prelúdio de aventuras messiânicas.

Como sobreviver em um mundo de ameaça, chantagem e extorsão

Em Aristóteles havia três tipos de falar político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade, a quem se chamava "ironista" (em grego, "εἴρων" ou "eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o "εἴρων" ou "ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade inteira.

Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "ἀλαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "ἀλαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".


Vocês sabem de quem eu estou falando. Em 2016, Hillary Clinton era um bom exemplo do primeiro tipo, a política que não diz tudo e, por isso, parece dissimulada, e Trump o fanfarrão hiperbólico que ao povo parece refrescante por dizer coisas que não se costumava ouvir da boca de um político.

Mas como sempre com Aristóteles, é no terceiro tipo que está a virtude. Essa a da parrésia (em grego: "παρρησία") ou "falar franco". O substantivo que se usava para o político que "fala franco" é um palavrão: "παρρησιαστής", que em latim se transcrevia como "parrhesiastes". Esse é aquele que não dissimula nem exagera, antes diz as coisas justas na devida proporção, nada ocultando e não ofuscando, mas iluminando.

E a partir desta terça (20) sabemos quem encaixa nesse modelo: o premiê canadense, Mark Carney. Leiam este excerto do discurso que ele pronunciou em Davos. A citação é longa, mas vale a pena:

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

Sem dissimulação nem fanfarronice, Mark Carney fala franco ao mundo sobre o novo mundo que aí vem — aliás, que já está aí. É um mundo em que as grandes potências, e em particular os EUA, deixaram de fingir ter em mente o interesse comum. Em vez disso, dedicam-se descaradamente à ameaça, à chantagem e à extorsão.

O que fazer perante esse mundo? A receita de Carney é simples e acertada: os países médios têm de se proteger trabalhando em conjunto; devem ter a mesma clareza a denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA; e devem manter as suas alianças funcionando com as regras do multilateralismo, sem o poder hegemónico global.

Falou franco. Deveríamos escutar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


As palavras e as coisas

Não é simples passatempo a atenção que dispensamos às tais “palavras do ano” escolhidas por tradicionais publicações e instituições lexicográficas. E não é por acaso, pois as palavras nos moldam como sujeitos, estruturam nossa percepção do mundo, das pessoas e das coisas. Vagando tantas vezes pelas redes, sentimos o efeito das rage baits, as “iscas” que provocam uma raiva impotente. Sofremos o impacto do slop, o lixo digital que escorre com o furor das tempestades. Suportamos a carga negativa de imaginárias parasocial interactions, em que o interlocutor não é um ser corpóreo, real, e sim uma celebridade que nos ignora por completo ou mesmo um agente virtual qualquer.


Palavras existem também em estado de poemas que costumam ser mais cortantes e, por isso, capazes de deixar uma marca ainda mais profunda. Lembrada em vários artigos ao longo do ano, A Segunda Vinda, do irlandês William Butler Yeats, uma pequena joia literária de mais de um século atrás, ressoa com vigor inesperado. Espelho da sucessão de crises que se seguiram à Guerra de 1914, serve também como um dos espelhos do presente – um presente de outras tantas crises, múltiplas e sobrepostas, a ponto de trazer, tal como então, os traços de um “interregno”, de uma transição enigmática.

“Tudo se desfaz: o centro não sustém” – adverte o poeta. Desculpamo-nos previamente por uma certa redução política da leitura, ainda que, decerto, para nós o “centro” seja bem menos uma posição partidária, supostamente equidistante dos extremos, e muito mais a ideia de que anda nos faltando sistematicamente um chão mais firme, com um mínimo de referências comuns e de sentidos compartilhados. Estamos girando no universo da “pós-verdade”, em que as mediações – os saberes, as formas pedagógicas, as instituições da democracia – estão sob ataque direto e, em alguns casos, foram praticamente dissolvidas. Uma circunstância inédita, na qual, como em Yeats e talvez de forma ainda mais intensa, os melhores carecem de toda convicção e os piores se enchem de paixão intensa.

Esta paixão desmedida, desregrada mesmo, é a que hoje move tiranos, ou aspirantes a tirano, a destruir conquistas civilizatórias tão essenciais, como a tolerância, o mundo ordenado segundo regras, a necessidade de consenso para alterar estas mesmas regras. Algumas das correntes mais profundas da modernidade, como o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo, anunciaram a seu modo o caminho possível da unificação do gênero humano – por mais tortuoso e contraditório que ele seja.

As filosofias e as religiões, na sua pluralidade irreprimível e na sua vocação universal, também demarcam este mesmo caminho, dimensões inescapáveis do humano que são. E, em termos profanos, as épocas de globalização econômica dão o fundamento prático de tal unificação, expandindo as trocas, materiais e simbólicas, e aproximando os povos e os confins da Terra.

Bem verdade que os refluxos podem ser poderosos, passando a impressão (real) de que muita coisa subitamente desanda e de que o mundo está irrremediavelmente de ponta-cabeça. Globalizamonos economicamente, mas não conseguimos construir minimamente as instituições políticas à altura deste feito econômico.

Entre as elites internacionalizadas e as populações de cada país, especialmente as parcelas que se sentem marginalizadas cultural ou economicamente, abriram-se brechas aparentemente irreparáveis. E por essas brechas penetraram o discurso e a prática das mais variadas vertentes do nacional-populismo, com a proposição da “primazia das nações” e o fetiche das soberanias, acima e além de valores universalistas, como os direitos humanos e a própria democracia.

No nosso canto “ocidental”, o recuo chega a assustar.

O antigo hegemon norte-americano, que bem ou mal se apresentava como o garante de uma constelação de instituições transnacionais, passou a expressar-se na linguagem bruta dos interesses. Internamente, destrói a plurissecular estrutura de checks and balances, rumo à autocracia; externamente, oscila entre isolacionismo, guerras comerciais e incursões militares. A imagem de mundo que propõe é a de um ajuntamento mecânico de soberanias, sustentadas preferencialmente por populações etnicamente homogêneas e temerosas de sofrer um “apagamento civilizacional”. A agressividade que brota deste patriotismo anacrônico prenuncia, ao mesmo tempo, a perseguição de minorias e a imposição do mais forte.

A Segunda Vinda tem um desfecho catastrófico. O colapso do centro é o sinal de um advento desta vez nada salvífico. No mundo degradado pela carnificina da guerra, uma “fera bruta”, na tradução irretocável de Augusto de Campos, “se arrasta rumo a Belém para nascer”. Os totalitarismos do século 20 ainda iriam acontecer, mas Yeats tinha a premonição do desastre. Quanto a nós, pobres mortais, terminamos 2025 assediados por palavras e coisas nada inocentes. Para impedir o pior, só com a recuperação da bússola da democracia e a obstinada determinação de reunir, respeitadas todas as diferenças, homens e mulheres de boa vontade.

O genocídio laboral de toda uma geração

A maior parte dos trabalhadores por conta própria ou de outrem, com carreiras bem sucedidas, e rendimento líquido satisfatório ou bom sonha com a idade da reforma. A reforma configura-se como uma época de ouro na qual poderemos ser livres e realizar os nossos sonhos de leitura, viagens, e fazer aquilo de que realmente gostamos.

E a pergunta impõe-se: passamos as décadas da nossa juventude e vida ativa fazendo aquilo de que não gostamos? Vivemos contrariados para conseguir viver com conforto? Resposta: na maior parte dos casos, sim! Há muito poucos capazes de escapar a esta sina: os que encaram a sua carreira como uma missão ou uma arte: artistas, naturalmente, e professores, médicos e outras profissões carregadas de oportunidades de altruísmo. Interessam-me particularmente os primeiros, por serem um exemplo evidente e reconhecido deste tipo de percurso. A Paula Rego continua a pintar, o Lobo Antunes a escrever, o Leonard Cohen e o Manuel de Oliveira caminharam até ao último suspiro. Os artistas param quando a doença os impede, o que me leva a pensar que não encaram o trabalho como trabalho. Ou seja, o trabalho não existe em oposição à vida. Ele e a vida formam uma amálgama que se funde e completa a cada momento. Para os artistas o lazer faz parte do processo de labor e o momento de trabalho, sendo seriíssimo, é vivido com o prazer do lazer. Uma reforma que correspondesse a uma retirada de atividade corresponderia, para eles, a uma anulação da sua vitalidade, pensamento e criatividade. Ser-lhes-ia insuportável.

Se compararmos o exemplo artístico de envolvimento entre labor e lazer com a nossa própria experiência percebemos que algo está errado com a forma como trabalhamos. Se desejamos que termine porque nos está a destruir, não trabalhamos de forma correta nem saudável. Provavelmente o que está mais profundamente errado no sistema laboral tradicional prende-se com a exigência de elevadíssima produtividade. Esta não é amiga da perfeição porque não respeita o amadurecimento das ideias nem o resultado do processo laboral. Precisamos de trabalhar mais lentamente, com menos pressão, para que o trabalho não nos transforme numa bigorna do mercado.

No outro dia li na Imprensa que dos jovens trabalhadores recentemente entrados para o mercado de trabalho se exige que sejam capazes de trabalhar sob grande pressão, argumentado que esse tipo de exercício desenvolve as capacidades de raciocínio. Esbocei um sorriso cínico e doído. As organizações económicas e sociais sabem produzir os discursos que melhor servem os seus objetivos. Os discursos funcionam porque as ideias muito repetidas tornam-se verdades para quem ouve, sem tempo para pensar nas consequências, quanto mais nas origens, mas uma verdade-falsa nunca passará de uma mentira, por vezes de um crime de genocídio de toda uma geração.
Isabela Figueiredo

A história do leão e da vaca

Tenho um amigo que gosta de contar histórias. Gosta tanto que, às vezes, entusiasma-se e perde a noção de que o que está a contar pode chocar os filhos ainda pequenos. Foi o que aconteceu quando começou a falar-lhes de como as boas intenções de proteção animal nos Estados Unidos da América fizeram disparar a população de leões da montanha. “Os leões começaram a andar à procura de comida e foram-se aproximando cada vez mais das manadas de gado”, contou-lhes, explicando como, depois de várias investidas bem-sucedidas, os felinos começaram a ser cada vez mais ousados. A certa altura, relatava às crianças, os leões estavam tão à vontade que um deles se lançou sobre uma vaca e começou a comê-la ainda viva. “Nem sequer se deu ao trabalho de a matar. Começou a comer o lombo, e a vaca a gritar. Fazia um barulho horrível. Vieram várias pessoas. Mataram a vaca.” Ah, suspirei eu, mataram a vaca. “E mataram o leão.” E foi aí que o filho mais novo começou num pranto. “O leão é o animal preferido dele”, confessou-me depois o pai.


Fiquei a pensar na história do leão e da vaca. O normal é que os predadores matem as suas presas antes de as comerem. Mas este leão da montanha americano, por algum motivo, achou que já nem era preciso matar a vaca. Atirou-se sobre ela de garras lançadas e boca aberta e começou a desfazê-la enquanto ela ainda se debatia e mugia, aflita, produzindo sons lancinantes que fizeram as pessoas em redor vir em seu auxílio para lhe dar o golpe de misericórdia que o seu predador lhe tinha negado, mas também para matar o leão que tinha ficado demasiado à vontade.

O leão tinha-se esquecido das regras milenares que regem as cadeias alimentares. Sendo o mundo animal o reino da lei do mais forte, não deixa de haver algumas regras não escritas que todos cumprem: os que comem e os que são comidos. Começar a comer a vaca sem a matar foi a infração que valeu a morte do leão.


O meu amigo contou-me a história para ilustrar a forma como se perde em pormenores quando se entusiasma a falar, esquecendo-se até de que às vezes a audiência são filhos pequeninos que, por acaso, adoram leões e podem acabar em lágrimas à conta do relato apaixonado (mas insensível) do pai. Mas não foi isso que me fez ficar a pensar nesta história.

O que me fez ficar a pensar no leão e na vaca foi o que aconteceu poucas horas antes do jantar com este meu amigo em Lisboa. Os Estados Unidos da América decidiram montar uma operação para bombardear vários alvos (incluindo infraestruturas civis) em Caracas e sequestrar o Presidente da Venezuela e a sua mulher. Levados à força e feridos, foram exibidos numa carrinha com as portas abertas, enquanto circulavam por Nova Iorque, a cidade onde foram presentes a um juiz. Entretanto, Donald Trump dava uma conferência de imprensa desfazendo as esperanças de quem achou que este golpe podia abrir caminho a eleições livres ou ao regresso da líder da oposição ao país e assumindo abertamente aquilo que moveu esta operação: a vontade de controlar as reservas de petróleo venezuelanas, impedindo a Venezuela de vender o produto a países como a China ou a Rússia e, sobretudo, de o vender em qualquer divisa que não o dólar (um pormenor fundamental que garante aos EUA a possibilidade quase infinita de imprimir moeda para se financiar).

Donald Trump deixou claro que ele é que vai mandar na Venezuela e foi avisando que também precisa da Gronelândia (que faz parte da Dinamarca) e que, na verdade, todo o continente americano é o seu quintal. Trump começou a desfazer a vaca sem sequer se dar ao trabalho de a matar.

Essa ideia ficou ainda mais evidente quando, uns dias mais tarde, vi um vídeo no qual, perante uma plateia de congressistas republicanos, o Presidente dos EUA relatava uma conversa com o Presidente francês. Imitando a voz de Macron, Trump explicou como o vergou em minutos. “100% vai fazer o que eu quero. Vai fazer o que eu quero e vai gostar”, gabava-se de ter dito a Macron. O truque foi fácil: ameaçar com tarifas que tornariam impossivelmente caros produtos como o vinho, o queijo ou o champanhe francês no mercado americano. Para o evitar, Macron aceitou subir os preços dos medicamentos. Trump explica como usou exatamente a mesma fórmula para conseguir o que queria noutras partes do mundo. “Em média, demoraram três minutos e 22 segundos”, diz, alarve, o bully, consciente não só da sua força, mas da cobardia dos outros.

Enquanto na Europa os líderes europeus pareciam baratas desorientadas, pensei que esta situação não era muito diferente daquela em que a queda do Muro de Berlim apanhou alguns. O muro caiu. Este muro, feito de NATO e ONU e primado da lei e de convenções internacionais, ruiu. Estava cheio de brechas e foi ao chão. No meio dos cacos, a maioria dos líderes políticos não sabe o que fazer. Não entende sequer que o mundo mudou. Agarra-se às antigas alianças e finge que nada aconteceu. Resta saber até quando.

Esta semana, almocei com um político brasileiro que estava, ao contrário de muitos dos políticos portugueses, aterrado com a quebra de soberania na Venezuela. “Isto é terrível”, repetia, garantindo que o Brasil não espera nada da China, que “não tem em conta se não os seus próprios interesses”, e que os BRICS, na verdade, estão longe de ter uma unidade que os faça agir em comum. “Índia, China e Rússia não têm os mesmos interesses”, explicava-me enquanto me dizia que lhe parecia que restava ao seu país “navegar nesta conjuntura”. Mas sem qualquer dúvida de que a ideia de soberania na América Latina (tantas vezes ameaçada no passado) está agora por um fio.

No final do almoço, ele disse-me uma frase que me ficou a ecoar na cabeça. “No outro dia, estava falando com a minha mulher e ela me disse: ‘Essa ideia da social-democracia era muito confortável até os ricos ficarem loucos.’” Rimos muito com a blague. Mas talvez tenha sido um riso nervoso. Esta loucura não dá vontade de rir. Há uma oligarquia descontrolada que está a desmantelar a democracia e a impor como lei a pirataria e o terrorismo. E isso não é para rir.

Até porque não sabemos quem poderá vir matar o leão. Será que alguém se atreve? 

Nobel fajuto para Trump causa vergonha alheia

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.


Duas semanas antes, ele descartara apoiar a mesma “María” como futura presidente da Venezuela pós-sequestro de Nicolás Maduro, porque “ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o apoio ou o respeito dentro do país”. Balela. Trump sabe que o partido da oposicionista proibida de participar da vida nacional obteve maioria ampla em 2024, e o resultado foi atropelado por imposição de Maduro. Trump queria dizer, e não disse, que Machado não conta nem com o apoio, ainda menos com o respeito, das Forças Armadas forjadas no chavismo, até agora leais a Maduro. Sem esse apoio, os planos atuais da Casa Branca para a Venezuela sob sua tutela teriam menos chances de fluir. Preferiu aliar-se à força decapitada da presidente interina Delcy Rodríguez, militante raiz do regime, com décadas de serviços prestados ao chavismo. A incongruência é explicável. Trump entende melhor cabeças e regimes autoritários, por congenialidade. Reserva seu colossal desprezo aos meandros e complexidades do pensamento democrático, para o qual se sabe despreparado. Mas é justo na esfera democrática, e só ali, que se consegue um Nobel não fajuto.

María Corina Machado, por seu lado, jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro. Dedicou boa parte de sua vida pública, que incluiu um ano na clandestinidade, à defesa de liberdades fundamentais. Até revelar-se trumpista a ponto de aplaudir o golpe de força militar dos Estados Unidos contra seu país. Também silenciou sobre os bombardeios em série ordenados por Trump contra embarcações em águas internacionais e compactuou com a versão criada na Casa Branca de que Maduro era o chefe de uma gangue de narcotraficantes. Dedicou a Trump a medalhinha de 200 gramas de ouro de 18 quilates “em reconhecimento por seu compromisso único com nossa liberdade” e nada ganhou em troca. Vida que segue.

Anos atrás o historiador italiano Carlo Ginzburg publicou um ensaio sobre a vergonha — coletiva e individual —, já citado em coluna anterior. Ginzburg sustenta que sabemos a que país pertencemos não pelo amor que a ele dedicamos, mas pelo sentimento de vergonha que ele é capaz de gerar em nós. Também esclarece que não sentimos vergonha por opção ou escolha:

— Ela recai sobre nós, invade nossos corpos, sentimentos, pensamentos como uma doença súbita.

São muitos os pensadores que diferenciam a vergonha, como trauma relacional, da culpa, como agência moral. Primo Levi, em “Os afogados e os sobreviventes”, descreve a vergonha dos sobreviventes de Auschwitz não por atos cometidos, mas por pertencerem a uma espécie cujos membros cometeram atos atrozes — uma culpa difusa pela humanidade compartilhada. Annie Ernaux, em “A vergonha”, explora o conceito como marca social de classe e falha familiar, um peso público que isola o indivíduo, enquanto James Baldwin, em “Da próxima vez, o fogo” trata da vergonha como fardo racial e social imposto ao oprimido.

Quando canalizada em energia transformadora, ou até mesmo revolucionária, como sustenta o filósofo Frédéric Gros, professor de pensamento político na Sciences Po de Paris, a vergonha é sinal inconfundível de nossa responsabilidade em relação ao mundo que habitamos. Compartilhada, ela serve de tábua de transformação e ação. Quando vivenciada de forma solitária, é capaz de paralisar personalidades das mais fortes, garante Gros.

Na cena da medalhinha, nem Donald Trump nem María Corina Machado parecem alcançáveis por qualquer vergonha. Recai sobre nós senti-la.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A neurobiologia do fascismo e da democracia

O bem e o mal, o que é justo e o que é injusto não são aprendizagens: são sensações e perceções de ordem neurobiológica e hormonal.

Sentimo-nos bem ou sentimo-nos mal, desde o início do processo gestacional.

O bebé sente-se bem – descontraído, satisfeito e curioso – num ambiente conhecido, protetor, atentivo e gentil. O bebé sente-se mal – tenso, em estado de alerta, irritado e stressado – quando está sozinho ou num ambiente desconhecido, na presença de pessoas que o ignoram ou que, de qualquer forma, o tratam mal e não o protegem. Estas perceções atuam sobre todo o corpo do bebé.

A perceção de situações agradáveis tais como presenciar algo que nos parece bom e justo, porque não nos fere nem fere o outro, assim como a perceção de situações stressantes – ameaçadoras, maldosas, injustas – invadem continuamente o nosso cérebro, introduzem-se na nossa neurobiologia, no nosso sistema hormonal e modelam-nos.


A nossa neurobiologia e o nosso sistema hormonal, reagem ao que sentimos: a sensação de ver ou de praticar o bem e o que é justo não é a mesma que aquela que temos quando vemos ou praticamos o mal e a injustiça.

Estes processos não são exclusivos dos seres humanos, mas comuns a todos os animais e até às plantas. A semente de uma árvore sente-se bem e desenvolve-se rapidamente e é saudável, quando é bem tratada: preparada antes de ser plantada, plantada no momento adequado, em terra preparada para ela, com luz, calor e humidade cuidadosamente adaptadas às necessidades da semente. A planta é mais resistente e produtiva quando é bem tratada, quando é acarinhada e cuidada. Tal como qualquer animal.

A ditadura e o fascismo são extremadamente desagradáveis: a violência, o desrespeito, a opressão, a manipulação e o medo que incutem, assim como a proibição de pensar e de falar livremente, são perceções extremamente dolorosas e stressantes que se tornam, com o tempo, cada vez mais incapacitantes. A agressão e o medo tiram-nos o prazer da existência, o autorrespeito, a alegria, a criatividade e a produtividade.

A ditadura e o fascismo são comportamentos e estados emocionais doentios, patogénicos, porque assentam e coabitam com a agressão, a violência, a destruição e a morte não natural. O stress, a hiperativação da nossa existência ameaçada agitam e deformam a nossa neurobiologia, o nosso sistema hormonal e anti-inflamatório.

A ditadura e o fascismo não têm possibilidade de coexistir pacificamente com a nossa neurobiologia. A nossa natureza sente-os como uma ameaça e equipara-os a uma infeção. A ditadura e o fascismo são expressões comportamentais de perturbações muito graves da nossa neurobiologia.

A democracia é prazenteira, descontraída e criativa.

A democracia dá-nos satisfação, e alegria, incita-nos a procurar o outro, a perdoar e a amar. A democracia estimula a vida, dá força e saúde ao nosso sistema imunitário e hormonal, ao nosso cérebro: o centro de integração das nossas sensações e emoções.

A má democracia é uma má versão da democracia, é uma má experiência.

Temos forçosamente – mais tarde ou mais cedo – de melhorar a má democracia, por razões de ordem neurobiológica e hormonal.

A direita abusa descaradamente da mentira como estratégia política

Há alguns anos, alertamos sobre o uso e o abuso de mentiras na política pela direita, especialmente pela extrema-direita ( Mentiras como Forma de Ação Política ). Poderíamos compilar uma longa lista de mentiras que foram disseminadas recentemente por representantes da extrema-direita no Brasil e no mundo. De fato, a vertente conservadora radical da direita tem usado mentiras não apenas para enganar cidadãos e eleitores, mas sobretudo para distorcer os fatos, construir uma realidade paralela e desmantelar seus adversários.

Como alerta o sociólogo brasileiro Jessé Souza em seu livro Os Pobres de Direita, “a mentira é uma arma de guerra usada não apenas contra o inimigo do momento, mas com o objetivo de minar a sociedade como um todo, levando-a a um estado de guerra latente e, assim, rompendo todos os acordos morais implícitos sobre os quais se baseia a vida social”. Nesse caso, não se trata de um mero recurso marginal, mas de uma técnica sistemática de dominação simbólica.


Quando Trump anunciou o sequestro do presidente Maduro, alegando que ele era um narcoterrorista e líder do cartel de los Soles, a verdade foi tão grosseiramente distorcida que a maioria das pessoas com um mínimo de senso de realidade ficou perturbada ou paralisada por essas mentiras. Mais tarde, o próprio Departamento de Justiça refutou essa versão dos fatos que justificava o sequestro, afirmando que Nicolás Maduro era simplesmente parte de uma cultura de corrupção dentro do regime venezuelano.

O aspirante a tirano global dedicou-se a mentir persistentemente para seus seguidores e para o resto do mundo, a ponto de, durante seu primeiro mandato, o Washington Post ter se dado ao trabalho de contabilizar todas as mentiras disseminadas durante seus quatro anos de governo, chegando ao número alarmante de 25.000 falsidades propagadas por Trump nesse breve período. A constante e progressiva repetição de afirmações falsas por Trump e seus assessores demonstra que o objetivo de distorcer os fatos não é convencer racionalmente, mas sim polarizar, saturar e confundir. Como observou Hannah Arendt, quando tudo parece mentira, nada pode ser refutado.

A extrema-direita global usa mentiras para desacreditar a própria política, especialmente a política que busca canais democráticos como meio de expressar as opiniões e propostas de toda a comunidade. A ideia de que todos os políticos são corruptos é uma fórmula comum explorada por figuras como Jair Bolsonaro, Javier Milei, Juan Antonio Kast e Nayib Bukele, para citar apenas alguns exemplos desta parte do mundo. Suas visões radicais convergem para a ideia de que a democracia é ineficaz para gerir as diferenças existentes nas sociedades e que os direitos humanos acabam por proteger criminosos. Eles se dizem antipolíticos, mas acabam se transformando em líderes autoritários que usam violência e repressão contra aqueles que pensam diferente.

Nesse contexto, eles invariavelmente criam inimigos fictícios, contra os quais dirigem todo o seu ódio e desprezo. Esses inimigos são desumanizados e transformados em uma ameaça à suposta paz e harmonia social. Entre eles, incluem-se migrantes, feministas e sua ideologia de gênero, minorias sexuais, sindicatos, organizações ambientalistas, movimentos indígenas, estudantes, partidos de esquerda, intelectuais críticos ou até mesmo, no caso do Brasil, ministros do Supremo Tribunal Federal.

Eles usam a mídia e as redes sociais para disseminar ataques e construir cenários artificiais. Esse verdadeiro ecossistema de comunicação apela para sentimentos de raiva, impotência e ressentimento para atrair seguidores entre segmentos vulneráveis ​​da sociedade: trabalhadores precários, membros de famílias desestruturadas e indivíduos frustrados pela falta de oportunidades. Invocam slogans fáceis de memorizar, como "Deus, família e pátria", para seduzir públicos carentes de identidade e reconhecimento. Com mensagens emocionais, breves e agressivas, conseguiram atrair massas de eleitores com promessas de realização pessoal, prosperidade e trabalho autônomo que se provaram totalmente vazias, mas que continuam a gerar esperança entre os desesperados.

Eles normalizam mentiras e transformam fenômenos ou situações falsas em verdades. Para isso, baseiam-se em um axioma brevemente enunciado pelo sociólogo americano William I. Thomas, que apontou há quase um século que "se uma situação é definida como real, ela é real em suas consequências". Esse teorema revela o alto potencial que uma crença pode ter para determinar o comportamento das pessoas sem a necessidade de evidências demonstráveis. Dessa forma, as mentiras incansavelmente proferidas são capazes de criar realidades para aqueles que as ouvem, e a tênue linha entre verdade e pós-verdade obscurece os fatos como eles são. A extrema direita dissemina a narrativa de que existem muitas verdades, criando um manto de incerteza e desconfiança generalizada entre os cidadãos. Assim, a verdade deixa de ser um terreno comum e se torna mais um campo de batalha, favorecendo aqueles com maior poder de comunicação e controle da mídia.

As mentiras levaram a uma simplificação grotesca das complexidades da vida política, econômica, social e cultural em nossos países. O discurso sobre meritocracia tornou-se a grande falácia de nosso tempo, e gurus da extrema direita se dedicaram a disseminar a ideia de que habilidades e competências são distribuídas igualmente entre a humanidade; trata-se simplesmente de querer e se esforçar para ser um vencedor e alcançar o sucesso na vida.

Em última análise, as mentiras servem para ocultar o que muitos não conseguem ver devido à sua maior complexidade: a existência de relações de poder que moldam desigualdades estruturais, as quais não podem ser contornadas sem confrontar diretamente as elites que concentram riqueza e poder, juntamente com as formas de racismo, classismo e opressão patriarcal que sustentam essa hegemonia. Portanto, mentir não é um erro; é uma estratégia para preservar a ordem social.

No Brasil, o bolsonarismo tornou-se um verdadeiro laboratório de mentiras como ferramenta política. Isso foi alcançado não apenas por meio de centenas de notícias falsas, mas principalmente pelo estabelecimento de um caminho sistemático para se tornar uma força dominante, convencendo os eleitores de que a estrutura partidária e o sistema político vigentes levariam inevitavelmente à destruição do país. Assim, uma das principais promessas de campanha do ex-capitão o posicionava como um político anti-establishment que confrontaria a corrupção e a imoralidade da classe política, pondo fim à complacência representada pelos partidos do " Centrão " (centro-direita). Tudo isso foi um engano ao eleitorado. No fim, Bolsonaro foi o melhor cúmplice desse conglomerado e, durante sua presidência, ocorreu a maior transferência de recursos para parlamentares que condicionaram seu apoio a esse governo regressivo. Por meio de uma série de transferências do governo central para legisladores corruptos — o nefasto "orçamento secreto" —, a extrema-direita quase garantiu a reeleição para um segundo mandato.

Anteriormente, Bolsonaro havia se aproveitado da crise sistêmica herdada do governo ilegítimo de Michel Temer para criar a falsa ilusão de que um "antipolítico" poderia tirar o país do atoleiro. E, de fato, ele conseguiu unificar um bloco social heterogêneo que emergiu nos protestos de 2013, canalizando o descontentamento e o cansaço acumulados com expressões de ódio e virulência contra o Estado, a política e os políticos. Eleito no final de outubro de 2018, o (des)governo de Bolsonaro foi uma sucessão interminável de horrores e da destruição de políticas públicas em todas as áreas da vida nacional. Na área da saúde, ele foi o principal instigador do negacionismo em relação à pandemia do Coronavírus, causando dezenas de mortes adicionais ao atrasar a compra das vacinas necessárias para combater esse flagelo. Ele também incentivou o desmatamento ilegal na Amazônia, na Mata Atlântica, no Serrado e em outros ecossistemas, com consequências ambientais devastadoras. Descontinuou ou eliminou programas de combate à fome implementados por governos anteriores, recolocando o Brasil no mapa da fome. Ele aumentou significativamente a pobreza e a extrema pobreza, que haviam sido drasticamente reduzidas durante os governos do Partido dos Trabalhadores. Promoveu a posse de armas entre a população e incentivou o uso excessivo da força pela polícia. No final de seu mandato, questionou a adequação das urnas eletrônicas perante embaixadores de diversos países e, por fim, recusou-se a reconhecer os resultados das eleições de 2022, tentando um golpe de Estado com setores das Forças Armadas, da Polícia e grupos radicais acampados em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília. Por isso, cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão.

Atualmente, os advogados de Bolsonaro estão mentindo descaradamente ao afirmarem que Bolsonaro jamais tentou contestar os resultados da eleição que perdeu e que as conversas claramente sediciosas ocorridas no apartamento do General Braga Netto não passaram de um bate-papo informal entre amigos em um bar. Além disso, seus defensores argumentam que, se a tentativa de golpe fracassou, dificilmente podem acusar o ex-capitão de liderar uma organização criminosa que supostamente trabalhava para alcançar algo que, no fim, não se concretizou. Em outras palavras, segundo esses profissionais do direito, uma tentativa fracassada não é crime. Trata-se de um argumento absurdamente simplista que, apesar de todas as evidências em contrário, ainda é aceito como verdadeiro por uma parcela significativa da população brasileira.

Mas, no fim, as mentiras desmoronam sob o próprio peso. Basta ver o destino patético de Jair Bolsonaro, aquele personagem que surgiu como o "mito", o macho alfa sempre empunhando um fuzil para confrontar a ameaça vermelha; o presidente que disse que a Covid-19 era apenas uma gripezinha ou um resfriado leve e que seu histórico atlético o tornava imune; o governante sem coração que menosprezou o povo que chorava seus mortos porque ele não era coveiro; o indivíduo grosseiro que afirmou que o Brasil precisava parar de ser um país de maricas, e assim por diante. Bem, esse mesmo ser nefasto agora reclama porque está sob custódia da Polícia Federal com todos os privilégios de um ex-presidente. Ele exige prisão domiciliar porque não consegue dormir, cai da cama e é constantemente atormentado por soluços e azia.

Esse é o verdadeiro Bolsonaro, um covarde disfarçado que nunca assumiu a responsabilidade por suas opiniões, sua natureza despótica, seu comportamento sinistro e sua falta de empatia pelos outros. Neste momento, com tudo o que se sabe, a extrema-direita brasileira continua apoiando Bolsonaro e seu clã, mentindo sobre seu passado como um militar incompetente e sua biografia como um político medíocre. Seu filho, Flávio, assumiu o manto, mas a maioria do país deixou de acreditar no mito fabricado e se depara com o homem real, desprovido de qualidades, a mentira criada por seus propagandistas, o personagem que, em última análise, representa o epítome do charlatão oportunista que se aproveitou da conspiração jurídico-política perpetrada pela extrema-direita contra o atual presidente, Lula da Silva, que suportou com dignidade e sabedoria a injusta sentença que lhe foi imposta.

Palantir e a vigilância algorítmica na ordem internacional

Ninguém permanece soberano diante do excesso de visão. A Palantir escraviza o julgamento sem exigir lealdade, apenas atenção contínua. Aos poucos, o olhar deixa de ser escolha e passa a ser necessidade. E aquele que consulta a Palantir acreditando vigiar é, na verdade, vigiado. Pois, embora muitos a toquem e dela façam uso, a Palantir serve apenas a um senhor – e esse senhor é Sauron, a vontade sem corpo que governa pelo olhar, cuja força não está apenas na mentira, mas na capacidade de transformar o medo visto em destino inevitável.

Em As Duas Torres, segundo volume do Senhor dos Anéis, Pippin encontra Palantir nos escombros de Orthanc, uma das quatro torres de Isengard, após a derrota do corrompido mago Saruman. Incapaz de resistir ao chamado mudo da pedra, o Hobbit a toma nas mãos durante a noite e olha – e ao olhar, ele também é visto. O olhar do Inimigo o atravessa, o interroga, o marca, e quando Gandalf o arranca da pedra, já é tarde o bastante para que Sauron saiba demais.


Fundada no coração do complexo tecnológico-militar norte-americano, a empresa Palantir Technologies se apresenta como provedora de softwares capazes de integrar volumes imensos de dados dispersos, cruzar informações opacas e oferecer aos seus usuários uma visão totalizante da realidade. Governos, forças de segurança, agências de inteligência e grandes corporações recorrem à Palantir para ver melhor: antecipar riscos, mapear comportamentos, identificar padrões ocultos.

Em Gaza, contratos entre o Ministério da Defesa de Israel e a Palantir proveram o governo sionista com a infraestrutura técnica para coordenar vigilância em larga escala, fusão de dados operacionais e tomada de decisão militar em tempo real, transformando território, população e movimento em variáveis calculáveis e acionáveis dentro de uma lógica de guerra permanentemente administrada. Nos EUA, a Palantir firmou um acordo com o famigerado U.S. Immigration and Customs Enforcement – o ICE, integrando bases de dados federais e privados para rastrear viagens, documentos e locais de pessoas em operações no terreno e fornecendo ferramentas como a plataforma ImmigrationOS para fornecer “visibilidade em tempo quase real” sobre indivíduos sob fiscalização e facilitar a priorização e execução de deportações. Finalmente, a OTAN, adquiriu da Palantir o sistema de inteligência artificial Maven Smart System, uma plataforma que pretende integrar dados de batalha, apoiar fusão de inteligência, melhorar consciência situacional e acelerar planejamento e decisões operacionais em múltiplos teatros de conflito, em um dos processos de aquisição mais rápidos de sua história, sinalizando a adoção de tecnologias de IA de guerra em nível internacional.

No legendário de Tolkien, uma Palantir é um orbe cristalino que permite ao seu usuário observar lugares e acontecimentos distantes por toda a Terra-média. São instrumentos de visão, coordenação e poder usados por governantes para administrar reinos espalhados por vastos territórios. Ainda assim, as pedras são traiçoeiras. Uma Palantir não mente, mas enquadra a realidade de forma seletiva. O que ela mostra depende de quem a controla, de quem olha para dentro dela e de quem mais pode estar olhando de volta – e ele, o senhor das trevas, Sauron, está sempre a olhar.

Esse simbolismo não é acidental. O próprio Peter Thiel já reconheceu a referência a Tolkien. A escolha se encaixa com precisão na autoimagem da empresa: ferramentas para soberanos, generais e Estados, não para o consumo de massas. Instrumentos de coordenação, e, acima de tudo, vigilância. E hoje, todos temos uma Palantir em nossos bolsos: nossos próprios smartphones.


Assim como a Palantír, o smartphone é um objeto aparentemente neutro, portátil, íntimo, sempre à mão, que promete acesso irrestrito ao mundo distante. Por meio dele vemos territórios que não pisamos, acompanhamos guerras, deslocamentos, rotinas alheias, decisões de poder – porém, como na pedra de Tolkien, o ato de olhar nunca é unilateral. O smartphone observa enquanto é consultado, registra enquanto informa, aprende enquanto serve seu verdadeiro senhor.

Ele não mente, mas seleciona; não ordena explicitamente, mas orienta o julgamento por meio de notificações, mapas, feeds algoritmicamente curados e alertas. Quem o utiliza acredita exercer controle sobre a informação, quando na verdade opera dentro de um enquadramento definido por infraestruturas técnicas, interesses econômicos e arquiteturas de vigilância que permanecem fora de alcance.

Tal como Pippin diante da Palantir, o usuário moderno olha movido pela curiosidade, e, ao olhar repetidamente, passa a ser visto, classificado, previsto. O poder não está no aparelho em si, mas no enquadramento – ou perfilamento – do usuário. O enquadramento, nesse caso, é a forma como a pessoa é reduzida a um perfil operacional dentro de um sistema que precisa decidir de maneira rápida, à distância, e com pouca margem para dúvida. A vida, assim, vira um conjunto de sinais a serem interpretados pela Palantir: ligações entre pessoas, rotas, horários, padrões de compra, histórico de viagem, documentos, geolocalização, posts, contatos, cruzamentos com bases públicas e privadas. E destes sinais, seus padrões permitem inferir a probabilidade de pertencer a um grupo, de estar ligado a alguém, de repetir um comportamento, de aparecer num lugar, de representar risco.

A socialização humana é, hoje, permeada pelo digital. Do momento que acordamos para ver as notícias e ler as mensagens nos grupos de WhatsApp, até o momento que vamos dormir e rolamos o TikTok para relaxar, algoritmos cujo funcionamento desconhecemos controlam qual conteúdo nos é exposto. Esse processo não é passivo: cada clique, pausa, deslocamento ou interação alimenta sistemas de perfilamento, nos quais indivíduos são continuamente reduzidos a padrões de comportamento, probabilidades e categorias de ação, antecipando condutas, respostas e orientando decisões antes mesmo que elas sejam formuladas conscientemente.

Thiel despreza abertamente a democracia, e já afirmou que, como não conseguiria vencer eleições ou convencer maiorias, talvez fosse possível “mudar o mundo unilateralmente, sem ter de constantemente convencer as pessoas, por meios tecnológicos”, substituindo o espaço de deliberação e consenso democrático por arquiteturas técnicas capazes de produzir efeitos diretos sobre o comportamento social. E, nisso, o debate público cede lugar ao cálculo, e a política é reconfigurada como gestão silenciosa de probabilidade, num regime onde não somos convencidos, mas ajustados através da exposição a conteúdos que ressoem com os nossos valores percebidos.

E é aí que o enquadramento se torna político pois o perfil do usuário é em verdade categoria de ação para tomadores de decisões, definindo quem merece atenção, quem entra numa lista, quem é priorizado, vigiado, abordado, bloqueado, deportado, exterminado, ou simplesmente marcado como interessante. Profiling, ou perfilamento, em português, é isso: transformar existência em hipótese através de indicadores em comportamento online, e hipótese em decisão.

A Palantir é, sem sombra de dúvidas, uma das empresas mais importantes para a Geopolítica Internacional ao extrapolar a infraestrutura dura que conhecemos bem (datacenters, matrizes energéticas, etc.) para a infraestrutura de Software e sistemas operacionais que possibilitem o domínio Meta-Trumpista. O poder já não reside apenas na posse de território, de armamentos ou de infraestrutura física, como já é mais óbvio, mas na capacidade de organizar a realidade em algo legível, comparável e acionável à distância. O software não ocupa espaço, não faz ruído, não aparece em imagens de satélite, mas antecede o gesto e orienta a escolha, e ao operar nesse plano, a Palantir se torna a arquiteta do poder, mediando a forma como Estados enxergam e administram populações, conflitos, fronteiras e riscos.

É por isso que falar da Palantir não é falar de sua inegável eficiência, inovação ou técnica, mas de uma empresa que se insere deliberadamente no coração dos processos decisórios mais violentos do sistema internacional, oferecendo meios para tornar a coerção mais rápida, a vigilância mais profunda e a violência mais administrável. Quando a guerra vira dashboard, quando a deportação vira fluxo, quando vidas se tornam variáveis ajustáveis, o mal já não precisa se esconder atrás da mentira: ele opera à luz fria do cálculo. O que está em jogo não é apenas uma empresa ou um conflito específico, mas a consolidação de um modelo de governo algorítmico que reconfigura a soberania, a guerra e a administração da vida na ordem internacional contemporânea.

A Palantir é, nesse sentido, a Palantir sem metáfora. Como a orbe de Orthanc, ela não exige juramento nem fidelidade declarada; basta tocá-la. Não pede crença, apenas dados. Não impõe ordens diretas, apenas oferece visão, e, ao fazê-lo, captura quem olha. Cada uso a fortalece, cada consulta a insere mais fundo no processo decisório, até que o mundo passe a ser organizado segundo a lógica daquele que enxerga mais longe, decide antes e permanece invisível.

Tal como na obra de Tolkien, não se trata de corrupção acidental ou abuso pontual, mas de um artefato cuja função é inseparável de seus efeitos: ampliar o poder de um único olhar enquanto subordina todos os outros àquilo que lhes é permitido ver.

Quem vota? A influência da IA e do algoritmo

As campanhas presidenciais em curso, com eleições marcadas para 18 de janeiro, estão a revelar algo que vai muito além da disputa entre candidatos. Revelam uma transformação silenciosa — e inquietante — da política democrática: a substituição progressiva do debate político por métricas, gráficos e reações instantâneas. Nunca se mediu tanto a opinião pública. Nunca se falou tão pouco do que realmente importa.

Hoje, a campanha presidencial é conduzida por sondagens permanentes, tracking polls quase diárias e leituras algorítmicas do comportamento eleitoral. Estes instrumentos, que deveriam servir para compreender a sociedade, passaram a ditar a estratégia política. Não se trata apenas de saber o que os eleitores pensam; trata-se de decidir o que pode ou não ser dito, quando deve ser dito e — sobretudo — o que deve ser evitado.


É a agenda do algoritmo a marcar a agenda política e, sobretudo a influenciar a agenda da opinião pública o que se traduz numa clara influência do sentido de voto de cada um.

É neste cenário que a campanha de António José Seguro se tornou, para mim, politicamente relevante. Não porque ignore os dados — ninguém o faz hoje — mas porque parece recusar submeter totalmente o discurso presidencial à lógica da reação permanente aos números. Num ambiente onde cada décima percentual gera ansiedade estratégica, essa opção não é trivial: é uma escolha política.

A obsessão pelas sondagens transformou as campanhas num exercício de contenção. As tracking polls funcionam como um eletrocardiograma eleitoral: qualquer flutuação provoca correções imediatas, silêncios estratégicos, mudanças de tom ou campanhas de ataque pessoal ao adversário. A consequência é uma política cada vez mais reativa, defensiva e pobre em visão. Governa-se — ou faz-se campanha — com medo de errar no gráfico seguinte e em função do lugar que se ocupa na última tracking poll.

Esta lógica é reforçada pelo algoritmo. As redes sociais não são neutras: premiam o ataque, a simplificação e a emoção rápida e penalizam a reflexão e o pensamento estratégico. Não é por acaso que a campanha se degradou, em vários momentos, em ataques pessoais, insinuações e leituras maliciosas do passado. O ataque tornou-se uma ferramenta eficaz porque o algoritmo o amplifica.

Também aqui a campanha de António José Seguro se destaca, não por estar acima da crítica, mas por não fazer do ataque pessoal o seu motor político.

Num tempo em que a agressividade rende visibilidade, esta contenção parece quase um anacronismo. Mas talvez seja precisamente isso que nos deve fazer pensar. A eleição presidencial não deveria ser um concurso de desgaste pessoal, mas uma escolha sobre autoridade institucional, independência e sentido de Estado.

O problema maior é que esta combinação — números e ataques — tem um efeito devastador: afasta do debate os grandes temas estruturantes. Enquanto se discute quem sobe ou desce nas sondagens e quem atacou quem, uma reflexão séria sobre o papel de Portugal no mundo que está a emergir, permanece, praticamente, ausente

Vivemos uma transição global profunda. A ordem internacional está a tornar-se multipolar. África assume uma centralidade demográfica, económica e geopolítica crescente. E, ainda assim, a campanha presidencial portuguesa quase ignora esta realidade.

É particularmente sintomático o silêncio em torno da CPLP. Portugal dispõe aqui de um ativo estratégico raro: uma comunidade política e linguística que o liga profundamente a África num momento decisivo da história global.

Pensar a CPLP como plataforma de cooperação política, diplomática e económica — e Portugal como ponte entre a Europa e África — deveria ser uma questão central numa campanha presidencial. O facto de surgir apenas de forma marginal diz muito sobre o empobrecimento do debate e sobre o receio de sair da zona de conforto eleitoral.

Ao tentar recentrar o discurso em valores institucionais, visão de longo prazo e responsabilidade histórica — mesmo quando isso não rende pontos imediatos — a campanha de António José Seguro acaba por cumprir uma função que ultrapassa a sua própria ambição eleitoral: expõe os limites da política governada pelo algoritmo.

As eleições de 18 de janeiro decidirão quem ocupará o Palácio de Belém. Mas decidirão também se aceitamos definitivamente uma Presidência moldada por sondagens, tracking polls e métricas digitais, ou se ainda valorizamos a coragem de contrariar os números quando o interesse do País o exige.

Num tempo em que os dados parecem mandar mais do que as ideias, talvez esta seja a verdadeira clivagem desta eleição. E talvez seja isso — mais do que qualquer ataque ou tendência — que merecia estar no centro da campanha.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Jornalismo investigativo defende a sociedade

Por meio de soldados arrependidos, o jornalista Seymour Hersh soube da chacina em My Lai. Na manhã de 16 de março de 1968, helicópteros da Companhia Charlie desceram no pequeno vilarejo vietnamita. A ordem: destruir a aldeia suspeita de abrigar combatentes vietcongues. Entre 7h30 e 11h, os soldados mataram cerca de 500 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos. Estupraram mulheres e meninas. Bebês foram mortos a tiros ou na ponta das baionetas.

Nenhuma arma foi encontrada.

Com informações colhidas entre os militares, Seymour Hersh publicou a história em novembro de 1969, quase 20 meses depois do massacre. Inicialmente foi desmentido pelo Exército americano. Depois de novas reportagens de Hersh, com mais detalhes e depoimentos, o Exército mudou de versão. Falou de uma ação exitosa com a morte de 128 vietcongues. A mentira logo seria desmontada. As revelações de Hersh serviram para alimentar a reação da opinião pública contra o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. As tropas americanas deixaram o país em 1973, depois dos Acordos de Paris. A guerra terminou em 1975, com a vitória vietnamita, depois de milhares de baixas de ambos os lados.

O padrão da hipocrisia voltou a ser repetido em 2004. Novamente pelas mãos de Seymour Hersh, soube-se das torturas praticadas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Desta vez, os americanos estavam em guerra contra o regime de Saddam Hussein. No presídio controlado pelo Exército dos Estados Unidos, soldados praticavam sevícias e assassinatos contra os presos, usando cabos de vassoura, simulações de afogamento, choques elétricos e queimaduras com cigarros. Prisioneiros eram empilhados nus em pirâmides humanas enquanto soldados posavam para fotos, sorrindo. Encurralado pelas denúncias, o Exército tentou desmentir as notícias. Hersh então forneceu as fotos dos próprios militares ao lado dos prisioneiros torturados e mortos. As armas de destruição em massa, argumento oficial justificando a invasão do Iraque, jamais foram encontradas. Eram um engodo.

Hersh, ícone do jornalismo investigativo americano, é tema de “Cover-up”, documentário de Laura Poitras e Mark Obenhaus. Além dos dois casos acima, o filme mostra o envolvimento do repórter na revelação de outros episódios da política americana, como o Watergate, com Carl Bernstein e Bob Woodward, escândalo que levou o presidente Richard Nixon à renúncia. Ou ainda o relacionamento de John Kennedy e Marilyn Monroe, confirmado por seus seguranças ao repórter. Aos 87 anos, Hersh continua incomodando.

“Cover-up”, disponível na Netflix, deveria ser visto por quem ainda acredita que jornalismo pode ser um instrumento de combate à mentira oficial. E que não deve se acovardar diante de pressões nem proteger ideologicamente os lados envolvidos. De imediato, serve para as milícias digitais — algumas integradas por jornalistas — que atacam a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, por suas revelações sobre o caso Master.

Parte de “Cover-up” dedica-se às fontes de Hersh. Poitras pergunta várias vezes suas identidades. O repórter se nega a revelar:

— Devo protegê-las — diz.

Não é apenas uma questão ética, de confiança, mas também garantia contra eventuais retaliações. Em alguns casos, já passaram décadas — nem por isso Hersh se dispõe a trazer a público seus informantes.

É uma lição.

Em certo momento, Hersh se irrita quando Poitras revela detalhes de suas investigações e chega perto de identificar fontes. Poitras investiga o investigador. Traz revelações. Os papéis se invertem, de repente Hersh luta para proteger seus informantes. É um dos momentos cruciais do documentário. As identidades não podem ser escancaradas porque as informações vieram sob condição de anonimato.

Com indicações e pistas, Hersh faz o básico do jornalismo investigativo: verifica os fatos. Procura descobrir se o que tem em mãos é seguro e verdadeiro. Sai atrás de novas fontes. Como tem credibilidade — ele é conhecido por cumprir acordos —, consegue cercar e comprovar as versões.

Por seu prestígio, atrai novos informantes. Outros descalabros são trazidos a público. Suas revelações ajudaram a encurtar uma guerra, a terminar cruéis sessões de tortura contra prisioneiros, a afastar um presidente corrupto. Vidas foram poupadas. A civilização ganha com o jornalismo independente quando pode se defender de quem a usurpa.

Quais as marcas que humanos deixarão no mundo daqui a milhões de anos?

Nós, humanos, sempre fomos fascinados pelo passado.

Desenterramos inúmeros fósseis do solo — relíquias dos 4,5 bilhões de anos de história da Terra, que nos dão pistas sobre como espécies antigas viviam muito antes de existirmos.

Mas se nós mesmos fôssemos extintos e outra espécie inteligente surgisse daqui a milhões de anos, será que eles saberiam que existimos? Ou como era a nossa civilização?

Não podemos contar com que paleontólogos futuros encontrem nossos fósseis, diz Adam Frank, professor de astrofísica da Universidade de Rochester, nos EUA.

"Apenas uma pequena fração da vida na Terra se fossilizou, especialmente se a sua civilização durou apenas um breve período geológico", explica ele.


Um artigo de 2018, coescrito por Frank, aponta que, apesar de todos os dinossauros que vagaram pela Terra durante 165 milhões de anos, poucos fósseis quase completos foram encontrados até hoje.

Assim, o artigo sugere que, dado que nossa espécie humana existe há apenas cerca de 300 mil anos (até agora), talvez não deixemos muita marca no registro fóssil.

Mas podemos deixar vestígios diferentes.

Como parte da geologia natural do planeta, as rochas são continuamente depositadas no solo em camadas ou estratos.

A composição química de cada estrato está relacionada às condições do planeta naquele momento.

Segundo Frank, o aumento das temperaturas e as mudanças no nível do mar devido às alterações climáticas provocadas pelo homem afetarão o que será depositado nas rochas, algo que vai ser detectável "provavelmente daqui a centenas de milhões de anos".

"Veríamos que havia uma diferença nos isótopos de oxigênio e nos isótopos de carbono devido ao fato de o sistema climático da Terra ter mudado por causa da atividade humana", diz o astrofísico.

Mesmo que nossos próprios ossos não apareçam muito no registro fóssil, é bem possível que tenhamos alterado os fósseis de outras espécies por meio das plantas e animais que transportamos pelo globo ou da biodiversidade que alteramos.

Um estudo de 2018 descobriu que 96% de todos os mamíferos do mundo eram nós ou nosso gado, medido pela biomassa — o peso total de toda a matéria viva.

Mais de dois terços da biomassa de aves do mundo vieram de nossas aves domésticas.

Abatemos mais de 75 bilhões de galinhas todos os anos, de acordo com a publicação sem fins lucrativos Our World in Data.

Portanto, os fósseis de todas essas aves quase idênticas, morrendo em grande número, podem muito bem causar surpresa no futuro.

"Alteramos o curso da evolução biológica", diz Jan Zalasiewicz, geólogo, paleontólogo e professor emérito da Universidade de Leicester, no Reino Unido.

"Nossos exploradores do futuro distante vão se perguntar: 'O que aconteceu? Por que isso aconteceu?'", sugere ele. "E eles vão se concentrar na camada onde tudo isso começou, e essa é a nossa camada."

Em seu livro intitulado Discarded: How Technofossils Will Be Our Ultimate Legacy (Descartados: Como os Tecnofósseis Serão Nosso Legado Final, em tradução livre), Zelasiewicz e sua colega da Universidade de Leicester, Sarah Gabbott, argumentam que serão nossos objetos do cotidiano que continuarão vivos no registro geológico da Terra.

Eles chamam esses objetos de tecnofósseis – seja uma lata de alumínio de bebida, um suéter de poliéster ou uma vaga de estacionamento subterrânea.

Um estudo de 2020 estimou que produzimos 30 gigatoneladas de objetos anualmente. Isso equivale a cada pessoa na Terra produzir mais do que o seu próprio peso corporal por semana.

Na verdade, os autores descobriram que agora temos no mundo mais coisas feitas pelo homem do que seres vivos, quando comparamos seu peso seco.

A maior proporção de produtos humanos vem do concreto, que pode não parecer muito natural para futuros descobridores.

"Uma das maneiras como fazemos concreto hoje em dia é adicionando cinzas volantes… sob o microscópio, [esse material] parece absolutamente bizarro", diz Zelasiewicz.

"Se as bordas de edifícios de concreto e lajes de pavimentação virarem formas fossilizadas, [os arqueólogos do futuro] verão que é algo bem diferente de um estrato natural."

Muitos dos nossos materiais permanecerão por muito tempo.

O plástico "provavelmente pode durar não apenas milhares de anos, mas potencialmente milhões de anos", diz Gabbott.

Produzimos tanto desse material que, até 2050, poderá haver mais plástico do que peixes no oceano, segundo as Nações Unidas. Mas não é só o plástico.

"Temos rochas com quatro bilhões de anos que contêm grafite", continua Gabbott.

"Portanto, o grafite na forma de um lápis poderia durar quatro bilhões de anos."

A paleontóloga afirma que folhas fossilizadas de centenas de milhões de anos atrás foram encontradas.

"O papel é feito de celulose, que é a mesma substância das folhas. E então... o papel no ambiente certo provavelmente poderia durar centenas de milhões de anos", especula ela.

É bem possível que os humanos já tenham deixado uma enorme marca na geologia da Terra. Se outra espécie inteligente a verá um dia, muito depois do nosso desaparecimento, é uma incógnita.

Mas será útil imaginar o nosso legado milhões de anos no futuro?

O professor Frank acredita que sim.

"Acho que é vital para nós superarmos este período de imaturidade tecnológica, sermos capazes de pensar na história de longo prazo da Terra", argumenta ele.

"Estas são mudanças em escala planetária que terão consequências por séculos, milênios, dezenas de milênios", afirma.
Ellen Tsang

Virtude política

Virtude na república é o amor à pátria, isto é, o amor à igualdade. Não é absolutamente virtude moral, nem virtude cristã, é virtude política; e essa é a mola que faz mover o governo republicano. 
Montesquieu (1689-1755), "Do espirito das leis"

Quando algoritmos se tornam instituições: política, governança e democracia na era da IA

Há livros que chegam com passos leves. Outros chegam com estrondo. E há aqueles que não chegam: simplesmente se impõem. Política dos Algoritmos Instituições e as Transformações da Vida Social (em inglês, Algorithmic Institutionalism) é assim. Não nasce para ser mais um título. Ele se instala como um marco. Um ponto de inflexão. Uma espécie de interrupção no fluxo do pensamento algorítmico computacional. Depois dele, o que chamávamos de “algoritmo” já não cabe mais na palavra. O que é algoritmo mudou.

Acompanho essa história desde o começo. Desde o Webinar nº 37 da Academia Brasileira de Ciências, realizado durante a Pandemia da Covid, em 29 de maio de 2021 (disponível no YouTube), quando os autores apresentaram pela primeira vez a tese que agora se torna livro. Lembro-me daquela tarde como se fosse uma cena filmada em câmera lenta. A expressão “institucionalismo algorítmico” apareceu pela primeira vez, ainda úmida de risco conceitual, e fez com que a audiência sentisse que algo novo estava sendo nomeado. Não era apenas tecnologia. Não era apenas sociologia. Tampouco Direito. Era o esboço de uma nova gramática para um mundo que estava se reorganizando enquanto falávamos. E, desde aquele momento, decidi acompanhar esse percurso como quem observa o desabrochar de uma teoria que prenuncia transformações profundas, na sociedade e na ciência.

O livro começa com uma afirmação que parece simples, mas tem consequências avassaladoras: algoritmos podem funcionar como instituições. A ideia é lançar um olhar institucional – aquele que entende instituições como coleções duradouras de regras e práticas, enraizadas em estruturas de significado, construídas de modo a resistir a vontades individuais e às variações do mundo – sobre algo que muitos ainda insistem em ver como mero cálculo matemático automatizado. Instituições, nesse sentido, não são apenas prédios com placas de bronze. Não são apenas parlamentos, tribunais ou ministérios. Também não se limitam aos grandes arranjos sociais como o casamento, a Igreja, a família ou o Direito. São formas relativamente estáveis de ordenar a vida. De produzir sentido. De reproduzir esse sentido. De orientar práticas de modo resistente à volatilidade humana.

A pergunta que move o livro é direta: e se algoritmos, sobretudo os algoritmos de Inteligência Artificial, produzissem algo semelhante? E se, silenciosamente, essas linhas de código estivessem organizando comportamentos, delimitando escolhas, definindo prioridades, mediando conflitos, estruturando expectativas e moldando o alcance da ação coletiva? A provocação é quase desconfortável. Mas inevitável. Porque hoje são algoritmos que decidem quais crianças entram em acolhimento institucional, quais pacientes recebem atendimento prioritário, que famílias têm acesso à moradia, quem pode solicitar crédito, quem é considerado risco, quem merece vigilância reforçada, quem desaparece nos cantos escuros da opacidade.


Quando pensamos em instituições, imaginamos logo grandes edifícios ou tradições antigas. Mas o livro insiste: instituições também podem ser invisíveis. Podem ser códigos silenciosos que realizam, no tecido social, o trabalho de estabilizar expectativas. Podem ser mecanismos que constroem normas de comportamento ao influenciar, dia após dia, a maneira como interpretamos o mundo e tomamos decisões. Um algoritmo, afinal, é uma sequência de regras. E regras, quando duradouras, quando amplamente adotadas, quando resistentes à vontade individual, quando dotadas de poder de organizar condutas, tornam-se instituição.

Com elegância, a obra leva essa hipótese às últimas consequências. E, ao fazê-lo, reconfigura completamente o debate sobre tecnologia. Não se trata mais de discutir eficiência, inovação ou automação algorítmica. Trata-se de compreender como novas estruturas normativas estão sendo construídas no interior dos fluxos digitais. Estruturas que moldam pessoas, grupos, interações, movimentos coletivos. Estruturas que reorganizam o que podemos ser e fazer.

Essa leitura, para mim, teve um efeito particular. Ela atravessou minha própria pesquisa. Influenciou minha tese de doutorado. E me levou a formular aquilo que chamei de algorithmic pragmatism, uma tentativa de aproximar o institucionalismo algorítmico do pragmatismo filosófico, deslocando o foco da estrutura para o uso, da definição para a consequência, da arquitetura formal para o impacto vivido. Se algoritmos agem como instituições, então sua essência não está no código, mas na prática. No que produzem. No que transformam. No que permitem e no que proíbem. O pragmatismo, ao privilegiar o efeito sobre a intenção, ajuda a abrir justamente essa porta. E esse diálogo entre o institucional e o pragmático tornou-se, para mim, inevitável – porque, uma vez que vemos a vida social como campo de disputa entre arranjos normativos, percebemos que não há neutralidade algorítmica possível.

O livro também enfrenta a pergunta decisiva: como governar algoritmos que funcionam como instituições? A resposta envolve compreender seus valores, suas formas de intervenção, suas transformações ao longo do tempo e seus efeitos sobre a coletividade. Governar algoritmos, nesse sentido, não é tarefa técnica. É tarefa política. É tarefa moral. É tarefa democrática.


Ao tratar algoritmos como instituições, o livro mostra que eles influenciam comportamentos na comunidade, moldam escolhas sociais, transformam nossa capacidade de agir. Eles definem o significado da ação dentro das interações que compõem a vida coletiva. E se é assim, então só podemos tratá-los com a mesma seriedade com que tratamos qualquer outra instituição: exigindo transparência, contestabilidade, responsabilidade, compreensão pública, critérios claros, limites éticos, freios, contrapesos.

A obra propõe um modelo de governança global e colaborativa para enfrentar os riscos do uso acelerado de algoritmos, sobretudo aqueles baseados em técnicas de Inteligência Artificial. Um modelo que exige que se saiba por que um algoritmo existe, como funciona, quem o controla, quem o supervisiona, que dados utiliza, como aprende, como decide, o que produz, como impacta indivíduos e coletividades, como lida com discriminação e exclusão, que competências humanas estão envolvidas, como protege privacidade, que direitos reconhece aos cidadãos. Embora o livro apresente essas dimensões de forma analítica, aqui elas surgem como um convite a repensar radicalmente a relação entre sociedade e os algoritmos. A mensagem é clara: se algoritmos são instituições, precisam ser regulados como instituições. Mas também imaginados como instituições. E reinventados como instituições.

No fim, surge a questão mais inquietante de todas: se aceitarmos que algoritmos desempenham papel institucional, teremos de reconhecer que eles também podem reproduzir formas, viesses, preconceito e violência. Podem perpetuar vulnerabilidades. Podem expandir exclusões. Podem cristalizar desigualdades com uma eficiência inédita. A institucionalização algorítmica, se deixada à deriva, é capaz de naturalizar estruturas de dominação com uma rapidez que nenhuma instituição tradicional seria capaz de igualar.

É por isso que a obra se torna tão urgente. E tão necessária. Ela não se contenta em diagnosticar. Ela convoca. Ela exige. Ela confronta. Ela pede que repensemos o mundo antes que ele se torne irreversível na direção de uma normatividade automatizada e invisível. É uma obra escrita com a serenidade de quem conhece o rigor da pesquisa, mas também com a intensidade de quem sabe que estamos diante de algo que definirá o futuro da sociedade.

A orelha assinada por Patrícia Campos Mello não exagera ao apontar o alcance político e social do tema. Há livros que ajudam a compreender o que está acontecendo. E há livros que ajudam a compreender o que poderá acontecer. Este faz os dois.

Ao terminar a leitura, tive a sensação de que estamos diante de uma mudança de época. Não há mais volta. O futuro institucional já começou – e ele é feito de códigos, dados, decisões automatizadas e disputas silenciosas. A pergunta é se continuaremos espectadores ou se assumiremos o papel que nos cabe: o de reconstruir as instituições, inclusive as invisíveis, antes que elas nos reconstruam, definitivamente.