Pensar o tempo em que vivemos implica convocar um conceito que, sendo da ordem da filosofia e da religião, é também da ordem política e educativa: o Mal. Como acontecimento bíblico, o Mal é o espírito oposto ao de Cristo, é a palavra de simulacro (Lúcifer, pela serpente, engana Eva). Para Jérôme Porée, o Mal é, na senda de Santo Agostinho, a impossibilidade de a razão primeira, Deus, ter eco nos corações humanos. Na filosofia, di-lo Ricoeur e lembra-o Gabriel Marcel, o Mal é a mentira estabelecida como programa da desrazão, o fim do pensamento. Se o Homem foi animal que pensa, o Mal propõe um homem todo instinto e fúria, tomado pela inconsciência. Na política, o Mal concretiza-se por meio do terrorismo de Estado: as cargas policiais escondem o vazio da ação política.
As manifestações contra a nova lei das rendas – PSD, CH, e IL suportados pela abstenção absurda e contranatura do PS – são legítimas e necessárias para que o Mal não se estabeleça na sociedade portuguesa. O Mal como benefício dos poderosos, desrazão e totalitarismo – não é isso que está em marcha um pouco por todo o mundo? Não é o esmagamento dos povos e das democracias? Há o artigo 45º da Constituição, que urge fazer lembrar aos políticos e aos comentadores que insistem em inventar restrições às liberdades e garantias a todos os portugueses; liberdades e garantias consignadas na Constituição e, por isso, vinculativas a políticos e a polícias. Eis o artigo que políticos e polícias não podem ferir sem eles próprios serem criminalmente responsabilizados: “consagra o direito de reunião e de manifestação: Nº 1 (Direito de reunião): Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização. Nº 2 (Direito de manifestação): A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação. Sem autorização prévia: Para exercer este direito em espaços públicos, os cidadãos não precisam de pedir autorização ao Estado ou à polícia. […].”
O Mal é anticristão. Não é que uma visão escatológica da História esteja hoje em processo. Ou, se estiver, que a leitura apocalíptica do humano esteja a cumprir-se. Patmos, o lugar, e João, a pessoa, porém, existiram. Essa profecia existe. Por isso paira no ar o pressentimento do fim. A IA destrói milhares de milhões de livros. Apropria-se de todo o conhecimento humano e prepara-se para ter o poder totalitário. São as grandes empresas de Silicon Valley, é Elon Musk e o sonho não de um III Reich onde a barbárie é lei, mas de um Reich digital onde a figura do nerd é juiz de todos os outros, decidindo pela força dos seus biliões de biliões de dólares, as políticas totalitárias a seguir.
O Mal tem como sonho final o nada. “A grande amnésia”, escreveu David Mourão-Ferreira num poema dos anos 60. Estudantes que nada estudaram porque o ChatGPT fez tudo por eles; universidades transformadas, como as escolas, em meros centros de dados, onde a Humanidade despreza o saber e a reflexão, detestar saber é um sintoma do Mal. O Mal é uma máquina trituradora de direitos humanos: é a planificação organizada do tudo igual para todos: salário mínimo global, a promessa do dolce far niente porque todos terão robots a pensar e a trabalhar por nós. O Mal é, como fenómeno, o fim das diferenças próprias da natureza. Uma imagem talvez explique melhor: o Mal é a terraplanagem da Amazónia, são os painéis solares ao longo de milhares de quilómetros em vez de árvores na sua multiplicidade de espécies. O Mal é a promessa do individualismo, o império do ego. O Mal é a turba egoica, a massa egoísta, a uniformização, escreveu Karl Kraus.
As democracias falharam ao colocarem as leis do mercado, as agências de rating, a financeirização da economia, acima das leis do humano, acima da economia real das pessoas. As democracias falharam ao destruírem a exigência no ensino. Ao fazerem da democracia o festival de banalidades em que esse regime se transformou, a democracia estupidificou tudo e todos. Nos últimos 30, 40 anos, a Europa foi traída, as promessas da democracia foram postas na gaveta. Os jovens são violentos? É a única linguagem que têm, fomos nós que os esvaziámos de utopia. Nada de idealismos, só o mais feroz pragmatismo. Sem utopia e sem esperança, o desespero assiste ao Mal. O desespero é a gasolina que alimenta os fascismos. Os portugueses estão desesperados. Como é que Costa, Ursula, Macron, Rutte, Montenegro, entre outros burocratas e carreiristas, não veem o óbvio? E o óbvio é que são eles os responsáveis pelo fim da democracia na Europa. Eles e outros antes deles. O Mal é a vaidade do poder. É o deus-dinheiro.
Aqui chegados, só há uma saída: defender o direito à manifestação do Bem: a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação.
sábado, 7 de novembro de 2026
O planeta não é um grande almoxarifado
Na semana passada, enquanto navegava pelas águas escuras do Rio Negro, no Amazonas, aproveitei para ler Futuro Ancestral, de Ailton Krenak. Não poderia ter escolhido cenário mais apropriado. Cercada por uma paisagem que parece existir em outra dimensão do tempo, encontrei nas palavras do pensador indígena uma explicação desconcertante para a crise ambiental que enfrentamos.
Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.
É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.
Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.
Pensei muito nisso durante minha passagem por Manaus, onde tive o privilégio de conhecer de perto o trabalho da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e conversar longamente com seu fundador, o professor Virgílio Viana.
A FAS é um exemplo concreto de como a conservação da floresta pode caminhar lado a lado com a melhoria das condições de vida de quem nela habita. A organização atua em centenas de comunidades amazônicas, desenvolvendo projetos que vão da geração de renda e educação à saúde, energia limpa e conectividade. Seu trabalho alcança mais de 20 mil famílias e contribui para a conservação de milhões de hectares de floresta.
Mas o que mais me chamou a atenção durante a conversa com Virgílio não foram apenas os números ou a diversidade das iniciativas. Foram os desafios de transformar experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.
Conversamos sobre o papel do financiamento climático, especialmente sobre as possibilidades e limitações do mercado de títulos verdes e sustentáveis para apoiar projetos na Amazônia. Como fazer com que os bilhões movimentados pelos mercados financeiros internacionais cheguem às comunidades que estão, todos os dias, na linha de frente da conservação?
Porque existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto em financiamento climático. Nunca tivemos tantos instrumentos financeiros, compromissos internacionais, fundos e títulos sustentáveis. E, ainda assim, fazer com que esse dinheiro chegue efetivamente às comunidades que protegem a floresta continua sendo um enorme desafio.
O mercado de títulos verdes e sustentáveis, que acompanho há anos, demonstrou que é possível mobilizar grandes volumes de capital para investimentos com benefícios ambientais e sociais. Mas projetos comunitários, muitas vezes pequenos, dispersos geograficamente e com retornos que não cabem facilmente nas planilhas tradicionais do mercado financeiro, enfrentam barreiras importantes para acessar esses recursos.
Como financiar aquilo cujo valor não pode ser medido apenas em dinheiro? Quanto vale uma floresta em pé? Quanto vale o conhecimento de uma comunidade que há gerações sabe conviver com ela? Quanto vale um rio saudável?
E foi impossível não estabelecer uma conexão entre o que ouvi de Virgílio Viana e o que lia nas páginas de Krenak.
Um dos nossos maiores equívocos, acredito, é tentar resolver a crise ambiental exclusivamente com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la. Criamos mercados para atribuir valor à natureza, mecanismos para compensar emissões, instrumentos financeiros para financiar sua proteção. Tudo isso é necessário. Mas será suficiente se continuarmos olhando para a floresta como um estoque de ativos, e não como um sistema vivo do qual dependemos?
A resposta não está em abandonar a economia, muito menos em rejeitar o financiamento climático. Está em reconhecer seus limites e, principalmente, em mudar aquilo que escolhemos valorizar.
Na próxima semana, Virgílio Viana e eu estaremos na Turquia, participando da COP31, a conferência do clima das Nações Unidas. O encontro acontece em um momento particularmente simbólico para a governança climática global.
Nesta semana, completaram-se dez anos da entrada em vigor do Acordo de Paris, o mais importante pacto internacional já firmado para enfrentar o aquecimento global. Uma década depois, a distância entre o que os países prometeram e aquilo que efetivamente entregaram continua preocupante.
Por isso, a palavra que precisa orientar as negociações em Antalya é implementação. Já sabemos, com razoável precisão, o que precisa ser feito. Conhecemos os riscos do aquecimento global, temos tecnologias disponíveis, instrumentos financeiros e evidências científicas suficientes. O grande desafio é transformar compromissos em investimentos concretos, políticas públicas e resultados que possam ser percebidos na vida das pessoas.
Isso significa fazer o dinheiro chegar onde ele é necessário. Significa financiar adaptação, resiliência, conservação e desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer que uma comunidade amazônica não pode continuar esperando enquanto o mundo discute, pela enésima vez, como mobilizar recursos para protegê-la.
Precisamos reaprender a relação com o mundo natural. Precisamos de uma educação que permita às crianças colocar as mãos na terra, compreender de onde vem o alimento, reconhecer a vida que existe nos rios e nas florestas. Uma educação que não transforme a natureza em ameaça, mercadoria ou cenário, mas que nos ensine a pertencer a ela.
A COP31 poderá produzir avanços importantes. Espero que produza. Mas nenhuma conferência internacional, por mais ambiciosa que seja, será capaz de resolver sozinha uma crise que também é de imaginação, de valores e de pertencimento.
Dez anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, temos muito a fazer. E talvez uma parte desse trabalho comece justamente onde Krenak nos convida a olhar: na infância, antes que alguém nos ensine que a terra é suja e que o mundo não passa de um almoxarifado.
Krenak diz que nossas crianças, aos sete ou oito anos, já estão sendo treinadas para ignorar o meio ambiente. Somos educados para manter distância da natureza, para desconfiar dela. Aprendemos desde cedo que a terra é suja, que não devemos colocar a mão no barro, que uma batata arrancada diretamente do chão precisa ser vista com suspeita. Melhor encontrá-la limpa, embalada e organizada na prateleira do supermercado.
É o que ele chama de uma educação sanitária. Uma educação que, em nome da higiene, da segurança e da civilização, vai progressivamente nos separando do mundo natural. Crescemos acreditando que a natureza é algo que está lá fora, distante de nós, e não aquilo de que somos parte.
Essa desconexão, argumenta Krenak, está na origem de uma visão de mundo que transforma o planeta em um gigantesco almoxarifado. Um depósito de recursos à disposição da humanidade, de onde podemos retirar tudo aquilo de que precisamos, como se as prateleiras fossem infinitas.
Pensei muito nisso durante minha passagem por Manaus, onde tive o privilégio de conhecer de perto o trabalho da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e conversar longamente com seu fundador, o professor Virgílio Viana.
A FAS é um exemplo concreto de como a conservação da floresta pode caminhar lado a lado com a melhoria das condições de vida de quem nela habita. A organização atua em centenas de comunidades amazônicas, desenvolvendo projetos que vão da geração de renda e educação à saúde, energia limpa e conectividade. Seu trabalho alcança mais de 20 mil famílias e contribui para a conservação de milhões de hectares de floresta.
Mas o que mais me chamou a atenção durante a conversa com Virgílio não foram apenas os números ou a diversidade das iniciativas. Foram os desafios de transformar experiências bem-sucedidas em soluções capazes de ganhar escala.
Conversamos sobre o papel do financiamento climático, especialmente sobre as possibilidades e limitações do mercado de títulos verdes e sustentáveis para apoiar projetos na Amazônia. Como fazer com que os bilhões movimentados pelos mercados financeiros internacionais cheguem às comunidades que estão, todos os dias, na linha de frente da conservação?
Porque existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto em financiamento climático. Nunca tivemos tantos instrumentos financeiros, compromissos internacionais, fundos e títulos sustentáveis. E, ainda assim, fazer com que esse dinheiro chegue efetivamente às comunidades que protegem a floresta continua sendo um enorme desafio.
O mercado de títulos verdes e sustentáveis, que acompanho há anos, demonstrou que é possível mobilizar grandes volumes de capital para investimentos com benefícios ambientais e sociais. Mas projetos comunitários, muitas vezes pequenos, dispersos geograficamente e com retornos que não cabem facilmente nas planilhas tradicionais do mercado financeiro, enfrentam barreiras importantes para acessar esses recursos.
Como financiar aquilo cujo valor não pode ser medido apenas em dinheiro? Quanto vale uma floresta em pé? Quanto vale o conhecimento de uma comunidade que há gerações sabe conviver com ela? Quanto vale um rio saudável?
E foi impossível não estabelecer uma conexão entre o que ouvi de Virgílio Viana e o que lia nas páginas de Krenak.
Um dos nossos maiores equívocos, acredito, é tentar resolver a crise ambiental exclusivamente com as ferramentas de uma mentalidade que ajudou a produzi-la. Criamos mercados para atribuir valor à natureza, mecanismos para compensar emissões, instrumentos financeiros para financiar sua proteção. Tudo isso é necessário. Mas será suficiente se continuarmos olhando para a floresta como um estoque de ativos, e não como um sistema vivo do qual dependemos?
A resposta não está em abandonar a economia, muito menos em rejeitar o financiamento climático. Está em reconhecer seus limites e, principalmente, em mudar aquilo que escolhemos valorizar.
Na próxima semana, Virgílio Viana e eu estaremos na Turquia, participando da COP31, a conferência do clima das Nações Unidas. O encontro acontece em um momento particularmente simbólico para a governança climática global.
Nesta semana, completaram-se dez anos da entrada em vigor do Acordo de Paris, o mais importante pacto internacional já firmado para enfrentar o aquecimento global. Uma década depois, a distância entre o que os países prometeram e aquilo que efetivamente entregaram continua preocupante.
Por isso, a palavra que precisa orientar as negociações em Antalya é implementação. Já sabemos, com razoável precisão, o que precisa ser feito. Conhecemos os riscos do aquecimento global, temos tecnologias disponíveis, instrumentos financeiros e evidências científicas suficientes. O grande desafio é transformar compromissos em investimentos concretos, políticas públicas e resultados que possam ser percebidos na vida das pessoas.
Isso significa fazer o dinheiro chegar onde ele é necessário. Significa financiar adaptação, resiliência, conservação e desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer que uma comunidade amazônica não pode continuar esperando enquanto o mundo discute, pela enésima vez, como mobilizar recursos para protegê-la.
Precisamos reaprender a relação com o mundo natural. Precisamos de uma educação que permita às crianças colocar as mãos na terra, compreender de onde vem o alimento, reconhecer a vida que existe nos rios e nas florestas. Uma educação que não transforme a natureza em ameaça, mercadoria ou cenário, mas que nos ensine a pertencer a ela.
A COP31 poderá produzir avanços importantes. Espero que produza. Mas nenhuma conferência internacional, por mais ambiciosa que seja, será capaz de resolver sozinha uma crise que também é de imaginação, de valores e de pertencimento.
Dez anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, temos muito a fazer. E talvez uma parte desse trabalho comece justamente onde Krenak nos convida a olhar: na infância, antes que alguém nos ensine que a terra é suja e que o mundo não passa de um almoxarifado.
Um país para depois da vitória
Na noite de 25 de outubro, poucas horas depois de confirmada sua vitória, Lula disse que, encerrada a eleição, já não tinha mais adversários: precisava governar para 215 milhões de brasileiros. Ninguém era obrigado a gostar do presidente eleito, acrescentou, mas ele teria de governar para todos. A frase parece simples. Não é. Uma eleição termina quando os votos são contados. As divisões que revelou não desaparecem na mesma noite. Vencedores e vencidos continuam morando nas mesmas cidades, trabalhando lado a lado e dependendo das mesmas instituições. O adversário derrotado continua sendo cidadão no dia seguinte.
O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.
Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.
O que significa, então, governar para 215 milhões? A pergunta importa ainda mais porque esta eleição produziu algo que não aparece nas planilhas de resultados. Entre os dois turnos, muita gente que recebera com desalento o resultado de 4 de outubro voltou a agir. Estudantes foram às ruas, redes se organizaram, pessoas procuraram amigos, parentes e colegas, discutiram, convenceram, buscaram votos. Muitos descobriram que sua participação podia alterar o curso de uma eleição.
Seria um enorme desperdício se essa energia se dissipasse. Uma eleição democrática precisa terminar. A cidadania que ela despertou, não. O desafio é preservá-la sem preservar a lógica da guerra eleitoral.
Como transformar, então, a energia de uma vitória política em força para construir um país que continue pertencendo também aos que foram derrotados?
Trinta e dois anos atrás, em circunstâncias incomparavelmente mais dramáticas, Nelson Mandela enfrentou uma versão extrema desse desafio. Após 27 anos na prisão, tomou posse como presidente da África do Sul, em 1994. O apartheid deixara mortos, presos, exilados, famílias destruídas e uma sociedade organizada pela segregação racial e pela exclusão da maioria negra do poder político. Mandela tinha razões pessoais para o ressentimento e legitimidade política suficiente para fazer dele um instrumento de poder. Escolheu outro caminho.
Seu governo incluiu antigos adversários. F. W. de Klerk, último presidente do regime do apartheid, tornou-se um dos vice-presidentes da nova África do Sul. Isso não apagou as diferenças entre os dois. Mandela continuou a confrontá-lo e a denunciar as responsabilidades da ordem que o mantivera preso. Trabalhar juntos era uma necessidade. Sua reconciliação não dependia de esquecer quem fizera o quê, mas de reconhecer que antigos inimigos continuariam pertencendo ao mesmo país. Democracias precisam de adversários. O perigo começa quando deixamos de reconhecer no adversário o direito de pertencer à mesma comunidade política.
A África do Sul mostrou também que reconciliação não é esquecimento. A Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas, investigou violações, propôs reparações e examinou pedidos de anistia. Se a memória diz de onde viemos, a reconciliação pergunta se, sabendo disso, ainda conseguiremos construir juntos.
Mandela compreendia, porém, que nem isso bastava. Em 1997, afirmou que não poderia haver reconciliação sem reconstrução e desenvolvimento. A história posterior da África do Sul transformaria a frase numa advertência.
A transição política foi extraordinária. Já a transformação das estruturas materiais herdadas do apartheid, muito menos. Três décadas depois, a África do Sul continua entre as sociedades mais desiguais do mundo: seu índice de Gini – numa escala em que zero representa igualdade perfeita e 1, desigualdade máxima – é de 0,541. O do Brasil, ele próprio profundamente desigual, é de 0,503. A igualdade perante a lei avançou muito mais rapidamente do que a igualdade das condições de vida.
Até onde uma sociedade consegue se reconciliar politicamente quando aquilo que materialmente separa seus cidadãos permanece quase intacto? Talvez uma reconciliação duradoura exija mais que tolerância. Exija pertencimento. É aí que a frase de Lula sobre os 215 milhões deixa de ser apenas uma declaração de boas intenções.
Governar para todos não significa abandonar o programa que venceu as eleições. Significa governar segundo um projeto sem transformar aqueles que votaram contra ele em estrangeiros dentro do próprio país. Quando um cidadão entra numa unidade do SUS e é atendido sem que ninguém lhe pergunte em quem votou, há ali algo maior do que a prestação de um serviço. Quando uma criança encontra numa escola pública professores, ciência, cultura e oportunidades que sua família talvez não pudesse lhe oferecer, acontece algo semelhante. O país lhes está dizendo: este país também é seu. Talvez devêssemos pensar essas instituições também como infraestruturas de pertencimento. Isso não exige que conservadores e progressistas concordem sobre impostos, segurança, costumes, meio ambiente ou o papel do Estado. Uma democracia saudável não é uma sociedade sem conflitos. É uma sociedade capaz de tê-los sem transformar cada divergência numa guerra entre pessoas que deixaram de se reconhecer como concidadãs.
Talvez a melhor maneira de reduzir a polarização não seja pedir aos brasileiros que esqueçam suas diferenças, mas oferecer-lhes coisas importantes para construir juntos. É também por isso que a mobilização do segundo turno não deveria desaparecer. Pessoas que descobriram que sua ação podia mudar uma eleição podem descobrir que ela também consegue mudar uma escola, um bairro, uma cidade.
Durante muito tempo, acostumamo-nos a ouvir que o Brasil era o “país do futuro”. A expressão de Stefan Zweig, originalmente esperançosa, adquiriu uma ironia que seu autor certamente não imaginava: o futuro brasileiro parecia estar sempre alguns anos adiante. Talvez esteja na hora de aposentar a expressão. Não porque o futuro tenha finalmente chegado. Nenhum futuro chega sozinho. Mas porque, entre os dois turnos, milhões descobriram que sua ação podia mudar o rumo do país.
Essa experiência pode desaparecer na memória de mais uma campanha. Ou produzir uma descoberta mais duradoura: participação não precisa ser convocada apenas quando chega a hora de votar. Mandela mostrou que sociedades podem escapar de destinos que pareciam inevitáveis. A África do Sul mostrou que nenhuma vitória política termina o trabalho da história.
O país precisa preservar a energia dos que se mobilizaram sem transformá-la em combustível para uma guerra permanente contra os que perderam. Precisa lembrar sem fazer da memória uma prisão e governar segundo o programa escolhido pela maioria sem transformar a minoria em estrangeira dentro do próprio país. Governar para 215 milhões não significa imaginar que todos passarão a pensar da mesma maneira. Significa construir um país em que possamos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo futuro. Talvez o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro no dia em que compreendermos que o futuro não é um lugar para onde estamos indo. É aquilo que 215 milhões de brasileiros forem capazes de construir juntos.
Assinar:
Postagens (Atom)


