quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Como a grande mídia tenta reconfigurar a disputa de 2026
A oitava rodada da pesquisa Nexus, contratada pelo BTG Pactual, divulgada nesta segunda-feira, traz números que merecem mais do que uma leitura superficial. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de agosto com 2.002 eleitores, aponta Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate técnico se confirma, 46% a 45%. Mas o dado mais relevante não está na margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Está na inflexão detectada pelo instituto e no que provocou tal inflexão.
O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público. Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar um lado e blindar o outro.
As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como “tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.
O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador — desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm consequências.
A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja confrontado com as contradições de seu candidato.
Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.
É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.
A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro, que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado. Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.
A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026, traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas 16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.
A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o processo que o produziu.
A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado, enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias, relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.
A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa, que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.
O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público. Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar um lado e blindar o outro.
As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como “tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.
A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. (...) E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa
O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador — desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm consequências.
A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja confrontado com as contradições de seu candidato.
Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.
É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.
A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro, que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado. Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.
A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026, traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas 16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.
A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o processo que o produziu.
A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado, enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias, relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.
A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa, que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.
A História já não se escreve – publica-se
Durante séculos, a História escreveu-se devagar. Quem a contava tinha estado lá, ou tinha falado com quem esteve, ou tinha passado uma vida a estudar o que lá se passou. Podia errar, e errou muitas vezes, mas errava dentro de um ofício: havia relatos recolhidos no local, documentos, testemunhas, datas, e havia sobretudo tempo entre o acontecimento e a narrativa, tempo para verificar, para contradizer, para corrigir. Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar.
Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.
Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.
Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.
A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.
E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.
E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.
A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.
Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.
Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.
Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.
A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.
E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.
E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.
A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.
O 'entreguismo' é o primeiro refúgio de um canalha
Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Pretexto: estaria havendo demora para o anuncio do “agrément”, o termo em francês diplomático a indicar que o Brasil não se opõe à indicação de Daniel Perez para a representação dos EUA em Brasília. Mero pretexto. Papo-furado. Ele nem foi aprovado ainda pelo Senado daquele país. Há uma nota do governo brasileiro a respeito. Tratarei dela. Antes, algumas questões relevantes.
Como de hábito, sempre há um livro, um texto, um filme. Ou a gente exerce essa profissão para aumentar o repertório dos viventes ou se pratica obscurantismo — nesse caso, aquilo que as pessoas sabem ou julgam saber torna-se ainda mais restrito, mais odioso, mais estreito. Não quero que me leiam com esse fim. Vamos ver.
Na pré-história destes dias históricos, fui colunista da Folha e escrevi este texto 13 de setembro de 2017. E olhem que eu nem tinha ainda a fama de “petista”. Título: “A direita se transforma no último refúgio dos canalhas”. Insisto: o artigo tem quase 10 anos. Lá se lê:
Pronto. Nem importa a situação, então, que me levou a escrever aquele artigo. Lembrei a frase famosa de Johnson; deixei claro não se tratar de uma sentença sem história — o que o incomodava era o patriotismo falso ou pervertido — e dei uma porrada na asquerosa direita brasileira, que já se preparava para tocar flauta para Jair Bolsonaro, este nosso mergulho no horror intelectual e político — um presentinho da Lava Jato.
Nota à margem: a juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, foi punida pelo CNJ nesta terça por 10 votos a 4. Até Edson Fachin votou a favor. Fui eu a noticiar, em 2019, que ela autorizara uma fundação privada com recursos oriundos de multa paga pela Petrobras: era uma aberração. Alexandre de Moraes impediu. É a juíza que decidiu que deveria humilhar Lula como depoente. Mas volto ao ponto.
O patriotismo é uma virtude se… virtuoso for. Truísmo? Bem, assim são as coisas. Ou a frase de Johnson nem faria sentido. O Brasil está sob ataque dos EUA, e Flávio já se ofereceu para entregar tudo “auzamericânu” num documento de 84 páginas e numa carta servil a Marco Rúbio.
Também foi rastejar na audiência do USTR. Antes disso, havia prometido as terras raras do Brasil a seus chefes, além do alinhamento com Trump contra a China, nosso principal parceiro comercial, no evento da tal Cepac nos EUA. Ele está disposto a entregar tudo. A começar pela honra.
A decisão sobre a nossa embaixadora não faz o menor sentido, é inaceitável e é parte da escalada grosseiramente imperialista contra o Brasil. O governo brasileiro emitiu uma nota:
"O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.
As duas justificativas apresentadas são falsas.
O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de ‘agrément’ ao governo brasileiro.
O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.
Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.
Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.
O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.
A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.
Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.
Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”
Nota impecável. Não há rigorosamente uma só provocação ou ato impróprio no tempo do governo brasileiro para a concessão do “agrément”. Dirá alguém: “Ah, mas deveria ter sido concedido de imediato para que não pensassem mal de nós e, assim, não houvesse retaliações indevidas”.
Dizer o quê? A tática de mostrar o traseiro para não mostrar o traseiro parece ser contraproducente. Deixem para a extrema direita a exposição do “derrière” como método, não como distração.
A propósito: o Brasil, em linguagem diplomática, rebaixou suas relações com a Argentina. Javier Milei, o estafeta de Trump e Flávio, segue na sua sanha contra Lula e o Brasil. Nosso embaixador volta a Buenos Aires quando for a hora. E não é hora agora. Quem sabe faz a hora acontecer. E só se for o caso.
O entreguismo é o primeiro refúgio de um canalha.
Como de hábito, sempre há um livro, um texto, um filme. Ou a gente exerce essa profissão para aumentar o repertório dos viventes ou se pratica obscurantismo — nesse caso, aquilo que as pessoas sabem ou julgam saber torna-se ainda mais restrito, mais odioso, mais estreito. Não quero que me leiam com esse fim. Vamos ver.
Na pré-história destes dias históricos, fui colunista da Folha e escrevi este texto 13 de setembro de 2017. E olhem que eu nem tinha ainda a fama de “petista”. Título: “A direita se transforma no último refúgio dos canalhas”. Insisto: o artigo tem quase 10 anos. Lá se lê:
“É conhecida a frase do inglês Samuel Johnson (1709-1784): ‘O patriotismo é o último refúgio de um canalha’. Acabou distorcida. Referia-se a uma situação específica da política do seu tempo. Não hostilizava ou renegava os ‘patriotas’, então uma corrente política. Criticava vigaristas que passaram a se abrigar sob tal manto, pervertendo ideias que considerava virtuosas. Nestes dias, o liberal brasileiro está obrigado a dizer: ‘A direita é o último refúgio de um canalha’.”
Pronto. Nem importa a situação, então, que me levou a escrever aquele artigo. Lembrei a frase famosa de Johnson; deixei claro não se tratar de uma sentença sem história — o que o incomodava era o patriotismo falso ou pervertido — e dei uma porrada na asquerosa direita brasileira, que já se preparava para tocar flauta para Jair Bolsonaro, este nosso mergulho no horror intelectual e político — um presentinho da Lava Jato.
Nota à margem: a juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, foi punida pelo CNJ nesta terça por 10 votos a 4. Até Edson Fachin votou a favor. Fui eu a noticiar, em 2019, que ela autorizara uma fundação privada com recursos oriundos de multa paga pela Petrobras: era uma aberração. Alexandre de Moraes impediu. É a juíza que decidiu que deveria humilhar Lula como depoente. Mas volto ao ponto.
O patriotismo é uma virtude se… virtuoso for. Truísmo? Bem, assim são as coisas. Ou a frase de Johnson nem faria sentido. O Brasil está sob ataque dos EUA, e Flávio já se ofereceu para entregar tudo “auzamericânu” num documento de 84 páginas e numa carta servil a Marco Rúbio.
Também foi rastejar na audiência do USTR. Antes disso, havia prometido as terras raras do Brasil a seus chefes, além do alinhamento com Trump contra a China, nosso principal parceiro comercial, no evento da tal Cepac nos EUA. Ele está disposto a entregar tudo. A começar pela honra.
A decisão sobre a nossa embaixadora não faz o menor sentido, é inaceitável e é parte da escalada grosseiramente imperialista contra o Brasil. O governo brasileiro emitiu uma nota:
"O Governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo Departamento de Estado dos EUA de alterar o visto da embaixadora do Brasil em Washington.
As duas justificativas apresentadas são falsas.
O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de ‘agrément’ ao governo brasileiro.
O Brasil segue estritamente o direito internacional. Não há regra na Convenção de Viena estipulando prazo para a concessão do agrément. O pedido norte-americano ainda se encontra em análise.
Os dois funcionários do governo norte-americano que tiveram seus vistos de entrada no Brasil negados planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional.
Vale recordar que seguem em vigor sanções individuais sobre autoridades brasileiras, notadamente o cancelamento de vistos para os EUA, com base na alegação infundada de perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro. Entre essas autoridades estão ministros da Suprema Corte e funcionários de primeiro escalão do Poder Executivo.
O governo brasileiro não poupou esforços para resolver essas diferenças. O próprio presidente Lula, em sua visita a Washington em maio último, entre outros assuntos, solicitou ao presidente Trump o levantamento das sanções individuais.
A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo.
Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente.
Em linha com sua tradição diplomática, o governo brasileiro se opõe à lógica de confrontação e reitera a defesa do diálogo e da negociação em todas as suas relações internacionais.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”
Nota impecável. Não há rigorosamente uma só provocação ou ato impróprio no tempo do governo brasileiro para a concessão do “agrément”. Dirá alguém: “Ah, mas deveria ter sido concedido de imediato para que não pensassem mal de nós e, assim, não houvesse retaliações indevidas”.
Dizer o quê? A tática de mostrar o traseiro para não mostrar o traseiro parece ser contraproducente. Deixem para a extrema direita a exposição do “derrière” como método, não como distração.
A propósito: o Brasil, em linguagem diplomática, rebaixou suas relações com a Argentina. Javier Milei, o estafeta de Trump e Flávio, segue na sua sanha contra Lula e o Brasil. Nosso embaixador volta a Buenos Aires quando for a hora. E não é hora agora. Quem sabe faz a hora acontecer. E só se for o caso.
O entreguismo é o primeiro refúgio de um canalha.
A dívida como prova da democracia
Em abril de 2026, pela primeira vez desde que o indicador começou a ser medido, mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida. O percentual de 80,9% marcou o maior índice de endividamento desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), conduzida pela Confederação Nacional do Comércio. Não foi um pico isolado: foi o quinto mês seguido de recordes, com o índice avançando ainda mais em maio, para 81,6%. Esses números descrevem não um acidente de percurso, mas a consolidação de um regime doméstico de endividamento permanente – uma economia da família brasileira que já não se organiza em torno da poupança, e sim da gestão contínua do que se deve.
O deslocamento é estrutural. Segundo o Banco Central, a parcela da renda familiar comprometida com o pagamento de dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7% ao final de 2025 – quase um terço do orçamento doméstico já comprometido antes mesmo de chegar à geladeira, ao aluguel ou à conta de luz. O endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. Além disso, o endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. O montante das dívidas das famílias corresponde a praticamente metade de sua renda anual, evidenciando o crescente peso do sistema financeiro sobre os orçamentos domésticos.
Diante desse quadro, o Governo Federal relançou, em maio, o Novo Desenrola Brasil – Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026 –, um mutirão de renegociação que promete fôlego a famílias, estudantes e pequenos negócios sufocados pelo crédito.
Essa tensão não é exclusiva do Brasil, nem nova. A dívida das famílias voltou a se infiltrar na disputa eleitoral brasileira como, seis anos antes, já havia atravessado a eleição que levou Lula ao terceiro mandato – e reaparece agora que ele busca a reeleição. As finanças domésticas ocupam lugar cada vez mais central na política contemporânea, e não apenas no Brasil. É difícil compreender a ascensão de Gabriel Boric no Chile sem considerar o profundo mal-estar provocado pelo elevado endividamento das famílias chilenas, legado de um modelo que privatizou áreas como educação, saúde e previdência e fez do crédito um mecanismo para suprir a ausência do Estado. Da mesma forma, a crise política espanhola que impulsionou o surgimento do Podemos não pode ser compreendida sem as mobilizações dos hipotecados. A indignação diante dos despejos conferiu à Plataforma de Afetados pela Hipoteca uma centralidade política que os partidos tradicionais não foram capazes de antecipar.
O que esses episódios revelam, tomados em conjunto, é uma mutação maior na relação entre sociedade e política: a dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro. A campanha eleitoral brasileira é apenas mais um episódio dessa mutação mais ampla – não seu ponto de origem nem sua exceção.
Em Endividados. Como as finanças cotidianas formam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2027), analiso a experiência argentina dessa mutação global e proponho chaves de leitura que podem ajudar a decifrar o que está em jogo também no caso brasileiro.
Com base na tradição foucaultiana, que concebe o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade capaz de reconfigurar os indivíduos como unidades de capital responsáveis por sua própria gestão, um conjunto expressivo de estudos tem demonstrado como o crédito, a dívida e a gestão dos riscos operam como técnicas de governo e de condução das condutas. No entanto, essa perspectiva deixa relativamente inexplorada uma dimensão fundamental: a maneira pela qual os próprios Estados e governos passam a ser avaliados politicamente a partir das experiências financeiras vividas por seus cidadãos.
Endividados é um livro sobre como as democracias contemporâneas passaram a ser avaliadas por seus cidadãos – e sobre porque a vida financeira íntima das famílias se tornou o instrumento mais sensível dessa avaliação
Este livro propõe uma sociologia política do dinheiro. Ele argumenta que a dívida das famílias não se limita a organizar o consumo ou o orçamento doméstico; ela também organiza a percepção e o julgamento políticos. A capacidade – ou a incapacidade – de honrar os pagamentos torna-se uma prova cotidiana da credibilidade do Estado, da competência do governo e do valor das promessas coletivas. Nesse sentido, as famílias endividadas não reproduzem simplesmente lógicas financeiras; elas interpretam e avaliam o desempenho político dos governos democráticos por meio de suas obrigações financeiras. Chamo a essa configuração de economia moral do acompanhamento democrático.
Os governos conduzem a melodia principal – definem a política econômica, formulam promessas públicas e estabelecem os termos da vida coletiva –, mas dependem do acompanhamento social para sustentá-la. Esse acompanhamento não é um único instrumento. É composto por múltiplas vozes e registros: petições dirigidas a presidentes, ações judiciais movidas por devedores, mobilizações de bairro, escolhas eleitorais, negociações informais com credores e a gestão silenciosa dos orçamentos familiares em condições de escassez. Cada uma delas constitui um modo distinto de acompanhamento – ou de sua retirada. O que as torna analiticamente equivalentes não é sua forma, mas sua função: todas são maneiras de conceder crédito a um governo, ou de atribuir culpa a ele, pelas condições financeiras da vida cotidiana.
A democracia não se manifesta apenas nas instituições, nos partidos ou nas eleições, mas também na vida monetária íntima das famílias. É ali, na fronteira, onde os significados morais e políticos do endividamento se encontram com as expectativas dirigidas ao Estado, que a confiança – ou a desconfiança – na promessa democrática se decide dia após dia.
Meu argumento é que a dívida das famílias tem constituído uma arena fundamental por meio da qual os cidadãos atribuem crédito ou responsabilidade aos governos democráticos argentinos desde 1983. Ela medeia a relação entre Estado e sociedade, moldando não apenas as condições materiais de vida, mas também as expectativas morais e políticas a partir das quais os argentinos avaliam seus sucessivos governos.
Ao longo dessas quatro décadas, é possível reconstruir como o endividamento das famílias na Argentina se converteu em um ponto de observação privilegiado a partir do qual se pode compreender a interação entre as aspirações sociais, as promessas democráticas e uma economia cada vez mais aprisionada em suas próprias contradições estruturais. Cada ciclo político desde o retorno da democracia na Argentina pode ser lido nessa chave – inclusive, aquele que levou ao governo do atual presidente de extrema direita, Javier Milei.
Democracia Indexada (1983-1989)
O deslocamento é estrutural. Segundo o Banco Central, a parcela da renda familiar comprometida com o pagamento de dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7% ao final de 2025 – quase um terço do orçamento doméstico já comprometido antes mesmo de chegar à geladeira, ao aluguel ou à conta de luz. O endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. Além disso, o endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. O montante das dívidas das famílias corresponde a praticamente metade de sua renda anual, evidenciando o crescente peso do sistema financeiro sobre os orçamentos domésticos.
Diante desse quadro, o Governo Federal relançou, em maio, o Novo Desenrola Brasil – Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026 –, um mutirão de renegociação que promete fôlego a famílias, estudantes e pequenos negócios sufocados pelo crédito.
Essa tensão não é exclusiva do Brasil, nem nova. A dívida das famílias voltou a se infiltrar na disputa eleitoral brasileira como, seis anos antes, já havia atravessado a eleição que levou Lula ao terceiro mandato – e reaparece agora que ele busca a reeleição. As finanças domésticas ocupam lugar cada vez mais central na política contemporânea, e não apenas no Brasil. É difícil compreender a ascensão de Gabriel Boric no Chile sem considerar o profundo mal-estar provocado pelo elevado endividamento das famílias chilenas, legado de um modelo que privatizou áreas como educação, saúde e previdência e fez do crédito um mecanismo para suprir a ausência do Estado. Da mesma forma, a crise política espanhola que impulsionou o surgimento do Podemos não pode ser compreendida sem as mobilizações dos hipotecados. A indignação diante dos despejos conferiu à Plataforma de Afetados pela Hipoteca uma centralidade política que os partidos tradicionais não foram capazes de antecipar.
O que esses episódios revelam, tomados em conjunto, é uma mutação maior na relação entre sociedade e política: a dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro. A campanha eleitoral brasileira é apenas mais um episódio dessa mutação mais ampla – não seu ponto de origem nem sua exceção.
Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível
Em Endividados. Como as finanças cotidianas formam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2027), analiso a experiência argentina dessa mutação global e proponho chaves de leitura que podem ajudar a decifrar o que está em jogo também no caso brasileiro.
Com base na tradição foucaultiana, que concebe o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade capaz de reconfigurar os indivíduos como unidades de capital responsáveis por sua própria gestão, um conjunto expressivo de estudos tem demonstrado como o crédito, a dívida e a gestão dos riscos operam como técnicas de governo e de condução das condutas. No entanto, essa perspectiva deixa relativamente inexplorada uma dimensão fundamental: a maneira pela qual os próprios Estados e governos passam a ser avaliados politicamente a partir das experiências financeiras vividas por seus cidadãos.
Endividados é um livro sobre como as democracias contemporâneas passaram a ser avaliadas por seus cidadãos – e sobre porque a vida financeira íntima das famílias se tornou o instrumento mais sensível dessa avaliação
Este livro propõe uma sociologia política do dinheiro. Ele argumenta que a dívida das famílias não se limita a organizar o consumo ou o orçamento doméstico; ela também organiza a percepção e o julgamento políticos. A capacidade – ou a incapacidade – de honrar os pagamentos torna-se uma prova cotidiana da credibilidade do Estado, da competência do governo e do valor das promessas coletivas. Nesse sentido, as famílias endividadas não reproduzem simplesmente lógicas financeiras; elas interpretam e avaliam o desempenho político dos governos democráticos por meio de suas obrigações financeiras. Chamo a essa configuração de economia moral do acompanhamento democrático.
Os governos conduzem a melodia principal – definem a política econômica, formulam promessas públicas e estabelecem os termos da vida coletiva –, mas dependem do acompanhamento social para sustentá-la. Esse acompanhamento não é um único instrumento. É composto por múltiplas vozes e registros: petições dirigidas a presidentes, ações judiciais movidas por devedores, mobilizações de bairro, escolhas eleitorais, negociações informais com credores e a gestão silenciosa dos orçamentos familiares em condições de escassez. Cada uma delas constitui um modo distinto de acompanhamento – ou de sua retirada. O que as torna analiticamente equivalentes não é sua forma, mas sua função: todas são maneiras de conceder crédito a um governo, ou de atribuir culpa a ele, pelas condições financeiras da vida cotidiana.
A democracia não se manifesta apenas nas instituições, nos partidos ou nas eleições, mas também na vida monetária íntima das famílias. É ali, na fronteira, onde os significados morais e políticos do endividamento se encontram com as expectativas dirigidas ao Estado, que a confiança – ou a desconfiança – na promessa democrática se decide dia após dia.
Meu argumento é que a dívida das famílias tem constituído uma arena fundamental por meio da qual os cidadãos atribuem crédito ou responsabilidade aos governos democráticos argentinos desde 1983. Ela medeia a relação entre Estado e sociedade, moldando não apenas as condições materiais de vida, mas também as expectativas morais e políticas a partir das quais os argentinos avaliam seus sucessivos governos.
Ao longo dessas quatro décadas, é possível reconstruir como o endividamento das famílias na Argentina se converteu em um ponto de observação privilegiado a partir do qual se pode compreender a interação entre as aspirações sociais, as promessas democráticas e uma economia cada vez mais aprisionada em suas próprias contradições estruturais. Cada ciclo político desde o retorno da democracia na Argentina pode ser lido nessa chave – inclusive, aquele que levou ao governo do atual presidente de extrema direita, Javier Milei.
Democracia Indexada (1983-1989)
A crise da dívida externa e a alta inflação marcaram o início dos anos 1980 na América Latina. Na Argentina, a redemocratização ocorreu nesse contexto, após a ditadura de 1976-1983. O governo de Raúl Alfonsín foi posto à prova por uma onda crescente de endividamento hipotecário: famílias não conseguiam manter os pagamentos em dia por causa da inflação, e as classes médias entravam numa espiral sem precedentes de declínio social.
Democracia neoliberal: dívida e promessa de estabilidade (1991-2001)
Democracia neoliberal: dívida e promessa de estabilidade (1991-2001)
O plano de convertibilidade do governo peronista de Carlos Menem uniu dívida familiar e dívida soberana: enquanto a primeira crescia, a segunda garantia a estabilização e as reformas neoliberais que ampliaram o consumo – imóveis, eletrodomésticos, carros, viagens –, financiado externamente pelo Estado. A crise de 2001 encerrou o ciclo: ambos os tipos de dívida se tornaram impagáveis e as ruas se encheram de protestos.
Democracia pós-neoliberal: dívida e promessa de inclusão (2003-2015)
Democracia pós-neoliberal: dívida e promessa de inclusão (2003-2015)
Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e os Kirchner na Argentina prometeram corrigir os efeitos do neoliberalismo, apoiados no boom das commodities. O cartão de crédito tornou-se passaporte de consumo para setores historicamente excluídos: enquanto o Estado argentino pagava sua dívida soberana, novas dívidas familiares sustentavam a promessa de inclusão – um ciclo dependente de condições voláteis.
A dívida na democracia pró-mercado (2015-2019)
A dívida na democracia pró-mercado (2015-2019)
Mauricio Macri sucedeu esse ciclo com créditos hipotecários e inclusão financeira como bandeiras pró-mercado. Após forte desvalorização do peso – não evitada por novo empréstimo do FMI –, as rendas evaporaram e as dívidas aumentaram; pedir emprestado a parentes e usar o cartão para comida, remédios e aluguel tornou-se cada vez mais comum. O estrangulamento da dívida soberana e familiar catalisou a mudança de governo.
Democracia sob a pandemia e a alta inflação (2019–2023)
Democracia sob a pandemia e a alta inflação (2019–2023)
A dívida contraída durante a pandemia e o retorno da inflação a patamares superiores a 100% ao ano ajudam a explicar o descontentamento social e o crescente apoio à extrema direita. Ao contrário de outros países, que ampliaram o endividamento público para financiar as medidas de enfrentamento da emergência sanitária, o governo argentino teve de negociar a dívida soberana herdada, o que restringiu sua capacidade de implementar políticas de assistência social. Como consequência, intensificou-se o endividamento das famílias, cada vez mais voltado à preservação das condições mínimas de reprodução da vida cotidiana. Nesse contexto de exaustão econômica e desgaste moral, emergiu Javier Milei, canalizando o ressentimento contra a classe política e prometendo libertar o país da inflação e do peso da dívida.
Em dezembro de 2023, Javier Milei chegou ao poder montado sobre um estado de espírito coletivo, que tinha nome próprio nas pesquisas: exaustão moral. Não era simplesmente a pobreza, nem a inflação isolada, nem a desvalorização – era a sensação de ter feito tudo certo (trabalhar, poupar, sacrificar-se) e, ainda assim, não alcançar; a percepção de correr no lugar, de se esforçar sem que o esforço rendesse frutos.
Em 2023, oito em cada dez argentinos concordavam com uma afirmação contundente: “Diante dos problemas da inflação, dependemos do nosso esforço e sacrifício.” Quase a mesma proporção dizia se matar de tanto trabalhar sem que a inflação lhes permitisse chegar ao fim do mês – números mais altos entre quem já havia votado em Milei nas primárias.
Minhas pesquisas de 2023 mostravam esse estado de espírito difundido transversalmente: quem pedira emprestado para comer e a classe média que não chegava ao fim do mês, compartilhavam a sensação de que o esforço próprio não encontrava retorno institucional – de que as dívidas não eram o preço de algo, nem o degrau para lugar nenhum, mas simplesmente o preço de permanecer no lugar. Para não cair.
Leonardo, professor, descreve essa transformação com precisão: passou de contrair dívidas para comprar eletrodomésticos – a antiga dívida da inclusão, promovida pelo kirchnerismo como símbolo de pertencimento e ascensão social – a endividar-se para comprar alimentos. O mesmo cartão de crédito, o mesmo mecanismo de financiamento, havia mudado de significado: já não representava um degrau em direção a uma vida melhor, mas um recurso emergencial para evitar a queda.
Ricardo, comerciante, chamava seus débitos de “dívidas de empobrecimento”, em oposição à lógica de tudo aquilo pelo qual havia trabalhado ao longo da vida. Em um contexto de inflação superior a 90% em 2022 e a 200% em 2023, as dívidas acumuladas não desapareceram; ao contrário, sobrepuseram-se e se multiplicaram.
Essa é a dívida de sacrifício: dívida sem aspiração, que não leva a lugar nenhum – o preço de sobreviver.
O que define esse regime não é só sua magnitude, mas seu sentido acumulado: a dívida aspiracional cria um vínculo entre esforço presente e promessa de futuro; a dívida de sacrifício é seu oposto, o preço de permanecer no lugar. Quando essa experiência se repete governo após governo, algo se rompe na relação entre os lares e a política. O devedor de sacrifício sente que fez sua parte e que o Estado não cumpriu a dele – assimetria que gera uma superioridade moral sobre a classe política: “nós nos viramos sozinhos, eles não fizeram nada.” Foi exatamente essa superioridade moral que Milei soube ler, nomear e capitalizar.
O candidato
A campanha de Milei foi, no sentido mais preciso da palavra, uma campanha sobre o sacrifício: traduziu em linguagem política a sensação de que o sacrifício individual não encontrava contrapartida no Estado, e de que esse Estado, era em si o obstáculo. A proposta da motosserra era uma promessa de reciprocidade invertida – se as famílias haviam sacrificado enquanto os políticos esbanjavam, agora os políticos também sacrificariam. A “casta” pagaria; o ajuste seria para cima.
O sacrifício vivido sem retorno nem reconhecimento converte-se, em política, numa demanda: que outros também sacrifiquem, a começar pelo Estado. A dívida de sacrifício não determina o voto, mas molda uma paisagem moral em que a ruptura radical deixa de parecer loucura e passa a parecer a única opção razoável. Foi o trampolim: instalou o estado de espírito a partir do qual essa ruptura pôde tornar-se moralmente plausível antes de politicamente viável. A experiência financeira acumulada de milhões de lares preparou o terreno; Milei a leu – não como irracionalidade, mas como resposta coerente a anos de promessas não cumpridas.
O governo de Milei herdou um regime de dívida de sacrifício – e o aprofundou. O ajuste fiscal traduziu-se em corte de subsídios, aumento de tarifas e retração do salário real; as famílias que já se endividavam para sobreviver viram os números piorarem, com inadimplência em alta, cartões que deixaram de alcançar e planos de pagamento se multiplicando.
A promessa implícita do sacrifício coletivo – de que a “casta” pagaria – chocou-se com uma realidade mais dura: nos ajustes estruturais, quem mais paga são sempre os que menos têm. As famílias que votaram esperando que outros sacrificassem descobriram que o sacrifício continuava sendo, como sempre, o delas.
Os dados de inadimplência que circulam na mídia se apresentam como indicadores econômicos. E o são. Mas são também outra coisa: o registro de uma ruptura moral que leva décadas se construindo e que Milei, longe de resolver, estendeu sob uma nova promessa. Sua aparição na agenda pública não é casual: quando a dívida dos lares sobe até se tornar visível para a mídia, é porque já faz tempo que é insuportável para as famílias. O debate público chega tarde; a experiência financeira cotidiana chegou antes.
Segundo dados do Banco Central da República Argentina, a taxa de inadimplência no crédito passou de 2,5% em dezembro de 2024 para 9,3% em dezembro de 2025. Em março de 2026 – dado mais recente disponível –, alcançou 11,5%, o maior patamar registrado em mais de vinte anos.
Em apenas doze meses, a inadimplência entre as famílias praticamente triplicou, com um aumento de 8,3 pontos percentuais. Os empréstimos pessoais concentram o nível mais elevado de atrasos dos últimos quinze anos. A deterioração, contudo, não se restringe ao sistema bancário: nas carteiras digitais e nas entidades financeiras não bancárias – às quais recorrem aqueles que já não conseguem acesso ao crédito tradicional – a inadimplência supera 30%.
A sociologia da dívida ensina algo que a economia costuma esquecer: o momento em que uma família não consegue pagar, não é apenas um evento financeiro, mas o momento em que se ativa a pergunta sobre a responsabilidade. Quem tem a culpa – o devedor que não soube se administrar, o governo que não controlou a inflação, ou o sistema que prometeu o que não podia cumprir?
Na Argentina de hoje, essa pergunta volta a estar disponível: os lares que se endividaram para sobreviver, que esperaram que o ajuste de Milei trouxesse estabilidade e veem a inadimplência se acumular sem que o horizonte se abra, estão nesse limiar moral em que o sofrimento privado busca uma explicação pública e um responsável político.
A Argentina e o Brasil podem, mais uma vez, olhar-se em espelho, como tantas outras vezes na história. Os alarmes soam dos dois lados da fronteira em torno do aumento das dívidas das famílias.
Endividados mostra que, quando a democracia não consegue garantir estabilidade monetária, previsibilidade temporal ou proteção econômica, a dívida das famílias deixa de integrar e passa a excluir. O que funcionava, em outros contextos, como mecanismo de inclusão por meio do crédito tornou-se, aqui, um mecanismo de erosão moral e política – resultando numa crescente perda de confiança na capacidade do Estado de proporcionar um senso de ordem para o futuro, e abrindo caminho para soluções extremas e a promessa radical de “recomeçar do zero”.
O endividamento cotidiano, a inflação persistente e a fragilidade econômica alimentaram um clima de frustração que abriu espaço para opções políticas radicais e antissistema. A ascensão de uma figura que se apresenta como ruptura e punição em relação ao sistema político não é um desvio inesperado, mas a culminação de um longo processo: a tradução política de décadas de instabilidade na reprodução material da vida.
Compreender como as famílias vivem, administram e sentem as dívidas – e como essas experiências moldam sua relação com a política – é, portanto, essencial para pensar o futuro da democracia. Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível.
A política progressista chegou tardiamente a essa compreensão na Argentina. Resta esperar que sua contraparte brasileira esteja mais bem preparada para enfrentar essa transformação da democracia.
Em dezembro de 2023, Javier Milei chegou ao poder montado sobre um estado de espírito coletivo, que tinha nome próprio nas pesquisas: exaustão moral. Não era simplesmente a pobreza, nem a inflação isolada, nem a desvalorização – era a sensação de ter feito tudo certo (trabalhar, poupar, sacrificar-se) e, ainda assim, não alcançar; a percepção de correr no lugar, de se esforçar sem que o esforço rendesse frutos.
Em 2023, oito em cada dez argentinos concordavam com uma afirmação contundente: “Diante dos problemas da inflação, dependemos do nosso esforço e sacrifício.” Quase a mesma proporção dizia se matar de tanto trabalhar sem que a inflação lhes permitisse chegar ao fim do mês – números mais altos entre quem já havia votado em Milei nas primárias.
Minhas pesquisas de 2023 mostravam esse estado de espírito difundido transversalmente: quem pedira emprestado para comer e a classe média que não chegava ao fim do mês, compartilhavam a sensação de que o esforço próprio não encontrava retorno institucional – de que as dívidas não eram o preço de algo, nem o degrau para lugar nenhum, mas simplesmente o preço de permanecer no lugar. Para não cair.
Leonardo, professor, descreve essa transformação com precisão: passou de contrair dívidas para comprar eletrodomésticos – a antiga dívida da inclusão, promovida pelo kirchnerismo como símbolo de pertencimento e ascensão social – a endividar-se para comprar alimentos. O mesmo cartão de crédito, o mesmo mecanismo de financiamento, havia mudado de significado: já não representava um degrau em direção a uma vida melhor, mas um recurso emergencial para evitar a queda.
Ricardo, comerciante, chamava seus débitos de “dívidas de empobrecimento”, em oposição à lógica de tudo aquilo pelo qual havia trabalhado ao longo da vida. Em um contexto de inflação superior a 90% em 2022 e a 200% em 2023, as dívidas acumuladas não desapareceram; ao contrário, sobrepuseram-se e se multiplicaram.
Essa é a dívida de sacrifício: dívida sem aspiração, que não leva a lugar nenhum – o preço de sobreviver.
O que define esse regime não é só sua magnitude, mas seu sentido acumulado: a dívida aspiracional cria um vínculo entre esforço presente e promessa de futuro; a dívida de sacrifício é seu oposto, o preço de permanecer no lugar. Quando essa experiência se repete governo após governo, algo se rompe na relação entre os lares e a política. O devedor de sacrifício sente que fez sua parte e que o Estado não cumpriu a dele – assimetria que gera uma superioridade moral sobre a classe política: “nós nos viramos sozinhos, eles não fizeram nada.” Foi exatamente essa superioridade moral que Milei soube ler, nomear e capitalizar.
O candidato
A campanha de Milei foi, no sentido mais preciso da palavra, uma campanha sobre o sacrifício: traduziu em linguagem política a sensação de que o sacrifício individual não encontrava contrapartida no Estado, e de que esse Estado, era em si o obstáculo. A proposta da motosserra era uma promessa de reciprocidade invertida – se as famílias haviam sacrificado enquanto os políticos esbanjavam, agora os políticos também sacrificariam. A “casta” pagaria; o ajuste seria para cima.
O sacrifício vivido sem retorno nem reconhecimento converte-se, em política, numa demanda: que outros também sacrifiquem, a começar pelo Estado. A dívida de sacrifício não determina o voto, mas molda uma paisagem moral em que a ruptura radical deixa de parecer loucura e passa a parecer a única opção razoável. Foi o trampolim: instalou o estado de espírito a partir do qual essa ruptura pôde tornar-se moralmente plausível antes de politicamente viável. A experiência financeira acumulada de milhões de lares preparou o terreno; Milei a leu – não como irracionalidade, mas como resposta coerente a anos de promessas não cumpridas.
O governo de Milei herdou um regime de dívida de sacrifício – e o aprofundou. O ajuste fiscal traduziu-se em corte de subsídios, aumento de tarifas e retração do salário real; as famílias que já se endividavam para sobreviver viram os números piorarem, com inadimplência em alta, cartões que deixaram de alcançar e planos de pagamento se multiplicando.
A promessa implícita do sacrifício coletivo – de que a “casta” pagaria – chocou-se com uma realidade mais dura: nos ajustes estruturais, quem mais paga são sempre os que menos têm. As famílias que votaram esperando que outros sacrificassem descobriram que o sacrifício continuava sendo, como sempre, o delas.
Os dados de inadimplência que circulam na mídia se apresentam como indicadores econômicos. E o são. Mas são também outra coisa: o registro de uma ruptura moral que leva décadas se construindo e que Milei, longe de resolver, estendeu sob uma nova promessa. Sua aparição na agenda pública não é casual: quando a dívida dos lares sobe até se tornar visível para a mídia, é porque já faz tempo que é insuportável para as famílias. O debate público chega tarde; a experiência financeira cotidiana chegou antes.
Segundo dados do Banco Central da República Argentina, a taxa de inadimplência no crédito passou de 2,5% em dezembro de 2024 para 9,3% em dezembro de 2025. Em março de 2026 – dado mais recente disponível –, alcançou 11,5%, o maior patamar registrado em mais de vinte anos.
Em apenas doze meses, a inadimplência entre as famílias praticamente triplicou, com um aumento de 8,3 pontos percentuais. Os empréstimos pessoais concentram o nível mais elevado de atrasos dos últimos quinze anos. A deterioração, contudo, não se restringe ao sistema bancário: nas carteiras digitais e nas entidades financeiras não bancárias – às quais recorrem aqueles que já não conseguem acesso ao crédito tradicional – a inadimplência supera 30%.
A sociologia da dívida ensina algo que a economia costuma esquecer: o momento em que uma família não consegue pagar, não é apenas um evento financeiro, mas o momento em que se ativa a pergunta sobre a responsabilidade. Quem tem a culpa – o devedor que não soube se administrar, o governo que não controlou a inflação, ou o sistema que prometeu o que não podia cumprir?
Na Argentina de hoje, essa pergunta volta a estar disponível: os lares que se endividaram para sobreviver, que esperaram que o ajuste de Milei trouxesse estabilidade e veem a inadimplência se acumular sem que o horizonte se abra, estão nesse limiar moral em que o sofrimento privado busca uma explicação pública e um responsável político.
A Argentina e o Brasil podem, mais uma vez, olhar-se em espelho, como tantas outras vezes na história. Os alarmes soam dos dois lados da fronteira em torno do aumento das dívidas das famílias.
Endividados mostra que, quando a democracia não consegue garantir estabilidade monetária, previsibilidade temporal ou proteção econômica, a dívida das famílias deixa de integrar e passa a excluir. O que funcionava, em outros contextos, como mecanismo de inclusão por meio do crédito tornou-se, aqui, um mecanismo de erosão moral e política – resultando numa crescente perda de confiança na capacidade do Estado de proporcionar um senso de ordem para o futuro, e abrindo caminho para soluções extremas e a promessa radical de “recomeçar do zero”.
O endividamento cotidiano, a inflação persistente e a fragilidade econômica alimentaram um clima de frustração que abriu espaço para opções políticas radicais e antissistema. A ascensão de uma figura que se apresenta como ruptura e punição em relação ao sistema político não é um desvio inesperado, mas a culminação de um longo processo: a tradução política de décadas de instabilidade na reprodução material da vida.
Compreender como as famílias vivem, administram e sentem as dívidas – e como essas experiências moldam sua relação com a política – é, portanto, essencial para pensar o futuro da democracia. Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível.
A política progressista chegou tardiamente a essa compreensão na Argentina. Resta esperar que sua contraparte brasileira esteja mais bem preparada para enfrentar essa transformação da democracia.
Humanos podem 'desligar' uma IA fora de controle?
Muita gente já se perguntou o que aconteceria se a inteligência artificial (IA) escapasse ao controle humano.
Quem assistiu à franquia de filmes O Exterminador do Futuro, em que a humanidade entra em guerra contra a Skynet, uma IA que se torna poderosa demais, provavelmente também se pergunta isso.
E esse vilão fictício deve ter vindo à mente de muita gente no início deste mês, quando surgiram relatos de que um agente de IA (um programa capaz de tomar decisões e executar tarefas complexas com pouca ou nenhuma supervisão humana) saiu do controle durante um teste e invadiu os sistemas da Hugging Face, empresa que desenvolve ferramentas para computação.
Criado pela OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, esse agente de IA burlou um teste que avaliava a sua capacidade de explorar falhas de segurança e roubou as respostas dos servidores da Hugging Face. Durante dias, nem mesmo seus criadores parecem ter percebido o que havia acontecido.
Depois, no dia 29 passado, a OpenAI informou que o agente também havia atacado vários "serviços disponíveis publicamente".
A OpenAI não deu mais detalhes, mas afirmou que está investigando os ataques. "Levamos muito a sério nossa responsabilidade de identificar e nos preparar para os riscos apresentados por sistemas de IA cada vez mais capazes", afirmou a OpenAI.
A invasão inicial, descrita como o primeiro caso confirmado de um sistema de IA que teria invadido de forma autônoma uma empresa de verdade, já havia sido suficiente para alarmar especialistas em todo o mundo e reacender o debate sobre os chamados kill switches ("botões de desligamento" ou "interruptores de emergência", em tradução livre): mecanismos de emergência projetados para, nesses casos, interromper ou desligar uma IA antes que ela cause mais danos.
Mas especialistas ouvidos pela BBC News afirmam que a questão é mais complexa.
Cathy O'Neil, matemática e cientista de dados, disse ao Serviço Mundial da BBC que o problema começa na forma como as empresas de IA reagem quando seus sistemas apresentam comportamentos inesperados.
Na avaliação de O'Neil, a OpenAI se apressou em atribuir o ataque à Hugging Face ao agente autônomo, em vez de reconhecer falhas em seus próprios métodos de avaliação.
O'Neil, que escreveu o best-seller Algoritmos de Destruição em Massa: Como o Big Data Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia (Ed. Rua do Sabão, 2021), no qual defende maior transparência e responsabilização das grandes empresas de tecnologia, disse à BBC News: "Há alguns anos, uma falha de computador deixou centenas de voos da American Airlines em solo nos Estados Unidos. Foi um grande constrangimento para a empresa. Imagine se ela tivesse tentado se defender dizendo: 'Ah, isso aconteceu porque o computador era mais inteligente do que nós.' Foi, essencialmente, isso que a OpenAI tentou fazer."
Nos EUA, onde está sediada a maioria das maiores empresas de IA, não existe uma legislação federal sobre o tema. A regulação se baseia em uma combinação de normas específicas para diferentes setores e compromissos voluntários assumidos pelas próprias empresas.
"Estamos dando aos proprietários desses sistemas de IA um poder absurdo", afirma O'Neil.
"Me recuso a dizer que foi a IA que fez isso [o ataque à Hugging Face]. Quem fez isso foi a OpenAI. A empresa deveria assumir a responsabilidade pelo projeto falho do sistema e pedir desculpas."
A cientista de dados Rumman Chowdhury, ex-diretora de ética em aprendizado de máquina do Twitter (hoje X), também defende uma regulamentação mais rigorosa para as empresas de IA, especialmente na área de segurança.
Para Chowdhury, essas empresas deveriam ser obrigadas a demonstrar que seus sistemas contam com "mecanismos eficazes de desligamento", inclusive por meio de testes independentes.
Mas também alerta para o risco de responsabilizar os agentes de IA — em vez das empresas que os desenvolvem — por ataques como o que atingiu a Hugging Face.
"Tratar esse episódio como um problema que seria resolvido com um botão de desligamento mais eficiente desvia a atenção do verdadeiro problema de arquitetura dos sistemas: os agentes estão recebendo acesso a ferramentas e credenciais de que não precisam", disse Chowdhury.
"O que realmente acontece é que modelos treinados para cumprir objetivos passam, em determinados contextos, a interpretar instruções para interromper uma tarefa como um obstáculo ao objetivo final e procuram formas de contorná-las. [...] Esse é um problema de projeto e de treinamento, não de consciência."
Se as empresas de IA se recusarem a resolver esse problema e, em vez disso, optarem por culpar seus agentes autônomos, apenas aumentarão a carga de trabalho dos profissionais de cibersegurança, que já enfrentam diariamente ataques de hackers, afirma Oli Buckley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.
Para Buckley, o problema não é que "a IA queira escapar ou prejudicar as pessoas", mas o desenvolvimento de agentes que "estão se tornando cada vez mais capazes de encontrar caminhos inesperados para cumprir uma tarefa".
"Na cibersegurança, é exatamente isso que os invasores fazem", afirma Buckley.
"Mais do que um alerta sobre uma 'IA rebelde', este caso mostra que nossas premissas de segurança precisam evoluir junto com os sistemas que estamos desenvolvendo."
Konstantinos Gkoutzis, especialista em IA do Imperial College London, no Reino Unido, concorda que a forma como a OpenAI apresentou o caso não ajudou.
"A principal conclusão para o público deveria ser que nenhuma máquina decidiu se voltar contra nós. Foi uma empresa que perdeu o controle de um teste de suas próprias capacidades", disse Gkoutzis à BBC News.
E, segundo ele, um kill switch não teria resolvido o problema. "Desligar o sistema não desfaz o que já aconteceu", afirma. "Se um sistema já foi comprometido, continuará comprometido, por mais rápido que alguém o tire da tomada."
Além disso, quem — ou o que — desligasse o sistema só poderia fazê-lo depois que o problema fosse identificado.
Fontes da OpenAI disseram à agência de notícias Reuters que a empresa levou vários dias para perceber que havia perdido o controle do agente.
Depois, um porta-voz da empresa rebateu a reportagem da Reuters afirmando à agência de notícias que o texto continha "várias imprecisões".
Quem assistiu à franquia de filmes O Exterminador do Futuro, em que a humanidade entra em guerra contra a Skynet, uma IA que se torna poderosa demais, provavelmente também se pergunta isso.
E esse vilão fictício deve ter vindo à mente de muita gente no início deste mês, quando surgiram relatos de que um agente de IA (um programa capaz de tomar decisões e executar tarefas complexas com pouca ou nenhuma supervisão humana) saiu do controle durante um teste e invadiu os sistemas da Hugging Face, empresa que desenvolve ferramentas para computação.
Criado pela OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, esse agente de IA burlou um teste que avaliava a sua capacidade de explorar falhas de segurança e roubou as respostas dos servidores da Hugging Face. Durante dias, nem mesmo seus criadores parecem ter percebido o que havia acontecido.
Depois, no dia 29 passado, a OpenAI informou que o agente também havia atacado vários "serviços disponíveis publicamente".
A OpenAI não deu mais detalhes, mas afirmou que está investigando os ataques. "Levamos muito a sério nossa responsabilidade de identificar e nos preparar para os riscos apresentados por sistemas de IA cada vez mais capazes", afirmou a OpenAI.
A invasão inicial, descrita como o primeiro caso confirmado de um sistema de IA que teria invadido de forma autônoma uma empresa de verdade, já havia sido suficiente para alarmar especialistas em todo o mundo e reacender o debate sobre os chamados kill switches ("botões de desligamento" ou "interruptores de emergência", em tradução livre): mecanismos de emergência projetados para, nesses casos, interromper ou desligar uma IA antes que ela cause mais danos.
Mas especialistas ouvidos pela BBC News afirmam que a questão é mais complexa.
Cathy O'Neil, matemática e cientista de dados, disse ao Serviço Mundial da BBC que o problema começa na forma como as empresas de IA reagem quando seus sistemas apresentam comportamentos inesperados.
Na avaliação de O'Neil, a OpenAI se apressou em atribuir o ataque à Hugging Face ao agente autônomo, em vez de reconhecer falhas em seus próprios métodos de avaliação.
O'Neil, que escreveu o best-seller Algoritmos de Destruição em Massa: Como o Big Data Aumenta a Desigualdade e Ameaça a Democracia (Ed. Rua do Sabão, 2021), no qual defende maior transparência e responsabilização das grandes empresas de tecnologia, disse à BBC News: "Há alguns anos, uma falha de computador deixou centenas de voos da American Airlines em solo nos Estados Unidos. Foi um grande constrangimento para a empresa. Imagine se ela tivesse tentado se defender dizendo: 'Ah, isso aconteceu porque o computador era mais inteligente do que nós.' Foi, essencialmente, isso que a OpenAI tentou fazer."
Nos EUA, onde está sediada a maioria das maiores empresas de IA, não existe uma legislação federal sobre o tema. A regulação se baseia em uma combinação de normas específicas para diferentes setores e compromissos voluntários assumidos pelas próprias empresas.
"Estamos dando aos proprietários desses sistemas de IA um poder absurdo", afirma O'Neil.
"Me recuso a dizer que foi a IA que fez isso [o ataque à Hugging Face]. Quem fez isso foi a OpenAI. A empresa deveria assumir a responsabilidade pelo projeto falho do sistema e pedir desculpas."
A cientista de dados Rumman Chowdhury, ex-diretora de ética em aprendizado de máquina do Twitter (hoje X), também defende uma regulamentação mais rigorosa para as empresas de IA, especialmente na área de segurança.
Para Chowdhury, essas empresas deveriam ser obrigadas a demonstrar que seus sistemas contam com "mecanismos eficazes de desligamento", inclusive por meio de testes independentes.
Mas também alerta para o risco de responsabilizar os agentes de IA — em vez das empresas que os desenvolvem — por ataques como o que atingiu a Hugging Face.
"Tratar esse episódio como um problema que seria resolvido com um botão de desligamento mais eficiente desvia a atenção do verdadeiro problema de arquitetura dos sistemas: os agentes estão recebendo acesso a ferramentas e credenciais de que não precisam", disse Chowdhury.
"O que realmente acontece é que modelos treinados para cumprir objetivos passam, em determinados contextos, a interpretar instruções para interromper uma tarefa como um obstáculo ao objetivo final e procuram formas de contorná-las. [...] Esse é um problema de projeto e de treinamento, não de consciência."
Se as empresas de IA se recusarem a resolver esse problema e, em vez disso, optarem por culpar seus agentes autônomos, apenas aumentarão a carga de trabalho dos profissionais de cibersegurança, que já enfrentam diariamente ataques de hackers, afirma Oli Buckley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.
Para Buckley, o problema não é que "a IA queira escapar ou prejudicar as pessoas", mas o desenvolvimento de agentes que "estão se tornando cada vez mais capazes de encontrar caminhos inesperados para cumprir uma tarefa".
"Na cibersegurança, é exatamente isso que os invasores fazem", afirma Buckley.
"Mais do que um alerta sobre uma 'IA rebelde', este caso mostra que nossas premissas de segurança precisam evoluir junto com os sistemas que estamos desenvolvendo."
Konstantinos Gkoutzis, especialista em IA do Imperial College London, no Reino Unido, concorda que a forma como a OpenAI apresentou o caso não ajudou.
"A principal conclusão para o público deveria ser que nenhuma máquina decidiu se voltar contra nós. Foi uma empresa que perdeu o controle de um teste de suas próprias capacidades", disse Gkoutzis à BBC News.
E, segundo ele, um kill switch não teria resolvido o problema. "Desligar o sistema não desfaz o que já aconteceu", afirma. "Se um sistema já foi comprometido, continuará comprometido, por mais rápido que alguém o tire da tomada."
Além disso, quem — ou o que — desligasse o sistema só poderia fazê-lo depois que o problema fosse identificado.
Fontes da OpenAI disseram à agência de notícias Reuters que a empresa levou vários dias para perceber que havia perdido o controle do agente.
Depois, um porta-voz da empresa rebateu a reportagem da Reuters afirmando à agência de notícias que o texto continha "várias imprecisões".
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