quarta-feira, 1 de julho de 2026
Humanos como não-animais
Plenamente cientes de sermos mamíferos, nós humanos a toda hora nos diferenciamos dos outros animais. Esse viés, cuja origem se encontra principalmente em algumas religiões, é a cada dia mais perigoso.
Veja-se a primeira frase de artigo publicado na excelente revista “Knowable”: “O calor excessivo afeta os humanos e os animais”. Se somos animais, não seria suficiente e mais correto dizer que muito calor afeta todos os animais? Apesar dessa falha, as informações relatadas são de enorme atualidade e importância.
São inúmeras pesquisas demonstrando como o elevado calor afeta animais. Já no início do século XIX o estatístico belga Adolphe Quetelet notou que havia um pico de crimes violentos na França durante o verão. Pesquisas posteriores mostraram relação entre forte calor e aumento de violência armada, de hospitalizações por problemas mentais, suicídios e jogos de azar. Notou-se também que os cães tendem a morder humanos com mais frequência em dias mais quentes, mesmo descontando o fato de os humanos saírem mais às ruas com seus bichinhos em dias mais aquecidos. A dúvida persistiu sobre se os cães atacavam mais por estarem desequilibrados, ou se os humanos, também fora do prumo em razão da quentura, irritavam mais seus melhores amigos!
Na canícula, os animais humanos têm maior dificuldade de tomar decisões e sua memória se degrada. Em escolas sem climatização, o desempenho dos alunos cai. Diversas espécies, inclusive peixes e o orgulhoso autodenominado sapiens, se tornam mais agressivas em ondas de calor. Um estudo chinês de 2025 mostrou que até serpentes e gatos tornaram-se agressivos em condições de canícula. Apesar de conviver com o general inverno, terá o Putin atacado a Ucrânia em razão de um desequilíbrio mental decorrente do aquecimento? E o genocida Netanyahu, promove a matança por motivos semelhantes? E Trump, que suponho viver 95% do tempo em ambientes com temperatura controlada, ataca por problemas mentais de igual origem?
Afora esses potentados, também abelhas e outros insetos, aparentemente tão frágeis, são afetados e acabam por revelarem-se poderosos. Sem mecanismos de ajuste da temperatura do corpo, as produtoras de mel ficam desorientadas sob forte calor, seus cérebros superaquecem e, para resfriá-los, borrifam água em suas cabeças. Mesmo assim, perdem o rumo e desconhecem as flores certas para colher o pólen. O poder das abelhas se revela porque, sem elas, sabemos que não haverá humanos, em razão da queda na polinização das culturas. E o Brasil, grande produtor agrícola, como ficará, com sua população mais agressiva e carente de comida?
Amanda Ridley, pesquisadora do tema, aponta que com ondas de calor mais fortes e longas, a capacidade mental das espécies – sem separar a humana – será reduzida e diz que “a capacidade de adaptar seu comportamento é ainda mais essencial num clima que muda”.
Humanos com menor capacidade mental, mais agressivos, resistentes a mudar comportamentos e sofrendo a concorrência da inteligência artificial.
Qual futuro legaremos a nossos filhos e netos?
Veja-se a primeira frase de artigo publicado na excelente revista “Knowable”: “O calor excessivo afeta os humanos e os animais”. Se somos animais, não seria suficiente e mais correto dizer que muito calor afeta todos os animais? Apesar dessa falha, as informações relatadas são de enorme atualidade e importância.
São inúmeras pesquisas demonstrando como o elevado calor afeta animais. Já no início do século XIX o estatístico belga Adolphe Quetelet notou que havia um pico de crimes violentos na França durante o verão. Pesquisas posteriores mostraram relação entre forte calor e aumento de violência armada, de hospitalizações por problemas mentais, suicídios e jogos de azar. Notou-se também que os cães tendem a morder humanos com mais frequência em dias mais quentes, mesmo descontando o fato de os humanos saírem mais às ruas com seus bichinhos em dias mais aquecidos. A dúvida persistiu sobre se os cães atacavam mais por estarem desequilibrados, ou se os humanos, também fora do prumo em razão da quentura, irritavam mais seus melhores amigos!
Na canícula, os animais humanos têm maior dificuldade de tomar decisões e sua memória se degrada. Em escolas sem climatização, o desempenho dos alunos cai. Diversas espécies, inclusive peixes e o orgulhoso autodenominado sapiens, se tornam mais agressivas em ondas de calor. Um estudo chinês de 2025 mostrou que até serpentes e gatos tornaram-se agressivos em condições de canícula. Apesar de conviver com o general inverno, terá o Putin atacado a Ucrânia em razão de um desequilíbrio mental decorrente do aquecimento? E o genocida Netanyahu, promove a matança por motivos semelhantes? E Trump, que suponho viver 95% do tempo em ambientes com temperatura controlada, ataca por problemas mentais de igual origem?
Afora esses potentados, também abelhas e outros insetos, aparentemente tão frágeis, são afetados e acabam por revelarem-se poderosos. Sem mecanismos de ajuste da temperatura do corpo, as produtoras de mel ficam desorientadas sob forte calor, seus cérebros superaquecem e, para resfriá-los, borrifam água em suas cabeças. Mesmo assim, perdem o rumo e desconhecem as flores certas para colher o pólen. O poder das abelhas se revela porque, sem elas, sabemos que não haverá humanos, em razão da queda na polinização das culturas. E o Brasil, grande produtor agrícola, como ficará, com sua população mais agressiva e carente de comida?
Amanda Ridley, pesquisadora do tema, aponta que com ondas de calor mais fortes e longas, a capacidade mental das espécies – sem separar a humana – será reduzida e diz que “a capacidade de adaptar seu comportamento é ainda mais essencial num clima que muda”.
Humanos com menor capacidade mental, mais agressivos, resistentes a mudar comportamentos e sofrendo a concorrência da inteligência artificial.
Qual futuro legaremos a nossos filhos e netos?
A escola ferida: autoridade, silêncio e violência num tempo sem escuta
Há mais de 30 anos, um sociólogo francês avisava que a violência na escola não era um desvio, mas uma estrutura. Hoje, essa violência não desapareceu, transformou-se. Tornou-se invisível, difusa, digital. E enquanto os alunos procuram existir, os professores lutam para não desaparecer. O que está verdadeiramente em causa não é a disciplina: é o sentido da escola num mundo que já mudou e que a educação tarda em reconhecer.
Em 1990, Éric Debarbieux escreveu La Violence dans la Classe e obrigou-nos a olhar para aquilo que sempre esteve diante de nós: a violência não como exceção, mas como condição silenciosa do espaço escolar. Não a violência ruidosa das agressões, mas a outra, a mais persistente, feita de silêncios impostos, de humilhações subtis, de ausência de palavras. Uma violência que não deixa marcas visíveis, mas que corrói, lentamente, a dignidade de quem aprende.
Trinta anos depois, em Portugal, dizemos que muito mudou. E mudou, de facto. A violência física tornou-se menos tolerada e até proibida, os direitos dos alunos foram consagrados, o discurso institucional evoluiu. Mas esta seria uma leitura confortável e, por isso mesmo, incompleta. A verdade é que a violência não desapareceu. Adaptou-se. Tornou-se mais difícil de reconhecer, mais difusa, mais entranhada nas relações quotidianas.
Quem habita hoje a escola, professores, mediadores, técnicos, não docentes, conhece bem essa transformação. A violência já não está apenas no gesto extremo: está na desmotivação que se instala, na palavra que não chega a ser dita, na indiferença que ocupa o lugar da curiosidade. Está na sensação de não pertença, de desenraizamento, de deslocação permanente. E isso é particularmente visível nos alunos que vivem entre mundos, linguísticos, culturais, afetivos, que a escola nem sempre sabe acolher.
Como mediadores linguísticos e culturais, todos encontram diariamente jovens que chegam à sala de aula com uma história que ninguém ouviu. Carregam deslocações abruptas, perdas não elaboradas, línguas que ficam à margem. E, no entanto, a escola continua, tantas vezes, a pedir-lhes que apaguem tudo isso para poderem aprender. Este pedido, tão aparentemente neutro, é já uma forma de violência simbólica.
Quando a escola recusa o aluno real, substituindo-o por um modelo abstrato, cria um vazio. E esse vazio não permanece neutro: transforma-se em tensão, em recusa, em conflito. A violência surge, então, não como desvio, mas como linguagem alternativa de quem não encontrou outra forma de existir.
Hoje, porém, essa equação tornou-se ainda mais complexa. A escola deixou de ser um espaço fechado. As redes sociais atravessam-na, invadem-na, redefinem-na. O conflito já não começa nem termina dentro da sala de aula. Um vídeo compartilhado à noite pode incendiar o dia seguinte. Um comentário anónimo pode transformar um aluno numa vítima exposta a centenas. A violência tornou-se contínua, sem fronteiras, sem pausa.
Neste novo contexto, o professor encontra-se num lugar profundamente instável. Durante décadas, a sua autoridade foi sustentada por uma relação clara entre saber, estatuto e instituição. Hoje, esses três pilares foram abalados. O saber tornou-se acessível em segundos. O estatuto perdeu reconhecimento social. A instituição deixou de garantir proteção simbólica.
O professor continua a entrar na sala de aula − mas já não entra sozinho: entra acompanhado por todos os dispositivos digitais que disputam a atenção dos alunos. Explica enquanto alguém desliza o dedo num ecrã. Propõe enquanto o mundo inteiro se oferece, em fragmentos rápidos, sedutores, imediatos. E, nesse confronto desigual, não é raro que o professor perca a centralidade.
A Inteligência Artificial acentua esta desconstrução. Se a resposta está disponível instantaneamente, qual é o papel do professor? Se o aluno pode produzir textos, resolver exercícios, aceder a explicações em segundos, o que resta da autoridade pedagógica?
Resta o essencial − mas também o mais exigente: dar sentido.
Num mundo onde a informação é abundante, o problema já não é saber mais, mas compreender melhor. E isso exige mediação, orientação, presença. Exige alguém que ensine a distinguir, a interpretar, a questionar. Alguém que não se limite a transmitir respostas, mas que ajude a formular perguntas.
Mas esta transformação do papel docente está a ser exigida sem que o sistema mude verdadeiramente.
Pedimos aos professores que sejam tudo: especialistas, psicólogos, mediadores, gestores de conflito, orientadores digitais, e continuamos a avaliá-los como se fossem apenas transmissores de conteúdos. Este desfasamento entre o que se exige e o que se reconhece é, ele próprio, uma forma de violência institucional.
Entretanto, os decisores políticos persistem em olhar para a escola a partir de fora. Regulam, avaliam, reformam, mas raramente habitam o espaço real onde o conflito acontece. Legislam para uma escola idealizada, não para a escola vivida. E essa distância entre decisão e realidade aprofunda a sensação de abandono.
O que está em causa já não é apenas a violência. É o próprio sentido da escola.
Vivemos numa sociedade fragmentada, acelerada, saturada de estímulos e pobre em escuta. Os alunos chegam à escola com essa fragmentação na mochila: ansiedade, solidão, necessidade de reconhecimento imediato. Muitos não encontram pertença. Não se reconhecem nos currículos, nos ritmos, nas linguagens. E quando o sujeito deixa de se sentir parte, rompe-se a base da convivência.
A violência, neste contexto, é muitas vezes uma tentativa de inscrição: um gesto para dizer “eu estou aqui”, ainda que de forma destrutiva.
As redes sociais reforçam esta lógica. O reconhecimento tornou-se visível, quantificável, instantâneo. A escola, por contraste, oferece um reconhecimento lento, muitas vezes silencioso. Neste desequilíbrio, o gesto extremo ganha mais valor do que o percurso consistente. A disrupção torna-se forma de visibilidade.
Perante isto, não basta adaptar metodologias. É necessário reconstruir o pacto educativo.
Recolocar a escuta no centro. Dar tempo à palavra. Transformar o erro em aprendizagem e não em exposição. Reconfigurar a sala de aula como espaço de relação e não apenas de transmissão. Criar pertença. Sem isso, qualquer estratégia disciplinar será apenas contenção temporária.
É aqui que ferramentas como a mediação escolar ganham um papel decisivo. Não como resposta ocasional, mas como eixo estruturante. Ao permitir que o conflito seja nomeado, escutado e trabalhado, a mediação rompe a lógica da punição automática e abre espaço à responsabilidade partilhada.
A comunicação não violenta oferece, por sua vez, uma linguagem que falta à escola contemporânea. Ensinar a identificar emoções, a reconhecer necessidades, a formular pedidos, eis um trabalho profundamente educativo. Num mundo de respostas rápidas e impulsivas, reaprender a dizer é um ato revolucionário.
Os mediadores linguísticos e culturais são hoje pontes indispensáveis. Permitem que a escola compreenda aquilo que não vê: os códigos, as histórias, as tensões invisíveis. Ajudam a traduzir mundos antes que estes entrem em choque. São, muitas vezes, os primeiros a desativar conflitos que, de outra forma, se tornariam explosivos.
Mas para que tudo isto tenha impacto, é preciso sair da lógica do remendo. Estas ferramentas não podem ser episódicas, precárias, periféricas. Têm de ser integradas numa política pública sólida, contínua, assumida. Caso contrário, continuaremos a tratar sintomas, sem tocar nas causas.
Porque a détresse da escola não é um acidente. É um sinal. Um sinal de que estamos a ensinar num mundo que já não existe, com modelos que já não respondem, ignorando sujeitos que já não cabem nas estruturas herdadas.
Se quisermos transformar verdadeiramente a escola, teremos de ter coragem para uma mudança mais profunda do que qualquer reforma curricular. Teremos de recentrar o humano. Reconhecer que ensinar é construir relação. Que aprender é sentir-se reconhecido. Que a autoridade nasce do vínculo, não do medo.
Neste tempo dominado por algoritmos, velocidade e virtualidade, talvez o gesto mais radical da educação seja simples: parar, escutar, estar. Criar, enfim, um espaço onde ninguém precise de recorrer ao desespero, à violência, para existir. E a escola pode ser o último reduto.
Em 1990, Éric Debarbieux escreveu La Violence dans la Classe e obrigou-nos a olhar para aquilo que sempre esteve diante de nós: a violência não como exceção, mas como condição silenciosa do espaço escolar. Não a violência ruidosa das agressões, mas a outra, a mais persistente, feita de silêncios impostos, de humilhações subtis, de ausência de palavras. Uma violência que não deixa marcas visíveis, mas que corrói, lentamente, a dignidade de quem aprende.
Trinta anos depois, em Portugal, dizemos que muito mudou. E mudou, de facto. A violência física tornou-se menos tolerada e até proibida, os direitos dos alunos foram consagrados, o discurso institucional evoluiu. Mas esta seria uma leitura confortável e, por isso mesmo, incompleta. A verdade é que a violência não desapareceu. Adaptou-se. Tornou-se mais difícil de reconhecer, mais difusa, mais entranhada nas relações quotidianas.
Quem habita hoje a escola, professores, mediadores, técnicos, não docentes, conhece bem essa transformação. A violência já não está apenas no gesto extremo: está na desmotivação que se instala, na palavra que não chega a ser dita, na indiferença que ocupa o lugar da curiosidade. Está na sensação de não pertença, de desenraizamento, de deslocação permanente. E isso é particularmente visível nos alunos que vivem entre mundos, linguísticos, culturais, afetivos, que a escola nem sempre sabe acolher.
Como mediadores linguísticos e culturais, todos encontram diariamente jovens que chegam à sala de aula com uma história que ninguém ouviu. Carregam deslocações abruptas, perdas não elaboradas, línguas que ficam à margem. E, no entanto, a escola continua, tantas vezes, a pedir-lhes que apaguem tudo isso para poderem aprender. Este pedido, tão aparentemente neutro, é já uma forma de violência simbólica.
Quando a escola recusa o aluno real, substituindo-o por um modelo abstrato, cria um vazio. E esse vazio não permanece neutro: transforma-se em tensão, em recusa, em conflito. A violência surge, então, não como desvio, mas como linguagem alternativa de quem não encontrou outra forma de existir.
Hoje, porém, essa equação tornou-se ainda mais complexa. A escola deixou de ser um espaço fechado. As redes sociais atravessam-na, invadem-na, redefinem-na. O conflito já não começa nem termina dentro da sala de aula. Um vídeo compartilhado à noite pode incendiar o dia seguinte. Um comentário anónimo pode transformar um aluno numa vítima exposta a centenas. A violência tornou-se contínua, sem fronteiras, sem pausa.
Neste novo contexto, o professor encontra-se num lugar profundamente instável. Durante décadas, a sua autoridade foi sustentada por uma relação clara entre saber, estatuto e instituição. Hoje, esses três pilares foram abalados. O saber tornou-se acessível em segundos. O estatuto perdeu reconhecimento social. A instituição deixou de garantir proteção simbólica.
O professor continua a entrar na sala de aula − mas já não entra sozinho: entra acompanhado por todos os dispositivos digitais que disputam a atenção dos alunos. Explica enquanto alguém desliza o dedo num ecrã. Propõe enquanto o mundo inteiro se oferece, em fragmentos rápidos, sedutores, imediatos. E, nesse confronto desigual, não é raro que o professor perca a centralidade.
A Inteligência Artificial acentua esta desconstrução. Se a resposta está disponível instantaneamente, qual é o papel do professor? Se o aluno pode produzir textos, resolver exercícios, aceder a explicações em segundos, o que resta da autoridade pedagógica?
Resta o essencial − mas também o mais exigente: dar sentido.
Num mundo onde a informação é abundante, o problema já não é saber mais, mas compreender melhor. E isso exige mediação, orientação, presença. Exige alguém que ensine a distinguir, a interpretar, a questionar. Alguém que não se limite a transmitir respostas, mas que ajude a formular perguntas.
Mas esta transformação do papel docente está a ser exigida sem que o sistema mude verdadeiramente.
Pedimos aos professores que sejam tudo: especialistas, psicólogos, mediadores, gestores de conflito, orientadores digitais, e continuamos a avaliá-los como se fossem apenas transmissores de conteúdos. Este desfasamento entre o que se exige e o que se reconhece é, ele próprio, uma forma de violência institucional.
Entretanto, os decisores políticos persistem em olhar para a escola a partir de fora. Regulam, avaliam, reformam, mas raramente habitam o espaço real onde o conflito acontece. Legislam para uma escola idealizada, não para a escola vivida. E essa distância entre decisão e realidade aprofunda a sensação de abandono.
O que está em causa já não é apenas a violência. É o próprio sentido da escola.
Vivemos numa sociedade fragmentada, acelerada, saturada de estímulos e pobre em escuta. Os alunos chegam à escola com essa fragmentação na mochila: ansiedade, solidão, necessidade de reconhecimento imediato. Muitos não encontram pertença. Não se reconhecem nos currículos, nos ritmos, nas linguagens. E quando o sujeito deixa de se sentir parte, rompe-se a base da convivência.
A violência, neste contexto, é muitas vezes uma tentativa de inscrição: um gesto para dizer “eu estou aqui”, ainda que de forma destrutiva.
As redes sociais reforçam esta lógica. O reconhecimento tornou-se visível, quantificável, instantâneo. A escola, por contraste, oferece um reconhecimento lento, muitas vezes silencioso. Neste desequilíbrio, o gesto extremo ganha mais valor do que o percurso consistente. A disrupção torna-se forma de visibilidade.
Perante isto, não basta adaptar metodologias. É necessário reconstruir o pacto educativo.
Recolocar a escuta no centro. Dar tempo à palavra. Transformar o erro em aprendizagem e não em exposição. Reconfigurar a sala de aula como espaço de relação e não apenas de transmissão. Criar pertença. Sem isso, qualquer estratégia disciplinar será apenas contenção temporária.
É aqui que ferramentas como a mediação escolar ganham um papel decisivo. Não como resposta ocasional, mas como eixo estruturante. Ao permitir que o conflito seja nomeado, escutado e trabalhado, a mediação rompe a lógica da punição automática e abre espaço à responsabilidade partilhada.
A comunicação não violenta oferece, por sua vez, uma linguagem que falta à escola contemporânea. Ensinar a identificar emoções, a reconhecer necessidades, a formular pedidos, eis um trabalho profundamente educativo. Num mundo de respostas rápidas e impulsivas, reaprender a dizer é um ato revolucionário.
Os mediadores linguísticos e culturais são hoje pontes indispensáveis. Permitem que a escola compreenda aquilo que não vê: os códigos, as histórias, as tensões invisíveis. Ajudam a traduzir mundos antes que estes entrem em choque. São, muitas vezes, os primeiros a desativar conflitos que, de outra forma, se tornariam explosivos.
Mas para que tudo isto tenha impacto, é preciso sair da lógica do remendo. Estas ferramentas não podem ser episódicas, precárias, periféricas. Têm de ser integradas numa política pública sólida, contínua, assumida. Caso contrário, continuaremos a tratar sintomas, sem tocar nas causas.
Porque a détresse da escola não é um acidente. É um sinal. Um sinal de que estamos a ensinar num mundo que já não existe, com modelos que já não respondem, ignorando sujeitos que já não cabem nas estruturas herdadas.
Se quisermos transformar verdadeiramente a escola, teremos de ter coragem para uma mudança mais profunda do que qualquer reforma curricular. Teremos de recentrar o humano. Reconhecer que ensinar é construir relação. Que aprender é sentir-se reconhecido. Que a autoridade nasce do vínculo, não do medo.
Neste tempo dominado por algoritmos, velocidade e virtualidade, talvez o gesto mais radical da educação seja simples: parar, escutar, estar. Criar, enfim, um espaço onde ninguém precise de recorrer ao desespero, à violência, para existir. E a escola pode ser o último reduto.
Brasil finge que problemas não existem
Tem cada vez mais gente achando que o caso Vorcaro vai dar em nada. Não porque os envolvidos sejam todos inocentes. É bem o contrário: há muitos suspeitos em todo o espectro político e nas mais altas esferas do poder. Assim, tal é a conversa em Brasília, melhor abafar o caso para não criar uma crise institucional em pleno ano eleitoral.
Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.
Vorcaro foi bem esperto. Distribuiu dinheiro e favores com as duas mãos. Formou uma legião não de “amigos de vida”, mas de autoridades interessadas em abafar o caso, por puro instinto de sobrevivência. Mas o que fazer com o próprio? A mesma coisa que ele, Vorcaro, está fazendo. Vai enrolando. Oferece uma delação fajuta, depois outra, quem sabe uma terceira — e assim vai ganhando tempo à espera de que o caso esfrie. Daí pode receber uma pena pequena, quem sabe uma domiciliar, salvando uns trocados. Moral da história: se todos estão envolvidos, então ninguém está envolvido.
Esse tipo de lógica, que faz desaparecer o problema, vale para diversas situações. O leitor pode estranhar, mas considere o caso da taxa de juros e das metas de inflação. A inflação está em alta sob qualquer medida que se considere. As projeções também. Pela regra do regime de metas, o Banco Central deveria elevar a taxa de juros (a Selic) e não reduzi-la, como fez há duas semanas. Mas, sabe como é, a Selic já está muito alta, há bastante tempo. E se a gente olhar mais à frente, lá por 2028, a inflação se aproxima da meta de 3% ao ano. Ao adiar o cumprimento da meta, o BC está, de certo modo, mudando o alvo. E tem gente dizendo que essa meta de 3% é muito baixa. Elevando-a para, digamos, 5% ao ano, está tudo resolvido. Já estamos lá, os juros podem ser derrubados.
Não é mesmo uma manobra parecida, suprimir o problema? Se bem que, nesse caso, tem outra lógica. Como diz o próprio BC, uma causa básica da inflação está no frequente aumento de gastos do governo Lula, estimulando o consumo. O BC eleva juros para esfriar a economia e derrubar a inflação. Mas o governo acelera gastos e distribui créditos subsidiados, o que aquece a economia e pressiona a inflação. Além disso, os déficits seguidos do governo Lula elevam a dívida pública e, pois, os juros. Para os analistas de fora do governo, o déficit deste ano chegará a R$ 60 bilhões. Mas, quando se olha para as projeções do Ministério da Fazenda, lá se diz que o resultado das contas públicas será um superávit em torno de R$ 4 bilhões. E as duas aritméticas, acreditem, estão certas. Ocorre que a Fazenda tira várias despesas da contabilidade oficial, até chegar a um superávit, que é meta do arcabouço fiscal.
De novo, suprimiram o problema. Na real, tem déficit. No papel timbrado, sobra dinheiro. Vai por aí o caso dos penduricalhos. Pela Constituição, nenhum funcionário público pode receber mais de R$ 46.336,19, valor do subsídio mensal dos magistrados do Supremo Tribunal Federal. É o teto. Milhares de funcionários ganham muito mais que isso, com base em interpretações jurídicas construídas pelos próprios interessados. Surgiram assim os penduricalhos, auxílios diversos, vantagens, indenizações, que ultrapassam o teto, mas são considerados extrateto. O STF poderia simplesmente declarar que teto é teto — e ponto final. Em vez disso, está regularizando os penduricalhos. Na prática, suprimiu o teto.
E ficamos assim: na real, tem corruptos; a inflação está fora da meta; o déficit público sobe; a dívida aumenta; funcionários recebem acima do teto. No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece, e o teto salarial não existe.
Dirá o leitor: mas não deveria ser o contrário? Se há tantos envolvidos, gente graúda, a crise já está instalada e precisa ser resolvida, com ampla apuração e punição dos culpados, tudo dentro da lei. Faz sentido, mas não pela lógica praticada nos Poderes de Brasília. Lá, funciona mais ou menos assim: um corrupto de esquerda anula um corrupto de direita, de modo que o resultado é zero. Problema resolvido.
Vorcaro foi bem esperto. Distribuiu dinheiro e favores com as duas mãos. Formou uma legião não de “amigos de vida”, mas de autoridades interessadas em abafar o caso, por puro instinto de sobrevivência. Mas o que fazer com o próprio? A mesma coisa que ele, Vorcaro, está fazendo. Vai enrolando. Oferece uma delação fajuta, depois outra, quem sabe uma terceira — e assim vai ganhando tempo à espera de que o caso esfrie. Daí pode receber uma pena pequena, quem sabe uma domiciliar, salvando uns trocados. Moral da história: se todos estão envolvidos, então ninguém está envolvido.
Esse tipo de lógica, que faz desaparecer o problema, vale para diversas situações. O leitor pode estranhar, mas considere o caso da taxa de juros e das metas de inflação. A inflação está em alta sob qualquer medida que se considere. As projeções também. Pela regra do regime de metas, o Banco Central deveria elevar a taxa de juros (a Selic) e não reduzi-la, como fez há duas semanas. Mas, sabe como é, a Selic já está muito alta, há bastante tempo. E se a gente olhar mais à frente, lá por 2028, a inflação se aproxima da meta de 3% ao ano. Ao adiar o cumprimento da meta, o BC está, de certo modo, mudando o alvo. E tem gente dizendo que essa meta de 3% é muito baixa. Elevando-a para, digamos, 5% ao ano, está tudo resolvido. Já estamos lá, os juros podem ser derrubados.
Não é mesmo uma manobra parecida, suprimir o problema? Se bem que, nesse caso, tem outra lógica. Como diz o próprio BC, uma causa básica da inflação está no frequente aumento de gastos do governo Lula, estimulando o consumo. O BC eleva juros para esfriar a economia e derrubar a inflação. Mas o governo acelera gastos e distribui créditos subsidiados, o que aquece a economia e pressiona a inflação. Além disso, os déficits seguidos do governo Lula elevam a dívida pública e, pois, os juros. Para os analistas de fora do governo, o déficit deste ano chegará a R$ 60 bilhões. Mas, quando se olha para as projeções do Ministério da Fazenda, lá se diz que o resultado das contas públicas será um superávit em torno de R$ 4 bilhões. E as duas aritméticas, acreditem, estão certas. Ocorre que a Fazenda tira várias despesas da contabilidade oficial, até chegar a um superávit, que é meta do arcabouço fiscal.
De novo, suprimiram o problema. Na real, tem déficit. No papel timbrado, sobra dinheiro. Vai por aí o caso dos penduricalhos. Pela Constituição, nenhum funcionário público pode receber mais de R$ 46.336,19, valor do subsídio mensal dos magistrados do Supremo Tribunal Federal. É o teto. Milhares de funcionários ganham muito mais que isso, com base em interpretações jurídicas construídas pelos próprios interessados. Surgiram assim os penduricalhos, auxílios diversos, vantagens, indenizações, que ultrapassam o teto, mas são considerados extrateto. O STF poderia simplesmente declarar que teto é teto — e ponto final. Em vez disso, está regularizando os penduricalhos. Na prática, suprimiu o teto.
E ficamos assim: na real, tem corruptos; a inflação está fora da meta; o déficit público sobe; a dívida aumenta; funcionários recebem acima do teto. No modo à brasileira, os corruptos escapam, a meta de inflação se ajeita, o buraco nas contas públicas desaparece, e o teto salarial não existe.
A invenção de uma cultura chamada brasileira
O Brasil surge do olhar estrangeiro. Antes de nos vermos como um povo, foi a Europa que nos denominou. Acredita-se que foi o Frei Vicente do Salvador (1564-1636), franciscano nascido na Bahia, o primeiro a registrar por escrito o termo “brasileiro” para o nascido na colônia. O termo, contudo, teria surgido com os portugueses da metrópole que usavam “brasileiro” para se referir aos colonos com desprezo. A tal ponto que, em muitos contextos, chamar alguém de “brasileiro” era tido como uma ofensa, equivalia a ser identificado com o contrabando, a extração predatória e a degradação moral associada à vida na colônia — um ambiente que a metrópole via como lugar de degredo, enriquecimento rápido e ausência de civilidade.
Os naturais desta terra preferiam ver-se como portugueses nascidos na sua respectiva capitania. E havia muitos. Assim, por aqui, essa pessoa via-se como um mineiro ou baiano ou um pernambucano etc., antes do que brasileiro. Um português mineiro pareceria a essa pessoa muito mais natural do que falar brasileiro. Claro, aquele que podia ser considerado português, porque os afro-brasileiros gozavam o estranho estatuto de africanos residentes em Minas Gerais ou na capitania que fosse, propriedade de seus senhores. Já os povos originários eram vistos como “gentios ou originais da terra”, mas não súditos da Coroa Portuguesa, que era a condição para serem identificados como portugueses.
O Brasil era pluralidade para os nascidos nestas colônias tropicais. A ideia de Brasil como unidade política integrada era, no século XVIII, uma abstração para a maioria dos colonos. O que existia eram capitanias com administrações próprias, economias voltadas para Portugal e pouca comunicação entre si. O sentimento de pertencimento era local: mineiro, baiano, pernambucano, paulista — não brasileiro.
Isso, não obstante as raízes serem as mesmas: povos originários, Portugal, África. Falar, então, por exemplo, de Tiradentes como mártir da independência do Brasil é um erro em vários aspectos. O que a Conjuração Mineira (1789) desejava era a independência de Minas. Do mesmo modo, a Conjuração Baiana (1798) buscava a independência da capitania da Bahia, não do Brasil como unidade. Os conjurados baianos pensavam a Bahia como república autônoma.
A pluralidade estava também entre os que aqui viviam, mesmo os que eram considerados portugueses. Havia os que enriqueciam aqui (ou já chegavam ricos e se faziam mais ricos) e se tornavam poderosa elite colonial e havia os que nunca conseguiam ascender social ou economicamente. Contudo, os colonos pobres nascidos no Brasil eram a camada mais numerosa da população brasileira e se confundiam com os demais excluídos pela Coroa. Excluídos também pela historiografia.
Esses brasileiros pobres — que se identificavam como portugueses — viviam em condições precárias, sem acesso à terra, à educação ou à mobilidade social. Se formalmente eram livres, na prática dependiam dos grandes proprietários, na sua maior parte, brasileiros ricos, que também se identificavam como portugueses. Muitos viviam em regime de clientelismo: trocavam lealdade política e serviços por proteção e favores.
Os senhores de engenho e os fazendeiros latifundiários, para além dos grandes mineradores formavam a elite colonial. Eram proprietários de vastas extensões de terra, de dezenas ou centenas de escravos, e controlavam a produção e o comércio local. Esses, sem desculpar a má gestão da Coroa Portuguesa feita a esta terra, foram os que igualmente roubaram o nosso ouro, extraindo e administrando de forma predatória. E tampouco nunca o pensaram em devolver.
Essa visão em territórios menores do que o total da colônia aparece também na América Espanhola e na Inglesa. A América Espanhola dividiu-se a partir dos rachas políticos e sociais que já existiam na época da Colônia. Treze colônias dessa América perceberam que, se pudessem se unir, seria mais fácil conseguirem a Independência da poderosa Grã-Bretanha. E assim nasceu um país, mas não necessariamente uma cultura.
Havia muitos pontos em comum entre essas treze colônias, mas também muitas diferenças. Não havia uma cultura estadunidense anterior à independência. Foi um pacto estratégico que as aproximou, tanto que algum tempo depois haveria uma guerra entre elas, a Guerra Civil Americana (1861-1865).
O Brasil começa a se ver como unidade a partir de um esforço externo, por assim dizer, até ao ponto que possamos considerar externa, naquele momento, a Coroa Portuguesa. Podemos situar o começo desse esforço de construir uma identidade brasileira a partir de 1808, com a chegada da Família Real. O signo “Brasil” ganha corpo com a vinda da Família Real, que centralizou a administração no Rio de Janeiro, uma cidade até então de importância secundária, criando uma estrutura estatal comum.
Se a Independência (1822) iniciou a comunidade imaginada, a consolidação de um “nós, brasileiros” só ocorreu no Segundo Reinado. O Império institucionalizou símbolos, heróis e uma história unificada para sufocar os regionalismos e evitar a fragmentação do território em várias pequenas repúblicas. E, de algum modo, deu certo.
Essa nova nação inventou a sua identidade cultural em um projeto que veio de cima para baixo. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, foi o braço intelectual desse projeto: encomendou uma história oficial, elegeu heróis nacionais e forjou uma continuidade entre colônia, império e nação que simplesmente não existia na experiência concreta dos habitantes do século XVIII. Além disso, assim como ocorreu com outros países latino-americanos, escolheu a França como símbolo de civilidade, desejando transformar o Rio de Janeiro, a capital da época, na Paris Tropical.
A nossa primeira constituição como país, a de 1824, não mencionava a escravidão. Escravizados eram não-cidadãos. Negros libertos eram cidadãos de segunda classe: podiam votar nas eleições primárias, mas não ser eleitos. Indígenas continuaram sob tutela do Estado, sem direitos políticos, considerados “incapazes”. O projeto era o de uma nação europeia e liberal na forma, escravista na prática, que incluía seletivamente para melhor poder excluir.
A ironia é que o projeto funcionou. O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo. A ficção deu certo. Mas se a identidade brasileira foi uma construção estatal tardia, bem-sucedida em evitar a fragmentação, ela de fato substituiu as identidades regionais ou apenas as recobriu? Em que dimensões continuamos sendo uma ficção? Precisamos desmontar o Brasil para entender melhor a sua realidade: desigual, diverso, fundado na violência e no apagamento sistemático de suas próprias fraturas?
José Luís Landeira
Os naturais desta terra preferiam ver-se como portugueses nascidos na sua respectiva capitania. E havia muitos. Assim, por aqui, essa pessoa via-se como um mineiro ou baiano ou um pernambucano etc., antes do que brasileiro. Um português mineiro pareceria a essa pessoa muito mais natural do que falar brasileiro. Claro, aquele que podia ser considerado português, porque os afro-brasileiros gozavam o estranho estatuto de africanos residentes em Minas Gerais ou na capitania que fosse, propriedade de seus senhores. Já os povos originários eram vistos como “gentios ou originais da terra”, mas não súditos da Coroa Portuguesa, que era a condição para serem identificados como portugueses.
O Brasil era pluralidade para os nascidos nestas colônias tropicais. A ideia de Brasil como unidade política integrada era, no século XVIII, uma abstração para a maioria dos colonos. O que existia eram capitanias com administrações próprias, economias voltadas para Portugal e pouca comunicação entre si. O sentimento de pertencimento era local: mineiro, baiano, pernambucano, paulista — não brasileiro.
Isso, não obstante as raízes serem as mesmas: povos originários, Portugal, África. Falar, então, por exemplo, de Tiradentes como mártir da independência do Brasil é um erro em vários aspectos. O que a Conjuração Mineira (1789) desejava era a independência de Minas. Do mesmo modo, a Conjuração Baiana (1798) buscava a independência da capitania da Bahia, não do Brasil como unidade. Os conjurados baianos pensavam a Bahia como república autônoma.
A pluralidade estava também entre os que aqui viviam, mesmo os que eram considerados portugueses. Havia os que enriqueciam aqui (ou já chegavam ricos e se faziam mais ricos) e se tornavam poderosa elite colonial e havia os que nunca conseguiam ascender social ou economicamente. Contudo, os colonos pobres nascidos no Brasil eram a camada mais numerosa da população brasileira e se confundiam com os demais excluídos pela Coroa. Excluídos também pela historiografia.
Esses brasileiros pobres — que se identificavam como portugueses — viviam em condições precárias, sem acesso à terra, à educação ou à mobilidade social. Se formalmente eram livres, na prática dependiam dos grandes proprietários, na sua maior parte, brasileiros ricos, que também se identificavam como portugueses. Muitos viviam em regime de clientelismo: trocavam lealdade política e serviços por proteção e favores.
O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo
Os senhores de engenho e os fazendeiros latifundiários, para além dos grandes mineradores formavam a elite colonial. Eram proprietários de vastas extensões de terra, de dezenas ou centenas de escravos, e controlavam a produção e o comércio local. Esses, sem desculpar a má gestão da Coroa Portuguesa feita a esta terra, foram os que igualmente roubaram o nosso ouro, extraindo e administrando de forma predatória. E tampouco nunca o pensaram em devolver.
Essa visão em territórios menores do que o total da colônia aparece também na América Espanhola e na Inglesa. A América Espanhola dividiu-se a partir dos rachas políticos e sociais que já existiam na época da Colônia. Treze colônias dessa América perceberam que, se pudessem se unir, seria mais fácil conseguirem a Independência da poderosa Grã-Bretanha. E assim nasceu um país, mas não necessariamente uma cultura.
Havia muitos pontos em comum entre essas treze colônias, mas também muitas diferenças. Não havia uma cultura estadunidense anterior à independência. Foi um pacto estratégico que as aproximou, tanto que algum tempo depois haveria uma guerra entre elas, a Guerra Civil Americana (1861-1865).
O Brasil começa a se ver como unidade a partir de um esforço externo, por assim dizer, até ao ponto que possamos considerar externa, naquele momento, a Coroa Portuguesa. Podemos situar o começo desse esforço de construir uma identidade brasileira a partir de 1808, com a chegada da Família Real. O signo “Brasil” ganha corpo com a vinda da Família Real, que centralizou a administração no Rio de Janeiro, uma cidade até então de importância secundária, criando uma estrutura estatal comum.
Se a Independência (1822) iniciou a comunidade imaginada, a consolidação de um “nós, brasileiros” só ocorreu no Segundo Reinado. O Império institucionalizou símbolos, heróis e uma história unificada para sufocar os regionalismos e evitar a fragmentação do território em várias pequenas repúblicas. E, de algum modo, deu certo.
Essa nova nação inventou a sua identidade cultural em um projeto que veio de cima para baixo. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, foi o braço intelectual desse projeto: encomendou uma história oficial, elegeu heróis nacionais e forjou uma continuidade entre colônia, império e nação que simplesmente não existia na experiência concreta dos habitantes do século XVIII. Além disso, assim como ocorreu com outros países latino-americanos, escolheu a França como símbolo de civilidade, desejando transformar o Rio de Janeiro, a capital da época, na Paris Tropical.
A nossa primeira constituição como país, a de 1824, não mencionava a escravidão. Escravizados eram não-cidadãos. Negros libertos eram cidadãos de segunda classe: podiam votar nas eleições primárias, mas não ser eleitos. Indígenas continuaram sob tutela do Estado, sem direitos políticos, considerados “incapazes”. O projeto era o de uma nação europeia e liberal na forma, escravista na prática, que incluía seletivamente para melhor poder excluir.
A ironia é que o projeto funcionou. O Brasil não se fragmentou e o sentimento de pertencimento nacional, ainda que artificial, construído e imposto, acabou se tornando realidade, pelo menos quando há Copa do Mundo e a Seleção entra em campo. A ficção deu certo. Mas se a identidade brasileira foi uma construção estatal tardia, bem-sucedida em evitar a fragmentação, ela de fato substituiu as identidades regionais ou apenas as recobriu? Em que dimensões continuamos sendo uma ficção? Precisamos desmontar o Brasil para entender melhor a sua realidade: desigual, diverso, fundado na violência e no apagamento sistemático de suas próprias fraturas?
José Luís Landeira
Michelle Firmo, a mulher-bomba que ameaça explodir Flávio Bolsonaro
Está lá um corpo estendido no chão. É o de Michelle de Paula Firmo Reinaldo, 44 anos, natural de Ceilândia, filha de família humilde que concluiu seus estudos em escola pública, secretária parlamentar na Câmara dos Deputados entre 2004 e 2008. Foi ali que ela conheceu seu futuro marido, Jair Messias Bolsonaro, militar da reserva, que hoje, em voz baixa, simplesmente a chama de “A incontrolável”.
Ex-primeira-dama, a única a discursar no parlatório do Palácio do Planalto durante uma posse presidencial e a aparecer em rede nacional de rádio e televisão para desejar feliz Natal aos brasileiros, Michelle acreditou que um dia, por seus próprios méritos, alçaria voo alto na política, contando para isso com a compreensão e a ajuda do marido e dos seus enteados. Mas que nada. Acabou rebaixada à condição atual: cuidadora do marido enfermo, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e alvo da hostilidade dos filhos dele que sempre a rejeitaram.
Bem-feito. Quem mandou se meter com um bando de misóginos? Ou ignorava que fossem? Ou não os tolerou depois de descobrir que eram misóginos e de sofrer na pele com isso? Deu no que se vê. Magoada, vingou-se da família que nunca a aceitou rompendo publicamente com ela ao divulgar um vídeo onde acusou Flávio e os irmãos de a maltratarem e desrespeitarem.
Poupou o marido, pensando que ele pelo menos a protegeria por ser pai da sua filha Laura, uma adolescente. Bastaria uma palavra de Bolsonaro para salvá-la de retaliações. Não houve palavra até agora. Então Michelle renunciou à presidência do PL Mulher, partido-covil do clã. Por pouco não se desfiliou dele ontem. Está nos seus planos abdicar de sua candidatura ao Senado no Distrito Federal e voltar a ser exclusivamente “uma mulher do lar”, como sempre quis Bolsonaro.
Por último, não contem com ela como cabo eleitoral de Flávio, candidato a presidente. Era só o que faltava. Michelle quer mais é que Flávio não se eleja. De sua parte, Flávio quer mais é que Michelle feche a boca e nunca revele toda a verdade sobre ele. Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), teme que Michelle se transforme numa mulher-bomba, capaz de explodir de uma hora para outra matando todos ao seu redor.
Ex-primeira-dama, a única a discursar no parlatório do Palácio do Planalto durante uma posse presidencial e a aparecer em rede nacional de rádio e televisão para desejar feliz Natal aos brasileiros, Michelle acreditou que um dia, por seus próprios méritos, alçaria voo alto na política, contando para isso com a compreensão e a ajuda do marido e dos seus enteados. Mas que nada. Acabou rebaixada à condição atual: cuidadora do marido enfermo, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, e alvo da hostilidade dos filhos dele que sempre a rejeitaram.
Bem-feito. Quem mandou se meter com um bando de misóginos? Ou ignorava que fossem? Ou não os tolerou depois de descobrir que eram misóginos e de sofrer na pele com isso? Deu no que se vê. Magoada, vingou-se da família que nunca a aceitou rompendo publicamente com ela ao divulgar um vídeo onde acusou Flávio e os irmãos de a maltratarem e desrespeitarem.
Poupou o marido, pensando que ele pelo menos a protegeria por ser pai da sua filha Laura, uma adolescente. Bastaria uma palavra de Bolsonaro para salvá-la de retaliações. Não houve palavra até agora. Então Michelle renunciou à presidência do PL Mulher, partido-covil do clã. Por pouco não se desfiliou dele ontem. Está nos seus planos abdicar de sua candidatura ao Senado no Distrito Federal e voltar a ser exclusivamente “uma mulher do lar”, como sempre quis Bolsonaro.
Por último, não contem com ela como cabo eleitoral de Flávio, candidato a presidente. Era só o que faltava. Michelle quer mais é que Flávio não se eleja. De sua parte, Flávio quer mais é que Michelle feche a boca e nunca revele toda a verdade sobre ele. Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), teme que Michelle se transforme numa mulher-bomba, capaz de explodir de uma hora para outra matando todos ao seu redor.
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