domingo, 28 de junho de 2026
O centro progressista precisa se radicalizar
Dois eventos recentes, em lados opostos do Atlântico, apontam para o mesmo problema. No Reino Unido, o homem que, segundo as expectativas gerais, deve substituir o imponente Keir Starmer como primeiro-ministro é Andy Burnham, que defende o “socialismo favorável aos negócios” como seu credo. Em Nova York, as eleições primárias democratas resultaram em vitórias impressionantes para os socialistas, sugerindo que a esquerda insurgente encontrou uma maneira de transformar o protesto em poder.
Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.
No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.
Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.
A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.
Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.
O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.
Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.
Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.
Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.
A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite
A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.
Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.
Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.
É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.
A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.
Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem.
Primeiro, uma ressalva: a esquerda não está caminhando de maneira uniforme em direção ao socialismo. Muitas primárias fora da cidade de Nova York foram vencidas por democratas moderados. Em um distrito nos arredores da cidade, a veterana de guerra Cait Conley venceu com facilidade. Mas um certo tipo de progressismo está perdendo força, confiança e conexão com as pessoas que afirma representar.
No novo livro de Adrian Wooldridge, The Revolutionary Center: The Lost Genius of Liberalism (O Centro Revolucionário: O Gênio Perdido do Liberalismo, na tradução livre), o autor nos lembra que o progressismo já foi a força mais radical da política. Ele atacava os privilégios herdados, o poder monopolista, a censura, a aristocracia, a autoridade clerical e as corporações fechadas. Não era a ideologia do establishment. Era o aríete contra o establishment.
Hoje, o progressismo passou a ser identificado com o poder – grandes universidades, fundações, organizações de mídia, corporações e burocracias. Wooldridge argumenta que isso resultou em duas falhas graves.
A primeira é a passividade. O progressismo moderno, certamente desde a década de 1990, tem exaltado os mercados livres e as pessoas livres. Na prática, isso significou desregulamentar tanto a vida econômica quanto a vida pessoal, tratando as consequências como o preço da liberdade.
Nos mercados, isso permitiu que a consolidação corporativa e a desigualdade se alastrassem descontroladamente. Na vida pessoal, os progressistas passaram a relutar em afirmar que certos comportamentos são socialmente destrutivos.
O resultado é o fatalismo progressista. Pessoas acampam nas ruas das cidades – viciadas e com doenças mentais –, e os progressistas costumam descrever isso como um problema de moradia. Milhões sofrem de doenças relacionadas à obesidade, e os progressistas se sentem mais à vontade culpando os “desertos alimentares” do que enfrentando as empresas que viciam seus clientes em alimentos processados. As empresas de mídia social fazem o mesmo com a atenção de seus consumidores.
Wooldridge defende um renascimento do paternalismo progressista. A expressão soa estranha aos ouvidos modernos. Mas uma sociedade liberal deve valorizar os direitos individuais – e também exigir responsabilidade individual. Deve compreender que a liberdade pode ser destruída não apenas pelo Estado, mas também pelo vício, pelo monopólio, pelo crime, pela ignorância e pela dependência.
Isso não é um argumento a favor do socialismo. É um argumento a favor de um progressismo mais autêntico. Os progressistas deveriam valorizar os mercados não porque eles permitem que os fortes dominem ou que a desigualdade aumente, mas porque a concorrência genuína permite que os mais fracos desafiem os fortes.
Um mercado saudável não é aquele em que quatro empresas dividem discretamente um setor e usam advogados, lobistas e algoritmos para manter os concorrentes de fora. É aquele em que novos participantes podem surgir, os consumidores podem escolher, os trabalhadores podem mudar de emprego e os já estabelecidos podem fracassar.
A segunda falha identificada por Wooldridge é mais incômoda, pois diz respeito à própria condição dos progressistas. O progressismo acredita na meritocracia. Historicamente, essa foi uma de suas causas mais nobres. Defendia que as pessoas deveriam ascender por meio do talento e do esforço, e não por nascimento, raça, casta ou classe. Mas, com o passar do tempo, a elite
A saída para a crise do liberalismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical meritocrática se transformou em sua própria aristocracia.
Os progressistas de elite defendem a justiça social, mas fazem pouco para acabar com o sistema de admissão por legado. Eles querem que os pobres subam na escala social, mas não se isso exigir a construção de mais moradias nos bairros arborizados onde eles moram. Eles elogiam o mérito individual, mas criaram uma vasta burocracia da diversidade que, com muita frequência, julga as pessoas com base na identidade de grupo, em vez de no caráter pessoal.
Em nenhum outro lugar isso fica mais claro do que no ensino fundamental e médio. Uma política genuinamente progressista começaria pela criança. Ela atacaria qualquer instituição – sindicato, burocracia, conselho escolar, departamento universitário – que alimente seu próprio poder enquanto falha com as crianças dos EUA.
É aí que os socialistas e os populistas de direita ganham força. Eles entendem que as pessoas querem alguém que lute por elas. Podem oferecer respostas equivocadas – a esquerda com luta de classes, protecionismo e controle estatal, e a direita com protecionismo, ressentimento étnico e nostalgia racial. Mas soam como outsiders dispostos a enfrentar privilégios arraigados e oferecer proteção em um mundo onde a liberdade parece significar caos.
A saída para a crise do progressismo não é abandoná-lo. É recuperar seu espírito radical. Os progressistas devem voltar a ser aqueles que detestam o monopólio, as vantagens herdadas, os sistemas fechados e os jogos viciados. Devem defender a concorrência real, a meritocracia real e a igualdade real de oportunidades. Devem enfrentar o poder corporativo quando ele esmaga os mercados, o poder governamental quando protege os privilegiados e o poder cultural quando cria burocracias que substituem a dignidade individual pela identidade de grupo.
Como argumenta Wooldridge, o centro não pode ser meramente um ponto médio entre a esquerda e a direita. Ele precisa ser revolucionário à sua maneira. A grande promessa do progressismo nunca foi que as pessoas fossem deixadas à própria sorte para definhar na liberdade. Era que as pessoas recebessem as ferramentas, as regras e as responsabilidades necessárias para prosperar. O progressismo começou como uma revolta contra o poder arraigado. Ele só sobreviverá se voltar a ser aquilo que foi em sua origem.
Fareed Zakaria
O barraco de Michelle e o rolo Master de Wagner contam como o país funciona
Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.
Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.
Outro assunto da semana, Jaques Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master, porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com sarcasmo.
Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.
O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como PL e PP, foram ao centro do poder com Jair Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas, currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.
O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da direita à esquerda, assim justificam seus rolos.
Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo. Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos, tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.
Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato, corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde 2015.
O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o país funciona.
Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.
Outro assunto da semana, Jaques Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master, porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com sarcasmo.
Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.
O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como PL e PP, foram ao centro do poder com Jair Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas, currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.
O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da direita à esquerda, assim justificam seus rolos.
Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo. Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos, tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.
Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato, corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde 2015.
O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o país funciona.
As dinâmicas afetivas e a polarização política brasileira
A política brasileira atual costuma ser explicada por uma palavra inevitável: polarização. A expressão ajuda a descrever parte do nosso contexto, mas também pode esconder mais do que revela. Quando se fala em polarização afetiva, a imagem que se forma é a de uma sociedade dividida em dois blocos equivalentes, movidos por paixões opostas e estáveis. O Brasil, porém, parece viver algo mais complexo. Não apenas se polarizou. Também se tornou mais negativo em sua relação com a política.
Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.
A comparação entre dois levantamentos da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) ajuda a enxergar essa mudança. Em 2006, uma pesquisa com 2.400 entrevistas mediu sentimentos em relação a Lula, então presidente, e Geraldo Alckmin, principal nome da oposição. Em maio de 2026, outro levantamento, com 1.500 entrevistas, repetiu a lógica, agora tendo Lula e Bolsonaro como referências dos campos nacionais. Nos dois casos, foram considerados sentimentos positivos, como entusiasmo, esperança e orgulho; e negativos, como raiva, medo e decepção.
O resultado confirma o avanço da polarização, mas aponta para algo além dela. A parcela de eleitores que combina adesão positiva a um campo com rejeição ao adversário passou de 19% para 31%. É um crescimento expressivo. Ainda assim, significa que 69% dos eleitores não se enquadram na polarização afetiva estrita. Isso, porém, não quer dizer que exista uma avenida livre, da mesma dimensão, para uma terceira via. A ausência de polarização pode significar indiferença, desalento, rejeição seletiva ou afastamento da política.
O dado mais revelador talvez esteja em outro lugar. O grupo dos que rejeitam um lado sem aderir positivamente ao outro passou de 6% para 19%. A política, portanto, não se tornou apenas mais polarizada; tornou-se mais movida por recusas. Cresceu o eleitor que se define menos pelo entusiasmo com um projeto e mais pela rejeição a uma alternativa. A negatividade passou a organizar a percepção política mesmo sem identificação forte com o campo oposto.
No sentido inverso, diminuiu a adesão positiva sem rejeição. Em 2006, 32% dos entrevistados gostavam de um campo político sem necessariamente rejeitar o outro. Em 2026, esse grupo caiu para 16%. Tornou-se menos comum preferir sem hostilizar. Também diminuiu a ambivalência, isto é, a presença de sentimentos mistos ou pouco definidos, de 29% para 10%. A política ficou menos cinzenta e menos aberta a zonas intermediárias de afeto.
A indiferença também cresceu: foi de 12% para 19%. A dupla rejeição aumentou de 2% para 5%, permanecendo minoritária, mas simbolicamente relevante. Esses dados mostram que a sociedade brasileira não está apenas dividida entre militantes de campos opostos. Ela também é composta por eleitores reativos, frios, desconfiados ou pouco mobilizados.
A mudança mais importante das últimas duas décadas talvez esteja justamente aí: tornou-se menos comum gostar de um campo sem rejeitar o outro; e tornou-se mais comum rejeitar um campo sem aderir plenamente ao adversário. A política brasileira ficou menos ambígua, mas não necessariamente mais programática. Ficou mais negativa.
Essa negativização afetiva tem consequências para a democracia. A emoção na política não é um problema em si. Democracias precisam de esperança, pertencimento e identificação coletiva. O risco surge quando a emoção predominante deixa de ser a adesão a um projeto comum e passa a ser a hostilidade ao outro. Quando isso acontece, a política se aproxima de uma dinâmica permanente de veto, medo e ressentimento.
Por isso, compreender o Brasil atual exige ir além da imagem de dois blocos simétricos em confronto. A política brasileira é estruturada por campos dominantes, mas ao redor deles há segmentos afetivos distintos: engajados, reativos, indiferentes, ambivalentes e os que rejeitam todos os lados. O país não vive apenas uma polarização entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência negativa.
O Brasil não apenas se polarizou. Ele se negativizou afetivamente. E talvez seja esse o traço mais importante para entender os impasses democráticos dos próximos anos.
Essa diferença importa. Polarização afetiva significa gostar de um campo político e rejeitar intensamente o outro. Mas nem toda negatividade se converte em adesão. Há eleitores que rejeitam Lula sem necessariamente gostarem de Bolsonaro. Há eleitores que rejeitam Bolsonaro sem demonstrar entusiasmo por Lula. E há os que olham para os dois campos com frieza, distância ou desconfiança.
A comparação entre dois levantamentos da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) ajuda a enxergar essa mudança. Em 2006, uma pesquisa com 2.400 entrevistas mediu sentimentos em relação a Lula, então presidente, e Geraldo Alckmin, principal nome da oposição. Em maio de 2026, outro levantamento, com 1.500 entrevistas, repetiu a lógica, agora tendo Lula e Bolsonaro como referências dos campos nacionais. Nos dois casos, foram considerados sentimentos positivos, como entusiasmo, esperança e orgulho; e negativos, como raiva, medo e decepção.
O resultado confirma o avanço da polarização, mas aponta para algo além dela. A parcela de eleitores que combina adesão positiva a um campo com rejeição ao adversário passou de 19% para 31%. É um crescimento expressivo. Ainda assim, significa que 69% dos eleitores não se enquadram na polarização afetiva estrita. Isso, porém, não quer dizer que exista uma avenida livre, da mesma dimensão, para uma terceira via. A ausência de polarização pode significar indiferença, desalento, rejeição seletiva ou afastamento da política.
O dado mais revelador talvez esteja em outro lugar. O grupo dos que rejeitam um lado sem aderir positivamente ao outro passou de 6% para 19%. A política, portanto, não se tornou apenas mais polarizada; tornou-se mais movida por recusas. Cresceu o eleitor que se define menos pelo entusiasmo com um projeto e mais pela rejeição a uma alternativa. A negatividade passou a organizar a percepção política mesmo sem identificação forte com o campo oposto.
No sentido inverso, diminuiu a adesão positiva sem rejeição. Em 2006, 32% dos entrevistados gostavam de um campo político sem necessariamente rejeitar o outro. Em 2026, esse grupo caiu para 16%. Tornou-se menos comum preferir sem hostilizar. Também diminuiu a ambivalência, isto é, a presença de sentimentos mistos ou pouco definidos, de 29% para 10%. A política ficou menos cinzenta e menos aberta a zonas intermediárias de afeto.
A indiferença também cresceu: foi de 12% para 19%. A dupla rejeição aumentou de 2% para 5%, permanecendo minoritária, mas simbolicamente relevante. Esses dados mostram que a sociedade brasileira não está apenas dividida entre militantes de campos opostos. Ela também é composta por eleitores reativos, frios, desconfiados ou pouco mobilizados.
A mudança mais importante das últimas duas décadas talvez esteja justamente aí: tornou-se menos comum gostar de um campo sem rejeitar o outro; e tornou-se mais comum rejeitar um campo sem aderir plenamente ao adversário. A política brasileira ficou menos ambígua, mas não necessariamente mais programática. Ficou mais negativa.
Essa negativização afetiva tem consequências para a democracia. A emoção na política não é um problema em si. Democracias precisam de esperança, pertencimento e identificação coletiva. O risco surge quando a emoção predominante deixa de ser a adesão a um projeto comum e passa a ser a hostilidade ao outro. Quando isso acontece, a política se aproxima de uma dinâmica permanente de veto, medo e ressentimento.
Por isso, compreender o Brasil atual exige ir além da imagem de dois blocos simétricos em confronto. A política brasileira é estruturada por campos dominantes, mas ao redor deles há segmentos afetivos distintos: engajados, reativos, indiferentes, ambivalentes e os que rejeitam todos os lados. O país não vive apenas uma polarização entre paixões opostas. Vive também uma expansão da política como experiência negativa.
O Brasil não apenas se polarizou. Ele se negativizou afetivamente. E talvez seja esse o traço mais importante para entender os impasses democráticos dos próximos anos.
A Copa superlativa
A Fifa conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a Fifa projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3,12 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.
A Copa 2026 expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro. Os atletas protagonizam o espetáculo: viabilizam a rentabilidade das marcas e, ao mesmo tempo, exibem suas identidades, seus estilos pessoais, suas chuteiras valiosas. Uns mais, outros menos, todos são stars. A mundialização aprofundou a miscigenação, filha da “diáspora” mais recente. Fugindo das guerras e das más condições de vida em vários países (muitas ex-colônias) da África, da Ásia, do Oriente Médio e do leste europeu, diversas famílias criaram seus filhos no Ocidente e alimentaram tanto as seleções dos países originários quanto das europeias. Tudo se misturou. Seleções “brancas” ficaram multicoloridas.
Essa integração esportiva nivelou o jogo jogado. Não eliminou diferenças: continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou. O milionário futebol europeu se tornou a Meca do esporte. Quem tem talento vai aprender lá. Com isso, atletas de diferentes países passaram a receber treinamentos semelhantes e a assimilar concepções táticas parecidas. Todas as seleções estão bem preparadas, com atletas que sabem o que fazer com a bola. As mais fracas se fecham, as mais fortes assumem riscos. Mas, no futebol, um erro decide. Não se ganha jogos por antecipação ou só pelo peso da camisa. Como observou o professor Paulo Fábio Dantas Neto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), “o futebol é um esporte em que jogadores e times podem substituir sua menor qualidade por mais retranca, garra, entrega, superação, coragem, heroísmo ou qualquer outro nome que se possa dar a zebras e surpresas em geral”.
Coisas importantes continuam a fazer a diferença. A tradição, a identidade e a continuidade do trabalho ao longo de anos. Das grandes escolas futebolísticas, apenas a italiana ficou de fora, mais uma vez. O tempo de preparação, de convívio dos atletas e de assimilação tática, o que produz harmonia e coesão coletiva. Os jogadores decisivos, em torno dos quais gira o jogo. Há vários craques distribuídos pelas seleções mais fortes. A Argentina tem um gênio, Messi. O Brasil tem Vini Jr., mas a seleção busca recuperar a identidade perdida e seu técnico não consegue definir uma equipe. Parece estar melhorando jogo após jogo.
E o que falar das transmissões televisivas, tanto da Globo quanto da novata e poderosa CazéTV? São uma prova de resistência para os espectadores. Carregadas de informações supérfluas e ufanismo. Investem pesado em autopromoção. A CazéTV o faz de forma escrachada, celebrando sua audiência e seus patrocinadores. A Globo é mais contida, mas segue roteiro semelhante. Os profissionais conhecem futebol, mas também atuam como animadores de torcida e garotos-propaganda. As emoções do futebol são amplificadas por discursos passionais. Menospreza-se a qualidade das seleções mais fortes para se exaltar a coragem e a resiliência das mais fracas. Fabricam-se heróis instantâneos (os 15 minutos de fama do goleiro Vozinha, de Cabo Verde) e tropeços ocasionais são transformados em feitos históricos. Há aí um componente de compensação: já que não há uma seleção brasileira competitiva, desconstruamos a imagem das melhores, torcendo contra elas.
Fernando Gabeira lembrou, numa coluna do Estadão (Hora de jogar com a cabeça na Copa, 19/6, A6), que a Copa, concebida como apologia do esporte e do fair-play, teve de conviver com a política migratória e a xenofobia de Trump. Os “ares da guerra contra o Irã foram transplantados para o campo esportivo”. O governo estadunidense passou vexame ao exigir que os iranianos jogassem nos Estados Unidos, mas dormissem no México. O árbitro somali Omar Artan foi barrado ao entrar nos Estados Unidos. Jogadores senegaleses foram submetidos a inspeções rigorosas sob suspeitas paranoicas. A Fifa aceitou.
Agora falta o desfecho. Virá o hexa? Por que não? Afinal, trata-se de futebol. Mas o futebol brasileiro não é mais um bicho-papão, perdeu qualidade e brilhantismo, paga um preço alto por sua desorganização, pelas gestões incompetentes, pelo endividamento dos clubes, pela ruindade da arbitragem. A eliminação precoce da seleção talvez contribua para que se veja a situação a que chegamos e impulsione mudanças importantes: reforma do calendário, aperfeiçoamento da formação de base e maior incorporação de tecnologia. A conquista da Copa, ao contrário, poderá varrer a sujeira e a mediocridade para baixo do tapete.
Só nos resta aguardar.
A Copa 2026 expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro. Os atletas protagonizam o espetáculo: viabilizam a rentabilidade das marcas e, ao mesmo tempo, exibem suas identidades, seus estilos pessoais, suas chuteiras valiosas. Uns mais, outros menos, todos são stars. A mundialização aprofundou a miscigenação, filha da “diáspora” mais recente. Fugindo das guerras e das más condições de vida em vários países (muitas ex-colônias) da África, da Ásia, do Oriente Médio e do leste europeu, diversas famílias criaram seus filhos no Ocidente e alimentaram tanto as seleções dos países originários quanto das europeias. Tudo se misturou. Seleções “brancas” ficaram multicoloridas.
Essa integração esportiva nivelou o jogo jogado. Não eliminou diferenças: continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou. O milionário futebol europeu se tornou a Meca do esporte. Quem tem talento vai aprender lá. Com isso, atletas de diferentes países passaram a receber treinamentos semelhantes e a assimilar concepções táticas parecidas. Todas as seleções estão bem preparadas, com atletas que sabem o que fazer com a bola. As mais fracas se fecham, as mais fortes assumem riscos. Mas, no futebol, um erro decide. Não se ganha jogos por antecipação ou só pelo peso da camisa. Como observou o professor Paulo Fábio Dantas Neto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), “o futebol é um esporte em que jogadores e times podem substituir sua menor qualidade por mais retranca, garra, entrega, superação, coragem, heroísmo ou qualquer outro nome que se possa dar a zebras e surpresas em geral”.
Coisas importantes continuam a fazer a diferença. A tradição, a identidade e a continuidade do trabalho ao longo de anos. Das grandes escolas futebolísticas, apenas a italiana ficou de fora, mais uma vez. O tempo de preparação, de convívio dos atletas e de assimilação tática, o que produz harmonia e coesão coletiva. Os jogadores decisivos, em torno dos quais gira o jogo. Há vários craques distribuídos pelas seleções mais fortes. A Argentina tem um gênio, Messi. O Brasil tem Vini Jr., mas a seleção busca recuperar a identidade perdida e seu técnico não consegue definir uma equipe. Parece estar melhorando jogo após jogo.
E o que falar das transmissões televisivas, tanto da Globo quanto da novata e poderosa CazéTV? São uma prova de resistência para os espectadores. Carregadas de informações supérfluas e ufanismo. Investem pesado em autopromoção. A CazéTV o faz de forma escrachada, celebrando sua audiência e seus patrocinadores. A Globo é mais contida, mas segue roteiro semelhante. Os profissionais conhecem futebol, mas também atuam como animadores de torcida e garotos-propaganda. As emoções do futebol são amplificadas por discursos passionais. Menospreza-se a qualidade das seleções mais fortes para se exaltar a coragem e a resiliência das mais fracas. Fabricam-se heróis instantâneos (os 15 minutos de fama do goleiro Vozinha, de Cabo Verde) e tropeços ocasionais são transformados em feitos históricos. Há aí um componente de compensação: já que não há uma seleção brasileira competitiva, desconstruamos a imagem das melhores, torcendo contra elas.
Fernando Gabeira lembrou, numa coluna do Estadão (Hora de jogar com a cabeça na Copa, 19/6, A6), que a Copa, concebida como apologia do esporte e do fair-play, teve de conviver com a política migratória e a xenofobia de Trump. Os “ares da guerra contra o Irã foram transplantados para o campo esportivo”. O governo estadunidense passou vexame ao exigir que os iranianos jogassem nos Estados Unidos, mas dormissem no México. O árbitro somali Omar Artan foi barrado ao entrar nos Estados Unidos. Jogadores senegaleses foram submetidos a inspeções rigorosas sob suspeitas paranoicas. A Fifa aceitou.
Agora falta o desfecho. Virá o hexa? Por que não? Afinal, trata-se de futebol. Mas o futebol brasileiro não é mais um bicho-papão, perdeu qualidade e brilhantismo, paga um preço alto por sua desorganização, pelas gestões incompetentes, pelo endividamento dos clubes, pela ruindade da arbitragem. A eliminação precoce da seleção talvez contribua para que se veja a situação a que chegamos e impulsione mudanças importantes: reforma do calendário, aperfeiçoamento da formação de base e maior incorporação de tecnologia. A conquista da Copa, ao contrário, poderá varrer a sujeira e a mediocridade para baixo do tapete.
Só nos resta aguardar.
O eu dos outros
Volta e meia completos estranhos dirigem-se a mim para contestar o que acreditam que eu penso sobre um determinado assunto. Algumas pessoas fazem-no de forma gentil, outras com inacreditável brutalidade, animadas por um terrível ódio e indignação. Há quem me atribua ideias que jamais defenderia, intenções que nunca me ocorreram, frases que não escrevi — eventualmente, romances inteiros.
No início tentava defender-me. Certa ocasião, numa longa viagem aérea, fui reconhecido pelo passageiro ao lado.
— Você não é aquele palhaço?!
E logo me atacou, enterrando na minha alma espantada uma série de insultos afiados, tudo porque eu teria dito isto e aquilo a um determinado jornal. Neguei. Não, eu não pensava assim. O homem espetou-me no peito o indignado dedo indicador:
— Pensa, pensa, palhaço! Só não sabe que pensa!…
Hoje já não me defendo. Escuto com curiosidade. Afinal, quem sou eu para contradizer desconhecidos que me conhecem tão intimamente?
Só porque eu sou eu não significa que me conheça. Os meus inimigos íntimos, pelo contrário, conhecem-me admiravelmente. Não precisam conviver comigo, nem ler as crônicas que escrevo para este jornal, muito menos os meus livros. Basta-lhes passar os olhos por uma frase breve, retirada do contexto; assistir aos cinco primeiros segundos de um vídeo; escutar o comentário áspero do amigo de um amigo.
Antigamente, para conhecer um homem, era preciso jantar com ele, viajar na sua companhia, jogar cartas, passar noites partilhando cervejas, piadas, confissões. No mínimo, frequentar a mesma barbearia.
Hoje basta segui-lo no Instagram.
Com isto, venho descobrindo que, como Fernando Pessoa, escondo em mim um sem-número de personalidades. Todas, graças a Deus!, com opiniões fortes e originais. O mais curioso é que enquanto uns me acusam de uma qualquer heresia, outros acusam-me da heresia oposta. Ou seja, não apenas sou multidões, como sou também multidões contraditórias.
Suspeito que a nossa época resolveu um dos grandes problemas da filosofia. Durante séculos os homens perguntaram-se:
— Quem sou eu?
A resposta revelou-se afinal muito simples: basta consultar as redes sociais.
Existem hoje milhares de especialistas em identidades alheias. São pessoas de extraordinária competência. Conseguem determinar as nossas opiniões políticas a partir de uma simples fotografia; a nossa vida íntima a partir de um adjetivo distraído; as nossas intenções mais profundas através de uma vírgula mal colocada. Alguns, mais talentosos, descobrem até as teses que defenderemos amanhã.
Conheço desconhecidos que sabem exatamente o que penso sobre questões tão complexas como a situação na Palestina, o aborto, a inteligência artificial, o aquecimento global, a metafísica do impedimento e a melhor forma de preparar bacalhau. Enquanto eu hesito, duvido e, muitas vezes, me contradigo, estes meus procuradores espirituais mostram-me ao mundo com uma formidável coleção de firmes convicções bizarras.
Esta ideia me tranquiliza. Aos 65 anos começo a cansar-me de ser eu. É um ofício difícil. Felizmente, estes filantropos estão dispostos a desempenhá-lo por mim. A todos eles deixo aqui a minha infinita gratidão.
No início tentava defender-me. Certa ocasião, numa longa viagem aérea, fui reconhecido pelo passageiro ao lado.
— Você não é aquele palhaço?!
E logo me atacou, enterrando na minha alma espantada uma série de insultos afiados, tudo porque eu teria dito isto e aquilo a um determinado jornal. Neguei. Não, eu não pensava assim. O homem espetou-me no peito o indignado dedo indicador:
— Pensa, pensa, palhaço! Só não sabe que pensa!…
Hoje já não me defendo. Escuto com curiosidade. Afinal, quem sou eu para contradizer desconhecidos que me conhecem tão intimamente?
Só porque eu sou eu não significa que me conheça. Os meus inimigos íntimos, pelo contrário, conhecem-me admiravelmente. Não precisam conviver comigo, nem ler as crônicas que escrevo para este jornal, muito menos os meus livros. Basta-lhes passar os olhos por uma frase breve, retirada do contexto; assistir aos cinco primeiros segundos de um vídeo; escutar o comentário áspero do amigo de um amigo.
Antigamente, para conhecer um homem, era preciso jantar com ele, viajar na sua companhia, jogar cartas, passar noites partilhando cervejas, piadas, confissões. No mínimo, frequentar a mesma barbearia.
Hoje basta segui-lo no Instagram.
Com isto, venho descobrindo que, como Fernando Pessoa, escondo em mim um sem-número de personalidades. Todas, graças a Deus!, com opiniões fortes e originais. O mais curioso é que enquanto uns me acusam de uma qualquer heresia, outros acusam-me da heresia oposta. Ou seja, não apenas sou multidões, como sou também multidões contraditórias.
Suspeito que a nossa época resolveu um dos grandes problemas da filosofia. Durante séculos os homens perguntaram-se:
— Quem sou eu?
A resposta revelou-se afinal muito simples: basta consultar as redes sociais.
Existem hoje milhares de especialistas em identidades alheias. São pessoas de extraordinária competência. Conseguem determinar as nossas opiniões políticas a partir de uma simples fotografia; a nossa vida íntima a partir de um adjetivo distraído; as nossas intenções mais profundas através de uma vírgula mal colocada. Alguns, mais talentosos, descobrem até as teses que defenderemos amanhã.
Conheço desconhecidos que sabem exatamente o que penso sobre questões tão complexas como a situação na Palestina, o aborto, a inteligência artificial, o aquecimento global, a metafísica do impedimento e a melhor forma de preparar bacalhau. Enquanto eu hesito, duvido e, muitas vezes, me contradigo, estes meus procuradores espirituais mostram-me ao mundo com uma formidável coleção de firmes convicções bizarras.
Esta ideia me tranquiliza. Aos 65 anos começo a cansar-me de ser eu. É um ofício difícil. Felizmente, estes filantropos estão dispostos a desempenhá-lo por mim. A todos eles deixo aqui a minha infinita gratidão.
Nuremberg das bets no Brasil
Em uma manhã cinzenta de setembro de 2030, havia um silêncio elétrico no tribunal. Todas as atenções tateavam os réus. Reconhecia-se no olhar de alguns deles um sentimento de deslocamento, havia um não-lugar em suas íris; outros suspiravam a mais absoluta surpresa, como se tivessem dormido em um quarto nas Maldivas e de repente acordado ali. Pairava sobre um ou outro uma aura de injustiça. Afinal, se qualquer pessoa faria o mesmo para ganhar milhões de reais, por que eles eram acusados? Lá estavam no banco dos réus Casemiro Miguel, Luciano Huck, Neymar Jr, Virgínia Fonseca, Gusttavo Lima, Ronaldo Fenômeno, Carlinhos Maia, Galvão Bueno, Vinícius Jr entre outros.
Havia outros personagens ausentes e com acusações diversas nesse julgamento imaginário. O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes de seu governo foram indiciados por omissão, já que deixou deixar o prazo expirar para a lei da regulamentação, não editou normas e assistiu o mercado explodir sem controle algum. Segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, a omissão administrativa também pode permitir a consolidação de sistemas socialmente nocivos.
Talvez devesse começar esse texto com um aviso. Não se trata de uma comparação direta entre bets e nazismo e o Julgamento de Nuremberg, que entre 1945 e 1946, julgou os principais líderes dos crimes contra a humanidade Apostas são um atentado à saúde pública. A analogia se dá entre as engrenagens políticas, econômicas e sociais que produzem uma barbaridade; está na visão de Arendt: em vez de burocratas, os réus são influenciadores e comunicadores que apenas cumprem funções, ganham seu dinheiro trabalhando, como qualquer outro. Esse julgamento hipotético responderia a uma pergunta: quem são os responsáveis pelos danos causados pelas bets?
Não estou torcendo para ninguém ser preso. Mas por que essas celebridades são julgadas e não os donos das bets? Aí é que está. Quem são os donos? Onde vivem? Como se alimentam? Os famosos são a ponta do iceberg, estão ali por uma questão de jurisdição e exposição.
Durante o julgamento de Adolff Eichmann, um dos principais responsáveis pela organização logística do Holocausto, Hannah Arendt ficou aterrorizada ao não perceber sobre ele as sombras do fanatismo e do cinismo, enxergou apenas uma submissão cega à lei, o cumprimento rigoroso do dever, sem qualquer reflexão sobre uma ordem recebida – o que torna o mal banal.
As empresas pagam impostos, os influenciadores fazem publicidade, tvs e plataformas oferecem entretenimento, o Congresso regulamenta, os bancos processam as transações. Quem tem culpa? Quem é responsabilizado frente a uma população apunhalada por agrotóxicos, microplásticos, álcool, antibióticos, tabaco, algoritmos e toda sorte de poluição?
Uma de nossas crises é essa, o mercado deixou de ser instrumento, uma parte da sociedade, e passou a organizar toda a vida social. O verdadeiro tribunal não é apenas jurídico, mas moral e político. O debate não é apenas se as bets são legais, mas se uma sociedade pode considerar legítima uma atividade cuja prosperidade depende da desgraça de milhões.
Marco Miguel
Havia outros personagens ausentes e com acusações diversas nesse julgamento imaginário. O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes de seu governo foram indiciados por omissão, já que deixou deixar o prazo expirar para a lei da regulamentação, não editou normas e assistiu o mercado explodir sem controle algum. Segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, a omissão administrativa também pode permitir a consolidação de sistemas socialmente nocivos.
Talvez devesse começar esse texto com um aviso. Não se trata de uma comparação direta entre bets e nazismo e o Julgamento de Nuremberg, que entre 1945 e 1946, julgou os principais líderes dos crimes contra a humanidade Apostas são um atentado à saúde pública. A analogia se dá entre as engrenagens políticas, econômicas e sociais que produzem uma barbaridade; está na visão de Arendt: em vez de burocratas, os réus são influenciadores e comunicadores que apenas cumprem funções, ganham seu dinheiro trabalhando, como qualquer outro. Esse julgamento hipotético responderia a uma pergunta: quem são os responsáveis pelos danos causados pelas bets?
Não estou torcendo para ninguém ser preso. Mas por que essas celebridades são julgadas e não os donos das bets? Aí é que está. Quem são os donos? Onde vivem? Como se alimentam? Os famosos são a ponta do iceberg, estão ali por uma questão de jurisdição e exposição.
Durante o julgamento de Adolff Eichmann, um dos principais responsáveis pela organização logística do Holocausto, Hannah Arendt ficou aterrorizada ao não perceber sobre ele as sombras do fanatismo e do cinismo, enxergou apenas uma submissão cega à lei, o cumprimento rigoroso do dever, sem qualquer reflexão sobre uma ordem recebida – o que torna o mal banal.
As empresas pagam impostos, os influenciadores fazem publicidade, tvs e plataformas oferecem entretenimento, o Congresso regulamenta, os bancos processam as transações. Quem tem culpa? Quem é responsabilizado frente a uma população apunhalada por agrotóxicos, microplásticos, álcool, antibióticos, tabaco, algoritmos e toda sorte de poluição?
Uma de nossas crises é essa, o mercado deixou de ser instrumento, uma parte da sociedade, e passou a organizar toda a vida social. O verdadeiro tribunal não é apenas jurídico, mas moral e político. O debate não é apenas se as bets são legais, mas se uma sociedade pode considerar legítima uma atividade cuja prosperidade depende da desgraça de milhões.
Marco Miguel
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