sexta-feira, 1 de março de 2024

Vale a quantidade

Se matamos uma pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis.
Charles Chaplin

Estratégias de sobrevivência em Gaza

O dia havia amanhecido com a notícia de que o presidente dos EUA, Joe Biden, esperava um cessar-fogo iminente entre Israel e o Hamas, mas a maioria da população na Faixa de Gaza não conseguia pensar em nada além de em preparar algo para comer no café da manhã.

"Antes da guerra, costumávamos comprar pão, agora nós fazemos o nosso", disse a jornalista Aseel Mousa, de 26 anos.

A BBC passou o dia acompanhando a vida de algumas pessoas em Gaza — enquanto vasculhavam os mercados em busca de alimentos, trabalhavam em hospitais superlotados e tentavam manter os filhos entretidos.

Houve períodos em que ficamos sem notícias dos nossos contatos — as mensagens enviadas permaneciam com apenas um tique no WhatsApp, e os telefonemas caiam direto na caixa postal.

O conflito Israel-Hamas eclodiu em 7 de outubro do ano passado, quando homens armados do Hamas se infiltraram no sul de Israel, matando mais de 1,2 mil pessoas e fazendo outras 253 reféns.

Aproximadamente 130 reféns ainda estão sendo mantidos em Gaza — e não é possível falar com eles. Os familiares em Israel ficam à espera, sem qualquer ideia das condições em que estão sendo mantidos.

Pelo menos 29.800 palestinos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.


5h: Em Rafah, Sami Abu Omar, de 59 anos, acorda cedo depois de uma "noite difícil".

"Qualquer pessoa nesta situação precisa se acostumar a dormir apenas por uma hora a uma hora e meia", diz ele, descrevendo o som dos bombardeios.

Depois de sair da tenda, ele faz uma oração e segue para um centro de distribuição, onde vai servir sopa de lentilha a famílias desalojadas.

7h: Na cidade de Deir al-Balah, a enfermeira Rewaa Mohsen troca as fraldas das duas filhas pequenas. Uma delas nasceu dois dias antes da guerra.

Ela conta que todos os dias agora segue a mesma rotina de tentar sobreviver e cuidar das crianças. Depois de trocar as fraldas, ela prepara o café da manhã.

9h: Também em Deir al-Balah, a estudante de Medicina e médica voluntária Nagham Mezied, de 22 anos, tira uma foto do seu café da manhã.

Ela costumava comer às 6h, mas recentemente vem postergando a refeição para tentar evitar ficar com fome no fim do dia. O prato desta manhã chama-se mankouche — queijo, ervas, pimenta e azeite no pão.

"Isso é tudo que como até de noite, se tivermos sorte de fazer outra refeição, caso contrário, isso é tudo até amanhã."

9h30: O advogado Mosa Aldous caminha por Rafah depois de uma noite agitada em sua tenda. "Estava muito frio", diz ele.

Ele avista longas filas em busca de água e comida, mas sua atenção nesta manhã está voltada a encontrar conexão com a internet.

"Agora estou a dois quilômetros da minha barraca, tentando encontrar sinal, mas ainda está muito fraco. Estou andando devagar, devagar, cada vez mais distante da tenda", afirma.

11h: A jornalista Aseel Mousa também está em Rafah, mas num apartamento. Ela "aproveitou a oportunidade" para trabalhar um pouco pela manhã, depois de descobrir que tinha energia elétrica e conexão com a internet.

Agora, ela está fazendo pão com a mãe. "Pegamos lenha, acendemos o fogo, preparamos a massa, dividimos em porções, deixamos crescer. É isso que estamos fazendo agora. Esse processo leva pelo menos três horas", diz ela.

11h: Por volta mais ou menos do mesmo horário, há uma comoção em Rafah, quando o advogado Mosa Aldous vê ajuda sendo entregue de avião. Uma multidão se reúne na praia.

"De repente, ouvimos um barulho alto no céu, então saímos e vimos grandes aviões lançando paraquedas com ajuda", ele conta.

11h30: De volta ao centro de distribuição de alimentos, Sami Abu Omar avisa que quatro panelas grandes de sopa já foram servidas.

"Hoje está nublado e pode chover em breve. Nossas mães, quando o tempo fica assim, fazem sopa de lentilha, então preparamos também para os desalojados, para que se sintam mais em casa", explica.

12h40: Aseel Mousa e a mãe terminaram de fazer o pão, que comeram com feijão enlatado e ovos.

"Não estava bom, não gosto de comida enlatada, mas é isso que está disponível em Gaza", ela diz.

"Eu costumava comer queijo e torrada de manhã, mas agora esse tipo de comida não está disponível. Então não foi bom. Mas o pão estava perfeito porque eu e minha mãe o preparamos."

No passado, Aseel recorda que pedia para entregar o café da manhã em seu escritório: rolinhos de canela ou outro tipo de doce.

Ela deixou o laptop na casa de um vizinho que tem painéis solares para conseguir carregá-lo. Ela faz isso todos os dias.

14h30: A enfermeira Rewaa Mohsen está tentando manter a filha mais velha entretida.

"Ela tem os primos para brincar. Também tem brinquedos", diz ela por mensagem no WhatsApp. "Tentamos mantê-la ocupada para que não ouça as bombas."

Ela planeja tirar uma soneca em breve com as duas filhas.

14h40: De volta a Rafah, o advogado Mosa Aldous conta que desistiu de tentar encontrar uma conexão de internet. Em uma ligação cortada, ele avisa que está novamente com sua família na tenda. A ligação cai.

15h30: A expectativa de Rewaa de tirar uma soneca não sai conforme o planejado. Ela envia um vídeo da filha com os olhos arregalados olhando para a câmera e adiciona um emoji sorridente.

"Ela recusa o leite engarrafado. Dei um pouco para ela no primeiro mês, e depois disso não estava disponível, por isso ela depende do leite materno", escreveu.

"Minha mãe e minha única irmã foram mortas em novembro, e não tenho ninguém para me ajudar com elas [as filhas]."

16h13: No Hospital dos Mártires de al-Aqsa, onde é voluntária, Nagham Mezied faz uma reflexão sobre as "duras realidades da guerra".

"Transbordando de pessoas desalojadas em busca de abrigo — (o hospital) se tornou um refúgio para aqueles que perderam tudo: suas casas, seus entes queridos, sua sensação de segurança."

Ela diz que as doenças estão se espalhando — e que eles enfrentam escassez de equipamentos e suprimentos básicos.

16h37: Rewaa manda uma foto do seu almoço — frango com pimentão e azeitonas. Ela diz que os ingredientes custaram mais de US$ 40. Vai ser a última refeição que ela vai fazer hoje.

"Somos abençoados por podermos nos dar ao luxo de duas refeições. Algumas pessoas não conseguem pagar por nenhuma", diz ela.

Enquanto alimenta as filhas, ela também pensa em como o aumento dos preços está afetando a vida da família.

A filha mais velha usa as mesmas roupas de quando a guerra começou. E ela se esforça para conseguir pagar pelas fraldas.

17h17: Aseel, a jornalista, relembra como sua vida era antes.

"Antes da guerra, neste horário, eu costumava voltar do trabalho para casa, depois relaxava na cama e conversava com a minha mãe sobre como havia sido meu dia. Agora, não é apenas tédio — é ansiedade e tensão o tempo todo", diz ela por mensagem no WhatsApp.

"Agora vamos preparar o almoço, que vai ser ervilha em lata, porque não tem nada fresco. Na verdade, só comemos comida enlatada."

19h45: A médica voluntária Nagham Mezied terminou seu turno há algumas horas.

Ela sonha em tomar um banho quente "para aliviar o cansaço do dia", mas não tem gás nem água.

Ela se prepara para fazer o jantar — provavelmente grão de bico e fava enlatados — e depois vai dormir.

"O dia em Gaza termina cedo porque não temos internet nem eletricidade -- não temos nada para fazer. Tentamos dormir cedo e descansar um pouco, caso a noite traga bombas e terror."

Em legítima defesa, Israel atira em multidão de palestinos famintos

Palestinos famintos de Gaza foram os culpados pela morte de mais de 100 deles, soube ontem à noite pelo Jornal Nacional. Foi assim, segundo um porta-voz militar do governo de Israel: uma multidão atacou caminhões com comida que davam entrada na Faixa de Gaza, e muitas pessoas acabaram atropeladas, feridas e mortas.

Eram pessoas famintas, que sobrevivem a duras penas comendo cactos e vendo os filhos desnutridos. Em mais de quatro meses de guerra, chegaram a entrar em Gaza cerca de 500 caminhões por dia com comida, água, remédios e combustível. Ultimamente, o número caiu para 50, e há dias que Israel os impede de entrar.

Instalada a confusão, o que o Exército de Israel fez para restabelecer um mínimo de ordem? Primeiro, tanques e drones atiraram para o alto em sinal de advertência. Veja só: não adiantou. Ou porque os palestinos estão com muita fome a ponto de não se assustarem com tiros, ou porque são indisciplinados.

Aí, com todo o cuidado, os soldados de Israel atiraram na direção dos pés dos palestinos, com a preocupação de não provocar uma tragédia, contou o porta-voz do governo de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas, acredite e veja como são os palestinos: continuaram avançando sobre os caminhões.

Quem seria capaz de ignorar os tiros de advertência do mais poderoso Exército do Oriente Médio, primeiro para o alto, depois na direção dos pés sem os quais, ou com eles feridos, qualquer pessoa para de andar e cai? Vai ver que só palestinos são capazes de uma proeza como essa. Foi, porém, o que aconteceu. O que fazer?


Então os soldados de Israel, segundo a versão oficial do governo de Israel, naturalmente sentiram-se ameaçados. Quem não se sentiria? Afinal, o alvo da multidão poderia não ser só os caminhões, mas também os tanques e os soldados que os cercavam. Os drones, não, porque seria impossível derrubá-los, a não ser com armas.

Ali, no cenário do conflito, fora as tropas de Israel, ninguém tinha armas. Essa é uma característica desta guerra: de um lado, um exército armado até os dentes, dispondo das mais modernas armas do arsenal dos Estados Unidos e de países europeus; do outro… Bem, o outro lado não tem Exército, a não ser um grupo de terroristas em fuga.

Se os tiros para o alto, e depois para os pés, não detiveram a multidão, os soldados de Israel atiraram na multidão. Correr o risco de serem mortos por uma multidão desarmada? E se parte dela escondesse armas? Mata-se também com as mãos. Portanto, é o que concluo, foi um ato de legítima defesa dos soldados de Israel, e ponto final.

Ponto final, ainda não, porque o presidente da França, Emmanuel Macron, saiu logo a escrever no X, ex-Twitter:

“Expresso a minha mais veemente condenação destes tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional”.

De todo modo, Macron foi prudente. Ele falou em tiroteios, mas não apontou culpados. Até Israel admite que atirou na multidão. Mas, se mais tarde ficar provado que Israel acertou ao atirar? Acertou no sentido de que não lhe restava outra coisa a fazer, não no sentido de acertar nos palestinos? Como se vê, Macron é um estadista.

Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, ainda foi mais prudente do que Macron. Agências de notícias informaram de imediato:

“Biden diz que ataque de Israel a palestinos dificulta cessar-fogo”.

Que mais ele poderia ter dito no calor da hora? Momentos antes, seu principal assessor para assuntos militares, em depoimento a uma comissão do Congresso, admitiu a morte de 25 mil mulheres palestinas. A fala dele foi gravada, embora a Casa Branca tenha, mais tarde, tentado corrigi-la, mas sem sucesso.

Israel é o grande porta-aviões dos Estados Unidos no Oriente Médio, afirmou Biden à época em que era senador. Não só por isso, mas também por isso, Israel dita parte da política externa americana. Os Estados Unidos acabam fazendo o que Israel quer. Não há sinais de que isso mudará um dia. A matança em Gaza não cessará tão cedo.