segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Agora Luzia é morta

O Museu Histórico Nacional agora é uma ruína histórica. O prédio e o acervo sofreram incêndio criminoso. Resta à perícia dar o atestado de óbito indicando a causa e os criminosos, que todos já conhecem de longa data: a incúria e o descaso apocalípticos do país.


O Brasil não só perdeu o prédio da família imperial ou o quinto maior acervo do mundo. Puseram fogo no imaginário nacional com a perenidade do símbolo de sua História e Pré-História. Lamentam e choram milhões que o patrimônio histórico e científico, legados pétreos, viraram cinzas em poucas horas. A memória humana, além da história brasileira, foi levada pelo fogo e a água.

Falam em reconstrução em mais uma cenografia de quem se lixa para as referências da memória de um país. Não se pode mais recuperar acervo em cinzas. Enganar pessoas e o futuro a bel-prazer é a própria profanação dos restos mortais. Deve-se respeitar a ruína como exemplo às gerações de como um país maltrata tudo - de gente a instituições, prédios e história - em nome da sustentação do privilegismo.

As lágrimas de crocodilo inundam páginas de necrológico do museu. Nem governos, políticos, instituições, banqueiros ou empresários se empenham em manter a história desde que não seja para cenário de auto-exaltação. A Quinta da Boa Vista, no Rio, com o prédio histórico ao fundo, como cenografia, foi por décadas abusada por um projeto midiático que não rendeu um centavo de direitos de imagem para a instituição, mas milhões para os patrocinadores e promotores em fortalecer seu poderio político-econômico.

As chamas desse domingo iluminaram a hipocrisia nacional. A cultura e o empresariado que choram a perda são os mesmos que ontem prodigalizavam o patrocínio público, em lei, de seus shows pseudo-culturais. A mídia que defendia um ministério único para a Cultura, quase em campanha nacional, não foi capaz de denunciar com a mesma veemência o descaso governamental. O dinheiro da preservação correu sempre de enxurrada para alimentar a cultura dos estandartes político-ideológicos. Aqueles que nunca promoveram nenhuma iniciativa para a defesa do museu contra o descaso de governos, talvez mesmo nunca pisaram no prédio, promoveram um “braço” às ruínas.

A memória, registro da Humanidade, nunca foi, nem é, cuidada como deve ser no país. Não será agora que o brasileiro deixará de lado a hipocrisia de matar e depois chorar o morto para cenograficamente idealizar um futuro. 


A cremação de "Luzia", a mulher brasileira de 12 mil anos, exemplifica um país que se lixa para si mesmo desde que haja lucro em suas supremas castas. Pois que deixem as ruínas do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista como memória deste país que todos fizeram e fazem.
Luiz Gadelha

Deputado vale mais

Museu Nacional deveria receber R$ 515 mil anuais 

Cada deputado federal custa mais de R$ 2,14  milhões por ano

Apoteose tabajara

Evitemos ferir suscetibilidades falando em candidatura fake, farsa, palhaçada, carnaval, molecagem, chanchada, em relação ao circo armado para não cumprir a Lei da Ficha Limpa — promulgada por Lula nos tempos em que era presidente, e os anos não trazem mais. O realismo aconselha que não adianta o eleitor se paralisar, perdido numa campanha eleitoral cheia de dúvidas, que acabam por configurar a impressão que o PT quer passar ao mundo: a de que, na melhor das hipóteses, o Brasil vive uma democracia tabajara, quando não a encarnação do Bananão a que se referia Ivan Lessa.

Enquanto tomamos pé no quadro definido pela Justiça Eleitoral, prestemos atenção ao outro lado do pleito em que decidiremos nosso futuro daqui a um mês. Olho vivo nos deputados e senadores que vamos escolher.


Vamos nos informar e debater com os amigos sobre os candidatos ao próximo Congresso. Garimpar escolhas racionais que pareçam dignas. Não dá para esquecer aquele vergonhoso desfile de oradores se sucedendo ao microfone na votação do impeachment da Dilma. Aproveitemos este mês para analisar os pretendentes à Câmara e ao Senado. Deles sairão os eleitos que devem definir a reforma política, a da Previdência, a tributária e outras medidas necessárias ao fim dos privilégios, para começar a dar jeito no que está aí. Compete-lhes conter as decisões irresponsáveis, corporativas e populistas que vêm quebrando o país. Eles é que aprovarão ou não as prioridades corretas para retomar o crescimento, reduzir a desigualdade entre nós e proteger o meio ambiente. Caberá a eles romper as práticas corruptas que nos trouxeram até aqui, e deter a incompetência e o despreparo do Congresso dolorosamente incapaz que temos visto.

Há nomes novos que parecem interessantes. Há alguns experientes que merecem respeito, em diferentes partidos, mesmo com alguma restrição aqui e ali. Precisamos contar com bons deputados e senadores. Somos responsáveis por sua escolha.

Voto leviano constrói a apoteose tabajara.

Pensamento do Dia

                                                                              Pawel Kuczynski

Um país exausto

O vaivém nos últimos dias a respeito do reajuste salarial do funcionalismo, defendido com obstinação pelas corporações malgrado o estado crítico das contas públicas, serviu para lembrar a existência de dois países chamados Brasil: o Brasil real, no qual a maioria dos trabalhadores, se der sorte de arranjar emprego, recebe salários determinados pelas duras condições de mercado, pode ser demitida a qualquer momento e tem escassa capacidade de mobilização política; e o Brasil dos servidores públicos, onde grande parte de seus felizes habitantes conta com estabilidade no emprego, ganha muito acima da média do mercado, aposenta-se em condições privilegiadas e dispõe de imenso poder de convencimento em Brasília.

O fato é que o Brasil dos servidores públicos está exaurindo o Brasil dos trabalhadores comuns, de cujo rendimento saem os impostos que sustentarão os proventos dos cidadãos daquele outro país. E isso fica claro não apenas quando se comparam as discrepantes condições de trabalho e de aposentadoria de uns e de outros, das quais se destacam os muitos penduricalhos e benefícios de que usufruem várias categorias de servidores públicos, a maioria dos quais jamais seria obtida no setor privado. A exaustão do Brasil real se dá especialmente porque uma parte considerável de suas agruras fiscais se deve à sempre crescente demanda de recursos por parte do país dos servidores públicos - invariavelmente, é claro, movido pelas melhores intenções.


Um exemplo caricato desse discurso se deu quando o ministro Ricardo Lewandowski defendeu para ele e seus colegas de Supremo Tribunal Federal um reajuste salarial de 16,38%, com impacto na folha de todo o Judiciário e, por tabela, de todo o resto do funcionalismo. Lewandowski sugeriu que aquele porcentual era quase nada perto dos “milhões e milhões de reais que os juízes federais e estaduais recuperam para os cofres públicos” em processos contra corruptos - como se os juízes estivessem fazendo um favor a seus vizinhos do Brasil real ao punir corruptos, razão pela qual a majoração salarial seria uma justa comissão de sucesso.

Mas o problema é que a mentalidade que alimenta esse Estado a caminho da inanição graças à voracidade cada vez maior das corporações vai muito além de raciocínios quase anedóticos - mas sem a menor graça - como esse do ministro Lewandowski. Predomina há muito tempo no País a visão segundo a qual é preciso garantir uma série de direitos sociais para a população em geral, especialmente os mais pobres, e isso só seria possível com a manutenção de um Estado forte, bem estruturado e, claro, com uma elite bem remunerada. O problema é que, quanto mais direitos se criam - e a Constituição atual mostra que não há limites para essa criatividade -, maior tem de ser a máquina supostamente dedicada a atender-lhes.

Na prática, portanto, o resultado é o exato oposto do pretendido: quanto maior o Estado, quanto mais prebendas aufere a elite dos servidores públicos, quanto mais recursos são dragados, menor é a capacidade dessa máquina estatal de atender às necessidades do Brasil real.

Os indicadores sociais, por exemplo, só fazem piorar. Dados divulgados em julho mostram que a mortalidade infantil avançou 4,8% em 2016 em relação a 2015, o primeiro aumento desde 1990. Em grande medida, esse desempenho lamentável é fruto de outro vergonhoso déficit, o de saneamento básico - apenas metade dos brasileiros tem acesso a coleta de esgoto. Ademais, os mais recentes dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram que 70% dos alunos que terminam o ensino médio têm nível considerado insuficiente em matemática e português. A indecorosa lista de falhas desse Estado balofo inclui ainda o colapso da segurança pública, o estado tenebroso da infraestrutura e as carências extremas do sistema público de saúde.

Enquanto isso, como noticiou recentemente o Estado, a empresa estatal criada em 2011 pelo governo de Dilma Rousseff para tocar o megalomaníaco projeto do trem-bala continua a funcionar, com 146 servidores, vários dos quais com salários acima de R$ 20 mil. Como se sabe, o trem-bala não saiu do papel, mas, no Brasil da fantasia, isso não tem a menor importância. Os alicerces do Estado só se abalam quando os caprichos das elites corporativas são negados.
Editorial -  O Estado de S.Paulo

Vencedores na vida

Pensando bem talvez mundo seja feito só para queles que são donos dele agora, e há pessoas que nunca vão ser nada. As pessoas que vão vencer são aquelas que já venceram, e essas não estão correndo nenhum risco agora
V. S.Naipaul, "Gerruilheiros"

As mortes do dia 20

No dia 20 de agosto de 2018, o Rio de Janeiro teve mais um dia daqueles terríveis. Matou-se nos quatro cantos da cidade. Sabemos quem são os mortos, os de sempre: negros, jovens, moradores da periferia, alguns que trabalham no tráfico, outros que simplesmente vivem ali onde o tráfico — e não só ele — está entrincheirado. Há um grito para que legalizem a pena de morte, mas ela, se não está legalizada, impera entre nós. Praticada pelo Estado, praticada pelo tráfico (pelo roubo, pelo sequestro). A pena de morte não resolve, temos prova suficiente disso, basta tirar o véu dos olhos. A violência não coíbe a violência, ao contrário, alimenta-a. Minha utopia, digo e redigo: desarmar a polícia, o Estado. A reação dos bandidos se daria no mesmo sentido, por que gastar tanto com armas se o outro lado não as tem mais? Meu leitor, você está lidando com um utópico, guarde um pouco de seu pragmatismo ao combater minhas ideias. Vamos nos alimentar de um sonho.


Querem reduzir a maioridade penal, pois, argumentam, as crianças estão carregadas de maldade e portam fuzis. Perguntar a razão disso não se pergunta. Isso de perguntar muito não leva a lugar nenhum. Melhor prender, arrebentar, dar um corretivo ou mesmo o corretivo final. Crianças? Que não vinguem. O fato é que muitas delas já estão encarceradas nos estabelecimentos que deveriam servir a sua reeducação. E essas crianças, um jornal do Rio de Janeiro, na véspera do 20 de agosto, mostrava, umas assassinam as outras. Essas crianças suicidam-se. Elas já recebem o tratamento que os senhores da violência imaginam ser a solução para o futuro do país. Em vez da violência, plantemos uma utopia. Vamos nos alimentar de um sonho.

Os que acreditam no chicote e na bala não são pessoas de diálogo, claro que não. Como seriam? Ouvir o outro pode significar baixar a mão, recolher o relho, tirar as balas da culatra e enfiar para sempre a arma no coldre, o coldre no lixo. Dar ouvido ao outro pode significar entendê-lo, dar-lhe razão. Mas como abandonar suas próprias razões, essas adquiridas não com reflexão, mas com experiência? Qual experiência? Ora, não venham com perguntas, eles não gostam de perguntas. Eles têm resposta. Mas respondem a quê, se não respondem a uma pergunta? Não respondem. O que fazem então? Reproduzem a ignorância alheia. Matem. O ladrão? Matem. A mulher que não baixa a cabeça? Matem. O pedinte? Matem. Deixemos que a morte faça o seu serviço sujo, ela existe para isso, não precisamos, feito Deus, agir por ela. Plantemos uma utopia. Vamos nos alimentar de um sonho.

Alexandre Brandão

Menos estado, mais prisão: a rota do milhão

Não existe Estado mínimo grátis. Estudiosos da segurança pública e da economia política do crime, em diversas partes do mundo, identificam que a retração de políticas de bem-estar gera expansionismo nas políticas de repressão: do minimalismo governamental ao maximalismo penal, o caminho de um ponto a outro não é acidente ou mera coincidência. Quanto menos dinheiro público de um lado, mais do outro. As variáveis e causalidades são mais complexas do que essa equação sugere, mas a síntese da correlação mostra-se universal. Falta-nos, portanto, um retrato fiel sobre o significado do Estado mínimo: o apelido do “Estado-guarda-noturno”, aquele vigia simpático que protege sua casa (em bairro nobre), na prática significa “Estado-penitenciária”. Sai caro para todo mundo.

O problema, claro, não é só de finanças públicas. O Brasil vive sob vertiginosa taxa de crescimento de sua população carcerária, que já ultrapassou os 700 mil, a terceira do mundo. Os presos sem condenação tangenciam os 300 mil. O déficit de vagas ultrapassa os 350 mil. Segundo dados oficiais, os mandados de prisão em aberto beiram os 600 mil. Se tudo der certo, o projeto brasileiro de encarceramento em massa ultrapassará 1 milhão de “beneficiários” no fim desta década ou começo da próxima.


O problema, claro, não é só de números. A população carcerária brasileira é composta de maioria de homens jovens, negros, que não completaram o ensino fundamental. Essa maioria foi presa por crimes contra o patrimônio (37%) ou de tráfico de drogas (28%), típicos de pessoas de alta vulnerabilidade socioeconômica. Por homicídios, apenas 11%. A Constituição de 1988 proíbe tratamento desumano ou degradante e também as penas cruéis (Art. 5º), uma homenagem insólita às condições de insalubridade de nossas prisões.

O problema, claro, não é só de violação de direitos. O crime organizado aprendeu a lucrar com isso. Multiplica a violência nas ruas e nossa sensação de insegurança. Nos últimos cinco anos, por exemplo, o PCC aumentou em 700% seus integrantes fora do estado de São Paulo (de 3 mil para 20 mil). O sucesso empresarial do PCC está imbricado no sistema prisional (recomendo o recém-lançado livro A guerra — A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, escrito por Bruno P. Manso e Camila N. Dias). Uma forma de resumir a lei geral do encarceramento brasileiro seria esta: quanto mais prisão, mais crime organizado; quanto mais crime organizado, maior corrosão da política e da democracia. Como muitas leis sociológicas, são contraintuitivas, ignoram ideologias e desafiam o senso comum. A política pública falha em neutralizá-las. Os autores morais e intelectuais do massacre prisional brasileiro não habitam apenas os palácios de governo, as Assembleias e os quartéis, mas também os palácios de Justiça.

As ciências sociais e a sociedade civil organizada, por meio de seus diagnósticos e recomendações, têm contribuído na elucidação do tema (para citar algumas instituições: Conectas, Instituto Sou da Paz, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto Igarapé, IBCCRIM, Pastoral Carcerária, Rede Justiça Criminal, IDDD). As publicações “16 medidas contra o encarceramento em massa” e “Segurança pública é a solução”, disponíveis na rede, oferecem bons critérios para avaliar os programas de presidenciáveis.
Curar a desinteligência penal brasileira é uma missão que não perde de nenhuma conquista civilizatória da qual possamos nos orgulhar, como as abolições da escravatura, da pena de morte ou da tortura. Numa democracia com alto grau de desigualdade e elites com baixo grau de compromisso público e educação política, a missão de candidatos à Presidência de hoje e de amanhã é enfrentar o debate sem recorrer à cartilha do populismo penal, repleta de promessas de balas de prata. Os programas que estão na mesa variam em conhecimento técnico, seriedade e profundidade. Alguns continuam a pensar a segurança pública como sinônimo de arma, polícia e prisão, numa política de “ganha quem tiver calibre mais grosso”. Outros não subestimaram sua inteligência. Resta ler antes de votar.Conrado Hübner Mendes

Brasil incendiário

Os dois cavaleiros do apocalipse

Engana-se quem pensa que o fundamentalismo político é privativo dos que se identificam como “de esquerda”. Agora, nos escombros deixados pelo furacão Dilma Rousseff, surgiu um fundamentalismo que se apresenta como “de direita” e que àquele se assemelha em certos aspectos cruciais. Refiro-me ao bolsonarismo.



O fundamentalismo de esquerda, cujo principal representante entre nós é o petismo, prometia conduzir-nos ao paraíso terrestre da sociedade sem classes. O bolsonarismo promete passar o País a limpo com uma só cajadada, livrando-o do crime, da corrupção, do patrimonialismo e do corporativismo. Assentado sobre uma crença infantil num big-bang primordial, num imaginário quilômetro zero, isento de marcas negativas deixadas pela História, ele se propõe, como objetivo, a refazer o País de alto a baixo. A questão de fundo é de uma clareza meridiana. Esse novo fundamentalismo surgiu entre os escombros deixados pelo furacão Dilma Rousseff. Juntos, o colapso econômico e a corrupção sistêmica aguçaram o desejo de mudança. Agora todos querem (queremos) mudanças profundas, enérgicas, abrangentes - o que é ótimo. Mas daí ao mito romântico do big-bang primordial e aos mantras do “governo forte” e do “salvador da pátria” vai uma grande distância.

Assim como o fundamentalismo esquerdista, o bolsonarismo tende ao pensamento mágico, com certo cariz totalitário. O que lhe escapa, e é a pedra angular da filosofia liberal-democrática, é que todos os governos têm sua ação necessariamente limitada pela realidade social. Mais ainda no regime democrático, a política é sempre e necessariamente uma atividade com fins limitados. A “refundação radical” e o quilômetro zero não passam de piedosas lorotas. Essa limitação fundamental se deve, desde logo, à escassez, ou seja, ao montante sempre insuficiente dos recursos que um governo é capaz de mobilizar a fim de resolver de forma cabal os problemas que considera prementes. Exemplifico: o Brasil reinveste anualmente 16% de seu PIB; a China reinveste 40%, cresce a taxas persistentemente superiores à média mundial e, mesmo assim, ainda abriga um oceano de pobreza.

O candidato Jair Bolsonaro dá a entender que resolverá o problema da violência facilitando o acesso do cidadão comum a armas de fogo. Uma resposta pífia, já se vê, para o crítico problema que adotou como carro-chefe de sua propaganda. Mas, antes disso, aí pelo menos há uma variação. Curioso seria se sua solução consistisse tão somente em mandar o Exército, providência que o presidente Michel Temer pôs em prática no Rio de Janeiro desde o início deste ano, com resultados reconhecidamente modestos. Também aqui não descabe especular que o candidato Bolsonaro não consegue enxergar além dos estritos limites do pensamento mágico. Parece crer que os criminosos são uma parcela fixa da sociedade, bastando, pois, aniquilá-la para que o crime como tal desapareça. É exatamente assim, aliás, que uma proporção elevada dos seguidores do deputado Bolsonaro vê a influência do pensamento de esquerda no Brasil.

Sim, claro, há um esquerdismo amplamente difundido no País, nisso nada havendo de novidade. Nas universidades e até em parte do ensino médio, professores e estudantes curtem o embalo do “socialismo”, em geral sem saber direito do que estão falando. No clero, também: desde a Conferência Episcopal de Medellín (1968), a CNBB passou a se comportar praticamente como uma linha auxiliar do PT. Na imprensa também sempre houve comunistas, bastando lembrar que o sucesso das novelas da Globo se deveu inicialmente ao talento artístico de alguns deles. Mas daí a dizer que estamos na iminência de uma revolução “bolivariana” vai uma grande distância.

Não acredito que Jair Bolsonaro compartilhe o tosco entendimento da esquerda presente no imaginário de muitos de seus adeptos. Na hipótese de se tornar presidente, não o vejo como um projeto de herói solitário, tentando sozinho erradicar uma tradição política tão profunda e complexa. O esquerdismo tende a perder força, mas paulatinamente, pela ação dissolvente do próprio processo democrático e dos imperativos da modernização econômica. Sabemos todos que o petismo surgiu há três décadas e meia, antes do colapso da URSS, já como uma ideologia moribunda. O grande sucesso que logrou no Brasil se deveu em parte à condutibilidade atmosférica do esquerdismo que já tínhamos e, principalmente, à imprecisão enganosa de sua tese principal, a de “um socialismo ainda por construir”. Atacá-lo frontalmente é um atalho seguro para trazê-lo de volta ao ringue, com suas noções arcaicas de economia, cuja capacidade destrutiva Dilma Rousseff demonstrou à saciedade.

Outro traço característico do fundamentalismo presente no atual debate político é a verborragia antipolítica, quero dizer, o devaneio de liquidar a “política tradicional”. Explícita ou implicitamente, esse é o discurso de candidatos que não conseguiram formar alianças e se valem desse caminho para criticar o apoio do chamado Centrão ao candidato Geraldo Alckmin. Supondo, para argumentar, que haja sinceridade nesse discurso, a preliminar óbvia é como pretendem formar uma base no Congresso Nacional. Um presidente com tal perfil optaria por governar e aprovar reformas sem dispor de maioria? A questão suscitada é importante, mas o silêncio embutido nas respostas é de estourar os tímpanos, como diria Nelson Rodrigues. É também o fato, inegável, de a chamada “política tradicional” ser o vestuário externo do velho patrimonialismo, conservado em formol e reforçado por nossa esdrúxula estrutura política, que cedo ou tarde terá de ser reformada.

Reformas, eis o nome do jogo. Com persistência e habilidade, é possível efetivar reformas que cortem o tubo de oxigênio do patrimonialismo.

Eleitos colaboram na matança

Resultado de imagem para urna dá dedada charge
Na América Latina não há mais golpes, mas a democracia continua morrendo por meio de líderes eleitos
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, “Como as democracias morrem”

Troça, chacota, deboche

Goste-se ou não delas, leis balizam a organização da coletividade, garantem direitos e deveres, impõem punições. Têm de ser respeitadas e, por óbvio, cumpridas. Mas por aqui o descaso com as leis e até mesmo com a Constituição é generalizado, a começar por aqueles que por dever de ofício juram lealdade a elas.

Foi o que se viu na madrugada de sábado, quando o TSE, depois de indeferir o registro do ex Lula, afagou o condenado com a permissão de que o PT continuasse usufruindo do horário eleitoral de rádio e TV nos dias dedicados aos candidatos à Presidência da República. A decisão estapafúrdia, tomada longe dos holofotes durante um rápido intervalo, produziu mais uma anomalia no já tumultuado processo eleitoral: a campanha presidencial de um não-candidato à Presidência.


O PT protagoniza outro absurdo jurídico. A presidente cassada Dilma Rousseff é o único caso conhecido de alguém que perde o mandato e mantem seus direitos políticos, contrariando os dizeres da Constituição – a mesma que impediu Fernando Collor de Mello de disputar eleições por oito anos.

Dilma foi liberada por um arranjo entre os então presidentes do Senado, Renan Calheiros, e do STF, Ricardo Lewandowski. Por maioria simples, eles conseguiram o impossível: alterar a Carta Magna, que só pode ser mudada em votação dupla por dois terços dos integrantes da Câmara e do Senado.

A manobra espúria de 2016, que completou dois anos na sexta-feira, continua a ter efeitos deletérios. A ex lidera a disputa para o Senado em Minas Gerais e alimenta sonhos vingativos de vir a presidir a Casa que a cassou.

Com a burla de leis consagrada por cortes superiores, seria demais exigir que o PT cumprisse a proibição de Lula aparecer como candidato na propaganda eletrônica petista de sábado. Lula está lá 100% do tempo. Embora não peça votos para si, o programa inteiro girou em torno de sua candidatura – a que o TSE indeferiu e, portanto, é absolutamente ilegal.

No site da coligação, os comerciais televisivos estão expostos na íntegra, com a assinatura Lula Presidente, desafiando a Justiça, que impediu qualquer tipo de propaganda com o ex como candidato. E faz chacota com a Corte eleitoral na chamada “assista aos programas de Lula que o TSE não quer deixar passar na TV”.

Não há indicações de que o PT mudará o rumo da campanha.

Ainda que internamente haja conflito quanto ao melhor momento de substituir oficialmente o candidato impedido, o partido terá de decidir o que fará nos próximos oito dias. Se escolher colocar Fernando Haddad como cabeça da chapa perde, legalmente, a possibilidade de recorrer para tentar registrar Lula, que não poderia ser reposto no lugar do ex-prefeito de São Paulo.

Mas sabe-se lá. Depois de ser tão mimado por decisões heterodoxas dos mesmos tribunais que o PT demoniza, o partido tem motivos de sobra para crer em novos benefícios. Afinal, quem imaginaria Dilma cassada podendo disputar votos dois anos depois, ou que um candidato condenado por 12 anos, preso por corrupção e lavagem de dinheiro e impedido de ser candidato pela Lei da Ficha Limpa, estaria sorridente na TV.

Nada disso aconteceria se as leis fossem respeitadas, sem jeitinhos ou agrados para alguns.
Mary Zaidan

Há cinismo sobre as cinzas do Museu Nacional

O retrato de uma sociedade é o resultado da análise de tudo o que sobra para ser desenterrado muitos anos depois. No futuro, quando a arqueologia fizer suas escavações à procura de sinais que ajudem a entender a decadência do Brasil, encontrará em meio aos escombros deste domingo, dia 2 de setembro de 2018, evidências de que o cinismo é o máximo de sofisticação filosófica que a civilização foi capaz de alcançar nesta terra de palmeiras. Só o cinismo aproximará o Brasil da verdade.

Numa velocidade de truque cinematográfico, as chamas consumiram a história armazenada durante 200 anos no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio. Os arqueólogos encontrarão uma camada de oportunismo político sobre as cinzas. Eles se espantarão com os resíduos de uma nota oficial de Michel Temer.


Lerão no documento: ''Incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros''.

Os pesquisadores descobrirão que o mesmo Temer dera de ombros para a tentativa do diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, de ser recebido no Planalto. Queria conversar sobre as ruínas da instituição e a necessidade de reformas. Pleiteava a ocupação de um terreno da União. Nele, instalaria a administração do museu, para que o prédio histórico pudesse ser restaurado. Mas Alexander não conseguiu passar “do cara do cafezinho”.

Os arqueólogos gargalharão quando derem de cara com uma manifestação da senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT: “O museu é mais uma vítima do golpe, da turma do austericídio.” Constatarão que o torniquete financeiro que asfixiou o museu foi agravado sob Dilma Rousseff, a quem Gleisi servira como ministra-chefe da poderosa Casa Civil da Presidência.

Desde o ocaso do primeiro mandato de Dilma que o Museu Nacional, subordinado à Universidade Federal dio Rio, não recebia nem mesmo a totalidade dos R$ 520 mil anuais que deveriam custear sua manutenção. A rubrica murchou para R$ 427 mil em 2014. Gleisi não chiou.

A cifra caiu para R$ 257 mil em 2015. Nem um pio de Gleisi. Em 2016, ano do impeachment, liberaram-se R$ 415 mil. Nada de Gleisi. No ano passado, R$ 346 mil. E Gleisi: “zzzzzzzzzzzz”. Até abril de 2018, foram repassados irrisórios R$ 54 mil. Súbito, o incêndio ateou em Gleisi uma indignação cenográfica.

A arqueologia concluirá que a decadência transformou o Brasil numa cleptocracia pós-ideológica. O problema não era de esquerda nem de direita. O problema era a meia dúzia que se revezava por cima, zelando para que as verbas do Tesouro Nacional, extraídas do bolso dos que estavam por baixo, continuassem saindo pelo ladrão.

Quando for estudada no futuro, a realidade brasileira parecerá ainda mais inacreditável. Além do cinismo, os estudiosos ficarão intrigados com o excesso de ironia. Descobrirão que, por uma trapaça do destino, a história guardada no Museu Nacional virou cinzas num instante em que o BNDES liberava R$ 21,7 milhões para reformar o prédio. O fogo chegou antes.

Coube aos bombeiros realizar a descoberta mais constrangedora: a inépcia e a corrupção cresceram tanto que fizeram desaparecer no Brasil até a água dos hidrantes. Uma declaração do ministro da Cultura de Temer revelará que, no dia 2 de setembro de 2018, desapareceu também o senso de ridículo das autoridades:

''Já falei com o presidente Michel Temer e com o ministro da Educação. Vamos começar a fazer o projeto de reconstrução do Museu Nacional, para ver quanto é e como viabilizar.'' Os arqueólogos atestarão que, do ponto de vista político, o homem público brasileiro era apenas um cadáver mal informado. Não sabia que havia morrido.