quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 

Gergely Bacsa

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertolt Brecht

Grito do Ipiranga

Escutámos Mark Carney em Davos, e depois Ursula von der Leyen e Emmanuel Macron e sentimos que era o momento “Grito do Ipiranga” da Europa (e do resto do mundo democrático). Reconhecemos a realidade e seguimos empenhados na construção da nossa autonomia, com os custos a que tal obriga. Mas, assim como no processo de independência do Brasil, não será nem simples nem imediato.


O Parlamento Europeu suspendeu a ratificação do Acordo de Tarifas negociado com os Estados Unidos da América, no verão. Havia sido um acordo controverso. Houve augúrios de que era uma vassalagem que não impediria novos ataques, mas compreende-se que uma Europa, fundada no primado da lei e na relação transatlântica, tudo tentasse para preservar uma ordem que lhe garantiu paz e prosperidade durante 80 anos. A recente divulgação da proposta da Comissão Europeia de uma nova legislação para o setor das telecomunicações (Digital Networks Act) confirma o limbo em que, ainda, nos encontramos.

A internet parece etérea, mas os cabos de fibra e antenas que a sustentam não são. E os investimentos necessários para manter e atualizar a rede são astronómicos.

A Europa já investiu 160 mil milhões de euros na rede 5G, mas até 2030 será necessário investir mais 175 mil milhões de euros. O custo é suportado pelo consumidor (e a longo prazo). Os grandes beneficiários são as big tech. Utilizam sem custo acrescido a rede, não obstante gerarem mais de metade de todo o tráfego (imagem e som).

Ao contrário do que acontece com outras infraestruturas, onde quem mais usa paga mais (pense, por exemplo, na diferença de preço numa portagem de um carro ligeiro versus um camião), tal não acontece na infraestrutura de telecomunicações.

A razão é histórica. Aquando do grande boom da internet, o legislador preocupou-se em garantir igualdade de acesso a todos os utilizadores: o “princípio da neutralidade”. A rede seria agnóstica a quem a usava ou à informação transmitida (sem censura). Todos os conteúdos beneficiariam da mesma qualidade de serviço. Para tal não poderiam existir preços diferenciados.

O mundo de 1990 era muito diferente da atualidade. Não existiam plataformas (Instagram e TikTok), nem motores de busca (Google) ou de resposta (ChatGPT). Não existia YouTube, Netflix ou AppleTV.

O mundo mudou, mas a legislação não. O atual modelo é vantajoso apenas para as big tech, que utilizam sem custo a rede, de cuja existência dependem para gerar lucros incomparáveis com qualquer outro serviço ou indústria. Para manterem o statu quo, promovem, junto do público, o discurso da liberdade de expressão: que um preço do serviço diferenciado poderia ser utilizado como um instrumento de censura. Mas é sobretudo na Administração Trump que encontram o seu maior apoiante.

No verão, aquando da negociação do acordo de tarifas, além de pretender que a União Europeia revogasse o Regulamento de Inteligência Artificial e o Regulamento de Serviços Digitais (o que não conseguiu), Trump exigiu, e conseguiu, que as big tech não tivessem de passar a contribuir para os custos de investimento da infraestrutura de telecomunicações.

Da proposta ora divulgada não consta de facto essa obrigação, mas um mecanismo para negociação de uma eventual colaboração. Não é um repúdio ao acordado no verão, mas também não é o desejado pelas big tech.

A Europa vive o seu momento Ipiranga. Embora no famoso quadro de Pedro Américo, D. Pedro estivesse em pose altiva, montado num cavalo branco rodeado de tropas, da imagem apenas o riacho Ipiranga era verdadeiro. Segundo os documentos da época, o príncipe deslocava-se de mula, estava adoentado e não havia tropas em uniformes brilhantes. A realidade é muito mais difícil do que a Conferência de Davos.

Deixem-nos morrer de fome

Todo esse tempo que passamos assistindo impassíveis, dia após dia, ao massacre em Gaza, contribuiu para nossa desumanização. Apesar da censura, as imagens nos atingiram como flechas, mas seu fluxo constante acaba por nos dessensibilizar ao horror. O suposto acordo de paz não conteve as baixas civis que, segundo fontes oficiais, ultrapassam 70.000. Na Ucrânia, a pressão exercida pelo inimigo cada vez mais cruel, com cidades inteiras sem eletricidade, força a população civil a viver em condições extremas. As negociações para um cessar-fogo parecem igualmente paralisadas. Congelar inocentes até a morte começa a nos parecer mais um ato estratégico de ousadia do que o crime que é. No Irã, sob o jugo férreo da ditadura religiosa, vislumbramos uma das repressões mais brutais já perpetradas por um governo contra seu próprio povo. Enquanto isso, aceitamos cada vez mais a ideia de que poderes autoritários são uma solução para o caráter fraco de cidadãos distraídos e moralmente falidos.


Esta é a realidade tenebrosa que nos cerca. Dizem que a palavra “pesadelo” vem daquele peso insuportável no peito que nos sufoca durante o sono e desencadeia nossa tendência ao sofrimento e à angústia. Para dormir em paz, somos tentados a deslocar esse peso invisível para longe, o mais longe possível, a nos desapegarmos de tudo. Mas os pesadelos são combatidos abrindo os olhos, despertando. Agora é a vez de Cuba. Durante o cerco de Gaza, para nossa surpresa, a estratégia medieval de matar a população de fome foi usada novamente . Já havíamos notado, há algum tempo, uma estranha mudança no tratamento dos imigrantes. Parece que, para eles, nenhum ditame de direitos humanos é vinculativo. Essa regressão da sensibilidade, para dizer o mínimo, retorna agora com uma brutalidade aberrante. O cerco econômico da ilha, uma espécie de bloqueio final, abala as pessoas como se fossem peões em um jogo estratégico.

A suspensão das exportações de petróleo da Venezuela e do México está finalmente sufocando o funcionamento precário e lamentável de Cuba. Aqueles de nós que passamos anos denunciando o sistema falido que os impediu de evoluir rumo a formas aceitáveis de sobrevivência não podem fechar os olhos para este ataque final orquestrado pelo mentor da política externa dos EUA, Marco Rubio. Com um presidente que mal consegue nomear países corretamente, quanto mais apontá-los em um mapa, movimentos erráticos são movidos por impulso. Se o regime cubano ainda não caiu, é porque a maioria de seus cidadãos, muitos deles idosos, olha para os países vizinhos e valoriza muito o fato de não sofrerem com a violência de gangues, cartéis de drogas, máfias ou jovens ignorantes que se tornam pistoleiros. Eles vivem das remessas enviadas pela vasta comunidade de exilados e suportam condições de vida deploráveis, enquanto esperam que uma transição racional ainda seja possível.

O bloqueio de medicamentos, alimentos e serviços essenciais é um ato de guerra que os cubanos não merecem, por mais tirânico e antiquado que seja seu governo. Essa disfunção em que vivemos, onde inocentes podem ser estrangulados para derrubar líderes locais autoritários, deveria provocar uma rejeição visceral. Crescemos ouvindo histórias de cercos de guerra que nos davam pesadelos. Agora, dormimos profundamente depois de mexer um pouco em nossos celulares.