sábado, 30 de março de 2024

Pensamento de todo Dia

 


Novas e novíssimas inteligências

Não é de hoje que a inteligência artificial (IA) está na agenda. A cada avanço da tecnologia, maiores são suas repercussões nas várias dimensões do agir humano. As formas de IA reverberam em nossas casas, nas escolas, nas empresas, na cultura, na medicina, no sistema financeiro, no modo como namoramos, trabalhamos e, por óbvio, no modo como pensamos e fazemos política.

O surgimento do ChatGPT, em 2022, e logo depois, em intervalos sempre mais curtos, do DALL-E-2, do Baird e do Gemini 1.5, estabeleceu uma forma mais avançada da IA generativa, capacitada para simular a inteligência humana, dialogar com os usuários, escrever, codificar e produzir vídeos. Foi um salto na revolução digital, com desdobramentos imprevisíveis. Há quem pense que a IA adquirirá capacidade humana gradualmente, sem rupturas, e quem afirme que na próxima década ela passará por cima de tudo. Hoje, a questão é saber quando isso acontecerá e com quais resultados.

Não são poucos os que anteveem na nova modalidade uma espécie de “morte da cultura” e da capacidade de abstração. Se se tornou possível pedir a uma máquina virtual a elaboração de códigos, a redação de mensagens e a coleta de dados, o que mais faltaria para que os humanos deixassem de ler, pensar e pesquisar por conta própria? O risco de plágio cresceria enormemente. Com o tempo e o uso intensivo das novas ferramentas, o embotamento mental e o declínio da criatividade seriam inevitáveis. Será mesmo assim?

A complexidade do tema é enorme. Como em toda inovação, o avanço da IA promove utopias e distopias. Cria legiões de pessimistas e outras tantas de otimistas. Os primeiros vislumbram cenários de horror, os segundos destacam vantagens e benefícios. Ora se salientam seus impactos negativos sobre o trabalho, os empregos e o meio ambiente, por exemplo, ora se destaca aquilo que o avanço tecnológico representa em termos de novas formas de produção, de redução da força física e do desgaste mental do trabalho, sem falar dos ganhos de escala.

Ambos os cenários têm razoabilidade, especialmente quando pensados sem maiores ênfases dramáticas ou ideológicas. Os sistemas de IA impõem sua lógica e forçam adaptações. Esbarram sempre, porém, nas circunstâncias históricas concretas, no modo como a sociedade e a cultura se apresentam em cada pedaço da Terra, na maneira como as populações interagem e utilizam a IA. A tecnologia continua a ser monitorada e teleguiada por humanos. Não faz voos solo. Ao menos por enquanto.

Claro, tudo deve ser captado na devida dimensão. Os que monitoram e direcionam a IA estão integrados ao sistema capitalista de produção de mercadorias. Buscam lucros. A própria tecnologia não tem sido cabalmente controlada: os Estados são reféns dela e não sabem como regulá-la. No plano dos cidadãos, a situação é ainda pior: não podemos evitar as inovações, mas as incorporamos sem reflexão crítica e sem conhecimento. Somos arrastados por elas e passamos a lidar com elas de maneira estritamente instrumental.

Ferramentas como o ChatGPT estão se associando a jornais e agências de notícias (Le Monde, El País, Associated Press) para serem treinadas e poderem fornecer informações mais precisas a seus usuários, atuando como uma linha auxiliar do jornalismo profissional. Na outra ponta, o Parlamento Europeu aprovou regras mais abrangentes para regulamentar a IA, buscando monitorar e frear os usos mais perigosos de modelos como o ChatGPT. A batalha nessa frente promete ser intensa nos próximos anos, misturando valores éticos, interesses sociais e apetites empresariais.

Num ano eleitoral, como será o de 2024 no Brasil e em muitos outros países, as atenções se dirigem para aquilo que a IA poderá produzir em termos de manipulação e desinformação. O uso malicioso das ferramentas de IA poderá converter a persuasão em mera doutrinação, fazer com que o diálogo entre candidatos e eleitores seja sugado pelos inúmeros buracos negros das redes, facilitar a falsificação da imagem dos candidatos e dispensá-los da apresentação de propostas consistentes. Poderá travar a ponderação dos eleitores, induzi-los a caminhar cegamente numa ou noutra direção, espalhando preconceitos e formas dissimuladas de racismo.

Isso significa duas coisas. Primeiro: os poderes públicos, as instituições democráticas, os tribunais eleitorais precisam fazer sentir sua força e sua capacidade de controle, no mínimo para impedir abusos, ajudar os eleitores e garantir a lisura dos pleitos. Segundo: um freio contra o uso indevido da IA está na educação política dos cidadãos, na sua capacidade de recepcionar criticamente as mensagens eleitorais e neutralizar as estratégias de desinformação.

Não se trata, portanto, de condenar ou absolver a IA, mas sim de compreender que os efeitos da IA serão mais benéficos quanto mais educados forem os seus usuários. Sem boas escolas, bons sistemas de ensino, sem a valorização das Humanidades e da cultura, o terreno estará sempre sob o domínio do lado escuro da força.

Por que Monteiro Lobato nunca foi racista

Manifestações preconceituosas contra a obra e a pessoa de Monteiro Lobato mostram que o grande escritor se tornou bode expiatório da ignorância brasileira e das frustrações sociais que por meio dela se expressam.

Em matéria minuciosa em “Opera Mundi”, Duda Blumer narra debate ocorrido na Unicamp há poucas semanas, no Instituto de Estudos da Linguagem, sobre a pergunta “O IEL deve cancelar Lobato?”.

Esclareceu o diretor da instituição, professor Alan Pinheiro da Silva, que se tratava de “provocação” para suscitar uma troca de ideias em torno das implicações de um incidente lá ocorrido. Um setor do IEL, o Cedae abriga uma rica coleção de obras de arte e textos de autoria de Lobato, que lhe foram doados pela família do autor. Numa exposição dessas obras alguém rabiscara por cima do pôster: “Racista”.


Lobato foi artista plástico, sua primeira opção, antes daquela de ser advogado por imposição do avô, fazendeiro de café. Conformado, mas não vencido, ele continuou a pintar, autor de uma coleção de belas aquarelas e de pinturas.

É impossível ler o Monteiro Lobato dos livros sem ver o Monteiro Lobato das obras de arte. Nelas, eu prestaria atenção nas porteiras, lugar de referência do saci-pererê, um ente de demarcações simbólicas, de origem indígena, enegrecido no século XVIII com a difusão da escravidão africana em São Paulo, segundo o antropólogo Renato Queiroz. Chutar ideologicamente é fácil, difícil é pesquisar cientificamente um tema como esse. No mundo do conhecimento, quem chuta é apenas instrumento da ignorância estrutural, que é a nossa.

A acusação de racista contra o escritor paulista não é de agora. O próprio governo federal de certa época, patrono de edições de seus livros e distribuição nas escolas, aceitou que havia racismo na obra de Lobato. Os críticos oscilaram entre acrescentar aos livros um texto explicando a obra do autor em relação ao tema e a própria reescrita dos trechos controversos. Em qualquer caso, um desrespeito.

Dúvidas sobre o modo de mutilar a obra lobatiana e cercear o que é nela um modo de pensar e de expressar a realidade social, indicam a verdadeira questão, no que Antonio Candido define como necessidade expressional da sociedade de uma época. O problema não é a obra literária de Monteiro Lobato, mas a insuficiência intelectual de leitores intolerantes. Não é racismo do autor, mas preconceito de leitor.

A cultura cotidiana brasileira é historicamente preconceituosa e intolerante. As objeções ao que Lobato escreveu vêm do atraso social que ele desafia. Vêm de nossa ignorância estrutural e não de um racismo estrutural.

O debate da Unicamp é do maior interesse, na medida em que expôs um sensato discernimento de participantes, ainda que em contraponto com manifestações de bloqueios para compreensão das determinações sociais que dão sentido às ideias de uma época.

Lobato nunca foi racista. Foi educado na tradição conservadora brasileira, a mesma que concebeu e viabilizou a abolição da escravatura em 1888. Mesmo em suas obras de arte é notória a referência ao primado explicativo da concepção conservadora de ordem. O que já ficara evidente no artigo sobre a exposição das pinturas de Anita Malfatti, de 1917, na dúvida que expressou; “paranoia ou mistificação?”. No fundo, uma definição romântica de arte para dizer o que o artista gostaria que o mundo fosse, de perfeição, e a recusa daquilo que o mundo é: incoerência, irracionalidade, desordem, incerteza.

Os dilemas de Lobato nos dizem que ele era uma dupla pessoa. Nas pinturas, expressa-se o Lobato romântico, nas caricaturas, o Lobato crítico e realista. Na literatura infantil, o Lobato da crua realidade em que os seres humanos se definem pelo que era o Brasil da época. Submetida, porém, ao juízo crítico da criança e ao discernimento de sua inteligência para reconhecer que Tia Nastácia personificava as contradições do Brasil de então. Não para que os adultos desconhecedores das minúcias críticas da escrita decidam o que o autor tem o direito de dizer. Mas o que a criança leitora, sensível, tem o direito de compreender. A matéria-prima de Lobato não é o racismo dos intolerantes, mas a sensibilidade crítica da lucidez infantil.

Tia Nastácia existiu. Ela e o marido, pretos ambos, trabalharam para Lobato em Areias (SP), quando ele foi ali promotor. Casado com Purezinha, quando retornaram a Taubaté, levou-os consigo, contratados para continuar a seu serviço. Ela, grande contadora de histórias da cultura da roça, para ser babá de seu filho. Os pretos e os personagens de Lobato inventados por essa mulher sábia, que não era racista. Ele por ela usado para narrar conceitos e preconceitos do imaginário da vítima.

Um jovem alienado de 1964

Como a tortura do irmão, o desemprego pós-golpe e o enquadramento na LSN fizeram o presidente Lula migrar, da torcida pelo sucesso dos militares, há 60 anos, para o engajamento na abertura política

Em 1978, Luís Eulálio de Bueno Vidigal, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Autopeças, foi até o comandante do II Exército, Dilermando Gomes Monteiro, para falar sobre a greve dos metalúrgicos. O presidente do sindicato dos peões em São Bernardo, que caíra nas graças do empresariado três anos antes ao se eleger por 98% dos votos quebrando uma tradição comunista, não deixou por menos.


“Peguei o telefone, liguei para o Dilermando e disse - eu também quero conversar. Aí eu fui lá falar com ele, porque ele tinha ouvido a versão do empresariado e eu fui mostrar a versão dos trabalhadores. Ele me tratou bem, foram quase três horas de conversa. Foi uma conversa muito interessante para mim, muito interessante”, disse o atual presidente da República a Denise Paraná (“Lula, o filho do Brasil”, editora da Fundação Perseu Abramo, 2002), 15 anos depois daquela greve.

O general havia sido mandado para São Paulo depois que o então comandante, Ednardo D’Ávila Melo, instado por Ernesto Geisel a controlar mais de perto a atuação do aparelho de repressão do DOI-Codi (Centro de Operações para a Defesa Interna do Departamento de Operações Internas), permitiu que, dois meses depois da morte do jornalista Vladimir Herzog, o operário Manoel Fiel Filho também fosse morto nas dependências do II Exército.

Dilermando foi o primeiro general com quem, aos 33 anos, Luiz Inácio da Silva, ainda sem o Lula do registro eleitoral, teve contato. O comandante havia sido incumbido pelo Alto Comando do Exército de preparar um relatório sobre as reivindicações dos grevistas. As mudanças no sindicalismo do ABC passaram a ser acompanhadas de perto por Geisel desde que o então governador, Paulo Egydio Martins, compareceu à posse do jovem sindicalista.



No seu livro de memórias (“Paulo Egydio conta”, Imprensa Oficial, 2007), o ex-governador conta o telefonema que recebeu de Geisel no dia seguinte à posse: “Paulo, o que deu na sua cabeça de ir à posse de um operário no Sindicato dos Metalúrgicos?”. Dadas as explicações, Geisel retrucou dizendo não saber que o novo dirigente havia derrotado os comunistas do sindicato, ao que Paulo Egydio respondeu: “Então peça para o pessoal da sua informação se atualizar um pouco mais a respeito do que está lhe entregando”. Foi isso que Dilermando fez ao longo de três horas com Lula.

Até então, os únicos militares com quem tinha lidado eram aqueles que o barraram no portão do Comando do II Exército, no Ibirapuera, onde fora em busca de seu irmão depois de interromper sua primeira viagem internacional. Lula estava no Japão, a convite de sindicatos locais, quando recebeu um telefonema dando conta da prisão de Frei Chico, que tinha ligações com o Partido Comunista.

Lula não os conhecia, mas o inverso não era verdadeiro. Em “Ditadura acabada” (Intrínseca, 2016), o quinto volume de sua coleção sobre o regime militar, Elio Gaspari cita, a partir dos arquivos do criador do Serviço Nacional de Informações, Golbery do Couto e Silva, o que o SNI achava de Lula: “Projetado do obscurantismo para o ‘vedetismo’ jornalístico”, ele era manipulado por “pessoas extrassindicais”. O depoimento de Frei Chico a Denise Paraná o confirma. Foi torturado dois dias no DOI-Codi porque dois oficiais do Exército queriam arrancar dele as ligações, inexistentes, de Lula com o “Partidão”.

Com aquela notícia, caiu a ficha de Lula. Jovem alienado da periferia de São Paulo, que hoje estaria ao alcance do ideário bolsonarista, Lula tinha 18 anos em março de 1964 e concluíra o curso de torneiro mecânico do Senai, onde também fazia refeições e jogava futebol. Deixara a fábrica de parafusos Marte, também no Ipiranga, para trabalhar na Metalúrgica Independência, no mesmo bairro. Chegava lá depois de percorrer, de bicicleta, os 10 quilômetros que separavam sua casa, na Vila São José, bairro de São Caetano do Sul, na divisa com São Paulo. Morava com quatro irmãos, um primo e a mãe numa casa de dois cômodos. E ganhava pouco mais do que um salário mínimo.

Em 1993, depois de já ter disputado, pela primeira vez, a Presidência da República, falou a Denise Paraná sobre o que passava por sua cabeça quando aconteceu o golpe: “Não tinha raiva dos patrões, nem tinha sonho de ser patrão. Só queria ser um bom profissional”. Lula sonhava em ser metalúrgico desde que morava na Vila Carioca, no Ipiranga, ao lado da fábrica de carros Vemag e chupava o chiclete que os amigos iam jogar fora. Idealizava os metalúrgicos da fábrica que usavam um macacão azul, tinham condução, refeitório, roupa pra trabalhar, cesta de Natal e recebiam o pagamento num envelope. A mulher do metalúrgico sempre tinha dinheiro pra ir à feira e voltava com sacola de abacaxi, mamão, melancia e laranja.

Era isso que queria pra vida dele. Por isso, quando Frei Chico, três anos mais velho, começou a convidá-lo para ir ao sindicato, ele recusou. Preferia jogar bola e ver novela. Num diálogo reproduzido por Fernando Morais (“Lula”, vol. 1, Cia das Letras, 2021), Lula recusou o convite do irmão para conhecer o sindicato: “Ali só tem ladrão (...) já vi naqueles cartazes de terroristas procurados pela polícia que muitos deles são metidos em sindicatos”.

Era a cabeça de quem chegou a ter orgulho quando os militares tomaram o poder: “Quando veio o golpe, eu não tinha a menor noção do significado daquilo. Tinha 18, 19 anos, e o que a gente ouvia, na meia hora de almoço da fábrica, era um pessoal muito otimista, porque ‘o Exército ia resolver o problema’, mesmo sem saber precisamente o que era ‘o problema’. O que eu sei é que a credibilidade das Forças Armadas entre os trabalhadores era impressionante”, contou Lula a Morais.

A desilusão viria um ano depois quando ficou desempregado, saía de casa às 6h da manhã, andava até 15 quilômetros sem comer e fumando guimbas de cigarros jogadas no chão, voltava de mãos abanando e pés inchados pra casa e ainda era chamado de vagabundo pelo irmão. Quando pegava um jornal, já não ia direto para a página de esportes, atrás de notícias do Corinthians, mas, sim, dos classificados de empregos. A rotina durou oito meses.

Reincorporado ao mercado de trabalho, começou a considerar a entrada no sindicato. A despeito das advertências dos patrões de sua primeira mulher, Maria de Lurdes, de que poderia arrumar confusão com a polícia, entrou no sindicato em 1969. Naquele ano, as grandes indústrias do ABC estabeleceram termos de cooperação com a comunidade de informações para a espionagem das ações dos trabalhadores nas fábricas. Enquanto isso, Lula recrutava colegas para entrar no sindicato dizendo que teriam colônia de férias, dentista e médico. E não que o sindicato era um órgão de defesa dos direitos dos trabalhadores. “Eu era muito limitado”, disse Lula a Denise Paraná.

A deterioração da conjuntura econômica nos estertores da ditadura logo começou a expandir seu horizonte. Na primeira grande greve do ABC, os helicópteros do II Exército faziam rasante sobre o palanque de Lula com soldados armados de metralhadoras apontando para baixo. De lá, conta Paulo Egydio Martins, Lula se comunicava com o advogado do sindicato, Almir Pazzianoto, que estava na casa do ex-governador de São Paulo. Este lhe assegurava, sem ter qualquer garantia dos militares, que eles não metralhariam o palanque.

Foi na greve de 1980, porém, que o caldo entornou. Com João Figueiredo no poder, a linha dura recobrou fôlego. Para o II Exército, foi designado o ex-chefe do Centro de Informações do Exército Milton Tavares de Souza. O comandante via no ABC uma célula do comunismo internacional. Decretada a ilegalidade da greve, Lula foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. No interrogatório, Lula seria testemunha da divisão que marcava o último dos governos militares. Golbery havia dito a Elio Gaspari que o governo estava disposto a “quebrar a espinha dorsal” do sindicalismo, mas o comandante do II Exército estava certo de que Golbery se comunicava com Lula e tentou, sem sucesso, buscar esta confissão na prisão do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo.

A abertura distanciou os militares da política. Dos militantes que ajudaram a construir o PT, o único a se aproximar de Lula depois de ter passado pela luta armada foi o ex-presidente do partido José Genoino, que lutou no Araguaia. Dilma Rousseff foi a segunda. José Dirceu, Franklin Martins e Luiz Gushiken eram de grupos da ultraesquerda, mas não da luta armada. Durante suas campanhas presidenciais, era o atual presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, quem fazia a ponte, mais por ser filho de general (Oswaldo Muniz Oliva) do que por conhecimento de causa. Foi Mercadante quem organizou o processo de escolha dos comandantes das Forças Armadas em 2003.

O presidente da República que hoje silencia sobre os 60 anos do golpe militar é o mesmo que demitiu seu primeiro ministro da Defesa, José Viegas, no final de 2004. Diplomata de carreira, Viegas cobrou de Lula a demissão do então comandante do Exército, general Francisco Roberto Albuquerque, depois de nota da Força sobre a divulgação de fotos de um homem nu e esquelético, atribuídas ao jornalista Vladimir Herzog antes de ser morto no DOI-Codi de São Paulo.

Nesta nota, o Exército dizia que “as medidas tomadas pelas forças legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo”. Lula arrancou de Albuquerque uma segunda nota, recuando do teor da primeira, e o manteve no cargo. O mesmo não aconteceu com Viegas, que deixou a Esplanada com uma carta em que dizia que já era hora para que “os representantes desse pensamento atrasado saiam de cena”. O golpismo bolsonarista mostrou que estão aí até hoje.

EUA mandam comida para os palestinos e armas para Israel

A mão que alimenta palestinos famintos na Faixa de Gaza é a mesma que autoriza a transferência de milhares de milhões de dólares em bombas e aviões de combate para que Israel os mate.

Os novos pacotes de armas incluem mais de 1.800 bombas MK-84 de 2.000 libras e 500 bombas MK-82 de 500 libras, disseram fontes do governo, confirmando uma reportagem do Washington Post.

Isso ocorre mesmo quando o governo americano expressa publicamente sua preocupação com uma ofensiva militar de Israel em Rafah, cidade que abriga um milhão de palestinos.

Armas americanas de grande poder de destruição não podem ser vendidas para quem as possa usar contra civis não combatentes. Pois continuam a ser vendidas a Israel, e usadas por Israel.

No início desta semana, os Estados Unidos se abstiveram de votar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que exigia o cessar-fogo imediato em Gaza. Com isso, a resolução foi aprovada.

O governo israelense respondeu que não interromperá a guerra. Então o governo americano passou a dizer que a resolução não tem caráter vinculativo. Significa: Israel não está obrigado a respeitá-la.

Travestido de pomba da paz, o presidente Joe Biden se comporta como um falcão. Não lamente se for derrotado em novembro próximo por Donald Trump, que é o que aparenta.