quinta-feira, 21 de maio de 2026
Curriculum Vitae, 01
Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".
Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato à versão moderada da família.
Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.
"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".
Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.
Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".
Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.
Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.
Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.
Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.
Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.
Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"
Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".
Quer novo emprego.
A próxima era da política mundial entregue de bandeja
Some aprimoramentos financeiros, como o apoio confuso à agressão de Israel, a guerra ilegal no Irã, a devastação que ela está causando naquele país e o prejuízo financeiro que se espalha pelo mundo, tornam possível que os EUA entreguem a próxima era da política mundial à China em tempo real. A China está prestes a se tornar a superpotência preeminente do mundo, e praticamente não precisa fazer nada.
É importante compreender os danos a longo prazo que essas ações estão causando. Mesmo que o trumpismo morra após Trump, o resto do mundo talvez nunca mais volte a confiar plenamente nos EUA, porque agora sabe que basta outro presidente extremista do MAGA assumir o poder e subverter a ordem global mais uma vez.
Os primeiros a morrer
Se quiserem instituir datas em memória das vítimas de outras tragédias brasileiras, 25 de janeiro marcaria a morte da médica Marcelle Porto Cangussu, 35 anos, o primeiro corpo reconhecido pelas autoridades no rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em 2019. Ela representaria os outros 271 soterrados pelo despejo de 11 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração e nos alertaria para o fato de que os responsáveis ainda não foram nem julgados.
Já o dia 8 de maio lembraria o primeiro morto sob tortura pela ditadura militar. Ou talvez o primeiro cujo registro não foi possível esconder: o sargento Manoel Alves de Oliveira, no Hospital Central do Exército, em Triagem (RJ), em 1964, 37 dias depois do golpe, por violências sofridas naquela unidade. Mas Manuel foi somente o primeiro morto sob tortura. A primeira vítima do golpe foi a dona de casa Labile Abduch, 65 anos, síria naturalizada brasileira, morta por disparos contra um grupo que protestava na Cinelândia, vindos do defronte Clube Militar, no próprio dia 1º de abril.
E, em outubro de 1944 (não se sabe o dia), morreu o primeiro pracinha brasileiro na Itália, o aspirante niteroiense José Gerônimo de Mesquita, 19 anos. Há uma placa com seu nome no Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo. Foi o que coube aos rapazes da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que deixaram a vida no campo de batalha. Os que voltaram foram abandonados pelo ditador Getúlio Vargas.
Se o Brasil tende a ignorar os vivos, que passe a lembrar seus mortos.
O fascismo como futuro
Safatle parte de um diagnóstico de época: “A última década deixou claro como vivemos no interior de uma conjunção inédita de crises: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. A isso podemos chamar de “crises conexas”, pois estão conectadas e se retroalimentam”. Essas crises, imanente ao próprio modo de produção capitalista, garantem a força e a persistência do fascismo.
Entretanto, em seu rastreio das condições de possibilidade do fascismo, Safatle encontra-as no cerne do próprio sujeito moderno. Segundo ele, fascismo não pode ser usado apenas para se referir a uma ordem político-econômica (aquela que emergiu na Europa do entre guerras), mas que descrevesse “uma forma específica de violência e dessensibilização social assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna”. Desta maneira, seria possível compreender que a individualidade que é socialmente produzida pela ordem liberal, é necessariamente agressiva, rígida, autoritária. Em suas palavras: “como se a personalidade do indivíduo moderno portasse o germe de sua própria realização como fascismo”.
Esse é o ponto que me parece mais interessante do livro do professor Safatle. Sua contribuição reside na possibilidade de compreender o núcleo estrutural por trás da racionalidade fascista, que nunca desapareceu – lembremos. Por um lado, esse procedimento acaba achatando diferenças importantes entre as formas historicamente específicas pelas quais tal princípio emerge – o fascismo histórico possui particularidades que o diferenciam do fascismo contemporâneo e certamente ambos não são a mesma coisa que o horror do colonialismo. Entretanto, por outro lado, o mérito de Safatle está exatamente em explorar as conexões entre “violência racial ordinária, extermínio colonial e fascismo”.
Desta maneira, Safatle evita as interpretações do fascismo que pouco colaboram na compreensão do fenômeno, pois interpreta-o como um fenômeno puramente psicologizante, embora possa ser materialmente informado. Isto é, dizer que tal sujeito é fascista porque ressentido, porque não pensa direito, porque apenas segue o líder, não ajuda em entender o fascismo, mas “só serviam para alimentar nossas ilusões narcísicas de superioridade moral, em vez de fornecer alguma arma teórica eficaz para lutar contra o pior”. Sua leitura, portanto, ajuda a compreender como o mesmo impulso da modernização, que pretendia civilizar, educar, desenvolver, carrega em seu cerne a matriz violenta do fascismo.
Outro mérito do livro de Safatle é a mobilização dos recursos conceituais da psicanálise para interpretar o fascismo, alinhando-se já há uma longa tradição de crítica, mas avançando em relação a ela. Apoiado nas interpretações da primeira geração da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Safatle afirma que a violência fascista não é caracterizada por um excesso de destrutividade, “mas, paradoxalmente, excesso de preservação”. Trata-se de uma tentativa violenta de preservar a personalidade narcísica e a identidade dela com o mundo falso. Contudo, a preservação tem como condição necessária a eliminação do outro que ameaça essa identidade. Por isso o fascismo possui um impulso genocidário.
Por outro lado, essa identidade em colapso com o mundo falso movimenta também o “desejo social de autodestruição”. Apoiado na leitura de Paul Virilio do Estado Suicidário, Safatle vai perceber que a lógica de autopreservação dá no seu contrário: diante de uma destruição dos princípios da identificação fetichista do eu com o mundo experimentado como catástrofe uma narrativa é construída que seja “capaz de dar sentido heroico à degradação da vida cotidiana”. Uma espécie de auto-sacrifício para sustentar seus ideais narcísicos.
Ou seja, o fascismo baseia-se, ao mesmo tempo, na eliminação do outro e de si próprio, instaurando um regime duplo: genocidário e suicidário. Dessa maneira, ocorre, como descreve Safatle, uma militarização das subjetividades como forma de se referir à estratégia de defesa do Eu dessa personalidade unidimensional que conecta o mundo corporativo do empreendedorismo de si ao mundo militar de culto às armas. É nesse ponto, escreve o autor, “o masculinismo aparece em toda sua força, como uma formação defensiva diante da impotência social real” .
Como Safatle afirma, o fascismo se tornou uma resposta realista às crises, pois elas reforçam a identidade destrutiva dessas crises, dependem dela e com ela avançam. Não é à toa que Edward Luttwak dizia ser o fascismo a onda do futuro. Para impedir que esse futuro se confirme, “então não deveríamos temer afirmar que só um irrealismo delirante pode nos salvar. Há momentos históricos nos quais o delírio é a única saída consequente”. Talvez só assim, o fascismo não seja o nosso derradeiro horizonte.
Thiago Canettieri
Os duros não dançam, mas levam baile
Nas últimas semanas, tivemos dois bons exemplos dessa forma de ação. Primeiro, com o discurso proferido por Carlos III, de Inglaterra, perante o Congresso dos EUA: uma intervenção em que o humor foi usado como técnica para desengatilhar sentimentos hostis. Mas também um discurso em que as evocações históricas permitiram definir claramente as distâncias entre Londres e Washington e em que, finalmente, a ironia funcionou como um grito poderoso e mordaz, que deixou o alvo subliminar – Donald Trump − encurralado entre duas alternativas: ficar calado ou, se respondesse, cair no ridículo. O mais importante, mesmo assim, foi que ao celebrar os valores do Iluminismo e a defesa intransigente da democracia perante as ameaças autocráticas do século XXI, o discurso lido pelo rei acabou por ser uma lição de como a identidade e os valores podem funcionar como cimento político, mesmo em tempos conturbados.
O segundo momento, ocorreu na visita do mesmo Donald Trump a Pequim, com os dirigentes chineses, em momentos pacientemente coreografados, a saberem vincar as diferenças colossais entre uma civilização milenar e um país que, por mais poderoso que seja, só agora se prepara para completar 250 anos de história. Por isso, Xi fez questão de mostrar ao seu convidado, como anteriormente já fizera com Putin, as árvores muito mais antigas do que os EUA que se encontram no antigo jardim imperial de Zhongnanhai, que hoje alberga os gabinetes e as salas de reuniões dos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Depois, nas declarações públicas, Xi soube envolver Trump na pompa imperial, estabeleceu as suas linhas vermelhas, nomeadamente em relação a Taiwan, e assumiu o papel de liderança na gestão de risco de uma possível escalada de tensão entre os dois países. E quando, de uma forma surpreendente, evocou a “armadilha de Tucídides”, fê-lo num exercício de retórica que sabe evocar a Antiguidade Clássica, mas também o momento exato em que se iniciou a mudança estratégica dos EUA em relação à China, quando Trump ainda nem pensava seriamente ocupar a Sala Oval da Casa Branca. A teoria da quase inevitabilidade de uma guerra entre a potência dominante e a potência emergente, como sucedeu frequentemente ao longo da História, começou a circular, pela pena de um investigador e professor de Harvard, Graham Allison, em 2015, durante a Presidência de Obama, que virou o eixo estratégico dos EUA para a região da Ásia-Pacífico. O aviso de Xi, neste momento, significa muito mais do que uma figura de estilo. É, antes, uma movimentação inteligente num jogo de xadrez que se irá prolongar para lá do mandato de Donald Trump. Mas que lhe permitiu delimitar o espaço de manobra do adversário, através de uma jogada de cortesia institucional.
O contraste entre as máquinas diplomáticas chinesa e britânica face à atual administração Trump é de um contraste absoluto. De um lado, temos equipas altamente profissionais, com séculos de história atrás de si e um profundo conhecimento do mundo e, acima de tudo, daquilo que deve ser dito em cada e determinado contexto. Do outro, é aquilo que se torna cada vez mais evidente: um Presidente que confia cegamente no seu instinto, rodeado de pessoas escolhidas apenas pela sua lealdade cega a Trump, e não pelas suas especiais competências ou aptidões para o cargo. E, em grande parte dos casos, pessoas sem “mundo”, sem conhecimentos de História e apenas habituados aos discursos mais básicos – que podem ter muita tração nas redes sociais, mas que, no contexto internacional, por mais ameaçadores que possam ser, apenas fazem quebrar os laços de confiança de quem os escuta.
Em dois momentos diferentes e embora cada um com o seu arsenal, Carlos III e Xi demonstraram como se deve falar com Trump e a atual administração dos EUA: ditaram as regras, selecionaram as palavras que mais pesam e ignoraram qualquer pose intimidatória do oponente. Ou seja, dançaram a música que escolheram para ser posta a tocar. Essa é a lição que deve ser aprendida pelas várias diplomacias, neste momento. Porque quem optar pela subserviência acabará, no final, por ter de dançar, apenas e só, a música do mais forte.
Até onde a elite vai com os Bolsonaro?
A forma como parte da elite econômica e política espera para ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras inconsistências.
Os quatro anos de mandato de Bolsonaro trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo — e tudo foi aceito.
A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência, disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se “passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.
Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas de casa armadas de batom.
Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado por tramar um golpe de Estado.
E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o Brasil.
Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a motociata siga.
É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse acervo do “azarão” e sua prole.
O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira, inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas gestões petistas.
As pesquisas e as novas revelações (que não param de aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura. Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.Vera Magalhães