quinta-feira, 19 de março de 2026
Quando a guerra fala e o clima cala
O mecanismo é simples e recorrente. Começa pelas palavras. Nuclear, terror, sobrevivência, preventivo, cirúrgico. Não são descrições neutras. Funcionam como selos morais. Encolhem o espaço da discordância e empurram o debate para um corredor estreito, onde apoiar vira dever e duvidar soa a fraqueza. O público é conduzido à ideia de inevitabilidade e, quando a guerra parece inevitável, o fóssil reaparece como destino.
Quando o conflito entra neste modo, a energia deixa de ser um tema económico e passa a ser tratada como questão de segurança. A linguagem muda e a política muda com ela. A transição energética, que exige prazo, investimento e estabilidade, perde terreno para a lógica da urgência. O petróleo entra como nervo do sistema, não apenas como combustível, mas como fluxo de navios, de seguros, de crédito e de inflação. Basta uma ameaça credível no estreito de Ormuz, mesmo sem fecho formal, para o risco virar prémio e o prémio virar alta.
O bolso sente antes do relatório. E quando a conta aperta, a exigência ética tende a baixar. A pergunta pública muda de eixo. Deixa de ser se é justo e passa a ser quanto vai custar. A indignação perde prioridade porque o custo de vida ocupa o centro do debate. A guerra deixa de ser avaliada por princípios e passa a ser medida pelo impacto no supermercado.
Trump entende esta lógica como poucos presidentes. Não trata as redes sociais como canal, mas como arma. Usa repetição, ritmo e imagem para produzir disciplina emocional. Frases curtas, promessa fácil, um inimigo total e uma missão moral. Sabe que, na primeira janela do ciclo noticioso, não vence quem prova, vence quem fixa a moldura. Isso não é acaso, é método.
O efeito climático é direto e raramente dito com clareza. A guerra faz o fóssil reaparecer como solução provisória, uma provisoriedade que se alonga e vira infraestrutura. Cada choque incentiva contratos longos, novas perfurações e investimento em ativos fósseis. O resultado é o adiamento da transição energética e a dificuldade crescente de reduzir emissões rapidamente, porque a economia passa a depender de estruturas desenhadas para durar décadas. E o peso dos fósseis no clima é decisivo. Segundo a ONU, o dióxido de carbono proveniente dos combustíveis fósseis e dos processos industriais representa cerca de dois terços das emissões globais de gases com efeito de estufa.
No fundo, nada disto é apenas sobre mísseis. É sobre comando. A narrativa de guerra serve para legitimar a intervenção e organizar o campo político antes de a poeira assentar. Washington e Telavive falam de prevenção e de ameaça nuclear para encurtar o debate e alargar a margem de manobra. Por trás dessa moldura está o velho mapa do poder no Médio Oriente, onde quem lidera controla alianças, bases, rotas e o preço da energia. O Irão é a pedra no sapato porque não cabe nesse desenho. Resiste, arma redes, negoceia com Moscovo e Pequim e mantém capacidade de perturbar o ponto mais sensível do sistema: o petróleo.
É por isso que o barril aparece sempre, mesmo quando ninguém o nomeia. O petróleo regressa como linguagem de segurança, como medo de interrupção, como prémio de risco e como inflação. A guerra passa a ser discutida como fatura e não como escolha. Quem está no terreno paga primeiro em vidas e destruição. Quem está longe paga no bolso, na instabilidade e na normalização do curto prazo.
O clima paga de outra forma. Cada escalada empurra a crise climática para fora do enquadramento e devolve ao fóssil o estatuto de inevitável. A transição, que precisa de continuidade, investimento e atenção pública, é adiada em nome da urgência. E esse adiamento não é neutro. Quando uma guerra recentra o mundo no barril, reforça a dependência que acelera o aquecimento global.
No fim, a ligação é simples e raramente assumida com clareza. A narrativa abre caminho para a guerra, a guerra reabilita o petróleo, o petróleo adia a transição energética e o adiamento aumenta o risco climático que já está a cair sobre todos. O resultado é um século em que se morre no terreno e se perde no planeta. O clima não aceita adiamentos. Cobra sempre. E cobra com juros.
Fábrica de feminicidas
Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas que respeitam pedestres quando esses desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem essa postura: nasceu de uma campanha educativa.
Ao longo de alguns meses, em cada faixa foram colocados conscientizadores, com incentivos e mimos aos motoristas que demonstram civilidade. Outros motivadores foram as escolas: as crianças se empolgaram com a ideia e passaram a pressionar pais, mães e responsáveis para que respeitassem os pedestres.
A vergonha do feminicídio precisa ser enfrentada com punição dos bandidos, condenação a anos de cadeia e desapropriação de todos os seus bens. E a experiência do trânsito em Brasília precisa ser lembrada para educar a população masculina desde a infância, de modo a quebrar a arrogância machista que assedia, molesta, violenta e assassina mulheres. A ferramenta imediata para barrar os criminosos da violência contra a mulher é a repressão pela Justiça, pela Polícia e pelo Ministério Público. Mas a guerra contra o machismo não será vencida sem campanha educacional dirigida a todos desde a infância, sobretudo aos meninos.
Os feminicidas decorrem da perversão de milhões de homens que cometem atos machistas e violências contra mulheres e, por fim, a maldade absoluta do feminicídio. Poucos dos meninos que na escola puxam cabelos, fazem bullying, insistem em aproximações recusadas ou expressam ideias de superioridade sobre as colegas meninas tornam-se violentos contra mulheres; mas certamente todos os feminicidas começaram com comportamentos machistas tolerados por parecerem leves, desde quando eram meninos ou adolescentes, anos e décadas antes do feminicídio.
O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação, em duas dimensões: garantir escola de qualidade para todas crianças em horário integral e incluir, em todas escolas, conteúdo humanista que ensine o respeito às meninas. Para os atuais agressores de mulheres, é preciso punir duramente e tirá-los do convívio social; mas, para formar uma consciência humanista na sociedade, especialmente entre os homens, é preciso escola de qualidade pedagógica e conteúdo humanista para todos.
Comemoramos que depois de quase meio século de democracia, praticamente, universalizamos a matrícula, relegando o fato que matrícula não é frequência, que não é assistência, que não é permanência, que não é o aprendizado necessário para os tempos atuais, inclusive criando consciência de solidariedade entre os seres humanos e deles com a natureza. As crianças não permanecem seis a oito horas por dia, 200 dias por ano, durante 11 anos de suas vidas, em escolas que despertam entusiasmo, esperança e respeito ao outro, solidariedade com a natureza e com todos os seres humanos. Sem um sistema educacional sólido de educação básica para todas as crianças, dificilmente construiremos uma geração de homens comprometidos com o respeito pleno às mulheres.
Muitos dos mais violentos feminicidas passaram por escolas que não os educaram. Em geral, os feminicidas têm instrução, mas não educação. Os jovens bandidos que recentemente cometeram estupro contra uma menina no Rio de Janeiro eram alunos de uma de nossas melhores escolas, o Colégio Pedro II, assim como foram alunos do nosso orgulho ITA os que fizeram um jogo eletrônico brincando com a humilhação de mulheres. É impossível termos educação humanista sem um sistema escolar de qualidade para todos; mas esse sistema não terá papel de formação humanista se se limitar a instruir, sem dar formação ética.
A escola, por melhor que seja, terá eficácia limitada se a "escola fora da escola" trabalhar na direção oposta: quando a mídia promove o machismo, ela destrói o que a escola tenta ensinar; discursos religiosos que afirmam supremacia masculina inviabilizam a formação de respeito às mulheres; não adianta escola se as redes sociais têm se transformado em espaços de incentivo à violência contra a mulher.
O Brasil precisa fechar a fábrica de feminicídio. Punir os agressores de mulheres, mas também formar um país que deixemos de produzir feminicidas por falta de escola, escola incompleta ou escola sem humanismo.
Ao sair atirando, peça-chave do governo fragiliza Trump na base
O pedido público de demissão, nesta terça-feira, em protesto contra a guerra no Irã, do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC, na sigla em inglês), Joe Kent, escolhido a dedo pelo presidente Donald Trump, pegou o primeiro escalão do governo de surpresa. Ao sair atirando contra o governo, o oficial mais graduado na missão de desbaratar ações terroristas contra os americanos ilustrou como a decisão da Casa Branca de atacar Teerã fraturou a base de modo inédito e ainda deu fôlego para a crítica de parte substantiva da oposição de que as agressões no Oriente Médio, em sua terceira semana, teriam sido teleguiadas por Israel. Os americanos irão às urnas em novembro para decidir quem comandará o Congresso a partir de 2027.
"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu Kent em rede social. Veterano de guerra do Iraque, ele perdeu sua companheira, Shannon, também militar, na Síria. Ferrenho crítico das incursões americanas no Oriente Médio, juntou-se ao Trump 2.0 por acreditar, como frisa em sua mensagem de despedida, direcionada ao presidente, que “o senhor compreendera que as guerras no Oriente Médio foram armadilhas, responsáveis por subtrair vidas preciosas de nossos patriotas e esgotar a riqueza e a prosperidade de nossa nação”.
Kent também argumentou que Teerã “não representava uma ameaça iminente ao nosso país, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos EUA”. Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu é dos mais próximos aliados do Trump 2.0. Foi recebido na Casa Branca cinco vezes desde o retorno do republicano ao poder em janeiro de 2025, a mais recente em fevereiro deste ano — além de mais uma em Mar-a-Lago, a residência particular de Trump na Flórida, um recorde absoluto — e tem, de acordo com o próprio presidente, conversas diárias com o parceiro desde o início das agressões ao Irã, em 28 de fevereiro. Indicado em fevereiro de 2025, o diretor do NCTC foi sabatinado e aprovado pela maioria do Senado em julho, quando explicitou sua visão isolacionista, sacerdote do credo dos “EUA Primeiro”. Sentiu-se traído por Trump. Não é o único.
Além da deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que abandonou sua cadeira ao romper publicamente com a Casa Branca, vozes com amplo poder de mobilização popular, cruciais para o voto em novembro, e alinhadas ao movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), entre eles o ex-apresentadores da Fox Megyn Kelly e Tucker Carlson, e os podcasters conservadores Matt Walsh e Joe Rogan, também denunciaram publicamente o que classificam como "desvio ideológico" de uma Casa Branca ativa no tabuleiro geopolítico global. E com feições cada vez mais distantes da do vice-presidente JD Vance e mais próximas da do secretário de Estado, Marco Rubio, defensor de intervenções cirúrgicas e arriscadas.
Seu maior tento foi a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, após o asfixiamento econômico do país, tática que busca agora repetir na Cuba de seus antepassados. O Irã, no entanto, se prova missão muito mais complexa, com a resistência feroz de um regime que não acena com a possibilidade de futuras colaborações esdrúxulas com Washington. Ao contrário. Teerã, de acordo com uma fonte do Partido Democrata, tem hoje o potencial de se transformar no que ela traduziu como “a ratoeira do Trump 2.0”.
Principal nome da ainda acéfala oposição para 2028, e às voltas com o lançamento de sua autobiografia, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, foi dos primeiros a questionar se os EUA não travam no Irã uma "guerra de opção", deflagrada quando Washington negociava com Teerã, e as perspectivas de avanço no desbaratamento do aparato nuclear do país eram promissoras. A ala esquerda da sigla já fala, em caso de vitória em novembro, em invesigar se o Irã de fato planejava um ataque a alvos americanos. Se comprovada a falsidade, defendem emparelhara à da invasão americana ao Iraque em 2003, a partir de premissas depois comprovadamente inexistentes do governo George W.Bush, repudiado pelo trumpismo.
Ao dizer, sem meias palavras, que Trump arriscava vidas locais – já são pelo menos 13 americanos mortos desde 28 de fevereiro — para ajudar Netanyahu, Newsom foi acusado de antissemita e, menos grave, mas com potencial real de prejudicar suas ambições políticas, cauteloso em excesso, tal qual a Casa Branca anterior, notadamente sua amiga próxima e ex-vice-presidente Kamala Harris. Como ela, o governador seria incapaz de se aproveitar da possibilidade de destruir um inimigo quando este estava mais débil, caso do Irã hoje.
Daí o peso da crítica devastadora de Joe Kent, um representante puro-sangue da vertente ideológica do Maga. Foi justamente depois dos horrores que viu no Oriente Médio que o militar tentou duas vezes se eleger, sem sucesso, ao Congresso, pelo estado de Washington, localizado na Costa Oeste, um bastião democrata. Militou então nas alas mais extremistas da direita do Partido Republicano.
Para além de colocar, de dentro das hostes trumpistas, o dedo na ferida persa, que não parece, como defendia a Casa Branca, pronto para desabar, sua defecção também tem outra relevância de peso. Até esta terça-feira ele era o responsável por cuidar das estratégias de contraterrorismo do país. E especialistas afirmam que uma das possibilidades mais óbvias em uma guerra estendida com o Irã é o incremento de ataques terroristas contra alvos americanos, ainda que provavelmente não dentro dos EUA, o que poderia afetar os números ainda majoritariamente altos de aprovação da direita ao Trump 2.0.
Ao todo, pelo menos cinco agressões foram registradas na Europa e nos Estados Unidos em menos de duas semanas. Embora nenhuma delas tenha sido atribuída oficialmente ao Irã, serviços de inteligência europeus afirmam que Teerã dispõe hoje de uma rede composta por agentes e criminosos voltada para realizar operações clandestinas mundo afora.
O cientista político Javed Ali, professor da Universidade de Michigan, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional no primeiro governo Trump argumentou que o ataque devastador ao Irã aumentaria exponencialmente os riscos de ataques terroristas patrocinados pelo Irã contra alvos americanos, o que complicaria ainda mais a situação de Trump, cada vez mais isolado interna e externamente, vide a recusa dos países europeus de enviarem aparato militar para garantir a abertura do Estreito de Ormuz e diminuir o pânico no mercado global de energia:
— Embora o Irã não tenha, hoje, capacidade de atos de terror dentro dos EUA, há possibilidade de ações contra cidadãos e interesses americanos fora do país. Na América do Sul, e não só na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, os governos devem aumentar a vigilância nos próximos meses — afirmou.
Quando a democracia deixa de importar
O contrato democrático enfraqueceu. Globalmente, observamos que organizações multilaterais como as Nações Unidas e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e as coalizões globais que as apoiam, estão cada vez mais fracas, deslegitimadas e subfinanciadas. Particularmente paradoxal é o fato de os Estados Unidos e seus aliados europeus, outrora os principais impulsionadores de uma ordem global baseada na democracia liberal, estarem agora liderando essa capitulação. O governo Trump retirou-se de órgãos como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e fechou por completo a agência de desenvolvimento USAID; os europeus reduziram drasticamente o financiamento para essas agendas, ao mesmo tempo que aumentaram seus orçamentos de defesa e segurança; e a agência canadense de desenvolvimento IDRC acaba de fechar sua divisão de democracia. A Rede de Financiadores de Direitos Humanos estima uma redução de 28% no financiamento nessa área este ano em comparação com 2023. Isso significa menos apoio para organizações da sociedade civil engajadas em litígios estratégicos, para ativistas ambientais, para jornalistas que denunciam injustiças, para uma distribuição mais equitativa de vacinas e muito mais. É preocupante que, pela primeira vez em muito tempo, nenhuma das grandes potências globais esteja promovendo uma ordem mundial baseada na democracia e nos direitos humanos. E se algum governo viola seus princípios, não há apelos urgentes por ação, nem represálias, nem condenações. Lembremos o que aconteceu recentemente na Venezuela. A palavra democracia estava visivelmente ausente.
Mais doloroso ainda é constatar que o apoio popular também diminuiu substancialmente. Governos ou movimentos que atacam as democracias são cada vez mais populares. Aqueles que as defendem estão cada vez mais fracos e se encontram na defensiva. Falar de democracia hoje é falar de um conceito desgastado, quase anacrônico, incapaz de despertar entusiasmo ou mobilizar maiorias. Tornou-se sinônimo de superficialidade, parecendo inofensivo diante das urgentes demandas sociais por empregos, combate ao narcotráfico , guerras comerciais e desastres naturais. Às vezes, parece que desistimos dela.
Contudo, perder essa autonomia não é um luxo que podemos nos dar. Nossas sociedades pagaram um preço alto para construir acordos e instituições políticas que garantem que possamos eleger nossos representantes, circular livremente e nos reunir sem medo de perseguição, expressar nossas preferências políticas e lutar por sociedades mais justas. As contradições, os retrocessos e todas as deficiências não são uma desculpa para eliminá-la, mas sim para superá-la e avançar em direção a versões mais substanciais.
Acontece que as sociedades democráticas são objetivamente melhores. O ganhador do Prêmio Nobel, Daron Acemoglu, demonstrou, em um estudo que analisou 184 países entre 1960 e 2010, que os países que se democratizaram aumentaram seu PIB per capita entre 20% e 25% nos 25 anos seguintes, em comparação com o que teriam ocorrido se tivessem permanecido autoritários. Outro ganhador do Prêmio Nobel, Amartya Sen, destaca que nunca houve uma grande fome em uma democracia devido à pressão da imprensa e da oposição diante de tais crises. Durante o século XX, as transições para a democracia estiveram ligadas a um aumento médio de 3% na expectativa de vida em apenas dez anos após a democratização. Dados do Journal of Democracy mostram que as democracias reduzem a mortalidade infantil de forma muito mais drástica do que as autocracias, já que os gastos públicos tendem a priorizar a atenção primária à saúde em vez de construir elefantes brancos ou aumentar os gastos militares. De forma semelhante, na América Latina e no sul da Europa, o fim dos regimes autoritários nas décadas de 1970 e 1980 impulsionou o aumento do investimento em educação e a expansão dos direitos substantivos para as populações vulneráveis. Além disso, evidências empíricas mostram que as democracias são mais pacíficas entre si, pois priorizam os canais diplomáticos.
A questão fundamental é que precisamos de democracia para construir nosso futuro. Não há agenda de desenvolvimento possível sem democracia. Sem instituições democráticas fortes com apoio social, não temos mecanismos de controle e equilíbrio em um mundo que, apesar de estar cada vez mais rico, vivencia crescente desigualdade e exclusão. A transformação digital sem controle democrático se torna uma infraestrutura para vigilância em massa, extração e manipulação de dados. Não podemos vislumbrar um futuro para a Amazônia sem acordos globais vinculativos, especialmente quando ativistas ambientais são assassinados enquanto Estados que desmantelaram suas instituições de direitos humanos permanecem inertes. Tampouco podemos vislumbrar empregos de qualidade para nossos jovens quando os mercados são controlados por enormes corporações que, sem fiscalização, buscam apenas maximizar os lucros. Muito menos podemos elaborar políticas migratórias sustentáveis se não priorizarmos os migrantes como sujeitos de direitos.
Não podemos ceder aos desesperançosos, e muito menos ao cinismo daqueles que buscam benefícios para uma minoria privilegiada. O voto, o protesto social, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a identidade não só têm valor intrínseco, como também são ferramentas insubstituíveis para a construção de sociedades mais prósperas, equitativas, inclusivas e igualitárias. É por isso que, se não agirmos agora, sem eufemismos ou ambivalência, a democracia corre o risco de se tornar um período que nossos netos lerão com perplexidade nos livros de história, um breve experimento na longa história da crueldade do poder.
Crime ou esperteza? Resposta pode ser relativa às circunstâncias
O crime é relativo a muitas circunstâncias. Tirar dinheiro do pai, vender gato por lebre, falsificar documentos ou roubar livros de bibliotecas públicas são espertezas, malandragens e jeitinhos. Tais práticas, feitas por parentes e amigos, serão enquadradas na ética de reciprocidade da “casa” ou da categoria profissional, o que os jornais chamam de “corporativismo”. Ora, o corporativismo tem como base precisamente esse transbordamento pessoal que anula regras igualitárias impessoais em favor de simpatias e favores pessoais, o que leva à desmoralização institucional e à descrença na igualdade, visto que a obrigação de retribuir favores anula normas profissionais. Há um óbvio desequilíbrio entre costumes jamais criticados e normas legais racionais, de modo que não conseguimos ultrapassar a dominação tradicional, efetivando a dominação burocrática.
Dilema que se expressa no batido: se for “nosso”, é esperteza; se for “deles”, é crime!
Nesse axioma cultural há a incontornável força dos hábitos e costumes que – como definiu E.B. Tylor em 1871 – são aprendidos pelos membros de uma sociedade como “cultura”.
Se o nosso sistema moral adota uma ética de ambiguidade, a igualdade como um ideal antiaristocrático sofre aceitação ou rejeição. Se eu roubar numa ciranda financeira impessoal, por intermédio de uma prestigiosa rede pessoal, o crime pode virar esperteza. Mas sem elos políticos importantes a esperteza corre o excepcional risco de virar crime.
Como sair dessa ambiguidade determinada pelo axioma de que a sociedade é feita de doutores e analfabetos, sabidos e trouxas?
Como acabar com pobres e ricos, abandonando a ideia de que são os ricos que vão, nobremente, acabar com os pobres, em vez de pensar num sistema no qual todos possam enriquecer?
É mais fácil alienar o pobre, remediando sua pobreza, do que criar instituições capazes de fazê-lo prosperar. Mas como abrir o cofre das fortunas sociais de modo igualitário e universal?
Será somente pela política, como até hoje insistimos em imaginar? Ou seria pela criação de um movimento de conscientização igualitária, por intermédio de uma simplificação desses legalismos que sustentam um obsoleto sistema cultural incapaz de distinguir crime e esperteza.
El Salvador depois de Bukele
E ele fará mais. E exilará mais pessoas. E reprimirá mais, muito mais. E prenderá mais, muito mais. Quem não quiser ver, que não olhe. Quem não quiser ver, que espere, mais cedo ou mais tarde terá que ver. Bukele tem 44 anos e, aparentemente, muita vontade e energia para continuar fazendo o que bem entender.
Para aqueles de nós que sofremos com esse poder arbitrário, seja no exílio ou naquele país que nada mais é do que a propriedade de Bukele, resta apenas sobreviver e, se possível, continuar fazendo o que levou à nossa perseguição: jornalismo, ativismo, política, arte, engajamento cívico.
Mas nós, como cidadãos oprimidos, também ficamos com algo mais, algo imperativo, mesmo que pareça inatingível; algo criativo em meio à repressão. Ficamos imaginando El Salvador depois de Bukele. Porque as ditaduras chegam ao fim, mesmo que pareçam rochas imortais; elas morrem, desmoronam, e então restam apenas fragmentos, não mais rocha, mas sujeira, desordem.
Voltarei a este tema em outra coluna, pois não se pode imaginar o futuro de uma nação sozinho ou em um curto período de tempo. Posso ser um bom cronista, mas não me atrevo a descrever imagens desse futuro que virá, porque ele virá, mas me atrevo a levantar questões para este presente que devem alimentar o que está por vir.
Como ensinaremos aos futuros policiais, hoje com pouco mais de vinte anos, que não podem prender quem bem entenderem simplesmente para satisfazer a retórica política do líder? Como ensinaremos aos promotores que não podem acusar dezenas de pessoas em um único caso sem qualquer prova? Como ensinaremos aos juízes a condenar apenas se houver provas? Como lembraremos aos patologistas forenses que sejam meticulosos e examinem os corpos liberados da prisão como se fossem os de um irmão, e que escrevam nas autópsias que o ferimento parecia ser resultado de traumatismo contuso, e não de "edema pulmonar", como escrevem em todos esses relatórios? Como obrigaremos os guardas prisionais a eliminar a tortura de seus protocolos?
Como iremos puni-los? Quem iremos punir? Quem iremos perdoar? Porque o perdão será necessário, não se enganem, o perdão será necessário. Quem iremos punir?
E os soldados… Os soldados como… Como faremos a única coisa que precisa ser feita com eles, que é colocá-los de volta nos quartéis? Como os faremos entender que foram necessários 12 anos de guerra sangrenta para impedi-los de vagar pelas ruas prendendo nossas crianças quando bem entendem, cortando seus cabelos ou controlando o Ministério da Educação? E se, agora que estão tão empoderados, ainda se recusarem a entender, como lidaremos com eles e seus fuzis?
E o que diremos aos jornalistas que se tornaram propagandistas da ditadura, funcionários da máquina de mentiras, zombaria e difamação, quando tudo isso acabar? O que diremos quando eles argumentarem que também tiveram medo, que tinham filhos para alimentar? E o que diremos aos acadêmicos que se venderam, que abandonaram toda evidência e metodologia para aplaudir, com sua linguagem rebuscada, a construção de um ditador? Não tínhamos escolha, dirão alguns, quando tantos outros tiveram que ir para o exílio. O que diremos a eles?
E como vamos convencer aqueles artistas que, como é normal, atualmente não se atrevem a fazer arte livre e crítica de protesto, de que o passado acabou, de que queremos que eles sejam críticos, rebeldes e livres novamente?
E o que diremos àqueles que, sem dúvida, se beneficiaram da ditadura — empresários, parlamentares, funcionários públicos, diplomatas — e que, quando tudo isso terminar, talvez fiquem com os bolsos cheios de moedas? Deixaremos que eles recebam suas moedas?
Como nos tornaremos novamente uma república, onde todos, ou quase todos, se encaixem? Como nos livraremos da raiva e seguiremos em frente sem que o ódio nos prenda?
Vamos nos questionar sobre isso e muito mais. Vamos nos questionar sobre isso, especialmente aqueles que são oprimidos hoje. Vamos resgatar o que nos aconteceu enquanto idealizamos um país que não existe, mas que esperamos que venha a existir. Vamos contar essa história para nós mesmos.
Como faremos isso quando Bukele não for mais todo-poderoso?
Oscar Martinez
Flávio Bolsonaro, um candidato sem ideias ou com medo de expô-las
Atenção, coleguinhas jornalistas: não perguntem a ele. Mas, se perguntarem, não se satisfaçam com a primeira resposta.
Jair Bolsonaro, o golpista condenado e agora enfermo, nunca esteve nem aí para essa história de programa de governo.
Mas quando em 2018, não escondeu de ninguém que lhe faltavam ideias para governar.
No princípio, orientado por seu faro, limitou-se a atacar adversários e a repetir um monte de chavões de sua própria autoria ou da autoria de terceiros.
Como descobriu a tempo que precisaria dizer alguma coisa sobre economia, procurou um economista para falar por ele.
Foi quando entrou em cena o economista Paulo Guedes, que fora professor na Universidade do Chile à época da ditadura do general Augusto Pinochet.
Bolsonaro batizou Guedes de “Posto Ipiranga”, dono do bordão famoso “Pergunta lá no Posto Ipiranga”.
Os coleguinhas deram-se por satisfeitos, mas não só. Empresários, agentes do mercado financeiro e banqueiros, também.
Estava em jogo impedir que o PT voltasse a governar o país. De resto, Guedes jurava que Bolsonaro era um liberal de carteirinha. A direita de todos os matizes aderiu de imediato.
Diga-se a favor de Bolsonaro que ele, em pessoa, jamais escondeu o que era e o que pretendia: “derrubar o sistema” para pôr outro no seu lugar”. Tarefa, no mínimo, para oito anos ou mais.
Palavras ao vento, cada um que as interpretasse ao seu gosto. Mas para Bolsonaro, derrubar o sistema significava derrubar a democracia tal qual a conhecemos. Deu no que vimos.
Flávio é candidato do pai, deverá ao pai os votos que amealhar, mas quer se apresentar como uma versão atualizada do pai. Daí sua preocupação com um programa de governo.
O documento está sendo esboçado, há cinco meses, com consulta a especialistas e formatação pela consultoria GO Associados.
Elenca medidas com apelo popular e outras com diagnóstico sobre problemas a serem enfrentados.
Acontece que o governo Lula instruiu seus aliados a começarem a criticar Flávio desde já para que ele não continue crescendo.
Então, o anúncio do programa do filho do papai ficará para mais adiante, talvez para o final de julho ou começo de agosto.
Se Flávio, hoje, vive um bom momento sem ter que expor suas ideias ou a falta delas, por que estragar o bom momento?
A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em 7 de março, mostrou Flávio empatado tecnicamente com Lula em simulação de segundo turno: o presidente tem 46% e ele, 43%.
Dirão os antipetistas: Lula venceu em 2022 sem lançar um programa de governo.
Dirão os petistas: depois de ter disputado a Presidência seis vezes, tendo ganho em duas ocasiões, Lula carecia de um programa de governo para se eleger novamente?
Em linhas gerais, quem não conhece o que Lula pensa?
Não foi por falta de um programa que Lula venceu Bolsonaro por uma minúscula diferença de votos. Foi porque não é fácil derrotar um presidente candidato à reeleição e no exercício do cargo.
Flávio saberá, se já não sabe, que não é fácil.



