domingo, 31 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


Os patriotas pelo avesso

 Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira. Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições.

É um patriotismo pelo avesso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a colocar o boné com a marca “Make America Great Again” na época da posse de Donald Trump. Mas já estava claro para qualquer pessoa que, na visão trumpista, os Estados Unidos só podem ser grandes em detrimento de outros países. A conta não tardou muito, em abril do ano passado, o presidente norte-americano anunciou o tarifaço contra o mundo. O Brasil ficou com uma das maiores tarifas e elas feriram duramente as empresas do estado governado por Tarcísio. Foi o governo Lula que dissolveu a maior parte desse ônus para a economia brasileira.

O patriotismo histriônico e estigmatizado que berra, agarra a bandeira, militariza os símbolos nacionais em atos patéticos não tem nada a ver com o verdadeiro e sereno amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses dos que nasceram nesta terra ou a escolheram como sua.

São muitos os riscos decorrentes da definição das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Uma das primeiras consequências práticas pode ser o enfraquecimento dos mecanismos atuais de cooperação no combate a essas quadrilhas. O Brasil perde interlocução com o FBI e o assunto passa para a alçada da CIA. Combater o tráfico de drogas e armas deixa de ser uma questão policial, em que organismos dos dois países podem trocar informações. O tema passa ser uma questão da segurança nacional americana, portanto, entregue aos espiões. A partir dessa decisão do governo americano, ficam legalmente permitidas missões de espionagem da CIA no Brasil, sem a anuência ou conhecimento do governo brasileiro.

Há ameaças econômicas também. Num mercado financeiro globalizado, bancos nacionais operam o tempo todo no mercado americano. Qualquer dúvida que paire sobre instituições brasileiras pode se transformar em limitação para as suas operações. Empresas também que tenham negócios com firmas americanas podem encontrar constrangimentos.

O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política. O ato é visto como uma tábua de salvação para uma candidatura que está em apuros pela revelação da intimidade que ele mantinha com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro. Como a decisão do governo americano ocorreu logo após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pode reivindicar autoria do atentado.

O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são de fato terríveis organizações, extremamente perigosas, que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas espalham com suas ações e concluir que faz sentido defini-las como terroristas. Não é a definição em si o problema, e sim o que isso implica do ponto de vista legal.

Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador? Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares.

Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira.

O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país. O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo.

Míriam Leitão

O medo da Inteligência Artificial está a tornar-se mais perigoso do que a própria tecnologia

Há uma ironia quase trágica nos tempos modernos. A Humanidade passou séculos a criar máquinas para aliviar sofrimento, acelerar conhecimento, aproximar pessoas e ampliar capacidades humanas. Mas quando finalmente surge uma tecnologia capaz de democratizar informação, auxiliar na educação, acelerar diagnósticos médicos, melhorar acessibilidade, otimizar energia, combater isolamento e até apoiar pessoas com deficiência, a reação de muitos parece resumir-se a um grito coletivo: “Desarmem essa porcaria!”

A frase é irónica, claro. Mas reflete uma realidade cada vez mais evidente. A Inteligência Artificial transformou-se, para muitos, numa espécie de novo “inimigo público”, tratado quase como uma ameaça existencial inevitável, uma arma prestes a destruir empregos, criatividade, relações humanas e até a própria civilização. Como sempre acontece na História, o medo chega primeiro do que a compreensão.


É legítimo discutir riscos. É saudável exigir regulação, ética, transparência e responsabilidade. Mas outra coisa completamente diferente é alimentar uma espécie de histeria tecnológica coletiva, quase apocalíptica, que ignora deliberadamente os benefícios gigantescos que esta revolução já está a trazer ao mundo.

Curiosamente, muitas das pessoas que criticam ferozmente a Inteligência Artificial utilizam diariamente algoritmos para navegar, trabalhar, comunicar, estudar, comprar, ver filmes, ouvir música ou receber recomendações médicas. Vivemos rodeados de IA há anos. A diferença é que agora ela começou a falar connosco de forma mais visível — e isso assusta.

O próprio Papa Leão XIV admitiu recentemente que o mundo poderia talvez ser melhor sem Inteligência Artificial. A preocupação moral merece respeito. A Igreja tem historicamente um papel importante na reflexão ética das grandes transformações humanas. Contudo, talvez a questão correta não seja “um mundo sem IA”, mas sim: que tipo de Humanidade queremos construir utilizando esta ferramenta?

Porque a verdade é que a IA não possui consciência, ambição política, ódio ou desejo de destruição. Quem possui isso continua a ser o ser humano. Uma tecnologia pode servir para curar ou manipular, educar ou desinformar, integrar ou excluir. Tal como aconteceu com a eletricidade, a televisão, a internet ou até a imprensa.

Em áreas como a saúde, a Inteligência Artificial poderá representar uma revolução extraordinária. Diagnósticos mais rápidos, apoio à investigação científica, medicina personalizada, deteção precoce de doenças, melhoria de próteses auditivas e implantes cocleares, sistemas automáticos de legendagem e acessibilidade em tempo real — tudo isto já está a acontecer. Para milhares de pessoas com deficiência auditiva, visual ou motora, a IA não é uma ameaça abstrata. É independência, inclusão e qualidade de vida.

Também no combate às alterações climáticas, na eficiência energética, na gestão de tráfego urbano, na prevenção de incêndios ou na optimização de redes eléctricas, a IA pode tornar-se uma aliada decisiva. O problema não está necessariamente na tecnologia. Está na ausência de visão política, ética e social para a acompanhar.

Há ainda outra contradição fascinante: muitos dos que mais condenam a IA parecem não ter demonstrado o mesmo nível de preocupação perante guerras, desinformação política, exploração laboral, manipulação mediática, corrupção ou desigualdades sociais profundas. Como se uma ferramenta digital fosse automaticamente mais perigosa do que décadas de falhas humanas perfeitamente reais.

Talvez o maior risco da Inteligência Artificial não seja ela própria. Talvez seja a nossa tendência histórica para reagir ao desconhecido com medo, exagero e radicalismo. A Humanidade sempre receou aquilo que não compreendia. E quase sempre acabou por integrar essas mudanças no quotidiano.

Por isso, talvez não seja a IA que devamos “desarmar”. Talvez devêssemos, isso sim, desarmar o alarmismo, a ignorância tecnológica e a incapacidade colectiva de discutir inovação com equilíbrio, racionalidade e visão de futuro.o. A Humanidade sempre receou aquilo que não compreendia. E quase sempre acabou por integrar essas mudanças no quotidiano.

Por isso, talvez não seja a IA que devamos “desarmar”. Talvez devêssemos, isso sim, desarmar o alarmismo, a ignorância tecnológica e a incapacidade colectiva de discutir inovação com equilíbrio, racionalidade e visão de futuro.

O radialista, o produtor e o banqueiro: histórias frias da direita brasileira

Em 1950, Carlos Frias parecia ter encontrado no rádio uma passagem direta para a política. Locutor conhecido das rádios Tupi e Tamoio, voz identificada com a campanha brigadeirista e defensor declarado da União Democrática Nacional, Frias foi eleito vereador na então Capital Federal como um dos poucos nomes do rádio alinhados ao antigetulismo. A condição era rara. A UDN do Rio carioca consolidava base em camadas médias urbanas, mas pouco penetrava na classe radiofônica, majoritariamente getulista. Carlos Frias era apresentado na revista como o melhor candidato udenista a vencer a “gaiola de ouro”, termo utilizado pelos próprios radialistas em referência à Câmara dos Vereadores.

Mas a carreira política do locutor começou atravessada por uma reviravolta. Antes mesmo da posse, eis que uma notícia explodiu nas páginas da imprensa radiofônica. Carlos Frias havia sido preso e acusado de falência fraudulenta. A Revista do Rádio tratou o caso com o vocabulário dramático que reservava às grandes comoções do mundo artístico. A notícia, dizia o periódico, “estourou como uma bomba”, abalando fãs, políticos e artistas. A metáfora pertencia à gramática do escândalo midiático que o semanário mobilizava em outras ocasiões para tratar separações de cantoras e brigas de bastidor. Importava a temperatura emocional do enquadramento, não a precisão jurídica do que ocorrera. O radialista, eleito pelo voto popular, via-se subitamente impedido de exercer o mandato por força de uma condenação judicial.

A revista se colocou em cena como mediadora da crise. Dizia agir “em defesa dos radialistas” e atender à curiosidade de seus leitores. A revista não falava de Carlos Frias apenas como candidato político. Era um dos seus, um trabalhador da voz, um personagem do rádio, alguém cuja queda política podia ser narrada como injustiça contra o meio radiofônico. Esse pertencimento profissional precedia o posicionamento ideológico. Anselmo Domingos, diretor-chefe e ele próprio escritor de radionovelas, organizava o periódico para defender a categoria antes de tomar partido. A clivagem getulismo versus udenismo cedia momentaneamente à clivagem entre o radialista e o tribunal. O mesmo periódico que pouco espaço lhe concedera enquanto candidato antigetulista passou a acompanhar, com atenção redobrada, o drama jurídico que ameaçava retirar-lhe o mandato.

A Constituição de 1946 oferecia o enquadramento do impasse. A condenação por falência fraudulenta tornava problemática sua diplomação, pois a perda ou suspensão dos direitos políticos atingia diretamente as condições de elegibilidade. Os artigos 132 e 138, combinados, tornavam inalistáveis e inelegíveis os privados de direitos políticos. Não havia gradação. Bastava a condenação em primeira instância para que a porta da Câmara se fechasse. O caso Carlos Frias não era somente uma fofoca de bastidor radiofônico. Seu causo condensava uma pergunta importante para a democracia brasileira sobre até que ponto o voto poderia ser interrompido pela Justiça quando a biografia judicial de um eleito se chocava com as exigências legais da representação política.

O desfecho favoreceu o locutor. Após decisão judicial que anulou a sentença, Frias pôde ser diplomado em 1951. Em entrevista à Revista do Rádio, fez questão de afirmar que a política não o afastaria do microfone. A volta ao estúdio fazia parte do programa político, não era seu intervalo. Continuar locutor garantia que a base de votantes permanecesse ouvinte. No Brasil dos anos 1950, rádio e política não eram mundos separados. O microfone fazia candidatos, a Câmara oferecia tribuna e a imprensa especializada transformava a trajetória desses homens públicos em um grande espetáculo.


Mais de sete décadas depois, outro Frias reaparece no noticiário político brasileiro. Mário Frias, deputado federal pelo Partido Liberal de São Paulo e ex-secretário especial de Cultura, tornou-se um dos personagens das controvérsias em torno de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Sua posição é tripla. Atua como produtor executivo do longa, integra o elenco como ator, e responde no Supremo na condição de parlamentar destinador de emendas. Em maio de 2026, o ministro Flávio Dino abriu apuração no STF para investigar emendas parlamentares destinadas por ele e por dois outros parlamentares, após representação dos deputados Tabata Amaral e Henrique Vieira. Estão sob escrutínio R$ 2 milhões destinados pelo ex-secretário especial de Cultura ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora Go Up Entertainment.

A produção contou com R$ 61 milhões aportados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em compromisso original de R$134 milhões, conforme apuração do Intercept Brasil. As tentativas de notificação de Frias pelo STF, em 31 de março, 7 e 14 de abril e 18 de maio de 2026, foram frustradas. Oficiais de justiça encontraram endereços vazios, e o gabinete informou “missão internacional” sem previsão de retorno. O parlamentar, em momento anterior, havia negado qualquer aporte de Vorcaro à produção, versão que precisou corrigir depois que o senador Flávio Bolsonaro reconheceu o pagamento de R$71 milhões, atribuindo então o repasse a um fundo de investimentos ligado ao banqueiro. A fuga, no entanto, não pertence à fórmula de Carlos Frias, que enfrentou a acusação em juízo e foi absolvido. Num caso, discutia-se a posse de um vereador eleito à luz da Constituição de 1946. No outro, ainda se está muito antes de qualquer condenação, pois trata-se de uma investigação em curso, marcada por intimações frustradas e pela disputa sobre a rastreabilidade dos recursos.

A Constituição de 1988 substituiu o regime automático por outro. O artigo 14, parágrafo 9º, transferiu à lei complementar a fixação das hipóteses de inelegibilidade, e a Lei Complementar 135 de 2010, conhecida como Ficha Limpa, fixou prazo de oito anos contados de decisão por órgão colegiado, sem exigência de trânsito em julgado. A lógica de 1946, em que a condenação valia como suspensão imediata dos direitos políticos, foi substituída por sistema graduado por tipo de delito. Mário Frias hoje não enfrenta nada disso. Sua situação está em apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal, fase muito anterior a qualquer condenação. A comparação institucional não se sustenta no plano do dispositivo, e sim no padrão midiático em torno da figura sob suspeita.

Entre Carlos Frias e Mário Frias não há, necessariamente, uma linhagem familiar. Há, porém, uma coincidência histórica, na qual ambos são personagens políticos que ingressam na vida pública amparados pela retórica moral e pela capacidade de transformar suspeitas em narrativa de perseguição. Carlos Frias, radialista udenista, teve sua diplomação ameaçada por uma condenação judicial por falência fraudulenta. Mário Frias, produtor executivo de um filme bolsonarista, aparece hoje em uma apuração preliminar sobre o percurso de emendas parlamentares e as relações entre dinheiro público e produção audiovisual, ainda que Flávio Bolsonaro insista em apresentar Dark Horse como projeto exclusivamente privado, posição contestada em representação do Ministério Público junto ao TCU, que pediu em maio de 2026 a abertura de investigação sobre a origem dos aportes.

Em janeiro de 1951, a Revista do Rádio não relatava a acusação contra Carlos Frias, combatia-a, recorrendo à categoria do “lamentável equívoco” prestes a ser elucidado. Os fãs, registrava o próprio periódico, duvidavam da veracidade da notícia. A função de defesa que Anselmo Domingos exercia em um semanário de circulação nacional se distribui hoje por canais de YouTube, perfis bolsonaristas no X e produtoras audiovisuais que fabricam cinebiografias hagiográficas. A diferença é estrutural. A operação retórica é a mesma. Em 1951, a “bomba” da prisão virou narrativa de perseguição contra o radialista udenista. Em 2026, a ausência diante do oficial de justiça virou “missão internacional” do deputado bolsonarista. A operação política, descrita por Bourdieu como luta pelo monopólio do discurso legítimo no campo, segue idêntica. Resta saber se o desfecho da investigação no STF se aproximará da absolvição que beneficiou o radialista de Anselmo Domingos ou produzirá outro encerramento, ainda em aberto, que apenas o tempo da apuração permitirá dimensionar.

A força da verdade

Sou remanescente dos melhores momentos do jornalismo no Brasil, época em que os repórteres dos jornais diários não eram obrigados a competir com as notícias 24 horas da tv a cabo. Os jornalistas tinham a possibilidade de viajar para qualquer lugar em que houvesse chance de uma boa reportagem. No meu tempo de Veja, por exemplo, anos setenta, fui de avião pequeno, teco-teco alugado, ao encontro dos índios gigantes nas margens do rio Peixoto de Azevedo, na divisa dos estados do Amazonas e Mato Grosso.

Hoje no local existe uma cidade. Na época, era selva amazônica. Dormi no mato, com os índios. Tive a rara oportunidade de presenciar o primeiro contato de selvagens com os brancos, representados por Cláudio Villas Boas, personagem de outro planeta, filósofo, tranquilo e profundo conhecedor do Brasil. A reportagem virou matéria de capa da Veja e ocupou mais de seis páginas da revista.


O jornalismo atual foi invadido pelas mesas redondas de especialistas e jornalistas que começam a responder a qualquer pergunta com as palavras mais mortais no mundo da imprensa: “eu acho”. O país está saturado por notícias falsas, informações exageradas, incompletas, afirmações sem fundamento que aparecem nos noticiários de televisão e são corrigidos nas edições seguintes. Não é um fenômeno brasileiro, é universal. Estamos todos submetidos à pressa, ao trabalho de apuração malfeito, a preguiça que invadiu as redações, além de definições das ideologias e dos modismos em vigor. No caso de Brasília, as entrevistas pessoais foram substituídas pela conversa ao telefone celular. Tudo é improviso, submetido aos rigores do espaço disponível e dos humores do jornalismo ao vivo.

A eleição presidencial brasileira é notável, neste sentido. Só há candidatos de direita, contra um senhor de mais de 80 anos, que, teoricamente, representa a esquerda. A campanha se sustenta, pela falta de ideias, no desfilar de escândalos. O banqueiro que corrompeu boa parte dos poderosos brasileiros, infiltrou-se em todos os lugares. Tem até uma parte da sociedade que comanda um clube de futebol em Minas Gerais. Daqui a pouco vão descobrir este pedaço de escândalo. De escândalo em escândalo, o debate eleitoral não chega a lugar nenhum. Aliás, nenhum dos candidatos apresentou alguma proposta parecida com programa de governo. Ninguém projeta o futuro. A única preocupação é garantir vantagens pessoais para seu grupo. Nem o atual presidente conseguiu apresentar seu projeto de país para os próximos quatro anos.

O extremista procura se colocar sob a asa de Donald Trump, o que é lamentável porque a eleição vai ocorrer no Brasil, não nos Estados Unidos. O governo norte-americano agora administra o futuro da Venezuela. Deve servir de horizonte para o filho de Jair, se for eleito. Mas ninguém se lembrou de fazer as perguntas certas ao candidato. Mesmo porque é de conhecimento público que ele não tem as respostas.

É lamentável chegar a este nível de descompromisso com a notícia. Tempos atrás, anos sessenta, neste mesmo Correio Braziliense, era um foca iniciante que fazia o turno da noite. Chegava no jornal as 18 horas e saia depois da meia noite, quando a primeira página era concluída. Meu chefe era o Alfredo Obliziner, editor de saudosa memória, ótimo jornalista e grande companheiro. Quando irritado, ficava vermelho de raiva. Parecia que ia explodir.

Minha função era auxiliar no fechamento da primeira página. Fazia títulos, reescrevia matérias e produzia legendas. Numa determinada noite encontrei Alfredo a ponto de estourar. Havia um militar na redação. Não me lembro da patente. Estava uniformizado. Entregava o material ao Alfredo e ele passava ao militar. Depois o texto voltava para minha apreciação todo rabiscado. Censura.

O militar dizia o que podia e que não podia ser publicado. Censura de corpo presente. O devaneio da ditadura. Ninguém consegue impedir a narrativa da história, nem o correr dos fatos. Mas os censores tinham a pretensão de reescrever a realidade. O espaço é pequeno para assunto tão controverso. A atividade dos censores resultou em muita confusão. Uma edição inteira do Correio chegou a ser empastelada. O pessoal ficou preso na redação toda a noite.

Mas, um dia o vento muda. E mudou. Os militares voltaram para os quartéis e o Brasil se reencontrou com a democracia. A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora. As narrativas perdem a validade diante das verdades universais. Não há alternativa para a realidade. Estive em 1980 na União Soviética. Na época era o seu esplendor. Fui de Moscou a Tashkent, na Ásia. Comunismo por todos os lados. Relatei minha experiência numa série de oito reportagens que foi publicada neste Correio. Um dia o vento virou e aquilo tudo foi demolido pela força dos fatos. A verdade pode demorar a chegar, mas prevalece.

Entre as ruas e as superpotências na disputa global por minerais críticos

A escalada de tensões na Bolívia, marcada por protestos generalizados contra a escassez de combustíveis e por conflitos agrários, coloca o governo atual sob intensa pressão popular. Para além das reivindicações salariais imediatas e dos pedidos de renúncia presidencial, a crise boliviana carrega implicações geopolíticas mais amplas. O colapso da estabilidade interna impacta diretamente a segurança energética da América do Sul e atrai o olhar de potências globais, atentas ao futuro das maiores reservas de lítio do planeta.

Para compreender esse cenário, é necessário recuar no tempo. Por quase duas décadas, a Bolívia foi governada sob um modelo de forte presença estatal e nacionalismo econômico, liderado por Evo Morales (2006–2019) e Luis Arce (2020–2025). Inseridas em um contexto de alta dos preços das commodities, ambas as gestões apostaram na industrialização de recursos estratégicos, como o lítio e o gás, revertendo parte significativa desses ganhos em políticas de redistribuição de renda. Programas como o Bono Juancito Pinto e o Bono Juana Azurduy tornaram-se pilares desse arranjo, promovendo inclusão social, incentivando a permanência escolar e fortalecendo o acompanhamento materno-infantil.

No plano internacional, esse ciclo foi acompanhado por uma mudança geopolítica relevante. Desde a chegada do Movimento ao Socialismo (MAS) ao poder, a Bolívia reduziu de forma significativa sua histórica dependência em relação aos Estados Unidos. O distanciamento diplomático de Washington materializou-se na expulsão de embaixadores e da agência antidrogas norte-americana (DEA), sob acusações de interferência em assuntos internos. Em contrapartida, o país aprofundou suas relações com parceiros extrarregionais, como Rússia e China, ao mesmo tempo em que reforçou iniciativas de integração latino-americana.

Embora esse modelo tenha garantido anos de crescimento e relativa estabilidade social, passou a enfrentar limites estruturais cada vez mais evidentes. O principal deles reside na queda das exportações de gás natural, historicamente responsáveis por sustentar o caixa estatal. Com a diminuição das receitas externas, as reservas cambiais se deterioraram rapidamente, restringindo a capacidade do Estado de financiar políticas públicas e manter subsídios, especialmente no setor de combustíveis. Esse estrangulamento financeiro abriu caminho para a vitória eleitoral de Rodrigo Paz, que rompeu a hegemonia do MAS ao propor uma agenda de reformas liberais e maior abertura econômica. Para amplos setores populares e sindicais, fortemente vinculados ao modelo anterior, essa mudança é percebida como uma ruptura do pacto social, o que ajuda a explicar por que as ruas se tornaram o principal palco de resistência contra a nova orientação econômica do país.

Diante desse cenário, a posse de Rodrigo Paz e a onda de protestos que se seguiu dificilmente podem ser tratadas como mais um episódio recorrente da instabilidade política sul-americana. Trata-se de um fenômeno com ramificações globais. Ao adotar uma agenda de orientação neoliberal, Paz recoloca a Bolívia no centro de disputas geopolíticas mais amplas, nas quais interesses internos e externos passam a se entrelaçar de forma evidente. Nesse contexto, o país, detentor de minerais críticos, especialmente o lítio (importante para baterias, carros elétricos e transição energética global), transforma-se em um espaço estratégico no tabuleiro internacional, marcado pela crescente competição entre potências globais.


Nesse tabuleiro mais amplo, o apoio dos Estados Unidos ao governo de Rodrigo Paz não pode ser lido apenas como um gesto diplomático circunstancial, mas como parte de uma estratégia mais definida de reposicionamento na região. Ao classificar os protestos como movimentos de viés golpista e supostamente vinculados ao narcotráfico, Washington desloca o sentido da crise: o que antes poderia ser analisado como conflito social passa a ser tratado como ameaça à ordem. É justamente esse deslocamento que caracteriza o processo de securitização, isto é, quando uma questão política ou social é reinterpretada como problema de segurança, legitimando respostas mais duras, como maior presença militar ou a atuação de agências de inteligência no território boliviano. Nesse enquadramento, consolidam-se agendas securitárias, nas quais a estabilidade passa a ser buscada não por meio da mediação política, mas pela lógica do controle e da contenção. Sob esse prisma, abre-se espaço para o aprofundamento da cooperação em defesa e para a presença indireta de estruturas estrangeiras no país, sob o argumento da estabilização.

No entanto, por trás dessa narrativa, opera um cálculo geopolítico mais amplo: conter o avanço da China na infraestrutura e na mineração sul-americana. Projetos como a ferrovia transoceânica, que pretende ligar o Brasil ao porto de Chancay, no Peru, ilustram esse cenário ao ampliar as possibilidades de inserção da Bolívia nos fluxos comerciais com a Ásia. Essa conexão tende a facilitar o escoamento não apenas de minerais críticos, como o lítio, mas também de recursos como zinco, prata e estanho, reforçando o papel do país como peça-chave na geopolítica contemporânea.

Por essa razão, a consolidação de uma agenda liberal sob Rodrigo Paz desperta incertezas no cálculo estratégico de Pequim. Nos últimos anos, consórcios estatais chineses injetaram US$ 1,4 bilhão (R$ 7,9 bilhões) na industrialização do lítio boliviano, assegurando contratos de exploração de longo prazo em áreas estratégicas, como os salares de Uyuni e Pastos Grandes, em Potosí. Diante das promessas de privatização e desregulamentação do novo governo, o temor da diplomacia chinesa é que esses acordos firmados sob a vigência do MAS sejam revistos ou que o mercado seja aberto a concorrentes ocidentais. Para a China, portanto, a estabilidade de seus investimentos em minerais críticos na Bolívia não é apenas uma questão comercial, mas uma salvaguarda para a sua própria liderança na transição energética global.

Ao fim, a crise boliviana deixa de ser apenas uma disputa entre projetos econômicos ou alinhamentos geopolíticos e passa a revelar seus efeitos mais concretos sobre a vida cotidiana da população. Entre a escassez de combustíveis, a alta do custo de vida e a instabilidade política permanente, são os setores mais vulneráveis que experimentam, de forma mais direta, o peso dessa reconfiguração em curso. Inserida em um território rico em recursos estratégicos e atravessada por interesses externos, a Bolívia corre o risco de ver suas tensões internas serem progressivamente capturadas por agendas que ultrapassam suas próprias fronteiras. Nesse contexto, a questão central já não é apenas se o governo de Rodrigo Paz conseguirá sustentar sua agenda de reformas, mas a que custo social e sob quais condicionantes externos isso ocorrerá. Estaria o país diante de um novo ciclo de instabilidade estrutural ou caminhando para se tornar um espaço de disputa indireta entre grandes potências, onde a soberania nacional cede lugar a contornos cada vez mais globais?