sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


O trabalho está morto. Viva o trabalho!

É um homem grande, a cabeça calva queimada pelo sol, os ombros largos, as mãos enormes. Aproxima-se de mim na multidão que, no final da manifestação contra o pacote laboral, se aperta na Rua de São Bento, quase a chegar à Assembleia da República. É vidreiro, apresenta-se. E vem falar-me da luta de operários como ele, sujeitos a trabalhar no verão a temperaturas que chegam a ultrapassar os 70 ºC, num ambiente de enorme ruído, a respirar sílica cristalina cancerígena, com “jornadas contínuas de trabalho que chegam a um mês seguido, podendo estender-se até dois meses ou mais no período de verão, para assegurar férias dos colegas”. Naquele dia, desculpa-se, está engripado. Mas nem por isso faltou à luta, sob o sol ainda baixo de abril, que nos escalda a cabeça. Quer pôr os partidos a perceber a importância de a profissão de vidreiro ser considerada de desgaste rápido, mas sente-se a pregar num deserto quase tão abrasador como a fábrica onde passa os dias.


O operário explica-me como a tecnologia não lhe aliviou a penosidade do trabalho. “Assistimos a uma evolução tecnológica que aumentou significativamente a rentabilidade, mas não teve efeito no número de trabalhadores nem na forma de operar. Ou seja, a tecnologia melhorou a produção, mas não reduziu a exposição humana. Pelo contrário, em muitos casos intensificou-a”, queixa-se. Os fornos não podem parar nunca ao longo dos 15 anos que duram. Os homens vergam-se às máquinas.

Há quem ache que as histórias que falam de operários deviam ser contadas a preto e branco. Eles não existem hoje, acham os que cantam loas às divindades do empreendedorismo e a quem a própria palavra trabalho cheira a mofo. Decretaram o fim do trabalho. No futuro, dizem eles, as máquinas vão fazer tudo, seremos todos substituídos por Inteligência Artificial. E o futuro, dizem eles, começou agora.


É uma profecia que não estará completamente errada. É fácil de perceber como certos trabalhos, muitos deles administrativos, chatos e repetitivos, mas também muitos dos que se dizem criativos, estão tão votados à extinção como no passado estiveram os de homens que foram substituídos por máquinas nas fábricas. E não só esses. Até os médicos e talvez também os juristas e os jornalistas poderão ser em grande parte substituídos por modelos de linguagem, capazes de simular o pensamento humano, através da análise e da reprodução de padrões. Sim, para muitos o trabalho que hoje fazem irá desaparecer. Mas desaparecerá o trabalho? E a necessidade dele para sobreviver?

Em 1930, o economista John Maynard Keynes previa que até 2030 as jornadas de trabalho reduzir-se-iam a 15 horas semanais, precisamente devido aos avanços tecnológicos. Sabemos bem como isso correu. Até hoje, uma das lutas sindicais é pelas 35 horas semanais. E esse é só o trabalho dito normal. Não entram para essas contas as horas extraordinárias que se multiplicam para muitos e muito menos as desoras a que somos obrigados a responder a emails, mensagens e chamadas, a alimentar as redes sociais ou simplesmente a tentar mantermo-nos a par de tudo o que temos de dominar nas nossas profissões.

O futuro poucas vezes é aquilo que parece que vai ser. Sobretudo, quando o que o molda é um sistema capitalista extrativista que tem contribuído nas últimas décadas para uma desigualdade e uma exploração cada vez maiores. Os milionários das tecnológicas estão tão preocupados com isso que o CEO da OpenIA, Sam Altman, acaba de defender a ideia de aumentar os impostos sobre o capital e taxar o trabalho automatizado (e não só o humano), percebendo que sem uma política fiscal redistributiva deixará de haver consumidores capazes de comprar os seus produtos. Não é justiça social nem altruísmo o que o move: é pragmatismo puro. E a ideia – que alguns considerariam socialista e radical – de que muitos dos nossos grandes problemas coletivos se resolvem através de políticas fiscais redistributivas ganha assim um improvável aliado capitalista. Até um tech bro consegue perceber os limites do capitalismo selvagem e dos mercados desregulados.

Outros terão ideias diferentes para resolver o problema de haver uma massa cada vez maior de trabalhadores intelectuais antigamente qualificados tornados obsoletos. Poderão pensar que a solução está nos exércitos de entregadores e motoristas de plataformas que enxameiam as cidades de todo o mundo, mas só até haver robots que os substituam. E talvez, ainda que não tenham coragem de o admitir, toda a guerra que os engorda financeiramente seja, ao mesmo tempo, uma forma de consumir estes exércitos de humanos desnecessários.

Podemos sempre imaginar que o trabalho humano, aquele que se faz com um cérebro analógico, mãos treinadas, empatia e memória, tenderá a ser cada vez mais um luxo (tão inacessível como as peças que a alta-costura hoje vende), dominado por um punhado de artesãos cobiçados. É possível que assim seja. Mas também é possível que essa transformação venha acompanhada de miséria, exclusão e muito mais exploração. Como o vidreiro me explicou, a tecnologia serve primeiro para engordar os lucros e só eventualmente tem o efeito secundário de aliviar alguns trabalhadores. Afinal, não será por acaso que querem enfiar-nos pela goela abaixo reformas laborais como a que Javier Milei passou na Argentina, que cria o conceito de “salário dinâmico”, pago à vontade do patrão, que até pode entregá-lo em géneros.

Podem achar que operários como o vidreiro que veio falar-me já não existem. Que somos todos empreendedores, colaboradores, modernos unicórnios, nómadas digitais e o raio que vos parta. Mas se, por acaso, não conseguem aguentar-se mais de três meses sem receber qualquer rendimento de trabalho e se não são donos de meios de produção, tenho uma verdade chocante para vos contar: fazem parte da classe trabalhadora!

Por isso, amigos, pensem bem da próxima vez que vierem falar-vos de um futuro radioso sem trabalho, de reformas douradas antecipadas que não são mais do que vidas a gerir rendas e de outras fantásticas histórias da carochinha. Enquanto não chegarem à terra esses rios de leite e mel, lembrem-se de que são trabalhadores e de que os direitos que têm podem ser a linha ténue que vos separa da miséria. O operário vidreiro sabe disso na pele que lhe arde na fábrica e nos pulmões que se enegrecem no trabalho. E vocês? Quando é que vão perceber isto?

O homem Cazarré

Decidi meter o dedo nesta polêmica envolvendo o ator Juliano Cazarré. Reconheço humildemente que ele tem por volta de 5 milhões de seguidores. Antigamente você dizia que a pessoa era respeitada, tinha uma imagem a defender, um papel decente na sociedade. Hoje você diz o número de seguidores como se fosse uma régua para medir a credibilidade de alguém. Mas enfim, são pessoas que o seguem e devem concordar com o que ele diz. Essa é a maneira de conectar as pessoas em torno de uma ideia sua ou copiada, que você defende.

Juliano quer recuperar a figura desamparada do homem(sic). Ele mesmo diz isso. Eu procuro esse homem desamparado e não acho. Acho o homem violento, arrogante, autoritário e misógino. Acho também o homem sem o mesmo poder de antes, questionado, fragmentado, discutido. Esse é fácil de achar e mesmo que ele não se reconheça assim, dá para destacar no meio de todos.


Os homens estão cometendo mais feminicídios hoje não porque estão desamparados ou sem Cristo no coração. Estão cometendo mais crimes contra as mulheres porque estão perdendo o poder sobre o corpo e os desejos femininos. Homens não ocupam mais o papel de “liderança e comando” quase incontestáveis. Podem ainda ser escolhidos, mas não impostos como antes. Não são mais uma fatalidade, literalmente e sim o alvo de desejo que leva a escolha seja por parte de mulheres ou de outros homens. Mas isso incomoda. Os homens não querem se colocar em questão. Querem, como mostra o Cazarré, recuperar o seu papel hoje questionado. Querem voltar a mandar no corpo e na alma das mulheres. Querem decidir sobre família, filhos, espiritualidade, futuro, lar e profissão. Querem voltar a ser os grandes protagonistas da relação, os chefes de família, os provedores. A livre escolha deixou de ter importância e a orientação sexual então, não devia nem ter surgido.

Esse discurso realmente libera o feminicídio, como bem disse a atriz Marjorie Estiano. É esta posição masculina que justifica o corretivo físico e violento para restabelecer o comando familiar. Juliano Cazarré, quando diz que os homens precisam recuperar seu caminho de masculinidade, não prevê que as mulheres mudaram e não aceitam mais essa imposição. O mundo mudou e com isso, até mesmo os princípios cristãos deveriam acompanhar esta mudança. Você pode pregar o amor junto com a livre escolha. Pode pregar a solidariedade o até mesmo a caridade junto com a justiça social. Pregar a crença no reino dos céus sem deixar de querer também uma vida mais digna enquanto está por aqui. Esse é o verdadeiro espírito cristão que une homens e mulheres.

Não existe nenhum texto que ensine que homens são melhores que as mulheres, que devem comandar ou prover uma família. Homens podem ser mais fortes, mas isso não significa que sejam os comandantes. Homens têm características diferentes das mulheres, mas nem melhores nem piores. Essa diferença deveria ser a que une e não a que estabelece hierarquias. Homens devem rever seus papéis sim, mas para se moldar a este mundo novo que inclui todas as pessoas de modo igual. Deveria refletir sobre o poder e porque matam tanto quando este poder é questionado. Deveriam pensar sim porque o acesso às armas acaba favorecendo este tipo de violência e porque os mandamentos masculinos herdados São tão contrários ao convívio harmonioso que deveria existir entre os seres humanos.

Nenhum sexo é melhor do que o outro. E isso deveria ser fator de atração e não de opressão. Juliano Cazarré assim como todos os outros que pensam como ele são curiosamente de direita. É na direita que eles encontram respaldo para esse tipo de questionamento que vai contra a evolução, contra a modernidade, contra a expressão maior da liberdade de escolha. E ninguém escolhe impunemente esta posição. O direito de escolha inclui também o direito de dizer não, de escolher o próprio caminho e decidir o próprio futuro longe dos dogmas ou ensinamentos obsoletos dos quais, a duras penas, estamos conseguindo nos liberar. Sempre me preocupei em ser este homem. Alguma coisa acho que consegui mudar em mim e vejo também em outros. Não estamos desamparados, estamos nos reconstruindo.

Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui, é mais fácil enriquecer entrando na turma certa

"Quem quer dinheiro?" perguntava um fulgurante Silvio Santos, para ouvir do auditório um sonoro “EU” de maravilhada expectativa, porque o apresentador jogava notas de dinheiro em forma de aviãozinho para a plateia. O programa virava um espaço encantado pelo milagre de ver alguém distribuindo o que deveria ser entesourado, e o público testemunhava um rico capaz de transformar sovinice em generosidade.


Os tais “ricos”, como revela o dr. Michel Alcoforado no livro Coisa de Rico, formam uma categoria particular. Pois um dos poderes dos ricos é dar dinheiro para os outros, em vez de colocá-lo num cofre, como manda a tradição das sociedades patrimonialistas, nas quais cada estamento detém um tipo de riqueza. Nelas, o dinheiro enriquece, não enobrece, mas todo mundo aspira a “ficar rico” como revela essa epidemia de sites de apostas, as loterias e o brasileiríssimo jogo do bicho, por mim estudado com Elena Soárez, que, só Deus sabe por que, continua proibido.

Ganhar dinheiro pela sorte sempre foi um sonho nas sociedades aristocráticas fundadas na desigualdade, concebida como uma realidade do mundo.

Não preciso lembrar que esse foi o nosso caso. Formados que fomos com e pela escravidão, quando havia o indigno direito de ter gente proprietária de gente.

Quanto mais iníquas as diferenças, mais se desvaloriza o trabalho a ser realizado por escravizados e por “gente sem eira nem beira”. Em tal sistema, o dinheiro é muito mais símbolo de luxo e onipotência do que um instrumento de progresso e um símbolo de trabalho. Afinal, o ideal das malandragens é enriquecer sem trabalhar!

Como apontou Max Weber, trabalhar para viver e não viver para o trabalho, como ocorreu na América puritana, não é o nosso caso. Daí a ambiguidade em querer ser rico e, ao mesmo tempo, negar que se é rico. Como pensar que o trabalho enriquece, se ele era coisa de escravizados negros e marginais? Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui é mais fácil enriquecer, como ensina o Master, entrando numa turma com o poder de manipular regras, com o privilégio de não precisar honrá-las.

Em matéria de corrupção, a nossa modernidade revela a sofisticação de roubar usando bancos. Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume, usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado.

No capitalismo, todos querem dinheiro, mas, como adverte Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, “dinheiro dado pelo diabo, pelo saci-pererê – e eu acrescento, por banqueiros – deve ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas”. Ou em desmoralização nacional com o absurdo suporte de supremos negacionismos.

A sindemia global e os limites do progresso

A crise alimentar contemporânea não é apenas uma questão de saúde pública nem um desdobramento colateral da crise climática. Ela constitui a expressão concreta de um mesmo modelo econômico que, ao transformar comida em mercadoria global, passou a produzir simultaneamente corpos doentes e ecossistemas em colapso. É nesse contexto que a saúde pública passou a nomear essa convergência como “sindemia global”: a interação sinérgica entre obesidade, desnutrição e mudanças climáticas. Aqui não se entende estas como uma infeliz coincidência de crises paralelas, mas de um modelo orientado à extração e ao consumo, que esgota, de forma sistemática, tanto a base material do planeta quanto os corpos que o sustentam.

Essas três emergências compartilham determinantes estruturais e retroalimentam-se no interior de uma arquitetura que fragmentou a própria experiência do real. Ao instituir a separação entre natureza e sociedade, a modernidade produziu sistemas alimentares e urbanos incapazes de responder à complexidade dos fenômenos que ela mesma engendrou. A produção intensiva voltada à exportação de commodities constitui uma expressão paradigmática dessa ruptura: ao externalizar seus impactos ecológicos e sociais, o agronegócio degrada territórios enquanto simultaneamente consolida padrões alimentares associados tanto à desnutrição quanto à obesidade.

A tendência global de direcionamento da agricultura para produtos de alto valor financeiro e baixo valor nutricional explicita essa interdependência. O modelo produtivo que intensifica o desmatamento, reduz a biodiversidade e amplia a pressão sobre os recursos hídricos é o mesmo que encarece o alimento in natura.


Os impactos ambientais, por sua vez, não apenas decorrem desse arranjo, mas o intensificam. Em um contexto em que os efeitos da crise climática deixam de ser projeções futuras e passam a se manifestar como experiência cotidiana em diferentes regiões do planeta, eventos climáticos extremos como secas prolongadas, enchentes e quebras de safra destroem sistemas produtivos inteiros e aprofundam a dependência de ultraprocessados entre populações vulnerabilizadas.

A economia de mercado atua como vetor organizador dessa dinâmica, subordinando a reprodução da vida à lógica da rentabilidade. Saúde, ambiente e finanças deixam de ser esferas analiticamente separáveis: passam a operar como dimensões de um mesmo metabolismo disfuncional.

A partir da perspectiva de Bruno Latour, esse arranjo pode ser lido como expressão do impasse constitutivo da modernidade. O sistema capitalista produz continuamente “híbridos”, isto é, redes sociotécnicas que articulam sementes, clima, mercados financeiros, agrotóxicos e saúde humana. No entanto, essas mesmas redes são governadas por categorias purificadas, que insistem em separar natureza, sociedade e economia. É essa operação que autoriza, simultaneamente, a concepção da terra como insumo inesgotável e a redução das doenças crônicas a desvios individuais ou determinantes genéticos.

A sindemia global configura-se, portanto, como um fenômeno radicalmente híbrido. À luz da teoria sistêmica, sua complexidade não reside apenas na multiplicidade de componentes, mas nas interações dinâmicas, não lineares e frequentemente imprevisíveis entre eles. Reduzi-la a uma única dimensão – biomédica, climática ou econômica – implica não apenas empobrecimento analítico, mas incapacidade prática de intervenção. A crise contemporânea é, nesse sentido, simultaneamente material e epistemológica: evidencia a falência de um pensamento reducionista diante de realidades estruturalmente interdependentes.

A persistência dessa trajetória de colapso encontra respaldo no que Isabelle Stengers denomina imperativo do avanço capitalista. Trata-se de uma narrativa de progresso fundada no crescimento contínuo, que constrange a ação política mesmo diante de evidências robustas de exaustão ecológica. O reconhecimento científico da insustentabilidade do modelo não tem sido força suficiente para frear sua reprodução.

Nesse contexto, respostas baseadas exclusivamente em ajustes técnicos, como a descarbonização parcial da matriz energética ou a taxação de alimentos ultraprocessados, revelam-se insuficientes. O que está em jogo não é apenas a correção de externalidades, mas a necessidade de reconfiguração das bases ontológicas que orientam a relação entre sociedade e natureza. É nesse ponto que a crítica aos híbridos modernos encontra ressonância no Bem Viver. Oriundo de cosmovisões indígenas andinas, esse horizonte recusa a racionalidade utilitarista e propõe uma ontologia relacional, na qual humanos, não humanos e territórios constituem uma trama indissociável.

Se, como argumenta Bruno Latour, jamais fomos modernos, o Bem Viver evidencia que outras formas de organizar a vida coletiva não apenas existiram, mas persistem e resistem. Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas do reconhecimento de epistemologias ativas, capazes de orientar arranjos alternativos de produção, consumo e governança.

A agroecologia e a agricultura regenerativa emergem como expressões materiais dessa perspectiva. Ao reintegrar processos ecológicos e práticas sociais, operam deliberadamente no plano dos híbridos. A conservação do solo, a diversificação produtiva e a redução do uso de agrotóxicos deixam de ser meras métricas ambientais e passam a constituir estratégias de reprodução da vida em contextos de instabilidade climática. Nesse horizonte, os saberes tradicionais não são vestígios culturais, mas formas sofisticadas de inteligência etnoclimática, fundamentais para a adaptação no Antropoceno.

A articulação entre rigor científico e saberes tradicionais abre caminho para a produção de conhecimentos mais aderentes à complexidade contemporânea. Nesse processo, a ciência desloca-se de uma posição de exterioridade e controle para uma prática situada, relacional e experimental, comprometida com a construção coletiva de territórios resilientes.

Enfrentar a sindemia global exige mais do que integração de políticas públicas. Exige um gesto epistemológico e político de desaprendizado. Implica renunciar à ideia de progresso linear, infinito e universalizável. A sobrevivência no Antropoceno dependerá da capacidade de reconfigurar nossas formas de habitar o mundo, reconhecendo nossa condição de interdependência.

Ao dialogar com o Bem Viver, torna-se possível vislumbrar que a saída para a policrise contemporânea não reside em soluções tecnológicas isoladas, mas na reorientação profunda das formas de existência que sustentam a vida no planeta. Em um mundo que insiste em tratar a vida como recurso, talvez a ruptura mais radical seja justamente reaprender a habitá-la como relação.
Sâmela Klein Silvano

Redução de pena para os golpistas do 8 de janeiro é crime continuado

A derrota mais doída para Lula pode ter sido a recusa do Senado em aprovar a indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal. Foi a primeira vez que isso aconteceu nos últimos 132 anos. Lula, o governo e o PT foram pegos de surpresa. Como foi possível? Soberba? Incompetência?

Para o país, contudo, ou parte do país que tem nojo a ditaduras e repudia qualquer tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, seja pela força ou pelo voto, o que mais doeu, e seguirá doendo foi a decisão de 318 deputados federais e 49 senadores de reduzir a pena dos golpistas do 8 de janeiro de 2023.

Não foi a anistia ampla, geral e irrestrita que Flávio Bolsonarinho promete decretar de comum acordo com o Congresso se vencer as próximas eleições. Foi um ajuste de pena sujeito a futura deliberação do Supremo. Vai demorar a ser feito e a produzir consequências. De todo modo, foi bem recebido pelos golpistas.


Sabe-se lá como Lula reagirá no caso de Messias, e talvez o próprio Lula, por ora, não saiba; se sabe, ainda contou a ninguém. Por temperamento e estilo, Lula não é homem de tomar decisões apressadas – nem no âmbito pessoal, tampouco no público. Foi sempre assim, a não ser que tenha mudado. Veremos.

Por que arriscar-se a indicar um novo nome para substituir Messias como candidato à vaga aberta no Supremo com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso? Para correr o risco de amargar mais uma derrota? Por que não deixar passar as eleições? Caso não se reeleja, a tarefa caberá ao futuro presidente.

Os mineiros ensinam: “Mingau quente come-se pelas beiradas” para não se queimar. Ou deixa-se esfriar um pouco, mas não a ponto de tornar-se intragável. Quanto mais o governo passar recibo de suas eventuais derrotas, maior poderá ser o impacto delas no resultado das próximas eleições. A oposição agradece.

Era pedra cantada, para além disso, a derrubada do veto de Lula ao projeto de lei da dosimetria. Ele fora aprovado pela Câmara e Senado no ano passado com relativa folga de votos. Lula o vetou por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.

O Congresso é de direita, o governo de esquerda. No 8/1, por meio dos seus líderes, o Congresso condenou a tentativa fracassada de golpe e reafirmou seu compromisso inabalável com a democracia. Decorridos três anos, o Congresso premia os autores do golpe sob o pretexto de que suas penas foram duras em excesso.

Não foram. A dosagem das penas obedeceu a lei criada à época do governo Bolsonaro. A atuação do Supremo na resposta aos atos golpistas foi descrita por juristas e observadores internacionais como um “exemplo” de defesa da democracia, e elogiada em editoriais de jornais e revistas no mundo inteiro.

Suavizar penas ou revogá-las como pretendem a direita e a extrema-direita, é um claro estímulo a novas tentativas de golpe. É o mesmo que dizer: não temam, vão em frente, tentem novamente que um dia dará certo. Tantas vezes na história deste país já não deu certo, não é verdade? Se não der, anistia é para isso mesmo.