quarta-feira, 25 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Aos pobres, a podridão


Se para o Bolsonaro cabe o direito de ser transferido para regime domiciliar, antes disso também cabe o direito para o réu pobre, preto e periférico que está em situações semelhantes ou até piores. 
Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Prerrogativas, grupo de advogados

Como as Big Techs querem nos tornar dependentes da IA

Acreditar que as máquinas podem superar e controlar os seres humanos pode ser uma armadilha alienante. Isso porque é preciso entender que a ficção científica (FC) se desenvolve com a Revolução Industrial, isto é, quando a burguesia passa a ter o monopólio dos principais meios de produção da era contemporânea: as máquinas.

As máquinas – e o conhecimento científico para desenvolvê-las – são o centro de diversas histórias de FC. Quando dissemos que as máquinas vão controlar os seres humanos, como no filme Matrix, estamos escondendo, colocando um véu sobre a classe que controla as máquinas: a burguesia.

A burguesia nunca irá perder o controle sobre as máquinas. Isso é um engodo para temermos o domínio das máquinas, e não à exploração burguesa, algo similar ao subtítulo do Realismo Capitalista, de Mark Fisher, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.


O mesmo se diz quando se apela para a ideia de que os robôs irão se revoltar contra os seres humanos. Geralmente é um discurso contra a escravidão, como no conto O homem bicentenário e no game Detroit: become human. Escravos já foram meios de produção, sim. Mas máquinas não são pessoas. Na verdade, esse discurso esconde a exploração atual dos trabalhadores livres, parecendo que não há motivos para se rebelarem, mas as máquinas, por outro lado, sim, pois a exploração de verdade é quando se é escravo, quando se tem a liberdade tolhida, e não quando um trabalhador de plataforma que, supostamente, faz o seu próprio horário.

A ficção cinetífica está fazendo 100 anos. Após a definição de Hugo Gernsback em 1926 (“um romance cativante entremeado de fatos científicos e visão profética”), o gênero se consolidou. Essa data pode ser útil para discutirmos o projeto de poder de quem controla os principais dispositivos tecnológicos da atualidade.

Concordamos com a posição do professor Adam Roberts de que “a FC é mais bem definida como ficção tecnológica”. A tecnologia é o principal elemento na “retórica que evoca para justificar seu elemento fantástico”. Por isso que David Allen define ficção científica “pela presença de ‘engenhos’ produzidos pela tecnologia resultante de ciências extrapoladas”.

Isaac Asimov chamou o medo imaginário de que as máquinas possam superar os seres humanos de “complexo de Frankenstein”. “O êxito de Frankenstein foi tão grande que a ideia básica – ‘o homem cria o robô; o robô mata o homem’: – se repetiu sem parar numa série inacabável de histórias de ficção científica”.

Asimov acreditava que se entendermos inteligência como “a perspicácia, a intuição, a criatividade, a capacidade de analisar um problema como um todo e adivinhar a resposta pela ‘percepção’ da situação”, “os computadores são, decididamente, muito ignorantes”. Contudo, já em sua época, o neoliberalismo estava trabalhando para fundar uma nova episteme que iria impor um novo padrão de inteligência.

A professora Tatiana Roque mostra que, durante a Guerra Fria, “surgiu uma nova visão sobre ‘racionalidade’, diferente da própria ideia de ‘razão’. Foi nesse momento que se passou a conceber a racionalidade humana de modo similar aos algoritmos”. Surge o Homo economicus, “que decide em função de perdas e ganhos”.

Trata-se do que os liberais chamaram de “paradigma da escolha racional” no qual “o homem age por meio do cálculo entre custo e benefício”. Ser inteligente passou a ser saber investir o mínimo possível para se conseguir o maior ganho. Isso é ser lógico e racional. Ser inteligente é tomar decisões a partir dessa lógica, semelhante ao modelo econômico.

Durante a Guerra Fria, vivia-se a iminência de uma guerra que ninguém jamais havia lutado: a guerra nuclear. Um pânico se instalou no mundo. Era, portanto, “preciso desenvolver métodos sistemáticos para lidar com incertezas”. Assim, a computação ganha espaço mediante as pesquisas operacionais que exploravam “técnicas para simular decisões a partir de dados e prospecção de cenários”. “Tarefas complexas, antes atribuídas a pessoas experientes e hábeis, com virtudes para julgar e avaliar cenários de modo original, eram reduzidas a sequências de passos automatizados”. A nova concepção de racionalidade jogava a autoridade de tomar decisões nas mãos de uma máquina que poderia simular comportamentos e, a partir daí, tomar decisões. “Com base nesses pressupostos, bastante redutores, a racionalidade adquiria um aspecto algorítmico”.

Mas com o fim da corrida armamentista entre EUA e URSS, há uma queda de investimento na inteligência artificial. Alguns chamam de segundo inverno da IA. Mas a ideia de reduzir a inteligência humana ao princípio da escolha racional permaneceu como um projeto cultural do neoliberalismo, o que, ao longo dos anos, contribuirá para a ascensão atual das máquinas e aplicativos inteligentes. Tanto que, já em 1997, o professor da Emory University, Rammath Chellapa, “indicava que o futuro das tecnologias digitais estaria umbilicalmente ligado aos interesses da lucratividade das corporações”.

As classes dominantes perceberam que para implantar o neoliberalismo era necessário promover uma reforma cultural. Para tanto se empenhou em “estratégias culturais orientadas a reverter certa base de consenso e de legitimidade acerca da consideração do espaço público como um cenário aberto à negociação-luta por direitos individuais, coletivos e sociais”, substituindo tais premissas por um novo consenso, no qual incorpore “os valores de empresa, da competitividade, da mensurabilidade e do lucro”. O objetivo não é formar cidadãos interessados em conquistar e expandir seus direitos, mas construir a mentalidade de prosperidade individual por meio da competição e do investimento em si. As noções de igualdade, cidadania e direitos sociais devem ser substituídas por noções econômicas e tecnocráticas de eficácia, produtividade, eficiência e êxito pessoal.

Assim, o projeto cultural do neoliberalismo é a idiossubjetivação, “um processo de formatação de sujeitos que tem por objetivo a construção de indivíduos egoístas, incapazes de reconhecer a importância da coletividade e que negam a possibilidade de uma esfera comum, isto é, que diga respeito a todos”.

Com essa redução da inteligência humana à racionalidade instrumental, como não pensar que a máquina irá, de fato, substituir os seres humanos?

Dora Kaufman, partindo dos estudos de Roberto Lent, explica que tecnicamente estamos a anos-luz da possibilidade das máquinas se equipararem ao cérebro humano. Isso porque o ser humano possui 86 bilhões de neurônios, “considerando apenas os neurônios, como em média ocorrem 100 mil sinapses por neurônio, temos um total aproximado de 8,6 quatrilhões de circuitos que, ainda por cima, são plásticos, ou seja, mutáveis continuamente”. Só para termos uma noção, “o tempo de computação e análise utilizado por pesquisadores chineses para estudar as conexões de 135 mil neurônios de uma mosca foi de 10 anos, estimando-se em 17 milhões de anos o tempo necessário para o mesmo procedimento no cérebro humano”.

Outro ponto é levantado pelo neurocientista Antônio Damásio. Para ele, a inteligência humana não é fruto somente do cérebro, mas do corpo, das vísceras, responsáveis, em grande parte, pelos sentimentos. Centenas de milhares de decisões que tomamos ao longo da história tem como fonte os sentimentos. “Um sistema nervoso não forma uma mente por conta própria, e sim em cooperação com o resto de seu organismo”. Sendo assim um cérebro sem corpo é uma “inteligência” muito aquém do potencial humano.

Mas, a intenção dos donos dos meios de produção, hoje encastelados no Vale do Silício, os mesmos que orquestram o capitalismo de dados, não é substituir o ser humano pela máquina, mas nos tornar dependentes destas. A produção de idiotas é fundamental para o projeto lucrativo da classe dominante. O conhecimento não deve ser reflexivo, devemos admirar as respostas rápidas e objetivas, um formato que uma IA pode produzir com facilidade. Para Rubens Casara esta é “uma das mais importantes estratégias utilizadas no processo de idiossubjetivação”: a “simplificação excessiva”. “No lugar da reflexão bem-informada, a decisão rápida e acrítica passa a ser apresentada como algo positivo”. De modo que a “valorização econômica da ignorância” se relaciona “à demonização da educação, da cultura e do pensamento reflexivo” e “cada vez mais pessoas recorrem a uma linguagem empobrecida, bem como slogans argumentativos, frases feitas, jargões, análises superficiais”.

Não é que a máquina ficou mais inteligente, a inteligência humana que foi sendo reduzida a princípios que podem ser “algoritmizados”, por meio de um projeto cultural neoliberal (agora coordenado pelas Big Techs), para que fosse possível nos satisfazer com o que uma inteligência artificial é capaz de produzir.

Ou seja, o complexo de Frankenstein ainda existe, principalmente nos filmes e livros de ficção científica, mas, não faz parte dos planos das elites econômicas substituir os seres humanos por máquinas. O objetivo é a idiossubjetivação para a formação de seres dependentes das parafernálias tecnológicas. Assim como a Igreja Católica proibia a expansão do conhecimento em muitos aspectos para manter o seu domínio durante a Idade Média e Moderna, as Big Techs (e nesse aspecto concordamos com uma espécie de tecnofeudalismo) precarizam o saber, atacam a reflexão e a educação pública, para manter a sua hegemonia. A Igreja dominava dentro de uma mentalidade que fazia sentido para os membros de diversos grupos sociais, assim como o fazem as Big Techs atualmente, no bojo da reforma cultural empreendida para a consolidação do neoliberalismo.

A relação entre o ideário neoliberal de individualização e a consolidação de uma plataformização da sociedade, foi bem observada por André Luiz Pires Pelliccione. O Estado deve ser mínimo, de modo que as ofertas de serviços e as soluções devem vir do mercado. Essas são “as condições para que as grandes plataformas da atualidade funcionem”, oferecendo serviços até mesmo de saúde, autoajuda e trabalho.

Se nos inspirarmos em Mark Fisher podemos chegar à conclusão de que tudo faz parte do realismo capitalista. Aceitamos um imenso sistema de recomendação que nos diz como perder peso, como decorar a casa, mas nenhum sugere que devemos aprimorarmo-nos culturalmente, porque, convenientemente, “exigir qualquer tipo de aperfeiçoamento cultural é ser opressivo e elitista”.

Nesse mundo controlado pelas Big Techs, forjado com o auxílio das premissas ideológicas neoliberais, os indivíduos não lutam por novas formas de contrato social. A alucinação de uma liberdade sem limites, fornecida pela internet, deu ao indivíduo a suposta capacidade de viver sem um Estado que lhe garanta direitos. “A participação consensual nos valores nos quais a autoridade legítima é derivada, justamente com o livre-arbítrio e os direitos e obrigações recíprocos, é substituída pelo equivalente universal da tornozeleira eletrônica do prisioneiro”. É o que Shoshana Zuboff chamou de Big Other, isto é, “o poder soberano de um futuro próximo que aniquila a liberdade alcançada pelo Estado de direito”.

E como essa tornozeleira eletrônica funciona? Silveira e Avelino mostram que nos anos 2000 já se alertava “que a entrega de arquivos e dados para as corporações que mantém os servidores de nuvem tornaria as pessoas mais dependentes das grandes corporações”. Portanto, o projeto de dominação do capital no século XXI, não é a substituição dos seres humanos pelas máquinas, mas a nossa dependência em relação às corporações.

Lógico que a IA pode ser usada para fins positivos. Mas há uma tarefa urgente, alertada por Morozov: “a de imaginar um mundo altamente tecnológico […] livre da influência perniciosa das Big Techs”. Isso só será possível com o domínio popular dos meios de produção, seguido de uma mudança estrutural na concepção de inteligência. Esta deve ser baseada no senso de solidariedade e de bem comum. Somente assim poderemos usar a tecnologia para benefício humano, não mais para ampliar a margem de lucro.
Raphael Silva Fagundes

Uso inédito de IA e drones torna guerra contra o Irã imprevisível

Um funcionário da Casa Branca afirmou que, ao escolher o nome, Trump estava menos focado na raiva do que na força americana. O funcionário, que falou sob condição de anonimato para descrever o pensamento do presidente, disse que o republicano acredita que foi eleito com a promessa de restaurar a posição do país no cenário mundial e que o nome da operação militar contra o Irã reflete isso.

Por gerações, os nomes das operações militares foram escolhidos de forma um tanto aleatória. Mas, durante a Guerra da Coreia, o Tenente-General Matthew Ridgway tentou fortalecer suas tropas desmoralizadas dando nomes agressivos às operações, incluindo Thunderbolt (Raio), Killer (Assassino), Courageous (Corajoso) e Audacious (Audacioso), como Gregory C. Sieminski relatou em um artigo de 1995 publicado no periódico do Army War College. Os nomes das operações muitas vezes refletiram poder, como Rolling Thunder (Trovão Rolante), a campanha de bombardeio durante a Guerra do Vietnã.


Após o Vietnã, o Pentágono criou um sistema computadorizado chamado Sistema de Palavras-Código, Apelidos e Termos de Exercício (NICKA, na sigla em inglês) para registrar os nomes das operações e ajudar os comandantes a evitar repetições. Mas, para grandes ofensivas, as sensibilidades políticas tornaram-se cada vez mais importantes a partir de 1989, quando George H.W. Bush invadiu o Panamá.

O General James J. Lindsay, comandante das Forças Especiais, opôs-se ao nome original daquela invasão, Operação Colher Azul. "Vocês querem que seus netos digam que vocês estiveram na Colher Azul?", perguntou ele. Outro general sugeriu Ação Justa, que se tornou Causa Justa. A maioria dos nomes de operações desde então tentou, de forma semelhante, projetar virtude. Até mesmo a incursão de Trump na Venezuela, em janeiro, foi chamada de Operação Resolução Absoluta.

Pelo menos uma operação anterior usou a palavra "fúria". A invasão de Granada por Ronald Reagan, em 1983, foi chamada de Operação Fúria Urgente, mas acabou sendo criticada por soar muito raivosa e beligerante, em vez de inspiradora. O perigo de usar Fúria Épica, como qualquer consultor político poderia ter alertado a Casa Branca, é que, se a guerra não for percebida como um sucesso, ela poderá facilmente ser ridicularizada como Operação Fracasso Épico.

Mas Trump gosta do som visceral e "machosfera" de "Fúria Épica", muito parecido com a Operação Martelo da Meia-Noite, seu ataque aéreo ao Irã no ano passado. Seu governo adotou nomes igualmente carregados de testosterona para operações domésticas, incluindo batidas policiais contra imigrantes na Flórida (Operação Saco de Lixo) e no Maine (Operação Captura do Dia).

Ele destacou a nomenclatura da guerra com o Irã no comício no Kentucky na semana passada como se estivesse lançando sua mais recente campanha de marketing. "Operação Fúria Épica!", proclamou. "É um bom nome?". "Bem", admitiu, "só é bom se você ganhar." Então, em vez de arriscar e esperar, ele simplesmente declarou vitória. "E nós ganhamos. Deixe-me dizer a vocês, nós ganhamos."

Sonhando no Terceiro Reich

Quem nunca teve a maravilhosa sensação de a vida colocar o livro certo em nossas mãos quando estávamos procurando outra coisa? Aconteceu comigo novamente no mês passado em Buenos Aires, quando eu procurava um romance de Clarice Lispector e encontrei “O Terceiro Reich dos Sonhos”, de Charlotte Beradt, um projeto tão surpreendente que a princípio pensei ser pura ficção, realizado por uma jornalista alemã durante os anos de consolidação do nazismo (1933-39).


Naquela Alemanha que deslizava perigosamente rumo ao fascismo (de uma forma não muito diferente da nossa atual, que caminha para um novo totalitarismo), Beradt teve uma intuição: que os sonhos das pessoas comuns continham a chave para a compreensão de sua época. Assim, ele decidiu criar um vasto arquivo de sonhos que funcionasse como uma radiografia de sua era. Ele queria saber até que ponto todas aquelas leis raciais, a vigilância rigorosa, as violações de privacidade e o clima de medo generalizado também haviam invadido o subconsciente das pessoas. O arquivo de sonhos de Beradt era mais do que uma mera curiosidade psíquica; era uma tentativa desesperada de compreender seu tempo, quando as ferramentas para essa compreensão já haviam se tornado obsoletas.

Durante vários dias li o livro de Beradt, profundamente comovido, não só pelo seu valor histórico, mas também pela sua semelhança com muitos dos nossos sentimentos contemporâneos. Pareceu-me que, para além do medo previsível dos abusos do Estado, todos aqueles sonhos de pessoas comuns partilhavam com os meus próprios sonhos uma qualidade muito perturbadora que eu não conseguia descrever, até que, de repente, li um sonho que me atingiu como um soco no estômago. Era o sonho de um empresário de origem judaica. Na vida real, este empresário sentia uma clara aversão a fazer a saudação nazi, mas no seu sonho acontece algo horrível: ele está na sua pequena fábrica quando, de repente, recebe a visita do próprio Goebbels, que o obriga a fazer a saudação nazi para sobreviver. O que se segue é um pesadelo; depois de um enorme esforço para levantar o braço, ele não consegue mais abaixá-lo. O seu braço permanece para sempre preso naquele gesto enganoso.

Ao ler aquele pesadelo, senti uma onda de emoção porque algo semelhante ao medo do empreendedor residia em mim: o medo de fazer, por frivolidade ou por sobrevivência, um gesto enganoso do qual eu não pudesse me recuperar depois. Além disso, pensei que o pior aspecto de viver totalmente imerso em uma estrutura de mentiras em todos os níveis — político, institucional e emocional — como a que caracteriza este mundo pré-totalitário, é precisamente o fato de nos forçar a comunicar por meio de estruturas que nos obrigam a praticar atos enganosos. Não se trata simplesmente de políticos mentirem, por exemplo, mas de mentirem sabendo que seus ouvintes consideram a mentira como certa e até contam com ela; que a mentira não é um acidente ou uma fraqueza, mas uma condição necessária para a compreensão do discurso. É uma mentira estrutural semelhante à das redes sociais quando postamos fotos (embelezadas, editadas ou parcialmente verdadeiras, o que nada mais é do que outra forma de falsidade) para criar a ficção de uma identidade para pessoas que também estão cientes de sua falácia e que fazem o mesmo com suas próprias vidas. O perigo de aceitarmos a inautenticidade de todos os nossos sistemas de comunicação como algo natural não reside tanto na normalização de uma consciência cínica da realidade, mas sim no fato de que, quando quisermos ser sinceros, não conseguiremos mais sê-lo. Não se trata tanto de a falsidade ter usurpado a verdade, mas sim de a falsidade ser agora a nossa verdade. Esse era o sonho do empresário alemão, compreendi de repente, e por isso ele não conseguia desistir dele. E também me lembrei de uma história sobre uma camponesa asturiana que me fascinou certa vez, sobre uma mulher muito simples que, para não magoar a irmã, que tinha saúde frágil, começou a fingir-se de manca desde muito jovem e que, quando a irmã morreu quarenta anos depois, já não conseguia andar normalmente: a sua fingida manca era mais real do que a verdade.

Em sua monumental *Crítica da Razão Cínica *, o filósofo alemão Peter Sloterdijk alertou astutamente que o cinismo estrutural era um sistema de proteção contra a ascensão do totalitarismo, uma forma de dissidência no pensamento. Mas ninguém escapa ileso de gestos inautênticos. Aqueles que fingem indignação que não sentem, que constroem sua identidade fingindo serem mais felizes do que são, que fingem ser vítimas quando não o são, que fingem se ofender com uma piada e forçam o comediante a se desculpar para evitar o cancelamento, que ameaçam provocar uma guerra para que outros a precipitem — esses não estão tentando “esconder” uma verdade com uma mentira, mas sim criar uma nova realidade.

O cinismo, mais do que uma transcendência da realidade por meio da inteligência, é a manifestação da angústia que sentimos por não sermos capazes de aceitar a realidade. Ser cínico não é sinal de inteligência, mas uma demonstração de fraqueza e fragilidade. Descobrimos isso na primeira vez em que fomos encurralados por um valentão na escola, mas às vezes parece que ainda não entendemos completamente.

Agonia lenta: Cuba, de apagão em apagão

Em menos de uma semana, os cubanos estão vivenciando seu segundo apagão total .

Neste sábado, 21 de março, as luzes se apagaram depois das 18h30, e um murmúrio de descontentamento varreu a cidade. Sem eletricidade, o cotidiano se torna mais complicado em um país onde todos parecem ter entrado em modo de sobrevivência.

Assim que a energia acaba, começa a corrida para salvar alimentos refrigerados e armazenar água, enquanto todo o país aguarda o restabelecimento do Sistema Nacional de Energia.

A situação piorou após a queda de Maduro.


Nossas vidas se tornaram ciclos de luz e escuridão. O mau estado das usinas termelétricas e a deterioração da rede de distribuição foram agravados pela ausência quase completa de remessas de combustível para o país por mais de dois meses.

Após a prisão de Nicolás Maduro , o fluxo de petróleo bruto venezuelano foi interrompido, e a situação piorou ainda mais quando Donald Trump assinou uma ordem executiva ameaçando impor tarifas aos países que vendem petróleo para Cuba. Mas o colapso que estamos vivenciando hoje já vinha se gestando há décadas.

A falta de investimento no setor energético resultou em usinas obsoletas, peças de reposição que não chegam e manutenção que é adiada repetidamente.

Durante anos, a vida útil de instalações que já haviam chegado ao fim de sua vida útil foi prolongada, com base na expectativa de que o combustível continuaria a chegar em abundância de Caracas e que a demanda não cresceria na taxa atual. Hoje, essa combinação de desgaste técnico e escassez de recursos finalmente cobrou seu preço.

A indignação está crescendo.

Nos bairros, o apagão nacional parece uma surpresa a princípio, mas depois se torna rotina. As pessoas saem para suas varandas com os celulares em mãos, tentando confirmar se é uma queda de energia local ou um apagão geral. Quando alguém consegue sinal, a notícia se espalha rapidamente: o país inteiro está às escuras novamente. Então, a resignação toma conta. Velas são acesas, lanternas são procuradas, fogueiras improvisadas são feitas e a noite se reorganiza.

Os moradores mais antigos lembram-se dos anos difíceis do Período Especial e dizem que, pelo menos, naquela época havia uma explicação clara. Hoje, a incerteza pesa mais do que a falta de energia. Ninguém sabe quanto tempo o apagão vai durar ou quando virá o próximo. As autoridades anunciam esforços e prometem soluções, mas, na prática, o sistema elétrico continua a operar no limite, sustentado por soluções improvisadas e seus trabalhadores exaustos.

Enquanto isso, a vida doméstica sofre mais um golpe. Sem eletricidade, as bombas d'água param, os comércios fecham, os alimentos estragam e as despesas se multiplicam. Cada apagão deixa uma conta invisível se acumulando nas casas: comida estragada, eletrodomésticos danificados e horas de trabalho perdidas. À noite, os protestos com panelas e frigideiras estão se tornando mais frequentes e a indignação pública está crescendo.

Assim, em meio à escuridão e à espera, o país tateia seu caminho adiante. Nós, cubanos, aprendemos a viver em sintonia com o som de um ventilador ligando novamente ou de uma lâmpada acendendo de repente. Esse breve e frágil momento se tornou o sinal de que algo parecido com a normalidade, mesmo que por apenas algumas horas, retornou.

Com 'Fúria Épica', Trump dá nome a uma guerra e define sua Presidência

Segundo o próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ele foi convidado a escolher pessoalmente o nome da operação militar americana contra o Irã e ficou entediado com todas as opções apresentadas. "Me deram uns 20 nomes, e eu estava quase dormindo", disse ele na semana passada. "Não gostei de nenhum." Então, finalmente, ofereceram-lhe outra opção: Operação Fúria Épica. Isso o despertou. "Gostei desse nome", disse ele a seus apoiadores em um comício no Kentucky. "Gostei desse nome." E assim foi escolhido.

Afinal, Fúria Épica captura a essência da Presidência de Trump. Tudo o que o líder republicano faz, pelo menos na sua perspectiva, é épico — o maior, o mais grandioso, o inédito, "como nunca vimos antes", como ele gosta de dizer. E muito do que ele faz parece ser impulsionado pela fúria, uma inimizade profunda e persistente contra as forças que se opõem a ele ou contra aqueles que ele culpa pelo que considera a decadência do país sob outros presidentes.


Operação Fúria Épica, portanto, é uma escolha tipicamente trumpista para o nome de uma guerra. Para ele, não seria uma Operação Causa Justa (Panamá), Operação Restaurar a Esperança (Somália), Operação Defender a Democracia (Haiti) ou Operação Liberdade Duradoura (Afeganistão). Enquanto outros nomes de operações militares em tempos modernos evocaram valores americanos mais amplos ou sentimentos inspiradores como liberdade e esperança, Trump prefere a fúria.

Esta é, de certa forma, a Presidência da Raiva. A raiva define a década de Trump no cenário político. Raiva de estrangeiros que vêm a este país e mudam sua natureza. Raiva de aliados que se aproveitam dos EUA. Raiva de democratas que o contrariam. Raiva de republicanos que o contrariam. Raiva de nomeados que ele considera insuficientemente leais. Raiva de promotores, agentes do FBI, juízes, jornalistas, escritórios de advocacia, universidades de elite, figuras culturais, líderes corporativos, institutos de pesquisa, banqueiros centrais e do Comitê Norueguês do Nobel.

Seus discursos em comícios, coletivas de imprensa e publicações em redes sociais são permeados de raiva. Na última semana, ele atacou as “pessoas verdadeiramente doentes e dementes” na mídia, os “Democratas da Esquerda Radical”, o governador da Califórnia, um “desastre cognitivo”, um congressista republicano do Kentucky, um “desastre completo e total”, e um professor “desajustado” de Harvard, sem nem mencionar os “canalhas desvairados” no Irã.

Remoendo as recentes derrotas judiciais, ele passou a noite de domingo publicando uma série de discursos desconexos atacando a Suprema Corte "completamente inepta e vergonhosa", o ex-conselheiro especial "desequilibrado", o presidente "absolutamente terrível" do Federal Reserve (o Banco Central americano), o ex-presidente "grosseiramente incompetente" Joe Biden, jornalistas que "deveriam ser processados ​​por traição" e um "juiz maluco, desagradável, corrupto e totalmente fora de controle" que decidiu contra ele.

Ele também despertou muita raiva em outros, uma ira intensa e visceral contra um líder que muitos do outro lado do espectro político desprezam e temem. A palavra mais usada pelos democratas para descrever suas emoções sobre a Presidência de Trump em uma pesquisa de janeiro do New York Times e do Siena College foi "raiva". Os independentes ofereceram a mesma palavra juntamente com "decepção". Trump e seus aliados acusam regularmente os oponentes de sofrerem do que chamam de Síndrome de Transtorno de Trump.

Tudo isso, é claro, intensificou ainda mais uma era de política baseada na fúria ao volante. Trump não inaugurou a polarização que se aprofundou nos Estados Unidos nos últimos anos, mas ele a explorou e a alimentou. Mais do que em qualquer outro momento nos últimos anos, os americanos se enxergam através das lentes da política e das diferenças tribais, liderados por um presidente que incentiva isso em vez de tentar sanar as divisões.

Os americanos estão tão irritados que muitos não querem mais se associar a pessoas que discordam deles. Em 1960, pesquisadores perguntaram aos americanos se eles se incomodariam se seus filhos se casassem com alguém do partido oposto. Apenas cerca de 5% responderam que sim. Em 2024, esse número subiu para 38% entre os republicanos e 45% entre os democratas. Estudos mostram que os americanos estão cada vez mais se reunindo em seus próprios espaços geográficos, midiáticos e online, onde podem se associar a compatriotas que pensam como eles e se revoltar contra aqueles que veem o mundo de maneira diferente.

Trump não é o primeiro presidente com um temperamento explosivo. Até mesmo o afável Dwight Eisenhower era conhecido por ser irritadiço em privado. Os acessos de raiva de Lyndon B. Johnson eram de proporções épicas. Richard Nixon parecia estar sempre à beira de um colapso durante a maior parte de seus quase seis anos no cargo. Bill Clinton, conhecido por sua simpatia em aparições públicas, era famoso entre seus assessores pelo que chamavam de seus "ataques de fúria" contra sua equipe quando as câmeras estavam desligadas. Na privacidade da Ala Oeste, o jeito paternal e afável de Joe Biden podia se transformar em mau humor e irritação.

Mas eles raramente mostravam esse lado em público, se pudessem evitar. A disparidade entre a compostura pública e a irritação privada foi satirizada por Barack Obama no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em 2015, quando ele apareceu com Luther, o tradutor da raiva, interpretado por Keegan-Michael Key. Do palco, Obama, um autoproclamado "cara tranquilo", proferia algum comentário tipicamente insosso, e Luther o "traduzia" na diatribe raivosa que o presidente gostaria de poder dizer em voz alta.

Trump, em comparação, não se esquiva de diatribes. Ele abraça a raiva como parte de sua persona. Sua pose favorita para fotógrafos não é um sorriso, mas uma carranca. "Como está a aparência?", ele às vezes pergunta aos assessores após uma sessão de fotos. Toda a sua estratégia durante os 14 anos de reality shows foi celebrar suas eliminações humilhantes ao final de cada episódio, com o grito de "Você está demitido!". De fato, depois de atacar Volodymyr Zelensky, o presidente pressionado de uma Ucrânia pressionada, no Salão Oval no ano passado, Trump observou com satisfação que "isso vai ser ótimo para a televisão".

Demonstrações públicas de raiva também se tornaram padrão para sua equipe. As coletivas de imprensa de Pete Hegseth, apresentador da Fox News que se tornou secretário de Defesa, durante períodos de guerra, transformaram-se em exercícios de combate às "notícias falsas". Jeanine Pirro, outra ex-apresentadora da Fox News que agora atua como procuradora federal, atacou na sexta-feira um repórter cuja pergunta ela não gostou. "Pare com isso!", disparou ela.

A Procuradora-Geral Pam Bondi comparece às audiências no Congresso como se estivesse pronta para um confronto de gladiadores, com direito a pesquisas de opinião sobre os parlamentares e insultos infantis para usar. "Hipócrita", ela repreendeu um. "Advogado fracassado e perdedor", alfinetou outro.

E os funcionários da Casa Branca, usando relatos oficiais do governo, parecem estar numa competição acirrada para ver quem é o mais desagradável a cada dia, repreendendo qualquer um que considerem um adversário: "Incompetente e perdedor". "Errou de novo, idiota". "Uma desculpa triste e patética de ser humano". "Um babaca arrogante". "Um mentiroso e fraudador notório". E isso foi só de um deles, em apenas uma semana.

Para uma operação militar, "Fúria Épica" soa como um videogame, o que pode ser apropriado, já que é assim que a Casa Branca de Trump está promovendo essa guerra. Vídeos online divulgados pelo governo retratam o ataque ao Irã como se fosse o último lançamento de "Call of Duty".
Peter Baker