domingo, 3 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 

Nova obra de Banksy

Trump diminui pressão sobre o Irã ao declarar ao Congresso que guerra está ‘terminada’

A guerra contra o Irã colocou os EUA em contato com as limitações da superioridade militar. A nova realidade da guerra naval, com o emprego de drones marítimos, o fator geoeconômico e o controle exercido pela democracia desempenham papéis decisivos no curso dessa disputa.

Uma lei de 1973 obriga os presidentes americanos a consultar o Congresso sobre a continuidade de uma guerra no máximo 60 dias depois de seu início.

Esse prazo expirou na sexta-feira. Como não pediu aprovação do Congresso, Donald Trump foi obrigado a declarar que a guerra no Irã “está terminada”.

Isso retira do presidente um fator de pressão sobre o Irã nas negociações, que ele tenta exercer ameaçando voltar a atacar com força avassaladora.


As eleições de meio de mandato de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara e um terço do Senado, pressionam Trump a contornar os problemas econômicos e políticos que a guerra criou. O emprego de forças terrestres, que ajudaria na desobstrução do Estreito de Ormuz, seria politicamente destrutivo para Trump.

Já o regime iraniano está condicionado a ignorar a opinião do povo. O bloqueio naval americano deteriora a qualidade de vida dos iranianos, e isso impacta o regime negativamente, mas ele não tem um calendário eleitoral com que se preocupar. O intenso contrabando no Estreito de Ormuz não neutraliza essa asfixia, mas suaviza um pouco.

O repórter Adrian Blomfield, do jornal inglês The Telegraph, percorreu o estreito em uma lancha, e contou cerca de 300 barcos por dia, transportando combustível para Omã e produtos de primeira necessidade para o Irã. Há também os barcos de pesca. Misturam-se nesse trânsito as lanchas rápidas da Guarda Revolucionária Islâmica, capazes de disparar mísseis e lançar minas marítimas.

Uma espessa névoa cobre constantemente o estreito, por causa do calor e das costas escarpadas, que retêm a umidade. A água tem uma qualidade opalescente, que muda sua cor conforme reflete a luz. Tudo isso dificulta as atividades de reconhecimento aéreo pelos aviões e drones inimigos.

E há a contundência da guerra assimétrica no mar. Mesmo sob bloqueio naval e depois de perder boa parte de sua marinha, a Ucrânia foi capaz de destruir um terço da frota russa e rechaçar o restante no Mar Negro, com uso de drones aéreos e marítimos, mísseis e minas aderentes.

“É difícil vê-los e ainda mais difícil detê-los”, disse ao repórter um funcionário de defesa ocidental, referindo-se aos iranianos. “No momento, a melhor solução para desobstruir o estreito é a diplomacia.”

Um lapso canhestro de linguagem

Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.


A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.

No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.

Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.

Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.

Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.

O direito ao delírio

Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?

No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.

Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.

Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.

A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.

A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.

A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.

E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.
Eduardo Galeano

A ilusão da cavalaria e a realidade de Ormuz

Há uma cena em Lawrence da Arábia em que T. E. Lawrence percebe que a promessa de libertação feita às populações árabes não passava de um instrumento tático, uma ficção conveniente num jogo maior. A ilusão desfaz-se não com um estrondo, mas com um silêncio. Não há revolução, não há redenção, apenas a consciência tardia de que alguém falou em nome deles sem nunca ter querido ouvi-los. O Irão de hoje vive nesse mesmo espaço, entre a promessa e o abandono, entre a expectativa criada e a realidade que nunca chegou a cumprir-se.

Nas primeiras horas do conflito, Donald Trump e Benjamin Netanyahu desenharam uma narrativa tão simples quanto eficaz. Bastaria resistir. Bastaria aguentar mais um pouco. A cavalaria estaria a caminho e, com ela, a possibilidade de o povo iraniano tomar o poder pelas suas próprias mãos. Não se tratava de um compromisso com a democracia, mas de uma promessa de rutura, de substituição de um regime que há décadas se sustenta na repressão, na teocracia e na violência institucionalizada.

Mais de 40 mil mortos depois, e perante uma guerra que rapidamente escapou ao guião de Washington, essa promessa evaporou-se. Não houve correção de discurso, nem revisão estratégica, nem sequer um esforço para explicar o desfasamento entre o que foi dito e o que aconteceu. A mudança de regime, que durante dias foi apresentada como horizonte plausível, deixou simplesmente de existir como tema. O conflito deslocou-se para outros eixos, e o povo iraniano voltou a ocupar o lugar habitual na geopolítica contemporânea, o de elemento secundário numa equação definida por outros, sacrificável na narrativa e descartável na estratégia.


Durante um breve momento, tentou-se dar forma a essa promessa através de um rosto. Reza Pahlavi surgiu como símbolo de uma alternativa possível, uma figura capaz de corporizar uma transição que nunca chegou a materializar-se. A sua projeção mediática foi rápida, quase artificial, sustentada mais por necessidade externa do que por capacidade interna. Tal como aconteceu noutros contextos, a tentativa de fabricar uma liderança a partir do exterior revelou-se estruturalmente frágil. O Irão não oferece o terreno político nem social para soluções importadas, e a figura que durante dias concentrou expectativas acabou por ser descartada sem sequer ter tido a oportunidade de se confrontar com a realidade interna do país.

O problema nunca foi a ausência total de oposição, mas a sua fragmentação, a sua distância do território e a incapacidade de se transformar numa força politicamente operativa. Ao contrário do que muitos quiseram acreditar, o colapso de um regime não se produz por vontade externa nem por desejo mediático. Exige uma erosão interna sustentada, fissuras institucionais profundas e, sobretudo, a existência de uma alternativa credível capaz de ocupar o vazio. Nada disso, até ao momento, se consolidou no Irão.

O que começa verdadeiramente a ganhar relevância não é a queda do regime, mas as tensões dentro dele. Seyed Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros e figura central nas recentes conversações em Islamabad, representa uma linha que, ainda que distante de qualquer noção de moderação no sentido ocidental, revela uma consciência estratégica dos limites do confronto direto com os EUA e os seus aliados. Do outro lado, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e antigo comandante da Guarda Revolucionária, encarna uma visão mais ideológica, mais securitária e menos disponível para qualquer forma de compromisso que não passe pela demonstração de força.

Esta clivagem não é apenas retórica. Traduz uma disputa sobre a própria natureza da sobrevivência do regime. Para a ala mais pragmática, a prioridade é evitar um confronto que possa comprometer a estabilidade interna e expor fragilidades estruturais. Para a linha dura, pelo contrário, a sobrevivência passa pela escalada controlada, pela capacidade de impor custos ao adversário e pela demonstração de que o Irão continua a ser um ator capaz de moldar o sistema internacional, mesmo sem superioridade militar convencional.

É neste enquadramento que o estreito de Ormuz assume uma centralidade absoluta. A guerra deixou de ser definida pela questão nuclear, pelos mísseis balísticos ou pela ativação dos tradicionais proxies regionais. A verdadeira capacidade de projeção estratégica do Irão reside hoje na possibilidade de perturbar, condicionar ou, no limite, bloquear um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa uma parte significativa do abastecimento global de petróleo e gás.

Ao deslocar o conflito para Ormuz, Teerão altera a natureza da guerra. Deixa de procurar uma vitória militar clássica e passa a operar numa lógica de disrupção sistémica. O objetivo não é derrotar diretamente os EUA ou Israel, mas tornar o custo da estabilidade global suficientemente elevado para forçar uma reconfiguração das prioridades internacionais. Ao ameaçar o fluxo energético, o Irão transforma um conflito regional num problema global, envolvendo economias, mercados e governos que, de outra forma, poderiam manter-se à margem.

Esta estratégia, muitas vezes descrita como assimétrica, é, na realidade, profundamente racional. Para um regime que conhece os limites da sua capacidade militar convencional, a utilização de um ponto de estrangulamento económico como Ormuz representa uma forma eficaz de compensar essa desvantagem. É a transformação da geografia em poder, do território em instrumento político.

No meio desta reconfiguração, o povo iraniano volta a desaparecer do centro da narrativa. Não porque não exista contestação, mas porque essa contestação permanece incapaz de se traduzir em poder político efetivo. As promessas externas falharam, as alternativas internas não se consolidaram e o regime, apesar das suas tensões e divergências, mantém-se funcional, adaptando-se mais uma vez à pressão sem ceder na sua essência.

Talvez seja essa a dimensão mais incómoda desta crise. A política internacional continua a produzir expectativas que não pretende cumprir. Fala-se de libertação como se fosse uma variável estratégica, promete-se mudança como se fosse um instrumento operacional. Mas a realidade é mais crua. Os povos raramente são libertados por quem projeta poder sobre eles, e as promessas feitas em tempo de guerra raramente sobrevivem à lógica fria dos interesses.

No fim, o que fica não é apenas a destruição ou o cálculo geopolítico. Fica a memória de uma promessa. E a consciência, cada vez mais clara, de que, mais uma vez, alguém acreditou que a cavalaria viria. E, mais uma vez, ela nunca chegou. 

Quando as vozes de Exílio e Sobrevivência nos alcançam

Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.


Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?

Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.



Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas, partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.

Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?

Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.

Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.

Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.

Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.

Projeto 'Grande Israel': Assentamentos em terras roubadas com recursos roubados

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, descreveu o confronto com o Irã como uma ampla luta ideológica, afirmando que Israel e os Estados Unidos estão envolvidos em uma “batalha da civilização contra a barbárie”.

Suas declarações coincidiram com um relatório da ONU Mulheres que estimava que, até dezembro de 2025, mais de 38.000 mulheres e meninas haviam sido mortas em Gaza, sendo mais de 22.000 mulheres e 16.000 meninas. Esses números representam uma mudança drástica em relação às ofensivas anteriores em Gaza, onde mulheres e meninas representavam 15% das mortes em 2008-2009 e 22% em 2014.

Um ex-soldado israelense, entrevistado pelo Haaretz, descreveu seu retorno de Gaza sob aclamação pública como um "herói", mesmo enquanto lutava contra um profundo trauma moral. Seu depoimento relata o assassinato de palestinos desarmados, os maus-tratos a detidos e uma cultura generalizada de impunidade que normalizava o uso excessivo da força e a humilhação. O abismo entre a celebração pública e a violência que testemunhou o fez sentir-se monstruoso em vez de heróico, revelando as fraturas psicológicas e éticas produzidas pela conduta militar de Israel.

Ao mesmo tempo, as autoridades militares israelenses intensificaram a destruição de terras agrícolas em toda a Cisjordânia. Uma ordem emitida para Kufr Malik, a leste de Ramallah, autorizou o exército a arrancar vegetação, incluindo oliveiras centenárias, sob o pretexto de “segurança e visibilidade”. A ordem entrou em vigor imediatamente, dando aos proprietários de terras apenas 24 horas para apresentar objeções por meio da Diretoria de Ligação e Coordenação. Ao sul de Nablus, sua implementação resultou no arrancamento de mais de 150 oliveiras.

Em alguns casos, os proprietários de terras palestinos chegaram a pedir para arrancar as árvores eles mesmos, numa tentativa de minimizar os danos. O exército rejeita rotineiramente esses pedidos. Os palestinos suspeitam que as árvores arrancadas acabam sendo transferidas para assentamentos israelenses.


Em 21 de abril, colonos israelenses invadiram a vila de Al-Mughayyir durante as provas escolares, atirando em direção às salas de aula e matando Aws Hamdi al-Naasan, de 14 anos, e Jihad Marzouq Abu Naim, de 32 anos. Testemunhas descreveram estudantes caindo no chão quando as balas atingiram o prédio. Moradores disseram que soldados acompanharam os colonos, contradizendo a alegação do exército israelense de que as tropas chegaram somente depois que civis abriram fogo após um suposto incidente com pedras.

Naquele mesmo dia, Mohammad Ali al-Jabari, de dezesseis anos, foi morto perto de Hebron quando um veículo da escolta de segurança da ministra israelense dos Assentamentos, Orit Strook, o atropelou enquanto ele atravessava a Rodovia 60 de bicicleta, a caminho da escola. A estrada, fechada para palestinos desde a guerra em Gaza, obriga os estudantes a enfrentar um tráfego rápido e imprevisível.

Também em 21 de abril, Ouda Atef Ouda Awawda, de 29 anos, pai de gêmeas recém-nascidas, morreu após ser baleado pelas costas durante um ataque de colonos a Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Colonos armados, acompanhados por forças israelenses, abriram fogo contra moradores e casas nos arredores da cidade. As forças israelenses então bloquearam a entrada principal e realizaram prisões em massa, detendo cerca de 30 pessoas.

Em 22 de abril, um ataque aéreo israelense no norte da Faixa de Gaza matou cinco palestinos, incluindo três crianças. Outro ataque aéreo no mesmo dia matou a jornalista libanesa Amal Khalil e feriu um colega enquanto trabalhavam perto da fronteira com Israel, em um ataque que atingiu uma casa na cidade de al-Tiri.

A violência dos colonos na Área C tem assumido formas cada vez mais sexualizadas e direcionadas a questões de gênero , criando condições coercitivas que levam as comunidades palestinas ao deslocamento. Entrevistas e monitoramento de campo documentam assédio, ameaças de estupro, nudez forçada, humilhação sexual e invasões domiciliares.

Mulheres e meninas enfrentam perigos ainda maiores, enquanto homens e meninos também são submetidos a abusos sexuais e tratamentos degradantes, muitas vezes na presença de forças israelenses que não intervêm. Isso se soma às restrições de movimento, ao declínio econômico, às demolições de casas e à expansão dos assentamentos. Mais de 70% das famílias deslocadas citaram as ameaças a mulheres e crianças como o fator decisivo para o abandono do assentamento, evidenciando como a violência de gênero influencia as decisões sobre a permanência das famílias em suas terras.

O deslocamento transforma a vida cotidiana e o bem-estar da comunidade. As famílias restringem a liberdade de movimento das mulheres, enviam mulheres e crianças para longe em realocações parciais, dependem das crianças para tarefas arriscadas e, às vezes, arranjam casamentos precoces para afastar as meninas do perigo. Após a partida, as famílias frequentemente vivem em locais superlotados e inseguros, com serviços limitados. As mulheres perdem a renda ligada à terra e à criação de animais, enquanto as crianças sofrem traumas, têm sua educação interrompida e perdem espaços seguros. Os homens enfrentam riscos maiores de prisão, detenção e violência letal, agravando a tensão familiar. Essas pressões, em conjunto, contribuem para condições que configuram transferência forçada.

Embora as autoridades israelenses insistam em retratar o exército como "o exército mais moral do mundo", investigações e depoimentos também destacam saques generalizados cometidos por soldados israelenses. Relatos da Síria, Líbano, Gaza e Cisjordânia descrevem roubos de dinheiro, joias e dispositivos eletrônicos, com os itens roubados sendo posteriormente vendidos no Telegram, Facebook ou em mercados públicos. Amigos e parentes relatam que soldados levaram dinheiro durante invasões domiciliares ou em postos de controle; em um caso, uma família relatou o desaparecimento de dinheiro após uma busca, mas sua queixa foi ignorada.

Os colonos também estão envolvidos no saque de propriedades para construir colônias agrícolas em terras roubadas. Em 12 de fevereiro de 2025, colonos, protegidos pelo exército israelense, roubaram gado palestino na Cisjordânia, incluindo 800 ovelhas na vila de Deir Dibwan, a leste de Ramallah. Em Al Mughayyir, roubaram 170 ovelhas, assim como em outras vilas de Yabrud e Jifna, uma prática generalizada e rotineira.

Essas práticas remetem à Nakba, quando a Haganá e outras milícias sionistas destruíram, confiscaram e saquearam sistematicamente propriedades palestinas, incluindo casas, bibliotecas, arquivos e coleções pessoais. Unidades armadas também saquearam residências particulares, levando joias, móveis, roupas e outros pertences, enquanto ocupavam, expropriavam ou destruíam bens imóveis.

Soldados israelenses que serviram no Líbano disseram ao Haaretz que saques se tornaram rotina durante as operações na região, descrevendo unidades invadindo casas, roubando objetos de valor e vandalizando propriedades com o pleno conhecimento de seus comandantes. Os oficiais frequentemente ignoravam ou toleravam implicitamente os roubos, criando uma atmosfera na qual os soldados se sentiam à vontade para levar dinheiro, eletrônicos e pertences pessoais das casas dos expulsos. Alguns soldados disseram estar perturbados com a escala da má conduta e a indiferença dos altos escalões, observando que as queixas eram ignoradas ou recebidas com silêncio e impunidade.

Desde 2 de março, as operações militares israelenses no Líbano mataram mais de 2 mil pessoas, incluindo profissionais de saúde e jornalistas, e feriram outras 6.588. A escalada do conflito deslocou mais de um milhão de pessoas, aproximadamente um quinto da população do Líbano, com cerca de 140.682 abrigadas em instalações superlotadas.

O relatório do Yesh Din, Roubo Uniformizado (agosto de 2025), documenta o saque generalizado e sistemático de dinheiro e propriedades de palestinos por soldados e forças de segurança israelenses na Cisjordânia, uma prática definida como crime de guerra pelo direito internacional. Com base em mais de duas décadas de monitoramento e depoimentos de 2022 a 2024, o relatório mostra como o roubo se intensificou desde 7 de outubro, tornando-se algo comum durante invasões domiciliares e buscas em postos de controle, facilitadas pela lei militar que concede amplos poderes e impunidade às forças de segurança. Essas ações de roubo se inserem em um sistema mais amplo de desapropriação e expropriação de terras.

As declarações de autoridades israelenses também refletem ambições territoriais expansivas. Em entrevista à i24 em 12 de agosto de 2025, Netanyahu descreveu-se como estando em uma “missão histórica e espiritual”, expressando apego à visão de um Grande Israel que se estenda além das fronteiras atuais. Outras autoridades, incluindo o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, fizeram coro com aspirações semelhantes.

Essas ambições também são visíveis na Palestina histórica. Em 7 de novembro de 2025, Ben Gvir supervisionou pessoalmente a demolição de casas palestinas no Naqab (Negev), alegando que haviam sido construídas sem licença. Ao ser confrontado por um morador, declarou : “Lentamente, mas com certeza, estamos retomando as terras do Negev”. A Autoridade Fundiária de Israel tem utilizado cada vez mais inteligência artificial e vigilância aérea para identificar o que considera “estruturas não autorizadas”, possibilitando ordens de demolição rápidas.

Em toda a região, Israel impôs novos regimes territoriais. No sul do Líbano, as forças israelenses estabeleceram uma "Linha Amarela" de 10 km de profundidade, apresentada como uma medida de segurança, mas acompanhada de demolições, bombardeios e ataques aéreos que, segundo críticos, consolidam o controle a longo prazo.

Em Gaza, uma “linha amarela” indefinida, imposta após o cessar-fogo de outubro de 2025, tornou-se um mecanismo para o deslocamento contínuo de pessoas. O chefe do Estado-Maior de Israel a descreveu como “uma nova linha de fronteira”, apesar de sua invisibilidade e da falta de demarcação clara. Israel permanece estacionado em mais de 58% da Faixa de Gaza, continuando os ataques ao longo dessa linha e impedindo que os palestinos deslocados retornem para suas casas.

Os saques, roubos, destruição e deslocamentos documentados devem ser compreendidos dentro da trajetória mais longa do projeto sionista, que estabeleceu um Estado em terras roubadas e propriedades apropriadas.

À medida que Israel expande seu alcance territorial por meio da expropriação de terras no Líbano, na Síria e em toda a Palestina histórica, o saque de casas e pertences torna-se não incidental, mas instrumental, mobiliando espaços recém-conquistados e reforçando um sistema construído sobre a desapropriação. Crimes de guerra não reconhecidos. Como em outros contextos de colonialismo de povoamento, a chamada missão civilizadora opera como um projeto de desapropriação e destruição da população indígena.

O que nos lembra a maior tragédia trabalhista do Brasil

Há datas que não se limitam à celebração, mas exigem elaboração. O 1º de maio, Dia do Trabalhador, é uma delas. Mais do que rememorar conquistas históricas dos trabalhadores, essa data nos provoca a interrogar as condições concretas em que as atividades profissionais se realizam hoje e, sobretudo, o quanto a perda de vidas ainda faz parte do funcionamento do nosso sistema produtivo e de consumo.

Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.

Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.

A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.

Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.

Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.


Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.

Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.

O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.

Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.

Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.

O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.

Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.

Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.