Embora com alguma lógica, foram açodados os ataques dirigidos à apresentadora televisiva que descreveu a diversidade da tripulação da missão Artemis 2 como "um homem, uma mulher e um negro". A frase é racista, claro, mas não aval automático desse mesmo julgamento a quem a enunciou. A ressalva pode soar como eufemismo acadêmico, mas o esclarecimento é oportuno quando se aborda o racismo no país sem a comodidade da pedra na mão. Açodamento é atitude apressada, irrefletida, que polariza sem dialogar.
A dificuldade deve-se à inquietante singularidade do racismo no Brasil. O sociólogo francês Gabriel Tarde observou em fins do século 19 que "cada civilização faz a sua raça" (ao invés de "a raça faz a civilização"). A modalidade brasileira é diferente da norte-americana, uma leucocracia com linha divisória entre claros e escuros a partir da "one drop rule", a regra de que uma gota de sangue imaginariamente "negro" faz emergir a separação racial, qualquer que seja a gradação cromática da pele. Aqui, não, o colorismo hierarquiza as tonalidades: quanto mais claro, mais aceitável. Ou negociável.
No interior da forma social escravista, que continua a existir desligada da materialidade da antiga estrutura escravista, o processo cognitivo é complexo. O abolicionista Joaquim Nabuco anteviu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil (...) ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância". A forma escravista é estruturante de modelagens conscientes ou subconscientes, visíveis ou invisíveis. As primeiras se traduzem em normas, as segundas aparecem em atos reflexos, que espelham a forma social. A reflexividade produz imagens instauradoras de um campo sensível, responsável pelas afecções discriminatórias.
Na imagem de mundo, síntese mais ampla do que o juízo verbal, incorporam-se representações e experiências, sujeitas a juízos de valor. A eles preside raça, categoria anacrônica e obscura, embora investida de poder de aplicação capaz de subsistir ao esvaziamento da noção original. Pode ressurgir ou manifestar-se em ocasiões inesperadas.
Um episódio particular: Em Paris, um pickpocket furta de um brasileiro um cartão de crédito. Mais tarde, um notório intelectual progressista conta que lhe aconteceu algo igual, mas teve na delegacia uma segunda experiência desagradável: fizeram-no esperar longo tempo sentado ao lado de "todos aqueles africanos". Subsumia-se que ser africano equivaleria ao negro escravizado, logo, ao afrodescendente brasileiro, objeto de velado preconceito.
Esse equívoco discursivo é próximo ao da jornalista: "homem, mulher e negro". Mas está longe de sua imputação como sujeito de consciência racista, pois a diferença entre a discriminação visível e a invisível, o lapso, resta ser testado em atos na vida social, como agora em Canoas (RS), onde um tribunal, em inequívoco racismo religioso, determinou a segregação cautelar de uma acusada por "ser mãe de santo". Em geral, o problema converge para a linguagem, um jogo que "fala" o sujeito, espelhando a forma escravista com força estruturante. Daí a importância de escola, escrita e imagens antirracistas. E certamente de reciclagens institucionais.
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