Há datas que não se limitam à celebração, mas exigem elaboração. O 1º de maio, Dia do Trabalhador, é uma delas. Mais do que rememorar conquistas históricas dos trabalhadores, essa data nos provoca a interrogar as condições concretas em que as atividades profissionais se realizam hoje e, sobretudo, o quanto a perda de vidas ainda faz parte do funcionamento do nosso sistema produtivo e de consumo.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale S.A., na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, interrompeu 272 vidas. Destas, 250 estavam trabalhando na hora da tragédia. Esse dado desloca a compreensão do ocorrido: não se trata apenas de um dos maiores desastres humanitários e ambientais do Brasil, mas, também, da maior tragédia laboral da história do país.
Nos anos seguintes ao rompimento, foi erguido, em frente ao local da barragem e da mancha da lama de rejeito, o Memorial Brumadinho. Mais do que um espaço de homenagem às Joias, como são chamadas as vítimas fatais da tragédia, o local, gerido pela Fundação Memorial de Brumadinho, constitui-se como território de memória viva, onde o luto se articula à exigência de justiça e à construção de consciência pública.
A existência desse espaço tem como origem a atuação da AVABRUM, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão. Desde os dias seguintes à tragédia, a associação se tornou protagonista na luta coletiva por direitos, reunindo uma maioria feminina de mães, viúvas, filhas e irmãs enlutadas, que se mobilizaram em busca de respostas. Ao reivindicarem não apenas compromissos institucionais, mas a memória como um direito coletivo, a AVABRUM transformou a dor e o luto em ação – e tornou possível a existência do Memorial.
Os dados contemporâneos sobre acidentes de trabalho no Brasil tornam essa memória ainda mais urgente. Em 2025, o país registrou 806.011 acidentes de trabalho e 3.644 mortes – o maior número da série histórica recente. Trata-se de uma média superior a 2 mil acidentes por dia e de dezenas de mortes por semana. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2012 e 2024, foram registrados mais de 8,8 milhões de acidentes e notificadas 32 mil mortes em decorrência do trabalho no Brasil.
Esses números, já alarmantes, ainda são subestimados. A subnotificação, especialmente no trabalho informal, oculta uma parcela significativa dessa realidade. No plano mundial, a dimensão é ainda mais contundente. A Organização Internacional do Trabalho estima que quase 3 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Trata-se de uma crise contínua, que atravessa fronteiras e modelos econômicos.
Diante desse cenário, o Memorial Brumadinho não se limita a narrar o passado. Ele tensiona o presente. Ao articular cultura, arquitetura e meio ambiente, o Memorial constrói uma experiência que convida à reflexão e à ação. Os nomes das vítimas fatais, inscritos na Fenda, que atravessa o terreno do museu-memorial, restituem a dimensão humana do que frequentemente se dilui em estatísticas. Somados às fotos e aos objetos pessoais reunidos na sala Memória, cada nome e rosto ali presentes afirmam que não houve fatalidade, mas escolhas, negligência e estruturas que permitiram que essas mortes acontecessem.
Memoriais são, essencialmente, espaços erguidos contra o esquecimento, mas também contra a naturalização da barbárie. No 1º de maio, essa dimensão se torna incontornável. Celebrar o trabalho sem enfrentar suas condições reais é perpetuar uma contradição histórica. Em um país onde os acidentes crescem de forma consistente e atingem níveis recordes, é necessário deslocar o debate: não se trata apenas de garantir acesso ao trabalho, mas de assegurar que ele não seja um vetor de morte.
O Memorial Brumadinho nasce, precisamente, para interromper essa naturalização. Ele se recusa a tratar o desastre como episódio, como acidente ou como passado. Sua função, além de recordar, é denunciar o que se estende no presente. Ele expõe o óbvio que tantas vezes se tenta encobrir: a lama não inaugurou nada; ela apenas revelou um processo histórico de negligência, ganância e descaso com a vida.
Nos marcos dessa leitura, a memória deixa de ser homenagem e se torna resistência geontológica – um gesto ético contra a lógica que coloca a terra, a água e certos corpos no lado dos “não viventes”, como escreve Elizabeth Povinelli, disponíveis à exploração total. Portanto, lembrar é, em Brumadinho, reordenar o mundo; é devolver às vidas perdidas o estatuto que lhes foi negado antes mesmo do rompimento.
Povinelli nos lembra que algumas catástrofes não começam no dia em que rompem. Elas são ancestrais: longas, subterrâneas, feitas de séculos de decisões e classificações que decretam quem pode viver, quem pode morrer, o que pode ser explorado e o que pode ser descartado. São desastres que não têm data exata – têm regimes. E Brumadinho, antes da lama, já era sintoma.
O Memorial se insere, assim, em uma tradição de espaços que transformam o luto, a dor e a exploração em ação pública. Ele não oferece respostas fáceis. Sustenta a complexidade da dor e a converte em pergunta: que modelo de desenvolvimento estamos dispostos a aceitar? Um questionamento que não diz respeito apenas a Brumadinho, mas atravessa o Brasil e o mundo.
Ao longo da história, o 1º de maio foi marcado por lutas que ampliaram direitos e redefiniram limites para a exploração do trabalho. Hoje, talvez seja necessário recolocar no centro dessa agenda uma questão elementar: o direito à vida; o direito de não morrer no trabalho.
Nesse sentido, o Memorial não é apenas um lugar de memória. É um marco ético. Ele afirma que nenhum projeto de desenvolvimento pode se sustentar sobre a perda de vidas. E que a memória, quando compartilhada, tem a potência de transformar não apenas a forma como lembramos o passado, mas a maneira como decidimos o futuro.
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