terça-feira, 17 de março de 2026
Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome
É uma grande alegria —e uma grande tristeza– assistir a um documentário como "Mr. Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.
O rigor da lei e as leis que não são cumpridas
Nós vivemos num Estado onde essa coisa “não colou”. Onde a aplicação da Lei é cheia de mitigações: polícia não investiga, parquet não denuncia, justiça não pune. Onde se permite que a punição, inclusive com morte, seja decidida e executada por policiais, milicianos, orcrim ou “paisanos”. Onde se pode levar décadas num processo judicial sem que se fale em litigação protelatória. Onde as sentenças não são cumpridas. Onde as prisões estão em “estado de coisas inconstitucional”. Onde um quarto dos presidiários são detidos, isto é, estão em prisão preventiva sem condenação. Onde os ministros do Supremo não podem votar com a Lei, pois não passa na revisão dos que têm fontes. Onde se prega abertamente a extinção da Corte Constitucional — “não era o que eu queria dizer”, diz o jornalista-vedete depois de longa carreira sabendo (?) dizer as coisas.
Abro parênteses: Em novembro/dezembro de 1964 Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, explodiu em destampatórios — a expressão é de editorial do JB da época — contra o STF: o primeiro para cassar o governador de Goiás, Mauro Borges, o segundo para poder adotar o Ato Institucional — na época só havia o primeiro — para passar por cima da Assembleia. Perdeu as duas vezes. O presidente da Corte, Ribeiro da Costa, que no segundo caso rejeitou a suspeição de 4 dos Ministros, foi processado por Lacerda por injúria. Moral: o Supremo sabe resistir a ataques apopléticos. Pelo menos já soube. Fecha parênteses.
Há séculos se diz que o excesso de leis é um dos problemas, o que é verdade. Em tese, o ideal seria que todo cidadão conhecesse todas as leis, o que é impossível no Estado contemporâneo. Bem, essa é uma área em que somos líderes mundiais, imbatíveis. Comecemos com as normas regulatórias: é um truísmo que não é possível a qualquer empresa cumprir corretamente todas as regras fiscais. Haveria mais de 550 mil normas tributárias posteriores à Constituição, com cerca de 1,5 bilhões de palavras. E o nosso dia a dia, como vai? Seriam cerca de 8 milhões de normas, mais de 1 milhão em vigor, portanto absolutamente impossível do melhor computador seguir a Lei — pois decretos e portarias fazem parte dela. Em 1998 a Lei Complementar 95 determinou a consolidação das leis. Você fez? O Congresso também não.
E as leis, como vão? A Lei 15.000/2024 declarou Anísio Teixeira patrono da escola pública (ele merecia era que valorizassem o ensino público). Começamos a atual contagem das leis federais em 1946, mas há muitas leis antigas em vigor, algumas importantes, como o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940. Estamos hoje na número 15.352; este ano já são 31 novas leis. Federais. Se formos ao LexML, o portal das leis, veremos que são 1.716.350 em todo o País. Assim, se você disser ao juiz que não sabia da lei, ele deve acolher sua declaração como verdadeira, mesmo que tenha dúvida sobre sua boa-fé. E todo mundo, em um momento ou outro, acaba desobedecendo a alguma lei.
Salto mortal: vamos para a Constituição. O desconhecimento da Constituição é tão grande que muita gente, instruída por um ex-militar, acredita que ela só tem quatro linhas. Mas não é fácil conhecer seu texto: ele é modificado ao menor pretexto. Agora estamos na Emenda no 138, passada em dezembro passado, e ainda não tivemos nenhuma este ano. O tamanho do texto dos dispositivos permanentes aumentou 70%; o das disposições transitórias, 200%. Há artigo que já mudou de redação 6 vezes.
É claro que tudo começa no Legislativo. Ele deve seguir três leis internas, os regimentos. Então, pensam eles, vamos fazer diferente. É preciso um interstício (um intervalo de tempo) entre os dois turnos exigidos para emendar a Carta? Faz de conta, encerra sessão, abre sessão, repete 5 vezes e conta como tendo passado o intervalo de “5 dias úteis” e mais “três sessões deliberativas ordinárias” para discussão. Pode? Não pode, mas muitas emendas constitucionais passaram assim. Votação simbólica é realizada entre os presentes — a regra é: aprovam os sentados e os contra se levantam, os líderes podendo representar os presentes —; agora os ausentes contam como sentados, independente de como se sabe que votariam — e assim se manifesta a advocacia do Senado, valha-me Deus! Bem, isso de regimento é para banana, quem pode pode, os outros se sacudam. Golpe baixo é o que conta.
Lei é lei. O Código Penal diz que os crimes contra a inviolabilidade dos segredos são cometidos por qualquer pessoa, apenas sujeitando a pena mais grave se forem “informações sigilosas, assim definidas em lei”. Não exclui jornalista. Qualquer um que divulga informação sigilosa deve passar de 2 a 5 anos na cadeia (com a pena aumentada de um a dois terços). Contra a administração pública a ação é incondicionada, isto é, não precisa de representação. Mas há anos se divulga enxurradas de dados sigilosos e ninguém vê o Ministério Público fazer o que manda a Lei, pois nem sempre lei é Lei. Alega-se sigilo da fonte, mas o que é mesmo que isso tem a ver? A lei não obriga o informado a revelar a fonte, apenas a passar um tempo na cadeia. O protegido pela Constituição não é o jornalista, é o comparsa. O art. 5º XIV não suspende o inciso XII — pressuponho que todos sabem a Constituição de cor, se não sabem vão olhar agorinha mesmo, faz bem à saúde. E não se diga que o sigilo já estava quebrado, a divulgação não revoga a definição legal.
Lei é lei. Mesmo internacional. O Trump já passou da hora de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Ah!, mas o Khamenei era um monstro! Há poucos dias vi esta afirmação ser feita ao Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro (centrista) da França. Ele lembrou que existe o caminho legal, o Conselho de Segurança e, se continuar sendo presidido pela Melania (isso eu que digo), a Assembleia Geral da ONU. A outra hipótese leva, segundo ele, a que todo mundo compre uma arma e saia matando os outros na rua.
Que tal, para variar, se cumprir a Lei?
Abro parênteses: Em novembro/dezembro de 1964 Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, explodiu em destampatórios — a expressão é de editorial do JB da época — contra o STF: o primeiro para cassar o governador de Goiás, Mauro Borges, o segundo para poder adotar o Ato Institucional — na época só havia o primeiro — para passar por cima da Assembleia. Perdeu as duas vezes. O presidente da Corte, Ribeiro da Costa, que no segundo caso rejeitou a suspeição de 4 dos Ministros, foi processado por Lacerda por injúria. Moral: o Supremo sabe resistir a ataques apopléticos. Pelo menos já soube. Fecha parênteses.
Há séculos se diz que o excesso de leis é um dos problemas, o que é verdade. Em tese, o ideal seria que todo cidadão conhecesse todas as leis, o que é impossível no Estado contemporâneo. Bem, essa é uma área em que somos líderes mundiais, imbatíveis. Comecemos com as normas regulatórias: é um truísmo que não é possível a qualquer empresa cumprir corretamente todas as regras fiscais. Haveria mais de 550 mil normas tributárias posteriores à Constituição, com cerca de 1,5 bilhões de palavras. E o nosso dia a dia, como vai? Seriam cerca de 8 milhões de normas, mais de 1 milhão em vigor, portanto absolutamente impossível do melhor computador seguir a Lei — pois decretos e portarias fazem parte dela. Em 1998 a Lei Complementar 95 determinou a consolidação das leis. Você fez? O Congresso também não.
E as leis, como vão? A Lei 15.000/2024 declarou Anísio Teixeira patrono da escola pública (ele merecia era que valorizassem o ensino público). Começamos a atual contagem das leis federais em 1946, mas há muitas leis antigas em vigor, algumas importantes, como o Código Penal, Decreto-Lei 2.848/1940. Estamos hoje na número 15.352; este ano já são 31 novas leis. Federais. Se formos ao LexML, o portal das leis, veremos que são 1.716.350 em todo o País. Assim, se você disser ao juiz que não sabia da lei, ele deve acolher sua declaração como verdadeira, mesmo que tenha dúvida sobre sua boa-fé. E todo mundo, em um momento ou outro, acaba desobedecendo a alguma lei.
Salto mortal: vamos para a Constituição. O desconhecimento da Constituição é tão grande que muita gente, instruída por um ex-militar, acredita que ela só tem quatro linhas. Mas não é fácil conhecer seu texto: ele é modificado ao menor pretexto. Agora estamos na Emenda no 138, passada em dezembro passado, e ainda não tivemos nenhuma este ano. O tamanho do texto dos dispositivos permanentes aumentou 70%; o das disposições transitórias, 200%. Há artigo que já mudou de redação 6 vezes.
É claro que tudo começa no Legislativo. Ele deve seguir três leis internas, os regimentos. Então, pensam eles, vamos fazer diferente. É preciso um interstício (um intervalo de tempo) entre os dois turnos exigidos para emendar a Carta? Faz de conta, encerra sessão, abre sessão, repete 5 vezes e conta como tendo passado o intervalo de “5 dias úteis” e mais “três sessões deliberativas ordinárias” para discussão. Pode? Não pode, mas muitas emendas constitucionais passaram assim. Votação simbólica é realizada entre os presentes — a regra é: aprovam os sentados e os contra se levantam, os líderes podendo representar os presentes —; agora os ausentes contam como sentados, independente de como se sabe que votariam — e assim se manifesta a advocacia do Senado, valha-me Deus! Bem, isso de regimento é para banana, quem pode pode, os outros se sacudam. Golpe baixo é o que conta.
Lei é lei. O Código Penal diz que os crimes contra a inviolabilidade dos segredos são cometidos por qualquer pessoa, apenas sujeitando a pena mais grave se forem “informações sigilosas, assim definidas em lei”. Não exclui jornalista. Qualquer um que divulga informação sigilosa deve passar de 2 a 5 anos na cadeia (com a pena aumentada de um a dois terços). Contra a administração pública a ação é incondicionada, isto é, não precisa de representação. Mas há anos se divulga enxurradas de dados sigilosos e ninguém vê o Ministério Público fazer o que manda a Lei, pois nem sempre lei é Lei. Alega-se sigilo da fonte, mas o que é mesmo que isso tem a ver? A lei não obriga o informado a revelar a fonte, apenas a passar um tempo na cadeia. O protegido pela Constituição não é o jornalista, é o comparsa. O art. 5º XIV não suspende o inciso XII — pressuponho que todos sabem a Constituição de cor, se não sabem vão olhar agorinha mesmo, faz bem à saúde. E não se diga que o sigilo já estava quebrado, a divulgação não revoga a definição legal.
Lei é lei. Mesmo internacional. O Trump já passou da hora de ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Ah!, mas o Khamenei era um monstro! Há poucos dias vi esta afirmação ser feita ao Dominique de Villepin, ex-primeiro-ministro (centrista) da França. Ele lembrou que existe o caminho legal, o Conselho de Segurança e, se continuar sendo presidido pela Melania (isso eu que digo), a Assembleia Geral da ONU. A outra hipótese leva, segundo ele, a que todo mundo compre uma arma e saia matando os outros na rua.
Que tal, para variar, se cumprir a Lei?
A terra é nossa
A terra é um bem comum
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Patativa do Assaré
Já não conseguimos ver este filme
O meu pai começou a gravar os ataques a Bagdade. Ver a guerra na televisão era uma novidade. E ele entusiasmava-se a registar nas cassetes VHS as imagens esverdeadas em que as bombas noturnas a silvar pelos ares do Iraque pareciam foguetes, talvez convencido de que aquelas fitas iam durar no tempo, em vez de se perderem no fundo de uma arrecadação, depois de uma mudança de casa, ou de serem simplesmente apagadas porque precisávamos de gravar por cima uns episódios dos Simpsons. As cassetes ficavam na estante da sala, ao lado das VHS com a Guerra das Estrelas, o ET e mais uns títulos de ficção científica. A guerra era uma coisa de filme, por muito que nos garantissem que estava tudo a acontecer em direto.
O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.
Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.
No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.
Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.
Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.
Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.
Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.
A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.
A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.
O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.
Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.
No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.
Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.
Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.
Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.
Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.
A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.
A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.
Até que ponto escolhemos livremente?
Somos mesmo livres! Até que ponto escolhemos livremente? Quando o relógio nos diz para caminhar, beber água ou respirar pausadamente, fomos nós que decidimos — ou apenas seguimos uma indicação?
Quando procuramos um par de ténis e surge um “desconto imperdível”, avançamos porque o algoritmo identificou uma necessidade e a estimulou, ou porque escolhemos aproveitar a oportunidade? Quando o anel informa que o nosso sono é insuficiente e decidimos deitar mais cedo, é autonomia — ou uma rotina moldada por métricas invisíveis?
Onde começa a autodeterminação? Até onde se estende o algoritmo?
Já não se trata de gostos superficiais ou simples hábitos de consumo. Está em causa a recolha sistemática de dados, a discussão sobre neurodireitos e liberdade cognitiva — o direito de pensar sem interferência. Como sustenta Nita Farahany, se reconhecemos como fundamental a proibição da tortura física, também devemos proteger os processos mentais, os mais íntimos, de formas subtis de manipulação.
Preservar a liberdade cognitiva não pode, porém, ficar apenas no plano declarativo. A sua defesa exige enquadramento jurídico claro, limites à exploração de dados neurais e transparência nos sistemas algorítmicos que influenciam decisões individuais. Regular não significa travar a inovação; significa estabelecer garantias mínimas que assegurem que a tecnologia permanece instrumento e não condutora invisível da vontade.
Trata-se, em última instância, de proteger um espaço mental que não esteja permanentemente sujeito a pressões, sugestões ou estímulos calculados. Se a autonomia é um valor fundacional das sociedades democráticas, então a regulação da liberdade cognitiva deixa de ser opcional: torna-se uma condição para que continuemos, de facto, a escolher.
Quando procuramos um par de ténis e surge um “desconto imperdível”, avançamos porque o algoritmo identificou uma necessidade e a estimulou, ou porque escolhemos aproveitar a oportunidade? Quando o anel informa que o nosso sono é insuficiente e decidimos deitar mais cedo, é autonomia — ou uma rotina moldada por métricas invisíveis?
Onde começa a autodeterminação? Até onde se estende o algoritmo?
Já não se trata de gostos superficiais ou simples hábitos de consumo. Está em causa a recolha sistemática de dados, a discussão sobre neurodireitos e liberdade cognitiva — o direito de pensar sem interferência. Como sustenta Nita Farahany, se reconhecemos como fundamental a proibição da tortura física, também devemos proteger os processos mentais, os mais íntimos, de formas subtis de manipulação.
Preservar a liberdade cognitiva não pode, porém, ficar apenas no plano declarativo. A sua defesa exige enquadramento jurídico claro, limites à exploração de dados neurais e transparência nos sistemas algorítmicos que influenciam decisões individuais. Regular não significa travar a inovação; significa estabelecer garantias mínimas que assegurem que a tecnologia permanece instrumento e não condutora invisível da vontade.
Trata-se, em última instância, de proteger um espaço mental que não esteja permanentemente sujeito a pressões, sugestões ou estímulos calculados. Se a autonomia é um valor fundacional das sociedades democráticas, então a regulação da liberdade cognitiva deixa de ser opcional: torna-se uma condição para que continuemos, de facto, a escolher.
A economia como arma de guerra
Duas semanas após o início do conflito, a guerra no Irã entrou em uma fase na qual, além da resposta militar, a estratégia de Teerã envolve travar uma guerra contra a economia global. Mísseis e drones iranianos atacaram instalações de petróleo e gás no Catar, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, e bloquearam o Estreito de Ormuz, fazendo com que os preços do petróleo bruto disparassem, provocando turbulências no mercado de ações e potencialmente desencadeando uma crise econômica global com sérias consequências também para os instigadores do conflito. Neste sábado, os Estados Unidos bombardearam instalações militares na Ilha de Kharg, o principal terminal petrolífero do Irã.
A guerra desencadeada em 28 de fevereiro por Trump e Netanyahu serviu como um lembrete dramático do peso da raiz “geo” na palavra “geopolítica”. O Estreito de Ormuz é uma das principais artérias do sistema energético global. Ao contrário da crise de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, que afetou principalmente a Europa, essa estreita passagem de 33 quilômetros transporta aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo e uma parcela significativa do tráfego global de cargas, incluindo fertilizantes e outros produtos químicos derivados do petróleo (como o enxofre, crucial para a produção de alumínio e níquel para as indústrias automotiva e eletrônica). Seu fechamento prolongado tem efeitos altamente desestabilizadores em toda a economia. Ciente dessa vantagem, o regime dos aiatolás parece determinado a fazer do estreito o principal campo de batalha. Essa situação extremamente arriscada também elevou o custo do frete marítimo e dos prêmios de seguro devido às cláusulas de guerra. Nesse conflito, a geografia importa quase tanto quanto a tecnologia.
Apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA, os drones e lanchas rápidas iranianas conferem à República Islâmica uma vantagem sem precedentes: ela não precisa vencer a guerra aérea — que já perdeu —; basta tornar a vitória insustentavelmente cara para seu adversário. A suposta mudança de regime no Irã, que tanto Trump quanto Netanyahu alegavam estar buscando, parece, duas semanas depois, apenas mais uma promessa vazia. Estamos testemunhando uma guerra sem objetivos concretos, na qual apenas Israel parece ter algo a ganhar: tomar a hegemonia regional do Irã, por mais frágil que seja a estabilidade da região.
Trump está ciente da ameaça representada pela estratégia do Irã, especialmente em um ano eleitoral em que a crise de acessibilidade — a capacidade dos cidadãos de arcar com o custo de vida — desempenhará um papel decisivo na determinação do voto. Os altos preços do petróleo encarecem o abastecimento dos carros, aumentam o preço dos alimentos e tornam praticamente impossíveis os tão desejados cortes nas taxas de juros antes das eleições de meio de mandato. Daí a decisão da Casa Branca de suspender as sanções ao petróleo russo, uma medida que injeta US$ 150 milhões extras por dia nos cofres de Moscou e provocou indignação na União Europeia devido às suas implicações para a segurança europeia. Isso representa uma tábua de salvação para um Kremlin em dificuldades financeiras devido à guerra na Ucrânia e constitui mais uma irresponsabilidade geopolítica por parte do governo Trump. Sua disputa com a China para privá-lo da energia barata do Golfo permanece sem solução.
Até o momento, os mercados reagiram com relativa moderação, apesar do forte aumento nos preços da energia. A liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia — a maior medida desse tipo na história — revela a magnitude do desafio, embora uma guerra de desgaste possa esgotar essas reservas sem resolver o problema subjacente. Mas é importante lembrar que a turbulência do mercado provou ser praticamente o único fator de dissuasão para Trump. Isso já aconteceu duas vezes em 2025 (abril e julho) com as tarifas, quando o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA se aproximou de 5%, e aconteceu novamente no início desta semana, quando ele declarou a guerra comercial praticamente encerrada após uma semana de perdas nos mercados.
A crise de 2022 ensinou várias lições aos governos europeus, que agora estão preparando medidas para mitigar o impacto deste novo conflito — medidas que devem ser bem direcionadas, temporárias e não comprometer as finanças públicas. Acima de tudo, porém, os altos preços da energia destacaram a necessidade de garantir a independência energética e aceleraram a busca por fontes alternativas, como as renováveis. Embora alguns progressos tenham sido feitos nos últimos anos, as metas ainda estão longe de serem alcançadas. A crise iraniana serve como um forte lembrete de que o petróleo continua sendo a força vital da economia global e ressalta o longo caminho a percorrer na busca pela descarbonização e pela independência energética estratégica.
A guerra desencadeada em 28 de fevereiro por Trump e Netanyahu serviu como um lembrete dramático do peso da raiz “geo” na palavra “geopolítica”. O Estreito de Ormuz é uma das principais artérias do sistema energético global. Ao contrário da crise de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, que afetou principalmente a Europa, essa estreita passagem de 33 quilômetros transporta aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo e uma parcela significativa do tráfego global de cargas, incluindo fertilizantes e outros produtos químicos derivados do petróleo (como o enxofre, crucial para a produção de alumínio e níquel para as indústrias automotiva e eletrônica). Seu fechamento prolongado tem efeitos altamente desestabilizadores em toda a economia. Ciente dessa vantagem, o regime dos aiatolás parece determinado a fazer do estreito o principal campo de batalha. Essa situação extremamente arriscada também elevou o custo do frete marítimo e dos prêmios de seguro devido às cláusulas de guerra. Nesse conflito, a geografia importa quase tanto quanto a tecnologia.
Apesar da esmagadora superioridade militar dos EUA, os drones e lanchas rápidas iranianas conferem à República Islâmica uma vantagem sem precedentes: ela não precisa vencer a guerra aérea — que já perdeu —; basta tornar a vitória insustentavelmente cara para seu adversário. A suposta mudança de regime no Irã, que tanto Trump quanto Netanyahu alegavam estar buscando, parece, duas semanas depois, apenas mais uma promessa vazia. Estamos testemunhando uma guerra sem objetivos concretos, na qual apenas Israel parece ter algo a ganhar: tomar a hegemonia regional do Irã, por mais frágil que seja a estabilidade da região.
Trump está ciente da ameaça representada pela estratégia do Irã, especialmente em um ano eleitoral em que a crise de acessibilidade — a capacidade dos cidadãos de arcar com o custo de vida — desempenhará um papel decisivo na determinação do voto. Os altos preços do petróleo encarecem o abastecimento dos carros, aumentam o preço dos alimentos e tornam praticamente impossíveis os tão desejados cortes nas taxas de juros antes das eleições de meio de mandato. Daí a decisão da Casa Branca de suspender as sanções ao petróleo russo, uma medida que injeta US$ 150 milhões extras por dia nos cofres de Moscou e provocou indignação na União Europeia devido às suas implicações para a segurança europeia. Isso representa uma tábua de salvação para um Kremlin em dificuldades financeiras devido à guerra na Ucrânia e constitui mais uma irresponsabilidade geopolítica por parte do governo Trump. Sua disputa com a China para privá-lo da energia barata do Golfo permanece sem solução.
Até o momento, os mercados reagiram com relativa moderação, apesar do forte aumento nos preços da energia. A liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia — a maior medida desse tipo na história — revela a magnitude do desafio, embora uma guerra de desgaste possa esgotar essas reservas sem resolver o problema subjacente. Mas é importante lembrar que a turbulência do mercado provou ser praticamente o único fator de dissuasão para Trump. Isso já aconteceu duas vezes em 2025 (abril e julho) com as tarifas, quando o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA se aproximou de 5%, e aconteceu novamente no início desta semana, quando ele declarou a guerra comercial praticamente encerrada após uma semana de perdas nos mercados.
A crise de 2022 ensinou várias lições aos governos europeus, que agora estão preparando medidas para mitigar o impacto deste novo conflito — medidas que devem ser bem direcionadas, temporárias e não comprometer as finanças públicas. Acima de tudo, porém, os altos preços da energia destacaram a necessidade de garantir a independência energética e aceleraram a busca por fontes alternativas, como as renováveis. Embora alguns progressos tenham sido feitos nos últimos anos, as metas ainda estão longe de serem alcançadas. A crise iraniana serve como um forte lembrete de que o petróleo continua sendo a força vital da economia global e ressalta o longo caminho a percorrer na busca pela descarbonização e pela independência energética estratégica.
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