sábado, 16 de maio de 2026

Pnsamento do Dia



Analfabetismo

Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

— Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Replico eu:

— Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

— As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Machado de Assis, Obra completa - vol. III

'Sem a cooperação do Irã, o Estreito de Ormuz não poderá ser aberto'

A situação no Estreito de Ormuz continua sendo uma grande preocupação para a comunidade internacional.

Mesmo antes da retomada das hostilidades , o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou a suspensão da Operação Freedom, que tinha como objetivo escoltar navios presos no Golfo Pérsico. Enquanto isso, a Marinha alemã enviou um navio caça-minas para a área , onde milhares de marinheiros permanecem isolados . Não há indícios de que haja latino-americanos entre eles. Embora a DW tenha tentado descartar essa possibilidade por meio dos serviços consulares de diversos ministérios das Relações Exteriores, nenhuma resposta foi recebida até o momento da publicação.


"Há atualmente cerca de 20.000 marinheiros e tripulantes à deriva no Golfo Pérsico", confirmou a Organização Marítima Internacional, sem fornecer detalhes sobre suas nacionalidades. "Recentemente, nosso Secretário-Geral teve a oportunidade de conversar com um marinheiro que estava à deriva no Golfo Pérsico. Essa pessoa descreveu o estresse constante do risco de mísseis sobrevoando a área, o perigo de destroços atingirem o navio, a necessidade de racionar suprimentos e a dificuldade de manter sua família informada sobre sua situação", explicou o porta-voz.

"Quanto mais tempo essa situação persistir na região, maior será o risco de incidentes e eventos graves", declarou a OMI à DW. Reiteraram que "nenhum ataque contra marinheiros inocentes ou embarcações civis se justifica". O Conselho da OMI solicitou "um corredor marítimo seguro como medida provisória urgente" para facilitar a saída dos navios. "O plano de evacuação está pronto para ser implementado assim que for seguro fazê-lo, mas requer garantias de segurança de todas as partes", afirmou o porta-voz.

Fontes militares com experiência na Operação Atalanta da UE , uma missão contra a pirataria marítima, confirmaram à DW que não é viável escoltar os navios pelo Estreito de Ormuz apenas com uma escolta americana: o risco é muito alto, pois ficariam vulneráveis ​​ao fogo iraniano e, em qualquer caso, o ritmo da escolta seria muito lento. Prova disso é que os próprios Estados Unidos recuaram em relação ao seu chamado Projeto Liberdade.

Esta não foi a primeira tentativa de Trump — ele chegou a instar navios mercantes, em março, a terem a "coragem" de atravessar o Estreito de Ormuz — de restabelecer o tráfego marítimo na área. Mas, mesmo sem minas, a passagem permanece vulnerável à artilharia e aos drones iranianos. "A OMI recomenda que todas as companhias de navegação exerçam a máxima cautela e, sempre que possível, que as embarcações evitem transitar pela região afetada até que as condições e a situação melhorem", reiterou o porta-voz.

O presidente dos EUA explicou que havia suspendido a escolta de navios pelo Estreito de Ormuz, ainda que "por um curto período", para verificar se um acordo com o Irã poderia ser "finalizado e assinado" após "progressos significativos" nas negociações. Mas o fato é que, sem a aprovação de Teerã, o Estreito de Ormuz não pode ser aberto. "Sem a cooperação do Irã, ele não será aberto, disso eu tenho certeza", disse à DW um dos principais especialistas espanhóis em desminagem.

A desminagem não seria uma questão de dias.

"E uma vez que o Irã esteja cooperando, se de fato confirmar a presença de minas, também não será rápido... Não será uma questão de dias; será necessário um grande esforço de desminagem", diz o especialista, que prefere permanecer anônimo por razões de segurança. E esse é um trabalho meticuloso que exige calma. "Não pode ser feito sob fogo inimigo", resume ele, "porque é preciso lembrar que os navios de desminagem e os mergulhadores são unidades extremamente vulneráveis; eles praticamente não têm proteção."

"Isso é feito de duas maneiras", explica ele: "Ou controlando completamente a área, permitindo que as equipes trabalhem com eficácia, ou realizando operações secretas à noite." E, neste último caso, isso só permitiria "abrir uma pequena brecha para algo muito específico, um canal particular para um desembarque muito rápido". Ele insiste que isso serviria apenas para abrir passagem em "áreas muito pequenas, nem de longe para abrir o Estreito de Ormuz, sob nenhuma circunstância."

"Uma solução relativamente simples seria abrir um canal rapidamente, mas estamos falando de um canal estreito; ele teria que ser muito bem sinalizado por GPS, e avisos precisariam ser afixados informando que os navios não podem se afastar mais de 100 jardas desse canal", explica. "Isso é mais viável, mas não estamos falando de dias ou semanas; é um processo longo e tedioso", acrescenta. "E ainda há a necessidade de realizar uma operação de desminagem mais extensa, abrangendo toda a área."

Uma operação complexa que não é realizada desde a Segunda Guerra Mundial.

A Alemanha é um dos principais países especializados em desminagem. Possui dez caça-minas, um dos quais é o 'Fulda', que está se aproximando da área caso seja necessário utilizá-lo .

No entanto, o governo alemão deixou claro que só o fará se for alcançado um acordo de paz. "Repito, tem de ser uma área extremamente segura; um caça-minas é um alvo perfeito. A área tem de ser muito tranquila para que possam trabalhar com calma", afirma este especialista, salientando ainda que os caça-minas carregam muito pouco armamento defensivo, pelo que também precisam de ser escoltados.

As minas são eficazes em mares relativamente rasos, razão pela qual os Estados Unidos deixaram essas capacidades nas mãos de outros parceiros da OTAN . Espanha (que possui dois caça-minas), Itália, Bélgica e França, citam este especialista, juntamente com a Alemanha, como os principais especialistas nesta área. "Tudo isso por causa da Segunda Guerra Mundial", explica. Minas e torpedos daquela época ainda são encontrados hoje em dia. "Só no Mar do Norte, estima-se que centenas de milhares de minas permaneçam inativas", afirma. Ele desativou algumas das chamadas minas de amarração, que flutuam livremente, e que apareceram em águas espanholas.

"A liberdade de navegação é um princípio fundamental do direito marítimo internacional e deve ser respeitada por todas as partes, sem exceção", lembrou um porta-voz da OMI. 

Mas desativar as minas soltas encontradas no mar é uma coisa, e limpar uma área minada é outra bem diferente. "É importante lembrar que ninguém fez qualquer desminagem desde a Segunda Guerra Mundial; em outras palavras, não há ninguém vivo hoje com experiência em limpar campos minados defensivos como os que poderiam ter sido encontrados aqui", enfatiza. Ele explica que se trata de uma operação realizada por meio de levantamentos probabilísticos.

"As missões de exploração são realizadas usando uma espécie de amostragem aleatória, seguindo fórmulas específicas que dependem do tempo disponível", continua ele. "Digamos que você faça dez amostragens e nenhuma delas encontre uma mina. Nesse caso, a probabilidade de não haver nenhuma aumenta significativamente. Mas se uma das amostragens for bem-sucedida, então você começa a lidar com probabilidades", explica. "A mineração é um jogo de probabilidades; é tudo muito matemático, e encontrar uma mina também influencia a probabilidade de encontrar a próxima", acrescenta.

"Se uma área estiver minada, a sua remoção é muito complicada", afirma o especialista. Se o Irã de fato minou o estreito, provavelmente o fez de forma clandestina, à noite, usando barcos de pesca, por exemplo. "Se tivessem colocado as minas corretamente, nós as teríamos visto", assegura ele. A minagem marítima nessas condições não é muito precisa. Além disso, o tipo de mina utilizada deve ser levado em consideração. Minas de amarração, por exemplo, "multiplicam o problema".

"Eles mesmos sabem que, mesmo que tenham as localizações exatas, a desminagem leva tempo", afirma. "Outra possibilidade, que também considero provável, é que seja uma aposta e que realmente não haja minas ali", explica este especialista em desativação de explosivos marítimos. No entanto, "na dúvida, deve-se sempre agir com base na hipótese mais provável, que é a de que não há minas, mas proteger-se da mais perigosa, que é a de que há."

O nó das mentiras repetidas dia a dia por Flávio Bolsonaro

Era uma vez o primogênito de um bandido condenado e preso pela mais alta Corte de Justiça do Brasil, um tal de Jair Messias Bolsonaro, no passado expulso do Exército por planejar atentados à bomba a quartéis do Rio de Janeiro. Tal pai, tal filho; assim eram os dois. Com a diferença de que o pai tinha carisma e, por um desses acidentes da História, elegeu-se presidente da República para, em seguida, ser derrotado. Flávio nunca teve carisma, tampouco ideias. Mas, apesar disso, foi o escolhido pelo pai para devolver a família ao poder.

No dia em que se apresentou aos brasileiros como aspirante aos votos do pai, Flávio foi logo avisando que poderia retirar sua candidatura, desde que houvesse uma contrapartida. Qual seria? Ele estabeleceu o preço: a aprovação pelo Congresso de uma anistia ampla, geral e irrestrita que beneficiasse seu pai e os demais golpistas do 8 de janeiro de 2023. “Espero que a gente paute esta semana a anistia. Espero que os presidentes da Câmara e do Senado cumpram o que prometeram, que pautem a anistia, e deixem o pau cantar no voto no plenário – que é o que a gente sempre quis”, disse ele.

Pegou muito mal para Flávio. Sua candidatura pareceu de mentirinha, nada mais que um instrumento de barganha. O que o obrigou a corrigir-se de forma confusa: o termo “um preço” se referia estritamente à “justiça” e à liberdade política do seu pai, negando qualquer tipo de negociação financeira ou comercial que pudesse levá-lo a desistir de se candidatar. Só o faria para dar lugar ao seu pai e a mais ninguém. Foi um mau começo, do qual Flávio jamais se recuperou totalmente, apesar de ter crescido nas pesquisas de intenção de voto a ponto de empatar com Lula.


Custou algum tempo para que os políticos passassem a vê-lo como um candidato – quem sabe? – capaz de se eleger. Agora, com a descoberta de suas ligações com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, de quem ele tomou uma fortuna para financiar o filme de exaltação ao seu pai, o tempo está passando rápido e joga contra as pretensões de Flávio. É uma mentira, ou mais de uma por dia, que sai da boca de Flávio, em estado de desespero. Pego mentindo, sua credibilidade, que já era rala, esvai-se rapidamente. Atingiram o ponto máximo a perplexidade dos seus aliados e o entusiasmo dos adversários.

O que mais está por vir? Novos registros dos seus encontros às escondidas com Vorcaro? O próprio Flávio sugere que sim: “Podem vazar novas conversas, pode vazar um videozinho mostrando o estúdio que eu posso ter enviado, algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo exclusivamente para tratar somente do filme. Então, não tem nada a esconder. Então, não vai ter surpresinha”. Não, não terá. Depois de ficar rouco de tanto repetir que nunca foi próximo de Vorcaro, que mal o conhecia, entende-se por que Flávio o tratava como “irmão”. Entende-se por que Flávio, em certa ocasião, escreveu para Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

A Polícia Federal quer saber se os 61 milhões de dólares doados por Vorcaro para a produção do filme não serviram também para a manutenção de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio jura que não; Eduardo, idem. Ontem, o site The Intercept Brasil publicou documentos que mostram que Eduardo assinou um contrato como produtor-executivo do filme. A cada nova mentira que vem à luz, uma nova justificativa. Flávio não conta toda a história de uma vez pelo simples fato de que ela é muito feia e poderia enterrar sua candidatura.

A partidarização da bactéria

Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.


Noutras ocasiões, os episódios têm lugar somente no mundo virtual pela disseminação de desinformação, tanto na forma de mentiras puras e simples quanto por insinuações e distorção de fatos, apresentados descontextualizadamente ou interpretados de forma descabida, porém conveniente à narrativa extremista. Exemplo disso foi a campanha do ­deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a fiscalização de movimentações do PIX acima de certo valor, medida necessária para combater a lavagem de dinheiro pelo crime organizado. Em vídeo disseminado nas redes, o deputado insinuava que o governo taxaria transferências e bisbilhotaria movimentações financeiras dos cidadãos. O impacto foi tão negativo para o governo Lula que levou o presidente a determinar o cancelamento da medida, decerto agradando ao extremismo de direita e ao crime organizado, que se abraçaram.

O último factoide da ultradireita brasileira foi produzido no contexto de uma fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre a Química Amparo, fabricante dos produtos de limpeza da marca Ypê. Técnicos da agência identificaram que os itens eram fabricados em precárias condições de higiene e lotes de uma série de produtos estariam contaminados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa­, micro-organismo muito resistente a antibióticos. Cidadãos com baixa imunidade ou ferimentos poderiam ser vítimas, caso manipulassem produtos contaminados, correndo o risco de infecções que, em alguns casos, poderiam ser graves e até mesmo levar a óbito.

O que seria apenas uma ação técnica rotineira, de um órgão cuja missão inclui justamente identificar tais riscos e tomar as devidas providências, tornou-se um cavalo de batalha ideológico para disseminar teorias da conspiração, segundo as quais a empresa química seria alvo de perseguição política. Como seus controladores apoiaram financeiramente a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, além de promover assédio eleitoral contra funcionários (acarretando condenação pela Justiça do Trabalho), políticos, influenciadores e mesmo cidadãos comuns de ultradireita iniciaram campanha em defesa da companhia, alegando que a medida da Anvisa seria retaliação do governo Lula contra o bolsonarismo de seus dirigentes. Ao que parece, para bolsonaristas e assemelhados, a Pseudomonas aeruginosa é de esquerda.

Este episódio explicita o modus ­ ­operandi da ultradireita no Brasil e alhures. A lógica do movimento requer a ativação constante de sua base social e a partidarização de tudo que favoreça tal objetivo, promovendo guerras culturais. Por isso, nem sequer bens de consumo escapam à dinâmica e qualquer coisa que pareça passível de ideologização, assim será. Ocorreu com os chinelos Havaianas, com o biscoito Bis e, agora, com os produtos Ypê. A contrapartida, além do pânico moral criado, é promover produtos concorrentes daqueles identificados com a esquerda, punindo as marcas ideologicamente desalinhadas, bem como premiar os identificados com a direita. Não à toa, houve até quem se filmasse bebendo detergente no gargalo.

A construção dessas dinâmicas e teo­rias da conspiração funda-se em afetos, identidades e crenças. A emotividade ideológica, a identificação com um grupo político e os credos prévios levam a aceitar certas narrativas e importam mais que a consideração racional de fatos. Foi assim durante a pandemia com o negacionismo em relação ao perigo do vírus ou às mortes por ele causadas – houve quem acreditasse que caixões eram recheados com pedras e tijolos para simular os óbitos – e com a prescrição do “tratamento precoce”. Portanto, este evento, embora inserido na campanha eleitoral, não se restringe a ela. Integra uma dinâmica constante da ultradireita, inclusive quando no governo, como vimos no quadriênio presidencial bolsonarista.