terça-feira, 19 de maio de 2026
O relógio do vosso consumismo vai explodir
Hmm… desculpem começar a assim, mas: vocês estão bem? Sim, vocês. Vocês que passaram a noite numa fila para comprar um relógio da Swatch, estão bem? Como é que se estão a sentir? Se se estão a sentir patéticos, ok, menos preocupante. Quer dizer que ainda detêm algumas faculdades psicossociais. Se se sentem na boa, a achar perfeitamente normal o que acabou de acontecer, espero francamente que tenham familiares e amigos que falem convosco e, acima de tudo, vos indiquem o caminho da ajuda profissional.
Para quem não está a par, explico. A Swatch lançou um relógio a um preço modesto (?) de mais ou menos 400 paus, em conjunto com uma marca de luxo, a Audemars Piguet – de que eu nunca tinha ouvido falar, mas eu também não nasci com talento algum para rico.
É um relógio de bolso às cores, e nada mais interessa saber sobre o objeto em si, honestamente. O que precisam de saber, pessoas que me leem e que deduzo estarem curiosas com o sucedido, é que este lançamento de uma coisa onde dá para ver as horas (tem números e ponteiros) gerou o caos um pouco por todo o mundo, com a ideia de que seria um produto de luxo, mas não assim tanto porque é também para as massas, e que não haveria assim tantas unidades, parecendo assim que a sua compra seria um alcançar de estatuto pela posse de uma raridade. E por este bocadinho do estatuto (???) adquirido por se ser detentor de um bocadinho de plástico que serve para – repito – ver as horas, houve gente a dormir à porta das lojas, houve raiva, desespero, porrada e até gás pimenta para dispersar multidões.
Querem mais? Eu digo-vos mais. Há relatos de estafetas de aplicação a serem pagos para ficar na fila, e histórias de pessoas que conseguiram comprar aquele cagalhoto colorido com ponteiros, para o tentarem vender segundos depois pelo triplo do preço, a quem não o conseguiu obter em loja.
“Ai ó Faro, mas ainda te espantas com estas coisas?”. É pá, se calhar não devia, é verdade. E eu sei que uma das maiores vitórias do capitalismo é fazer-nos um buraco na alma, para depois fazer-nos acreditar que a solução para o preencher de novo é adquirindo bens materiais de que precisamos tanto como de levar um pontapé nas costas todos os dias ao acordar. Mas mesmo assim, sim, ainda fico espantado. Ainda me contorço todo em vergonha alheia com o quão patéticas e absurdas as pessoas conseguem ser por causa de coisas e coisinhas. Com esta demência de se achar que aquele objeto nos confere essa exclusividade de sermos diferentes (superiores) aos demais, e por isso, felicidade.
Reparem, ao que parece, e para fechar aqui este círculo glorioso da estupidez humana, já tem havido um monte de queixas de detentores de relógios Audermars Piguet, porque a marca perdeu valor ao juntar-se à Swatch e ter este relógio mais “popularucho”. Não é genial?
Eu adorava que estas pessoas todas conseguissem sair por uns momentos da sua demência consumista, e olhassem para tudo isto de fora. Talvez elas próprias achassem que realmente, mais valia levaram um pontapé nas costas.
Para quem não está a par, explico. A Swatch lançou um relógio a um preço modesto (?) de mais ou menos 400 paus, em conjunto com uma marca de luxo, a Audemars Piguet – de que eu nunca tinha ouvido falar, mas eu também não nasci com talento algum para rico.
É um relógio de bolso às cores, e nada mais interessa saber sobre o objeto em si, honestamente. O que precisam de saber, pessoas que me leem e que deduzo estarem curiosas com o sucedido, é que este lançamento de uma coisa onde dá para ver as horas (tem números e ponteiros) gerou o caos um pouco por todo o mundo, com a ideia de que seria um produto de luxo, mas não assim tanto porque é também para as massas, e que não haveria assim tantas unidades, parecendo assim que a sua compra seria um alcançar de estatuto pela posse de uma raridade. E por este bocadinho do estatuto (???) adquirido por se ser detentor de um bocadinho de plástico que serve para – repito – ver as horas, houve gente a dormir à porta das lojas, houve raiva, desespero, porrada e até gás pimenta para dispersar multidões.
Querem mais? Eu digo-vos mais. Há relatos de estafetas de aplicação a serem pagos para ficar na fila, e histórias de pessoas que conseguiram comprar aquele cagalhoto colorido com ponteiros, para o tentarem vender segundos depois pelo triplo do preço, a quem não o conseguiu obter em loja.
“Ai ó Faro, mas ainda te espantas com estas coisas?”. É pá, se calhar não devia, é verdade. E eu sei que uma das maiores vitórias do capitalismo é fazer-nos um buraco na alma, para depois fazer-nos acreditar que a solução para o preencher de novo é adquirindo bens materiais de que precisamos tanto como de levar um pontapé nas costas todos os dias ao acordar. Mas mesmo assim, sim, ainda fico espantado. Ainda me contorço todo em vergonha alheia com o quão patéticas e absurdas as pessoas conseguem ser por causa de coisas e coisinhas. Com esta demência de se achar que aquele objeto nos confere essa exclusividade de sermos diferentes (superiores) aos demais, e por isso, felicidade.
Reparem, ao que parece, e para fechar aqui este círculo glorioso da estupidez humana, já tem havido um monte de queixas de detentores de relógios Audermars Piguet, porque a marca perdeu valor ao juntar-se à Swatch e ter este relógio mais “popularucho”. Não é genial?
Eu adorava que estas pessoas todas conseguissem sair por uns momentos da sua demência consumista, e olhassem para tudo isto de fora. Talvez elas próprias achassem que realmente, mais valia levaram um pontapé nas costas.
A direita e seu longo deserto
Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.
Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.
Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.
A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.
A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.
Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.
Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.
É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.
Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.
A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.
Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.
Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.
A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.
A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.
Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.
Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.
É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.
Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.
A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.
Cilada verbal
Guinada à direita na América Latina pode ser mais frágil do que parece
A onda conservadora que varreu a América Latina nas eleições de 2025 – simbolizada pela derrota da esquerda na Bolívia e pelos triunfos de líderes conservadores no Equador, no Chile, na Argentina e em Honduras – tem sido interpretada, por vários analistas, não como mais um capítulo de um pêndulo político movido por insatisfação econômica e rejeição aos governantes, mas como um reordenamento ideológico mais duradouro. Essa transição seria movida por uma preocupação crescente do eleitorado latino-americano com a segurança pública, o crescimento da população evangélica e a volta de Trump à Casa Branca, entre outros fatores. Vários apostavam, portanto, em uma consolidação da tendência em 2026, nas eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil.
Porém, os eventos das últimas semanas sugerem que um domínio da direita por vários ciclos eleitorais é pouco provável. De fato, a maioria das novas lideranças conservadoras já enfrenta sinais de desgaste político, e o resultado dos três pleitos deste ano está longe de ser previsível.
Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrenta turbulências próprias: os custos sociais das reformas econômicas e escândalos envolvendo figuras-chave da administração.
No Chile, José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março de 2026, viu sua aprovação desabar em questão de semanas, uma das quedas mais acentuadas de qualquer presidente chileno em período equivalente na história recente das pesquisas.
Na Bolívia, Rodrigo Paz, empossado há apenas seis meses, já enfrenta protestos e confrontos violentos no país após eliminar subsídios aos combustíveis.
No Equador, Daniel Noboa assistiu à violência do crime organizado se agravar – 2025 foi o ano mais violento da história do país – e acumula acusações de autoritarismo que corroem sua base de apoio.
Em todos esses casos, os novos governantes de direita chegaram ao poder prometendo soluções rápidas para problemas estruturais e agora enfrentam o duro teste da realidade. A história recente da região mostra que, sem crescimento econômico concreto e melhora
A força política mais poderosa não é a conservadora, mas o ceticismo em relação a quem governa tangível nas condições de vida, o eleitorado latino-americano tende a punir quem está no poder, independentemente do espectro ideológico.
O cenário no Equador talvez revele, de forma mais nítida, por que a onda conservadora é mais frágil do que muitos analistas previam: problemas de segurança pública podem facilitar vitórias eleitorais para candidatos que prometem ações duras contra o crime, mas seria um erro acreditar que governos de direita necessariamente consigam lidar com a questão de forma satisfatória.
O elemento externo também pesa. O retorno de Trump à Casa Branca, longe de ser apenas um vento favorável para a direita regional, produziu efeitos contraditórios: ao mesmo tempo em que legitimou figuras como Milei, Kast e Asfura em Honduras, gerou reações nacionalistas em países que se sentiram pressionados por Washington. No caso brasileiro, as interferências e tarifas de Trump parecem ter fortalecido o governo Lula.
No Peru, o primeiro turno em abril de 2026 ilustra como o voto peruano continua fragmentado e altamente volátil, mais movido pela rejeição a quem governa do que por qualquer adesão ideológica coerente – e o segundo turno, marcado para 7 de junho, ainda não tem resultado previsível.
Na Colômbia, cuja primeira rodada presidencial ocorrerá em 31 de maio, a fragmentação do campo conservador reduz as chances de que a direita mobilize um eleitorado unificado capaz de garantir vitória já no primeiro turno.
No Brasil, escândalos recentes envolvendo Flávio Bolsonaro podem fragilizar o campo conservador num momento em que a corrida ainda está empatada, o que sugere que uma vitória conservadora em outubro não tem nada de inevitável.
Nada disso significa que a onda conservadora esteja chegando ao fim. A Costa Rica elegeu Laura Fernández, candidata de direita, em fevereiro, e o bloco conservador ainda governa numerosos países do continente. Mas os desafios enfrentados por Kast, Milei, Paz e Noboa são um lembrete de que a força política mais poderosa na América Latina não é a guinada conservadora, mas o ceticismo e a impaciência em relação a quem governa.
Porém, os eventos das últimas semanas sugerem que um domínio da direita por vários ciclos eleitorais é pouco provável. De fato, a maioria das novas lideranças conservadoras já enfrenta sinais de desgaste político, e o resultado dos três pleitos deste ano está longe de ser previsível.
Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrenta turbulências próprias: os custos sociais das reformas econômicas e escândalos envolvendo figuras-chave da administração.
No Chile, José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março de 2026, viu sua aprovação desabar em questão de semanas, uma das quedas mais acentuadas de qualquer presidente chileno em período equivalente na história recente das pesquisas.
Na Bolívia, Rodrigo Paz, empossado há apenas seis meses, já enfrenta protestos e confrontos violentos no país após eliminar subsídios aos combustíveis.
No Equador, Daniel Noboa assistiu à violência do crime organizado se agravar – 2025 foi o ano mais violento da história do país – e acumula acusações de autoritarismo que corroem sua base de apoio.
Em todos esses casos, os novos governantes de direita chegaram ao poder prometendo soluções rápidas para problemas estruturais e agora enfrentam o duro teste da realidade. A história recente da região mostra que, sem crescimento econômico concreto e melhora
A força política mais poderosa não é a conservadora, mas o ceticismo em relação a quem governa tangível nas condições de vida, o eleitorado latino-americano tende a punir quem está no poder, independentemente do espectro ideológico.
O cenário no Equador talvez revele, de forma mais nítida, por que a onda conservadora é mais frágil do que muitos analistas previam: problemas de segurança pública podem facilitar vitórias eleitorais para candidatos que prometem ações duras contra o crime, mas seria um erro acreditar que governos de direita necessariamente consigam lidar com a questão de forma satisfatória.
O elemento externo também pesa. O retorno de Trump à Casa Branca, longe de ser apenas um vento favorável para a direita regional, produziu efeitos contraditórios: ao mesmo tempo em que legitimou figuras como Milei, Kast e Asfura em Honduras, gerou reações nacionalistas em países que se sentiram pressionados por Washington. No caso brasileiro, as interferências e tarifas de Trump parecem ter fortalecido o governo Lula.
No Peru, o primeiro turno em abril de 2026 ilustra como o voto peruano continua fragmentado e altamente volátil, mais movido pela rejeição a quem governa do que por qualquer adesão ideológica coerente – e o segundo turno, marcado para 7 de junho, ainda não tem resultado previsível.
Na Colômbia, cuja primeira rodada presidencial ocorrerá em 31 de maio, a fragmentação do campo conservador reduz as chances de que a direita mobilize um eleitorado unificado capaz de garantir vitória já no primeiro turno.
No Brasil, escândalos recentes envolvendo Flávio Bolsonaro podem fragilizar o campo conservador num momento em que a corrida ainda está empatada, o que sugere que uma vitória conservadora em outubro não tem nada de inevitável.
Nada disso significa que a onda conservadora esteja chegando ao fim. A Costa Rica elegeu Laura Fernández, candidata de direita, em fevereiro, e o bloco conservador ainda governa numerosos países do continente. Mas os desafios enfrentados por Kast, Milei, Paz e Noboa são um lembrete de que a força política mais poderosa na América Latina não é a guinada conservadora, mas o ceticismo e a impaciência em relação a quem governa.
Brasil: onde a informação estressa e deprime
O meu Brasil brasileiro, de repente, ficou óbvio e muito chato. O brasileirinho, aquele ser que acorda e vai à luta para fazer o seu país dar show em padrão de vida moderna, começa a ser metralhado por centenas de canais, por informações, mostrando, didaticamente, que tudo é feio, tudo está prestes a desabar, que o Rio de Janeiro ficou horrível e que o Dr. Pitanguy nunca melhorou a Ursula Andress.
Aí você fica sorumbático e sente uma vontade louca de se jogar no fundo de uma rede, depois que atravessou toda uma espessa colcha de espuma de chope das mais geladas, de torcer pela Argentina, dizer que o Vinny Jr é um perna-de-pau e que o Neymar, com 34 anos, é um velho caquético. Os fabricantes do “Caos” estão ganhando a briga e nós, os lutadores pelas boas maneiras, estamos levando de goleada.
Eu vou só dizer o que penso dessas encruzilhadas que estão nos submetendo, desde a hora que acordamos até a hora que voltamos para as nossas redes. É um método covarde de tratar como guerreiros vikings os alegres brasileiros que por aqui teimam em continuar vivendo.
E o pior é que o brasileiro já não sabe mais se assiste ao jornal, ao programa policial ou a uma reprise mal ensaiada do circo romano, onde todos torcem pelo leão. O sujeito liga a televisão para saber do preço do café e termina ouvindo sobre golpe, contragolpe, minuta, pizza, vazamento, delação, criptomoeda, dosimetria e até anatomia constitucional em praça pública. O cidadão queria apenas saber se a prestação da geladeira cabe no orçamento.
A famosa pizza nacional, aquela que antes era servida discretamente em fatias mornas nos fundos de Brasília, agora virou rodízio gourmet. Tem borda recheada, azeite importado e cobertura de lagosta institucional. O caso Vorcaro mostrou ao brasileiro médio uma aula prática de como funciona a culinária política: uns investigam, outros gritam, outros absolvem, outros jantam e, no final, a conta sempre chega para quem toma café sem açúcar porque o açúcar ficou caro.
E quando o povo começa a tentar entender alguma coisa, surge mais uma canetada monumental do arquipresidente Alexandre de Moraes, alterando dosimetrias como quem troca o pneu de um Fusca, num pega, no meio da Belém-Brasília. O brasileiro já não sabe se a lei é um trilho firme ou uma pista de patinação artística. Cada decisão produz vinte especialistas instantâneos, quarenta juristas de Instagram e duzentos vídeos explicando que “agora vai”. Nunca vai. O Brasil é a única nação onde o futuro não chega, nem cansado, antes do presente terminar.
Enquanto isso, o trabalhador brasileiro continua sendo o personagem mais humilhado desse grande teatro guarani. Ele acorda cinco da manhã, pega ônibus lotado, enfrenta calor de forno de pizzaria e ainda precisa ouvir que a culpa de tudo é dele porque tomou um financiamento de geladeira em 24 vezes. O Estado gasta como um príncipe árabe em liquidação de iates, mas exige do cidadão a disciplina de um Dalai.
Eles querem um povo permanentemente deprimido, assustado e obediente, como o cubano. Mas o brasileiro tem um defeito gravíssimo: teima em sobreviver sorrindo e gozando de tudo e de todos, como um brasileiro.
No fundo, o Brasil continua sendo um país extraordinário administrado emocionalmente como um grupo de condomínio brigando por vaga de garagem. Temos água, comida, energia, minério, floresta, criatividade e um povo capaz de transformar dificuldade em negócio e miséria em poesia de botequim. Uma máquina de moer esperança funcionando vinte e quatro horas por dia. A mesma máquina que cubanizou a América do Sul.
Cuba era o paraíso na terra até que uns infelizes a deflorassem e implantassem um regime onde só os palacianos pudessem viver. Os Vorcaros da época, roubavam e assaltavam barcos e bancos, para irem gastar nos belíssimos cabarés de Cuba. Aí, os deuses chegaram, destruíram até os cabarés. Cuba é o inferno. E querem ser exemplos.
E assim seguimos nós, os brasileirinhos comuns, tentando pagar boletos enquanto especialistas explicam o fim da República pela terceira vez na semana. O Brasil virou um país onde a informação já não informa: ela estressa, deprime, envelhece e adoece seu povo.
Mas cuidado. Um povo cansado também aprende. E quando o brasileiro começa a perceber que está sendo tratado como figurante no banquete dos poderosos, pode resolver sair da plateia. E aí, meu amigo, não haverá pizza requentada, canetada milagrosa ou comentarista histérico capaz de salvar o espetáculo.
Eu lembro bem dos dois discos em Long-Play do espetacular comediante do Acre, o José Vasconcelos: o primeiro foi ”Eu sou o espetáculo” e o segundo foi “O espetáculo continua”. O povo já está esperando o convite para reinterpretá-lo.
Aí você fica sorumbático e sente uma vontade louca de se jogar no fundo de uma rede, depois que atravessou toda uma espessa colcha de espuma de chope das mais geladas, de torcer pela Argentina, dizer que o Vinny Jr é um perna-de-pau e que o Neymar, com 34 anos, é um velho caquético. Os fabricantes do “Caos” estão ganhando a briga e nós, os lutadores pelas boas maneiras, estamos levando de goleada.
Eu vou só dizer o que penso dessas encruzilhadas que estão nos submetendo, desde a hora que acordamos até a hora que voltamos para as nossas redes. É um método covarde de tratar como guerreiros vikings os alegres brasileiros que por aqui teimam em continuar vivendo.
E o pior é que o brasileiro já não sabe mais se assiste ao jornal, ao programa policial ou a uma reprise mal ensaiada do circo romano, onde todos torcem pelo leão. O sujeito liga a televisão para saber do preço do café e termina ouvindo sobre golpe, contragolpe, minuta, pizza, vazamento, delação, criptomoeda, dosimetria e até anatomia constitucional em praça pública. O cidadão queria apenas saber se a prestação da geladeira cabe no orçamento.
A famosa pizza nacional, aquela que antes era servida discretamente em fatias mornas nos fundos de Brasília, agora virou rodízio gourmet. Tem borda recheada, azeite importado e cobertura de lagosta institucional. O caso Vorcaro mostrou ao brasileiro médio uma aula prática de como funciona a culinária política: uns investigam, outros gritam, outros absolvem, outros jantam e, no final, a conta sempre chega para quem toma café sem açúcar porque o açúcar ficou caro.
E quando o povo começa a tentar entender alguma coisa, surge mais uma canetada monumental do arquipresidente Alexandre de Moraes, alterando dosimetrias como quem troca o pneu de um Fusca, num pega, no meio da Belém-Brasília. O brasileiro já não sabe se a lei é um trilho firme ou uma pista de patinação artística. Cada decisão produz vinte especialistas instantâneos, quarenta juristas de Instagram e duzentos vídeos explicando que “agora vai”. Nunca vai. O Brasil é a única nação onde o futuro não chega, nem cansado, antes do presente terminar.
Enquanto isso, o trabalhador brasileiro continua sendo o personagem mais humilhado desse grande teatro guarani. Ele acorda cinco da manhã, pega ônibus lotado, enfrenta calor de forno de pizzaria e ainda precisa ouvir que a culpa de tudo é dele porque tomou um financiamento de geladeira em 24 vezes. O Estado gasta como um príncipe árabe em liquidação de iates, mas exige do cidadão a disciplina de um Dalai.
Eles querem um povo permanentemente deprimido, assustado e obediente, como o cubano. Mas o brasileiro tem um defeito gravíssimo: teima em sobreviver sorrindo e gozando de tudo e de todos, como um brasileiro.
No fundo, o Brasil continua sendo um país extraordinário administrado emocionalmente como um grupo de condomínio brigando por vaga de garagem. Temos água, comida, energia, minério, floresta, criatividade e um povo capaz de transformar dificuldade em negócio e miséria em poesia de botequim. Uma máquina de moer esperança funcionando vinte e quatro horas por dia. A mesma máquina que cubanizou a América do Sul.
Cuba era o paraíso na terra até que uns infelizes a deflorassem e implantassem um regime onde só os palacianos pudessem viver. Os Vorcaros da época, roubavam e assaltavam barcos e bancos, para irem gastar nos belíssimos cabarés de Cuba. Aí, os deuses chegaram, destruíram até os cabarés. Cuba é o inferno. E querem ser exemplos.
E assim seguimos nós, os brasileirinhos comuns, tentando pagar boletos enquanto especialistas explicam o fim da República pela terceira vez na semana. O Brasil virou um país onde a informação já não informa: ela estressa, deprime, envelhece e adoece seu povo.
Mas cuidado. Um povo cansado também aprende. E quando o brasileiro começa a perceber que está sendo tratado como figurante no banquete dos poderosos, pode resolver sair da plateia. E aí, meu amigo, não haverá pizza requentada, canetada milagrosa ou comentarista histérico capaz de salvar o espetáculo.
Eu lembro bem dos dois discos em Long-Play do espetacular comediante do Acre, o José Vasconcelos: o primeiro foi ”Eu sou o espetáculo” e o segundo foi “O espetáculo continua”. O povo já está esperando o convite para reinterpretá-lo.
A tortura que os EUA viram no Brasil
Em passeatas e na porta dos quartéis, os “patriotas” pediram a volta da ditadura. Com alguns cúmplices, generais entre eles, Jair Bolsonaro cumpre pena por tentar um golpe de Estado. O capitão nunca escondeu seu apreço pelo regime militar. O livro “Olhares ianques: a ditadura brasileira nos arquivos norte-americanos”, de Felipe Loureiro, merece ser lido e decorado pelos bolsonaristas e simpatizantes da direita radical. Não é certo que a leitura os transforme em democratas — mas sempre há esperança.
Loureiro teve acesso a milhares de informações produzidas pela diplomacia americana lotada no Brasil. Alguns fatos já eram conhecidos, como a obsessão do embaixador Lincoln Gordon com o governo de João Goulart e o envio pelos Estados Unidos de uma fragata com soldados para apoiar os golpistas de 1964.
Os informes consultados trazem evidências capazes de ajudar na reconstrução do pior período da vida política brasileira. Entre eles, reportado nos telegramas, o pedido do presidente Emílio Garrastazu Médici para que os associados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contribuíssem para equipar o DOI-Codi. Com a carta do ditador na mão, o portador, general Humberto de Souza Mello, pedia dinheiro. Alegou que o aparelho de segurança — leia-se repressão — custava caro. O DOI-Codi notabilizou-se pela tortura e morte de adversários do regime militar. Entre os vários assassinados, estão o jornalista Vladimir Herzog e operário Manuel Fiel Filho.
Diante do pedido de Médici, o presidente da Fiesp, Theobaldo de Nigris, tratou de mobilizar os empresários. De acordo com os documentos, os dirigentes de empresas americanas no Brasil concordaram em participar da “arrecadação”, apesar da oposição da embaixada. Os diplomatas receavam o possível vazamento da operação. Temiam que o governo dos Estados Unidos fosse envolvido na trama. Dirigentes da General Electric do Brasil, da DuPont e da Caterpillar não se mostraram convencidos e seguiram com a doação. Cerca de 20 empresas atenderam à convocação. Como cortina de fumaça, o dinheiro foi destinado a um pretenso “programa educacional” da Fiesp. Note o cinismo: pediram em troca nota fiscal para lançar no balanço.
Se havia dúvida a respeito do conhecimento de Médici sobre os sequestros, torturas no pau de arara, mortes e desaparecimentos de presos políticos, os telegramas trazem relatos de autoridades brasileiras corroborando sua conivência com a violência. O ministro da Justiça, Armando Falcão, em conversa com diplomatas americanos, contou que o governo Médici havia dado “carta branca” às forças repressoras na luta contra os “subversivos”. Era política de Estado.
Embora o regime negasse publicamente a tortura, um representante da embaixada, Richard Rock, registrou que foi convocado pelo general Antônio Bandeira a servir de intérprete na “sessão” de tortura de um preso suíço. Pendurado no pau de arara, ele sofria choques no corpo, e palmas dos pés e das mãos eram queimadas por cigarro.
Os americanos logo perceberam o fanatismo de alas militares na caça aos adversários do regime. Notaram ainda como a repressão havia se tornado caótica. Diferentes instâncias policiais sentiam-se autorizadas a realizar prisões a esmo. Foi o caso de um funcionário da embaixada, sem qualquer ligação política, detido por dois meses e torturado. Prisões de cidadãos comuns se multiplicaram Brasil afora.
Os relatos, quase sempre, traziam o nome de quem forneceu a informação. Na coleta, estavam o embaixador, seus secretários e adidos militares (leia-se: agentes da CIA). Os documentos reproduziam conversas com os ditadores, ministros, deputados, diversos generais e até motoristas dos militares narrando combinações ouvidas durante o trajeto de seus superiores.
Em encontro com o futuro presidente Ernesto Geisel, o general Mílton Tavares, comandante do II Exército, em São Paulo, relatou que, no ano anterior, 1973, haviam sido executados “sumariamente” 104 presos políticos. Ele aconselhou Geisel: tal política de repressão deveria ser mantida em seu governo.
A Comissão Nacional da Verdade apurou que 434 prisioneiros políticos foram assassinados ao longo da ditadura (1964-1985). Os americanos relataram que, entre 1968 e meados de 1971, ocorreram 800 mortes “misteriosas” pelo Esquadrão da Morte — número que não entrou no cômputo oficial. Dele fazia parte o delegado Sérgio Fleury, protegido e admirado pelo ministro do Exército, Orlando Geisel. Tinha “costas quentes”.
Era a ditadura que Bolsonaro queria de volta.
Loureiro teve acesso a milhares de informações produzidas pela diplomacia americana lotada no Brasil. Alguns fatos já eram conhecidos, como a obsessão do embaixador Lincoln Gordon com o governo de João Goulart e o envio pelos Estados Unidos de uma fragata com soldados para apoiar os golpistas de 1964.
Os informes consultados trazem evidências capazes de ajudar na reconstrução do pior período da vida política brasileira. Entre eles, reportado nos telegramas, o pedido do presidente Emílio Garrastazu Médici para que os associados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contribuíssem para equipar o DOI-Codi. Com a carta do ditador na mão, o portador, general Humberto de Souza Mello, pedia dinheiro. Alegou que o aparelho de segurança — leia-se repressão — custava caro. O DOI-Codi notabilizou-se pela tortura e morte de adversários do regime militar. Entre os vários assassinados, estão o jornalista Vladimir Herzog e operário Manuel Fiel Filho.
Diante do pedido de Médici, o presidente da Fiesp, Theobaldo de Nigris, tratou de mobilizar os empresários. De acordo com os documentos, os dirigentes de empresas americanas no Brasil concordaram em participar da “arrecadação”, apesar da oposição da embaixada. Os diplomatas receavam o possível vazamento da operação. Temiam que o governo dos Estados Unidos fosse envolvido na trama. Dirigentes da General Electric do Brasil, da DuPont e da Caterpillar não se mostraram convencidos e seguiram com a doação. Cerca de 20 empresas atenderam à convocação. Como cortina de fumaça, o dinheiro foi destinado a um pretenso “programa educacional” da Fiesp. Note o cinismo: pediram em troca nota fiscal para lançar no balanço.
Se havia dúvida a respeito do conhecimento de Médici sobre os sequestros, torturas no pau de arara, mortes e desaparecimentos de presos políticos, os telegramas trazem relatos de autoridades brasileiras corroborando sua conivência com a violência. O ministro da Justiça, Armando Falcão, em conversa com diplomatas americanos, contou que o governo Médici havia dado “carta branca” às forças repressoras na luta contra os “subversivos”. Era política de Estado.
Embora o regime negasse publicamente a tortura, um representante da embaixada, Richard Rock, registrou que foi convocado pelo general Antônio Bandeira a servir de intérprete na “sessão” de tortura de um preso suíço. Pendurado no pau de arara, ele sofria choques no corpo, e palmas dos pés e das mãos eram queimadas por cigarro.
Os americanos logo perceberam o fanatismo de alas militares na caça aos adversários do regime. Notaram ainda como a repressão havia se tornado caótica. Diferentes instâncias policiais sentiam-se autorizadas a realizar prisões a esmo. Foi o caso de um funcionário da embaixada, sem qualquer ligação política, detido por dois meses e torturado. Prisões de cidadãos comuns se multiplicaram Brasil afora.
Os relatos, quase sempre, traziam o nome de quem forneceu a informação. Na coleta, estavam o embaixador, seus secretários e adidos militares (leia-se: agentes da CIA). Os documentos reproduziam conversas com os ditadores, ministros, deputados, diversos generais e até motoristas dos militares narrando combinações ouvidas durante o trajeto de seus superiores.
Em encontro com o futuro presidente Ernesto Geisel, o general Mílton Tavares, comandante do II Exército, em São Paulo, relatou que, no ano anterior, 1973, haviam sido executados “sumariamente” 104 presos políticos. Ele aconselhou Geisel: tal política de repressão deveria ser mantida em seu governo.
A Comissão Nacional da Verdade apurou que 434 prisioneiros políticos foram assassinados ao longo da ditadura (1964-1985). Os americanos relataram que, entre 1968 e meados de 1971, ocorreram 800 mortes “misteriosas” pelo Esquadrão da Morte — número que não entrou no cômputo oficial. Dele fazia parte o delegado Sérgio Fleury, protegido e admirado pelo ministro do Exército, Orlando Geisel. Tinha “costas quentes”.
Era a ditadura que Bolsonaro queria de volta.
De Gutemberg a Zuckerberg
Da prensa de Johann Gutenberg, no século XV, às plataformas de Mark Zuckerberg, no século XXI, a história se repete: quem controla o meio tenta controlar a narrativa, a economia, a política e a própria percepção do que é real.
Quando Gutenberg adaptou a prensa de vinho para imprimir com tipos móveis, em 1440, ele não criou apenas um método mais rápido de reproduzir a Bíblia. Criou a primeira ruptura no monopólio da informação. Antes dele, o conhecimento vivia trancado nos mosteiros, copiado à mão por monges, em latim, a um custo que só a Igreja e a nobreza podiam pagar. Depois dele, os panfletos de Martinho Lutero circularam pela Europa em alemão e em milhares de cópias. A Reforma Protestante, a ciência moderna e até a ideia de Estado-nação devem muito àquela máquina.
O poder reagiu rápido. Vieram a censura real, o Index de livros proibidos e a exigência de licença para imprimir. Ficou claro desde então que comunicar é disputar poder. O telégrafo e o rádio, no século XIX e início do XX, levaram essa disputa para outra escala. A Reuters passou a vender notícias em tempo real porque encurtar o tempo era encurtar o lucro. O Império Britânico cabeou o mundo por uma razão estratégica: informação é logística militar.
Com o rádio, os governos descobriram que uma única voz podia entrar em milhões de casas ao mesmo tempo. Roosevelt conversava com os americanos no Fireside Chat, Getúlio Vargas criava a Hora do Brasil e Goebbels transformava o aparelho em instrumento de propaganda. Era o broadcasting clássico. Um falava, todos ouviam.
O Estado virou o grande emissor e o cidadão foi educado para ser audiência. A televisão consolidou esse modelo e acrescentou a imagem ao som. Nos anos 1960, quase todos os lares americanos tinham um aparelho ligado. No Brasil, a Rede Globo definiu não só um padrão técnico, mas um padrão narrativo para o país. A TV não precisava dizer em quem votar. Bastava definir sobre o que a família falaria no jantar. A mídia de massa entendeu que o poder mais eficaz não é o que proíbe, mas o que agenda. O consenso passou a ser fabricado diariamente, entre uma novela e um telejornal.
A internet prometeu quebrar essa lógica. No início, cumpriu em parte. Blogs, fóruns e redes sociais deram voz a quem nunca teve um microfone. Mas a promessa de horizontalidade durou pouco. Zuckerberg não inventou a rede social. Inventou um modelo de negócio que transforma atenção em mercadoria. O Facebook e, depois, toda a Meta perceberam que o poder não está mais em ter a gráfica ou a torre de transmissão. Está em ter o feed. A TV falava com milhões ao mesmo tempo. O algoritmo fala com bilhões, um por um, de forma personalizada.
As plataformas têm o histórico de cliques, a localização madrugada adentro, o tempo que o dedo leva para passar por uma postagem. A mediação agora é invisível. Na TV havia um editor com nome e rosto. No feed, o editor é uma equação que ninguém audita e que decide se o usuário verá uma guerra, a promoção de um tênis ou a briga de influenciadores. E o mais lucrativo, o algoritmo descobriu, é o conflito. Polarizar engaja mais que informar.
O poder, nesse novo arranjo, tornou-se extrativista. Extrai comportamento e vende a quem pagar mais. Gutenberg e Zuckerberg têm mais em comum do que parece. Ambos foram acusados de desestabilizar a ordem. Ambos criaram ordens novas. Ambos disseram estar apenas conectando pessoas. A prensa tirou o poder da Igreja e entregou aos reis e, depois, aos barões da imprensa. A rede tirou o poder da imprensa tradicional e entregou a um punhado de empresas no Vale do Silício. Toda revolução da comunicação começa com uma utopia de liberdade e termina capturada por um novo centro. A pergunta, portanto, nunca foi se a tecnologia é boa ou má. A pergunta é a serviço de quem ela opera.
A prensa imprimiu a Bíblia e também os libelos que derrubaram reis. O rádio unificou nações e também convocou massas para a guerra. O feed elege, cancela, derruba bolsa de valores e cria a sensação de realidade para bilhões de pessoas. O próximo capítulo dessa história não será definido por quem tiver o maior conglomerado de comunicação. Será definido por quem programar a inteligência artificial que alimenta o algoritmo.
Gutemberg imprimiu a Bíblia. Zuckerberg imprimiu o timeline. O projeto continua sendo o mesmo, divulgar a narrativa que vira realidade.
Fernando Flores
Quando Gutenberg adaptou a prensa de vinho para imprimir com tipos móveis, em 1440, ele não criou apenas um método mais rápido de reproduzir a Bíblia. Criou a primeira ruptura no monopólio da informação. Antes dele, o conhecimento vivia trancado nos mosteiros, copiado à mão por monges, em latim, a um custo que só a Igreja e a nobreza podiam pagar. Depois dele, os panfletos de Martinho Lutero circularam pela Europa em alemão e em milhares de cópias. A Reforma Protestante, a ciência moderna e até a ideia de Estado-nação devem muito àquela máquina.
O poder reagiu rápido. Vieram a censura real, o Index de livros proibidos e a exigência de licença para imprimir. Ficou claro desde então que comunicar é disputar poder. O telégrafo e o rádio, no século XIX e início do XX, levaram essa disputa para outra escala. A Reuters passou a vender notícias em tempo real porque encurtar o tempo era encurtar o lucro. O Império Britânico cabeou o mundo por uma razão estratégica: informação é logística militar.
Com o rádio, os governos descobriram que uma única voz podia entrar em milhões de casas ao mesmo tempo. Roosevelt conversava com os americanos no Fireside Chat, Getúlio Vargas criava a Hora do Brasil e Goebbels transformava o aparelho em instrumento de propaganda. Era o broadcasting clássico. Um falava, todos ouviam.
O Estado virou o grande emissor e o cidadão foi educado para ser audiência. A televisão consolidou esse modelo e acrescentou a imagem ao som. Nos anos 1960, quase todos os lares americanos tinham um aparelho ligado. No Brasil, a Rede Globo definiu não só um padrão técnico, mas um padrão narrativo para o país. A TV não precisava dizer em quem votar. Bastava definir sobre o que a família falaria no jantar. A mídia de massa entendeu que o poder mais eficaz não é o que proíbe, mas o que agenda. O consenso passou a ser fabricado diariamente, entre uma novela e um telejornal.
A internet prometeu quebrar essa lógica. No início, cumpriu em parte. Blogs, fóruns e redes sociais deram voz a quem nunca teve um microfone. Mas a promessa de horizontalidade durou pouco. Zuckerberg não inventou a rede social. Inventou um modelo de negócio que transforma atenção em mercadoria. O Facebook e, depois, toda a Meta perceberam que o poder não está mais em ter a gráfica ou a torre de transmissão. Está em ter o feed. A TV falava com milhões ao mesmo tempo. O algoritmo fala com bilhões, um por um, de forma personalizada.
As plataformas têm o histórico de cliques, a localização madrugada adentro, o tempo que o dedo leva para passar por uma postagem. A mediação agora é invisível. Na TV havia um editor com nome e rosto. No feed, o editor é uma equação que ninguém audita e que decide se o usuário verá uma guerra, a promoção de um tênis ou a briga de influenciadores. E o mais lucrativo, o algoritmo descobriu, é o conflito. Polarizar engaja mais que informar.
O poder, nesse novo arranjo, tornou-se extrativista. Extrai comportamento e vende a quem pagar mais. Gutenberg e Zuckerberg têm mais em comum do que parece. Ambos foram acusados de desestabilizar a ordem. Ambos criaram ordens novas. Ambos disseram estar apenas conectando pessoas. A prensa tirou o poder da Igreja e entregou aos reis e, depois, aos barões da imprensa. A rede tirou o poder da imprensa tradicional e entregou a um punhado de empresas no Vale do Silício. Toda revolução da comunicação começa com uma utopia de liberdade e termina capturada por um novo centro. A pergunta, portanto, nunca foi se a tecnologia é boa ou má. A pergunta é a serviço de quem ela opera.
A prensa imprimiu a Bíblia e também os libelos que derrubaram reis. O rádio unificou nações e também convocou massas para a guerra. O feed elege, cancela, derruba bolsa de valores e cria a sensação de realidade para bilhões de pessoas. O próximo capítulo dessa história não será definido por quem tiver o maior conglomerado de comunicação. Será definido por quem programar a inteligência artificial que alimenta o algoritmo.
Gutemberg imprimiu a Bíblia. Zuckerberg imprimiu o timeline. O projeto continua sendo o mesmo, divulgar a narrativa que vira realidade.
Fernando Flores
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