A política brasileira atingiu um estágio de surrealismo onde até as bactérias ganham ideologia. O recente episódio envolvendo a suspensão de lotes de detergentes da marca Ypê pela Anvisa é o exemplo mais nítido de como a extrema-direita opera: ignora-se o fato técnico, abraça-se o negacionismo e vende-se a perseguição política como mercadoria de fácil consumo para os fiéis.
A realidade é simples, embora a desinformação tente torná-la turva. A Anvisa vetou a distribuição de lotes específicos contaminados. Não foi a marca Ypê que foi proibida de existir, foram unidades infectadas que oferecem risco real à saúde pública. O detalhe irônico que desmorona a tese conspiratória? A própria vigilância sanitária de São Paulo, estado governado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas, referendou a decisão.

Mas para o ecossistema bolsonarista, os fatos são meros obstáculos. Figuras políticas, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, entraram em cena para transformar uma questão sanitária em guerra ideológica. A narrativa é conveniente: os donos da empresa doaram milhões para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022, logo, qualquer fiscalização técnica vira “retaliação do sistema”.
O que assistimos é a reedição do comportamento criminoso visto durante a pandemia de Covid-19. É o mesmo desprezo pela ciência que custou 700 mil vidas, agora aplicado a frascos de limpeza. Políticos com mandato e responsabilidade pública preferem ver o povo consumindo produtos contaminados a admitir que agências de estado funcionam de forma autônoma.
Ao tentarem “polarizar bactérias”, os promotores desse circo mostram que sua única pauta é a destruição da confiança nas instituições. Para eles, a saúde do brasileiro é secundária, o que importa é manter a chama do ressentimento acesa, nem que para isso precisem fazer propaganda de produto contaminado.
Conheci um homem que vendia gentilezas.
Não sei se por prudência, ou devido à extrema raridade do produto, mantinha um estoque reduzido. Era um sujeito de outro tempo, sempre muito elegante, muito direito, muito discreto. Vendia as gentilezas a preços módicos, e só aceitava pagamento após o cliente obter resultados:
— Não se preocupe, cavalheiro. — Explicava. — A gentileza cobra-se depois...
Nunca percebi como funcionava o sistema. Suspeito que nem ele. O nosso tempo valoriza a grosseria. Algumas pessoas acumulam pequenas brutalidades como quem junta milhas aéreas. Somam alegremente comentários impróprios, gritos, insultos, piadas racistas, interrupções ruidosas.
Nas redes sociais a gentileza tende a ser desprezada porque não escandaliza, não irrita, não indigna, não provoca. Enfim, não rende likes. O vendedor de gentilezas estava ciente do estado do mundo. Ainda assim, insistia:
— É um mercado de nicho...
Por vezes surgia alguém à procura de uma gentileza urgente — uma palavra terna; um pedido de desculpas; um silêncio mais que perfeito. Nessas alturas, o homem tornava-se grave, quase solene. Escolhia as peças com o cuidado de um relojoeiro.
Na maior parte dos dias, contudo, não aparecia ninguém. Então o vendedor de gentilezas sentava-se à porta da loja, numa cadeira de palhinha, e oferecia os seus produtos aos menos apressados. Um bom-dia dito com atenção, olhos nos olhos. Um elogio inesperado. Um pedido de desculpa antecipado, para eventuais falhas futuras. Nem todos aceitavam. Alguns desconfiavam. Outros aceleravam o passo, sem olhar para trás, como se estivessem a ser abordados por um credor.
A gentileza, como se sabe, cria embaraço. Não estamos habituados. Preferimos o tom neutro, a indiferença funcional. Quase sempre é mais seguro. Não nos compromete.
Um dia alguém denunciou o vendedor de gentilezas. Manhã muito cedo, dois agentes bateram-lhe à porta. Pediram para ver o catálogo. Queriam saber que tipo de gentilezas circulavam, a quem eram dirigidas e com que frequência. Um deles, o mais velho, anotava tudo num caderno de capa preta, como se estivesse registando infrações.
— Isto pode ser interpretado como um incentivo à subversão! — rosnou.
— Subversão?! — espantou-se o vendedor.
— Com certeza. Insurgência! Veja bem... A gentileza é uma ameaça à desunião da sociedade. E sem desunião, o que fariam os políticos? Todo o sistema se desintegraria.
O segundo agente ergueu a voz:
— O pior é o contágio…
O vendedor escutou atento. À despedida, ofereceu-lhes duas gentilezas de cortesia: um agradecimento sincero pelo tempo dispensado e um voto de bom dia, dito sem ironia.
Os agentes hesitaram. Não sabiam se deviam aceitar. Acabaram por levar as gentilezas, embrulhadas em fino silêncio. Consta que, dias depois, o mais velho começou a cumprimentar os vizinhos. O outro pediu desculpa à esposa por não saber ouvi-la.
Os agentes estavam certos ao acusarem o vendedor — não há nada mais subversivo do que a gentileza. Também estavam certos quanto ao perigo de contágio.
José Eduardo Agualusa
“Israel não pode existir como um Estado normal sob a ideologia do sionismo. O sionismo deve desaparecer. O Estado de Israel permanecerá.. A questão é que tipo de Estado será. Ele deve mudar fundamentalmente. Sob a ideologia sionista, isso não é possível”. Essa declaração é do historiador isralense Omer Bartov, em entrevista ao jornal Haaretz na semana passada, quando lançou seu último livro, “Israel: What Went Wrong”, (Israel: O que deu errado?) em que tenta responder as razões do genocídio em Gaza e como Israel chegou a essa tragédia.
Foi em maio de 2024 que o historiador concluiu que Gaza se enquadrava na definição de genocídio prevista na Convenção da ONU. Ele havia resistido a utilizar a palavra publicamente, mas quando a usou, irritou o meio acadêmico e as comunidades judaicas. Bartov é um dos estudiosos do Holocausto mais citados do mundo. Seu livro “Anatomia de um genocídio: a vida e a morte de uma cidade chamada Buczacz”,de 2018, ganhou o Prêmio Nacional do Livro Judaico e o Prêmio Internacional do Livro Yad Vashem para pesquisa sobre o Holocausto.
Ele recorda que na imprensa israelense o ataque do Hamas foi enquadrado como um ato semelhante ao Holocausto, e que os membros do Hamas foram classificados de nazistas. Qualquer crítica às ações de Israel foi – e ainda é – considerada um ato antissemita. “Quando falamos de Israel se tornando um Estado pária, isso não é produto do antissemitismo. É produto das ações de Israel. Vamos analisar isso de um ângulo diferente: se o sionismo pudesse levar ao genocídio em Gaza, ele não poderia mais se sustentar como ideologia. E se Israel sempre se definiu como a resposta ao Holocausto e usou o Holocausto para justificar tudo, não pode ser que a resposta ao Holocausto seja outro genocídio”, critica.
Ele analisa também a relação entre memória histórica e política contemporânea. Bartov argumenta que, ao longo das décadas, o Holocausto deixou de ser apenas um evento histórico para se tornar um elemento estruturante da identidade israelense. Transformou-se em um tema sensível com dois efeitos simultâneos: por um lado, silencia críticas legítimas ao sionismo; por outro, atacar as aões de Israel em Gaza pode encobrir formas reais de antissemitismo.
Bartov nasceu em Ein HaHoresh, um kibutz no centro de Israel, filho do escritor Hanoch Bartov. Lutou na Guerra do Yom Kippur e, após se formar na Universidade de Tel Aviv e em Oxford, mudou-se para os Estados Unidos. É professor de Estudos do Holocausto na Universidade Brown desde 2000. “Sou um estudioso do genocídio. Reconheço quando vejo um”, afirmou.
O historiador, apesar de sua posição, afirma que não é antissionista: “cresci em um lar sionista. Não me oponho à existência do Estado de Israel. Mas o sionismo, como ideologia, tornou-se algo que não reconheço, uma ideologia do Estado, militarista e expansionista, mas também racista e extremamente violenta. “É irônico e trágico que um movimento que começou como uma tentativa de libertar os judeus da perseguição, de lhes dar um lugar próprio – um processo de emancipação, libertação, aspiração humanitária – termine seu caminho assim”, lamenta.
Bartov também critica o uso recorrente do argumento de autodefesa por Israel. Para ele, tanto o direito à resistência quanto o direito à autodefesa possuem limites claros no direito internacional — e não justificam massacres de civis. Ele classifica o ataque do Hamas em 7 de outubro como crime de guerra e contra a humanidade, mas sustenta que isso não legitima a resposta genocida de Israel.
“Os líderes do Hamas estão mortos, mas atingiram seu objetivo, que era romper o cerco de Netanyahu, que ‘gerenciava’ o conflito e ninguém no mundo se importava, O Hamas transformou isso em um conflito regional. Israel agora está lutando no Líbano, na Síria e no Irã. Da perspectiva da ala extremista do Hamas, que na verdade é bastante semelhante ao pensamento de [Bezalel] Smotrich [ministro de Finanças de Israel] e Ben-Gvir [Ministro da Segurança Nacional de Israel], eles alcançaram seu objetivo. Sabiam que o preço seria terrível. Mas, para atores messiânicos, o preço é aceitável.”
Uma evidência desse silenciamento é que o livro será lançado em oito idiomas, porém, até o momento, não foi publicado em Israel. “Em Israel, entrei em contato com editoras, incluindo as chamadas editoras de esquerda. Uma delas me escreveu: ‘Não acho que este seja o momento certo’. Outras disseram ‘sim, vamos verificar, vamos ler’ – e depois desapareceram”.
Bartov foge da lógica binária entre bons e maus. “Eu teria preferido ver os líderes do Hamas capturados e levados a julgamento ao lado de vários líderes israelenses. Esse seria um julgamento que valeria a pena assistir”.