segunda-feira, 4 de maio de 2026

Pensamento do Dia

 


A Terra já passou dos limites. Nós é que ainda não percebemos

Nas últimas décadas, o mundo transformou-se a uma velocidade sem precedentes. A ânsia pelo crescimento económico, a expansão da população e o aumento do consumo de recursos criaram uma pressão sem igual sobre os ecossistemas do planeta Terra. Crescemos como se o planeta fosse infinito e, hoje, sabemos que não é. A ciência é clara: já ultrapassámos vários dos limites do planeta.


Estes limites são fronteiras biofísicas que sustentam o funcionamento da Terra e obedecem a leis naturais. São como linhas vermelhas que, quando ultrapassadas, nos empurram para zonas de risco onde os sistemas naturais deixam de responder de forma previsível. Agrupam-se em nove grandes áreas: alterações climáticas, acidificação dos oceanos, poluição química, ciclos do azoto e do fósforo, uso de água doce, utilização dos solos, biodiversidade, poluição atmosférica e destruição da camada de ozono.

No fundo, é como viver numa casa onde as paredes começam a rachar: não cai tudo de um dia para o outro, mas cada fissura aumenta a probabilidade de colapso.

Os sinais estão por todo o lado − ondas de calor, secas, incêndios e extinção de espécies − e mostram que vivemos uma crise ambiental global. Quantos mais sinais são necessários até deixarem de ser ignorados?

Esta crise afeta todos os países, mesmo os que seguem caminhos de desenvolvimento sustentável, com impactos na economia e na inclusão social. Além disso, amplifica fragilidades locais, criando um ciclo que se retroalimenta.

As cidades têm um papel fundamental na transição para a sustentabilidade global nos próximos anos. Cerca de 70% da riqueza mundial (medida pelo produto interno bruto) é gerada nas cidades. Ou seja, onde existem as maiores oportunidades económicas, de criação de emprego, de negócio, de inovação e de interação social. Não obstante, é também nas cidades que se verificam os maiores e mais complexos problemas ambientais, nomeadamente no que respeita ao uso da energia, à gestão de resíduos, ao uso do solo, ao consumo de recursos, etc.

Quando olhamos para esta realidade à luz da ciência, a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável deixa de ser apenas uma aspiração e passa a ser uma questão de gestão de risco. Não se trata do que seria ideal fazer, mas do que ainda é possível fazer sem empurrar o sistema para zonas de instabilidade. Neste contexto, a ação governativa assume um papel decisivo: incorporar conhecimento científico nas decisões, recorrer a ferramentas de avaliação e monitorização robustas e basear escolhas em cenários, dados e indicadores fiáveis.

A boa notícia é que não começamos do zero. Temos conhecimento, temos ferramentas e alternativas. Falta-nos a coragem de assumir que a transição para a sustentabilidade/o desenvolvimento sustentável não é confortável, mas um processo exigente de escolhas, prioridades e negociações − um processo que exige decisões informadas pela ciência e uma governação capaz de olhar para o planeta, e para nós, com mais humildade.

E se o problema não estiver na falta de soluções, mas na forma como estamos a olhar para o sistema?

O que está em causa não são problemas isolados, mas o comportamento de um sistema complexo sob pressão. Muitas das dificuldades atuais não resultam da ausência de soluções, mas da forma como os sistemas estão organizados e interagem entre si.

Olhar para a sustentabilidade começa por reconhecer que vivemos num sistema finito e altamente interdependente: o planeta Terra. E implica compreender o mundo como uma interação complexa entre sistemas económicos, sociais, ambientais e políticos. Essa interação torna evidente que não é possível maximizar tudo ao mesmo tempo.

Neste contexto, não existem soluções perfeitas, pois os trade-offs − escolhas entre opções em tensão − são inevitáveis. Isso exige redistribuição de recursos, priorização de objetivos e, sobretudo, uma aceitação de que os ganhos numa dimensão implicam, muitas vezes, perdas noutra.

O planeta já passou dos limites. Agora cabe-nos decidir se continuamos a ignorar as fissuras da “nossa” casa ou se finalmente escolhemos reforçar as suas fundações.

A irresponsabilidade da multidão

A multidão que se chama parlamento nunca se sente tão feliz como quando pode calar com gritos um orador e derrubar um ministro; a multidão que se chama comício agita-se e exalta-se, mal um grito a incita a bradar "Abaixo!" sob as janelas de um inimigo ou a reclamar a cabeça de um indivíduo odiado ou ainda a queimar qualquer símbolo do poder, quer se trate de um panfleto, quer de um palácio de justiça; a multidão reunida num teatro que dá pelo nome de público pode aplaudir uma peça nova, mas, quando estimulada, não hesita em condenar e precipitar à força de uivos e assobios quem supunha tê-lo conquistado e ser-lhe, pelo engenho, superior.

No fundo, toda a multidão é um público, que não quer dispersar sem ter assistido a um espetáculo. No entanto, selvagem como é, prefere os espetáculos trágicos; sente o circo dos gladiadores ou o torneio, mais do que a fábula pastoral. Quando se animaliza, quer sangue – pelo menos, vê-lo.

Estar entre muitos incute a sensação de força, ou seja, da prepotência e, ao mesmo tempo, a certeza da irresponsabilidade e da absolvição.

Giovanni Papini

Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista

Parece ser mais uma operação do Banco Master. O PL deverá lançar em São Paulo a candidatura do deputado André do Prado ao Senado. E, como suplente, se a lei permitir, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eleito, Prado poderia ocupar uma secretaria de Estado ou um ministério, caso Flávio Bolsonaro vença as eleições. Com isso, Eduardo assumiria o mandato de senador.

Assim como as debêntures de Vorcaro até meses atrás tinham valor no mercado, a artimanha do PL e de Eduardo é permitida pela legislação eleitoral. Tem sido praticada para dar cobertura a personagens sem voto, muitos deles milionários ou aqueles com dívidas ainda não julgadas pela Justiça. O filho de Jair está nesse último bloco, atingido por inquéritos diversos. Depois de desejar chantagear o país pela absolvição de seu pai, vive nos Estados Unidos. Não volta ao Brasil por recear ser preso ao colocar o pé no aeroporto. É um bom candidato para representar São Paulo no Senado?



À beira das eleições, os bolsonaristas se mobilizam para o desembarque no Senado. No discurso, pretendem conseguir votos para retirar ministros do STF. É da política. Poderiam até querer mudar a camisa do Vasco. Na prática, no entanto, vendem o país. E, nessa ação, os filhos de Jair fazem a feira. Eduardo lutou para que o governo americano impusesse tarifas pesadas aos produtos brasileiros. Era chantagem. Queria em troca libertar o pai condenado por golpismo. Flávio, aquele que não fala nada no Brasil, foi aos Estados Unidos oferecer o subsolo do país — as terras-raras – e, com a outra mão, pedir interferência nas eleições de outubro.

Nunca, neste país, surgiu uma direita tão entreguista. Os militares de 1964 tiveram ajuda dos americanos para dar um golpe de Estado. Mas eram nacionalistas, e não estava na mesa a entrega do país. Os bolsonaristas nem sequer se envergonham e perpetram o escambo à luz do dia. Não houve arrependimento pela perda de empregos causada pelo tarifaço trumpista ou mudança de planos na entrega das terras-raras.

Mesmo não declarados, esses são os propósitos reais da direita radical. Espécie de subserviência consentida — ou o Brasil como mais um estado norte-americano. De novo, a História escapa de nossas mãos. Foi assim com a Revolução Industrial e a miopia das classes dirigentes do Império — aquelas que defendiam a manutenção da mão de obra escrava na economia. Não à toa, ainda somos um país quase extrativista, exportador de commodities. Dependemos das boas chuvas.

Com o mundo próximo de uma mudança radical nos meios de produção — a tal IA —, com consequências para toda a sociedade, os políticos não conseguem mirar um metro à frente. Vazado à direita por um golpismo renitente e, à esquerda, por um estatismo anacrônico (viva a Terrabras!), o país se vê enredado no feitiço do tempo que o leva a repetir padrões. De um lado ou de outro, um crescimento medíocre apoiado por políticas ultrapassadas.

Pergunta: não é de estranhar que os sucessos econômicos, nas últimas décadas, sejam o PCC de Marcola e o Master de Vorcaro? Poderiam ser lembrados ainda os rendimentos do Judiciário e a carga tributária.

Para só ficar em alguns nomes de São Paulo, o Senado já contou com Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Eduardo Suplicy. Covas foi quem, em 1988, na tribuna do Senado, defendeu um choque de capitalismo na economia brasileira. No país recém-democratizado, ainda sob a hiperinflação herdada dos militares, ele defendia o fim dos subsídios e privilégios; privatizações e abertura da economia; disciplina fiscal rigorosa; e reforma institucional. Presidente da República, Fernando Henrique conseguiu seguir algumas das propostas de Covas, como extirpar a inflação. Mas nem todas avançaram — a reforma da Previdência encontrou no PT de Lula forte oposição. Idem o conceito de privatização. Minuto de silêncio: devemos lembrar o rombo dos Correios e da anunciada Terrabras; integram nosso museu de grandes novidades.

A polarização cegou o país para o futuro. Estamos presos na mediocridade dos extremos. O país envelhece rapidamente e não se discute a capacitação dos jovens. Mas se fala de golden shower. Fala-se de todos os tipos de cotas, e não se briga por uma educação fundamental que ensine o básico da matemática. É evocado o nome de Deus, e não se vê como pecado a letalidade sobre jovens pobres e negros.

Os próximos senadores terão a missão de decidir o que o Brasil deseja ser. Porque, ao final de seus mandatos, o mundo será irremediavelmente outro.

O debate inútil

A  polarização política continua a existir, disso não há dúvida. No entanto, trata-se de um fenómeno estudado, compreendido e que pode ser gerido. Os politólogos que se têm debruçado sobre o tema concluem que se intensifica quando estes indivíduos falam somente com quem partilha das mesmas opiniões, quase sempre portadores de um perfil psicológico conflituoso e que se envolvem emocionalmente num processo de corte radical, ou seja, categorizando outras pessoas e grupos como totalmente bons ou totalmente maus e comunicando isso exaltadamente ao resto do mundo.

São características particularmente marcantes nos indivíduos que sofrem de psicopatologias narcisistas e antissociais. Quando assumem cargos de liderança, polarizam os grupos como forma de aumentar o seu poder. Mas como conseguem fazê-lo?


Primeiro, porque um grupo com uma predisposição inicial sobre um determinado assunto reforça a sua posição original com mais argumentos consonantes. Em seguida, os membros do grupo ajustam as suas opiniões para se adequarem melhor às do líder e às da maioria dos membros. Por último, os restantes membros, os mais hesitantes, vão ganhando confiança progressivamente e tendem a tornar-se ainda mais radicais quando, por fim, fazem uso do megafone. No conjunto, os pontos de vista ligeiramente diferentes tendem a convergir num consenso mais forte do que o inicial.

Mas há formas de reduzir a polarização política. Os estudos mais referidos relatam experiências em que foram colocados indivíduos com pontos de vista divergentes, e até de partidos diferentes, em pequenos grupos ou em conversas de um para um, sem saberem a que cor política pertencem. Ao conversarem com pessoas com opiniões muito diferentes ou mesmo opostas, sem a pressão do grupo, passaram a ver-se uns aos outros como seres humanos com histórias pessoais e preocupações semelhantes. Embora alguns não mudem de convicção, a partir daquelas discussões tendem a suavizar o discurso e a aproximar-se de uma conclusão mais equilibrada.

Torna-se fundamental conhecer pontos de vista diferentes, na rádio, na televisão, nos jornais, nas revistas e nas redes sociais. Embora gostemos de estar com pessoas que pensam como nós, corremos o risco de nos fecharmos numa bolha. É precisamente isso que está a acontecer com as gerações mais novas, mas também às pessoas com menor literacia política, que mergulham nas redes sociais, absortas, e se deixam bombardear com as polémicas que geram mais controvérsia, e consequentemente likes e visualizações.

Para criarmos um futuro pacífico, será benéfico para todos, de vez em quando, ouvir e conversar com aqueles com quem discordamos, de uma forma tão próxima e pessoal quanto possível. Para esse fim, todos os debates são úteis, desde que sirvam o diálogo, que tragam luz a um tema específico, e que não escalem para o desrespeito nem para a violência. É a ausência de diálogo, ou a incapacidade de ouvir o outro, que nos tem levado à escalada do conflito para o patamar da guerra.

No entanto, também há debates inúteis, e podemos identificá-los: quando uma das partes não está interessada em ouvir, mas apenas em impor a sua visão, ignorando qualquer argumento contrário; quando há crenças inflexíveis que rejeitam factos verificáveis; quando o contexto é emocionalmente inflamável, prevalecendo ataques pessoais em vez de troca de ideias; quando não existem regras claras nem forma de as impor, levando à desordem; ou quando os temas já foram estudados e debatidos ao pormenor e se tornam redundantes.

O problema da polarização é mais relacional do que ideológico. Uma conversa sobre o que nos preocupa enquanto seres humanos inseridos numa sociedade é muito mais profunda do que uma conversa em torno de meras opiniões. Debatemos opiniões; discutimos preocupações. As preocupações são maioritariamente comuns à sociedade.

Tia Carminha e seus flertes com atos antidemocráticos

A eleição da desembargadora Maria do Carmo Cardoso para a presidência do TRF-1 é o tipo de notícia que faz qualquer observador do cenário jurídico brasileiro levantar a sobrancelha. Não é comum ver o comando do maior tribunal federal do país — que abrange quase metade do território nacional — ser entregue a quem já teve as redes sociais silenciadas pela própria Justiça por flertar com atos antidemocráticos.

Próxima da família Bolsonaro, a magistrada escreveu, logo após a eliminação do Brasil na Copa de 2022, que “nossa seleção verdadeira está na frente dos quartéis” e rotulou o técnico Tite como “petista”. Por ordem do ministro Luis Felipe Salomão — então corregedor nacional de Justiça e atual vice-presidente do STJ —, os perfis da desembargadora no Instagram e no X foram suspensos naquele ano.


Salomão afirmou que a publicação tinha “inequívoco” conteúdo político, incitando condutas antidemocráticas em áreas militares. O ápice desse movimento ocorreu no acampamento golpista em frente ao QG do Exército, em Brasília, de onde partiu a multidão que vandalizou as sedes dos Três Poderes no 8 de Janeiro.

Em sua defesa ao CNJ, a desembargadora alegou que “sequer tem conhecimento ou se recorda” da postagem. O corregedor reagiu, afirmando que a versão da magistrada “salta aos olhos”. Apesar disso, no fim de 2023, o processo foi arquivado por oito votos a seis. Ela assumiu a presidência do TRF-1 em 23 de abril de 2026.

O apelido carinhoso de “Tia Carminha”, comum nos corredores de Brasília, contrasta com o peso de suas novas responsabilidades. De um lado, há o marco simbólico de ser apenas a segunda mulher na história a presidir o tribunal — um motivo de celebração. Do outro, o desconforto institucional de ter no topo da hierarquia uma magistrada cujas opiniões pessoais já colidiram com os limites da democracia.

A questão não é sobre conservadorismo; o pluralismo de ideias é vital para a democracia. O problema surge quando a linha entre a convicção pessoal e o ativismo político se torna tão tênue que o Judiciário precisa intervir para conter danos. Quando uma desembargadora apoia movimentos que questionam as instituições que ela mesma integra, cria-se um nó ético preocupante.

Ao assumir o biênio 2026-2028, Maria do Carmo Cardoso enfrenta o desafio de provar que a “Tia Carminha” das redes ficou no passado e que a presidente do TRF-1 agirá com a isenção exigida pelo cargo. Em um tribunal que decide temas sensíveis — de questões ambientais na Amazônia a grandes licitações —, o país não precisa de ideologia, mas de respeito rigoroso à Constituição. No fim, a dúvida que resta é: o tribunal mudará a desembargadora ou ela mudará o tom do tribunal?

Responda, “Tia Carminha”. De ideologia e negócios suspeitos, os tribunais já estão cheios.

A crise moral da Europa

 A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.

A União Europeia é a "maior de todas as covardes", declarou a Anistia Internacional em um comunicado contundente divulgado em 21 de abril. A condenação foi uma resposta direta à falha sistêmica do bloco europeu em romper relações com Israel durante a reunião do Conselho de Assuntos Externos em Luxemburgo.

Apesar de meses de alertas jurídicos, a UE priorizou mais uma vez a segurança processual em detrimento da urgência da vida humana.

Os esforços para pressionar a UE a finalmente assumir uma posição moral foram liderados por uma coligação formada por Espanha, Irlanda e Eslovénia, à qual se juntou posteriormente a Bélgica. Argumentaram que o Acordo de Associação UE-Israel — o quadro jurídico que rege as suas relações comerciais — se baseia no “respeito pelos direitos humanos”.

Manter este acordo enquanto as violações extremas na Palestina ocupada continuarem significa tornar sem sentido os próprios tratados fundadores da UE.

Tal decisão, mesmo que tardia, teria feito um bem inestimável. Teria restaurado parte da credibilidade abalada da UE e reavivado o debate sobre o direito internacional. Mais importante ainda, teria iniciado uma série de medidas concretas para responsabilizar Israel e proporcionado aos palestinos uma esperança tangível.

Nada disso aconteceu, porém, graças ao lobby da Alemanha e da Itália. Essas nações atuaram como uma barreira diplomática, protegendo Israel das consequências.


A posição alemã permanece coerente com a defesa intransigente de Israel por Berlim, uma postura que persistiu mesmo durante o genocídio em Gaza. Como um país que deveria ser o maior defensor mundial contra o extermínio em massa, a Alemanha tem repetidamente protegido Israel no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e em outras instituições globais.

Durante esse genocídio, Berlim redobrou sua posição, insistindo que a acusação “não tem qualquer fundamento”. Essa postura rígida permaneceu inalterada mesmo com a adesão da Espanha ao caso da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça, sinalizando uma profunda ruptura no consenso jurídico e moral europeu.

Portanto, não foi surpresa que a liderança alemã tenha rejeitado a proposta de Luxemburgo de suspender o comércio como "inapropriada". Juntamente com a Itália, insistiu que a UE deve manter um "diálogo construtivo" com Tel Aviv — uma expressão que se tornou um eufemismo para cumplicidade.

A Itália apresenta um exemplo mais bizarro. Embora o governo de direita de Giorgia Meloni permaneça alinhado com a guarda pró-Israel, a mobilização do povo italiano tem sido uma das mais fortes da Europa.

As ruas de Roma e Milão têm sido palco de protestos em massa e greves gerais que rivalizam com o fervor visto na Espanha. No entanto, Meloni continua se recusando a atender ao apelo do seu povo, com seus ministros declarando em Luxemburgo que a proposta de suspensão do tratado foi “arquivada”.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, provavelmente sentiu um grande alívio após a votação. A economia israelense está atualmente em dificuldades sob o peso esmagador das guerras contínuas, com o déficit orçamentário aumentando à medida que os gastos com defesa disparam. A União Europeia continua sendo o maior parceiro comercial de Israel, com o comércio total de bens ultrapassando € 42 bilhões.

Este acordo proporciona um suporte económico vital através do acesso preferencial ao mercado e da integração de alta tecnologia; a sua suspensão desencadearia um choque financeiro devastador.

Mas o fato de a Alemanha e a Itália terem conseguido manter o tratado por enquanto não elimina a iminente ruptura que já está em curso.

Essa ruptura não está sendo liderada por governos, mas sim pelas sociedades europeias. Não seria exagero sugerir que a relação da Europa com Israel está destinada a uma mudança crucial. A divisão histórica entre os apoiadores incondicionais de Israel, como a Alemanha, e as nações mais simpáticas, como a Irlanda, está se desfazendo à medida que o pêndulo político oscila em direção à Palestina.

O campo linha-dura sofreu seu golpe mais significativo recentemente com a mudança política na Hungria. Com a ascensão de Péter Magyar, que prometeu que a Hungria respeitaria os mandados do TPI para a prisão de Netanyahu, Israel perdeu seu mais confiável "homem do veto" em Bruxelas.

Isso deixa a Alemanha cada vez mais isolada como a única potência defensora do status quo.

Não estamos mais falando de gestos simbólicos. Estamos testemunhando uma massa crítica de apoio à Palestina, acompanhada de ações diretas: acampamentos, contestações judiciais e greves. Em 14 de abril, foi noticiado que mais de um milhão de europeus assinaram uma petição formal intitulada “Justiça para a Palestina”, pedindo a Bruxelas a imposição de sanções.

Isso reflete uma pressão constante capaz de moldar as agendas políticas. Pesquisas deste mês indicam que apenas 17% dos entrevistados na Alemanha agora consideram Israel um parceiro confiável. Isso expõe um abismo crescente entre a opinião pública europeia e seus governos. Enquanto a Espanha parece estar respondendo ao sentimento popular, a Alemanha continua a agir em desacordo com ele.

Essas mesmas posições morais refletem-se nas atitudes em relação a outras guerras regionais. Pesquisas de março de 2026 mostram que 56% dos espanhóis e italianos se opõem à ação militar conjunta dos EUA e de Israel no Irã. A opinião pública vê cada vez mais essas guerras não como crises isoladas, mas como frentes interligadas de uma única política fracassada.

A rejeição da guerra faz parte de uma rejeição mais ampla da política militar israelense e do alinhamento dos governos europeus a ela. Essas mudanças não apenas isolaram Israel, como também começaram a isolar seus aliados. Além de Donald Trump e seu alinhamento total com a agenda de Netanyahu, a era de um bloco ocidental unificado que atendia incondicionalmente às demandas de Israel está chegando ao fim.

A explicação tradicional para o apoio da Europa — a culpa histórica pelo Holocausto — já não explica a conduta das elites políticas. Uma explicação mais precisa reside no próprio legado europeu de violência colonial e hierarquia racial.

No entanto, a verdadeira mudança pertence à sociedade civil e à resiliência dos palestinos que contornaram os filtros da mídia tradicional para falar diretamente com o mundo.

A Europa agora sabe que um genocídio foi cometido. É improvável que essa mudança de paradigma seja revertida, independentemente de os burocratas de Luxemburgo conseguirem ou não adiar o inevitável.