terça-feira, 1 de abril de 2025
A Mão Oculta: Governos árabes e a perpetuação da brutalidade israelita
À medida que a solidariedade com a Palestina se expande cada vez mais do Sul global para a maioria global, os árabes continuam amplamente ineficazes.
Explicar o fracasso político árabe em desafiar Israel por meio de análises tradicionais — como desunião, fraqueza geral e falha em priorizar a Palestina — não captura o quadro completo.
A ideia de que Israel está brutalizando os palestinos simplesmente porque os árabes são fracos demais para desafiar o governo de Benjamin Netanyahu — ou qualquer governo — implica que, em teoria, os regimes árabes poderiam se unir em torno da Palestina. No entanto, essa visão simplifica demais o assunto.
Muitos comentaristas pró-Palestina bem-intencionados há muito tempo pedem que as nações árabes se unam, pressionem Washington a reavaliar seu apoio inabalável a Israel e tomem ações decisivas para levantar o cerco a Gaza, entre outras medidas cruciais.
Embora essas medidas possam ter algum valor, a realidade é muito mais complexa, e é improvável que tal pensamento positivo mude o comportamento dos governos árabes. Esses regimes estão mais preocupados em sustentar ou retornar a alguma forma de status quo — um no qual a libertação da Palestina continua sendo uma prioridade secundária.
Desde o início do genocídio israelense em Gaza em 7 de outubro de 2023, a posição árabe sobre Israel tem sido fraca, na melhor das hipóteses, e traiçoeira, na pior.
Alguns governos árabes chegaram até a condenar a resistência palestina nos debates das Nações Unidas. Enquanto países como China e Rússia pelo menos tentaram contextualizar o ataque do Hamas de 7 de outubro às forças de ocupação israelenses impondo um cerco brutal a Gaza, países como Bahrein colocaram a culpa diretamente nos palestinos.
Com algumas exceções, os governos árabes levaram semanas — ou até meses — para desenvolver uma posição relativamente forte que condenasse a ofensiva israelense em termos significativos.
Embora a retórica tenha começado a mudar lentamente, as ações não seguiram. Enquanto o movimento Ansarallah no Iêmen, ao lado de outros atores árabes não estatais, tentou impor alguma forma de pressão sobre Israel por meio de um bloqueio, os países árabes, em vez disso, trabalharam para garantir que Israel pudesse suportar as potenciais consequências de seu isolamento.
Em seu livro "War", Bob Woodward revelou que alguns governos árabes disseram ao então Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que não tinham objeções aos esforços de Israel para esmagar a resistência palestina. No entanto, alguns estavam preocupados com as imagens da mídia de civis palestinos mutilados, o que poderia agitar a agitação pública em seus próprios países.
Essa agitação pública nunca se materializou e, com o tempo, o genocídio, a fome e os pedidos de ajuda em Gaza foram normalizados como mais um evento trágico, não muito diferente da guerra no Sudão ou do conflito na Síria.
Por 15 meses de genocídio israelense implacável que resultou na morte e ferimento de mais de 162.000 palestinos em Gaza, as instituições políticas árabes oficiais permaneceram amplamente irrelevantes para o fim da guerra. O governo Biden dos EUA foi encorajado por tal inação árabe, continuando a pressionar por uma maior normalização entre os países árabes e Israel — mesmo diante de mais de 15.000 crianças mortas em Gaza das formas mais brutais imagináveis.
Embora as falhas morais do Ocidente, as deficiências do direito internacional e as ações criminosas de Biden e seu governo tenham sido amplamente criticadas por servirem de escudo para os crimes de guerra de Israel, a cumplicidade dos governos árabes em permitir essas atrocidades é frequentemente ignorada.
Os árabes, de fato, desempenharam um papel mais significativo nas atrocidades israelenses em Gaza do que frequentemente reconhecemos. Alguns por meio de seu silêncio, e outros por meio de colaboração direta com Israel.
Ao longo da guerra, surgiram relatos indicando que alguns países árabes fizeram lobby ativamente em Washington em nome de Israel, se opondo a uma proposta da Liga Árabe-Egípcia que visava reconstruir Gaza sem limpar etnicamente sua população — uma ideia promovida pelo governo Trump e por Israel.
A proposta egípcia, que foi aceita por unanimidade pelos países árabes na cúpula de 4 de março, representou a posição mais forte e unificada adotada pelo mundo árabe durante a guerra.
A proposta, que foi rejeitada por Israel e descartada pelos EUA, ajudou a mudar o discurso nos EUA em torno do assunto da limpeza étnica. Ela acabou levando a comentários feitos em 12 de março por Trump durante uma reunião com o primeiro-ministro irlandês Micheál Martin, onde ele declarou que "Ninguém está expulsando ninguém de Gaza".
Para alguns estados árabes, opor-se ativamente à única posição árabe relativamente forte sinaliza que a questão dos fracassos árabes na Palestina vai além da mera desunião ou incompetência — ela reflete uma realidade muito mais sombria e cínica. Alguns árabes alinham seus interesses com Israel, onde uma Palestina livre não é apenas uma não questão, mas uma ameaça.
O mesmo se aplica à Autoridade Palestina em Ramallah, que continua a trabalhar de mãos dadas com Israel para suprimir qualquer forma de resistência na Cisjordânia. Sua preocupação em Gaza não é acabar com o genocídio, mas garantir a marginalização de seus rivais palestinos, particularmente o Hamas.
Assim, culpar a AP por mera "fraqueza", por "não fazer o suficiente" ou por não conseguir unificar as fileiras palestinas é uma interpretação equivocada da situação. As prioridades de Mahmoud Abbas e seus aliados da AP são bem diferentes: garantir poder relativo sobre os palestinos, um poder que só pode ser sustentado por meio do domínio militar israelense.
Essas são verdades difíceis, mas cruciais, pois nos permitem reformular a conversa, afastando-nos da falsa suposição de que a unidade árabe resolverá tudo.
A falha na teoria da unidade é que ela ingenuamente assume que os regimes árabes rejeitam inerentemente a ocupação israelense e apoiam a Palestina.
Enquanto alguns governos árabes estão genuinamente indignados com o comportamento criminoso de Israel e cada vez mais frustrados com as políticas irracionais dos EUA na região, outros são movidos por interesse próprio: sua animosidade em relação ao Irã e medo de atores árabes não estatais em ascensão. Eles estão igualmente preocupados com a instabilidade na região, que ameaça seu poder em meio a uma ordem mundial em rápida mudança.
À medida que a solidariedade com a Palestina se expande cada vez mais do Sul global para a maioria global, os árabes permanecem amplamente ineficazes, temendo que mudanças políticas significativas na região possam desafiar diretamente sua própria posição. O que eles não conseguem entender é que seu silêncio, ou seu apoio ativo a Israel, pode muito bem levar à sua própria queda.
Explicar o fracasso político árabe em desafiar Israel por meio de análises tradicionais — como desunião, fraqueza geral e falha em priorizar a Palestina — não captura o quadro completo.
A ideia de que Israel está brutalizando os palestinos simplesmente porque os árabes são fracos demais para desafiar o governo de Benjamin Netanyahu — ou qualquer governo — implica que, em teoria, os regimes árabes poderiam se unir em torno da Palestina. No entanto, essa visão simplifica demais o assunto.
Muitos comentaristas pró-Palestina bem-intencionados há muito tempo pedem que as nações árabes se unam, pressionem Washington a reavaliar seu apoio inabalável a Israel e tomem ações decisivas para levantar o cerco a Gaza, entre outras medidas cruciais.
Embora essas medidas possam ter algum valor, a realidade é muito mais complexa, e é improvável que tal pensamento positivo mude o comportamento dos governos árabes. Esses regimes estão mais preocupados em sustentar ou retornar a alguma forma de status quo — um no qual a libertação da Palestina continua sendo uma prioridade secundária.
Desde o início do genocídio israelense em Gaza em 7 de outubro de 2023, a posição árabe sobre Israel tem sido fraca, na melhor das hipóteses, e traiçoeira, na pior.
Alguns governos árabes chegaram até a condenar a resistência palestina nos debates das Nações Unidas. Enquanto países como China e Rússia pelo menos tentaram contextualizar o ataque do Hamas de 7 de outubro às forças de ocupação israelenses impondo um cerco brutal a Gaza, países como Bahrein colocaram a culpa diretamente nos palestinos.
Com algumas exceções, os governos árabes levaram semanas — ou até meses — para desenvolver uma posição relativamente forte que condenasse a ofensiva israelense em termos significativos.
Embora a retórica tenha começado a mudar lentamente, as ações não seguiram. Enquanto o movimento Ansarallah no Iêmen, ao lado de outros atores árabes não estatais, tentou impor alguma forma de pressão sobre Israel por meio de um bloqueio, os países árabes, em vez disso, trabalharam para garantir que Israel pudesse suportar as potenciais consequências de seu isolamento.
Em seu livro "War", Bob Woodward revelou que alguns governos árabes disseram ao então Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, que não tinham objeções aos esforços de Israel para esmagar a resistência palestina. No entanto, alguns estavam preocupados com as imagens da mídia de civis palestinos mutilados, o que poderia agitar a agitação pública em seus próprios países.
Essa agitação pública nunca se materializou e, com o tempo, o genocídio, a fome e os pedidos de ajuda em Gaza foram normalizados como mais um evento trágico, não muito diferente da guerra no Sudão ou do conflito na Síria.
Por 15 meses de genocídio israelense implacável que resultou na morte e ferimento de mais de 162.000 palestinos em Gaza, as instituições políticas árabes oficiais permaneceram amplamente irrelevantes para o fim da guerra. O governo Biden dos EUA foi encorajado por tal inação árabe, continuando a pressionar por uma maior normalização entre os países árabes e Israel — mesmo diante de mais de 15.000 crianças mortas em Gaza das formas mais brutais imagináveis.
Embora as falhas morais do Ocidente, as deficiências do direito internacional e as ações criminosas de Biden e seu governo tenham sido amplamente criticadas por servirem de escudo para os crimes de guerra de Israel, a cumplicidade dos governos árabes em permitir essas atrocidades é frequentemente ignorada.
Os árabes, de fato, desempenharam um papel mais significativo nas atrocidades israelenses em Gaza do que frequentemente reconhecemos. Alguns por meio de seu silêncio, e outros por meio de colaboração direta com Israel.
Ao longo da guerra, surgiram relatos indicando que alguns países árabes fizeram lobby ativamente em Washington em nome de Israel, se opondo a uma proposta da Liga Árabe-Egípcia que visava reconstruir Gaza sem limpar etnicamente sua população — uma ideia promovida pelo governo Trump e por Israel.
A proposta egípcia, que foi aceita por unanimidade pelos países árabes na cúpula de 4 de março, representou a posição mais forte e unificada adotada pelo mundo árabe durante a guerra.
A proposta, que foi rejeitada por Israel e descartada pelos EUA, ajudou a mudar o discurso nos EUA em torno do assunto da limpeza étnica. Ela acabou levando a comentários feitos em 12 de março por Trump durante uma reunião com o primeiro-ministro irlandês Micheál Martin, onde ele declarou que "Ninguém está expulsando ninguém de Gaza".
Para alguns estados árabes, opor-se ativamente à única posição árabe relativamente forte sinaliza que a questão dos fracassos árabes na Palestina vai além da mera desunião ou incompetência — ela reflete uma realidade muito mais sombria e cínica. Alguns árabes alinham seus interesses com Israel, onde uma Palestina livre não é apenas uma não questão, mas uma ameaça.
O mesmo se aplica à Autoridade Palestina em Ramallah, que continua a trabalhar de mãos dadas com Israel para suprimir qualquer forma de resistência na Cisjordânia. Sua preocupação em Gaza não é acabar com o genocídio, mas garantir a marginalização de seus rivais palestinos, particularmente o Hamas.
Assim, culpar a AP por mera "fraqueza", por "não fazer o suficiente" ou por não conseguir unificar as fileiras palestinas é uma interpretação equivocada da situação. As prioridades de Mahmoud Abbas e seus aliados da AP são bem diferentes: garantir poder relativo sobre os palestinos, um poder que só pode ser sustentado por meio do domínio militar israelense.
Essas são verdades difíceis, mas cruciais, pois nos permitem reformular a conversa, afastando-nos da falsa suposição de que a unidade árabe resolverá tudo.
A falha na teoria da unidade é que ela ingenuamente assume que os regimes árabes rejeitam inerentemente a ocupação israelense e apoiam a Palestina.
Enquanto alguns governos árabes estão genuinamente indignados com o comportamento criminoso de Israel e cada vez mais frustrados com as políticas irracionais dos EUA na região, outros são movidos por interesse próprio: sua animosidade em relação ao Irã e medo de atores árabes não estatais em ascensão. Eles estão igualmente preocupados com a instabilidade na região, que ameaça seu poder em meio a uma ordem mundial em rápida mudança.
À medida que a solidariedade com a Palestina se expande cada vez mais do Sul global para a maioria global, os árabes permanecem amplamente ineficazes, temendo que mudanças políticas significativas na região possam desafiar diretamente sua própria posição. O que eles não conseguem entender é que seu silêncio, ou seu apoio ativo a Israel, pode muito bem levar à sua própria queda.
Quando a fragmentação protege a democracia
Durante décadas, exaltamos as proezas da democracia americana. O sistema institucional majoritário dos EUA — presidencialista e bipartidário — era visto como um modelo a ser seguido.
Afinal, trata-se da democracia mais longeva e mais rica do mundo. Muitos ainda hoje atribuem a esse arranjo institucional o segredo do seu sucesso. A existência de um presidente, ainda que constitucionalmente limitado, amparado por uma maioria legislativa de seu partido, capaz de implementar sua agenda com poucas concessões. Soma-se a isso uma justiça ágil, eficaz e, em parte, escolhida diretamente pelos próprios eleitores.
Em contraste, sistemas presidencialistas multipartidários como o brasileiro são frequentemente retratados como disfuncionais e caóticos. A crítica recorrente apontava para a fragmentação partidária, a ineficiência decisória, a instabilidade institucional e um judiciário moroso e ineficaz — embora independente. Alguns, inclusive, responsabilizavam o sistema político brasileiro pelo desempenho econômico abaixo do esperado.
No entanto, a forma como Brasil e Estados Unidos têm lidado com líderes de perfil abertamente iliberal desafia essa interpretação tradicional. Ao observarmos as respostas institucionais diante das ameaças representadas por Jair Bolsonaro e Donald Trump, temos bons motivos para reconsiderar os méritos do sistema político brasileiro.
O Brasil tem demonstrado notável resistência democrática. Bolsonaro foi derrotado nas urnas, declarado inelegível pela Justiça Eleitoral e agora virou réu na Justiça comum por suas tentativas de subverter a ordem democrática. Já os Estados Unidos, apesar de toda sua tradição institucional, foram incapazes de impor limites à candidatura de Trump — mesmo após a invasão do Capitólio, diversas investigações em curso, inclusive com uma condenação por júri.
Essa comparação revela uma ironia: o sistema fragmentado brasileiro, tão criticado por sua suposta ineficiência, tem se mostrado mais robusto na contenção de autocratas do que o sistema majoritário e bipartidário americano. A concentração de poder — com apoio legislativo e popular — em torno de Trump, ao invés de proteger a democracia, parece ter fragilizado ainda mais os mecanismos de freios e contrapesos nos EUA, haja vista as sucessivas ameaças que juízes federais americanos têm recebido por restringir algumas de suas Ordens Executivas.
Talvez seja hora de reavaliarmos as virtudes e os riscos de cada modelo. E, sobretudo, de reconhecer que, diante de crises democráticas, a fragmentação pode ser uma salvaguarda — e não uma ameaça.
Afinal, trata-se da democracia mais longeva e mais rica do mundo. Muitos ainda hoje atribuem a esse arranjo institucional o segredo do seu sucesso. A existência de um presidente, ainda que constitucionalmente limitado, amparado por uma maioria legislativa de seu partido, capaz de implementar sua agenda com poucas concessões. Soma-se a isso uma justiça ágil, eficaz e, em parte, escolhida diretamente pelos próprios eleitores.
Em contraste, sistemas presidencialistas multipartidários como o brasileiro são frequentemente retratados como disfuncionais e caóticos. A crítica recorrente apontava para a fragmentação partidária, a ineficiência decisória, a instabilidade institucional e um judiciário moroso e ineficaz — embora independente. Alguns, inclusive, responsabilizavam o sistema político brasileiro pelo desempenho econômico abaixo do esperado.
No entanto, a forma como Brasil e Estados Unidos têm lidado com líderes de perfil abertamente iliberal desafia essa interpretação tradicional. Ao observarmos as respostas institucionais diante das ameaças representadas por Jair Bolsonaro e Donald Trump, temos bons motivos para reconsiderar os méritos do sistema político brasileiro.
O Brasil tem demonstrado notável resistência democrática. Bolsonaro foi derrotado nas urnas, declarado inelegível pela Justiça Eleitoral e agora virou réu na Justiça comum por suas tentativas de subverter a ordem democrática. Já os Estados Unidos, apesar de toda sua tradição institucional, foram incapazes de impor limites à candidatura de Trump — mesmo após a invasão do Capitólio, diversas investigações em curso, inclusive com uma condenação por júri.
Essa comparação revela uma ironia: o sistema fragmentado brasileiro, tão criticado por sua suposta ineficiência, tem se mostrado mais robusto na contenção de autocratas do que o sistema majoritário e bipartidário americano. A concentração de poder — com apoio legislativo e popular — em torno de Trump, ao invés de proteger a democracia, parece ter fragilizado ainda mais os mecanismos de freios e contrapesos nos EUA, haja vista as sucessivas ameaças que juízes federais americanos têm recebido por restringir algumas de suas Ordens Executivas.
Talvez seja hora de reavaliarmos as virtudes e os riscos de cada modelo. E, sobretudo, de reconhecer que, diante de crises democráticas, a fragmentação pode ser uma salvaguarda — e não uma ameaça.
'Sabedoria na vida não depende da formação intelectual'
Desde 1992, a Amazônia faz parte da rotina do famoso médico brasileiro Drauzio Varella. Mais especificamente a bacia do Rio Negro. De lá para cá, ele conta que empreendeu cerca de 150 viagens à região, coordenando um projeto de pesquisa farmacológica dentro do programa Escola da Natureza, iniciativa da Universidade Paulista (Unip).
"Na primeira vez [que lá estive] fiquei deslumbrado mesmo. E me sentindo culpado, porque nessa época eu já conhecia muitos países e ainda não conhecia a Amazônia de perto", comenta ele.
As viagens pela região renderam um livro O Sentido das Águas: Histórias do Rio Negro, que será lançado nesta quarta-feira pela Companhia das Letras. A exemplo dos clássicos diários de viagem, a obra reúne histórias coletas e vividas pelo carismático médico em suas incursões pela mais importante floresta do planeta, destacando não só as paisagens naturais como, principalmente, os personagens humanos que compõem o ameaçado bioma.
Drauzio Varella se tornou celebridade no Brasil não só pelas suas qualidades como médico oncologista, mas pela facilidade de comunicação. De linguagem fácil, cuidadosa e acessível, ele é um dos principais divulgadores de informação médica no país, com quadros e aparições constantes em programas de TV, rádio e internet.
Aos 81 anos, Varella diz à reportagem que segue visitando a Amazônia pelo menos três vezes por ano — houve épocas em que as viagens ocorriam na média de uma por mês. Como fica claro na saborosa narrativa do livro, essa assiduidade transformou-o não só em um conhecedor daquela região, mas também em uma pessoa que transita e dialoga com muitos ribeirinhos, dos quais conhece nome, família e muitos causos.
O médico concedeu entrevista na última sexta-feira, de sua residência em São Paulo, a partir de chamada de vídeo. Fez apenas uma exigência: que não fosse chamado de senhor, mas tratado simplesmente por você.
"Na primeira vez [que lá estive] fiquei deslumbrado mesmo. E me sentindo culpado, porque nessa época eu já conhecia muitos países e ainda não conhecia a Amazônia de perto", comenta ele.
As viagens pela região renderam um livro O Sentido das Águas: Histórias do Rio Negro, que será lançado nesta quarta-feira pela Companhia das Letras. A exemplo dos clássicos diários de viagem, a obra reúne histórias coletas e vividas pelo carismático médico em suas incursões pela mais importante floresta do planeta, destacando não só as paisagens naturais como, principalmente, os personagens humanos que compõem o ameaçado bioma.
Drauzio Varella se tornou celebridade no Brasil não só pelas suas qualidades como médico oncologista, mas pela facilidade de comunicação. De linguagem fácil, cuidadosa e acessível, ele é um dos principais divulgadores de informação médica no país, com quadros e aparições constantes em programas de TV, rádio e internet.
Aos 81 anos, Varella diz à reportagem que segue visitando a Amazônia pelo menos três vezes por ano — houve épocas em que as viagens ocorriam na média de uma por mês. Como fica claro na saborosa narrativa do livro, essa assiduidade transformou-o não só em um conhecedor daquela região, mas também em uma pessoa que transita e dialoga com muitos ribeirinhos, dos quais conhece nome, família e muitos causos.
O médico concedeu entrevista na última sexta-feira, de sua residência em São Paulo, a partir de chamada de vídeo. Fez apenas uma exigência: que não fosse chamado de senhor, mas tratado simplesmente por você.
Nesses mais de 30 anos de viagens à Amazônia, quais foram as principais transformações? O que se destacou mais para você em 1992 e que, agora, é diferente?
O que me levou a essas viagens frequentes foi esse projeto de pesquisa. Na primeira vez fiquei deslumbrando mesmo. Realmente, me sentindo culpado. Nessa época eu já conhecia muitos países e não conhecia a Amazônia de perto. Vi aquele rio… Olha, que deslumbramento! Os rios europeus parecem riachos perto dos rios amazônicos. É um tipo de paisagem que tem impacto nos olhos da gente, uma imagem muito forte.
No decorrer dos anos, isso se modificou. Eu fiquei mais seletivo, meu olhar ficou mais detalhista. Aquilo é tão bonito que cega a gente, você não tem olhos para mais nada. À medida que o tempo vai passando, você olha mais para os reflexos do rio, para a floresta, para a composição da floresta. Essa coisa da biodiversidade é visível, não é teoria.
Quando mais você olha, mais perscrutador fica seu olhar, mais belezas você encontra. E isso depois se dirige aos habitantes da região, às pessoas, aos ribeirinhos, aos indígenas. Você começa a querer entender a história deles, de onde vem essa gente. Quando os portugueses chegaram, lá já havia milhões no Brasil.
Você menciona os celulares, que não começo não havia nenhum e agora toda criança, toda pessoa, está usando, todo mundo olhando para a tela. Como médico, acredita que esse uso abusivo seja uma doença uma epidemia?
Não sei se a gente pode chamar de doença isso. Eu sou um pouco cauteloso com esse termo. Para dar um exemplo: você mede sua pressão e deu 14 por 10. Tecnicamente, você tem hipertensão. Mas não posso dizer que você está doente. Posso dizer que você tem uma condição, que é a hipertensão, que poderá se transformar em doença. Você vai estar doente quando tiver um infarto no miocárdio, quanto tiver insuficiência renal.
Mas eu diria que essa é uma nova condição, uma condição devastadora, não só aqui nas grandes cidades como lá [na Amazônia] também. Porque essa tecnologia veio sem que nós nos preparássemos para ela. De repente, ela caiu e se disseminou numa velocidade impressionante. Aí você vê aquelas populações que viveram uma realidade completamente diferente dessa e isso dá uma impressão ruim, porque eles saem do universo em que viviam e passam a viver no universo das redes sociais.
Se as redes sociais causam problemas para pessoas que cresceram nas grandes cidades, têm um impacto grande na formação de nossas crianças, adolescentes e de nós mesmos, adultos, imagina em populações que viveram em comunidades distantes e, de repente, migram para cidades que já têm uma certa cultura urbana, cultura nem sempre no bom sentindo de cultura. Isso é um impacto muito maior.
Ou seja: o uso do celular é uma condição, mas as consequências são as "doenças" que aparecem?
Sem dúvida. Acha que tem cabimento? O índice de suicidas entre indígenas que vivem em suas comunidades, não há estudos, pelo menos que eu conheça, é baixo, certamente. Eles migram para as cidades e aí as crianças começam a se matar com 13, 14, 15 anos. Não faz o menor sentido, não é verdade? Alguma coisa acontece aí que leva essas crianças… Eu acho que é a perda da identidade. Quando chegam à cidade, começam com celular, rede social e o diabo. Eles não são mais os indígenas que eram. Passam a ser nada. Perde a identidade completamente.
No seu livro, em comum, quase todas as histórias trazem lições de sabedoria das pessoa simples e sábias, conectadas à natureza. Como aprender mais com elas?
A sabedoria diante da vida não depende da formação intelectual. Um homem, uma mulher que vive aquela realidade e consegue entender aquela realidade que está vivendo tem muito a nos ensinar. Eu conto no livro a história de, quando estávamos com um barco para fazer coletas, tinha um indígena tucano sentado num tronco de árvore caído na beira do rio. Ele estava olhando, com o olhar perdido. Duas horas depois, quando passamos novamente, ele estava exatamente na mesma condição. Um de nós perguntou: o que você está fazendo aí? Ele respondeu: estou sentado. Que resposta mais lógica que ele poderia dar? A gente é que tem essa coisa de "você não está fazendo nada", de ter de estar fazendo alguma coisa. Temos essa pressão para fazer, para se mexer, para construir. Ele estava sentado olhando o rio, era o que ele estava fazendo. Essa sabedoria é muito interessante.
Seu livro dialoga com a produção contemporânea de nomes de destaque dentre os povos originários, como o próprio escritor Ailton Krenak. A solução para os males da natureza e os próprios males dos seres humanos está no retorno aos conhecimentos ancestrais?
Não sei responder. Mas acho que o abandono dos conhecimentos ancestrais, dessa filosofia de vida, empobrece a gente.
E a evolução do desmatamento? Os números chocam, é claro. Mas na vida real isso também é perceptível, visível?
É visível, sim. Você passa por um lugar, volta cinco anos depois e vê uma parte desflorestada. Temos uma parcela botânica que estudamos no baixo Rio Negro, [no entorno do] penúltimo afluente antes de chegar a Manaus. Você vê as pessoas tirando madeira de lá. É uma coisa feita assim, sem muito disfarce. É feito com uma certa discrição, mas não muda.
Você é otimista com relação a isso? O desmatamento tem cura?
Eu acho que o grande equívoco aqui, quando a gente pensa na floresta amazônica, é pensar em um lugar ermo, um tapete verde ou um inferno verde. Você conversa com as pessoas e aí o cara diz: quando eu cheguei aqui, há 30 anos, não tinha nada. Não tinha nada! Tinha uma floresta! Derrubou, aí pôs o gado e plantou uma gramínea ali para alimentar esse gado. Ou plantou soja. Agora que não tem nada.
Naquela época tinha muita coisa, tinha uma tremenda biodiversidade. Tinha uma floresta ali, o bem maior da natureza. Mas se você não leva em conta que a floresta é habitada e isso tem de fazer parte de todo o pensamento, de todas as políticas públicas da região, você não preserva. Porque se morássemos em um lugar desse, sem comida para dar para os filhos, e chega nas cheias não tem peixe, não acha peixe, também iríamos derrubar. Porque entre uma árvore e meu filho, eu nem tenho escolha a fazer. Então, enquanto nós não pensamos sobre isso, enquanto não tivermos políticas públicas que dê condição de sobrevivência para essas populações, esquece.
Esquece, porque não vai ser possível. Nessa região em que a gente vai [fazer as pesquisas] tinha um angelim [espécie de árvore] maravilhoso. Devia ter 30 metros ou mais de altura. E eu passava sempre e achava uma coisa incrível. Um dia passei por lá e ele não estava. Aí conversei com um homem que morava ali e ele: ah, eu troquei por um guarda-roupas, eu precisava e não tinha dinheiro para comprar. Trocou uma maravilha da natureza como aquela árvore por um guarda-roupas que eu vi e que eu poderia ter comprado para ele. Mas nunca me ocorreu comprar. Achei que [a árvore] era perto da casa dele e ele iria preservar. Por que ele iria preservar?
O que me levou a essas viagens frequentes foi esse projeto de pesquisa. Na primeira vez fiquei deslumbrando mesmo. Realmente, me sentindo culpado. Nessa época eu já conhecia muitos países e não conhecia a Amazônia de perto. Vi aquele rio… Olha, que deslumbramento! Os rios europeus parecem riachos perto dos rios amazônicos. É um tipo de paisagem que tem impacto nos olhos da gente, uma imagem muito forte.
No decorrer dos anos, isso se modificou. Eu fiquei mais seletivo, meu olhar ficou mais detalhista. Aquilo é tão bonito que cega a gente, você não tem olhos para mais nada. À medida que o tempo vai passando, você olha mais para os reflexos do rio, para a floresta, para a composição da floresta. Essa coisa da biodiversidade é visível, não é teoria.
Quando mais você olha, mais perscrutador fica seu olhar, mais belezas você encontra. E isso depois se dirige aos habitantes da região, às pessoas, aos ribeirinhos, aos indígenas. Você começa a querer entender a história deles, de onde vem essa gente. Quando os portugueses chegaram, lá já havia milhões no Brasil.
Você menciona os celulares, que não começo não havia nenhum e agora toda criança, toda pessoa, está usando, todo mundo olhando para a tela. Como médico, acredita que esse uso abusivo seja uma doença uma epidemia?
Não sei se a gente pode chamar de doença isso. Eu sou um pouco cauteloso com esse termo. Para dar um exemplo: você mede sua pressão e deu 14 por 10. Tecnicamente, você tem hipertensão. Mas não posso dizer que você está doente. Posso dizer que você tem uma condição, que é a hipertensão, que poderá se transformar em doença. Você vai estar doente quando tiver um infarto no miocárdio, quanto tiver insuficiência renal.
Mas eu diria que essa é uma nova condição, uma condição devastadora, não só aqui nas grandes cidades como lá [na Amazônia] também. Porque essa tecnologia veio sem que nós nos preparássemos para ela. De repente, ela caiu e se disseminou numa velocidade impressionante. Aí você vê aquelas populações que viveram uma realidade completamente diferente dessa e isso dá uma impressão ruim, porque eles saem do universo em que viviam e passam a viver no universo das redes sociais.
Se as redes sociais causam problemas para pessoas que cresceram nas grandes cidades, têm um impacto grande na formação de nossas crianças, adolescentes e de nós mesmos, adultos, imagina em populações que viveram em comunidades distantes e, de repente, migram para cidades que já têm uma certa cultura urbana, cultura nem sempre no bom sentindo de cultura. Isso é um impacto muito maior.
Ou seja: o uso do celular é uma condição, mas as consequências são as "doenças" que aparecem?
Sem dúvida. Acha que tem cabimento? O índice de suicidas entre indígenas que vivem em suas comunidades, não há estudos, pelo menos que eu conheça, é baixo, certamente. Eles migram para as cidades e aí as crianças começam a se matar com 13, 14, 15 anos. Não faz o menor sentido, não é verdade? Alguma coisa acontece aí que leva essas crianças… Eu acho que é a perda da identidade. Quando chegam à cidade, começam com celular, rede social e o diabo. Eles não são mais os indígenas que eram. Passam a ser nada. Perde a identidade completamente.
No seu livro, em comum, quase todas as histórias trazem lições de sabedoria das pessoa simples e sábias, conectadas à natureza. Como aprender mais com elas?
A sabedoria diante da vida não depende da formação intelectual. Um homem, uma mulher que vive aquela realidade e consegue entender aquela realidade que está vivendo tem muito a nos ensinar. Eu conto no livro a história de, quando estávamos com um barco para fazer coletas, tinha um indígena tucano sentado num tronco de árvore caído na beira do rio. Ele estava olhando, com o olhar perdido. Duas horas depois, quando passamos novamente, ele estava exatamente na mesma condição. Um de nós perguntou: o que você está fazendo aí? Ele respondeu: estou sentado. Que resposta mais lógica que ele poderia dar? A gente é que tem essa coisa de "você não está fazendo nada", de ter de estar fazendo alguma coisa. Temos essa pressão para fazer, para se mexer, para construir. Ele estava sentado olhando o rio, era o que ele estava fazendo. Essa sabedoria é muito interessante.
Seu livro dialoga com a produção contemporânea de nomes de destaque dentre os povos originários, como o próprio escritor Ailton Krenak. A solução para os males da natureza e os próprios males dos seres humanos está no retorno aos conhecimentos ancestrais?
Não sei responder. Mas acho que o abandono dos conhecimentos ancestrais, dessa filosofia de vida, empobrece a gente.
E a evolução do desmatamento? Os números chocam, é claro. Mas na vida real isso também é perceptível, visível?
É visível, sim. Você passa por um lugar, volta cinco anos depois e vê uma parte desflorestada. Temos uma parcela botânica que estudamos no baixo Rio Negro, [no entorno do] penúltimo afluente antes de chegar a Manaus. Você vê as pessoas tirando madeira de lá. É uma coisa feita assim, sem muito disfarce. É feito com uma certa discrição, mas não muda.
Você é otimista com relação a isso? O desmatamento tem cura?
Eu acho que o grande equívoco aqui, quando a gente pensa na floresta amazônica, é pensar em um lugar ermo, um tapete verde ou um inferno verde. Você conversa com as pessoas e aí o cara diz: quando eu cheguei aqui, há 30 anos, não tinha nada. Não tinha nada! Tinha uma floresta! Derrubou, aí pôs o gado e plantou uma gramínea ali para alimentar esse gado. Ou plantou soja. Agora que não tem nada.
Naquela época tinha muita coisa, tinha uma tremenda biodiversidade. Tinha uma floresta ali, o bem maior da natureza. Mas se você não leva em conta que a floresta é habitada e isso tem de fazer parte de todo o pensamento, de todas as políticas públicas da região, você não preserva. Porque se morássemos em um lugar desse, sem comida para dar para os filhos, e chega nas cheias não tem peixe, não acha peixe, também iríamos derrubar. Porque entre uma árvore e meu filho, eu nem tenho escolha a fazer. Então, enquanto nós não pensamos sobre isso, enquanto não tivermos políticas públicas que dê condição de sobrevivência para essas populações, esquece.
Esquece, porque não vai ser possível. Nessa região em que a gente vai [fazer as pesquisas] tinha um angelim [espécie de árvore] maravilhoso. Devia ter 30 metros ou mais de altura. E eu passava sempre e achava uma coisa incrível. Um dia passei por lá e ele não estava. Aí conversei com um homem que morava ali e ele: ah, eu troquei por um guarda-roupas, eu precisava e não tinha dinheiro para comprar. Trocou uma maravilha da natureza como aquela árvore por um guarda-roupas que eu vi e que eu poderia ter comprado para ele. Mas nunca me ocorreu comprar. Achei que [a árvore] era perto da casa dele e ele iria preservar. Por que ele iria preservar?
Tempos autoritários
Uma onda conservadora se espraia pelo planeta. Os Estados Unidos da América, que abrigam a maior democracia ocidental, começam a descer o elevado pedestal, onde, por décadas, se apresentavam para o mundo como a Terra das Liberdades. A imagem é captada pela visão da Estátua da Liberdade, um dos maiores cartões-postais do mundo. A tocha e a tabuleta com a Lei da Independência dos EUA, que a deusa Libertas exibe na mão direita, acima da cabeça, eram o signo da esperança de milhões de imigrantes que chegavam ao Porto de Nova York, a porta de entrada da nação protetora, onde iriam refazer suas vidas. A Pátria americana deixa de ser vista como a terra da promissão.
Hoje, o maior país da América do Norte vira as costas aos imigrantes que lá aportaram e ainda aportam. De berço mais celebrado da democracia, o país de Lincoln passa a ser a referência de nação que já não acolhe aqueles que pretendem viver o sonho americano. Passa a ser visto como território do medo e da perseguição. Imigrantes fogem das praças e dos parques, temendo sua detenção por polícias que invadem residências para identificá-los e prendê-los. Tempos dolorosos de uma era que se abre, sob a exposição midiática de centenas de decretos-lei, que parecem traduzir o sentimento do empresário do entretenimento guindado a um dos mais altos cargos do planeta: “Eu mando, eu faço, eu ordeno que a Ucrânia e Rússia façam um acordo de paz, só eu tenho o direito de impor taxas escorchantes aos países que exportam para os EUA”.
É triste constatar. Os EUA fecham as portas para o mundo. Seu dirigente governa com o coração. Donald Trump dá mostras de governar apenas para uma parcela da população, os que nele votaram. Mais parece um guerreiro vingativo, a punir adversários e a fechar os olhos para o eleitorado que ainda o vê como o inventor do slogan você está demitido. Como conjugar as necessidades de populações em busca de um novo habitat com as demandas de um eleitorado radical e de uma população que se enrola na bandeira do MAGA – Make America Great Again (Torne a América Grande Novamente)?
O que está por trás de tanto desatino de um outsider da política? Tentemos enxergar alguns fatores, a começar pelas promessas não cumpridas da democracia, nos termos assinalados por Norberto Bobbio. O filósofo italiano, em sua obra O futuro da democracia, faz um diagnóstico cortante: a democracia falhou no cumprimento de seu ideário. Não cumpriu a promessa de dar aos indivíduos o papel de protagonistas da vida política, colocando em seu lugar partidos, corporações, grupos. Os interesses da nação dão lugar aos interesses do neocorporativismo.
Diz mais Bobbio: as oligarquias continuam a dar as cartas. A participação do cidadão comum no processo democrático é cada vez menor. Forma-se um poder invisível, um Estado informal, que age nas malhas burocráticas, ao contrário da expectativa de que o Estado formal teria condições de combater com vigor as máfias que agem nos subterrâneos da administração pública. Vejam o caso brasileiro. Nunca foi tão largo o império de gangues que traficam drogas e armas: o PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior organização criminosa do Brasil, teria movimentado nos últimos tempos cerca de R$ 10 bilhões, sob a gestão de dirigentes que transformam seus cárceres em escritórios do crime.
Bobbio lembra mais uma promessa não cumprida pela democracia: a educação para a cidadania. Sem a lição de virtudes, os cidadãos se tornam reféns da apatia. Fogem da política.
A esses compromissos abandonados, somam-se as mazelas das políticas neoliberais, como a desigualdade econômica, a repressão aos movimentos sociais e o aumento do desemprego, fatores que acabam exigindo maior presença do Estado no cotidiano. Sob este cenário, o Estado autoritário acaba se impondo, guiado por governantes arbitrários e estruturas burocráticas ineficientes. Trump é o paradigma desse tipo de gestor.
Que desafios hoje se apresentam? Como equacionar posições tão antagônicas, como Estado autoritário, liberalismo, eliminação de desigualdades sociais, extinção do corporativismo?
Este dilema está na pauta do dia, ensejando nas nações democráticas uma guinada à direita. No seio da maior democracia ocidental, seu dirigente assume ares ditatoriais. O mesmo ocorre em países europeus, como a França, e na Argentina, onde Javier Milei assume a posição de líder maior do conservadorismo na região.
E por que essa guinada ocorre? A explicação pode ser esta: a direita opera com objetivos precisos, enquanto a esquerda está sem rumos. A social-democracia, no centro do arco ideológico, por sua vez, fecha seu ciclo experimental, após sobreviver por décadas nas nações europeias. Por aqui, a modelagem social-democrata deixa marcas e uma grande vítima, o PSDB. Hoje, um partido sem votos.
As marcas social-democratas fazem parte do arsenal mercadológico do lulopetismo, ancorando-se em projetos sociais, como o Bolsa Família, o Vale Gás, o Pé de Meia etc. É claro que o PT jamais vai admitir que fez ou faz um governo à moda tucana. Continua a defender seu viés estatizante, como se pode ver na gestão do Lula 3. Um exemplo? O presidente não conseguiu nomear o economista Guido Mantega na Vale do Rio Doce, porém emplaca o ex-ministro no Conselho Fiscal da Eletrobrás.
Em suma, o Estado liberal é um sonho de ampla parcela das forças do mercado, dos setores empresariais, dos setores produtivos. No curto prazo, não teria condições de vingar. Qual seria sua moldura? Um abrangente programa de privatização de estatais, menor intervenção do Estado na economia, corte no cipoal fiscal-tributário, enxugamento da burocracia.
Ora, esses ingredientes só teriam chances de surgir em um cenário de expansão industrial, equilíbrio fiscal e demandas sociais atendidas. Não é o caso. Para tanto, o País exigiria dos governantes um crescimento acima de 4% ao ano, criação de 8 milhões de empregos, eliminação do déficit crescente da Previdência, pagamento de uma dívida pública de R$ 7,5 trilhões, implementação da reforma agrária e alta arrecadação de impostos e tributos. Uma tarefa para mágicos ou ditadores. Ou seja, o Estado liberal no Brasil é uma utopia.
Hoje, o maior país da América do Norte vira as costas aos imigrantes que lá aportaram e ainda aportam. De berço mais celebrado da democracia, o país de Lincoln passa a ser a referência de nação que já não acolhe aqueles que pretendem viver o sonho americano. Passa a ser visto como território do medo e da perseguição. Imigrantes fogem das praças e dos parques, temendo sua detenção por polícias que invadem residências para identificá-los e prendê-los. Tempos dolorosos de uma era que se abre, sob a exposição midiática de centenas de decretos-lei, que parecem traduzir o sentimento do empresário do entretenimento guindado a um dos mais altos cargos do planeta: “Eu mando, eu faço, eu ordeno que a Ucrânia e Rússia façam um acordo de paz, só eu tenho o direito de impor taxas escorchantes aos países que exportam para os EUA”.
É triste constatar. Os EUA fecham as portas para o mundo. Seu dirigente governa com o coração. Donald Trump dá mostras de governar apenas para uma parcela da população, os que nele votaram. Mais parece um guerreiro vingativo, a punir adversários e a fechar os olhos para o eleitorado que ainda o vê como o inventor do slogan você está demitido. Como conjugar as necessidades de populações em busca de um novo habitat com as demandas de um eleitorado radical e de uma população que se enrola na bandeira do MAGA – Make America Great Again (Torne a América Grande Novamente)?
O que está por trás de tanto desatino de um outsider da política? Tentemos enxergar alguns fatores, a começar pelas promessas não cumpridas da democracia, nos termos assinalados por Norberto Bobbio. O filósofo italiano, em sua obra O futuro da democracia, faz um diagnóstico cortante: a democracia falhou no cumprimento de seu ideário. Não cumpriu a promessa de dar aos indivíduos o papel de protagonistas da vida política, colocando em seu lugar partidos, corporações, grupos. Os interesses da nação dão lugar aos interesses do neocorporativismo.
Diz mais Bobbio: as oligarquias continuam a dar as cartas. A participação do cidadão comum no processo democrático é cada vez menor. Forma-se um poder invisível, um Estado informal, que age nas malhas burocráticas, ao contrário da expectativa de que o Estado formal teria condições de combater com vigor as máfias que agem nos subterrâneos da administração pública. Vejam o caso brasileiro. Nunca foi tão largo o império de gangues que traficam drogas e armas: o PCC (Primeiro Comando da Capital), a maior organização criminosa do Brasil, teria movimentado nos últimos tempos cerca de R$ 10 bilhões, sob a gestão de dirigentes que transformam seus cárceres em escritórios do crime.
Bobbio lembra mais uma promessa não cumprida pela democracia: a educação para a cidadania. Sem a lição de virtudes, os cidadãos se tornam reféns da apatia. Fogem da política.
A esses compromissos abandonados, somam-se as mazelas das políticas neoliberais, como a desigualdade econômica, a repressão aos movimentos sociais e o aumento do desemprego, fatores que acabam exigindo maior presença do Estado no cotidiano. Sob este cenário, o Estado autoritário acaba se impondo, guiado por governantes arbitrários e estruturas burocráticas ineficientes. Trump é o paradigma desse tipo de gestor.
Que desafios hoje se apresentam? Como equacionar posições tão antagônicas, como Estado autoritário, liberalismo, eliminação de desigualdades sociais, extinção do corporativismo?
Este dilema está na pauta do dia, ensejando nas nações democráticas uma guinada à direita. No seio da maior democracia ocidental, seu dirigente assume ares ditatoriais. O mesmo ocorre em países europeus, como a França, e na Argentina, onde Javier Milei assume a posição de líder maior do conservadorismo na região.
E por que essa guinada ocorre? A explicação pode ser esta: a direita opera com objetivos precisos, enquanto a esquerda está sem rumos. A social-democracia, no centro do arco ideológico, por sua vez, fecha seu ciclo experimental, após sobreviver por décadas nas nações europeias. Por aqui, a modelagem social-democrata deixa marcas e uma grande vítima, o PSDB. Hoje, um partido sem votos.
As marcas social-democratas fazem parte do arsenal mercadológico do lulopetismo, ancorando-se em projetos sociais, como o Bolsa Família, o Vale Gás, o Pé de Meia etc. É claro que o PT jamais vai admitir que fez ou faz um governo à moda tucana. Continua a defender seu viés estatizante, como se pode ver na gestão do Lula 3. Um exemplo? O presidente não conseguiu nomear o economista Guido Mantega na Vale do Rio Doce, porém emplaca o ex-ministro no Conselho Fiscal da Eletrobrás.
Em suma, o Estado liberal é um sonho de ampla parcela das forças do mercado, dos setores empresariais, dos setores produtivos. No curto prazo, não teria condições de vingar. Qual seria sua moldura? Um abrangente programa de privatização de estatais, menor intervenção do Estado na economia, corte no cipoal fiscal-tributário, enxugamento da burocracia.
Ora, esses ingredientes só teriam chances de surgir em um cenário de expansão industrial, equilíbrio fiscal e demandas sociais atendidas. Não é o caso. Para tanto, o País exigiria dos governantes um crescimento acima de 4% ao ano, criação de 8 milhões de empregos, eliminação do déficit crescente da Previdência, pagamento de uma dívida pública de R$ 7,5 trilhões, implementação da reforma agrária e alta arrecadação de impostos e tributos. Uma tarefa para mágicos ou ditadores. Ou seja, o Estado liberal no Brasil é uma utopia.
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