segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Papai Noel no Congresso

Orçamento é um tema muito pesado para o período de festas de fim de ano. Vamos traduzir assim: Papai Noel passou pelo Congresso e foi muito generoso, deixando um presente de R$ 37 bilhões em emendas parlamentares, das quais R$ 16,5 bilhões naquele famoso orçamento secreto. Aliás ficou apenas meio secreto para ganhar autorização do Supremo Tribunal Federal, que o havia bloqueado. Meio secreto, como as meio grávidas, ele é arma da reeleição de deputados.

Papai Noel foi muito generoso com os partidos e deixou para eles um fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. Será uma rica campanha num país empobrecido e faminto.

Papai Noel contemplou os policiais federais com um aumento e deixou de fora o restante do funcionalismo.Não cabia presente para todos no seu famoso saco vermelho, ou talvez as renas não aguentassem o peso.


Para o Brasil mesmo, com todos os seus problemas, restou pouco para investir: R$ 44 bilhões, um terço do volume de investimentos de 2012. E olha que nossos problemas hoje são muito mais agudos.

Numa recente pesquisa, o Congresso obteve apenas 10% de aprovação. Ele está se afastando perigosamente da sociedade.

Não se deve falar nisso em período de festa, mas, se o Congresso brasileiro não for mudado, dificilmente teremos um bom 2023.

Não adianta tanto escolher um presidente, embora toda a energia emocional se concentre nisso. A ausência de uma grande bancada comprometida com o país é a base de muitos problemas.

A corrupção é um deles. Como governar sem maioria? Esse dilema ocasionou o mensalão e desembocou em algo grandioso ainda: o orçamento secreto.

Um Congresso fisiológico coloca problemas mais sérios, que vou apenas esboçar neste momento de festas. Ele não vota questões controversas, sobretudo em costumes. Elas são empurradas para o Supremo. Os progressistas sentem um pequeno alívio porque o Supremo brasileiro, de um modo geral, é liberal ao julgar esses temas.

Mas isso cria um ressentimento entre os conservadores, que se consideram tiranizados por uma elite que pensa de forma diferente deles e não foi votada para tomar essas decisões.

Esse ressentimento é facilmente explorado por demagogos que atacam o Supremo por combinar liberalismo nos costumes e leniência com a corrupção.

Sei que não deveria estar falando nisso agora. O tempo de Bolsonaro parece estar no fim. Acredito nisso.

Mas, se não nos interrogamos sobre as condições que permitiram a ascensão de Bolsonaro, ele poderá ressurgir adiante, na pele de outro populista de extrema direita.

O ano que entra será animado e eletrizante com as eleições nacionais. Mas uma forma de desejar bom Ano-Novo é ver um pouco além e aspirar a uma certa estabilidade construtiva para, pelo menos, recuperar o tempo perdido.

O Congresso que nos deixa a pão e água neste ano de 2022 é uma das causas da instabilidade profunda de nosso sistema político.

Sei que essa história de escolher bem o Congresso é velha. Repetimos em todas as eleições, mas, no fundo, nos concentramos apenas na escolha do presidente.

A própria imprensa é capaz de gastar mais espaço com os vices do que com aqueles caras que podem não só infernizar nossa vida, como levar toda a grana para seus projetos, como fizeram agora.

Eles corrompem governos, derrubam, aprisionam governos no seu cercadinho, como fazem com Bolsonaro, e se divertem com nossas emoções em torno da corrida presidencial.

Quem sabe Papai Noel com todos esses presentes enviesados não tenha querido nos deixar pelo menos uma chance de pensar no problema?

Quem sabe não tenha apenas tentado nos punir pela imprevidência?

Como entrar na cabeça de um velho que pilota um trenó movido a renas que voam? Quando passar seu rastro de fantasia, talvez possamos voltar ao assunto.

Pensamento do Dia

 


O jardim dos homens

Nos jardins de Deus nascem e cabem todas as flores. Menos as que Jair Bolsonaro e seus cupinchas não querem. E como eles ainda não sabem com certeza o que não querem, tentam nos fazer prisioneiros de seus delírios, como esse agora das vacinas pediátricas. Meninos e meninas de 5 a 11 anos não poderão se proteger do vírus, devem se tornar suas vítimas compulsórias. Porque, ninguém sabe.

Como também ninguém sabia, quando o homem começou a pensar melhor, a refletir sobre o mundo diante dele, incompleto e imperfeito. Era preciso mexer aqui e ali, separar as coisas de modo a evitar feras e males, tudo o que pudesse vir a ser obstáculo para a construção de uma civilização, nosso papel por aqui. Depois de um certo tempo de muito esforço, acreditamos que era possível ir mais longe — mais do que construir uma civilização que andasse junto com o resto, podíamos conquistar os jardins de Deus por nossa própria conta e risco, estabelecer as regras novas e definitivas sem negociá-las com a complexa personalidade da Natureza, transformando-a no Jardim dos Homens. Deu no que deu.


Agora é ir em frente, encarar o mundo, ver o que ainda dá para fazer. Nunca é tarde demais. Mas Bolsonaro e sua turma não querem entendimento com ninguém, em torno de nada. Eles só querem confronto e briga, ganha a guerra quem piscar primeiro. E pronto. Por isso não abrem mão de povoar o mundo, do jeito que eles quiserem.

Se não conseguiram fazer com que ainda mais morressem, além dos 650 mil abatidos inutilmente (“E daí?”), vão agora lutar pelo sacrifício das crianças. Por elas vão rezar, não sei que rezas, como heroínas de um original jeito de viver. Bolsonaro: “Eu sou Messias, mas não faço milagre”. Milagre, não. Mas meninos e meninas sem vacinas se tornarão exemplos de um modo de vida que começa pela morte. Em outubro de 2020, ele disse: “Já mandei cancelar, o presidente sou eu (?). Toda e qualquer vacina está descartada”. E em março do ano seguinte: “Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Claro, homem não chora, homem só chora quando é com ele.

Ou então: homem não chora — homem grita, berra, protesta quando não é justo o que fazem com ele. E é assim que está sendo, nessa hora de firme posição dos técnicos da Anvisa, do monte de demissões de funcionários, de mais de 300 auditores entregando seus cargos, de reações de quem lida com o assunto e sabe o que está fazendo, gente que não é de brincadeira.

Não é possível que, quando tomamos conhecimento desse “orçamento secreto”, desse apuro da corrupção que não nos deixa mais saber quem roubou ou quem se beneficiou injustamente da grana pública, sejamos obrigados a acreditar que os interesses eleitorais dos deputados locais sejam mais adequados à racionalidade do regime do que as necessidades do território que representam.

Às vésperas de Natal e Réveillon, o Rio de Janeiro tem uma alta de 64% na vacinação. E 80% da população da capital fluminense está imunizada contra a Covid-19. Além de darmos limite às festas, que a felicidade e o bem estar de todos chegue com máscaras sanitárias, distanciamento social e álcool gel. (De onde será que vem o ódio contra os que agem corretamente, em benefício da população?).

Esperamos que a Natureza também colabore, pelo menos um pouco mais, não inventando novos romances entre os vírus, evitando outras cepas com novos problemas para nos defendermos delas. Queremos mais amor e um bom comportamento pessoal e político para com o país em que vivemos. Além disso, um muito feliz Natal para todo mundo, que todo mundo merece.

Feliz final dos tempos

Todos escrevem textos para levantar o astral no fim de ano. Tentei, travei. Chavões, clichês, um Natal cheio de alegrias, amor, solidariedade, mundo novo, nova vida, tempo de esperança? Qual é? Com o que está aí? E com ELE lá! Escrevia, deletava tudo soava falso. Como provocar alento?

Percebo como me faz mal a avalanche de comerciais com panetones, chocotones, chester, perus, tênder, cordeiros assados, filés amaciados com massagens orientais, rabanadas. Orgia. Veio-me à mente aquela série em que um gordo jornalista percorre lanchonetes americanas devorando sanduíches, a gordura escorrendo pelo queixo. Não, não me venha com gordofobia, é que tenho medo do dia em que, durante um programa, eu veja o sujeito explodir.

Por que não mudo de canal, se as imagens me incomodam? Porque sofro da síndrome de fascínio pelo tenebroso, expressão de Otto Lara Resende, em um júri de concurso de contos, em que todos liam e reliam, treliam, os piores contos, atraídos pela indigência, mau gosto. O tenebroso é uma doença que emana de cada célula daquele que nos preside e cujo nome não se deve pronunciar.


Vejo a proliferação de programas de gastronomia. Tem de tudo, em todas as TVs e (agora vão me matar) e penso nos milhões de brasileiros que passam fome, buscam ossos nos lixos, restos de restaurantes, sem esquecer os que caçam lagartos, comem saúvas, sapos. Há os que engolem sapos, fazendo flexões com os chefes de bancos, autarquias, etc.

Leio para familiares, me advertem. Escrever isto no Natal? Levante o moral, dê animo. O moral está baixo, a moral mais baixa ainda. Entre várias coisas totalmente liberadas nestes tempos está a escrotidão total. Este clima de intolerância, mentiras, ódio, ultrajes, nos deixa doentes, contamina até animais. Meu gato Tom (homenagem a Jobim) acaba de ser diagnosticado com um tumor cancerígeno no focinho.

Netos me perguntaram, qual foi seu melhor Natal? E o pior? Este foi aos 8 anos. Depois de espera ansiosa, ganhei um caminhão de madeira, saí à rua e me roubaram. A sordidez conheci cedo. Melhor? O deslumbramento de um carro movido a pedal na vitrine da Casa Barbieri, em Araraquara. Caro. Ainda compro um, tenho o dinheiro e o tamanho para me enfiar nele e pedalar. Basta para te dar alta, diz o terapeuta Hiroshi. Penso em mudar para Lisboa. Mas e se, estando na Taberna das Flores, dou com brasileiros que têm dinheiro e compraram tudo, inflacionaram aluguéis, desalojaram famílias? Preciso escapar rápido, deixando o bacalhau às iscas ou as berinjelas fritas com mel de cana da Madeira?

O risco Bolsonaro em 2022

Mais do que nunca, apesar de Bolsonaro, Queiroga e seus assemelhados, é preciso insistir nos votos de feliz ano novo, mesmo diante da perspectiva de mais 12 meses de irresponsabilidade, incompetência e desmandos. É preciso manter a esperança e fazer o possível para dificultar o avanço da perversão e da barbárie. O pior presidente da história brasileira encerrou 2021 emperrando a vacinação de crianças contra a covid19. Já havia retardado, em 2020, a vacinação de adultos, num jogo sinistro com centenas de milhares de vidas. Desta vez, além de questionar a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cobrou os nomes de quem participou da decisão. Com seu exemplo, incitou militantes do ódio a ameaçar diretores da agência. Obediente a seu amo, o ministro da Saúde – sim, da Saúde – anunciou uma consulta pública sobre a imunização das crianças, como se esse fosse o meio de resolver uma questão técnica e científica.


Ao dificultar essa vacinação, o presidente Bolsonaro acrescentou um capítulo especial a seu currículo tenebroso. Até aí, havia ameaçado as crianças de forma indireta, empobrecendo sua família, comprometendo sua educação e pondo em risco seus pais. O defensor da cloroquina, do kit covid e do famigerado tratamento precoce é o grande responsável, também, pela estagnação econômica, pela inflação acima de 10% e pelo desemprego acima dos padrões internacionais. O mesmo desgoverno produz o desastre sanitário, a destruição das florestas, o desarranjo dos negócios, a explosão dos preços e o reaparecimento da fome.

É preciso insistir, apesar de tudo, em desejar e buscar um feliz 2022, mas sem autoengano. As projeções indicam para o próximo ano um crescimento econômico na faixa de zero a 0,5%. A inflação de 2021 deve ter sido quase o dobro do teto da meta. A meta é 3,75% e o limite superior de tolerância, 5,25%. Para o próximo ano os dois sinalizadores são 3,50% e 5%, mas já se previu, na semana passada, uma alta de preços de 5,03%. Tentando frear os preços, o Banco Central (BC) já elevou os juros básicos a 9,25%. Em fevereiro a taxa deverá chegar a 10,75%. Em dezembro estará provavelmente acima de 11,25%.

Com inflação disparada, renda familiar corroída e juros muito altos, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dificilmente será superior àquele 0,5% já estimado. Com isso, as condições de trabalho continuarão muito ruins, mesmo com alguma redução do desemprego. O último levantamento, referente ao trimestre móvel encerrado em setembro, indicou 13,5 milhões de desocupados, 12,6% da população economicamente ativa. Nos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a média recuou de 5,8% em setembro para 5,7% em outubro. A organização é formada principalmente por países desenvolvidos e alguns emergentes, incluídos Turquia, Chile, Colômbia, Costa Rica e México.

A economia brasileira continuará em excessiva dependência do agronegócio, o segmento mais dinâmico e mais competitivo da produção nacional. A indústria já ia mal antes do período Bolsonaro, piorou a partir de 2019 e nada se fez, nestes quase três anos, pela recuperação do setor industrial.

Nem se pode, a rigor, falar de uma política econômica. Não há planos, nem metas, nem programas. A única reforma relevante, desde o começo do atual mandato, foi a da Previdência, um assunto já encaminhado pelo presidente Michel Temer. Na área econômica federal, só dois organismos demonstraram eficiência e alguma clareza de objetivos neste período – o Ministério da Agricultura e o Banco Central.

A maior parte da administração central tem padrão compatível com as qualidades do presidente. Os problemas climáticos de 2021 estavam previstos no começo do ano, mas nada ou quase nada se fez para um enfrentamento ordenado e eficiente da redução da água em reservatórios e da crise energética. Na área da saúde, os cuidados com a pandemia dependeram basicamente dos governos estaduais e municipais. As intervenções do presidente foram em geral marcadas pelo negacionismo, pela rivalidade com governadores e pelo empenho em manter a comunicação com os militantes do ódio.

A resistência, pelo menos inicial, à vacinação de crianças é compatível com o comportamento mantido até agora pelo presidente e por ministros da área. “A pressa é inimiga da perfeição”, disse o ministro Marcelo Queiroga, fiel continuador do general Eduardo Pazuello, num patético esforço de justificação. No seu caso, a imperfeição decorre muito mais da incapacidade administrativa, da subserviência a um chefe despreparado e do aparente esquecimento dos deveres de médico. Dois colegas de profissão, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, o antecederam no posto, na gestão Bolsonaro, e rejeitaram as ideias do presidente sobre como agir na pandemia. O ministro mais duradouro foi Pazuello, famoso como pregador da obediência. Será lembrado também pela inércia de seu ministério enquanto pacientes de covid morriam sem oxigênio em Manaus. Esse padrão permanece e permanecerá, tudo indica, definindo o desgoverno bolsonariano.

Brasil de dupla face

 


Uma pausa

Aproveita-se aqui a janela dupla Festas/Ano-Novo, quando tudo se atropela e ao mesmo tempo vai parando, para dar folga ao noticiário que tanto nos atormentou em 2021. Hoje nenhum fato ou figura política frequentará esta coluna, que nem sequer roteiro tem, coitada. Ela é uma mera pausa — cheia de interrogações sobre o que somos, o que é sempre saudável.

Se a biologia deu ao ser humano um cérebro, quem transforma o cérebro em mente é a vida — e a vida, aprendemos cedo, é danada de difícil de mapear. Do cérebro e de seus 86 milhões de neurônios, cada um conectado a outros milhares que se entrecruzam numa centena de trilhões de sinapses, já se sabem montes. A ciência, a medicina, a biotecnologia e a saúde universal agradecem a essa exploração instigante. Em contrapartida, há mais de 5 mil anos poetas e filósofos, doutores do divino e das ciências procuram destrinchar todos os mistérios da mente humana. Em vão. O que também não deixa de ser apaixonante.


O ensaísta americano Lewis Lapham debruçou-se sobre o tema em 2018, numa edição especial da revista de humanidades que dirige, a Lapham’s Quarterly. “A mente é nossa consciência”, resumiu ele , “e, embora ela seja um fato fundamental da existência humana, trata-se de uma experiência subjetiva, que escapa a medições científicas.” Tem sido mais fácil medir com precisão a intensidade da luz solar do que explicar o universo privado onde reina a mente humana. É ali que desabrocha ou se atrofia o caráter de uma pessoa. Ali, pensar é função, viver é o desafio.

Estes quase dois anos de pandemia planetária com distanciamento social nos deram a rara oportunidade de encarar com um mínimo de honestidade a autoimagem que cada um constrói para si. E, quem sabe, conseguir redefinir o que fomos até agora. Tarefa difícil, visto que a autoilusão é tão parte das ferramentas humanas quanto os dedos das mãos e dos pés. Uma pena, pois é pouco provável que tamanha oportunidade de mergulhar numa investigação introspectiva se repita em vidas já maduras.

Tudo indica que boa parte dos bípedes não sairá muito diferente do que quando entrou no retiro forçado pela Covid-19. São, sem sabê-lo, adeptos de um ditado célebre cunhado por Kurt Vonnegut, o falecido escritor americano que da vida entendia um bocado : “Somos o que pretendemos ser, por isso devemos ser muito cuidadosos na escolha de quem pretendemos ser”.

Houve os que não tiveram medo da autocognição, nem de dar chance a um viver diferente. Podem ser poucos, mas é com eles que vale a pena cultivar a ideia de um futuro possível. Foi o líder da independência da Índia, Mahatma Gandhi, quem observou que nossos pensamentos precedem nossas palavras, nossas palavras se transformam em atos, nossos atos formatam nosso caráter, e nosso caráter passa a ser nosso destino. Ou seja, nosso destino começa na mente. Quem, há quase dois anos, viu o desenrolar de várias epidemias simultâneas (o vírus, a incerteza, o medo) e nunca pensou em mudar o mundo desligou-se de forma terminal da tomada humana. Virou apêndice sem utilidade para qualquer sociedade.

Em “Alquimia da mente”, a poeta naturalista Diane Ackerman escreve uma ode ao fato de cada um de nós carregar no topo do corpo um universo completo de onde jorram trilhões de sensações, pensamentos e sonhos. “Cérebro e mente não são a mesma coisa. A mente habita o cérebro, algo como um fantasma dentro de uma máquina. A mente é a miragem reconfortante do órgão físico — uma experiência, não uma entidade, uma essência, não uma substância. A genialidade da mente humana é seu talento para a reflexão.” E para a imaginação, acrescente-se. A arte da mente está em transcender as múltiplas limitações do mundo e explorar o impossível.

Então fica o convite a quem quiser se juntar à aventura de encarar 2022 como última chance. Chance de quê? Do privilégio de poder pensar e sonhar, da obrigação de ouvir e falar, do imperativo de ser menos medíocre do que fomos neste ano.

Modus operandi


Todo fascista ataca a imprensa e os juízes porque eles nos protegem contra esse tipo de tirania
Ken Follett

Dinheiro do combate à Covid pagou comida boa e farta de militares

Filé mignon, picanha, bacalhau, camarão, salmão e bebidas alcóolicas não frequentam a boia servida a soldados e militares de baixa patente. É comida para generais e oficiais graduados.

Da rubrica do Orçamento “Enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional decorrente da Covid”, só deveria sair dinheiro para compra de itens essenciais.

E daí? Daí que não foi assim no Ministério da Defesa em 2020, informa levantamento sigiloso feito pela Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas do Tribunal de Contas da União.

Segundo a repórter Constança Rezende, da Folha de São Paulo, a Secretaria constatou que, dentre os órgãos superiores dos três Poderes, a Defesa foi o que mais gastou com itens não essenciais.

Resposta do Ministério da Defesa por meio de sua assessoria de imprensa: as atividades militares foram mantidas na pandemia e faz parte delas a alimentação das tropas. Resposta capenga.


Os auditores esperavam que, em consequência do regime telepresencial de trabalho, houvesse redução de gastos com alimentação como houve nos Ministérios da Educação e da Saúde.

Trechos do relatório dos auditores:

“Não parece razoável alocar os escassos recursos públicos na compra de itens não essenciais, especialmente durante a crise sanitária, econômica e social pela qual o país está passando, decorrente da pandemia”.

“Ressalte-se que, dos recursos destinados ao combate à pandemia Covid-19 utilizados indevidamente para aquisição de itens não essenciais (aproximadamente R$ 557 mil), 96% foram despendidos pelo Ministério da Defesa”.

“Além de não servir à finalidade a que se destina, a contratação desse tipo de insumo fere o princípio da moralidade previsto no art. 37 da Constituição Federal de 1988, o qual está diretamente relacionado à integridade nas compras públicas”.

Diz ainda o relatório que a aquisição de comida por órgãos públicos “deve ter por finalidade o fornecimento de alimentação saudável, balanceada e adequada para suprir as necessidades nutricionais básicas de seu público-alvo”.

Mais da metade da população brasileira — 116 milhões de pessoas — vive com algum grau de insegurança alimentar. Ao menos 19 milhões passam fome, situação agravada pela pandemia e pela crise econômica do país.

Brasil está sendo atacado

É Natal e deveríamos poder falar de temas mais leves. Mas alguém viu aí Lula ou Geraldo Alckmin falando sobre segurança digital? Talvez Sergio Moro? Ciro Gomes ou João Doria? O governo de Jair Bolsonaro, nós já sabemos, não tem ideia a respeito do assunto. E, no tempo do comércio eletrônico, na antevéspera de Natal, quem precisou rastrear uma encomenda pelo site dos Correios não pôde. Você precisa saber se tem de dar um pulo com urgência numa loja para comprar o que não chegará em tempo?

A informação não existe, houve mais um ataque hacker. O colapso digital do Ministério da Saúde está a caminho da terceira semana, e o desastre segue. Enquanto isso, o presidente cortou a verba de investimento em tecnologia da Receita Federal para dar um aumento às polícias. Que ideia excelente.

Se não está ainda claro, deveria: o Estado brasileiro está sob ataque de um grupo hacker.


O país tem um governo paranoicamente obcecado com segurança nacional. Sente-se ameaçado pela China, teme a invasão europeia da Amazônia, o general que dirige a agência de inteligência acredita que há um complô para o assassinato do presidente, e o intelectual que inspira a todos vê comunistas em todo lugar onde alguém ousa pensar.

O Estado, porém, é atacado concretamente em sua infraestrutura essencial, e o presidente estava de férias no Guarujá, dançando funk. Os outros três candidatos que compartilham com Bolsonaro o topo das pesquisas falaram em público nesta semana, em vídeos pela internet. O Brasil está sob ataque, nenhum deles entrou a sério no assunto.

Quando a empresa privada responsável por 20% do abastecimento de combustível nos EUA sofreu um ataque no início deste ano, uma equipe de especialistas do FBI amanheceu em seus escritórios. O presidente Joe Biden limpou sua agenda naquela manhã para se fechar no Salão Oval com o Conselho de Segurança Nacional.

Nos EUA, ao longo das primeiras 24 horas, as principais consultorias de segurança da informação já haviam divulgado relatórios públicos detalhados sobre os métodos de ação do grupo responsável. É informação preciosa para que outros possam evitar novas invasões.

Faz duas semanas que, em meio a uma pandemia, o Brasil perdeu a capacidade de ter dados precisos sobre mortes e internações. Sobre como anda a vacinação. Se a variante Ômicron começar a se espalhar rápido num dos estados menores, talvez demoremos alguns dias para saber.

E no dia 23 de dezembro o brasileiro perdeu a capacidade de acompanhar suas entregas de Natal. Os Correios formam, hoje, parte da infraestrutura sem a qual o comércio brasileiro não funciona. Todo o comércio brasileiro.

E que consultoria de segurança da informação publicou um relatório sobre o grupo hacker Lapsus$? Nenhuma. Fontes no interior do Ministério da Saúde informam que a invasão não ocorreu por técnica sofisticada. Não: os hackers tinham logins e senhas. Mas, uma vez dentro do sistema, sofisticados foram.

Sabiam exatamente o que atacar. Parecem ser brasileiros. Isso não quer dizer necessariamente que seja obra de gente infiltrada. Pode ter sido um ataque planejado ao longo de muito tempo. Esses não são hackers de Araraquara.

O governo que deveria estar completamente mobilizado para resolver o problema é o de Bolsonaro. O governo que não foi capaz de se defender é o atual. Mas não vamos nos enganar — se o analista de inteligência Edward Snowden não houvesse contado que a Petrobras havia sido hackeada, o governo de Dilma Rousseff nem saberia. Estamos, como país, profundamente atrasados. Nossos militares paranoicos ainda não entenderam como se faz guerra hoje em dia.