sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Falta de vergonha
Agora as pessoas sentem-se autorizadas a verbalizar os seus preconceitos racistas. Isto não acontecia antes – as pessoas, pelo menos, tinham vergonha.
José Eduardo Agualusa
Novos robôs de IA facilitam a vida, mas trazem riscos
O leitor deve ter visto nesta semana a notícia fantástica de uma rede social feita apenas para robôs de inteligência artificial (IA). Nessa rede, eles discutem filosoficamente se têm consciência e, entre outras coisas, se organizam para se rebelar contra os humanos. No fim das contas, depois de muito susto, descobrimos que as postagens não são espontaneamente feitas pelos robôs, mas provavelmente brincadeiras de seus donos — que devem ter pedido para fazerem essas postagens distópicas a fim de fazer graça e gerar burburinho.
Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.
Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana. Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.
O software foi desenvolvido por um engenheiro austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso, guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).
Em apenas uma semana de uso, usuários relatam maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente, com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir automaticamente um Uber para o restaurante.
Você pode pedir para ele encontrar documentos em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas. Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail, responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda. Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.
Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias. O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro pode ser fatal.
Além de simples erros (bugs), você pode pedir para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se põe.
A ideia de robôs tramando uma revolução parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria, que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso ilimitado a sua conta bancária.
Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.
Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana. Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.
O software foi desenvolvido por um engenheiro austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso, guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).
Em apenas uma semana de uso, usuários relatam maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente, com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir automaticamente um Uber para o restaurante.
Você pode pedir para ele encontrar documentos em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas. Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail, responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda. Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.
Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias. O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro pode ser fatal.
Além de simples erros (bugs), você pode pedir para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se põe.
A ideia de robôs tramando uma revolução parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria, que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso ilimitado a sua conta bancária.
Dia a dia na Papudinha
Meus fiéis leitores bolsonaristas não se conformam — quando escrevo sobre qualquer assunto que não Bolsonaro, eles se queixam. E com razão. Por razões sanitárias, só falo de Bolsonaro uma vez por semana e, mesmo assim, nem toda semana. Com isso, às vezes passo em branco sobre assuntos a seu respeito que mereceriam atenção. Omiti-me, por exemplo, há algumas semanas, quando Bolsonaro foi transferido para a Papudinha.
Ao ler no noticiário sobre suas novas e amplas acomodações —sala, quarto, cozinha, banheiro com box, área externa e lavanderia—, algo me chamou a atenção. Os cinco primeiros itens me pareceram razoáveis. Afinal, Bolsonaro precisa de uma sala para receber sua legião de visitas diárias: mulher, filhos, advogados, bispos, cúmplices. À falta de uma secretária, imagino que disponha de uma agenda para organizar suas reuniões. Nada também contra um fogão para fritar bolinhos, área para banho de sol etc. Mas por que uma lavanderia?
Terá Bolsonaro de lavar pessoalmente suas ceroulas, meias e cuecas? A Papudinha não disporá de encarregados desse serviço, tendo em conta inclusive a dignidade do ex-cargo do condenado? Nenhuma das reportagens me esclareceu. Se for assim, espero que, ao vê-lo dirigir-se ao tanque, munido de escovão e sabão de coco, os guardas lhe forneçam pelo menos um avental.
Relatório enviado há dias ao STF pela PM do DF informou que, na semana passada, Bolsonaro teve assistência religiosa a cargo de um deputado-pastor, fez cinco sessões de fisioterapia, leu zero livros e recebeu quatro médicos —imagino que um para lhe tirar a temperatura; outro, a pressão; o terceiro para mandá-lo dizer "33"; e o último para receitar-lhe um copo d’água para soluços. Tanta assistência médica torna inexplicável sua campanha para voltar à prisão domiciliar —em casa, teria tantos médicos à disposição?
Como já se disse, a Papudinha fornece a Bolsonaro instalações melhores do que a de 99,9% da população carcerária brasileira. Eu gostaria de saber a quem cabe o 0,1% restante.
Ao ler no noticiário sobre suas novas e amplas acomodações —sala, quarto, cozinha, banheiro com box, área externa e lavanderia—, algo me chamou a atenção. Os cinco primeiros itens me pareceram razoáveis. Afinal, Bolsonaro precisa de uma sala para receber sua legião de visitas diárias: mulher, filhos, advogados, bispos, cúmplices. À falta de uma secretária, imagino que disponha de uma agenda para organizar suas reuniões. Nada também contra um fogão para fritar bolinhos, área para banho de sol etc. Mas por que uma lavanderia?
Terá Bolsonaro de lavar pessoalmente suas ceroulas, meias e cuecas? A Papudinha não disporá de encarregados desse serviço, tendo em conta inclusive a dignidade do ex-cargo do condenado? Nenhuma das reportagens me esclareceu. Se for assim, espero que, ao vê-lo dirigir-se ao tanque, munido de escovão e sabão de coco, os guardas lhe forneçam pelo menos um avental.
Relatório enviado há dias ao STF pela PM do DF informou que, na semana passada, Bolsonaro teve assistência religiosa a cargo de um deputado-pastor, fez cinco sessões de fisioterapia, leu zero livros e recebeu quatro médicos —imagino que um para lhe tirar a temperatura; outro, a pressão; o terceiro para mandá-lo dizer "33"; e o último para receitar-lhe um copo d’água para soluços. Tanta assistência médica torna inexplicável sua campanha para voltar à prisão domiciliar —em casa, teria tantos médicos à disposição?
Como já se disse, a Papudinha fornece a Bolsonaro instalações melhores do que a de 99,9% da população carcerária brasileira. Eu gostaria de saber a quem cabe o 0,1% restante.
O cão Orelha: dos ancestrais à ascensão dos vira-latas
Encontre um borzoi… e você nunca esquecerá de mim
Frase atribuída a Trotsky em "O homem que amava os cachorros", de Leonardo Padura
Nas últimas semanas, o noticiário foi preenchido pelo ato covarde e cruel de jovens da classe média que mataram um cachorro, o Orelha. Milhares de pessoas foram às ruas protestar pela causa da defesa dos animais e exigiram a condenação dos jovens infratores. Mas como surgiu esse sentimento pelos cachorros?
O cão é o “mais antigo vertebrado domesticado pelo homem”, “um produto típico do modo de vida caçador-coletor”. Porém, ao longo da história, esse animal – hoje querido por muitos – nem sempre teve o mesmo tratamento. Como mostra o historiador francês, Michel Pastoureau, “os cães não parecem ainda constituir objeto de atenções afetivas antes da metade do século XIII; não têm o direito de entrar nas casas e geralmente são associados a costumes pouco generosos”.
De acordo com Keith Thomas, “a imagem oriental dos cães como imundos devoradores de carniça foi transmitida pela Bíblia” e no Livro do Apocalipse é sugerido que: “na Ressurreição os cães, tal como outros seres impuros, seriam excluídos da Nova Jerusalém”. O próprio Diabo era descrito como tendo “barba de bode, orelhas peludas e afilhadas, cabelos eriçados, dentes de cão…”
Contudo, durante a Idade Média esse sentimento em relação aos cães se transforma por conta do simbolismo da fidelidade.
A sociedade medieval não era letrada. Os acordos eram selados “de boca”, aperto de mãos etc. Na maioria das vezes não havia documentos escritos que comprovassem a veracidade das coisas. Por isso que “o que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é ‘aquele que nunca mente’”.
O contrato feudo-vassálico era selado por meio de três atos. Para além da homenagem e da investidura, a fidelidade era o elemento chave, e era realizado através de um “juramento feito sobre a Bíblia ou relíquias de santos e muitas vezes selado por um beijo entre as partes”, explica o historiador Hilário Franco Júnior.
A fidelidade entre os reis e os nobres era fundamental. Estes últimos deviam defender o reino e eram convocados quando este se encontrava em perigo. Mas muitos vassalos eram vistos como traidores. E os mercadores, como descreve Jacques Le Goff, “são fraudadores que só pensam em enganar e roubar”.
Mas o cão mostrava-se fiel, encarnando a virtude mais importante da sociedade feudal. Na caça e na proteção do lar. Le Goff destaca que “o simbolismo do cão segue duas direções: uma tradição antiga que faz dele uma representação da impureza, e uma tendência da sociedade feudal a reabilitá-lo como animal nobre, companheiro indispensável do senhor na caça, símbolo da fidelidade – a mais elevada das virtudes feudais”.
Deste modo, no limiar do período moderno, começou-se a enfrentar o próprio veredicto bíblico. “Nas Escrituras, dizia o pregador Joseph Caryl, ‘cão’ era ‘um termo, não somente de certo desprezo, mas de extrema desgraça’; ao passo que, na realidade, ‘alguns cães têm muitíssimas qualidades’”.
Como aponta Keith Thomas, “no século XIII o cão já era geralmente conhecido como ‘o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos’, e louvado como o ‘servo mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem’”. Friedrich Engels dizia que os cachorros (ao lado dos cavalos) são capazes de compreender os seres humanos mais que qualquer outro animal, e a falta da habilidade da fala é “um defeito, embora infelizmente irremediável, devido ao fato de as cordas vocais serem demasiado especializadas em uma direção definida”.
Nessa nova relação com os cães, o rei Jaime I era acusado, “em 1617, de amar a seus cães mais que a seus súditos”. Um cachorro até virou santo. Um galgo francês, “morto injustamente após salvar uma criança de uma cobra na diocese de Lyon; no século XIII a gente comum o conhecia como o São Guinefort, e curas milagrosas de crianças doentes foram realizadas em seu túmulo até que os dominicanos suprimissem o culto”.
Cabe lembrar que os cães foram originalmente domesticados “como cães de guarda e companheiro de caça, mas algumas raças foram desenvolvidas e criadas para servirem de alimento no México asteca, na Polinésia e na China antiga”.
Havia cachorros vivendo com os ameríndios antes da chegada dos europeus, segundo Jared Diamond, que foram domesticados há 10.000 a.C.. Contudo, não foi o caso dos nativos brasileiros. O antropólogo Oscar Calavia Saez, professor de antropologia da universidade federal de Santa Catarina, afirma que “os índios não criam animais”, embora possuem uma palavra que não existia no português para designar “animal de estimação”: xerimbabo. “Com a incorporação da palavra xerimbabo, o português é uma das poucas línguas do mundo que contam com um nome específico para designar um animal de estimação”. Esses animais eram “filhotes encontrados na floresta ou crias cujos pais foram abatidos durante as caçadas”.
Para os nativos, o homem não é o centro do universo e os outros animais são dotados de inteligência, portanto, não precisam ser cuidados. Vivem na vila livremente, o que pode provocar questionamento aos visitantes sobre o amor dos nativos pelos seus xerimbabos. “Mas os cães não são de todo desprezados, embora continuem sendo animais recém-chegados do mundo dos brancos”.
Esse animal colonizador ficou conhecido entre os nativos como “onças de criação” ou iaguás-mimbabas e “passaram a ser usados para desentocar a caça e alertar sobre a chegada do inimigo”, destaca a historiadora Mary Del Priore.
Mas, nos fins das contas, os cães eram animais trazidos pelos europeus e adotaram funções que interessavam a sociedade escravocrata. O fila brasileiro, raça que foi oficializada como brasileira no início dos anos 1940, tem uma mancha em sua história. O jornalista Paulo Roberto Godinho demonstra que “o termo ‘filar’ vem de Portugal e significa ‘agarrar com a boca’”. Desde os tempos da escravidão, os ‘cabeçudos’ (que dará origem a raça fila brasileiro) eram usados pelos capitães do mato para localizar, perseguir e aprisionar escravos fugidos. Os negros eram mercadorias de valor e tinham de chegar aos senhores em bom estado de saúde, por isso não podiam ser muito machucados pelos cães. O ‘cabeçudo’ farejava o fugitivo, buscava-o em sua trilha e o agarrava com a boca, esperando pela chegada do capitão do mato”.
A elite herdeira desse imperialismo ecológico, no qual os europeus levaram consigo sua fauna e flora, muito bem analisado por Alfredo W. Crosby, adorava seus cães. A Família Imperial possuiu quatro cães: Riachuelo, Paissandu, Farkas e Brilhantina. Outro cachorro que ficou famoso durante o Império foi o Bruto. “Adotado pelos soldados de um quartel de polícia do Rio de Janeiro que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870). Bruto foi levado para o front, sobreviveu ao conflito e voltou ao Rio, onde está empalhado no Museu da Polícia Militar”.
Mas o vira-lata, como o era o Orelha, representa a resistência do povo brasileiro. Por isso que mobilizou tanta gente. Genuinamente brasileiro, é o símbolo da nossa garra. Encontrado nas casas e nas ruas, sabe se aproximar dos humanos, oferecendo companhia. Alimentando-se de restos, resistindo a intempéries é econômico e ágil, possui habilidades que foram perdidas pelos seus parentes de “raça pura” devido a seleção artificial que estes foram submetidos. Contudo é menosprezado por muitos, por isso foi violentado pelos adolescentes de Santa Catarina. Por isso, também, que o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-latas”. Ele mesmo apresenta a definição: “por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol”.
Rodrigues cunhou esse conceito na época da derrota do Brasil para o Uruguai no final da Copa de 1950. Porém, no futebol, esse complexo logo foi superado nas copas vindouras. Mas esse complexo ainda está presente em outros setores. A superação dessa ideia de inferioridade (ideia, por sinal, muito útil ao imperialismo do norte global) em outros setores irá depender do estímulo de uma cultura patriótica que defenda os interesses nacionais e a soberania do povo brasileiro, virtudes que estão sendo combatidas pela direita entreguista (que se assanha com o Partido Republicano dos EUA) e por setores da esquerda liberal (que se assanha para o lado do Partido Democrata estadunidense). Somente assim, o vira-lata irá deixar de se tornar símbolo de desprezo para se transformar em símbolo de superação. E se um dia os ingleses usaram o bulldog como um símbolo de civilidade durante o auge do imperialismo britânico, por que não usarmos o vira-lata como símbolo da resistência brasileira ao imperialismo que se revigora ao longo dos últimos anos?
Frase atribuída a Trotsky em "O homem que amava os cachorros", de Leonardo Padura
Nas últimas semanas, o noticiário foi preenchido pelo ato covarde e cruel de jovens da classe média que mataram um cachorro, o Orelha. Milhares de pessoas foram às ruas protestar pela causa da defesa dos animais e exigiram a condenação dos jovens infratores. Mas como surgiu esse sentimento pelos cachorros?
O cão é o “mais antigo vertebrado domesticado pelo homem”, “um produto típico do modo de vida caçador-coletor”. Porém, ao longo da história, esse animal – hoje querido por muitos – nem sempre teve o mesmo tratamento. Como mostra o historiador francês, Michel Pastoureau, “os cães não parecem ainda constituir objeto de atenções afetivas antes da metade do século XIII; não têm o direito de entrar nas casas e geralmente são associados a costumes pouco generosos”.
De acordo com Keith Thomas, “a imagem oriental dos cães como imundos devoradores de carniça foi transmitida pela Bíblia” e no Livro do Apocalipse é sugerido que: “na Ressurreição os cães, tal como outros seres impuros, seriam excluídos da Nova Jerusalém”. O próprio Diabo era descrito como tendo “barba de bode, orelhas peludas e afilhadas, cabelos eriçados, dentes de cão…”
Contudo, durante a Idade Média esse sentimento em relação aos cães se transforma por conta do simbolismo da fidelidade.
A sociedade medieval não era letrada. Os acordos eram selados “de boca”, aperto de mãos etc. Na maioria das vezes não havia documentos escritos que comprovassem a veracidade das coisas. Por isso que “o que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é ‘aquele que nunca mente’”.
O contrato feudo-vassálico era selado por meio de três atos. Para além da homenagem e da investidura, a fidelidade era o elemento chave, e era realizado através de um “juramento feito sobre a Bíblia ou relíquias de santos e muitas vezes selado por um beijo entre as partes”, explica o historiador Hilário Franco Júnior.
A fidelidade entre os reis e os nobres era fundamental. Estes últimos deviam defender o reino e eram convocados quando este se encontrava em perigo. Mas muitos vassalos eram vistos como traidores. E os mercadores, como descreve Jacques Le Goff, “são fraudadores que só pensam em enganar e roubar”.
Mas o cão mostrava-se fiel, encarnando a virtude mais importante da sociedade feudal. Na caça e na proteção do lar. Le Goff destaca que “o simbolismo do cão segue duas direções: uma tradição antiga que faz dele uma representação da impureza, e uma tendência da sociedade feudal a reabilitá-lo como animal nobre, companheiro indispensável do senhor na caça, símbolo da fidelidade – a mais elevada das virtudes feudais”.
Deste modo, no limiar do período moderno, começou-se a enfrentar o próprio veredicto bíblico. “Nas Escrituras, dizia o pregador Joseph Caryl, ‘cão’ era ‘um termo, não somente de certo desprezo, mas de extrema desgraça’; ao passo que, na realidade, ‘alguns cães têm muitíssimas qualidades’”.
Como aponta Keith Thomas, “no século XIII o cão já era geralmente conhecido como ‘o mais inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos’, e louvado como o ‘servo mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem’”. Friedrich Engels dizia que os cachorros (ao lado dos cavalos) são capazes de compreender os seres humanos mais que qualquer outro animal, e a falta da habilidade da fala é “um defeito, embora infelizmente irremediável, devido ao fato de as cordas vocais serem demasiado especializadas em uma direção definida”.
Nessa nova relação com os cães, o rei Jaime I era acusado, “em 1617, de amar a seus cães mais que a seus súditos”. Um cachorro até virou santo. Um galgo francês, “morto injustamente após salvar uma criança de uma cobra na diocese de Lyon; no século XIII a gente comum o conhecia como o São Guinefort, e curas milagrosas de crianças doentes foram realizadas em seu túmulo até que os dominicanos suprimissem o culto”.
Cabe lembrar que os cães foram originalmente domesticados “como cães de guarda e companheiro de caça, mas algumas raças foram desenvolvidas e criadas para servirem de alimento no México asteca, na Polinésia e na China antiga”.
Havia cachorros vivendo com os ameríndios antes da chegada dos europeus, segundo Jared Diamond, que foram domesticados há 10.000 a.C.. Contudo, não foi o caso dos nativos brasileiros. O antropólogo Oscar Calavia Saez, professor de antropologia da universidade federal de Santa Catarina, afirma que “os índios não criam animais”, embora possuem uma palavra que não existia no português para designar “animal de estimação”: xerimbabo. “Com a incorporação da palavra xerimbabo, o português é uma das poucas línguas do mundo que contam com um nome específico para designar um animal de estimação”. Esses animais eram “filhotes encontrados na floresta ou crias cujos pais foram abatidos durante as caçadas”.
Para os nativos, o homem não é o centro do universo e os outros animais são dotados de inteligência, portanto, não precisam ser cuidados. Vivem na vila livremente, o que pode provocar questionamento aos visitantes sobre o amor dos nativos pelos seus xerimbabos. “Mas os cães não são de todo desprezados, embora continuem sendo animais recém-chegados do mundo dos brancos”.
Esse animal colonizador ficou conhecido entre os nativos como “onças de criação” ou iaguás-mimbabas e “passaram a ser usados para desentocar a caça e alertar sobre a chegada do inimigo”, destaca a historiadora Mary Del Priore.
Mas, nos fins das contas, os cães eram animais trazidos pelos europeus e adotaram funções que interessavam a sociedade escravocrata. O fila brasileiro, raça que foi oficializada como brasileira no início dos anos 1940, tem uma mancha em sua história. O jornalista Paulo Roberto Godinho demonstra que “o termo ‘filar’ vem de Portugal e significa ‘agarrar com a boca’”. Desde os tempos da escravidão, os ‘cabeçudos’ (que dará origem a raça fila brasileiro) eram usados pelos capitães do mato para localizar, perseguir e aprisionar escravos fugidos. Os negros eram mercadorias de valor e tinham de chegar aos senhores em bom estado de saúde, por isso não podiam ser muito machucados pelos cães. O ‘cabeçudo’ farejava o fugitivo, buscava-o em sua trilha e o agarrava com a boca, esperando pela chegada do capitão do mato”.
A elite herdeira desse imperialismo ecológico, no qual os europeus levaram consigo sua fauna e flora, muito bem analisado por Alfredo W. Crosby, adorava seus cães. A Família Imperial possuiu quatro cães: Riachuelo, Paissandu, Farkas e Brilhantina. Outro cachorro que ficou famoso durante o Império foi o Bruto. “Adotado pelos soldados de um quartel de polícia do Rio de Janeiro que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870). Bruto foi levado para o front, sobreviveu ao conflito e voltou ao Rio, onde está empalhado no Museu da Polícia Militar”.
Mas o vira-lata, como o era o Orelha, representa a resistência do povo brasileiro. Por isso que mobilizou tanta gente. Genuinamente brasileiro, é o símbolo da nossa garra. Encontrado nas casas e nas ruas, sabe se aproximar dos humanos, oferecendo companhia. Alimentando-se de restos, resistindo a intempéries é econômico e ágil, possui habilidades que foram perdidas pelos seus parentes de “raça pura” devido a seleção artificial que estes foram submetidos. Contudo é menosprezado por muitos, por isso foi violentado pelos adolescentes de Santa Catarina. Por isso, também, que o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-latas”. Ele mesmo apresenta a definição: “por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol”.
Rodrigues cunhou esse conceito na época da derrota do Brasil para o Uruguai no final da Copa de 1950. Porém, no futebol, esse complexo logo foi superado nas copas vindouras. Mas esse complexo ainda está presente em outros setores. A superação dessa ideia de inferioridade (ideia, por sinal, muito útil ao imperialismo do norte global) em outros setores irá depender do estímulo de uma cultura patriótica que defenda os interesses nacionais e a soberania do povo brasileiro, virtudes que estão sendo combatidas pela direita entreguista (que se assanha com o Partido Republicano dos EUA) e por setores da esquerda liberal (que se assanha para o lado do Partido Democrata estadunidense). Somente assim, o vira-lata irá deixar de se tornar símbolo de desprezo para se transformar em símbolo de superação. E se um dia os ingleses usaram o bulldog como um símbolo de civilidade durante o auge do imperialismo britânico, por que não usarmos o vira-lata como símbolo da resistência brasileira ao imperialismo que se revigora ao longo dos últimos anos?
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