domingo, 6 de agosto de 2023

A polícia letal de estados opostos na política

Mês de Julho se foi, na Bahia e em São Paulo, como o diabo gosta (para citar a canção de Belchior e versos de cordéis, vendidos nas feiras do Nordeste, com narrativas do tempo das “volantes” das polícias estaduais da região, no combate ao cangaço comandado por Virgulino Ferreira, o Lampião), em termos de letalidade na atuação das PMs. 36 pessoas morreram – 20 no estado nordestino e 16 (ao menos, até quinta-feira, (3) na principal unidade da federação, no sudeste do País – em operações que resultaram em “confrontos com o crime organizado e o tráfico de drogas”, segundo comunicados das corporações, nos temerários últimos dias da passagem de julho para agosto. Fatos de imagens pesadas de grossa selvageria e denúncias de torturas, feitas por promotorias públicas, ONGs locais e estrangeiras, e até do setor de defesa dos direitos humanos na ONU, e de expressivas personalidades democráticas, sobre o estado de coisas que mexe com os nervos, nacionalmente, e levanta protestos no exterior.

Já são conhecidos dados que vão além da curva da razoabilidade: mesmo quando comparados com países em guerra declarada, ou republiquetas de bananas. Desperta especial preocupação, em núcleos democráticos e humanitários do pensamento e ação, o fato desta letalidade brutal explodir em dois ressonantes estados do País, ao mesmo tempo. Unidades federativas de governos opostos – política e ideologicamente – cujas forças de segurança parecem tecer macabra e desgovernada disputa, de qual é mais letal em suas ações. Governos que divergem nos discursos, igualmente confusos na forma e mambembes, no conteúdo intelectual e nos projetos de gestão. Até aqui, as atuações policiais são semelhantemente desastrosas – tal qual as falas de seus chefes, de governo e de polícia –, e praticamente os mesmos pífios resultados.

Na Bahia, do governo de Jerônimo Rodrigues (PT), segue o curso da letalidade policial de cada dia – herdada da gestão Rui Costa (atual ministro chefe da Casa Civil do governo Lula) durante seus dois mandatos seguidos, entre 2015 e 2022:, marcado pelo tristemente famoso “massacre do Cabula” (de repercussão até na ONU), quando 12 jovens de idades entre 18 e 23 anos foram encurralados e mortos em ação da tropa de elite da PM. A partir daí, o estado viu as mortes nos “confrontos” com as forças de segurança subirem 313% e baterem recorde, ano passado, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022. Quando pela primeira vez, a polícia baiana aparece como a mais letal do País, tomando o lugar antes ocupado pelo Rio de Janeiro.

Em São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) – nome de proa da chamada nova direita brasileira, ligada ao ex- ocupante de triste memória do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, defensor da teoria de que bandido bom é bandido morto o tiroteio de uma operação d grupo especial da ROTA tem saldo –até 3/8, de 16 mortos, em Guarujá, antigo balneário da elite paulista. No caso atual, a “Operação Escudo”, que tem características mais nítidas de vingança que de combate inteligente e efetivo ao crime – como destacado por juristas e analistas especializados na imprensa br asileira e estrangeira – o atirador confesso, contra o soldado Patrick, se entregou à Polícia Civil, e está preso. Tarcisio de Freitas já anunciou que a operação vai continuar no Guarujá até o fim de agosto. O resto a ver.

Corações de ferro.

Heitor sempre foi Totô. Apelido de infância que passou da casa à rua e dela à escola. Durou até virar o soldado Heitor. O semblante que harmonizava com a farda tornava esquisito para os amigos continuar chamando Heitor de Totô. Metido numas bermudas, quem sabe? Mas os amigos há muito não o viam mais de bermudas. Totô mudou. Sumiu sem mudar-se de rua. Transformou-se em Heitor, soldado Heitor.

Sempre foi aventureiro. Criança de subir e cair das árvores mais altas, de se arrebentar nas manobras mais ousadas de bicicleta e também de se levantar logo em seguida para tentar novamente a façanha e, novamente, estatelar-se. Corajoso, carinhoso e aventureiro, não foi surpresa para ninguém quando decidiu tornar-se policial. Mas surpreendeu até a seus pais quando, tornado policial, transformou-se. “Totô tem um coração de ouro!”, repetia com insistência sua mãe, Dona Helena. Agora, diz que é um bom rapaz.

Na formação, conheceu o sargento Aquiles. Especialista na arte de endurecer corações. “Na rua, se você vacila, morre”, dizia o tempo todo para justificar a brutalidade das lições. Num treino, Heitor cochilou. Acordou com um tapa e dois chutes do sargento Aquiles. “Animal que dorme é abatido, entendeu seu merda!”. “Sim senhor!”, disse maquinalmente enquanto se recompunha.


Os amigos de lá ele chama de companheiros. Irmãos de farda. De uma amizade que não é como a dos amigos da rua, surgida de brincadeiras e jogos, mas parida entre os tapas e suplícios do sargento Aquiles. Amizade forjada, como se tratasse de metalurgia e não de afetos. Forjada em corações de ferro, endurecidos para sobreviverem à dureza das ruas. Tornados indiferentes à brutalidade para serem brutais para com vagabundos.

Um destes companheiros era o soldado Páris. Um irmão, ele dizia. Dele e dos demais. Sujeito curioso cujo coração de ouro não se transformou em coração de ferro na forja do sargento Aquiles. Talvez tenha sido justamente seu coração de ouro mole que o fez vacilar e ser atingido fatalmente por um tiro. Morreu a caminho do hospital, entre os gritos de raiva e desespero de seus companheiros cujos corações de ferro foram endurecidos para tudo, exceto para a morte de um dos seus.

A notícia da morte de Páris espalhou-se rápido pelo WhatsApp da tropa. Mensagens cheias de tristeza e raiva inflamadas. Narrativas e especulações que terminavam sempre com a mesma conclusão. “Esse vagabundo tem que ir pra vala!”.

Os oficiais não perderam tempo em montar a operação. Heitor foi com seu coração de ferro vermelho. Quente como ferro de marcar a pele de escravos. Arremessou o cobre de seu fuzil com a concentração e indiferença de quem só vê o alvo preto pela frente. Sabe que matou, pelo menos, um. Que viu bem enquanto atirava. Em outros, não atirou sozinho. Ele e seus companheiros deixaram para trás 16 mortos e outros tantos com seus corações de ferro incandescentes de ódio, a espalhar mensagens de ódio aos policiais. Alimento de uma guerra sem fim.

Heitor sentiu-se estranho ao fim do dia. Aliviado e feliz pela missão cumprida e injustiçado por chamarem seu trabalho de chacina. Fez apenas o que seu coração fora forjado para fazer. O que os mesmos que em público vaiam, aos sussurros aplaudem. Mas isto o incomoda pouco. Acostumou-se com a hipocrisia e sabe que o espetáculo da notícia não durará mais que dois dias.

Mais do que isso, durará em seu peito um sentimento desgostoso. Ranger esquisito no seu coração de ferro. Endurecido para a morte, mas ainda regado pelo sangue que correu um dia pelo coração de ouro de Totô.

São Paulo usa receita para manter o racismo de vento em popa

No Brasil, o livro didático é o principal, quando não o único livro ao qual a maior parte das crianças tem acesso. Essa é uma realidade amplamente conhecida e estudada. De tal modo que o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), promovido pelo Ministério da Educação (MEC), é uma política pública de alcance material e simbólico absurdamente significativo. Nos rincões e regiões periféricas do Brasil, onde água encanada ainda é artigo de luxo, o livro é um objeto tão valioso que pode não ter sentido algum.

O PNLD funciona tendo as secretarias estaduais de educação como pontes, por meio das quais professores e educadores de escolas públicas adotam livros do catálogo do programa. Pois bem, nesta semana o governo do estado de São Paulo decidiu recusar os livros oferecidos pelo MEC.

O argumento oferecido pelo secretário da educação é que o estado de São Paulo deseja abolir o uso de material impresso, substituindo-o pelo conteúdo digital. Em que pese o fato de São Paulo ser o estado mais rico da nação, as experiências mais recentes de ensino remoto durante a pandemia atestaram que as escolas públicas do estado não têm condições materiais para um ensino embasado em plataformas digitais.

Faltam computadores e redes cabeadas nas escolas. Falta formação para os professores que precisam se "adaptar" às ferramentas digitais. Além disso, a imensa maioria dos estudantes não teria meios de acessar esses conteúdos fora do espaço escolar, porque não tem notebooks, chromebooks ou até mesmo rede Wi-Fi para acessar esses conteúdos.


Desse modo, a pretensa ousadia digital da secretaria do estado de São Paulo em "modernizar" a educação das escolas, abrindo mão dos livros didáticos antes mesmo de ter meios para garantir o acesso às plataformas digitais para os estudantes e professores da rede, nada mais é do que a "boa" e velha política de precarização do ensino público. Uma política que há décadas vem transformando a educação pública num grande esquema de reprodução acrítica de conteúdos e informações, além de uma máquina de moer professores e educadores.

E como não acredito em coincidências, não posso deixar de fazer a leitura conjunta dessa medida com as recentes ações da Polícia Militar de São Paulo na cidade do Guarujá. Uma das ações mais letais da história da corporação e que foi comemorada pelo governador do estado.

O que me deixa impressionada é que não há novidade alguma nessa conjunção.

O sucateamento da educação e a ação violenta dos órgãos de repressão funcionam, há décadas, como uma espécie de fórmula eficaz da manutenção e perpetuação do racismo à brasileira. São as faces da mesma moeda.

De um lado, dificultam ao máximo que a juventude pobre e negra (na sua maioria) tenha acesso a uma educação básica de qualidade. E educação de qualidade invariavelmente é sinônimo de uma educação transformadora. Por outro, as ações violentas do braço armado do Estado seguem violando os direitos civis da mesma população pobre e negra – que, por conta da estrutura racista que nos ordena, não teve e nem terá chances de "subir na vida" –, deixando bem claro quais são as regras do jogo.

Essa é uma receita que só faz o racismo crescer.

Até quando?

Mauro Cid, retrato dos militares bolsonaristas que se corromperam

O que mais faltava para emporcalhar de vez a reputação do tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, filho de general e ex-ajudante de ordem do pior presidente da história do Brasil?

Designado por Bolsonaro, o pai de Mauro Cid chefiou nos últimos quatro anos o escritório, em Miami, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX)

O general e Bolsonaro, afastado pelo Exército nos anos 1980 por planejar atentados terroristas a quartéis, são amigos dos tempos da Academia Militar das Agulhas Negras.

Mauro Cid está detido desde o dia 3 de maio no Batalhão do Exército de Brasília, unidade comandada por um amigo dele, o tenente-coronel Bruno Fett. É acusado de cometer vários crimes.

A Polícia Federal o investiga por realizar saques de recursos com cartões corporativos da Presidência. Mauro Cid também pagou despesas de Michelle com cartão de crédito de uma amiga dela.


Foi ele que tentou resgatar um estojo de joias sauditas retido pela Receita Federal ao entrar no país escondido na mala de um auxiliar do almirante Bento Albuquerque, ex-ministro das Minas e Energia.

Mauro Cid fez parte do grupo que falsificou os cartões de vacinação contra a Covid-19 de Bolsonaro e de Laura, sua filha, para que eles pudessem circular livremente nos Estados Unidos.

Além de ter participado das tratativas de golpe para impedir a posse de Lula na presidência. No celular de Mauro Cid foi encontrada uma minuta do golpe, e mensagens a respeito.

A mais nova anotação na folha corrida de Mauro Cid foi a descoberta de que ele quis vender por 60 mil dólares (cerca de 300 mil reais) um Rolex que o rei da Arábia Saudita deu a Bolsonaro.

Mauro Cid trocou mensagens em inglês com Maria Farani, que assessorou o Gabinete Adjunto de Informações do gabinete pessoal de Bolsonaro até janeiro de 2023:

Maria Farani: Olá Mauro, obrigada pelo interesse em vender o seu Rolex. Tentei falar com você por telefone, mas não consegui. Pode por favor me falar se você tem o certificado de garantia original do relógio?

Maria Farani: Quanto você espera receber por essa peça? O mercado para Rolex usados está em baixa, especialmente para relógios cravejados de platina e diamante (já que o valor é tão alto).

Mauro Cid: Nós não temos o certificado do relógio, já que foi um presente recebido em viagem oficial de negócios. O que temos é o selo verde de certificado superlativo, que acompanha o relógio. Além disso, posso certificar que o relógio nunca foi usado.

Explicação dada por Maria Farani depois do estouro do caso:

“A pedido de Mauro Cid, por falar inglês, realizei uma pesquisa na internet para identificar possíveis compradores de relógio. Apenas enviei os e-mails e, ao receber respostas, retransmiti ao endereço eletrônico de Mauro Cid. Não tive conhecimento do desfecho de uma eventual negociação.”

Explicação dada pela defesa de Mauro Cid: ela preferiu não dar nenhuma, por enquanto.