quinta-feira, 2 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


As chamas

As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.

Moral: A ganância, o egoísmo e a busca por prazeres imediatos destroem aquilo que cobiçam e isolam o indivíduo de sua fonte de segurança.

Leonardo da Vinci. Fábulas

A vida, a liberdade e a busca da felicidade

Entre os dias 11 e 28 de junho de 1776, no apartamento de segundo andar que alugara em Filadélfia, Thomas Jefferson trabalhou nas hora vagas — era delegado ao Congresso e, como a maioria dos colegas, assíduo ao trabalho — no texto de uma declaração a ser feita pelo II Congresso Continental. Era conhecido por sua dificuldade em socializar e por sua facilidade em escrever frases sonoras. Ele e quatro outros haviam sido nomeados como Comitê de Redação; os outros, entre eles John Adams e Benjamin Franklin, lhe repassaram a tarefa. No dia 28 submeteu um esboço de quatro páginas a Adams e Franklin.

O Congresso discutia a moção de Richard Henry Lee, apresentada no dia 7 de junho, de que fosse feita uma Declaração de Independência. No dia 2 de julho, por unanimidade dos votos, salvo a abstenção da delegação de Nova York (ainda não havia o Mandani mandando nem o Tammany Hall), ela foi aprovada. O plenário passou a rever a fair copy do texto — destruída, possivelmente, no processo de impressão. Cortou um quinto dele, diz Joseph Ellis. Aceitou sem problemas o preâmbulo começado com as mágicas palavras:


Consideramos esta verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade. — Que para assegurar esses direitos governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados.

Fala-se em inspiração no Second Treatise of Government (1690) de John Locke: “mutual preservation of their lives, liberties and estates, which I call by the general name, property”. O gênio de Jefferson foi trocar essa coisa detestável, propriedade, por essa coisa desejável, felicidade, para todos uma eterna busca.

Jefferson lamentou especialmente a retirada de um único parágrafo da lista de agravos cometidos pelo rei da Inglaterra:

O rei fez guerra cruel contra a própria natureza humana, violando seus mais sagrados direitos de vida e liberdade nas pessoas de um povo distante que nunca o ofendeu, capturando-o e levando-o em escravatura a um outro hemisfério, ou para sofrer morte miserável no próprio transporte para ali. Essa guerra prática, o opróbrio dos poderes individuais, é a guerra do rei CRISTÃO da Grã-Bretanha. Determinado a manter aberta como mercado onde HOMENS podem ser comprados e vendidos, ele tem prostituído sua negativa de suprimir toda tentativa legislativa de suprimir esse comércio execrável. E para que esse conjunto de horrores não receba de nenhuma maneira morte distinta, ele está agora excitando aqueles mesmos a pegar em armas contra nós e comprar aquela liberdade de que os privou por tornando o povo em que os impôs, assim pagando seus crimes anteriores de um povo com crimes que ele os incita a cometer contra a VIDA de outro povo.

Jefferson culpava, com razão, a pressão da Carolina do Sul e da Geórgia, mas também os estados do Norte, que lucravam com o tráfico. Não lembrava que Virgínia, seu Estado, tinha razões cruéis para ser contra o tráfico: ter um excesso de escravizados, uma população de origem africana maior que a de origem inglesa — ou “americanos”. Dizia que seu manuscrito tinha sido mutilado — mangled. Em 1822 ele escreveria para Madison — seu alter ego na redação da Nova Constituição de 1787, já que estava na Inglaterra, e a quem o ligavam o amor da contradição, o deleite na inconsistência e a “propriedade” de seres humanos:

Nada está escrito com mais certeza no livro do destino do que que estas pessoas serão livres. Realmente tremo por nosso país quando reflito que Deus é justo, que sua justiça não pode dormir para sempre, que considerando apenas números, natureza e meios naturais, uma volta da roda da fortuna, uma mudança de situação, está entre os eventos possíveis… O Todo-Poderoso não tem como ficar do nosso lado num caso destes.

Não olhemos para Jefferson com o julgamento dos olhos de hoje. Lembremos o mundo em que ele vivia. O ícone da integridade, George Washington, logo que assumiu o comando geral do exército de libertação, surpreso de ver negros servindo ao lado de brancos, emitiu uma ordem proibindo a presença de escravos e de quaisquer negros; algumas semanas depois, ante o choque da realidade de que sem os negros a vitória seria impossível, revogou sua ordem — “se o Congresso aprovar”. Os abolicionistas ingleses ainda estavam em gestação — o Slave Trade Act de Wilberforce e Clarkson é de 1807, e seus primeiros movimentos da década de 1780. Em 1780 o debate para acabar com a escravidão na Pensilvânia — em sua honrosa prioridade — deixava a emancipação para o futuro, quando as crianças nascidas de mãe escravizada teriam 28 anos de idade. Mas logo a abolição em Massachusetts (1783) é real.

No ano seguinte o Congresso, por pequena margem, derrota a proposta de Jefferson de abolição nos treze Estados a partir de 1800. Já na França, compartilhando a responsabilidade dos acordos diplomáticos com John Adams, Thomas Jefferson publica seu único livro, Notas sobre o Estado de Virgínia, e recebe uma mensagem do amigo, incapaz de entender a própria existência da escravidão: “As Passagens sobre a escravatura são Diamantes. Elas terão mais efeitos que Volumes escritos por meros Filósofos.” Estava errado. As coisas vão piorar.

Pouco depois o espírito da Convenção de Filadélfia é empurrar para baixo do tapete tudo que não possa ser consensuado. James Madison é grande por ter conseguido, com o auxílio do monarquista Alexander Hamilton, o impossível: num encontro (quase) inconvocado e (quase) informal de 55 homens, escrever um pacto social que dura mais de duzentos anos, com compromissos — ou, se preferirem, checks and balances — imorais que tornaram moral o resultado. Mas considerar os escravizados como 3/5 de pessoas para dar força aos Estados escravocratas, proibir o fim do tráfico de escravos até 1808 — será Jefferson, como presidente, o responsável pela passagem do Act to Prohibit the Importation of Slaves — são alucinações que explicam que, em Monticello, eram “como os sinos de alarme de incêndio na noite, [que] me acordam e enchem de terror. Eu considero [a escravidão] como o dobrar do sino da morte da União”.

Por volta de 1820 a ideia de fim da escravidão era postergada e qualquer solução pacífica se tornava cada vez mais distante e improvável. Se os quakers já em 1790 propõem ao Congresso a abolição, se uma vela se acende quando em 1792 a Dinamarca se torna o primeiro país a proibir a escravidão, em 1793 um primeiro Fugitive Slave Act trata da devolução dos que escaparam. A divisão dos Estados é nítida: o Sul é escravocrata, o Norte abolicionista. E a cada novo Estado se joga um balanço com a vida: um livre tem que ser compensado com um escravocrata, seguindo um “Missouri Compromise”, a linha de escravidão abaixo de 36º e 30’.

Se em 1832 um neto de Jefferson propõe — inutilmente — a emancipação gradual, em 1835 se peticiona a proibição de que circule propaganda abolicionista pelos Correios. Desde 1836 a Câmara resolve, no início de cada sessão legislativa, tratar de escravidão, e John Quincy Adams começa sua longa jornada de tentar quebrar a Gag Rule — ele morrerá no plenário sempre defendendo a abolição. Há 500 sociedades abolicionistas ativas, mas o jornalista Elijah Lovejoy é linchado e sua prensa empastelada. Em 1838 se forma a Underground Railroad para dar fuga aos escravos e um primeiro abolicionista é eleito para o Congresso. A ascensão de John Calhoun é a grande marca do poder do Sul: segundo ele, o Congresso tem a obrigação de proteger a escravidão e o Sul tem o direito de deixar a União.

Em março de 1857 a Suprema Corte se levanta como a pior da História americana — até a atual. Ela decide que Dred Scott, um homem livre, é negro e, portanto, não pode ser cidadão, é escravo. O presidente do tribunal sustenta que “todos os homens são criados iguais” exclui os negros. Estes “seres de uma ordem inferior” não têm “qualquer direito que o homem branco deva respeitar”. A reação da Nova Inglaterra foi firme: todos os Estados declaram livres todos os homens em seus territórios.

Chega a hora de Abraham Lincoln. Ele percorre Illinois — estado do Norte com um black code draconiano — debatendo com Frederick Douglas, defensor por $$$ dos direitos dos escravocratas. Diz que a sorte dos escravizados parecia ir melhorando, mas que os fundadores da República, se levantassem de seus túmulos, não a reconheceriam:

Eles queriam dizer o que disseram. Eles não queriam sustentar a óbvia inverdade de que todos os homens gozavam da igualdade, ainda não, que estava para ser conferida sobre todos. Na realidade eles não tinham esse poder. Eles simplesmente queriam declarar o direito de modo que sua garantia avançasse tão rapidamente quando as circunstâncias permitissem. Queriam fixar um padrão máximo para uma sociedade livre […] nunca perfeitamente alcançável, constantemente aproximado, e, portanto, se espalhando e aumentando sua influência e aumentando a felicidade e o valor da vida para todas as pessoas de todas as cores em toda parte.

A questão era de princípios: certo ou errado. Ninguém poderia ser indiferente. Por isso, “toda a honra a Jefferson — ao homem que, na pressão concreta da luta pela independência nacional de um povo teve a tranquilidade, a previsão e a capacidade de introduzir num mero documento revolucionário uma verdade abstrata, aplicável a todos os homens em todos os tempos!

Para se definir Lincoln dissera que “costumava ser um escravo” — literalmente, já que seu pai vendia seus serviços e recebia a remuneração deles, o filho não tinha qualquer direito. Da escravidão subiu à Presidência da República, venceu a secessão, fez a abolição, instituiu o governo do povo pelo povo para o povo e lançou o maior projeto de igualdade da História. Pelo que fez, pelo que pretendeu fazer pagou o preço da própria vida.

Mas a luta não terminou no martírio de Abraham Lincoln. Vieram os anos das leis “Jim Crown”: a segregação com toda a sua violência, a Ku-Klux-Klan. Veio novamente a luta pelos direitos civis. O martírio de Martin Luther King, o compromisso de Johnson de passar os projetos Kennedy. Finalmente um negro chegou à Presidência. O 4 de julho — o dia em que foi assinado o texto de Jefferson —se tornava realidade. E então…

E então o dragão da maldade ressurge na figura laranjada de Donald Trump. A Constituição é novamente estuprada com o endosso da Suprema Corte. Mas o povo americano, embora tarde, reage com coragem. Assim, nosso tempo verá novamente a luta para que todos, naquela terra, tenham direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade.

— E nós teremos o dever de garantir que aqui também se tornem verdade.
Pedro Costa

Flávio tem força, na Casa Branca

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.


A eleição de 2018 foi o apogeu do antipetismo. Em 2026, lida-se com o antibolsonarismo. Assim como, em 2018, a soberba petista detonou Haddad, agora a soberba bolsonarista poderá detonar Flávio Bolsonaro, e as pesquisas apontam nessa direção. A candidatura do senador tem um sabor dinástico, agravado pelo deserto de ideias de seu campo. Sem a facada de Juiz de Fora e as turbinas da Lava-Jato, como a divulgação da delação do ex-ministro Antonio Palocci às vésperas do primeiro turno, o antipetismo não dá caldo.

A essas adversidades somou-se a autofagia bolsonarista. A mulher de Bolsonaro fez um estudado vídeo, em que o sujeito oculto de suas críticas é Flávio. Qual é a raiz dessa quizília? A política cearense e a preterição de uma vereadora que aspirava a disputar o Senado. É pouco para tanto barulho.

O repórter Luis Felipe Azevedo mostrou que, na Bahia, em Pernambuco, Ceará e Maranhão, os candidatos do arco oposicionista evitam partilhar palanques com a campanha de Flávio. Tratando-se do principal reduto lulista, essa ausência é mau presságio. Os erros da famiglia certamente explicam em parte esse movimento. Contudo o principal fator está além deles. O antipetismo, cimento da vitória de 2018, dissolveu-se no ar, abrindo espaço a um novo anti, o antibolsonarismo.

Flávio é forte na Casa Branca, fraco em Pindorama. A ideia de jactar-se da imposição do primeiro tarifaço de Donald Trump foi um caso raro de um só tiro acertando os dois pés. Naquele tarifaço, a patrulha bolsonarista acampada em Washington pode ter exercido alguma influência. No próximo, a despeito da carta de Flávio ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que o Brasil seja poupado, essa janela de oportunidade encolheu.

O tarifaço de 2025 foi concebido com o voluntarismo da Casa Branca. Basta lembrar a tarifa imposta a uma ilha de pinguins. Desta vez, o novo tarifaço será essencialmente técnico. Enviesado, porém com verniz técnico.

Novas tarifas virão, transformando-se numa bola de ferro amarrada a um pé dos Bolsonaros. Eles cometeram o mesmo erro que o bilionário Elon Musk, que em poucos meses passou de gênio a maluco e acabou defenestrado da Casa Branca. Em sua fase de delírio, Musk tentou morar na Casa Branca.

O trôpego pedestal da soberba humana

Algumas décadas atrás – talvez cinco ou mais – houve uma matança de uma colônia de gatos no Passeio Público do Rio de Janeiro, por um grupo de adolescentes, armados de pedaços de paus. À época a única pessoa que veio a público lamentar o episódio foi o jornalista e escritor Paulo Alberto de Barros, o Arthur da Távola, em sua coluna em um jornal do Rio de Janeiro. Ressaltou que os bichanos não mereciam isso porque “o gato é um bicho zen”. Mais ou menos uma década depois, o programa Fantástico mostrou uma reportagem acrítica sobre um homem no interior do Amazonas que costumava colocar armadilhas para prender uma das patas das onças, e daí eliminá-las a pauladas. Nenhum destes dois casos causou indignação, passando despercebidos pela sociedade brasileira.


Já a recente tortura e morte do cachorro Orelha, em janeiro deste ano em Florianópolis, tem causado uma comoção em todo o país. Como entender essa mudança, em apenas algumas décadas, no humor da população? Aqueles que acham que está havendo demasiada atenção para a morte de um cão, em um país com múltiplos problemas como o Brasil, certamente estão perdendo o famoso bonde da história. Toda esta revolta em torno da morte do Orelha, na realidade, revela uma transformação, ainda que sutil e vagarosa, na autocompreensão dos seres humanos sobre seu lugar e relação com o mundo.

Na origem do pensamento ocidental, o homem colocou-se em um pedestal acima da natureza e de todos os demais seres viventes por possuir aquela faculdade que lhe dava a mais importante das vantagens para sua sobrevivência e dominação: a Razão. E não só sobre a natureza e os animais, mas também sobre aqueles humanos – bárbaros, escravos, etc. que supostamente, por não deterem a Razão, eram meros “instrumentos vivos” e portanto condenados aos trabalhos corporais e à escravidão, como expressou-se Aristóteles em seu tratado A Política.

A prepotência da Razão informou o cristianismo por meio da patrística e da escolástica, municiando a fé cristã de explicações lógicas e reforçando a ideia do homem “criado à imagem de Deus”. Finalmente, a Razão desembocou no secularismo iluminista e no seu lema kantiano: “sapere aude” (ouse saber). Tal trajetória teórica foi adotada pelas principais correntes políticas da era moderna – o marxismo e o liberalismo – que levaram à prática, cada uma a seu modo, o que já estava inscrito no destino do ser humano racional: dominar a natureza, inclusive todos os demais seres viventes, colocando-os a seu serviço. Além disso, extrair dela o que for útil para o homem, destruir o que não pode ser aproveitável e, desse modo, desenvolver as “forças produtivas” para criar as bases materiais e espirituais da civilização humana moderna.

Certo é que esse projeto delirante encontrou inúmeros obstáculos e gerou visíveis contradições, já que a razão humana, ao contrário do que pregavam as teorias originadas a partir dela, nunca impediu inúmeras guerras de conquista, tentativas de aniquilamento de populações inteiras (do qual a destruição da faixa de Gaza pelo governo de Israel é um exemplo recente), e a conquista e colonização de territórios de outros povos considerados “inferiores” e “irracionais”. Enquanto enaltecia as artes e obras arquitetônicas geradas pela sua criatividade, o homem ao mesmo tempo desenvolvia armas e instrumentos de guerra cada vez mais mortíferos, que multiplicavam exponencialmente as ondas de destruição e morte.

Todo esse lado sombrio da era do Antropoceno era justificado racionalmente – afinal de contas, o homem tinha de dominar a natureza para sobreviver, sendo as guerras sempre legitimadas por necessidades de defesa, eliminação de inimigos ameaçadores, etc. A Primeira Guerra Mundial chegou até a ser defendida como uma suposta causa nobre: dar um fim definitivo aos conflitos humanos. Seria, dessa forma, “a guerra para acabar com todas as guerras”. E o impacto das mortes era sempre amenizado por um humanismo choramingão e filisteu.

Claro está que os descaminhos da Razão não passaram desapercebidos nas obras de arte, na poesia, em movimentos culturais diversos, e nas disciplinas sociais. Os filósofos da Escola de Frankfurt, só para citar um exemplo, dedicaram vários estudos críticos à racionalidade humana. Jurgen Habermas apontou como a parte “instrumental” da Razão – que busca o sucesso e a dominação, e opera pela técnica e a relação meio-fins – veio a predominar sobre a “razão comunicativa”, voltada para o potencial humano de entendimento.

Mas talvez tenha sido Freud quem melhor sintetizou a fragilidade do palanque em que se apoiava o amor-próprio do homem, ao apontar as três descobertas científicas, ou “feridas narcísicas”, em sua expressão, que relativizaram o poder da razão humana: a descoberta de Nicolau Copérnico, que demonstrou que a terra não era o centro do universo mas um mero planeta girando em torno do sol; a teoria da evolução de Charles Darwin, que provou que o homem não é uma criação divina, mas um descendente dos primatas; e a sua própria descoberta do inconsciente, que demonstrou que o pensamento humano é influenciado por desejos e impulsos que o próprio homem não controla.

Como viu muito bem Hannah Arendt, são fatos, e não teorias, que transformam o mundo. O caso do cão Orelha é um desses fatos. Ele pode ser politizado à esquerda ou à direita, mas isso faz parte do jogo político. Não vai deixar de refletir, e em sua tragicidade encorajar, a tomada de consciência que o ser humano compartilha um mundo em comum com outros seres, mundo este que ele tem de preservar até para sua própria sobrevivência. E que a Razão não pode ser substituída pela paixão das irracionalidades, como gostariam algumas seitas moderninhas ou pós-qualquer-coisa, mas ajudar o homem a tornar-se o que um controverso filósofo chamou certa vez de “pastor” do mundo existente.

O candidato que ninguém está vendo

O caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro. Ao atingir Jacques Wagner, um dos políticos mais influentes e mais próximos do presidente Lula, a investigação alcançou o coração do poder. Mais importante, porém, do que a eventual responsabilidade deste ou daquele personagem, é o efeito político produzido pelo episódio. As investigações passaram a envolver figuras associadas ao governo, à oposição, ao Centrão e ao sistema financeiro, reforçando uma percepção cada vez mais difundida entre os eleitores: a de que as fronteiras entre interesses públicos e privados continuam excessivamente permeáveis.


Durante muito tempo, a política parece previsível. Os mesmos partidos ocupam o centro do palco, os mesmos líderes dominam o debate público e os analistas discutem apenas qual deles chegará primeiro à linha de chegada. Então, de repente, surge alguém que poucos levavam realmente a sério alguns anos antes.

Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018. Em outros países, ocorreu com Javier Milei, na Argentina, e Emmanuel Macron, na França. Em comum, esses casos não têm ideologias, trajetórias ou propostas semelhantes. O que compartilham é outra característica: emergiram quando parcelas expressivas da sociedade perderam a confiança nos atores tradicionais.

Talvez seja cedo para afirmar que o Brasil esteja novamente diante de um momento dessa natureza. Mas é difícil ignorar alguns sinais.

A polarização entre lulismo e bolsonarismo organizou a vida política brasileira por quase uma década. Dominou eleições, moldou identidades, mobilizou paixões e transformou adversários em inimigos existenciais. Hoje, porém, começam a surgir sinais de desgaste.

Não porque as divergências tenham desaparecido. Ao contrário. Elas permanecem profundas. O que parece enfraquecer é a capacidade de cada campo político de se apresentar como resposta aos problemas do país.

Durante anos, a esquerda denunciou a corrupção, os privilégios e os impulsos autoritários da direita. A direita denunciou a corrupção, o aparelhamento do Estado e a impunidade da esquerda. Cada lado alimentou a convicção de que representava uma alternativa moral ao adversário.

O problema é que a realidade se encarregou de desgastar essa narrativa. Escândalos, favorecimentos indevidos, relações pouco transparentes entre agentes públicos e interesses privados, promessas de moralização que terminaram frustradas e sucessivas crises de governança atingiram personagens de diferentes espectros políticos. Para uma parcela crescente da população, a disputa deixou de opor virtuosos e culpados. Passou a parecer um confronto entre grupos igualmente incapazes de entregar a renovação prometida.

O caso Master tornou-se emblemático justamente por isso. Não apenas pelos fatos sob investigação, mas porque reforça a percepção de que um mesmo sistema de relações atravessa partidos, governos, Congresso, grupos econômicos e estruturas de poder. O problema já não parece restrito a uma ideologia ou a um campo político específico.

O desgaste, contudo, não decorre apenas dos escândalos. Outros problemas estruturais continuam avançando sem que o sistema político pareça capaz de enfrentá-los com a urgência necessária.

O crime organizado amplia sua presença na economia formal, infiltra-se em cadeias produtivas, controla territórios e movimenta bilhões de reais. Relatórios recentes apontam sua expansão para setores como transporte, combustíveis, construção civil, serviços financeiros e comércio. O problema deixou de ser apenas policial. Tornou-se institucional.

A economia também oferece sinais contraditórios. Embora indicadores importantes permaneçam positivos, persistem preocupações relacionadas ao crescimento dos gastos públicos, ao aumento do endividamento e à dificuldade de construir uma trajetória fiscal mais sólida. Para muitos brasileiros, cresce a sensação de que o país administra crises sucessivas sem atacar suas causas mais profundas.

O que está em crise não são apenas governos ou lideranças, mas a crença de que um dos lados possui autoridade moral e competência suficientes para se apresentar como antídoto ao outro.

E é provável que o elemento mais importante seja de natureza psicológica.

Em 2018 predominava a indignação. Havia revolta contra a corrupção, contra a crise econômica e contra o sistema político. Hoje o ambiente parece diferente. Menos marcado pela raiva e mais pela exaustão.

Muitos brasileiros já não demonstram a mesma disposição para defender incondicionalmente um dos polos. Não necessariamente porque tenham mudado de posição ideológica, mas porque passaram a enxergar limitações, contradições e fracassos dos dois lados.

É nesse ambiente que candidatos improváveis costumam surgir.

O erro mais comum dos analistas é imaginar que o próximo presidente necessariamente estará entre os nomes já conhecidos. A história mostra exatamente o contrário. Quando sistemas políticos entram em processo de desgaste, novas lideranças encontram espaço para crescer rapidamente. O fenômeno raramente começa com o candidato. Começa com o esgotamento do ambiente que sustentava os candidatos tradicionais.

Naturalmente, não há hoje um nome capaz de ocupar esse espaço de forma evidente. Talvez ele sequer apareça nas pesquisas. Bolsonaro parecia improvável poucos anos antes de vencer. Collor também. O mesmo ocorreu em diversos países que atravessaram crises de representação.

A questão, portanto, não é identificar quem será o próximo candidato improvável. É saber se as condições para seu surgimento estão novamente se formando.
Hubert Alquéres

Ganhos bilionários de Trump com atividade empresarial durante o mandato não têm precedente nos EUA

A esposa do presidente americano Lyndon Johnson (1963-1969) era proprietária de um lucrativo grupo de comunicação. George W. Bush fazia parte do conselho de administração de uma empresa petrolífera enquanto seu pai ocupava a Casa Branca. Hunter Biden recebeu pagamentos de uma empresa ucraniana de gás natural enquanto Joe Biden era vice-presidente. Porém, não há paralelo com o caso de Donald Trump, que no primeiro ano de mandato faturou US$ 2,2 bilhões por meio de empresas — incluindo US$ 1,4 bilhão em receitas provenientes de negócios com criptomoedas, beneficiados por suas ações como presidente.

Historiadores e pesquisadores apontam que a regra geral entre presidentes americanos tem sido se afastar de negócios empresariais, mesmo levando prejuízo, para não configurar conflito de interesse. Trump e sua família fizeram o oposto: criaram novos empreendimentos, e não parecem se esforçar para esconder qualquer benefício alcançado.

A Casa Branca e a família Trump têm rejeitado questionamentos sobre os ganhos do presidente. As alegações de conflito de interesse têm sido rebatidas com o argumento de que os dois filhos mais velhos de Trump, Eric e Donald Jr., administram as operações da família. É uma mudança marcante de postura, mesmo em comparação ao primeiro mandato.


Quando Trump chegou a Washington em 2017, ele e a família concordaram em não fechar novos contratos internacionais, cientes de que isso poderia alimentar acusações de que estariam lucrando com o mandato. Ainda assim, surgiram questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse devido a gastos de governos estrangeiros e lobistas em hotéis de Trump e em outros estabelecimentos pertencentes à sua família.

— No primeiro mandato fizemos tudo o que era imaginável para evitar qualquer aparência de conduta imprópria e, francamente, fomos atacados da mesma forma — disse Eric Trump no fim de 2024, pouco antes da eleição, argumentando que a Presidência havia custado ao pai "uma fortuna".

Os filhos de Trump de fato administram as operações empresariais da família, mas o presidente é o beneficiário dos fundos fiduciários criados após sua primeira eleição, e continua lucrando com as atividades empresariais. A maioria dos ex-presidentes da era moderna vendeu empresas e mesmo participações em negócios e ações individuais antes de assumir o cargo.

George W. Bush (2001-2009) vendeu sua parte no time de beisebol Texas Rangers, enquanto Jimmy Carter (1977-1981) transferiu a administração de sua produção de amendoim para um administrador independente.

Depois do assassinato de John F. Kennedy e da chegada de Lyndon Johnson à Casa Branca, sua esposa, Lady Bird Johnson, transferiu suas emissoras de rádio e televisão para um grupo administrado por um advogado e um executivo do setor de radiodifusão.

Mesmo quando filhos ou irmãos de presidentes realizaram negócios — em uma escala muito menor do que Trump — esses episódios tiveram forte reação pública. James Roosevelt, filho de Franklin D. Roosevelt (1933-1945), foi coproprietário de uma companhia de seguros que vendia apólices para empresas americanas e órgãos do governo enquanto ele trabalhava como assessor do pai. Depois que a revista The Saturday Evening Post e o jornal The New York Times publicaram sobre os negócios, o filho do presidente deixou o cargo no governo.
Eric Lipton