sábado, 18 de julho de 2026
A guerra é um presente, mas não para os EUA
À medida que a tensão com o Irã oscila de uma semana para outra, uma tendência fica clara: a China é a maior beneficiária do conflito. Pequim não precisou disparar um único tiro, gastar quantias vultosas ou consumir capital político. No entanto, obteve mais ganhos com a crise do que com qualquer outro país nas últimas três décadas.
O conflito acelerou três objetivos de longa data da China: um Oriente Médio menos dependente dos EUA; um mundo mais dependente de tecnologias chinesas; e a consolidação da reputação de Pequim como uma potência mundial séria e estável.
Pequim não tentou substituir Washington enquanto fiador militar do Oriente Médio – isso exigiria compromissos dispendiosos. Seu objetivo é mais simples e sutil: afastar o Golfo Pérsico da órbita americana. Donald Trump está realizando grande parte desse trabalho para Xi Jinping.
Aliados dos EUA no Golfo viram Washington conduzir a guerra de maneira caótica e com pouca consideração pelos danos causados às cidades, à infraestrutura e às economias da região. O Golfo Pérsico está agora se dividindo em dois blocos. Os Emirados Árabes estão se aproximando de Israel e EUA. No entanto, um grupo maior liderado pela Arábia Saudita, que inclui Catar, Omã e, talvez, Iraque e Turquia, provavelmente buscará segurança no longo prazo por meio de um equilíbrio: manter laços com os EUA, mas também dialogar com o Irã e melhorar as relações com a China.
Essa é precisamente a ordem regional que Pequim quer. Em 2023, a China mediou a restauração das relações entre Arábia Saudita e Irã. Desde então, Riad resiste a aderir a certos projetos liderados pelos EUA sobre data centers e chips. O país comprou mísseis e drones chineses, realizou exercícios com a marinha chinesa e explorou a produção local de drones de combate Wing Loong.
Os países do Golfo foram destino de mais de 80% das exportações chinesas de defesa para o Oriente Médio entre 2016 e 2025. Ninguém está tentando substituir o guarda-chuva de segurança dos EUA, mas eles querem opções – e opções reduzem a influência americana.
A vitória mais impressionante da China é de natureza geoeconômica. À primeira vista, um país que importa 70% de seu petróleo deveria estar entre os maiores perdedores da guerra. No entanto, Pequim resistiu ao choque melhor do que a maioria, porque passou anos se preparando. Diversificou fornecedores, construiu o que se estima ser a maior reserva estratégica de petróleo do mundo, continuou utilizando carvão, expandiu a energia nuclear e eletrificou sua economia em uma escala que nenhum outro país igualou.
A eletricidade responde por 30% do consumo de energia da China, um índice quase 40% superior ao dos EUA ou da Europa. Em 2024, a China foi responsável pela instalação de mais da metade de toda a nova capacidade global de energia eólica e solar. Por todos esses motivos, o país pôde reduzir suas importações de petróleo em 4 milhões de barris por dia durante o conflito.
A guerra tornou-se uma enorme vitrine para as tecnologias estratégicas chinesas. Governos de todo o mundo buscam expandir suas capacidades em energia solar, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos e redes de energia.
A China detém 91% da capacidade global de fabricação de painéis solares e 89% da capacidade de produção de baterias de íon-lítio. Empresas chinesas fabricam 70% de quase todas as tecnologias de energia limpa monitoradas pela Bloomberg. Quanto mais tempo persistir a insegurança energética, mais o mundo recorrerá às indústrias dominadas pelos chineses.
A guerra também promoveu um objetivo fundamental da China: enfraquecer o domínio do dólar sobre o comércio global. Segundo relatos, o Irã permitiu a passagem de alguns navios-tanque pelo Estreito de Ormuz sob a condição de que as transações fossem feitas em renminbi chinês (ou em criptomoedas).
A China e seus parceiros ampliaram o comércio em renminbi para reduzir a exposição às sanções americanas. Essa mudança será gradual, mas a tendência agora é inconfundível: o afastamento da hegemonia do dólar.
Por fim, há o ganho inesperado em termos de reputação. O governo Trump entrou na guerra com objetivos grandiosos: mudança de regime, destruição do programa nuclear do Irã e eliminação de suas capacidades de mísseis balísticos e de seu apoio a grupos aliados na região. Não alcançou nenhum. Em vez disso, espera apenas abrir o Estreito de Ormuz, que já estava aberto antes da guerra.
Trump escolheu esta guerra e, ao fazê-lo, consumiu dezenas de bilhões de dólares, desperdiçou munições, desviou recursos militares da Ásia, desestabilizou aliados e demonstrou que, mesmo com o enorme poder dos EUA, uma estratégia errada e táticas em constante mudança geram maus resultados.
A China fez pouco. Continuou comprando petróleo iraniano, manteve relações com países do Oriente Médio e evitou os custos de defender o Irã ou de patrulhar o Golfo. Essa é a abordagem preferida de Pequim: nada de confrontos, mas sim o acúmulo constante de influência.
Nos últimos 25 anos, os EUA se exauriram em três grandes aventuras militares no Oriente Médio enquanto a China acumulava poder industrial, capacidade tecnológica e relações diplomáticas. Washington age. Pequim aguarda. A China arcou com custos decorrentes desta guerra – preços de energia mais altos, cadeias de abastecimento interrompidas e uma demanda global mais fraca. Mas o poder é sempre relativo. Em comparação aos danos sofridos pelos objetivos, pelas alianças e pela credibilidade dos EUA, a China saiu em vantagem.
Fareed Zakaria
Racismo. Quem não é contra é a favor
Nunca entendi o absurdo do racismo, por isso sempre o odiei. Tive a sorte de ter como melhor amigo desde a infância e por toda a vida, como um irmão e parceiro em vários empreendimentos vitoriosos, um negro, um dos melhores seres humano que conheci, que a cada dia me mostrava o absurdo do racismo.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
Em 25 de março de 2026 a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos africanos e a escravização racializada como “crime mais grave contra a Humanidade”. A resolução foi aprovada por123 votos a favor e 3 contra: Estados Unidos, Israel e Argentina.
Não muda nada, mas diz tudo. Depois de importar e usar milhões de escravos africanos, metade da população, a Argentina libertou-os para deixá-los morrer de fome e de doenças, abrindo caminho para o projeto de branqueamento do país com a importação em massa de italianos e espanhóis. Eliminaram os negros, hoje 1% da população, mas não conseguiram exterminar os índios, que continuam “sujando” a sua branquitude com mestiços como vários craques argentinos.
Nos Estados Unidos, dizimaram os indígenas e escravizaram milhões de negros, 600 mil americanos se mataram na Guerra Civil, com o Sul rural e o Norte industrializado lutando pelo fim da escravidão. Hoje os negros americanos são 12% da população e conquistaram imenso poder político e social numa luta permanente contra a discriminação e o preconceito. E muita gente morreu por isso. Mas a cultura negra americana do século XX, nas artes, no esporte, no comportamento, na moda, tornou-se um fenômeno cultural que mudou o mundo, numa colossal derrota do racismo. Mesmo que os supremacistas brancos de Trump digam que qualquer caipira idiota do Texas pode se achar melhor do que o negro mais brilhante.
Mas o que esperar de assassinos como Trump e Netanyahu e um idiota como Milei? Interessante, porque o povo judeu foi vítima do maior holocausto da História. Racismo no rabo dos outros é refresco.
É irônico, porque a combinação de maior sucesso na indústria musical americana foi de artistas negros com executivos judeus, que se harmonizavam na discriminação para conquistar qualidade, vendas e prêmios.
Sempre amei a América, por sua cultura, seu progresso, sua modernidade e liberdade. No more. Hoje o mundo odeia a América de Trump, e a maior parte dos americanos também. E o seu racismo se manifesta no ódio e na inveja patológica de Obama, mas qualquer comparação entre a educação, cultura e elegância do estadista negro com um “white trash” de reality show grosso, ignorante e autoritário é uma fragorosa derrota do racismo.
E também sempre amei a Argentina, por seus escritores e artistas, por seu cinema, seu rock and roll e seu futebol, por seu humor e sua loucura: Buenos Aires é a cidade com mais psicanalistas per capita do mundo. A Argentina não é um bando de racistas ignorantes numa arquibancada de futebol, mas a omissão de suas vozes mais fortes, como o gênio Messi, na luta contra o racismo, diz tanto sobre preconceito como covardia.
A vida não passa de itens digitalizados
A propósito da trapalhada com os exames nacionais, multiplicaram-se nos canais noticiosos os relatos de professores que tentavam navegar pelo rocambolesco processo. Uma destas participações foi particularmente reveladora. Parafraseio de memória: as respostas, em papel, eram recolhidas dos alunos, transportadas para um local seguro, digitalizadas, colocadas na plataforma, acedidas pelos professores, impressas para facilidade de correção e anotações, digitalizadas e submetidas de novo através da plataforma. É admirável a simplicidade do mundo novo.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
A tecnologia é uma solucionadora. Soluciona tão completamente que chega a solucionar o problema que deveras não está presente
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Tarifaço indica que objetivos de Trump vão além de interferir em política do Brasil
O novo tarifaço decretado pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil claramente tem potencial de beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida eleitoral. Essa correlação foi mencionada pelo próprio senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua exposição no início do mês no Congresso americano e evidentemente não é desconhecida da Casa Branca.
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.
César Felício
A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.
A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.
Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.
O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.
César Felício
O racismo em código
“O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis.” A advertência de Umberto Eco, escrita há quase trinta anos, parece ter encontrado uma imagem definitiva no vagão de um metrô em Washington. Durante as comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, uma mulher negra permaneceu sentada enquanto dezenas de homens mascarados, integrantes da organização supremacista Patriot Front, ocupavam o mesmo espaço. A fotografia, registrada pela Reuters, viralizou porque condensava, em um único enquadramento, um dos maiores paradoxos do nosso tempo: aqueles que defendem a superioridade branca escondem o próprio rosto, enquanto a vítima potencial da violência é a única plenamente identificável.
A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.
É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.
Os chamados dog whistles (apito de cachorro), expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.
Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.
Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.
O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa discrepância revela uma transformação decisiva.
O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.
O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.
Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.
É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.
Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.
Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar. Ela não mostra apenas homens mascarados. Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito. Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos. Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.
O racismo não desapareceu. Ele apenas aprendeu uma nova gramática. E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.
A imagem não retrata apenas um episódio isolado. Ela sintetiza uma transformação profunda na forma como a extrema direita contemporânea comunica suas ideias. Diferentemente do século XX, quando movimentos fascistas e nazistas exibiam seus símbolos de maneira ostensiva, a supremacia branca do século XXI compreendeu que sobreviver politicamente exige mudar de linguagem. O objetivo permanece o mesmo. O método, porém, tornou-se mais sofisticado.
Stuart Hall ensinou que o racismo nunca foi apenas um conjunto de crenças biológicas. Trata-se de um sistema de produção de significados que acompanha as transformações históricas das sociedades. Quando determinados discursos deixam de ser socialmente aceitáveis, eles não desaparecem; reorganizam-se. Mudam as palavras, preservam-se as hierarquias. A linguagem adapta-se aos limites morais de cada época sem abandonar sua função política.
É exatamente esse movimento que observamos na expansão contemporânea dos grupos supremacistas. Em entrevista recente, o historiador Odilon Caldeira Neto, disse que o supremacismo branco contemporâneo deve ser compreendido como um “amálgama” de organizações com referências ideológicas variadas, que compartilham uma linguagem comum, ainda que possuam diferenças entre si. Nesse campo encontram-se nacionalistas brancos, grupos identitários, setores da direita alternativa e organizações neonazistas.
Essa mudança não significa que o racismo tenha diminuído. Significa que ele aprendeu a operar por meio de códigos.
Os chamados dog whistles (apito de cachorro), expressão utilizada para designar mensagens compreendidas apenas por determinados grupos, tornaram-se parte importante dessa estratégia. Funcionam como um apito inaudível para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reconhecível por aqueles que compartilham o mesmo repertório ideológico. O pesquisador explicou que esses símbolos cumprem exatamente essa função: permitem o reconhecimento entre extremistas ao mesmo tempo em que dificultam sua responsabilização pública.
Não por acaso, Roland Barthes lembrava que os signos nunca são inocentes. Em Mitologias, mostrou que objetos, imagens e gestos cotidianos podem ser apropriados pela ideologia e passar a carregar significados muito além de sua aparência imediata. Um gesto deixa de ser apenas um gesto quando passa a funcionar como linguagem política.
Foi exatamente isso que a Copa do Mundo de 2026 colocou em evidência.
Antes da partida entre Alemanha e Curaçao, o árbitro de vídeo australiano Shaun Evans foi acusado de realizar um gesto associado ao White Power. A FIFA abriu investigação, concluiu que o movimento havia sido involuntário e encerrou o caso sem qualquer punição. A decisão, do ponto de vista disciplinar, encerrou o processo. Do ponto de vista sociológico, entretanto, inaugurou um debate muito mais relevante.
O problema nunca esteve apenas na intenção individual do árbitro.
O episódio tornou visível algo maior: determinados símbolos passaram a ocupar uma zona cinzenta na comunicação contemporânea. São suficientemente conhecidos para despertar suspeitas e suficientemente ambíguos para impedir conclusões definitivas. Essa ambiguidade constitui precisamente sua força política.
O Brasil conheceu uma situação semelhante em março de 2021, quando Filipe Martins, então assessor especial para Assuntos Internacionais do então presidente da república Jair Bolsonaro, realizou gesto idêntico durante uma sessão do Senado Federal. O caso provocou intensa repercussão política e jurídica, culminando em condenação pela Justiça Federal por racismo e incitação ao preconceito racial. Não foi apenas o desenho formado pelos dedos que esteve em julgamento, mas o contexto político em que o gesto foi realizado.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse fenômeno. Os símbolos não possuem eficácia por si mesmos. Seu poder decorre da posição social de quem os emite, das instituições que os legitimam e do universo cultural em que circulam. O mesmo gesto pode significar aprovação em uma situação e representar adesão a uma ideologia extremista em outra. É o contexto que produz o sentido.
Também por isso seria um equívoco interpretar qualquer gesto semelhante como manifestação automática de supremacismo branco. Mas seria igualmente ingênuo ignorar que movimentos extremistas se apropriam deliberadamente de símbolos cotidianos para dificultar sua identificação.
A Copa do Mundo revelou outro aspecto igualmente inquietante.
Dentro dos gramados, o protocolo oficial da FIFA contra o racismo foi acionado apenas uma vez, durante a partida entre Argentina e Egito. Fora deles, entretanto, o cenário foi completamente distinto. O sistema de monitoramento digital da entidade registrou aumento de aproximadamente 1.200% nas mensagens de ódio em relação ao Mundial anterior. Das cerca de 89 mil publicações abusivas identificadas durante a fase de grupos, aproximadamente 11% continham conteúdo explicitamente racista. Mais de uma centena de postagens atingiu os critérios necessários para subsidiar medidas judiciais.
Essa discrepância revela uma transformação decisiva.
O racismo contemporâneo nem sempre se manifesta diante das câmeras. Muitas vezes ele migra para o ambiente digital, onde encontra anonimato, velocidade de circulação e comunidades dispostas a compartilhar a mesma gramática simbólica.
Achille Mbembe observa que a raça permanece como uma das principais tecnologias de organização do poder moderno, mesmo quando deixa de aparecer de maneira explícita. Em outras palavras, o desaparecimento do vocabulário biológico não implica o desaparecimento das estruturas de exclusão. Elas apenas assumem novas formas discursivas.
O futebol oferece um exemplo eloquente dessa transformação. As seleções nacionais tornaram-se, talvez como nunca antes, retratos da diversidade étnica de seus países. Atletas negros, descendentes de imigrantes e integrantes de diferentes grupos culturais passaram a representar as cores nacionais. É justamente essa diversidade que movimentos supremacistas procuram combater ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e excludente.
Não por acaso, episódios de racismo envolvendo jogadores, torcedores e dirigentes continuam a surgir em diferentes países, inclusive na América do Sul. A recorrência desses casos demonstra que a disputa não acontece apenas em torno de um resultado esportivo. O que está em jogo é a própria definição de pertencimento nacional.
Norbert Elias mostrou que sociedades constroem continuamente fronteiras simbólicas entre “estabelecidos” e “outsiders”. O racismo constitui uma das formas mais eficientes de produzir essa separação. Ao definir quem pertence e quem deve permanecer à margem, reforça relações de poder que ultrapassam muito o campo esportivo.
É nesse ponto que a reflexão de Odilon Caldeira Neto ganha dimensão internacional. Segundo o pesquisador, seria um erro tratar a supremacia branca como um problema exclusivamente norte-americano. A extrema direita contemporânea desenvolveu uma intensa capacidade transnacional de circulação de símbolos, discursos e estratégias. As redes sociais reduziram fronteiras, aceleraram o compartilhamento de códigos e ampliaram extraordinariamente a capacidade de recrutamento desses movimentos.
Hannah Arendt advertia que os regimes totalitários não surgem apenas da violência organizada. Eles dependem, antes de tudo, da naturalização de categorias que distinguem quem merece pertencer plenamente à comunidade política e quem passa a ser visto como ameaça permanente. Antes da exclusão jurídica, instala-se a exclusão simbólica.
Talvez seja exatamente isso que a fotografia do metrô em Washington nos obrigue a enxergar. Ela não mostra apenas homens mascarados. Mostra uma ideologia que aprendeu a esconder o rosto sem abandonar o preconceito. Mostra uma linguagem que já não necessita repetir abertamente a superioridade racial para continuar produzindo seus efeitos. Mostra que, na sociedade das plataformas digitais, a supremacia branca compreendeu que símbolos podem ser mais eficazes do que discursos, gestos podem circular mais rapidamente do que manifestos e códigos podem recrutar com maior eficiência do que palavras de ordem.
O racismo não desapareceu. Ele apenas aprendeu uma nova gramática. E reconhecê-la talvez seja uma das tarefas mais urgentes das democracias contemporâneas.
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