sábado, 11 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nem a pobreza de Shang Hai é autêntica!

O tigre é de papel e a cortina é de bambu, muito mais arejada do que uma cortina de ferro. As lojas das grandes marcas e grifes internacionais são hoje mais monumentais, impressionantes e poluentes em Shang Hai do que em qualquer outra capital do mundo – Louis Vuitton, Gucci, Chanel, Hermès, Dior, Prada, Burberry, Balenciaga, Saint Laurent, Versace, Rolex, Cartier, Tiffany, Omega, Bulgari, Estée Lauder, Lancôme, La Mer, Ferrari, Tesla etc.

Fico pensando, para que um povo que passou necessidades básicas e fome – Guerras do Ópio, queda do Império, Guerra Civil, Invasão Japonesa, Revolução Comunista e Revolução Cultural – precisa de painéis eletrônicos gigantes, com modelos fazendo poses sensuais e sedutoras, para induzi-lo ao consumo supérfluo? Oh, yes à la société de consommation and yes à la société du spectacle.

Quem consome essas grifes de luxo não são os turistas estrangeiros, é o significativo contingente populacional de alta renda, formado por investidores, empresários e altos executivos, em busca de status social e realização pessoal; enquanto a massiva classe média chinesa faz de tudo para ascender na escala econômica, ganhar prestígio e poder usufruir do estilo de vida e das benesses reservadas à elite do país, inclusive o descontraído desperdício.

Claro que a Apple, a Microsoft e a Booking também não iriam querer ficar de fora, perder essa festa – e aqui estou eu, no aconchego de um amplo apartamento nostálgico, num sobrado de um antigo conjunto residencial (Li Long), a poucos metros da sofisticada Nan Jing West Road.


Meu palacete é um luxo, é lindo, com 80 metros quadrados, pé direito de 3,5 metros, amplas janelas, ventilado, ensolarado, funcional, clean e reformado, com todos os confortos da modernidade. O forno embutido, por exemplo, tem aspecto convencional. Mas eu, que sou antiquado, custei a entender que era um airfryer – devo confessar que não nos demos muito bem.

Até os anos 1980, esse apartamento servia de residência a trabalhadores de elite e o seu original layout, assoalho e divisórias de madeira e vidros foram cuidadosamente preservados – a massa de trabalhadores pobres morava em cubículos de seis metros quadrados, sem cozinha e sem banheiro, que foram todos postos abaixo na reconstrução da cidade na passagem dos séculos XX para o XXI.

Meu apartamento foi reformado, mas todos os demais apartamentos do conjunto residencial, não. Pelo contrário, estão todos deteriorados, carcomidos, assim como os apartamentos de inúmeros outros Li Longs espalhados pela cidade. Fiquei muito impressionado ao presenciar a pobreza na qual chafurdam os meus vizinhos, em vivo contraste com a riqueza e a modernidade da cidade que nos cerca, a Shang Hai milimetricamente planejada, cuidadosamente organizada e extremamente eficiente do século XXI. Meus amigos pediram fotos. Entretanto, além de não ter celular, também não tenho máquina fotográfica.

Do lado de fora, você só vê a entrada do conjunto residencial, cercado por estabelecimentos comerciais. O seu interior abriga uma ruela principal, outras mais estreitas, adjacentes, e dezenas de sobrados geminados. De um lado para o outro das ruelas, há uma sequência de barras de ferro suspensas com roupas secando, inclusive peças íntimas; e muitos velhos aposentados ficam sentados em frente às suas casas por horas, ao lado de motonetas, bicicletas, caixas e imensos sacos com lixo reciclável etc. (as ruas de fora do Li Long são extremamente bem cuidadas, limpas e ladeadas por toneladas de exuberantes flores).

Cada sobrado comporta várias residências. No meu sobrado, as áreas comuns ficam abarrotadas com pequenos fogões, panelas, baldes e montanhas de tranqueiras – imagino que cada morador saiba reconhecer o que lhe pertence. O piso é todo irregular e quebrado. O hall de entrada de todos os demais sobrados do meu Li Long apresenta o mesmo perfil.

Meu apartamento fica no segundo andar e a depreciada escadaria de madeira, de dois lances, com degraus estreitos, gastos e escorregadios, tem vários remendos e artifícios para mantê-la “segura”. Devo tomar muito cuidado para não esbarrar no caibro de madeira usado como suporte improvisado entre os dois lances, que ajuda a sustentar o segundo andar, com risco de o corredor desabar.

Também devo tomar cuidado para não me apoiar nos irregularmente instalados canos de água e gás, que correm junto ao corrimão da escada. No caminho, passo por vários cubículos habitados, alguns com a porta aberta. Difícil saber quantas residências o meu sobrado contém, a cada dia descubro mais uma porta incrustada nos corredores e nos vãos da escada. Todos os meus vizinhos vivem com as portas abertas – só fecham as portas quando não se encontram em casa ou quando estão dormindo.

No corredor, ao lado do meu apartamento, há um fogão e vários utensílios de cozinha, tudo em meio a muito lixo e sujeira acumulada por décadas. Nas janelas do corredor, formam-se nuvens de sujeira em camadas sobrepostas. Meu apartamento tem 80 m2, mas o da velhinha que mora ao lado e cozinha no corredor tem apenas 12 m2 (teria sido uma dispensa?). Esses sobrados possuem água encanada e esgoto e foram poupados de serem demolidos na virada do milênio. Fotos não dariam conta dos detalhes, dado o caos reinante; e um vídeo seria algo exaustivo, enfadonho e maçante.

Das janelas do meu palacete, consigo ver partes dos demais deteriorados apartamentos do meu sobrado e os modernos arranha-céus da Nan Jing West Road. Muito perto da minha casa, também posso caminhar por imensos parques, de estonteante beleza – estamos na primavera de 2026, cercados por uma profusão de encantadoras flores.

Fiz amizade com a velhinha que mora ao lado. Meu vocabulário se restringe a Nǐ Hǎo e Xiè Xiè, olá e obrigado, mas eu até sei que ela anda se picando e qual é a droga que usa – insulina. Vivo abrindo as tampas das panelas dela e trocamos receitas e presentinhos – menos doces. Fiquei comovido quando ela, mesmo sendo pobre, me trouxe uma laranja de presente. Retribuí com morangos, que muito provavelmente estariam fora de seu alcance.

Depois que aluguei o apartamento, ainda em São Paulo, fui informado de que a construção, por ser antiga, tinha um isolamento acústico precário e que talvez eu pudesse me incomodar com o ruído dos vizinhos e com um ambiente externo “menos que perfeito”, o que estava fora do controle do administrador da minha unidade, que se desculpava antecipadamente. O apartamento, contudo, é muito silencioso; o que fala alto, muito alto, eu diria, são as condições precárias em que se encontram todos os sobrados e as demais residências do Li Long. Sem o “eufemismo”, se ele fosse descrever ou postar fotos do “ruído dos vizinhos”, certamente teria maior dificuldade em alugar esse apartamento modelo.

O administrador aluga 15 apartamentos, em endereços distintos, realiza a reforma dos mesmos e, depois, os subloca a turistas nacionais e estrangeiros. Comentei com ele, sem reclamar, da pobreza reinante no Li Long e ele disse que esses apartamentos estão localizados em zona nobre da cidade e, mesmo os minúsculos, valem uma fortuna. Descobri, assim, que a minha vizinha, além de rica proprietária, possui renda significativamente elevada.

A questão não é econômica, é cultural. Em boa parte, os moradores são idosos que, apesar de sua confortável situação financeira, se recusam a corromper os seus hábitos. São pessoas que viveram a Revolução Cultural e acompanharam as mudanças que levaram a China à condição de polo hegemônico internacional, mas nem por isso querem alterar o seu estilo de vida.

Quando estive em Shang Hai em 1987, as pessoas cozinhavam na rua, em fogareiros a carvão mineral, feitos de latas de 20 litros. Hoje, a cidade tem o maior número de restaurantes per capita do mundo e o delivery é uma instituição. Contudo, meus teimosos vizinhos, solidários, preferem cozinhar nos corredores dos sobrados. Eles gostam muito de ver as suas tranqueiras empilhadas e não as trocariam por nada deste mundo, principalmente pelo frio design clean e distópico dos modernos apartamentos habitados por jovens que não entram na cozinha e nem sabem se existem quitandas e supermercados na cidade; que, no máximo, frequentam lojas de conveniência. Os jovens acham que esses velhos são todos sovinas – afinal, para que serve então ser rico?

Apesar dos monumentais arranha-céus que dominam Shang Hai, ainda restam 3 mil Li Longs espalhados pela cidade (eram 8 mil) – com sobrados de dois pavimentos, poucos de três – que abrigam 500 mil residências e 2 milhões de moradores. Todos os sobrados que dão face para a rua são ocupados por estabelecimentos comerciais; alguns Li Longs foram inteiramente transformados em complexos empresariais.

Andando pela cidade, descobri que expor roupas secando, inclusive íntimas, faz parte da cultura de Shang Hai. Prédios de apartamentos, com muitos andares, ostentam inúmeros longos mastros horizontais apontando para a rua, com coloridas roupas fazendo o papel de estandartes.

Por acaso, encontrei um casal de empresários chineses que está morando nos Estados Unidos, mas vem três vezes ao ano a Shang Hai, para cuidar de seus negócios. Eles estavam acompanhados por uma jovem funcionária que mora na cidade. Comentei com eles sobre a minha vizinhança e eles fizeram questão de vir ver o Li Long in loco.

A empresária chinesa ficou pasma e repetia, “mas por que isso, por que isso?” Quando apontei para a montanha de tranqueiras empilhadas, como se dissesse – “como é que você faz para apanhar um utensílio que está na base da pirâmide?” – sua funcionária riu à beça e disse que a avó dela também vivia assim, desse jeito. Pedi para a empresária tirar fotos e mandar para mim, ela solicitou encarecidamente que eu não divulgasse as fotos que tirou e, por fim, nem as encaminhou (embora eu tenha recebido mensagens dela pelo meu Business Whatsapp). Ao se despedir, a empresária pediu para eu falar bem da China nos meus artigos, mas o seu marido disse, “ele deve escrever o que está vendo”.

A velha, minha vizinha de corredor, tem a minha idade e suas roupas são austeras. Será que ela foi da Guarda Vermelha? Pelo que entendo, ela e seus colegas fazem parte de um movimento de contracultura, em oposição à distopia que domina a cidade. O que será que uma militante da Guarda Vermelha pensa do bando de jovens que hoje se veste de bonequinhas de louça?

Meu afilhado, que está em Taiwan e acompanhou a minha agonia ao presenciar a “pobreza” que me cerca nesta megalópole, escreveu, “Nem a pobreza de Shang Hai é autêntica, haha.”

A “pobreza” dos cidadãos de Shang Hai não é autêntica. A pobreza em Shang Hai está reservada aos migrantes, como só mais tarde consegui apreender. Shang Hai é a cidade que mais atrai migrantes da zona rural e de outras cidades e a que mais restringe o seu registro domiciliar (Hu Kou).

Os dez milhões de habitantes de baixa renda, que representam 40% da população total da cidade, em sua maior parte, são migrantes sujeitos a empregos mal pagos, com restritos direitos trabalhistas e sociais e sem direito político algum. Ou seja, não existem pobres de Shang Hai, os pobres são os migrantes, cidadãos de segunda classe – quem é que se importa?

O apartamento da minha vizinha possui um box com vaso sanitário. Eu sabia que ela usava a pia e o chuveiro que ficam num terraço, alguns degraus acima do segundo andar do sobrado. Ela é rica e conta com a aposentadoria e os plenos direitos sociais reservados aos cidadãos da cidade; mas o rapaz que mora com a mãe no cubículo alugado de quatro metros quadrados, que fica logo na entrada do sobrado, certamente é um pobre autêntico. Trocamos poucas palavras, mas, de longe, este rapaz é a pessoa mais digna que encontrei em Shang Hai. Aos poucos, fui aprendendo a diferenciar os velhos militantes da contracultura, que ficam por horas sentados em frente às suas casas, dos pobres autênticos, os que colecionam lixo reciclável, aqueles que vivem atarefados etc.

Para se ter uma ideia da estratificação social de Shang Hai, em frente ao meu Li Long há um prédio da Prada com uma sala para exposições e um restaurante. Como muitos restaurantes frequentados pela elite local, não há serviço à la carte, o menu é completo e fixo com duas opções, a 1.500 ou 1.900 yuans por pessoa (para o almoço há também uma opção por 900 yuans). A título de comparação, nos shopping centers vizinhos, frequentados pela classe média, há bons restaurantes com menu completo por 22 yuans – os pobres não frequentam restaurantes, os pobres consomem comida feita em casa.

Estava quase esquecendo de dizer que o meu Li Long, deteriorado e carcomido, fica a uma quadra da antiga residência do Camarada Mao Ze Dong, na Mao Ming North Road.
Samuel Kilsztajn

Um país sem lei

Interessante como o brasileiro dificilmente cumpre a Lei. Aqui, exalta-se o não cumprimento da Lei, ao invés de ser ter a Lei como um valor. Mesmo por parte de alguns grupos de advogados, comemora se ter contornado a Lei, nas chamadas “causas impossíveis”.

A Lei deveria ser soberana, como no “Contrato Social” de Rousseau, dentro do “Espírito das Leis” de Montesquieu, que deveriam reger as nossas relações. Mas que nada!

Desde as coisas grandes até nas coisas pequenas, observa-se o descumprimento da Lei.


Em pesquisa nacional da Sensus, verificou-se que 60% a 80% da população brasileira aceitam “furar fila”, estacionar em “locais proibidos”, parar em “fila dupla” para pegar dos filhos na escola.

Na política, a corrupção é fora da Lei.

Na economia, sonegam-se os impostos sempre que possível.

De ex-policiais que se tornaram guardiões de comunidades, surgiram as milícias.

No Executivo, no Legislativo e no Judiciário, grassam as benécias além dos limites da Lei.

Os “Cem anos de Sigilo” é usado por quase todos os Presidentes.

As reuniões de condomínio viraram uma verdadeira tortura. Os moradores dos prédios não sabem ou se esquecem de que quando compramos um apartamento, compramos também a sua convenção do condomínio, que rege a relação entre os proprietários. Mas cada um faz o que quer, da maneira que quer, na hora que bem entender, esquecendo-se que existem regras que normatizam as ações de cada proprietário para o bem coletivo.

O não cumprimento da Lei é um dos impeditivos de nosso desenvolvimento econômico e social, pois que os jogos sociais não são cooperativos.

Pesquisa do Banco Interamericano sobre o quanto uma pessoa confia na outra mostra que a média mundial é de 25%, 41% nos países da OCDE, 13% na América Latina, 5% no Brasil, em um dos últimos lugares dessa fila.

Assim não dá!

Mundo maravilhoso

Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.
Miguel Torga

Será um admirável mundo novo?

Ninguém é totalmente revolucionário, nem absolutamente conservador. O cidadão médio comum não gosta de instabilidade, rupturas radicais, mudanças desestabilizadoras. O novo, às vezes, assusta. Mas a história da civilização humana é tudo, menos a repetição monótona de um equilíbrio estático. Crises ocorrem ciclicamente. Se as pessoas gostam da conservação de tradições e estabilidade, por outro lado, a inquietação humana sempre persegue transformar a realidade. Se não fosse isso, não teríamos chegado, vindos da Idade da Pedra, à atual configuração do mundo contemporâneo. O medo do que é novo e a compulsão pela inovação convivem dialeticamente no desenvolvimento civilizatório.


Aldous Huxley publicou, em 1932, seu romance futurista “Admirável Mundo Novo”, considerado um dos mais importantes da literatura universal. A distopia presente projeta a vida em Londres, no distante ano de 2540, onde uma nova sociedade surge a partir das inovações tecnológicas, consolidando o controle autoritário da sociedade pelo poder de manipulação, Ford substituindo Deus, o uso da droga que garante euforia e o consumo desenfreado, erradicando a infelicidade e a dor.

Vivemos uma nova conjuntura disruptiva. O uso intensivo da Inteligência Artificial (IA), que ainda engatinha, e suas múltiplas consequências, despertam esperança, incerteza e medo.

Quem não se divertiu com os vídeos gerados pela IA envolvendo Vini Jr. e Haaland no ambiente pré e pós jogo da Copa? Hilários e criativos. Uma amiga me mandou um link do Spotify, compartilhando, a partir de seu refinado gosto musical, sua admiração pela nova cantora Rebecca Montt, seu timbre e expressividade, com um estilo à la Amy Winehouse. Adorei. Ao pesquisar a nacionalidade da cantora, descobri que era uma artista virtual, totalmente gerada por IA. A decepção, minha e de minha amiga, foi total. Não haveria possibilidade de irmos a um show de Rebecca. A criatividade e originalidade humana serão substituídas pelo processamento digital e robótico de conteúdos já existentes?

Toda inovação radical implica em ameaças e oportunidades, riscos e potencialidades revolucionárias. O economista francês Gabriel Zucman alerta para a inédita ampliação da concentração de riqueza, poder e conhecimento. Poucos bilionários dominam as plataformas e os algoritmos.

Como conviver como o novo ambiente em um país onde quase 64 milhões de brasileiros com 15 ou mais anos não concluíram o ensino básico? Qual será a repercussão no mercado de trabalho? O negócio IA faturou, nos últimos 12 meses, US$ 110 bilhões entre empresas da nuvem, assinatura de aplicativos e compra direta de modelos de IA.

Diariamente, lemos notícias sobre as consequências da IA. Aplicações na gastronomia, na expansão das franquias, composição de jingles eleitorais. Notícias sobre estresse, ansiedade e dificuldades decisórias de executivos diante da velocidade excessiva das transformações. Coisas positivas como a perspectiva de redução de 50% no custo dos novos medicamentos. E até robôs chineses, da empresa UBTech, companheiros emocionais contra a solidão, focados nos solteiros e idosos.

Há um mundo desafiador nascendo. Não cabe nenhuma atitude reacionária e retrógrada de resistência à inovação. Mas é fundamental a regulação democrática para que a IA seja uma conquista da humanidade e não um salto no escuro fora de controle.

'​Ficar deitado', resistir como o bambu

Cerca de 12,7 milhões de novos licenciados – mais do que toda a população de Portugal! – saem este ano das universidades chinesas, aumentando a pressão sobre o mercado de trabalho. A situação não é propriamente animadora: excluindo os estudantes, em maio, a taxa de desemprego entre os jovens dos 16 aos 24 anos era de 15,6%, anunciou o Gabinete Nacional de Estatísticas da China. É uma descida de 0,7 pontos percentuais em relação ao mês anterior, mas continua a ser o triplo da média nacional (5,2%). Pior ainda, a melhoria não eliminará a disposição de muitos jovens para “ficarem deitados” (“tang ping”, em chinês), rejeitando a pressão social para se empenharem numa carreira profissional de sucesso.

Em vez de se dedicarem totalmente ao trabalho, o que em alguns casos significa sujeitarem-se ao regime “996” (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana), os que optam por “ficar deitados” defendem um estilo de vida com mais tempo livre e maior satisfação pessoal. “Não comprem casa, não comprem automóvel, não se casem, não tenham filhos, não consumam”, proclama uma das mensagens mais conhecidas do movimento.

Para as autoridades, trata-se de uma atitude que “interpreta de forma maliciosa os fenómenos sociais, exagera seletivamente os casos negativos e utiliza-os como uma oportunidade para promover visões do mundo niilistas ou negativas”. No outono passado, durante uma campanha para “limpar e retificar” a internet, a Administração Estatal do Ciberespaço bloqueou várias contas, algumas das quais com mais de dez milhões de seguidores, e apagou milhares de mensagens.


Lançada nas redes sociais em 2021, a ideia de “ficar deitado” ganhou nova atualidade há dois meses, quando o Ministério da Segurança do Estado alertou que “forças estrangeiras” estavam a “tentar ampliar a ansiedade social promovendo noções negativas acerca do trabalho”, com o objetivo de “minar o espírito de perseverança entre os jovens da China e até mesmo comprometer os valores fundamentais da nossa sociedade”.

“Os jovens de hoje são totalmente epicuristas, dando prioridade a benefícios tangíveis e ao valor emocional das suas escolhas”, diz o historiador liberal Xu Jilin. A maioria são filhos únicos, nascidos sob a drástica política de controlo da natalidade, que durante três décadas e meia proibiu os casais urbanos de ter mais do que um filho. Cresceram como “pequenos imperadores”, centro das atenções de dois pais e de quatro avós. No centro das atenções e das poupanças familiares, que na China são das mais elevadas do mundo. E agora que já podem ter até três filhos, muitos casais preferem não ter nenhum! A pressão sobre o emprego é “considerável” e a demografia “coloca novos desafios ao desenvolvimento económico e à governação social”, reconheceu o último plenário do comité central do Partido Comunista.

Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, a disposição de “ficar deitado” não se reduz aos jovens à procura do primeiro emprego: “isto aplica-se a um leque mais alargado da sociedade – desde profissionais de sucesso e empresários de meia-idade até funcionários avessos ao risco –, uma vez que evitam trabalho extra para sobreviver numa era de concorrência intensa com rendimentos decrescentes”. Um estudo feito por investigadores de Singapura sugere que “não se trata apenas de uma reação de curto prazo, mas de uma enraizada mudança geracional nas atitudes acerca do trabalho e do sucesso”.

Dias depois de a Segurança do Estado ter alertado para a “lavagem ao cérebro” promovida por “forças anti-China”, um veterano antropólogo de Cambridge, Alan Macfarlane, com 2,3 milhões de seguidores na rede social Xiaohongshu, elogiou a atitude de “ficar deitado”, associando-a ao bambu. “Quando surge uma forte rajada de vento… o bambu inclina-se, absorve o impacto, fica quase deitado no chão e, depois, quando a rajada passa, volta a endireitar-se.” A mensagem “recebeu mais de 100 000 likes e circulou largamente em múltiplas plataformas”, assinalou o South China Morning Post. “O Estado diz que fomos infiltrados por forças estrangeiras; o professor diz que somos bambu. Finalmente, alguém reconhece que neste momento o ‘vento’ é simplesmente demasiado forte”, comentou um internauta chinês. “Ficar deitado não significa render-se”, afirmou outro. “Estamos apenas momentaneamente abatidos – mais cedo ou mais tarde, vamos recuperar.” 

A pátria apostadeira

A explosão das apostas online durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são). O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.


Mesmo assim, vale insistir. Sigamos com o debate. O assédio massivo que leva jovens a se deixarem moer por engrenagens viciantes deveria alarmar a consciência pública. Há três dias, nestas páginas, o jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco avisou: “O vício em apostas já se consolidou como um grave problema de saúde pública”. Em seu artigo Roletas da morte (Estadão, 6/7, A5), ele disse mais: “A compulsão leva ao endividamento, destrói famílias, rompe vínculos afetivos, compromete carreiras profissionais e alimenta uma espiral de desespero que, não raramente, termina em suicídio”. A questão incômoda é que essas palavras, embora lúcidas, não alteraram a realidade. As bets continuam aí, faceiras.

Há quase dois anos, em 3 de outubro de 2024, eu mesmo escrevi aqui um artigo a respeito. O título já dava o recado: É hora de acabar com a publicidade das bets (3/10, A5). Eu argumentava que as mensagens publicitárias das casas de apostas, que causam dependência grave, deveriam sofrer restrições legais, em analogia com o que já acontece com os anúncios de cigarro e de bebidas alcoólicas. Em resumo, não deveriam assediar assim, tão à vontade, as crianças e os adolescentes. Agora pergunto: o que eu escrevi mudou alguma coisa? Nada.

De lá para cá, o cenário piorou. Em maio, há coisa de dois meses, um contingente de 11% da população do Brasil enviava alguma parcela de suas economias para as bets.

Na semana passada, no embalo dos jogos da Copa, o patamar triplicou. De acordo com o levantamento feito pela fintech Klavi, a partir dos números do Open Finance (sistema de integração de dados do Banco

Central), já são 34,8% os brasileiros que viraram fregueses dos jogos de azar da era digital. Não, nós não somos mais um país-continente: somos um cassino-continente, isto sim.

A velha pátria de chuteiras tem hoje que empenhar as chancas para quitar as dívidas com o crupiê. Ficou descalça. Pense num garoto indefeso, que já não tem no que acreditar, quase sem – como dizem – “poder de compra”. Ele não escapa. Os seus ídolos nacionais, incluindo os mais famosos e mais bem pagos praticantes profissionais do ludopédio, vão às telas para intimá-lo a dar algum dinheiro aos donos das bets. Narradores supostamente esportivos vêm em reforço: “Jogue com responsabilidade”. Não há como fugir ao bombardeio.

Algo de muito sério se esfarelou nos fundamentos da nossa sociedade. A essa altura, além de procurar soluções legais, a cada dia mais insondáveis, a gente poderia tentar entender o que houve conosco em outro plano – não no plano das leis, mas no plano da ética. O que se passa com um país que autoriza a comercialização de uma mercadoria que vai desgraçar tantos destinos? Por que os endinheirados levam as famílias pobres a uma roleta que não oferecem às suas próprias? Todo mundo aqui sabe que os donos de bets não mandam seus filhos apostarem dinheiro no celular. Ao contrário, tomam providências para mantê-los longe do vício. Por que, então, recrutam os filhos dos outros para a jogatina?

Não falo de um caso isolado ou de mercados de pouco alcance. O que está aí não é uma exceção, é a regra, é um tsunami, um imperativo totalitário de proporções hiperbólicas. Pense na escala desse “problema de saúde pública”: um terço da pátria de chuteiras já é a pátria sem chuteiras, sem eira nem beira: a pátria apostadeira. Veja os comerciais na transmissão das partidas do campeonato mundial de soccer. Tente encontrar ali algum espaço que ainda não tenha sido contaminado pelas casas de apostas.

Quem tem costume de lidar com ideias relacionadas à ética há de conhecer um princípio que normalmente leva o nome de “regra de ouro”. O postulado é simples: você não deve dedicar às outras pessoas um tratamento que não gostaria de receber. A “regra de ouro” não vale para o gosto estético ou para preferências pessoais, mas para a convivência entre sujeitos que são titulares de direitos fundamentais. Alguém que não goste de couve e é dono de um restaurante pode muito bem servir couve para quem a aprecia. Mas, em matéria de direitos, não se deve fazer aos demais o que não se quer para si.

O nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera – e muito bem – aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos. E isso para falarmos apenas dos efeitos visíveis.

Fama após o algoritmo: quando os influenciadores viram notícia

As mortes trágicas de dois YouTubers argentinos — Chatterbox e Gaspi — em um intervalo de poucas semanas criaram uma situação curiosa. Para milhões de seguidores, eles eram figuras conhecidas, com anos de experiência na mídia. Para grande parte do público, no entanto, eram completos desconhecidos. Mesmo assim, quando morreram, seus nomes apareceram em jornais, rádios e noticiários por todo o país.

Este não é um caso isolado. Nos últimos anos, veículos de mídia tradicionais na América Latina têm noticiado as mortes de criadores de conteúdo digital que mal haviam conquistado reconhecimento fora de suas comunidades. O venezuelano Gabriel Sarmiento foi assassinado durante uma transmissão ao vivo no TikTok após denunciar supostos vínculos entre a polícia e gangues criminosas. A mexicana Valeria Márquez foi morta a tiros em 2025 enquanto transmitia ao vivo na mesma plataforma. Em ambos os casos, milhões de pessoas tomaram conhecimento de seus nomes pela imprensa.

Esses episódios levantam uma questão cada vez mais relevante: em que momento a fama gerada por algoritmos deixa de pertencer a um nicho e adquire relevância jornalística para toda a sociedade?

Durante décadas, a televisão, o cinema e a imprensa atuaram como grandes fabricantes de celebridades. Qualquer pessoa que aparecesse nesses meios se tornava um rosto familiar para quase todos. Esse modelo mudou.

"Não se trata apenas de dois ecossistemas, mas de muitos mais", disse à DW o pesquisador argentino Carlos Scolari, professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. Em sua opinião, o antigo sistema de mídia de massa já produzia celebridades nacionais e internacionais, mas as mídias sociais multiplicaram os circuitos onde "celebridades surgem, se desenvolvem e declinam". O resultado é um amplo ecossistema de mídia híbrido, no qual a mídia tradicional, as plataformas digitais e uma enorme diversidade de comunidades coexistem.

Cada plataforma gera seus próprios parâmetros de referência. Um criador pode acumular milhões de seguidores no YouTube ou no TikTok e permanecer praticamente desconhecido para aqueles que consomem principalmente televisão, mídia impressa ou simplesmente seguem outros influenciadores .


Paradoxalmente, os meios de comunicação tradicionais continuam a desempenhar um papel decisivo, embora diferente do passado. Já não criam necessariamente celebridades. Em muitos casos, estas surgem mais tarde.

Segundo o especialista em mídia digital Carlos Scolari, a mídia passou "da lógica da audiência para a lógica do clickbait ". Se um fenômeno toma as redes sociais de assalto e captura a atenção de milhões de usuários, inevitavelmente atrai também a atenção do rádio, dos jornais e da televisão. Além disso, à medida que os veículos de mídia tradicionais perdem público, "eles precisam ir atrás dele onde ele está: nas plataformas digitais".

Mas nem todos os influenciadores dão esse salto. A maioria permanece dentro de sua comunidade. Os casos que chegam às manchetes geralmente combinam notoriedade digital com critérios clássicos de notícia: uma morte inesperada, um assassinato, uma transmissão ao vivo, um escândalo ou um grande impacto político. O influenciador, então, deixa de ser apenas uma figura da internet e se torna o protagonista de uma história de interesse geral.

Segundo a pesquisadora Leonie Alatassi, do Instituto Leibniz de Pesquisa de Mídia em Hamburgo, essa mudança reflete uma transformação muito mais profunda.

As redes sociais diminuíram o papel da mídia tradicional como guardiã da fama. "Hoje, não é mais necessário passar pelas portas do jornalismo para se tornar famoso", explica ele. Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram permitem que pessoas sem experiência prévia construam comunidades enormes sem precisar da televisão ou de grandes conglomerados de mídia.

Isso não significa que existam dois mundos completamente separados. Alatassi acredita que eles estão constantemente interligados: artistas nascidos na televisão fortalecem sua presença nas redes sociais, enquanto criadores digitais acabam aparecendo na mídia tradicional quando ocorre um evento suficientemente relevante.

Essa mudança também afeta a forma como os jovens se informam. Segundo Alatassi, as novas gerações cresceram em um ambiente "digital, híbrido e orientado por algoritmos".

Embora muitos adultos se identifiquem fortemente com marcas jornalísticas, os jovens frequentemente criam laços de confiança com indivíduos específicos: criadores de conteúdo, comunicadores ou jornalistas que acompanham regularmente nas redes sociais. Essa relação pessoal pode se tornar uma bússola para navegar em um ambiente saturado de informações.

Longe de interpretar essa evolução apenas como uma ameaça, a pesquisadora acredita que o jornalismo deve compreender essas novas formas de consumo sem abandonar seus princípios. Em sua visão, os meios de comunicação terão que aprender com as plataformas para se conectar com novos públicos, mas "mantendo seus próprios padrões de verificação, independência e rigor".