domingo, 21 de junho de 2026
Conflito com Irã faz EUA encolherem como superpotência
"Navios do mundo, liguem seus motores", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último domingo ao anunciar um acordo com o Irã para encerrar o conflito que ele iniciou junto com Israel há mais de três meses.
Na quinta-feira, foi a vez de Estados Unidos e Irã assinarem o documento. Trump o fez durante um evento no Palácio de Versalhes, na França, local da assinatura do tratado que cristalizou a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
O acordo foi saudado pelo líder do Hezbollah, Naim Qassem, aliado do Irã, como uma "grande vitória". Já o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou: "O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas verão isso e julgarão".
Ao defender o acordo, Trump disse que nenhum presidente dos EUA havia sido tão duro com o Irã e que "a alternativa seria uma depressão mundial", argumentando que, se não tivesse fechado o acordo, "o estreito [de Ormuz] jamais teria sido aberto".
Terminada a assinatura do acordo, ficou claro que os Estados Unidos não conseguiram impor condições ao Irã em relação a uma série de objetivos anunciados no início da guerra, apesar de sua enorme superioridade militar.
Além disso, a capacidade do Irã de usar drones, minas e pequenas embarcações para interromper a livre circulação no transporte marítimo trouxe à tona questões desconfortáveis sobre o papel do poder dos EUA na proteção da liberdade de navegação e na garantia do livre comércio.
"A guerra com o Irã mostrou a extraordinária capacidade militar dos EUA – e sua incapacidade de transformar essas capacidades em algo que se aproxime de uma vitória estratégica", avalia Rebecca Lissner, pesquisadora sênior de política externa dos EUA e diretora da iniciativa Future of American Strategy no think tank Conselho de Relações Exteriores (CFR).
"Isso é um golpe na imagem dos EUA como superpotência global e enfraquece seu status como garantidor da liberdade de navegação. Essa guerra deixou os Estados Unidos em uma posição mais fraca do que no início do conflito", diz ela.
Trump apresentou uma série de objetivos ao iniciar a guerra, incluindo a "aniquilação" da marinha convencional do Irã. Esse objetivo, pelo menos, parece ter sido alcançado – o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliou que "o Irã perdeu a maior parte de sua capacidade naval em menos de 10 dias".
Mas o Irã não precisava de uma marinha convencional para manter o tráfego marítimo em Ormuz sob ameaça. Seus ataques assimétricos baseados em drones contra instalações energéticas no Golfo provaram ser uma forma eficaz de dissuasão contra a escalada dos EUA. Os aliados do Irã no Iêmen e no Líbano também continuam sendo uma ameaça.
Os ataques aéreos dos EUA e de Israel também eliminaram grande parte da liderança da República Islâmica e enfraqueceram suas forças militares. Ao mesmo tempo, o conflito dificultou muito a vida dos iranianos comuns, que haviam enfrentado uma repressão brutal ao protestar contra o regime poucas semanas antes da guerra. Trump não menciona o destino deles, nem a ideia de "mudança de regime", desde as primeiras semanas do conflito.
Na região, as relações entre Teerã e os Estados do Golfo vizinhos também foram prejudicadas, sinalizando uma instabilidade prolongada. Esses países também passaram a questionar a confiabilidade da proteção de segurança dos EUA, já que suas infraestruturas civis e instalações energéticas ficaram vulneráveis.
Ainda assim, a principal questão estratégica daqui para frente é o Estreito de Ormuz, com o mundo aguardando para ver se os EUA concederão ao Irã nos próximos meses algum controle, mesmo que parcial, sobre o tráfego na via marítima.
O acordo assinado prevê que o "Irã providenciará a passagem segura de navios comerciais, sem custos, por 60 dias". Mas fica em aberto o que acontecerá após esse prazo.
"Mesmo que o acordo consiga reabrir o estreito, o Irã agora tem um poder de negociação que não tinha antes", disse Lissner.
"Os Estados Unidos mostraram que são incapazes ou não estão dispostos a forçar o Irã a reabrir o estreito, o que significa que o mundo viverá com o risco de o Irã poder fechá-lo novamente a qualquer momento", acrescentou.
E, tendo bloqueado o fornecimento global de energia por meses, ainda não está claro por que o regime iraniano abriria mão dessa vantagem sem receber algo em troca.
O Irã, por sua vez, confirmou que não tentará cobrar taxas de passagem por 60 dias, mas, segundo a agência de notícias Tasnim — um veículo estatal semioficial do país —, passará a "cobrar dos navios por serviços após esse período".
O Irã, juntamente com Omã, vem elaborando planos concretos para controlar o tráfego marítimo nessa via navegável estratégica. As duas nações realizaram pelo menos uma conversa sobre o tema nas últimas semanas, e o Irã chegou a criar uma Autoridade para o Estreito do Golfo Pérsico.
E, enquanto os mercados globais respiram aliviados, ainda há dúvidas se o transporte marítimo por Ormuz voltará ao normal.
"Esse acordo parece propenso a, na prática, consolidar o controle iraniano sobre o estreito, criando um mecanismo para que o Irã cobre taxas de embarcações que transitam por lá", disse Lissner.
Na quinta-feira, foi a vez de Estados Unidos e Irã assinarem o documento. Trump o fez durante um evento no Palácio de Versalhes, na França, local da assinatura do tratado que cristalizou a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
O acordo foi saudado pelo líder do Hezbollah, Naim Qassem, aliado do Irã, como uma "grande vitória". Já o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou: "O acordo é um registro do fracasso dos EUA. As pessoas verão isso e julgarão".
Ao defender o acordo, Trump disse que nenhum presidente dos EUA havia sido tão duro com o Irã e que "a alternativa seria uma depressão mundial", argumentando que, se não tivesse fechado o acordo, "o estreito [de Ormuz] jamais teria sido aberto".
Terminada a assinatura do acordo, ficou claro que os Estados Unidos não conseguiram impor condições ao Irã em relação a uma série de objetivos anunciados no início da guerra, apesar de sua enorme superioridade militar.
Além disso, a capacidade do Irã de usar drones, minas e pequenas embarcações para interromper a livre circulação no transporte marítimo trouxe à tona questões desconfortáveis sobre o papel do poder dos EUA na proteção da liberdade de navegação e na garantia do livre comércio.
"A guerra com o Irã mostrou a extraordinária capacidade militar dos EUA – e sua incapacidade de transformar essas capacidades em algo que se aproxime de uma vitória estratégica", avalia Rebecca Lissner, pesquisadora sênior de política externa dos EUA e diretora da iniciativa Future of American Strategy no think tank Conselho de Relações Exteriores (CFR).
"Isso é um golpe na imagem dos EUA como superpotência global e enfraquece seu status como garantidor da liberdade de navegação. Essa guerra deixou os Estados Unidos em uma posição mais fraca do que no início do conflito", diz ela.
Trump apresentou uma série de objetivos ao iniciar a guerra, incluindo a "aniquilação" da marinha convencional do Irã. Esse objetivo, pelo menos, parece ter sido alcançado – o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) avaliou que "o Irã perdeu a maior parte de sua capacidade naval em menos de 10 dias".
Mas o Irã não precisava de uma marinha convencional para manter o tráfego marítimo em Ormuz sob ameaça. Seus ataques assimétricos baseados em drones contra instalações energéticas no Golfo provaram ser uma forma eficaz de dissuasão contra a escalada dos EUA. Os aliados do Irã no Iêmen e no Líbano também continuam sendo uma ameaça.
Os ataques aéreos dos EUA e de Israel também eliminaram grande parte da liderança da República Islâmica e enfraqueceram suas forças militares. Ao mesmo tempo, o conflito dificultou muito a vida dos iranianos comuns, que haviam enfrentado uma repressão brutal ao protestar contra o regime poucas semanas antes da guerra. Trump não menciona o destino deles, nem a ideia de "mudança de regime", desde as primeiras semanas do conflito.
Na região, as relações entre Teerã e os Estados do Golfo vizinhos também foram prejudicadas, sinalizando uma instabilidade prolongada. Esses países também passaram a questionar a confiabilidade da proteção de segurança dos EUA, já que suas infraestruturas civis e instalações energéticas ficaram vulneráveis.
Ainda assim, a principal questão estratégica daqui para frente é o Estreito de Ormuz, com o mundo aguardando para ver se os EUA concederão ao Irã nos próximos meses algum controle, mesmo que parcial, sobre o tráfego na via marítima.
O acordo assinado prevê que o "Irã providenciará a passagem segura de navios comerciais, sem custos, por 60 dias". Mas fica em aberto o que acontecerá após esse prazo.
"Mesmo que o acordo consiga reabrir o estreito, o Irã agora tem um poder de negociação que não tinha antes", disse Lissner.
"Os Estados Unidos mostraram que são incapazes ou não estão dispostos a forçar o Irã a reabrir o estreito, o que significa que o mundo viverá com o risco de o Irã poder fechá-lo novamente a qualquer momento", acrescentou.
E, tendo bloqueado o fornecimento global de energia por meses, ainda não está claro por que o regime iraniano abriria mão dessa vantagem sem receber algo em troca.
O Irã, por sua vez, confirmou que não tentará cobrar taxas de passagem por 60 dias, mas, segundo a agência de notícias Tasnim — um veículo estatal semioficial do país —, passará a "cobrar dos navios por serviços após esse período".
O Irã, juntamente com Omã, vem elaborando planos concretos para controlar o tráfego marítimo nessa via navegável estratégica. As duas nações realizaram pelo menos uma conversa sobre o tema nas últimas semanas, e o Irã chegou a criar uma Autoridade para o Estreito do Golfo Pérsico.
E, enquanto os mercados globais respiram aliviados, ainda há dúvidas se o transporte marítimo por Ormuz voltará ao normal.
"Esse acordo parece propenso a, na prática, consolidar o controle iraniano sobre o estreito, criando um mecanismo para que o Irã cobre taxas de embarcações que transitam por lá", disse Lissner.
Por décadas, os pilares centrais do poder dos EUA foram sua superioridade militar e o compromisso com a manutenção do que Washington chama de "ordem baseada em regras", junto a aliados com ideias semelhantes. No comércio global, isso significava que o poder americano poderia garantir a liberdade de navegação e o fluxo eficiente de mercadorias, como o petróleo, ao redor do mundo.
Os EUA projetaram esse sistema global e foram seus maiores beneficiários. Donald Trump, no entanto, sempre foi cético em relação a ele, retratando-o como um sistema em que o mundo "explora" os Estados Unidos em troca de pouco. Essa rejeição ficou evidente na imposição errática de tarifas no ano passado, que continuam gerando incerteza na economia global, mesmo com sua redução recente.
O primeiro acordo nuclear com o Irã, em 2015, negociado pelo governo de Barack Obama, foi um exemplo de multilateralismo liderado pelos EUA. Ele foi construído com cooperação cuidadosa de aliados europeus, além da China e da Rússia. Apesar de imperfeito, permitiu que a pressão sobre o Irã fosse aplicada de forma gradual e coordenada, evitando que divergências se transformassem em conflito aberto.
Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e ainda parece acreditar que pode usar a força dos EUA para pressionar o Irã a aceitar algo melhor. Na segunda-feira, Trump afirmou que Obama estava "basicamente pagando o Irã" e que seu governo "negociou a partir de uma posição de força".
Lissner, junto com outros analistas como o historiador Timothy Snyder, classificou a abordagem da administração Trump em política externa como um "suicídio de superpotência".
Sob a liderança de Trump, os EUA têm "desmantelado progressivamente o sistema que Washington construiu, junto com seus aliados, para se manter poderoso e próspero", disse ela.
"A guerra com o Irã apenas acelerou essa tendência, enfraquecendo ainda mais a ordem baseada em regras e afastando aliados americanos. Esses passos apontam para uma 'nova desordem mundial', caracterizada por crescente violência e instabilidade."
Os EUA projetaram esse sistema global e foram seus maiores beneficiários. Donald Trump, no entanto, sempre foi cético em relação a ele, retratando-o como um sistema em que o mundo "explora" os Estados Unidos em troca de pouco. Essa rejeição ficou evidente na imposição errática de tarifas no ano passado, que continuam gerando incerteza na economia global, mesmo com sua redução recente.
O primeiro acordo nuclear com o Irã, em 2015, negociado pelo governo de Barack Obama, foi um exemplo de multilateralismo liderado pelos EUA. Ele foi construído com cooperação cuidadosa de aliados europeus, além da China e da Rússia. Apesar de imperfeito, permitiu que a pressão sobre o Irã fosse aplicada de forma gradual e coordenada, evitando que divergências se transformassem em conflito aberto.
Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato, em 2018, e ainda parece acreditar que pode usar a força dos EUA para pressionar o Irã a aceitar algo melhor. Na segunda-feira, Trump afirmou que Obama estava "basicamente pagando o Irã" e que seu governo "negociou a partir de uma posição de força".
Lissner, junto com outros analistas como o historiador Timothy Snyder, classificou a abordagem da administração Trump em política externa como um "suicídio de superpotência".
Sob a liderança de Trump, os EUA têm "desmantelado progressivamente o sistema que Washington construiu, junto com seus aliados, para se manter poderoso e próspero", disse ela.
"A guerra com o Irã apenas acelerou essa tendência, enfraquecendo ainda mais a ordem baseada em regras e afastando aliados americanos. Esses passos apontam para uma 'nova desordem mundial', caracterizada por crescente violência e instabilidade."
O fator Master nesta eleição
O Banco Master já é um fator relevante na eleição de 2026. Estará na mente do eleitor. O que houve na última semana não igualou tudo, apenas deu a todos os participantes da peleja eleitoral a chance de entender que a crise provocada pelo banqueiro que queria comprar todo mundo é mais profunda. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, precisa se defender com argumentos que fiquem de pé. O pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, não será salvo pela tese fraca de que era “dinheiro privado”. Daniel Vorcaro assediava autoridades no pressuposto de que o dinheiro público e as leis iriam socorrê-lo. Nunca foi dinheiro privado.
Para entender o caso, é preciso voltar à quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o banco estadual em frangalhos.
O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.
A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com autonomia, olhando para todos os lados.
Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2, os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3, o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima “Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.
O negócio que jogaria nos cofres públicos toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados, extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, e do ministro Dias Toffoli, o primeiro relator do caso.
No capítulo mais recente, mas não o último dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao “Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair Bolsonaro.
O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.
Para entender o caso, é preciso voltar à quadra um: as agências de controle no governo Lula impuseram todas as derrotas que Daniel Vorcaro e seus cúmplices amargaram. O Banco Central recusou o negócio que seria a salvação do Master, a compra pelo BRB. Se a operação fosse permitida, o rombo provocado pela gestão fraudulenta do ex-banqueiro estaria todo no colo do setor público. A direção do BRB, no governo do bolsonarista Ibaneis Rocha, comprou uma carteira do Master. Foi o suficiente para deixar o banco estadual em frangalhos.
O Banco Central vetou o negócio dos sonhos de Vorcaro, identificou indícios de crime na atuação do Master e de má conduta de dois servidores graduados. Entregou tudo ao Ministério Público e afastou os funcionários. Com base nessa notícia-crime, o assunto foi levado à Polícia Federal que tem investigado. Na nona fase, a operação Compliance Zero chegou a Jaques Wagner, mas já havia atingido o senador Ciro Nogueira, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o ex-governador bolsonarista Cláudio Castro e integrantes da família Bolsonaro na esteira do estranho financiamento ao filme propaganda Dark Horse. O presidente da Câmara, Hugo Motta, teve contas de viagem internacional pagas pelo ex-banqueiro e reagiu: “Não vejo problemas”. Pois é. O problema está em não vê-los.
A Polícia Federal no governo Bolsonaro foi alvo explícito de intervenção do então presidente. Agora tem investigado com autonomia, olhando para todos os lados.
Voltemos a setembro do ano passado. No dia 2, os partidos do Centrão — PP, União Brasil, PL, Republicanos — e o PSB assinaram pedido de urgência para um projeto do PP que dava ao Congresso o poder de demitir dirigentes do Banco Central. Era intimidação. Não funcionou. No dia 3, o Banco Central negou autorização para a compra do Master pelo BRB. No dia 4, o enteado do senador Jaques Wagner disse em conversa com o banqueiro Augusto Lima “Amanhã vence os boletos e são altos”. O sócio de Vorcaro avisou que o cenário estava “crítico" e, segundo a PF, “vinculou a dificuldade financeira ao insucesso da operação Banco Master/BRB”. No dia 8, Flávio Bolsonaro mandou um áudio para Daniel Vorcaro. Solidário e cobrador. “E você eu sei que está passando por um momento dificílimo”… “tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso (…) já tem muita conta para pagar esse mês”.
O negócio que jogaria nos cofres públicos toda a lambança — farras, shows, apartamentos, jatinhos, advogados, extravagâncias em Nova York, Paris, Lisboa, Los Angeles e Courchevel — seria a compra do Master pelo BRB. O Banco Central frustrou a manobra e pagou um preço alto. Enfrentou pressões do Centrão através do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União, e do ministro Dias Toffoli, o primeiro relator do caso.
No capítulo mais recente, mas não o último dessa investigação, o atingido foi o senador Jaques Wagner. O relator, ministro André Mendonça, não avisou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre a operação, mas não aceitou o pedido da Polícia Federal de fazer busca e apreensão no Senado. Wagner, diante das trocas de mensagens que teve com Augusto Lima sobre a compra de um apartamento, disse que teria pedido ao “Guga" para comprar o apartamento que depois ele recompraria. Quem no mundo tem um amigo banqueiro a quem possa pedir a compra provisória de um apartamento? Um detalhe meio novelesco. Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, é casado com Flávia ex-Arruda que foi ministra da secretaria de Governo de Jair Bolsonaro.
O que é o caso Master? Uma chance, uma enorme oportunidade de fixar a fronteira do que é inaceitável nas relações entre autoridades e endinheirados. Isso é o que realmente interessa ao Brasil.
A foto ofusca o filme
Vista como foto, a violência parece diminuir com a redução da maioridade penal; vista como filme, ela pode se agravar. Com base no momento, explica-se a opinião favorável à redução da maioridade penal; mas, vista como filme, sabe-se que essa redução tende a aumentar a criminalidade, porque muitos adolescentes presos cairão nas garras do crime organizado. No longo prazo, o aumento no tempo de permanência na escola tem melhor efeito na segurança pública do que a redução da maioridade penal. Há sessenta anos, Darcy Ribeiro dizia que “se não fizermos escolas hoje, vamos precisar fazer cadeias no futuro”; na época, preferimos a foto ao filme e, agora, repetimos o erro, construindo mais cadeias para novos condenados adolescentes.
Pesquisa recente de opinião sobre as preocupações da população indica que em primeiro lugar está a violência (27%), seguida da corrupção (20%), dos problemas sociais (18%), da saúde (13%), da economia (9%) e, em último lugar, da educação (6%). Essa hierarquia mostra a lucidez da população no momento da pesquisa. Mas, se no lugar da foto fizermos um filme, a ordem se inverte. A luta contra a violência imediata depende da ineficiência do aparato policial e jurídico para reprimir e punir o crime, inclusive de menores de idade — mas também depende da qualidade e universalização da educação básica.
A saúde é muito mais urgente que a educação e depende de saneamento e da atenção médica, mas a pessoa educada cuida melhor da própria saúde e da saúde pública. A desigualdade no acesso à educação provoca ou acirra a desigualdade social, que, por sua vez, pressiona a violência nas ruas como meio de sobrevivência. A corrupção depende da impunidade com os corruptos eleitos, mas há uma correlação direta entre a universalização da educação e a prática política com valores éticos na escolha de prioridades e na conduta dos políticos.
Embora o emprego dependa do crescimento econômico e este dependa da infraestrutura eficiente e da estabilidade jurídica e monetária, sabe-se que a produtividade e a competitividade dependem do grau de educação da população e que uma pessoa educada tem mais chances de conseguir emprego. O desequilíbrio ecológico decorre de um propósito equivocado de crescimento e da falta de regras para um sistema econômico em harmonia com a natureza. Mas o desenvolvimento sustentável depende, sobretudo, de uma mudança de mentalidade proporcionada pela educação. A soberania precisa de Forças Armadas preparadas, mas, em sua base, está o povo educado. É difícil haver soberania efetiva com população despreparada e até incapaz de reconhecer a inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.
Cada problema depende de outros fatores — o atraso científico e tecnológico decorre da falta de qualidade do ensino superior e da estabilidade no financiamento de pesquisas; a instabilidade democrática decorre da falta de solidez das instituições; o combate à pobreza depende de transferências de renda e da estabilidade monetária — mas a solução para esses problemas requer também educação para todos. Quando conhecemos a história, percebemos que a ausência da educação está na origem e na continuidade de todos os problemas.
Pesquisa recente de opinião sobre as preocupações da população indica que em primeiro lugar está a violência (27%), seguida da corrupção (20%), dos problemas sociais (18%), da saúde (13%), da economia (9%) e, em último lugar, da educação (6%). Essa hierarquia mostra a lucidez da população no momento da pesquisa. Mas, se no lugar da foto fizermos um filme, a ordem se inverte. A luta contra a violência imediata depende da ineficiência do aparato policial e jurídico para reprimir e punir o crime, inclusive de menores de idade — mas também depende da qualidade e universalização da educação básica.
A saúde é muito mais urgente que a educação e depende de saneamento e da atenção médica, mas a pessoa educada cuida melhor da própria saúde e da saúde pública. A desigualdade no acesso à educação provoca ou acirra a desigualdade social, que, por sua vez, pressiona a violência nas ruas como meio de sobrevivência. A corrupção depende da impunidade com os corruptos eleitos, mas há uma correlação direta entre a universalização da educação e a prática política com valores éticos na escolha de prioridades e na conduta dos políticos.
Embora o emprego dependa do crescimento econômico e este dependa da infraestrutura eficiente e da estabilidade jurídica e monetária, sabe-se que a produtividade e a competitividade dependem do grau de educação da população e que uma pessoa educada tem mais chances de conseguir emprego. O desequilíbrio ecológico decorre de um propósito equivocado de crescimento e da falta de regras para um sistema econômico em harmonia com a natureza. Mas o desenvolvimento sustentável depende, sobretudo, de uma mudança de mentalidade proporcionada pela educação. A soberania precisa de Forças Armadas preparadas, mas, em sua base, está o povo educado. É difícil haver soberania efetiva com população despreparada e até incapaz de reconhecer a inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira nacional.
Cada problema depende de outros fatores — o atraso científico e tecnológico decorre da falta de qualidade do ensino superior e da estabilidade no financiamento de pesquisas; a instabilidade democrática decorre da falta de solidez das instituições; o combate à pobreza depende de transferências de renda e da estabilidade monetária — mas a solução para esses problemas requer também educação para todos. Quando conhecemos a história, percebemos que a ausência da educação está na origem e na continuidade de todos os problemas.
Master: extrema direita se anima com corrupção da esquerda
Quem sobra para criticar Estado tomado por corruptos, facções e orcrims empresariais?
As corrupções da política ainda vão ser tema relevante da campanha para presidente? A imundície está tão espalhada que dificilmente haverá flagrante grandioso o suficiente para tirar o país da resignação com a sujeira.
Não se trata de dizer que todo mundo é corrupto ou que todas as turmas políticas contem com corruptos de igual grandeza. Mas há rolo bastante para que candidaturas relevantes se joguem imundícies umas nas outras, em particular pelas redes. Sendo assim, as campanhas talvez deixem o assunto para lá. Será o consenso da podridão.
O lamento não é udenismo, lavajatismo ou demagogia picareta que o valha. Governos do país apodrecem rapidamente, o crime chegou ao poder em alguns estados, entramos na rota de sermos um Estado fracassado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu quantidade de pontos importantes, longe de letal, quando foi pego pedinchando dinheiro a Daniel Vorcaro e por ter mentido sem parar sobre seu caso de amor fraterno com o gangster. Mumunhas e delinquências recentes de sua família, como as do irmão Eduardo, não fizeram estrago maior.
A ficha corrida de Flávio e família poderia reemergir na campanha eleitoral. Os tropeços levaram até gente aliada da direita a plantar em jornais que se estuda alternativa à candidatura Flávio. Com imundície generalizada, as mutretas ainda vão fazer diferença, ameaçar candidaturas?
O senador Jaques Wagner (PT-BA) não é candidato a presidente. Apesar de amigão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro de governos petistas e líder do governo no Senado, mal é conhecido fora da Bahia. A Polícia Federal acaba de tirar uns pedaços de corpos de gavetas de Wagner. Não se compara às covas coletivas dos Bolsonaro. Nem mesmo ao caso do também senador Ciro Nogueira (PP-PI), teúdo e manteúdo de Vorcaro, ex-ministro de Jair Bolsonaro e que até o início do ano queria ser vice de Flávio. Não refresca para Wagner.
O senador petista alega que ajudava a filha a comprar um apartamento, pedindo, digamos, uma espécie de empréstimo-ponte a um sujeito da turma de Vorcaro. Que fosse apenas isso. Imagine-se gente comum (e com alguma sorte na vida), que junta dinheiro de trabalho, vende carro e pede empréstimo a banco para comprar casa. O que vai achar? E quem não tem nada?
No mínimo, Wagner e pares preferem dever favor à ralé endinheirada, pegam carona em jatinho e confraternizam com escroques naquelas cafajestadas cafonas e arrivistas de fumar charuto e tomar uísque. Sim, isso é fichinha. Vide como o Congresso aprova medidas destrutivas da economia nacional, dando dezenas de bilhões a empresários suspeitos do setor elétrico, como está para fazer de novo. Quanto vai custar? Bem mais do que um charuto.
Há muito cadáver para sair do armário da corrupção. Política e Estado apodrecem sem parar. Afora policiais e promotores, pouca gente mais liga para o desastre do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do estado (Alerj) estava infiltrada até a cúpula por facções, como Comando Vermelho ou Terceiro Comando. Quem mandava na Alerj e no governo era a turma do PL e aliados, turma de Flávio Bolsonaro.
No entanto, no mínimo, Wagner entrou em uma barca do inferno de Vorcaro. A extrema direita, que ganhou força também por velhas corrupções petistas, pode agora pensar em empatar o jogo da imundície ao menos no campo virtual. Se está todo mundo na lama ou assim parece, não é por aí que o eleitorado vai se decidir.
Vinicius Torres Freire
As corrupções da política ainda vão ser tema relevante da campanha para presidente? A imundície está tão espalhada que dificilmente haverá flagrante grandioso o suficiente para tirar o país da resignação com a sujeira.
Não se trata de dizer que todo mundo é corrupto ou que todas as turmas políticas contem com corruptos de igual grandeza. Mas há rolo bastante para que candidaturas relevantes se joguem imundícies umas nas outras, em particular pelas redes. Sendo assim, as campanhas talvez deixem o assunto para lá. Será o consenso da podridão.
O lamento não é udenismo, lavajatismo ou demagogia picareta que o valha. Governos do país apodrecem rapidamente, o crime chegou ao poder em alguns estados, entramos na rota de sermos um Estado fracassado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perdeu quantidade de pontos importantes, longe de letal, quando foi pego pedinchando dinheiro a Daniel Vorcaro e por ter mentido sem parar sobre seu caso de amor fraterno com o gangster. Mumunhas e delinquências recentes de sua família, como as do irmão Eduardo, não fizeram estrago maior.
A ficha corrida de Flávio e família poderia reemergir na campanha eleitoral. Os tropeços levaram até gente aliada da direita a plantar em jornais que se estuda alternativa à candidatura Flávio. Com imundície generalizada, as mutretas ainda vão fazer diferença, ameaçar candidaturas?
O senador Jaques Wagner (PT-BA) não é candidato a presidente. Apesar de amigão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-ministro de governos petistas e líder do governo no Senado, mal é conhecido fora da Bahia. A Polícia Federal acaba de tirar uns pedaços de corpos de gavetas de Wagner. Não se compara às covas coletivas dos Bolsonaro. Nem mesmo ao caso do também senador Ciro Nogueira (PP-PI), teúdo e manteúdo de Vorcaro, ex-ministro de Jair Bolsonaro e que até o início do ano queria ser vice de Flávio. Não refresca para Wagner.
O senador petista alega que ajudava a filha a comprar um apartamento, pedindo, digamos, uma espécie de empréstimo-ponte a um sujeito da turma de Vorcaro. Que fosse apenas isso. Imagine-se gente comum (e com alguma sorte na vida), que junta dinheiro de trabalho, vende carro e pede empréstimo a banco para comprar casa. O que vai achar? E quem não tem nada?
No mínimo, Wagner e pares preferem dever favor à ralé endinheirada, pegam carona em jatinho e confraternizam com escroques naquelas cafajestadas cafonas e arrivistas de fumar charuto e tomar uísque. Sim, isso é fichinha. Vide como o Congresso aprova medidas destrutivas da economia nacional, dando dezenas de bilhões a empresários suspeitos do setor elétrico, como está para fazer de novo. Quanto vai custar? Bem mais do que um charuto.
Há muito cadáver para sair do armário da corrupção. Política e Estado apodrecem sem parar. Afora policiais e promotores, pouca gente mais liga para o desastre do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do estado (Alerj) estava infiltrada até a cúpula por facções, como Comando Vermelho ou Terceiro Comando. Quem mandava na Alerj e no governo era a turma do PL e aliados, turma de Flávio Bolsonaro.
No entanto, no mínimo, Wagner entrou em uma barca do inferno de Vorcaro. A extrema direita, que ganhou força também por velhas corrupções petistas, pode agora pensar em empatar o jogo da imundície ao menos no campo virtual. Se está todo mundo na lama ou assim parece, não é por aí que o eleitorado vai se decidir.
Vinicius Torres Freire
Insônia e dor de cabeça são o custo implacável e invisível dos data centers de IA
O batimento cardíaco da economia da inteligência artificial soa como o zumbido de baixa frequência de um aparelho central de ar-condicionado do vizinho, um avião voando em grande altitude ou o motor de um caminhão funcionando em marcha lenta na estrada.
Mas a sensação é a de uma pulsação vibrante e rítmica de um subwoofer (tipo de alto-falante) vindo de uma festa que nunca termina. Sim, a nuvem tem um som, e algumas das pessoas que vivem mais perto dos data centers que emitem esse ruído chegaram ao limite de sua paciência tentando bloqueá-lo.
Mês passado, moradores de três pequenas cidades entraram com processos contra data centers especificamente por causa do barulho.
Os Estados Unidos possuem mais de 3 mil data centers em operação e outros 1.500 em desenvolvimento, segundo uma análise do Centro de Pesquisas Pew. Eles têm sido a espinha dorsal da economia da informação por décadas, operando em grande parte nos bastidores da vida cotidiana.
As demandas da inteligência artificial(IA), de quantidades muito maiores de poder computacional e infraestrutura de refrigeração, provocaram uma explosão na construção de novos data centers.
Hoje, quase 40% das residências estão localizadas a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em funcionamento, segundo o Pew, e cada vez mais deles estão se aproximando das áreas residenciais.
O zumbido dos sistemas de refrigeração, o ronco dos geradores e o ruído das ventoinhas podem ser ouvidos — e sentidos — a centenas de metros de distância e até meso a mais de um quilômetro.
— A pegada acústica é simplesmente diferente em ordens de magnitude —disse Les Blomberg, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Noise Pollution Clearinghouse.
Parte desse ruído consiste em infrassom, ondas sonoras de frequência extremamente baixa que ficam abaixo do limiar da audição humana.
Em vez de ouvirem essas frequências muito baixas, as pessoas as sentem fisicamente com flutuações de pressão, semelhantes à vibração profunda de batidão sacudindo o corpo durante um show, explicou Scott Hamilton, membro da Sociedade Acústica da América e consultor em projetos de centros de dados.
Isso pode fazer com que os indicadores tradicionais de ruído e as soluções para atenuá-lo se mostrem inadequados para atender às necessidades modernas.
Moradores que vivem próximos a fontes de infrassom frequentemente relatam privação crônica de sono e insônia, dores de cabeça, pressão interna nos ouvidos e ansiedade.
Muitas vezes, a legislação não ajuda.
A poluição sonora é regulamentada em nível local por uma complexa rede de leis de zoneamento, originalmente elaboradas para lidar com festas barulhentas, cães latindo ou ruídos de construção, e não com o zumbido industrial constante de um centro de dados funcionando 24 horas por dia.
Também não há muito amparo em nível federal, porque o governo Reagan retirou o financiamento do Escritório de Controle e Redução de Ruído da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no início da década de 1980.
Embora existam regulamentações, “não há ninguém na EPA efetivamente encarregado de aplicá-las”, disse Richard Neitzel, professor de ciências da saúde ambiental da Universidade de Michigan.
— Eles usaram esse escritório como exemplo de excesso regulatório, como se o governo não tivesse o direito de me dizer quão barulhento meu cortador de grama pode ser — afirmou.
Agora, os moradores estão tentando preencher essa lacuna regulatória.
Os três processos argumentam que, embora os data centers geralmente cumpram os códigos básicos de zoneamento, o zumbido constante e as vibrações causam desvalorização significativa dos imóveis e a perda do direito ao sossego dos proprietários vizinhos.
Os autores das ações querem indenizações pelos danos e também obrigar as empresas a melhorar as medidas de controle de ruído.
Em Vineland, Nova Jersey, um grupo de proprietários entrou com uma ação na Justiça Federal motivado, em parte, pelo receio de que ainda mais ruído esteja por vir.
— Há um ruído constante de máquinas funcionando, que é mais perceptível à noite quando tentamos dormir — declarou Stefanie Bartiromo, moradora da região, referindo-se às três salas de servidores já em operação, segundo o processo. — Parece um helicóptero que nunca sai do lugar e, às vezes, um caminhão pesado funcionando sem parar.
A ação foi movida contra a DataOne USA, que está expandindo seu campus em Vineland. Quando concluído, o complexo da empresa terá cerca de 241 mil metros quadrados e exigirá 300 megawatts de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de porte médio.
A DataOne afirmou que já adotou medidas para reduzir o ruído e que continuará fazendo isso à medida que a expansão for concluída.
"Continuamos comprometidos com um diálogo construtivo e com o papel de membro valioso e responsável da comunidade a longo prazo", disse um porta-voz da empresa em comunicado.
A companhia afirmou que pretende gerar empregos e impulsionar a economia local. O mesmo argumento econômico foi apresentado pelas outras empresas processadas por causa do ruído, anos depois de terem reaproveitado antigos terrenos industriais em Dowagiac, Michigan, e Lowell, Massachusetts.
Moradores de Dowagiac vinham reclamando de um data center de 30 megawatts instalado em um prédio que anteriormente era usado principalmente para armazenar barcos e veículos recreativos.
A proprietária do data center, Alliance Cloud Services, comprou recentemente mais 50 acres de área florestal, pois planeja ampliar sua capacidade de consumo de energia de 30 para 300 megawatts. Parte dessa área servirá como uma barreira natural contra os impactos do empreendimento, segundo a empresa.
Para combater o ruído, o setor está migrando para sistemas de refrigeração líquida. Em vez de utilizar ventiladores barulhentos para impulsionar o ar, os servidores são submersos em fluidos especiais não condutores ou equipados com placas frias refrigeradas por líquido instaladas sobre os processadores que geram calor.
Isso pode reduzir o ruído de um centro de dados em mais de 50%, mas o custo de instalação é muito maior.
Dowagiac, uma cidade de 5.700 habitantes, possuía uma lei geral sobre ruídos, como muitas comunidades, mas recentemente estabeleceu limites de decibéis para o ruído ambiente em zonas residenciais, comerciais e industriais.
A maioria das comunidades define seus padrões utilizando a escala de decibéis ponderada em A, projetada para imitar a audição humana em ambientes silenciosos e que reduz significativamente — ou ignora — sons de baixa frequência emitidos pelos data centers, segundo especialistas.
Já a escala ponderada em C foi criada para captar ruídos de baixa frequência.
Essa distinção é especialmente importante ao medir o ruído de data centers, dominado por zumbidos de baixa frequência produzidos por enormes ventiladores de equipamentos de refrigeração, explicou Neitzel.
Como consequência, afirmou Blomberg, uma fonte sonora que claramente domina a percepção auditiva de uma pessoa pode não ser registrada como um problema em um medidor de decibéis convencional.
O CEO da Hyperscale Data, empresa controladora da Alliance, afirmou que suas operações estão dentro dos limites de decibéis permitidos pela cidade e que utilizam sistemas que minimizam o consumo de energia.
O executivo, William B. Horne, disse que participaria de uma reunião do conselho municipal para conversar com os moradores e ressaltou seu compromisso em ser um parceiro confiável.
— Ofereceríamos comprar essas propriedades pelo valor de mercado e fornecer um subsídio para ajudar a cobrir os custos da mudança — afirmou, referindo-se aos residentes que vivem ao lado do centro de dados.
O cerne do problema, segundo Neitzel, é que muitas fontes tradicionais de ruído comunitário — como aeroportos e rodovias — tendem a diminuir de intensidade durante a noite.
Não é o caso dos data centers. Em Lowell, Diana Streete afirmou que o ruído “interfere regularmente na capacidade da minha família de dormir, descansar, relaxar e aproveitar confortavelmente nossa casa”.
— Os quartos dos meus filhos ficam voltados para a área de entrada, onde circulam caminhões e ocorrem atividades da instalação, o que torna o ruído especialmente perturbador — disse.
Lowell, uma cidade de 115 mil habitantes, foi fundada como um polo têxtil no século XIX, mas suas fábricas fecharam no início do século XX. O local onde hoje funciona o data center abrigou anteriormente a Lowell Bleachery and Dye Works e, posteriormente, durante seis décadas, a fábrica da Prince Spaghetti.
O data center, com cerca de 32,5 mil metros quadrados, fica ao lado de residências e instalações recreativas, incluindo um parque e um campo de beisebol.
Sua proprietária, a Markley, afirmou que o complexo sustenta a infraestrutura digital de órgãos de segurança pública, universidades, hospitais locais e outras instituições regionais.
Trata-se de um data center de colocalização, uma instalação compartilhada onde várias empresas alugam espaço para abrigar seus equipamentos computacionais. Isso é diferente dos data centers de hiperescala, construídos para atender às necessidades de grandes empresas globais de tecnologia.
Um porta-voz da Markley afirmou que os geradores são testados semanalmente e que o som produzido permanece dentro dos limites estabelecidos.
Hamilton observou que existe uma ampla variedade de sons e, igualmente ampla, é a forma como as pessoas os percebem. Segundo ele, os padrões atuais são desenvolvidos para a pessoa comum.
— Mas, quando você trabalha tempo suficiente nessa área, acaba encontrando — ou experimentando — pessoas ultrassensíveis — disse Hamilton. — Essas pessoas realmente percebem sons, vibrações e intensidades que o ser humano médio considera irrelevantes e pensa: "Isso não é um problema, não sei do que você está falando". Mas elas são genuinamente atormentadas por isso.
Mas a sensação é a de uma pulsação vibrante e rítmica de um subwoofer (tipo de alto-falante) vindo de uma festa que nunca termina. Sim, a nuvem tem um som, e algumas das pessoas que vivem mais perto dos data centers que emitem esse ruído chegaram ao limite de sua paciência tentando bloqueá-lo.
Mês passado, moradores de três pequenas cidades entraram com processos contra data centers especificamente por causa do barulho.
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Os Estados Unidos possuem mais de 3 mil data centers em operação e outros 1.500 em desenvolvimento, segundo uma análise do Centro de Pesquisas Pew. Eles têm sido a espinha dorsal da economia da informação por décadas, operando em grande parte nos bastidores da vida cotidiana.
As demandas da inteligência artificial(IA), de quantidades muito maiores de poder computacional e infraestrutura de refrigeração, provocaram uma explosão na construção de novos data centers.
Hoje, quase 40% das residências estão localizadas a menos de 8 quilômetros de pelo menos um centro de dados em funcionamento, segundo o Pew, e cada vez mais deles estão se aproximando das áreas residenciais.
O zumbido dos sistemas de refrigeração, o ronco dos geradores e o ruído das ventoinhas podem ser ouvidos — e sentidos — a centenas de metros de distância e até meso a mais de um quilômetro.
— A pegada acústica é simplesmente diferente em ordens de magnitude —disse Les Blomberg, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Noise Pollution Clearinghouse.
Parte desse ruído consiste em infrassom, ondas sonoras de frequência extremamente baixa que ficam abaixo do limiar da audição humana.
Em vez de ouvirem essas frequências muito baixas, as pessoas as sentem fisicamente com flutuações de pressão, semelhantes à vibração profunda de batidão sacudindo o corpo durante um show, explicou Scott Hamilton, membro da Sociedade Acústica da América e consultor em projetos de centros de dados.
Isso pode fazer com que os indicadores tradicionais de ruído e as soluções para atenuá-lo se mostrem inadequados para atender às necessidades modernas.
Moradores que vivem próximos a fontes de infrassom frequentemente relatam privação crônica de sono e insônia, dores de cabeça, pressão interna nos ouvidos e ansiedade.
Muitas vezes, a legislação não ajuda.
A poluição sonora é regulamentada em nível local por uma complexa rede de leis de zoneamento, originalmente elaboradas para lidar com festas barulhentas, cães latindo ou ruídos de construção, e não com o zumbido industrial constante de um centro de dados funcionando 24 horas por dia.
Também não há muito amparo em nível federal, porque o governo Reagan retirou o financiamento do Escritório de Controle e Redução de Ruído da Agência de Proteção Ambiental (EPA) no início da década de 1980.
Embora existam regulamentações, “não há ninguém na EPA efetivamente encarregado de aplicá-las”, disse Richard Neitzel, professor de ciências da saúde ambiental da Universidade de Michigan.
— Eles usaram esse escritório como exemplo de excesso regulatório, como se o governo não tivesse o direito de me dizer quão barulhento meu cortador de grama pode ser — afirmou.
Agora, os moradores estão tentando preencher essa lacuna regulatória.
Os três processos argumentam que, embora os data centers geralmente cumpram os códigos básicos de zoneamento, o zumbido constante e as vibrações causam desvalorização significativa dos imóveis e a perda do direito ao sossego dos proprietários vizinhos.
Os autores das ações querem indenizações pelos danos e também obrigar as empresas a melhorar as medidas de controle de ruído.
Em Vineland, Nova Jersey, um grupo de proprietários entrou com uma ação na Justiça Federal motivado, em parte, pelo receio de que ainda mais ruído esteja por vir.
— Há um ruído constante de máquinas funcionando, que é mais perceptível à noite quando tentamos dormir — declarou Stefanie Bartiromo, moradora da região, referindo-se às três salas de servidores já em operação, segundo o processo. — Parece um helicóptero que nunca sai do lugar e, às vezes, um caminhão pesado funcionando sem parar.
A ação foi movida contra a DataOne USA, que está expandindo seu campus em Vineland. Quando concluído, o complexo da empresa terá cerca de 241 mil metros quadrados e exigirá 300 megawatts de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de porte médio.
A DataOne afirmou que já adotou medidas para reduzir o ruído e que continuará fazendo isso à medida que a expansão for concluída.
"Continuamos comprometidos com um diálogo construtivo e com o papel de membro valioso e responsável da comunidade a longo prazo", disse um porta-voz da empresa em comunicado.
A companhia afirmou que pretende gerar empregos e impulsionar a economia local. O mesmo argumento econômico foi apresentado pelas outras empresas processadas por causa do ruído, anos depois de terem reaproveitado antigos terrenos industriais em Dowagiac, Michigan, e Lowell, Massachusetts.
Moradores de Dowagiac vinham reclamando de um data center de 30 megawatts instalado em um prédio que anteriormente era usado principalmente para armazenar barcos e veículos recreativos.
A proprietária do data center, Alliance Cloud Services, comprou recentemente mais 50 acres de área florestal, pois planeja ampliar sua capacidade de consumo de energia de 30 para 300 megawatts. Parte dessa área servirá como uma barreira natural contra os impactos do empreendimento, segundo a empresa.
Para combater o ruído, o setor está migrando para sistemas de refrigeração líquida. Em vez de utilizar ventiladores barulhentos para impulsionar o ar, os servidores são submersos em fluidos especiais não condutores ou equipados com placas frias refrigeradas por líquido instaladas sobre os processadores que geram calor.
Isso pode reduzir o ruído de um centro de dados em mais de 50%, mas o custo de instalação é muito maior.
Dowagiac, uma cidade de 5.700 habitantes, possuía uma lei geral sobre ruídos, como muitas comunidades, mas recentemente estabeleceu limites de decibéis para o ruído ambiente em zonas residenciais, comerciais e industriais.
A maioria das comunidades define seus padrões utilizando a escala de decibéis ponderada em A, projetada para imitar a audição humana em ambientes silenciosos e que reduz significativamente — ou ignora — sons de baixa frequência emitidos pelos data centers, segundo especialistas.
Já a escala ponderada em C foi criada para captar ruídos de baixa frequência.
Essa distinção é especialmente importante ao medir o ruído de data centers, dominado por zumbidos de baixa frequência produzidos por enormes ventiladores de equipamentos de refrigeração, explicou Neitzel.
Como consequência, afirmou Blomberg, uma fonte sonora que claramente domina a percepção auditiva de uma pessoa pode não ser registrada como um problema em um medidor de decibéis convencional.
O CEO da Hyperscale Data, empresa controladora da Alliance, afirmou que suas operações estão dentro dos limites de decibéis permitidos pela cidade e que utilizam sistemas que minimizam o consumo de energia.
O executivo, William B. Horne, disse que participaria de uma reunião do conselho municipal para conversar com os moradores e ressaltou seu compromisso em ser um parceiro confiável.
— Ofereceríamos comprar essas propriedades pelo valor de mercado e fornecer um subsídio para ajudar a cobrir os custos da mudança — afirmou, referindo-se aos residentes que vivem ao lado do centro de dados.
O cerne do problema, segundo Neitzel, é que muitas fontes tradicionais de ruído comunitário — como aeroportos e rodovias — tendem a diminuir de intensidade durante a noite.
Não é o caso dos data centers. Em Lowell, Diana Streete afirmou que o ruído “interfere regularmente na capacidade da minha família de dormir, descansar, relaxar e aproveitar confortavelmente nossa casa”.
— Os quartos dos meus filhos ficam voltados para a área de entrada, onde circulam caminhões e ocorrem atividades da instalação, o que torna o ruído especialmente perturbador — disse.
Lowell, uma cidade de 115 mil habitantes, foi fundada como um polo têxtil no século XIX, mas suas fábricas fecharam no início do século XX. O local onde hoje funciona o data center abrigou anteriormente a Lowell Bleachery and Dye Works e, posteriormente, durante seis décadas, a fábrica da Prince Spaghetti.
O data center, com cerca de 32,5 mil metros quadrados, fica ao lado de residências e instalações recreativas, incluindo um parque e um campo de beisebol.
Sua proprietária, a Markley, afirmou que o complexo sustenta a infraestrutura digital de órgãos de segurança pública, universidades, hospitais locais e outras instituições regionais.
Trata-se de um data center de colocalização, uma instalação compartilhada onde várias empresas alugam espaço para abrigar seus equipamentos computacionais. Isso é diferente dos data centers de hiperescala, construídos para atender às necessidades de grandes empresas globais de tecnologia.
Um porta-voz da Markley afirmou que os geradores são testados semanalmente e que o som produzido permanece dentro dos limites estabelecidos.
Hamilton observou que existe uma ampla variedade de sons e, igualmente ampla, é a forma como as pessoas os percebem. Segundo ele, os padrões atuais são desenvolvidos para a pessoa comum.
— Mas, quando você trabalha tempo suficiente nessa área, acaba encontrando — ou experimentando — pessoas ultrassensíveis — disse Hamilton. — Essas pessoas realmente percebem sons, vibrações e intensidades que o ser humano médio considera irrelevantes e pensa: "Isso não é um problema, não sei do que você está falando". Mas elas são genuinamente atormentadas por isso.
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