terça-feira, 5 de maio de 2026
Derrota no Senado serve para tirar Lula da zona de conforto
Nesse filme, é difícil achar o mocinho. Lula indicou um amigo fiel para o Supremo. Davi Alcolumbre o sabotou porque queria colocar um amigo fiel no Supremo. A direita ajudou a derrubar Jorge Messias porque sonha em conquistar o Senado e povoá-lo de amigos fiéis, derrubando alguns ministros de reputação duvidosa.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme. Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos, concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda. O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.
Muitos analistas consideram histórica a rejeição de Messias. De certa forma, acho um exagero. Não é histórica como a cena em que Dom Pedro parou no riacho Ipiranga ou a carta de Getúlio Vargas, deixando a vida para entrar na História. É verdade que algo assim aconteceu antes, há 132 anos, no tempo de Floriano Peixoto. É mais um fato de almanaque.
Na verdade, não posso dizer que tenha se passado um filme. Não fui testemunha. Mas, analisando o relato de quem fala com os envolvidos, concluo que poderia ser uma série intitulada “Fugindo da polícia”, algo que sempre rende muitos capítulos. Agora mesmo, veio a público que senadores e deputados desembarcaram com malas suspeitas num aeroporto de São Paulo. Não passaram pela alfândega.
O Banco Master, segundo analistas, foi o centro do roteiro que derrubou Messias. Alcolumbre teme as investigações. O Amapá despejou quase R$ 400 milhões nos cofres de Daniel Vorcaro. O presidente da Previdência do estado é indicado por ele. Jornalistas de Brasília afirmam também que Alexandre de Moraes participou da emboscada contra Messias. Ele temia que o novo ministro se alinhasse a seu amigo evangélico André Mendonça e, com a graça de Deus, o ferrassem quando seu caso fosse a julgamento.
O papel da direita nessa história foi embarcar na rejeição e não falar mais em CPMI do caso Master. Todos se sentem mais seguros, mas não deveriam. A Polícia Federal está investigando. Suas mesas estão cheias de celulares, como nas fotos de apreensão de telefones roubados no carnaval.
Alguns analistas disseram que o governo acabou e que Lula perderá as eleições. São conclusões apressadas, com apenas uma utilidade: tirar Lula da zona de conforto e trazê-lo para uma das mais importantes campanhas de sua história: a saideira. Para muitos, ícone da redemocratização, cara do Brasil no exterior, maior líder da História recente, Lula pode se empolgar e tentar fazer o melhor governo de toda a sua trajetória.
Afinal de contas, a redemocratização é tarefa de todos, e é preciso lutar para que não se afunde na mediocridade. Se a rejeição de Messias puder inspirar uma virada de jogo, ela, afinal, valeu a pena para as forças no poder.
Talvez essa visão seja um pouco otimista. O Manifesto do PT foi considerado pobre, e a campanha parece que será dirigida pela velha guarda. O próprio Lula precisa superar a húbris que se instala depois de tantos anos no poder, abrindo-se com mais humildade para o Brasil de nossos dias. Enfim, tudo é possível quando se sacode a poeira e se dá a volta por cima.
A liberdade entre o Trumpismo e as Big Techs
Entre as tendências do nosso tempo, sobressai-se, ainda uma vez, a crescente submissão da política aos ditames do autoritarismo embuçado nos ouropéis da liberdade.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.
As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
Aqui cabe ressaltar que as concepções “sub-positivistas” ensinam: narrativas (ideologias?) que proclamam que não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Para desagrado da matilha de cães raivosos que emitem latidos “factuais” e (anti)democráticos, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até mesmo quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Em parceria com Nathan Caixeta, escrevi sobre Michael Foucault. No livro “As Palavras e as Coisas”, Foucault trata da relação entre a linguagem e a estruturação material das sociedades ao longo da história. O filósofo francês distingue as formas de linguagem. A linguagem clássica cuja soberania das palavras e conceitos era vinculada à propriedade natural e divina das coisas reais e visíveis em contraposição à linguagem esculpida por obra do iluminismo, que colocou o homem e seu cogito como soberanos sobre as palavras e as coisas, igualmente reais e visíveis, mas, que a partir da época das luzes foram subordinadas à designação dos desejos e da autonomia do próprio homem.
Entre as narrativas dos autocratas liberais contemporâneos, predominam os consensos que deploram o peso excessivo do Estado e investem contra as tentativas de disciplinar as forças, simultaneamente criadoras e destrutivas, do capitalismo.
A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica que celebra o orçamento equilibrado. Os enriquecidos contestam qualquer interferência no processo de diferenciação entre o poder da riqueza e a renda dos desvalidos.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos mercados afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo em que impõe restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
Aqui deve-se registrar que a ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Estas duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder do Estado e da desvalorização da política, o que culmina em esgares autoritários travestidos de democracia. Entre tais desgraças, sobressai-se a contaminação dos Parlamentos, não só no Brasil, mas também em outros pagos.
No livro “Iluminismo Sombrio”, Arnaud Miranda empreende uma investigação sobre o neoconservadorismo “tecnológico” abrigado na direita nos Estados Unidos. “Por toda parte, nas telas publicitárias, podemos ver retratos gigantescos do Rei da América.
O triunfo vai para os profetas visionários, os Sábios das Luzes Negras, que, por anos e no segredo da internet, prepararam o golpe de Estado que mandou à morte a antiga república corrupta e decadente...
E, ainda assim, esse cenário não é menos inspirado pela visão política de intelectuais muito reais, que emergiram das profundezas da Internet no final dos anos 2000 e que hoje imaginam desempenhar o papel de profetas das Luzes Sombrias...
Alguns desses pensadores, sustentados por alguns milionários da tecnologia californiana, estavam parados até se infiltrarem nos círculos coloridos da Casa Branca e agora estão entre os ideólogos mais influentes ao se infiltrarem nos quadros políticos da primeira potência mundia”.
Nesse pacote do Iluminismo Sombrio está o domínio do Estado pelas Big Techs.
A Inteligência Artificial “libertadora” aprisiona homens e mulheres alcançados pelos terremotos que fazem tremer a vida social submetida às condições políticas e econômicas da sociedade de massas, agora assolada pelos riscos de “desumanização” tecnológica. A pretendida autonomia do indivíduo, nascida no âmago do projeto iluminista, não resistiu aos percalços desatados pelas turbulências da vida social, econômica e política.
Assim, a resposta esperançosa às incertezas do futuro depende crucialmente da capacidade de mobilização democrática e radical dos Deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados pelas fake news desabrochadas nas redes sociais por aparatos comprometidos com a força das BigTechs, agora instaladas nos domínios do Estado americano.
As concepções conservadoras de todos os tempos assombram também nossos tempos. Deixam de examinar o conjunto de relações que estruturam as sociedades capitalistas como uma organização econômica, social e política singular, singular porque histórica. Isso significa que essas relações se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação no interior de sua estrutura. Não há determinismo nem indeterminação: o capitalismo se transforma no processo de reprodução de suas próprias estruturas.
A negação de uma estrutura em movimento, em si mesma, é um método eficaz de bloquear o imaginário social, uma comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas livres de um ponto de vista negativo - no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade - mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa primordialmente o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
EUA, Irão e Ormuz: o limiar de uma rutura global
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos ao Irão não traduz um domínio consolidado do conflito, mas a tentativa de o moldar através da interrupção deliberada da circulação de recursos essenciais. Ao deslocar o confronto do plano militar para uma dimensão estrutural, Washington procura converter dependências em instrumentos de coerção, introduzindo um dispositivo de pressão que, embora eficaz no plano tático, não assegura um desfecho. O que emerge não é um domínio inequívoco, mas um quadro em que a condução do conflito se fragmenta, passando a ser disputada no tempo, no custo e na capacidade de resistência.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares, sem produzir uma alteração decisiva no comportamento iraniano. Este desfasamento entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal profundo sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desta natureza dependem da capacidade de gerar efeitos concretos num horizonte politicamente aceitável; quando isso falha, a eficácia degrada-se não por insuficiência de intensidade, mas por acumulação de tempo.
A economia internacional absorve, entretanto, os efeitos desta dinâmica de forma desigual, mas persistente. Assente numa rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se esgota no alvo direto, propagando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida dirigida e passa a atuar como mecanismo de reconfiguração indireta do quadro global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos num ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar condição permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão num ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação no seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço numa variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, porque a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade partilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irão revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerão adota uma lógica de perturbação deliberada que não procura vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e ao manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência num instrumento ativo de influência.
O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados dispõe de incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Este equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a prolongar-se e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não se dissipa de forma abrupta; é progressivamente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões económicas e políticas, moldando comportamentos de forma gradual, mas consistente.
Mais do que um episódio isolado, este cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera através de pontos específicos cuja interrupção tem efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e tornam-se alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo que eleva o risco sistémico associado à sua utilização.
Perante esta realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Estados dependentes de energia procuram diversificar origens, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas em função da sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a estruturar-se em circuitos paralelos, mais resilientes em alguns aspetos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que ultrapassa a sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de atuar, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que o custo se acumula sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade começa a ser medida pela relação entre meios mobilizados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irão, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite manter esse equilíbrio, operando numa zona intermédia onde o confronto não se resolve, mas também não se transforma em guerra aberta. Neste enquadramento, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo não reside, portanto, na intenção de cada actor, mas na dinâmica que esta interação produz. Ao normalizar o recurso a bloqueios prolongados e à instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação deste tipo de abordagem noutros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por confrontos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
O bloqueio ao Irão deve, por isso, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a manifestar-se na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna a sua gestão mais exigente e os seus efeitos mais difíceis de conter.
Num contexto desta natureza, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade dos seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão não marca já o início de uma transformação silenciosa, mas estrutural, da própria ordem internacional.
Essa limitação torna-se mais evidente à medida que o impasse se prolonga. Apesar da superioridade material americana, o bloqueio já implicou custos que ascendem a dezenas de milhares de milhões de dólares, sem produzir uma alteração decisiva no comportamento iraniano. Este desfasamento entre investimento e resultado não é um detalhe técnico; constitui um sinal profundo sobre os limites de abordagens baseadas em desgaste prolongado. Modelos desta natureza dependem da capacidade de gerar efeitos concretos num horizonte politicamente aceitável; quando isso falha, a eficácia degrada-se não por insuficiência de intensidade, mas por acumulação de tempo.
A economia internacional absorve, entretanto, os efeitos desta dinâmica de forma desigual, mas persistente. Assente numa rede de fluxos interdependentes — energia, bens e financiamento —, exige um mínimo de previsibilidade para funcionar. A interrupção deliberada de um desses fluxos não se esgota no alvo direto, propagando-se por mercados, cadeias logísticas e decisões estatais. O bloqueio deixa, assim, de ser apenas uma medida dirigida e passa a atuar como mecanismo de reconfiguração indireta do quadro global, obrigando múltiplos atores a recalibrar riscos num ambiente em que a incerteza deixa de ser episódica para se tornar condição permanente.
O estreito de Ormuz condensa essa tensão num ponto crítico. Como corredor central da circulação energética mundial, qualquer perturbação no seu funcionamento produz efeitos imediatos e amplificados. Ao transformar esse espaço numa variável ativa, os Estados Unidos introduzem um fator de instabilidade que não controlam plenamente, porque a própria lógica de um ponto de estrangulamento implica vulnerabilidade partilhada. A tentativa de limitar o fluxo expõe, assim, um paradoxo inevitável: quanto mais se restringe a circulação, mais se evidencia a fragilidade do modelo que a sustenta.
É nesse contexto que a resposta do Irão revela uma eficácia menos evidente, mas decisiva. Incapaz de rivalizar diretamente com o poder militar americano, Teerão adota uma lógica de perturbação deliberada que não procura vencer, mas impedir que o adversário alcance um resultado conclusivo. Ao introduzir incerteza nas rotas marítimas e ao manter a possibilidade de incidentes controlados, desloca o confronto para um plano em que o tempo e o desgaste assumem centralidade. Trata-se de uma abordagem que não exige superioridade, apenas continuidade, convertendo a resistência num instrumento ativo de influência.
O resultado é um impasse estrutural que escapa às categorias clássicas de vitória ou derrota. Nenhum dos lados dispõe de incentivos suficientes para recuar, mas ambos enfrentam custos crescentes para avançar. Este equilíbrio negativo, sustentado pela ausência de desfecho, tende a prolongar-se e a produzir efeitos cumulativos que ultrapassam o teatro imediato do confronto. A estabilidade não se dissipa de forma abrupta; é progressivamente substituída por uma tensão persistente que se infiltra nas decisões económicas e políticas, moldando comportamentos de forma gradual, mas consistente.
Mais do que um episódio isolado, este cenário expõe uma fragilidade central da ordem internacional contemporânea: a dependência de infraestruturas críticas concentradas. A economia global opera através de pontos específicos cuja interrupção tem efeitos desproporcionais. Quando esses pontos passam a ser utilizados como instrumentos de coerção, deixam de ser meros elementos técnicos e tornam-se alavancas de poder. Essa transformação amplia o alcance das formas indiretas de influência, ao mesmo tempo que eleva o risco sistémico associado à sua utilização.
Perante esta realidade, a resposta dos demais atores internacionais assume uma natureza essencialmente adaptativa. Estados dependentes de energia procuram diversificar origens, empresas reconfiguram cadeias de abastecimento e alianças são reavaliadas em função da sua utilidade concreta. O resultado não é uma reorganização coordenada, mas um processo de fragmentação progressiva, no qual o sistema deixa de evoluir de forma integrada e passa a estruturar-se em circuitos paralelos, mais resilientes em alguns aspetos, mas globalmente mais complexos e menos previsíveis.
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a continuidade do bloqueio levanta uma questão que ultrapassa a sua eficácia imediata. A projeção de poder depende não apenas da capacidade de atuar, mas da capacidade de produzir resultados tangíveis. À medida que o custo se acumula sem um desfecho claro, o risco desloca-se do plano externo para o interno, onde a credibilidade começa a ser medida pela relação entre meios mobilizados e efeitos alcançados. Um instrumento que não entrega resultados deixa de ser apenas insuficiente; torna-se potencialmente contraproducente.
Para o Irão, a equação é distinta, mas igualmente exigente. A sobrevivência do regime e a preservação de margem de manobra dependem da capacidade de resistir sem desencadear uma escalada incontrolável. A lógica de perturbação deliberada permite manter esse equilíbrio, operando numa zona intermédia onde o confronto não se resolve, mas também não se transforma em guerra aberta. Neste enquadramento, prolongar o impasse deixa de ser um efeito colateral e passa a constituir um objetivo implícito.
O elemento decisivo não reside, portanto, na intenção de cada actor, mas na dinâmica que esta interação produz. Ao normalizar o recurso a bloqueios prolongados e à instrumentalização de pontos críticos, abre-se espaço para a replicação deste tipo de abordagem noutros contextos. O cenário que emerge é o de um ambiente internacional marcado não por confrontos isolados, mas por uma multiplicidade de tensões interligadas, capazes de gerar instabilidade difusa sem necessidade de confronto direto.
O bloqueio ao Irão deve, por isso, ser entendido como um sinal de transformação mais profunda. O poder deixa de se afirmar apenas pela capacidade de destruição e passa a manifestar-se na capacidade de interromper, condicionar e reorganizar fluxos essenciais. Essa mudança não elimina o conflito tradicional, mas acrescenta uma camada de complexidade que torna a sua gestão mais exigente e os seus efeitos mais difíceis de conter.
Num contexto desta natureza, a questão deixa de ser quem exerce poder e passa a ser se um mundo dependente da continuidade dos seus fluxos consegue permanecer estável quando essa própria dinâmica é convertida em instrumento de disrupção — e até que ponto essa inversão não marca já o início de uma transformação silenciosa, mas estrutural, da própria ordem internacional.
O infausto Fausto
Qualquer pessoal que pense em dar lição de política ao Presidente Lula precisa, com urgência, lembrar que ele é o político — mais, o estadista — mais vitorioso da História do Brasil. Para começar, o fantástico caminho que fez de operário a Presidente da República é, por si só, um fato excepcional sob qualquer ponto de vista. Comparável a ele, só o de Abraham Lincoln, que pode dizer, com honestidade, que “I used to be a slave” — “eu costumava ser um escravo”.
Isso não impede que, nessas extraordinárias circunstâncias pós-golpe, em meio à mais grave crise de degradação da atividade política que já passamos, e lembrem que maus momentos é que não faltam nesse caminho, o seu governo tenha cometido erros. O primeiro deles foi o de ter feito, durante a transição, um “acerto” de governabilidade que permitiu a sucessão das casas do Congresso se fazer com pessoas que reivindicavam o duplo apoio dos golpistas e dos democratas. Somos todos pela conciliação, como foram os grandes símbolos da democracia — José Bonifácio e Joaquim Nabuco, Jefferson e Lincoln —, mas, como eles, devíamos saber que há um limite para ela: com o Diabo não se faz pacto, ensina Fausto, pois na hora de entregar a alma já se entregou tudo.
Estava em pleno andamento a tentativa de golpe — já, no dia 12 de dezembro, em plena negociação entre o governo golpista e o governo eleito, a arruaça havia tomado conta do centro de Brasília — quando, a 21 de dezembro, foi aprovada a Emenda Constitucional 126, alterando o Ato das Disposições Transitórias — criado para regular as situações de passagem para a nova Constituição, que ele tenha sido emendado múltiplas vezes depois é uma dessas aberrações inexplicáveis — para autorizar o aumento de 145 bilhões no orçamento que viabilizava a continuidade do bolsa-família. Para isso o governo eleito deu apoio à reeleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, uomini d’onore, como era e continuou notório nas suas inúmeras conspirações com os golpistas.
É claro que os dois juram que nada tinham com o golpe. Se nenhum dos dois tinha tentado deflagrar o impeachment de Bolsonaro era porque porque… inventa uma desculpa aí. É verdade que uma meia dúzia dos mais de 150 pedidos apresentados foi arquivada por erro material, mas os outros… bem, estavam sob análise. Descartando os improvisados e injustificados que enchem os arquivos do Congresso, no caso do golpista suas agressões à Constituição, às leis e à humanidade eram ostensivas e a responsabilidade dos dois presidentes estava em jogo. Jogaram com não fazer nada e foram premiados com um acordo para serem reeleitos e continuar conspirando com a organização criminosa golpista. Ao fim dos seus mandados, os dois negociaram com o governo o apoio a dois outros homens de honra, um que já mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana — e outro que ainda não mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana. Espantar-se com qualquer avacalhação da moral e dos bons costumes — e das leis e da Constituição — por parte de David Alcolumbre e Hugo Motta é impossível.
Mas o que fazer se a maioria do Congresso está com eles e só com eles? Eu diria que, se os congressistas estão com eles, é porque eles lhes enchem os bolsos de emendas e arreglos pagos pelo governo. É um pouco tarde para isto, mas há várias cadernetinhas com anotações dos problemas de Fulano, Beltrano e Sicrano. Mostrar que “problemas” são esses é um bom serviço feito ao povo brasileiro.
É claro que possivelmente será difícil para o governo aprovar qualquer coisa. Mas, se der uma de avestruz, acham que será fácil?
A armadilha em que o governo caiu implica numa saída difícil. O essencial é ganhar a eleição — a alternativa é aceitar o golpe de Estado e a ditadura —, mas ninguém se iluda de que ganhar a eleição passa por benesses ratificadas pelo Congresso Nacional. O povo é que tem que saber que há coisas que se pretende fazer e o Congresso ou está rejeitando ou está segurando para não aprovar. O governo — e muito menos o Presidente Lula — não perdeu de todo a capacidade de se comunicar com o povo. Que se comunique. Que o povo saiba quem está com a justiça social e quem está com seus negócios particulares. Que o povo saiba quais são as alternativas.
Isso passa também pelo sistema de Justiça. A organização criminosa golpista não foi completamente desarticulada. Inúmeros parlamentares que ostensivamente fazem parte dela — como foi mostrado na ocupação criminosa das mesas das duas casas do Congresso — não foram processados. Há jornais e jornalistas conspirando a olhos vistos protegidos por um equívoco do que é liberdade de expressão. Há banqueiros, bancários e facções na trama. O chefe da orcrim não está no regime disciplinar diferenciado previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, mas se comunica por meio de seu porta voz, pré-candidato a Presidente da República, que já declarou que é necessário fechar o Supremo Tribunal Federal. Ah!, mas isso é para criminosos perigosos! Mais perigoso que tentar acabar com a democracia? Que continuar tentando acabar com a democracia? Que propor entregar a soberania nacional em troca de apoio para acabar com a democracia? Vamos e venhamos!
Será que os delegados da Polícia Federal conhecem os art. 286 (incitar, publicamente, a prática de crime) e 287 (fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime) do Código Penal? Pois o mais que tenho visto e ouvido é gente cometendo um ou outro desses crimes — ou, claro, os dois quase simultaneamente. Ah!, isso vale para crime como roubar, matar, ser comunista, não vale para atentar contra a democracia. Vamos e venhamos!
Isso não impede que, nessas extraordinárias circunstâncias pós-golpe, em meio à mais grave crise de degradação da atividade política que já passamos, e lembrem que maus momentos é que não faltam nesse caminho, o seu governo tenha cometido erros. O primeiro deles foi o de ter feito, durante a transição, um “acerto” de governabilidade que permitiu a sucessão das casas do Congresso se fazer com pessoas que reivindicavam o duplo apoio dos golpistas e dos democratas. Somos todos pela conciliação, como foram os grandes símbolos da democracia — José Bonifácio e Joaquim Nabuco, Jefferson e Lincoln —, mas, como eles, devíamos saber que há um limite para ela: com o Diabo não se faz pacto, ensina Fausto, pois na hora de entregar a alma já se entregou tudo.
Estava em pleno andamento a tentativa de golpe — já, no dia 12 de dezembro, em plena negociação entre o governo golpista e o governo eleito, a arruaça havia tomado conta do centro de Brasília — quando, a 21 de dezembro, foi aprovada a Emenda Constitucional 126, alterando o Ato das Disposições Transitórias — criado para regular as situações de passagem para a nova Constituição, que ele tenha sido emendado múltiplas vezes depois é uma dessas aberrações inexplicáveis — para autorizar o aumento de 145 bilhões no orçamento que viabilizava a continuidade do bolsa-família. Para isso o governo eleito deu apoio à reeleição de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, uomini d’onore, como era e continuou notório nas suas inúmeras conspirações com os golpistas.
É claro que os dois juram que nada tinham com o golpe. Se nenhum dos dois tinha tentado deflagrar o impeachment de Bolsonaro era porque porque… inventa uma desculpa aí. É verdade que uma meia dúzia dos mais de 150 pedidos apresentados foi arquivada por erro material, mas os outros… bem, estavam sob análise. Descartando os improvisados e injustificados que enchem os arquivos do Congresso, no caso do golpista suas agressões à Constituição, às leis e à humanidade eram ostensivas e a responsabilidade dos dois presidentes estava em jogo. Jogaram com não fazer nada e foram premiados com um acordo para serem reeleitos e continuar conspirando com a organização criminosa golpista. Ao fim dos seus mandados, os dois negociaram com o governo o apoio a dois outros homens de honra, um que já mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana — e outro que ainda não mostrara ao que vinha — encher os bolsos de grana. Espantar-se com qualquer avacalhação da moral e dos bons costumes — e das leis e da Constituição — por parte de David Alcolumbre e Hugo Motta é impossível.
Mas o que fazer se a maioria do Congresso está com eles e só com eles? Eu diria que, se os congressistas estão com eles, é porque eles lhes enchem os bolsos de emendas e arreglos pagos pelo governo. É um pouco tarde para isto, mas há várias cadernetinhas com anotações dos problemas de Fulano, Beltrano e Sicrano. Mostrar que “problemas” são esses é um bom serviço feito ao povo brasileiro.
É claro que possivelmente será difícil para o governo aprovar qualquer coisa. Mas, se der uma de avestruz, acham que será fácil?
A armadilha em que o governo caiu implica numa saída difícil. O essencial é ganhar a eleição — a alternativa é aceitar o golpe de Estado e a ditadura —, mas ninguém se iluda de que ganhar a eleição passa por benesses ratificadas pelo Congresso Nacional. O povo é que tem que saber que há coisas que se pretende fazer e o Congresso ou está rejeitando ou está segurando para não aprovar. O governo — e muito menos o Presidente Lula — não perdeu de todo a capacidade de se comunicar com o povo. Que se comunique. Que o povo saiba quem está com a justiça social e quem está com seus negócios particulares. Que o povo saiba quais são as alternativas.
Isso passa também pelo sistema de Justiça. A organização criminosa golpista não foi completamente desarticulada. Inúmeros parlamentares que ostensivamente fazem parte dela — como foi mostrado na ocupação criminosa das mesas das duas casas do Congresso — não foram processados. Há jornais e jornalistas conspirando a olhos vistos protegidos por um equívoco do que é liberdade de expressão. Há banqueiros, bancários e facções na trama. O chefe da orcrim não está no regime disciplinar diferenciado previsto no art. 52 da Lei de Execução Penal, mas se comunica por meio de seu porta voz, pré-candidato a Presidente da República, que já declarou que é necessário fechar o Supremo Tribunal Federal. Ah!, mas isso é para criminosos perigosos! Mais perigoso que tentar acabar com a democracia? Que continuar tentando acabar com a democracia? Que propor entregar a soberania nacional em troca de apoio para acabar com a democracia? Vamos e venhamos!
Será que os delegados da Polícia Federal conhecem os art. 286 (incitar, publicamente, a prática de crime) e 287 (fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime) do Código Penal? Pois o mais que tenho visto e ouvido é gente cometendo um ou outro desses crimes — ou, claro, os dois quase simultaneamente. Ah!, isso vale para crime como roubar, matar, ser comunista, não vale para atentar contra a democracia. Vamos e venhamos!
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