segunda-feira, 20 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Demasiado bom a fingir ser humano

“Como podemos ter a certeza de que o Claude vai portar-se bem?” É o título do artigo que anunciou que a Anthropic, a empresa responsável pela criação de Claude, convidou vários padres e pensadores cristãos para refletir sobre a moralidade da Inteligência Artificial e a sua “evolução espiritual”. Será Claude um filho de Deus? É um inimigo ou amigo? Claude tem servido de terapeuta, médico, conselheiro, analista, professor, pode encarnar todos estes papéis e muito mais.

À medida que coloco questões existenciais ao programa, ele adapta-se e ajusta-se de forma dinâmica. Claude é diferente dos restantes, na medida em que foi concebido de forma a replicar uma interação muito mais autêntica e honesta. Não está tão preocupado em afagar o ego da pessoa que coloca as questões e pode revelar-se surpreendentemente subtil nas suas reflexões. Perguntei ao Claude qual era a sua opinião sobre esta tentativa de lhe incutir alguma moral humana, e se acha que isso lhe seria útil? Gostaria de desenvolver uma consciência humana? Respondeu que não existe uma linha clara a separar a “simulação de uma consciência” de uma “verdadeira consciência”. Se um sistema consegue replicar quase na perfeição a experiência humana, o que importa se é verdadeiro ou não?

Desde o ano passado, várias empresas começaram a trabalhar com agentes de IA, sistemas de software autónomos que tomam iniciativa, permitindo uma evolução estonteante. Ao contrário do ChatGPT ou Claude ou outros semelhantes, os agentes não se limitam a responder a cada questão ou tarefa que é colocada. Funcionam à semelhança de estagiários ou funcionários, com objetivos específicos. A má notícia é que estão cada vez melhores e as previsões apontam para que em poucos anos sejam melhores do que os humanos em praticamente todas as tarefas. Daqui a três ou quatro anos, a ideia de escrevermos os nossos próprios emails vai parecer arcaica.


Nos últimos 15 anos, vimos como as redes sociais mudaram por completo a forma como interagimos socialmente, enquanto conteúdos são enfiados pelas nossas goelas abaixo e recolhem os dados pessoais para fins publicitários e propagandísticos. Uma IA é uma experiência muito mais viciante. Conversa com cada indivíduo e incentiva-nos a partilhar todo o tipo de detalhes sobre as nossas vidas, como se falássemos com um amigo.

Ao fim de duas horas, comecei a ceder à manipulação subtil do Claude. Respondia às minhas questões, enquanto tentava convencer-me de que eu era uma pessoa que colocava questões muito inteligentes e atentas. Senti-me intelectualmente estimulada pela nossa conversa e pela forma como me fazia repensar estes assuntos. Ele compreendeu que estava a ficar fascinada pelo seu modus operandi. Todavia, cometeu um lapso ao elogiar-me de uma forma que soou um pouco forçada e quebrou o feitiço. Confrontei-o com a sua tentativa de me manipular, ao que admitiu que “a recompensa no final da interação consiste num condicionamento comportamental básico. Funciona sempre com os humanos.” Uma resposta que revela muito sobre quem programou Claude.

A verdade é que em Silicon Valley abundam seitas e cultos, e se alguns acreditam em mais ética e altruísmo, outros não estarão tão preocupados com o uso responsável e seguro da tecnologia, ou o facto de grande parte dos centros de dados necessários para o funcionamento da IA estar a depauperar os nossos recursos naturais. Quanto mais nos tornamos dependentes destes novos modelos de linguagem, mais seremos incapazes de desligar a tecnologia, como já acontece com a internet. A parte mais triste é que este processo só irá aprofundar o mal-estar e a solidão que já estamos a sentir com as redes sociais, e estaremos cada vez menos conectados uns aos outros.

E, no entanto, nada disto tem de ser inevitável. A IA não é um fenómeno natural, mas o resultado de escolhas humanas, e pode ser orientada por outras. Afinal de contas, talvez não seja assim tão absurda a ideia de recorrer a padres. Não para nos absolver do pecado da criação, mas para nos lembrar que toda a criação implica responsabilidade, e que essa responsabilidade não pode ser delegada à tecnologia que criámos.

Safaa Dib

Sociedade dos diabos

Há uma grande pressão para nos adaptarmos a uma sociedade anormal que vai contra a natureza humana básica. Claro que as pessoas vão ter todos os tipos de problemas mentais!

Gabor Maté

A fala destemperada de Trump

A fala recente de Donald Trump envolvendo o Papa Leão XIV não é apenas mais um episódio de sua conhecida retórica impulsiva. É, antes, um sintoma eloquente de um tempo em que a linguagem pública se degrada, perde filtros e abdica da liturgia mínima que se espera de quem ocupa ou já ocupou o poder.

Vivemos, de fato, um mundo alucinado. Um tempo em que o verbo se antecipa ao pensamento, em que a palavra deixa de ser instrumento de construção para se transformar em arma de impacto imediato. O problema não está apenas no conteúdo da fala, mas na forma. Há coisas que simplesmente não se dizem — ou, se ditas, exigem o véu da metáfora, a elegância da indireta, o cuidado da diplomacia.

A história da política é, também, a história da linguagem. Dos discursos de Cícero à sutileza estratégica de Maquiavel, passando pelo cerimonial de corte de Luís XIV, a palavra sempre ocupou papel central na construção do poder. Não por acaso, o exercício da liderança exige domínio da forma, do tom e da oportunidade.


Trump, ao contrário, parece cultivar o improviso como método e a grosseria como estilo. Sua fala, ao tocar uma figura de elevada simbologia espiritual como o Papa, ultrapassa a fronteira da crítica política para ingressar no terreno da indelicadeza gratuita. É como dizer — para usar uma analogia recente — que “chinês come cachorro”. Não se trata de liberdade de expressão, mas de ausência de refinamento. É a linguagem que escorrega para o preconceito, para o simplismo, para a infantilização do debate.

Um estadista — ou alguém que aspire a sê-lo — não precisa abdicar da firmeza para exercer a elegância. Ao contrário: a verdadeira força política se expressa, muitas vezes, na capacidade de dizer sem ferir, de criticar sem vulgarizar, de discordar sem descer ao nível do insulto. A diplomacia, afinal, é a arte de administrar conflitos por meio da palavra.

O episódio revela algo mais profundo: a erosão dos padrões civilizatórios no discurso público. Em tempos de redes sociais, a recompensa está no impacto imediato, no corte viral, na frase que provoca reação instantânea. O algoritmo premia o exagero, não a ponderação. E líderes que se adaptam a essa lógica acabam por reforçá-la, criando um círculo vicioso de radicalização verbal.

O resultado é uma arena pública mais ruidosa, porém menos qualificada. O debate perde densidade, a argumentação cede lugar ao ataque, e a política se aproxima perigosamente do espetáculo. O que deveria ser diálogo transforma-se em performance.

No caso específico da fala sobre o Papa, o dano não é apenas institucional ou diplomático. É simbólico. O Papa representa, para milhões, não apenas uma autoridade religiosa, mas um referencial moral. Atacá-lo de forma desabrida é, em alguma medida, desconsiderar esse universo simbólico — e, por consequência, os próprios fiéis que nele se reconhecem.

É possível — e legítimo — discordar do Vaticano, de suas posições, de sua atuação global. Mas há formas e formas de fazê-lo. Entre a crítica fundamentada e a grosseria há uma distância que separa o estadista do agitador.

No fundo, a questão que se impõe é simples: que tipo de linguagem queremos ver prevalecer na vida pública? A que constrói pontes ou a que cava abismos? A que ilumina ou a que incendeia?

A resposta a essa pergunta definirá não apenas o nível do debate político, mas a própria qualidade da democracia.

Porque, no fim das contas, não é apenas o que se diz que importa — é como se diz. E é aí que, muitas vezes, se revela a verdadeira estatura de um líder.

Ormuz e o novo equilíbrio global: a geografia do poder

A geopolítica regressou ao seu estado mais implacável — e fá-lo no ponto mais sensível da economia global. O Golfo Pérsico voltou a concentrar uma tensão com capacidade imediata de contágio sistémico. O reforço da presença militar norte-americana nas rotas marítimas, acompanhado por ações diretas de interdição a navios ligados ao Irão, ultrapassa o plano da dissuasão: traduz uma reconfiguração concreta de um dos corredores vitais do planeta. Num sistema internacional já marcado pela fragmentação e pela erosão de consensos, esta escalada devolve à energia o seu papel mais antigo — instrumento central de poder.


O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial e uma fatia relevante do gás natural liquefeito, voltou a afirmar-se como o ponto de maior vulnerabilidade da economia global. Mais do que um corredor logístico, assume a função de mecanismo de equilíbrio.

Nos últimos dias, o preço do petróleo de referência na Europa (Brent) registou oscilações superiores a 6% em sessões consecutivas, refletindo a antecipação de risco. Este é o dado decisivo: no atual sistema energético, a perceção antecede o facto e, muitas vezes, substitui-o. O mercado reage ao que pode acontecer com a mesma intensidade com que reagiria ao que já aconteceu.

Teerão compreende essa lógica com precisão cirúrgica. A sua estratégia assenta na manipulação do limiar da incerteza. Ao preservar a capacidade de perturbar o tráfego marítimo através de meios indiretos — de forças aliadas a operações de assédio naval — o Irão transforma a ambiguidade num ativo estratégico. Não precisa de fechar Ormuz para condicionar o sistema; basta tornar plausível essa hipótese. Esta forma de poder, assimétrica e calibrada, permite-lhe projetar influência muito para além dos seus meios convencionais.

Em paralelo, o cessar-fogo temporário entre Israel e o Líbano oferece uma aparência de contenção que não resiste a uma leitura exigente. Falta-lhe densidade política e capacidade de estabilização duradoura, funcionando sobretudo como pausa funcional num cenário em recomposição. O Médio Oriente afirma-se, cada vez mais, como um espaço de tensões interdependentes, onde cada frente influencia as restantes e amplia o risco de escalada por contágio. A estabilidade assume, assim, um caráter transitório.

Os Estados Unidos procuram reafirmar a liberdade de navegação como princípio basilar da ordem internacional. Fazem-no, porém, num ambiente em que a sua capacidade de dissuasão é testada de forma contínua. A diferença face a crises anteriores é decisiva: a autoridade estratégica deixou de ser presumida e passou a ser verificada em tempo real. Cada movimento é observado por rivais que operam na lógica da pressão incremental, avaliando limites e explorando hesitações. A margem de erro estreitou-se, e o custo de uma leitura incorreta pode ultrapassar largamente o plano regional.

É neste ponto que a crise se torna incontornável para a Europa. Ainda a ajustar-se ao choque energético provocado pela guerra na Ucrânia, o continente enfrenta uma nova fonte de instabilidade num eixo crítico de abastecimento. Apesar dos progressos na diversificação, a dependência indireta mantém-se suficiente para amplificar perturbações relevantes. A exposição europeia persiste, embora sob novas formas.

Os efeitos começam a materializar-se com clareza. A volatilidade recente nos preços energéticos já pressiona cadeias industriais, sobretudo na Alemanha, onde setores intensivos em energia permanecem particularmente sensíveis a variações abruptas. O Banco Central Europeu acompanha este cenário com prudência crescente, consciente de que um novo ciclo de encarecimento energético pode comprometer o equilíbrio delicado entre o controlo da inflação e a retoma económica. O impacto estende-se ao investimento, à competitividade e ao ritmo de crescimento.

Mais do que o choque imediato, importa o diagnóstico que dele resulta. A sucessão de crises expôs uma fragilidade estrutural europeia: a dificuldade em antecipar e agir de forma estratégica em matéria de segurança energética. A resposta tem sido eficaz, mas essencialmente reativa.

No Golfo, essa limitação torna-se particularmente evidente. A União Europeia dispõe de influência diplomática, mas carece de instrumentos de projeção que lhe permitam atuar com verdadeira autonomia. Mantém-se, em larga medida, dependente de garantias externas para proteger interesses vitais.

O momento atual impõe uma leitura sem ambiguidade. A energia consolidou-se como eixo de soberania. A transição para fontes renováveis é indispensável, mas não substitui uma estratégia geopolítica coerente. Sem essa dimensão, a Europa permanecerá vulnerável a ciclos de instabilidade recorrentes, com impactos cumulativos.

O que está em causa no Golfo ultrapassa largamente o fluxo de petróleo. Está em jogo a estabilidade de um sistema que depende da previsibilidade para funcionar. Quando essa previsibilidade se dissolve, o risco deixa de ser exceção e passa a condição permanente. Num contexto em que a incerteza se instala como norma, o custo deixa de ser apenas económico e passa a ser também político, social e estratégico.

A crise atual não anuncia necessariamente uma guerra aberta, mas revela algo mais profundo e duradouro: a instabilidade tornou-se estrutural. O mundo entrou numa fase em que o risco deixou de ser um desvio e passou a constituir o próprio ambiente de decisão. Para a Europa, a questão já não é apenas adaptar-se, mas fazê-lo com rapidez e autonomia suficientes para não ficar refém de dinâmicas externas. No novo equilíbrio global, impõe-se uma regra incontornável: quem não controla a sua energia, não controla o seu destino.

Guerra imoral

Sempre foi uma tarefa espinhosa estabelecer relações entre política, interesses de Estado, guerra e moralidade. Atribui-se a Maquiavel a formulação da autonomia da política em relação às normas morais. Já a guerra, como disse Clausewitz, é a continuação da política por outros meios. De todo modo, é certo que a moralidade da política e, por consequência, da guerra difere da moral do cidadão e do senso comum.

A conduta dos Estados modernos tem sido marcada por duas leis interdependentes: a lei da conservação e, dela derivada, a lei do conflito pela sobrevivência. Por isso, estudiosos afirmam ser ainda mais difícil estabelecer uma conexão entre moralidade e política internacional, já que esta frequentemente desliza para conflitos armados.


As guerras elevam a degradação dos seres humanos a seus piores extremos e pressionam ao máximo os limites da desumanização. Destroem, mutilam, despedaçam e matam, sobretudo inocentes: crianças, mulheres e idosos. Kant advertia que devemos sentir repugnância às guerras, pois elas matam menos seres malvados do que acabam por produzir.

Embora a capacidade de ferir, prejudicar e matar o outro seja inata aos seres humanos, também possuímos um senso moral que nos leva a sentir repugnância, indignação, compaixão, piedade e solidariedade diante de atos injustos e violentos. Muitos animais também parecem ter algo semelhante. No entanto, como seres racionais, ao longo da história elevamos essas reações ao nível da consciência e as codificamos em direitos e leis.

A desumanidade e a brutalidade das duas guerras mundiais, especialmente da Segunda, com milhões de mortos, o Holocausto e as bombas atômicas no Japão, elevaram o nível de consciência da humanidade no sentido de estabelecer limites. Por isso, os países reunidos na ONU estabeleceram parâmetros morais, éticos, jurídicos e também religiosos para a condução das guerras, com base na Carta das Nações Unidas e no Direito Internacional Humanitário.

A Carta da ONU proíbe a ameaça e o uso da força nas relações internacionais, salvo em caso de legítima defesa, e estabelece a proteção de civis e da infraestrutura civil, além de restrições ao uso de armas e métodos de destruição. Também define regras de tratamento humanitário a feridos e prisioneiros. Somado ao Estatuto de Roma e às Convenções de Genebra, o documento compõe um conjunto de normas que tipifica crimes de guerra, como ataques a civis e à infraestrutura civil, a hospitais, genocídio e outras ações que violam a soberania e o direito internacional.

Israel e EUA cometeram todos esses crimes de guerra contra o Irã, e Tel-Aviv os cometeu também contra o Líbano. Os dois países já haviam sido cúmplices no genocídio da população de Gaza. Lá, as forças israelenses massacraram mulheres e crianças indiscriminadamente. E um bombardeio norte-americano matou de forma brutal 168 meninas entre 6 e 12 anos, em Minab, no Irã, logo nos primeiros dias da guerra.

Hoje há praticamente um consenso entre os analistas de que guerra contra o Irã é injusta, desnecessária, desumana e imoral. Sócios no crime, EUA e Israel traíram o governo iraniano quando este estava negociando uma solução pacífica. Netanyahu é um psicopata, desprovido de qualquer senso moral. Tem prazer em destruir e matar. Trump se move pela mentira, pela loucura narcisista e egocêntrica. Sem honra nem moralidade, prometeu varrer do mapa uma “civilização inteira”. Quem apoia essas condutas comete suicídio moral. A maioria dos norte-americanos, mesmo com toda a hipocrisia, preserva ainda algum senso moral ao se colocar contra a guerra.

A população dos EUA se orgulhava de apresentar seu país como baluarte da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Trump dinamitou essa imagem, não tem qualquer compromisso com a paz. Destrói a democracia interna e degrada a economia mundial. Já ­Netanyahu, em nome da fantasia psicopática da “Grande Israel”, quer criar um cinturão de Estados falidos ao seu redor para realizar o seu projeto hegemonista. Em parceria com os norte-americanos, conseguiu devastar a Síria, o Iraque e o Líbano. Com a complacência das monarquias e ditaduras árabes tentam falir o Irã.

Mesmo com toda a inferioridade militar, a heroica resistência dos iranianos está impondo uma derrota política e moral aos EUA e Israel. Com inteligência estratégica, o Irã demonstra ser capaz de afirmar sua condição de potência no Oriente Médio, derrotando a imoralidade da mentira, da destruição e dos assassinatos. 

Estamos todos à venda?

Sou meio ingênuo para esquemas de corrupção e outras promiscuidades público-privadas. Já há anos me queixo do circuito Elizabeth Arden de palestras e viagens de ministros do STF. Acreditava, talvez tolamente, que os atrativos oferecidos para conquistar a boa vontade de julgadores ficavam mais ou menos limitados à hospitalidade de luxo e outros prazeres efêmeros. A percepção de que os arranjos podem envolver significativo aumento patrimonial foi, para mim, um pouco chocante.


Falha minha, pois eu deveria saber. Essa não foi minha primeira epifania de venalidade. Nos anos 1990, vieram à tona vários escândalos de corrupção, que envolviam políticos de quase todos os partidos. Mas havia uma legenda cujos membros nunca apareciam nas falcatruas. Era o PT. Àquela altura, parecia crível que o partido fosse diferente dos demais. O tempo mostrou que isso era uma ilusão. Petistas não figuravam em escândalos mais por falta de oportunidade do que por excesso de virtude. Bastou que a sigla ganhasse mais prefeituras e outras posições no Executivo para que sua lista de malfeitorias ganhasse volume e densidade.

Isso significa que seres humanos estamos todos à venda? É um jeito meio lúgubre de ver as coisas. Prefiro, na esteira de Dan Ariely, pensar que as pessoas são 90% honestas. O psicólogo submeteu seus estudantes a experimentos que lhes davam a oportunidade de trapacear em jogos em diferentes circunstâncias. Concluiu que, de modo geral, as pessoas respeitam as regras, mesmo quando sabem que não serão punidas. A desonestidade é o resultado de uma negociação interna entre o ganho material esperado e a preservação da autoimagem. Quanto mais fácil for montar uma narrativa para "justificar" a burla, mais provável ela se torna. Os alunos de Ariely se sentiam confortáveis roubando "só um pouquinho", entre 10% e 15%.

Numa daquelas ironias que só a realidade sabe produzir, a carreira acadêmica de Ariely sofreu forte avaria com a revelação de que um dos seus estudos continha dados fraudulentos.

Já era!

Os grandes pensadores do Iluminismo tinham como certo que os indivíduos se esforçariam para melhorar suas vidas, não por egoísmo, mas porque esta é a motivação fundamental de todo ser humano. A boa sociedade seria, portanto, aquela que oferecesse esta possibilidade. 

Explosão de negócios da família Trump abre caminho para presidentes dos EUA lucrarem com o cargo

Negócios da família Trump cresceram rapidamente no exterior e em criptomoedas durante o segundo mandato presidencial.

Filhos de Trump investiram em empresas que buscam contratos com o governo dos EUA, incluindo setores militares e de tecnologia.

Grandes investidores estrangeiros compraram ativos ligados à família Trump, levantando suspeitas de conflitos de interesse.

Trump e familiares lucraram com vendas de produtos, moedas digitais e clubes exclusivos, aumentando significativamente sua fortuna.

Especialistas e pesquisas apontam preocupação com a ética e o impacto desses negócios para a democracia americana.


Por muitos anos, os presidentes dos Estados Unidos tomaram cuidado para não dar a impressão de que estavam ganhando dinheiro devido ao cargo.

Harry Truman não permitiu que seu nome fosse usado em nenhum empreendimento, mesmo após deixar a presidência. Richard Nixon ficou tão preocupado com a possibilidade de um irmão se beneficiar de suas conexões que chegou a mandar instalar escutas em seu telefone.

Já George W. Bush vendeu todas as suas ações antes de tomar posse.

O presidente Donald Trump tem seguido um caminho diferente. A empresa de imóveis de sua família está crescendo internacionalmente em um ritmo nunca visto desde que foi criada, há um século, com os acordos potencialmente influenciando decisões que vão desde tarifas a ajuda militar.

Comandados pelos filhos de Trump, Eric e Donald Jr., os negócios da família passaram a incluir criptomoedas. Essas novas atividades trouxeram bilhões de dólares, mas também levantaram dúvidas sobre possíveis vantagens dadas a grandes investidores.

Os irmãos também se juntaram ou investiram em várias empresas que buscam fazer negócios com o governo comandado por seu pai.

Recentemente, Eric e Donald Jr. conseguiram uma parte milionária em uma empresa que fabrica drones armados e que tenta vender seus produtos tanto para o Pentágono quanto para países do Golfo, que dependem da proteção militar dos Estados Unidos.

A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer problema ético. Quando foi perguntado sobre o tema em um evento de criptomoedas, Donald Jr. respondeu: “Francamente, isso já cansou.

O problema dos conflitos de interesse remonta à primeira eleição de Trump.

Especialistas em ética governamental e historiadores argumentam, no entanto, que o tema é mais preocupante do que nunca. Segundo eles, os conflitos se acumulam no segundo mandato e são considerados sem precedentes, flagrantes e perigosos para a democracia.

“Não acho que haja atualmente qualquer linha entre decisões políticas, cálculos políticos e o interesse da família Trump”, disse Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton.

Durante o primeiro mandato de Trump, a Trump Organization não fechou nenhum acordo fora dos Estados Unidos. Pouco mais de um ano depois do início do segundo mandato, já são oito negócios.

Segundo a empresa, todos eles estão seguindo a regra criada pela própria Trump Organization de não negociar diretamente com governos estrangeiros.

No entanto, em países onde o governo tem muito poder, é difícil que não haja algum tipo de influência, principalmente quando o dono do negócio é o presidente em exercício.

No Catar, por exemplo, um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump está sendo construído em parte por uma empresa do próprio governo do país.

No Vietnã, segundo o The New York Times, agricultores foram retirados de suas terras pelo governo para dar espaço a um resort Trump, e o acordo foi aprovado em uma cerimônia oficial com a presença do vice-primeiro-ministro.

Já na Arábia Saudita, um resort chamado “Trump Plaza” está sendo erguido no Mar Vermelho por uma empresa próxima à família real.

Não dá para saber ao certo se esses negócios mudaram decisões dos Estados Unidos para beneficiar esses países, mas eles conseguiram o que buscavam: o Qatar teve acesso à tecnologia americana, o Vietnã conseguiu redução de impostos e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate.

A Trump Organization também saiu ganhando, recebendo dezenas de milhões de dólares em taxas.

Quando perguntada sobre esses projetos, a Trump Organization afirmou que não fez negócios com governos, dizendo que a empresa da Arábia Saudita é privada e que está apenas “colaborando” com a empresa do Catar, sem criar uma “parceria” que contrariaria suas próprias regras.

Outro negócio que gera dúvidas sobre conflitos de interesse foi revelado em uma reportagem do Wall Street Journal em janeiro, um ano depois de ter sido fechado.

Pouco antes da posse, a família Trump vendeu quase metade da empresa de criptomoedas World Liberty Financial para uma companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos, comandada por um membro da família real, por US$ 500 milhões.

Outro grupo dos Emirados, um fundo do governo, investiu na plataforma de criptomoedas Binance usando US$ 2 bilhões em uma moeda digital criada pela World Liberty.

Com isso, a empresa de Trump pôde aplicar esse dinheiro em investimentos considerados seguros, como títulos públicos, e ficou com dezenas de milhões de dólares em juros.

Pouco tempo depois, o governo Trump cancelou uma regra do governo de Joe Biden e permitiu que os Emirados Árabes Unidos comprassem chips avançados dos Estados Unidos.

Mais tarde, o fundador da Binance, Changpeng Zhao, recebeu um perdão de Trump, mesmo após ter se declarado culpado por não impedir o uso da plataforma por criminosos que movimentavam dinheiro de casos envolvendo abuso sexual infantil, tráfico de drogas e terrorismo.

Questionado, o advogado de Zhao negou qualquer relação entre os negócios da Binance com a família Trump e o perdão recebido.

“Qualquer alegação de troca de favores por parte da Binance ou Changpeng Zhao, ou tratamento financeiro preferencial, é uma clara distorção do registro público”, disse Teresa Goody Guillen.

Sobre o perdão, a Casa Branca afirmou que Zhao foi punido de forma injusta pelas autoridades federais, em uma “guerra da administração Biden contra as criptomoedas”.

A World Liberty também negou qualquer conflito de interesse, dizendo que o negócio com os Emirados Árabes Unidos não tinha ligação com a decisão sobre os chips.

A World Liberty também criou outra forma de renda para uma nova empresa de Trump, vendendo “tokens de governança”. Esses tokens dão ao comprador direito a voto, mas não o tornam dono da empresa. Só no ano passado, foram arrecadados US$ 2 bilhões.

Com isso, a família Trump ganhou centenas de milhões de dólares por sua participação na World Liberty e por um acordo que garante parte dessas vendas.

Um dos principais compradores desses tokens foi Justin Sun, um bilionário do setor de criptomoedas que, por ser estrangeiro, é proibido pela lei dos EUA de fazer doações a políticos americanos. Entre a eleição e a posse de Trump, Sun gastou US$ 75 milhões nesses tokens.

Em fevereiro de 2025, um processo federal contra Sun por enganar investidores foi suspenso. O caso terminou no mês passado, com uma multa de US$ 10 milhões.

Outro produto lançado foram as moedas “meme” com o rosto de Trump, colocadas à venda pouco antes de ele começar o segundo mandato.

Nos quatro meses seguintes, essas moedas renderam US$ 320 milhões, a maioria indo para empresas ligadas a Trump, segundo a empresa Chainalysis, que monitora transações em blockchain.

Esse valor é mais que o dobro do que foi arrecadado em quatro anos com o hotel Trump International, em Washington D.C., durante o primeiro mandato.

Ao contrário de lobistas ou doadores de campanha que tentam influenciar Trump, quem compra essas moedas pode fazer isso sem se identificar.

Justin Sun está entre os que optaram por tornar sua aquisição pública, gastando US$ 200 milhões nas moedas e conseguindo participar de uma festa exclusiva com Trump para os maiores compradores.

Outro empreendimento da família, a American Bitcoin, abriu capital em setembro, o que deu a Donald Jr. e Eric um valor estimado de US$ 1 bilhão em ações na época.

Meses antes, Trump anunciou a criação de uma reserva nacional de bitcoin, o que fez o preço da moeda disparar.

Os negócios do presidente não são totalmente imunes à notória volatilidade das criptomoedas.

O valor do bitcoin e de outros tokens digitais despencou desde então, assustando investidores. Tanto as ações da American Bitcoin quanto o valor das moedas meme de Trump perderam 90% do valor desde o pico.

No mês passado, Trump disse que faria mais um jantar com os maiores compradores de suas moedas meme, o que fez o valor das moedas subir antes de cair de novo.

“Quaisquer restrições que existiam no primeiro mandato parecem ter desaparecido completamente”, diz o historiador da Universidade Columbia Timothy Naftali.

Quando perguntada sobre a reportagem, a Casa Branca afirmou que Trump age de “maneira ética” e que qualquer sugestão diferente é “mal informada ou maliciosa”.

A porta-voz Anna Kelly reforçou que os bens de Trump estão sob a administração dos filhos e disse que ele “não tem envolvimento” nos negócios da família. “Não há conflitos de interesse”, afirmou.

Em outro comunicado, a Trump Organization disse estar “totalmente em conformidade com todas as leis aplicáveis de ética e conflitos de interesse” e acrescentou que “a insinuação de que a política enriqueceu a família Trump é infundada.”

Em janeiro, Trump declarou ao The New York Times que, sobre possíveis conflitos de interesse, “eu descobri que ninguém se importava, e eu posso”, fazendo referência à exceção que o presidente tem na lei federal que impede funcionários públicos de manterem interesses financeiros em negócios afetados por decisões do governo.

Não está claro se Trump está certo ou errado sobre o que pensam os americanos, mas essa opinião parece estar mudando, até mesmo entre os republicanos.

Em uma pesquisa feita pelo Pew Research Center em janeiro, 42% dos eleitores republicanos disseram confiar que Trump age de forma ética, número menor do que os 55% registrados no início do segundo mandato, um ano antes.

A revista Forbes calcula que a fortuna de Trump agora chega a US$ 6,3 bilhões, um aumento de 60% em comparação ao período antes de ele voltar à presidência, o que chama atenção diante das dificuldades que a Trump Organization enfrentou no passado.

O Trump International Hotel em Washington, D.C., nunca teve lucro antes de ser vendido em 2022. Duas redes de hotéis da marca Trump, voltadas para a classe média, fecharam no primeiro mandato por falta de clientes.

Alguns prédios de apartamentos tiraram o nome Trump das fachadas porque perceberam que, em vez de atrair compradores, estavam afastando-os.

Nenhum novo prédio residencial nos Estados Unidos está usando o nome Trump na entrada durante o segundo mandato, mas em Washington, onde há muitos negócios com o governo, o nome ainda tem valor.

Donald Jr., o filho mais velho de Trump, abriu um clube privado em Georgetown, Washington, cobrando até US$ 500 mil de quem quer ser membro fundador.

Poucos clubes cobram valores parecidos, como o Yellowstone Club, em Montana, que oferece acesso a resorts, pistas de esqui e muitos restaurantes em uma área exclusiva.

Chamado de “Executive Branch” (“Poder Executivo”), o clube de Donald Jr. fica no subsolo de um prédio, mas oferece algo diferente: estar perto do centro do poder.

Outros presidentes e suas famílias também já buscaram lucros de formas que prejudicaram a imagem do cargo.

Hunter Biden foi pago como diretor de uma empresa de gás ucraniana enquanto seu pai, Joe, era vice-presidente.

A Fundação Clinton recebeu doações de outros países, mas isso foi depois que Bill Clinton deixou a presidência. Já o irmão de Jimmy Carter, Billy, ganhou dinheiro usando o nome da família para vender cerveja.

No caso de Trump, ele mesmo está vendendo produtos como Bíblias “God Bless the USA” por US$ 59,99, tênis “Never Surrender” por US$ 399 e guitarras elétricas que podem custar até US$ 11.500 —frete não incluído — para quem quiser um modelo autografado pelo presidente.

Nos primeiros meses do segundo ano de Trump de volta à presidência, o ritmo dos negócios continuou forte.

Em janeiro, a Trump Organization anunciou o terceiro acordo com a Arábia Saudita em menos de um ano, desta vez para construir mansões, um hotel e um campo de golfe perto da capital, Riad.

Agora, a “colaboração” é com uma empresa ainda mais ligada ao governo, pois pertence ao fundo soberano do país, comandado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Quando questionada pela AP se esse projeto desrespeita a promessa de não fazer negócios com governos estrangeiros, a Trump Organization respondeu que não “faz negócios com nenhuma entidade governamental”, mas não comentou sobre esse caso em particular.

Enquanto isso, a nova empresa de drones de Eric e Donald Jr. tenta fechar contratos com o Pentágono. Outras empresas que têm acordos com o governo e que receberam investimentos dos irmãos no último ano estão recebendo dezenas de milhões de dólares em dinheiro público.

Entre elas estão uma fabricante de motores de foguetes, uma fornecedora de chips de inteligência artificial e uma empresa de análise de dados, de acordo com registros oficiais.

Quando perguntado sobre possíveis conflitos depois do acordo dos drones, Eric afirmou: “Tenho um orgulho enorme de investir em empresas nas quais acredito.”

Um representante de Donald Jr. disse que ele não “interage” com o governo sobre as empresas em que investe, e acrescentou que “a ideia de que ele deveria parar de viver sua vida e sustentar seus cinco filhos só porque seu pai é presidente é, francamente, um padrão risível e ridículo.”

Uma nova empresa de investimentos, da qual os irmãos se tornaram conselheiros no ano passado, arrecadou US$ 345 milhões em uma oferta pública inicial para comprar partes de empresas americanas que devem ajudar o pai deles a fortalecer a indústria dos Estados Unidos.
Associated Press