Falha minha, pois eu deveria saber. Essa não foi minha primeira epifania de venalidade. Nos anos 1990, vieram à tona vários escândalos de corrupção, que envolviam políticos de quase todos os partidos. Mas havia uma legenda cujos membros nunca apareciam nas falcatruas. Era o PT. Àquela altura, parecia crível que o partido fosse diferente dos demais. O tempo mostrou que isso era uma ilusão. Petistas não figuravam em escândalos mais por falta de oportunidade do que por excesso de virtude. Bastou que a sigla ganhasse mais prefeituras e outras posições no Executivo para que sua lista de malfeitorias ganhasse volume e densidade.
Isso significa que seres humanos estamos todos à venda? É um jeito meio lúgubre de ver as coisas. Prefiro, na esteira de Dan Ariely, pensar que as pessoas são 90% honestas. O psicólogo submeteu seus estudantes a experimentos que lhes davam a oportunidade de trapacear em jogos em diferentes circunstâncias. Concluiu que, de modo geral, as pessoas respeitam as regras, mesmo quando sabem que não serão punidas. A desonestidade é o resultado de uma negociação interna entre o ganho material esperado e a preservação da autoimagem. Quanto mais fácil for montar uma narrativa para "justificar" a burla, mais provável ela se torna. Os alunos de Ariely se sentiam confortáveis roubando "só um pouquinho", entre 10% e 15%.
Numa daquelas ironias que só a realidade sabe produzir, a carreira acadêmica de Ariely sofreu forte avaria com a revelação de que um dos seus estudos continha dados fraudulentos.
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