segunda-feira, 1 de junho de 2026
Gaza e o desgaste moral do Ocidente
Quando ativistas europeus surgiram algemados após a interceção israelita da flotilha humanitária que tentava aproximar-se de Gaza, o impacto político das imagens foi imediato em várias capitais europeias. Não apenas pelo incidente diplomático em si, mas porque aquele episódio expôs, de forma particularmente desconfortável para o Ocidente, uma realidade cada vez mais difícil de ignorar desde o início da guerra: a de que o conflito deixou há muito de ser apenas uma questão regional do Médio Oriente e passou a transformar-se num teste decisivo à credibilidade moral e política das democracias ocidentais.
Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o quotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.
A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se num espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a II Guerra Mundial.
Durante décadas, o poder ocidental não assentou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar os seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito pelo direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.
Existem momentos históricos em que a distância entre os princípios proclamados e a realidade observada se torna demasiado visível para continuar a ser administrada diplomaticamente. Gaza poderá estar a tornar-se exatamente esse momento. A devastação humanitária acumulada ao longo dos últimos meses, o colapso das infraestruturas civis, a dimensão das mortes, as deslocações forçadas e a perceção crescente de punição coletiva começaram a produzir um desgaste político internacional muito superior ao inicialmente previsto pelas principais capitais ocidentais.
A dificuldade tornou-se particularmente delicada porque o conflito expôs uma contradição estrutural profundamente desconfortável para as democracias liberais. Desde o 7 de outubro de 2023, governos europeus e norte-americanos procuraram equilibrar duas realidades politicamente difíceis de conciliar: o reconhecimento do trauma provocado pelos ataques do Hamas e das preocupações de segurança israelitas; e, ao mesmo tempo, a crescente incapacidade de justificar, perante parte significativa da comunidade internacional, a dimensão da destruição humanitária produzida pela guerra.
Esse equilíbrio deteriorou-se à medida que bairros inteiros reduzidos a ruínas, civis encurralados e hospitais colapsados passaram a dominar o espaço mediático internacional. O problema deixou então de ser exclusivamente militar ou diplomático. Tornou-se moral, narrativo e civilizacional.
Em grande parte do Sul Global — particularmente em países africanos, árabes, asiáticos e latino-americanos — consolidou-se a perceção de que o Ocidente aplica os princípios do direito internacional de forma seletiva, condicionando frequentemente a defesa dos direitos humanos aos seus interesses estratégicos e às suas alianças políticas.
Essa leitura não se disseminou apenas entre governos tradicionalmente hostis a Washington ou Bruxelas. Espalhou-se igualmente por universidades, organizações internacionais, fóruns diplomáticos e setores da sociedade civil que durante décadas olharam para a Europa e para os Estados Unidos como referências relativamente estáveis de legitimidade democrática.
A crescente pressão no espaço político europeu para o reconhecimento formal do Estado palestiniano reflete precisamente esse desconforto. Nos bastidores de Bruxelas tornou-se evidente o receio de que a continuidade do conflito provoque um dano estrutural à imagem internacional do continente, sobretudo junto das novas gerações e dos países emergentes.
O reconhecimento da Palestina deixou gradualmente de ser encarado apenas como uma questão diplomática relacionada com o Médio Oriente e começou a assumir, em várias capitais ocidentais, o significado político de uma tentativa de recuperar parte da credibilidade internacional perdida ao longo da guerra.
Essa erosão de legitimidade tornou-se ainda mais sensível porque ocorre num momento de fragilidade crescente das próprias democracias ocidentais. A polarização política, a ascensão dos populismos, a radicalização digital e a perda de confiança institucional já fragilizavam a autoridade moral do Ocidente muito antes de Gaza ocupar o centro do debate internacional. A guerra funcionou, nesse contexto, como um acelerador brutal de tendências que já estavam em curso.
Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, parte significativa da opinião pública internacional começou a questionar não apenas decisões concretas da política externa ocidental, mas a própria coerência do modelo político e moral que sustentou durante décadas a liderança internacional dos Estados Unidos e da Europa.
A China percebeu rapidamente o alcance estratégico dessa transformação. A Rússia também. Pequim explora de forma sistemática o desgaste moral do Ocidente para reforçar a ideia de uma ordem internacional multipolar menos subordinada aos critérios políticos definidos por Washington.
Moscovo utiliza o conflito para denunciar aquilo que descreve como incoerência estrutural das democracias liberais sempre que interesses estratégicos entram em colisão com princípios humanitários. Ambos compreenderam que, num sistema internacional cada vez mais fragmentado, a perda de legitimidade narrativa pode produzir efeitos geopolíticos tão relevantes quanto crises económicas ou derrotas militares.
Mas talvez o aspeto mais significativo desta transformação esteja a ocorrer dentro das próprias sociedades ocidentais. Entre sectores mais jovens das elites académicas, mediáticas e políticas, Gaza passou gradualmente a simbolizar uma rutura geracional mais profunda: a erosão da convicção de que o Ocidente atuaria, apesar das suas contradições, como referência relativamente coerente da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.
O poder internacional nunca depende apenas de força militar ou capacidade económica. Depende igualmente da confiança que uma potência consegue projetar sobre os valores que afirma defender. Quando essa confiança começa a deteriorar-se, o desgaste ultrapassa rapidamente o plano diplomático e instala-se no próprio imaginário político internacional.
É precisamente esse tipo de fragilidade que o conflito em Gaza parece hoje expor de forma particularmente incómoda para o Ocidente.
Gaza poderá vir a ser recordada não apenas pela dimensão da devastação humanitária que produziu, mas pelo impacto político e moral que este conflito provocou na perceção global sobre o Ocidente. À medida que a guerra avançava, tornou-se progressivamente mais difícil para os Estados Unidos e para a Europa convencerem parte significativa da comunidade internacional da coerência dos princípios que durante décadas sustentaram a sua influência política e diplomática.
Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o quotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.
A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se num espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a II Guerra Mundial.
Durante décadas, o poder ocidental não assentou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar os seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito pelo direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.
Existem momentos históricos em que a distância entre os princípios proclamados e a realidade observada se torna demasiado visível para continuar a ser administrada diplomaticamente. Gaza poderá estar a tornar-se exatamente esse momento. A devastação humanitária acumulada ao longo dos últimos meses, o colapso das infraestruturas civis, a dimensão das mortes, as deslocações forçadas e a perceção crescente de punição coletiva começaram a produzir um desgaste político internacional muito superior ao inicialmente previsto pelas principais capitais ocidentais.
A dificuldade tornou-se particularmente delicada porque o conflito expôs uma contradição estrutural profundamente desconfortável para as democracias liberais. Desde o 7 de outubro de 2023, governos europeus e norte-americanos procuraram equilibrar duas realidades politicamente difíceis de conciliar: o reconhecimento do trauma provocado pelos ataques do Hamas e das preocupações de segurança israelitas; e, ao mesmo tempo, a crescente incapacidade de justificar, perante parte significativa da comunidade internacional, a dimensão da destruição humanitária produzida pela guerra.
Esse equilíbrio deteriorou-se à medida que bairros inteiros reduzidos a ruínas, civis encurralados e hospitais colapsados passaram a dominar o espaço mediático internacional. O problema deixou então de ser exclusivamente militar ou diplomático. Tornou-se moral, narrativo e civilizacional.
Em grande parte do Sul Global — particularmente em países africanos, árabes, asiáticos e latino-americanos — consolidou-se a perceção de que o Ocidente aplica os princípios do direito internacional de forma seletiva, condicionando frequentemente a defesa dos direitos humanos aos seus interesses estratégicos e às suas alianças políticas.
Essa leitura não se disseminou apenas entre governos tradicionalmente hostis a Washington ou Bruxelas. Espalhou-se igualmente por universidades, organizações internacionais, fóruns diplomáticos e setores da sociedade civil que durante décadas olharam para a Europa e para os Estados Unidos como referências relativamente estáveis de legitimidade democrática.
A crescente pressão no espaço político europeu para o reconhecimento formal do Estado palestiniano reflete precisamente esse desconforto. Nos bastidores de Bruxelas tornou-se evidente o receio de que a continuidade do conflito provoque um dano estrutural à imagem internacional do continente, sobretudo junto das novas gerações e dos países emergentes.
O reconhecimento da Palestina deixou gradualmente de ser encarado apenas como uma questão diplomática relacionada com o Médio Oriente e começou a assumir, em várias capitais ocidentais, o significado político de uma tentativa de recuperar parte da credibilidade internacional perdida ao longo da guerra.
Essa erosão de legitimidade tornou-se ainda mais sensível porque ocorre num momento de fragilidade crescente das próprias democracias ocidentais. A polarização política, a ascensão dos populismos, a radicalização digital e a perda de confiança institucional já fragilizavam a autoridade moral do Ocidente muito antes de Gaza ocupar o centro do debate internacional. A guerra funcionou, nesse contexto, como um acelerador brutal de tendências que já estavam em curso.
Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, parte significativa da opinião pública internacional começou a questionar não apenas decisões concretas da política externa ocidental, mas a própria coerência do modelo político e moral que sustentou durante décadas a liderança internacional dos Estados Unidos e da Europa.
A China percebeu rapidamente o alcance estratégico dessa transformação. A Rússia também. Pequim explora de forma sistemática o desgaste moral do Ocidente para reforçar a ideia de uma ordem internacional multipolar menos subordinada aos critérios políticos definidos por Washington.
Moscovo utiliza o conflito para denunciar aquilo que descreve como incoerência estrutural das democracias liberais sempre que interesses estratégicos entram em colisão com princípios humanitários. Ambos compreenderam que, num sistema internacional cada vez mais fragmentado, a perda de legitimidade narrativa pode produzir efeitos geopolíticos tão relevantes quanto crises económicas ou derrotas militares.
Mas talvez o aspeto mais significativo desta transformação esteja a ocorrer dentro das próprias sociedades ocidentais. Entre sectores mais jovens das elites académicas, mediáticas e políticas, Gaza passou gradualmente a simbolizar uma rutura geracional mais profunda: a erosão da convicção de que o Ocidente atuaria, apesar das suas contradições, como referência relativamente coerente da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.
O poder internacional nunca depende apenas de força militar ou capacidade económica. Depende igualmente da confiança que uma potência consegue projetar sobre os valores que afirma defender. Quando essa confiança começa a deteriorar-se, o desgaste ultrapassa rapidamente o plano diplomático e instala-se no próprio imaginário político internacional.
É precisamente esse tipo de fragilidade que o conflito em Gaza parece hoje expor de forma particularmente incómoda para o Ocidente.
Gaza poderá vir a ser recordada não apenas pela dimensão da devastação humanitária que produziu, mas pelo impacto político e moral que este conflito provocou na perceção global sobre o Ocidente. À medida que a guerra avançava, tornou-se progressivamente mais difícil para os Estados Unidos e para a Europa convencerem parte significativa da comunidade internacional da coerência dos princípios que durante décadas sustentaram a sua influência política e diplomática.
O que ocorre nos EUA é mais profundo do que parece
Na viagem de Trump à China, Trump escutou de Xi Jinping para que não entre em Taiwan, que a Guerra contra o Irã é uma guerra equivocada que não deveria ter ocorrido, e que os Estados Unidos são uma potência declinante, com a ascensão da China; e que os Estados Unidos não incorram no erro de retaliar com uma guerra como fizeram nações anteriores nesta situação.
Simon Commander, que foi Professor da London Business School e Consultor do Banco Europeu, agora com a sua revista eletrônica “Modern Autocracy”, mostra em seus artigos que 2/3 da população mundial hoje vive sob Autocracias Modernas, com a China, Rússia e Índia, e outros países.
As Autocracias Modernas se mostram como tendência mundial, com o declínio econômico das classes médias e acúmulo da riqueza social em mãos de poucos. Estudo do Banco UBS mostra que 2.500 famílias detêm hoje o equivalente a cerca de 12% do valor do PIB mundial. E o “The World Inequality Report” mostra a queda da remuneração das classes médias a partir de 1980.
De 1960 a 2025, o PIB dos Estados Unidos diminuiu de 40% para 21% em sua participação mundial, Europa de 21% para 18%, China de 4% para 17%, com tendência crescente. Segundo o Goldman Sachs, o PIB da China deverá ultrapassar o PIB dos Estados Unidos em 2035-2036.
Historicamente, todo processo de substituição de um país por outro na hegemonia mundial resultou em guerra, como no caso da imposição por parte da Inglaterra de tarifas alfandegárias à Alemanha na virada dos anos de 1900, quando a Inglaterra perdia as suas colônias e a Alemanha se industrializava, resultando em duas Guerras Mundiais.
Para sobreviver, os Estados Unidos tendem a abraçar a Autocracia como estratégia mundial. Mas as Autocracias, como indica Simon Commander, limitam a economia de mercado e a distribuição de renda nos países, pelo gerenciamento dos Governantes através de benefícios para grupos econômicos específicos, em troca de favores.
Trump foi eleito com 49,5% do total do eleitorado, contra 48,0% de Kamala Harris. Na primeira pesquisa Reuters/IPSOS em janeiro de 2025, Trump obteve 47% de aprovação de seu governo no total da população, agora em maio de 2026 em 35%. Os Estados Unidos foram fundados como uma Democracia, baseada nos valores da liberdade e do mercado, e não como uma Autocracia. Mas se o mercado hoje não agrada, e a Autocracia não funciona, o que fazer?
A ambivalência entre a Democracia e a Autocracia é autodestrutiva.
É terrível o dilema americano.
Que Deus tenha piedade de nós!
Simon Commander, que foi Professor da London Business School e Consultor do Banco Europeu, agora com a sua revista eletrônica “Modern Autocracy”, mostra em seus artigos que 2/3 da população mundial hoje vive sob Autocracias Modernas, com a China, Rússia e Índia, e outros países.
As Autocracias Modernas se mostram como tendência mundial, com o declínio econômico das classes médias e acúmulo da riqueza social em mãos de poucos. Estudo do Banco UBS mostra que 2.500 famílias detêm hoje o equivalente a cerca de 12% do valor do PIB mundial. E o “The World Inequality Report” mostra a queda da remuneração das classes médias a partir de 1980.
De 1960 a 2025, o PIB dos Estados Unidos diminuiu de 40% para 21% em sua participação mundial, Europa de 21% para 18%, China de 4% para 17%, com tendência crescente. Segundo o Goldman Sachs, o PIB da China deverá ultrapassar o PIB dos Estados Unidos em 2035-2036.
Historicamente, todo processo de substituição de um país por outro na hegemonia mundial resultou em guerra, como no caso da imposição por parte da Inglaterra de tarifas alfandegárias à Alemanha na virada dos anos de 1900, quando a Inglaterra perdia as suas colônias e a Alemanha se industrializava, resultando em duas Guerras Mundiais.
Para sobreviver, os Estados Unidos tendem a abraçar a Autocracia como estratégia mundial. Mas as Autocracias, como indica Simon Commander, limitam a economia de mercado e a distribuição de renda nos países, pelo gerenciamento dos Governantes através de benefícios para grupos econômicos específicos, em troca de favores.
Trump foi eleito com 49,5% do total do eleitorado, contra 48,0% de Kamala Harris. Na primeira pesquisa Reuters/IPSOS em janeiro de 2025, Trump obteve 47% de aprovação de seu governo no total da população, agora em maio de 2026 em 35%. Os Estados Unidos foram fundados como uma Democracia, baseada nos valores da liberdade e do mercado, e não como uma Autocracia. Mas se o mercado hoje não agrada, e a Autocracia não funciona, o que fazer?
A ambivalência entre a Democracia e a Autocracia é autodestrutiva.
É terrível o dilema americano.
Que Deus tenha piedade de nós!
'Corrupção honesta' e criminalidade violenta
Há mais de dois anos escrevi sobre a Tammany Hall: uma espécie de confraria que dominou o partido democrata em Nova York por 40 anos, inspirou filmes e livros, e acabou virando símbolo de máquina política corrupta. Foi desmantelada nos anos trinta do século passado, mas na literatura especializada em corrupção é o exemplo paradigmático de corrupção política. Ao contrário do que afirmava um dos seus líderes, em uma fórmula célebre, não se tratava apenas do que chamou "corrupção honesta" —ou seja, aquela que envolve apenas "conflito de interesses", fraudes em licitações e blindagem contra punições. O esquema corrupto envolveu paulatinamente "corrupção desonesta" por "saqueadores" (desvios) e se entrelaçou com a criminalidade violenta liderada pelo capo Lucky Luciano.
Tammany Hall talvez deixe de ser o exemplo paradigmático de corrupção política para ceder lugar ao Rio de Janeiro. A magnitude dos esquemas recentemente revelados é tamanha que alcança praticamente toda a estrutura institucional —dos três Poderes à Procuradoria e a órgãos do Estado, organizações privadas. E, como se a realidade buscasse imitar a ficção que consagrou Nova York como cenário clássico da máfia, um dos supostos chefões da organização vive em Miami.
Tammany Hall inspira três reflexões.
A primeira é que o estado —e mais importante, o país— está perdendo a guerra contra a corrupção. Afinal, todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos do cargo. O caso Sérgio Cabral é emblemático. O que autoriza essa conclusão forte é que muitos protagonistas de casos notórios de corrupção reaparecem em denúncias recentes. E não só em relação ao caso do Rio de Janeiro. Isto vale para a Lava Jato e o Mensalão. The Economist repercutiu internacionalmente a degradação institucional do estado. E dedicou mais de uma matéria ao caso Master.
A segunda é que o caso Master e sua colossal capilaridade colocam a questão de que a degradação institucional sistêmica escalou para o nível nacional. Afinal, as denúncias chegaram na Corte mais importante do país. A questão dos custos reputacionais envolvidos adquiriu agora enorme importância. As decisões recentes do governo americano sobre a classificação das organizações criminosas brasileiras levam o problema a outro nível. No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta.
A terceira é que o que havia em comum entre a "corrupção honesta" e a "desonesta" em Tammany Hall era sobretudo as formas de lavagem de dinheiro. As oriundas de negociatas políticas e de crimes violentos se entrelaçavam e contaminavam reciprocamente. Exatamente como ocorre no Master, especialmente no caso da Reag.
Como ocorreu com outras decisões tomadas por Trump (aplicação da Magnitsky, de tarifas punitivas etc.), a nova classificação dada a organizações criminosas brasileiras inscreve-se em sua tática transacional de maximizar ameaças para garantir ganhos estratégicos. Sua repercussão no país é maximizada pela sua exploração eleitoral. Provavelmente o efeito real será muito menor que o alegado nas narrativas políticas.
Tammany Hall talvez deixe de ser o exemplo paradigmático de corrupção política para ceder lugar ao Rio de Janeiro. A magnitude dos esquemas recentemente revelados é tamanha que alcança praticamente toda a estrutura institucional —dos três Poderes à Procuradoria e a órgãos do Estado, organizações privadas. E, como se a realidade buscasse imitar a ficção que consagrou Nova York como cenário clássico da máfia, um dos supostos chefões da organização vive em Miami.
Tammany Hall inspira três reflexões.
A primeira é que o estado —e mais importante, o país— está perdendo a guerra contra a corrupção. Afinal, todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos ou destituídos do cargo. O caso Sérgio Cabral é emblemático. O que autoriza essa conclusão forte é que muitos protagonistas de casos notórios de corrupção reaparecem em denúncias recentes. E não só em relação ao caso do Rio de Janeiro. Isto vale para a Lava Jato e o Mensalão. The Economist repercutiu internacionalmente a degradação institucional do estado. E dedicou mais de uma matéria ao caso Master.
A segunda é que o caso Master e sua colossal capilaridade colocam a questão de que a degradação institucional sistêmica escalou para o nível nacional. Afinal, as denúncias chegaram na Corte mais importante do país. A questão dos custos reputacionais envolvidos adquiriu agora enorme importância. As decisões recentes do governo americano sobre a classificação das organizações criminosas brasileiras levam o problema a outro nível. No entanto, quanto pior a reputação das instituições brasileiras, menor sua capacidade de efetivamente responder ao desafio que enfrenta.
A terceira é que o que havia em comum entre a "corrupção honesta" e a "desonesta" em Tammany Hall era sobretudo as formas de lavagem de dinheiro. As oriundas de negociatas políticas e de crimes violentos se entrelaçavam e contaminavam reciprocamente. Exatamente como ocorre no Master, especialmente no caso da Reag.
Como ocorreu com outras decisões tomadas por Trump (aplicação da Magnitsky, de tarifas punitivas etc.), a nova classificação dada a organizações criminosas brasileiras inscreve-se em sua tática transacional de maximizar ameaças para garantir ganhos estratégicos. Sua repercussão no país é maximizada pela sua exploração eleitoral. Provavelmente o efeito real será muito menor que o alegado nas narrativas políticas.
Brasil experimenta o que é estar na zona de influência americana
Em dezembro de 2025, a Casa Branca publicou suas diretrizes de segurança para o continente americano, o que foi chamado à época de “Corolário Trump à Doutrina Monroe”.
Em janeiro de 2026, no texto “Trump lembra ao Brasil que a Geografia Importa”, analisamos os recados direitos que estavam endereçados no documento.
A mensagem geral era a de que os EUA passaram a considerar eventos regionais como questões que importam à sua segurança interna, se permitindo tomar decisões sobre outros países sem ter que percorrer a via diplomática.
Olhando em perspectiva, quando o governo de Donald Trump decide classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, pode-se dizer que o país experimenta pela primeira vez o que significa estar na zona de influência americana.
E o que Flávio Bolsonaro tem a ver com isso?
O candidato do PL não tem responsabilidade direta, mas cumpriu um papel.
Flávio Bolsonaro foi, de fato, convidado oficialmente a visitar Donald Trump sem ter feito nada para tanto. Aos seus círculos próximos, ele confessava, na véspera da viagem, a surpresa pela agenda inesperada e que não tinha ideia do que se tratava.
O anúncio logo após a sua visita mostra que Trump usou Flávio para dar legitimidade a um anúncio que já estava pronto. Quando um dos principais candidatos da oposição vai diretamente ao líder de outro país pedir pela medida, isso confere a ela alguma sustentação e ameniza críticas pela sua unilateralidade: “foram vocês (ou uma parte de vocês) que pediram”.
Trata-se de um aprendizado para o Brasil.
É ingenuidade de Lula ou de Flávio acharem que podem influenciar ou até manipular governos americanos a fazerem qualquer coisa. Nesse novo normal, é preciso compreender mais seriamente o que significa estar nessa zona americana e compreender as possibilidades e restrições de ação que estão no pacote.
Em janeiro de 2026, no texto “Trump lembra ao Brasil que a Geografia Importa”, analisamos os recados direitos que estavam endereçados no documento.
A mensagem geral era a de que os EUA passaram a considerar eventos regionais como questões que importam à sua segurança interna, se permitindo tomar decisões sobre outros países sem ter que percorrer a via diplomática.
Olhando em perspectiva, quando o governo de Donald Trump decide classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, pode-se dizer que o país experimenta pela primeira vez o que significa estar na zona de influência americana.
E o que Flávio Bolsonaro tem a ver com isso?
O candidato do PL não tem responsabilidade direta, mas cumpriu um papel.
Flávio Bolsonaro foi, de fato, convidado oficialmente a visitar Donald Trump sem ter feito nada para tanto. Aos seus círculos próximos, ele confessava, na véspera da viagem, a surpresa pela agenda inesperada e que não tinha ideia do que se tratava.
O anúncio logo após a sua visita mostra que Trump usou Flávio para dar legitimidade a um anúncio que já estava pronto. Quando um dos principais candidatos da oposição vai diretamente ao líder de outro país pedir pela medida, isso confere a ela alguma sustentação e ameniza críticas pela sua unilateralidade: “foram vocês (ou uma parte de vocês) que pediram”.
Trata-se de um aprendizado para o Brasil.
É ingenuidade de Lula ou de Flávio acharem que podem influenciar ou até manipular governos americanos a fazerem qualquer coisa. Nesse novo normal, é preciso compreender mais seriamente o que significa estar nessa zona americana e compreender as possibilidades e restrições de ação que estão no pacote.
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