segunda-feira, 29 de junho de 2026
O dever
Passamos as nossas vidas a lutar para conseguir que pessoas ligeiramente mais estúpidas que nós aceitem as verdades que os grandes homens conheceram desde sempre. Já há milhares de anos que eles sabiam que fechar uma pessoa doente num ambiente solitário torna-a ainda pior. Já há milhares de anos que eles sabiam que um homem pobre que é assustado, pelo seu patrão, e pela polícia, é um escravo. Eles sabiam. Nós sabemos. Mas será que a grande massa iluminada dos britânicos o sabem? Não. É o nosso dever, Ella, o teu e o meu, de lhes dizer. Porque os grandes homens são demasiado grandes para serem incomodados. Estão já a descobrir como colonizar Vênus e como irrigar a Lua. Isso é que é o mais importante para o nosso tempo. Tu e eu somos os empurradores da pedra. Todas as nossas vidas, tu e eu, temos que empregar as nossas energias, e todo o nosso talento, a empurrar uma enorme pedra por uma montanha acima. A pedra é a verdade que os grandes homens sabem por instinto, e a montanha é a estupidez da humanidade.
Doris Lessing, "O Carnê Dourado"
Doris Lessing, "O Carnê Dourado"
Moralidade pública
Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.
Contudo, quando passamos para a vida pública, o descalabro é total. Políticos de esquerda e de direita, em qualquer posição, se empanturram de recursos públicos por meio de emendas às suas bases eleitorais, muitas vezes desviadas para o bolso de alguns, sem nenhum controle público eficaz. Em nome da não contaminação privada da vida política, criaram-se fundos partidários e eleitorais, aumentados ao bel-prazer dos parlamentares, como se o dinheiro dos pagadores de impostos fosse deles. E muitos parlamentares ainda se dão ao luxo de se aproveitarem de recursos de supostos banqueiros – como Daniel Vorcaro –, na verdade criminosos. Ganham, assim, uma vida luxuosa para se tornarem corretores de luxo. Não se deve, todavia, confundir a atividade bancária com atos ilícitos.
Note-se que as posições ideológicas são as mais variadas, mas tendo em comum uma mesma apetência para o enriquecimento ilícito. Nas atividades deste dito “banqueiro”, houve uma contaminação generalizada, cujos efeitos ainda não se esgotaram. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, foi diretamente afetado, assim como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, numa lista que não se exaure aqui. Mais impressionante ainda, atingiu igualmente dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os argumentos utilizados, para além do fato de atingirem a inteligência alheia, compartilham de um mesmo padrão: a ausência de moralidade à qual se acrescentam supostos argumentos jurídicos.
Torna-se, então, necessária uma distinção entre valores morais e justificativas jurídicas. Do ponto de vista da moralidade, nada é apresentado, nem padrões mínimos de probidade pública ou impessoalidade. Passa-se por cima de uma questão moral essencial, tal como formulada por Kant, uma ação ou uma regra qualquer, política ou jurídica, deve ser submetida ao seguinte teste: a ação ou a regra em questão pode ser universalizada, tendo validade para qualquer um? É ela válida para a coletividade como um todo?
Em seu lugar, encontramos pretensos argumentos jurídicos, segundo os quais tudo é feito legalmente, havendo sempre uma “interpretação” ou ato administrativo qualquer a validar tal decisão. O Brasil está se tornando o País das interpretações.
Daqui a pouco 2 + 2 não serão mais quatro, mas cinco ou três ou seis, dependendo da “interpretação”, sempre havendo o recurso adicional de decretos e normas internas às corporações estatais. Terminaremos, assim, numa hermenêutica do ilícito justificada legalmente, mandando para o espaço a moralidade e a racionalidade pública.
Pegue-se ainda os penduricalhos do Judiciário, uma verdadeira excrescência, embora os desembargadores e juízes se comprazam em justificar os seus atos com “interpretações”, numa exuberância retórica visando a justificar o injustificável. A Constituição é clara: nenhum funcionário público pode ganhar mais do que estipulado para um ministro do STF. Começam, então, os “argumentos”: a verba não é do tipo X, mas do tipo Y e assim por diante. São “penduricalhos” materiais e linguísticos, os dessa hermenêutica muito criativa.
Jamais se deveria esquecer um fato básico, o de que os recursos ditos públicos são oriundos do setor privado. São os recursos dos contribuintes que foram transferidos para a esfera estatal, sob a condição, evidente, de que deveriam ser utilizados para a totalidade da sociedade e não em benefício de alguns, os privilegiados. Quantos mais recursos são gastos em privilegiar alguns, sejam agentes públicos ou privados, menos recursos haverá para creches, educação, saúde, saneamento e assim por diante. O bolo dos impostos e contribuições é finito. Uma fatia maior para uns resulta numa fatia menor para outros.
E para piorar a situação, vivemos sob um governo perdulário, cuja característica principal é a do descontrole dos gastos públicos, na mais completa irresponsabilidade fiscal. Quem deveria dar o exemplo torna-se partícipe do empobrecimento da sociedade. Procura contornar os limites dos recursos públicos em uma frenética corrida por mais impostos, cujos resultados são aumento da dívida pública, asfixia da atividade econômica e pressão inflacionária.
E o bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas “interpretações legais” e na irresponsabilidade institucional e governamental.
Contudo, quando passamos para a vida pública, o descalabro é total. Políticos de esquerda e de direita, em qualquer posição, se empanturram de recursos públicos por meio de emendas às suas bases eleitorais, muitas vezes desviadas para o bolso de alguns, sem nenhum controle público eficaz. Em nome da não contaminação privada da vida política, criaram-se fundos partidários e eleitorais, aumentados ao bel-prazer dos parlamentares, como se o dinheiro dos pagadores de impostos fosse deles. E muitos parlamentares ainda se dão ao luxo de se aproveitarem de recursos de supostos banqueiros – como Daniel Vorcaro –, na verdade criminosos. Ganham, assim, uma vida luxuosa para se tornarem corretores de luxo. Não se deve, todavia, confundir a atividade bancária com atos ilícitos.
Note-se que as posições ideológicas são as mais variadas, mas tendo em comum uma mesma apetência para o enriquecimento ilícito. Nas atividades deste dito “banqueiro”, houve uma contaminação generalizada, cujos efeitos ainda não se esgotaram. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, foi diretamente afetado, assim como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, numa lista que não se exaure aqui. Mais impressionante ainda, atingiu igualmente dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os argumentos utilizados, para além do fato de atingirem a inteligência alheia, compartilham de um mesmo padrão: a ausência de moralidade à qual se acrescentam supostos argumentos jurídicos.
Torna-se, então, necessária uma distinção entre valores morais e justificativas jurídicas. Do ponto de vista da moralidade, nada é apresentado, nem padrões mínimos de probidade pública ou impessoalidade. Passa-se por cima de uma questão moral essencial, tal como formulada por Kant, uma ação ou uma regra qualquer, política ou jurídica, deve ser submetida ao seguinte teste: a ação ou a regra em questão pode ser universalizada, tendo validade para qualquer um? É ela válida para a coletividade como um todo?
Em seu lugar, encontramos pretensos argumentos jurídicos, segundo os quais tudo é feito legalmente, havendo sempre uma “interpretação” ou ato administrativo qualquer a validar tal decisão. O Brasil está se tornando o País das interpretações.
Daqui a pouco 2 + 2 não serão mais quatro, mas cinco ou três ou seis, dependendo da “interpretação”, sempre havendo o recurso adicional de decretos e normas internas às corporações estatais. Terminaremos, assim, numa hermenêutica do ilícito justificada legalmente, mandando para o espaço a moralidade e a racionalidade pública.
Pegue-se ainda os penduricalhos do Judiciário, uma verdadeira excrescência, embora os desembargadores e juízes se comprazam em justificar os seus atos com “interpretações”, numa exuberância retórica visando a justificar o injustificável. A Constituição é clara: nenhum funcionário público pode ganhar mais do que estipulado para um ministro do STF. Começam, então, os “argumentos”: a verba não é do tipo X, mas do tipo Y e assim por diante. São “penduricalhos” materiais e linguísticos, os dessa hermenêutica muito criativa.
Jamais se deveria esquecer um fato básico, o de que os recursos ditos públicos são oriundos do setor privado. São os recursos dos contribuintes que foram transferidos para a esfera estatal, sob a condição, evidente, de que deveriam ser utilizados para a totalidade da sociedade e não em benefício de alguns, os privilegiados. Quantos mais recursos são gastos em privilegiar alguns, sejam agentes públicos ou privados, menos recursos haverá para creches, educação, saúde, saneamento e assim por diante. O bolo dos impostos e contribuições é finito. Uma fatia maior para uns resulta numa fatia menor para outros.
E para piorar a situação, vivemos sob um governo perdulário, cuja característica principal é a do descontrole dos gastos públicos, na mais completa irresponsabilidade fiscal. Quem deveria dar o exemplo torna-se partícipe do empobrecimento da sociedade. Procura contornar os limites dos recursos públicos em uma frenética corrida por mais impostos, cujos resultados são aumento da dívida pública, asfixia da atividade econômica e pressão inflacionária.
E o bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas “interpretações legais” e na irresponsabilidade institucional e governamental.
A liberdade é não ter medo, ser precário é temer
Quando cheguei a Lisboa para estudar, comecei a usar um caderninho de papel quadriculado para apontar as despesas. De cada vez que ia à mercearia, tomava um café ou comprava um bilhete de metro, gatafunhava a caneta azul os gastos, que iam somando, subtraindo o resultado à mesada que os meus pais me davam. O dinheiro era curto, mas as minhas paciência e capacidade de gestão financeira ainda eram mais. Rapidamente, perdi o hábito de apontar as despesas, até porque me enervava ver aquelas contas de somar a subtrair ao pouco que tinha. E, além disso, tinha mais o que fazer. A falta de método deu-me direito a alguns sustos. Dias em que percebia que só podia comer esparguete com atum ou em que ia ao supermercado fazer contas de cabeça às moedas e às calorias para ver como podia safar o fim de semana antes de me chegar à conta mais uma remessa de dinheiro parental.
O pior de tudo foi quando tive de ir fazer um trabalho para a faculdade à Baixa e percebi que já não tinha dinheiro para o bilhete do metro. Arranjei maneira de passar os torniquetes e lá me enfiei no comboio sem pagar. Claro que não foi preciso andar muito para aparecerem uns fiscais e eu acabar com uma multa grande e uma humilhação ainda maior. Sou pouco dada às pequenas prevaricações não tanto por questões morais (embora elas também me aflijam), mas sobretudo porque tenho a certeza de que vou ser apanhada. Esta pequena história confirma-o e vem dar razão aos motivos que me levaram a nunca ousar levar cábulas ou a copiar num exame.
Sou uma privilegiada. Tive sempre a rede financeira de pais e avós, para ajudar a compor salários magros numa cidade cara. Não tenho a pretensão de saber o que é o susto de viver na angústia de não ter como chegar ao final de cada mês, embora saiba o que é ver uma conta chegar aos zeros. Apesar de todo o privilégio, há uma coisa que sei: não há maior liberdade do que não ter de olhar para o saldo da conta. E não há nada que nos tolha mais do que a incerteza financeira. É ela que nos cala a boca quando queremos reivindicar. É ela que nos prende as pernas quando gostaríamos de arriscar. É ela que nos congela quando sonhamos mudar de vida.
Uma vida de precariedade é uma trela curta. A falta de dinheiro é um açaime. O instinto de sobrevivência diz-nos que caladinhos e dóceis é que estamos bem. E assim ficamos, cheios de medo, encolhidos na vidinha, talvez apenas espumando raiva para os que não podem ameaçar-nos, que olhar para cima já é um perigo. Ter os olhos rentes ao chão é tudo o que nos resta.
Vem esta conversa a propósito da palavra “liberdade”. Essa palavra bonita, arejada, ampla e luminosa. Os novos arautos da “liberdade” dizem-nos que a segurança é uma amarra, a flexibilidade é um trampolim e a falta de regras é o que nos fará prosperar. Vêm munidos de motosserras, que em vez de usarem para cortar as amarras da exploração, brandem contra tudo aquilo que protege aqueles que nasceram com pouco. “Que bonita é a liberdade”, dizem-nos. E tendemos a acreditar, porque a sabemos bela e preciosa. Quem não quer, afinal, ser livre?
Começam, então, a deitar paredes abaixo, para que possamos sentir-nos livres. Vão ao chão a Educação, a Saúde e a Habitação. Derrubam-se as pensões e os direitos no trabalho. Fazem-se em pó as prestações sociais. Fica arejado, sim. Mas começamos, depois, a perceber que estamos já sem paredes. E é uma casa muito engraçada, que fica sem teto e fica sem nada.
Mas dizem-nos, aí, que cada um de nós poderá erguer a sua própria mansão. Cada um com o seu esforço e o seu trabalho. Só não nos explicam que há os que já nascem com milhões e os que, agora que tudo foi demolido, nem as migalhas têm para se aguentarem nas pernas. E há os doentes e os velhos e as crianças. Mas não pensem nisso, esforcem-se. Trabalhem e prosperem. Agora, sem Estado a atrapalhar, tudo é caminho. Não há quem nos limite.
Os que estão em cima rejubilam. Os seus milhões parecem fêmeas, reproduzindo-se sobre o trabalho dos que perderam todos os direitos, com as jogadas dos casinos financeiros, com a especulação sobre o que até agora era um direito, com as rendas garantidas pelo Estado que afinal serve só para distribuir contratos milionários. Os de baixo sonham. Talvez um dia, pensam, enquanto aguentam mais uma jornada que não acaba, enquanto percebem que o pão e a casa estão cada vez mais caros. E olham para um ou dois casos de alguém que nada tinha e tudo conseguiu como num golpe de mágica, com criptomoedas ou visualizações de YouTube. Talvez um dia.
Sim, claro, mas ao menos são livres. Somos livres. Podemos dizer o que queremos, ser o que queremos. Podemos mesmo? Nos EUA acabam de ser presos 15 influencers acusados de “atividades antifascistas” pela forma como expuseram operações do ICE, a polícia anti-imigração de Donald Trump, nas redes sociais. São acusados de conspiração e a acusação considera que independentemente de terem ou não provocado danos reais às atividades do ICE, já incorreram em crimes.
Elon Musk, o grande libertário, também usou esta semana o seu poder financeiro ilimitado para obrigar um canal alemão de televisão a cortar uma peça na qual se fazia a relação entre as suas declarações incendiárias no X e o pogrom feito por racistas que perseguiram, atacaram e incendiaram casas de imigrantes em Belfast na sequência de um crime de esfaqueamento praticado por um imigrante. A Musk, o novo dono da mais colossal das fortunas, devidamente amparada pelos contratos públicos milionários que vai somando, bastou-lhe acenar com a ideia de um processo judicial contra a estação televisiva. O medo fez o resto. O medo faz sempre o resto.
Liberdade é não ter medo. Mas o poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes. Não se pode ser livre sem se ser igual. Não se consegue ser igual perante a lei e nos direitos quando o fosso que nos separa se agiganta ao ponto de alguns ficarem ao nível dos deuses e outros tão rasteiros que deixam de ser humanos.
Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o ar da igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros. Se queremos a liberdade para todos, temos de partilhar direitos e redistribuir recursos. Se queremos liberdade, temos de a exigir por inteiro. Sem medo.
Margarida Davim
O pior de tudo foi quando tive de ir fazer um trabalho para a faculdade à Baixa e percebi que já não tinha dinheiro para o bilhete do metro. Arranjei maneira de passar os torniquetes e lá me enfiei no comboio sem pagar. Claro que não foi preciso andar muito para aparecerem uns fiscais e eu acabar com uma multa grande e uma humilhação ainda maior. Sou pouco dada às pequenas prevaricações não tanto por questões morais (embora elas também me aflijam), mas sobretudo porque tenho a certeza de que vou ser apanhada. Esta pequena história confirma-o e vem dar razão aos motivos que me levaram a nunca ousar levar cábulas ou a copiar num exame.
Sou uma privilegiada. Tive sempre a rede financeira de pais e avós, para ajudar a compor salários magros numa cidade cara. Não tenho a pretensão de saber o que é o susto de viver na angústia de não ter como chegar ao final de cada mês, embora saiba o que é ver uma conta chegar aos zeros. Apesar de todo o privilégio, há uma coisa que sei: não há maior liberdade do que não ter de olhar para o saldo da conta. E não há nada que nos tolha mais do que a incerteza financeira. É ela que nos cala a boca quando queremos reivindicar. É ela que nos prende as pernas quando gostaríamos de arriscar. É ela que nos congela quando sonhamos mudar de vida.
O poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes
Uma vida de precariedade é uma trela curta. A falta de dinheiro é um açaime. O instinto de sobrevivência diz-nos que caladinhos e dóceis é que estamos bem. E assim ficamos, cheios de medo, encolhidos na vidinha, talvez apenas espumando raiva para os que não podem ameaçar-nos, que olhar para cima já é um perigo. Ter os olhos rentes ao chão é tudo o que nos resta.
Vem esta conversa a propósito da palavra “liberdade”. Essa palavra bonita, arejada, ampla e luminosa. Os novos arautos da “liberdade” dizem-nos que a segurança é uma amarra, a flexibilidade é um trampolim e a falta de regras é o que nos fará prosperar. Vêm munidos de motosserras, que em vez de usarem para cortar as amarras da exploração, brandem contra tudo aquilo que protege aqueles que nasceram com pouco. “Que bonita é a liberdade”, dizem-nos. E tendemos a acreditar, porque a sabemos bela e preciosa. Quem não quer, afinal, ser livre?
Começam, então, a deitar paredes abaixo, para que possamos sentir-nos livres. Vão ao chão a Educação, a Saúde e a Habitação. Derrubam-se as pensões e os direitos no trabalho. Fazem-se em pó as prestações sociais. Fica arejado, sim. Mas começamos, depois, a perceber que estamos já sem paredes. E é uma casa muito engraçada, que fica sem teto e fica sem nada.
Mas dizem-nos, aí, que cada um de nós poderá erguer a sua própria mansão. Cada um com o seu esforço e o seu trabalho. Só não nos explicam que há os que já nascem com milhões e os que, agora que tudo foi demolido, nem as migalhas têm para se aguentarem nas pernas. E há os doentes e os velhos e as crianças. Mas não pensem nisso, esforcem-se. Trabalhem e prosperem. Agora, sem Estado a atrapalhar, tudo é caminho. Não há quem nos limite.
Os que estão em cima rejubilam. Os seus milhões parecem fêmeas, reproduzindo-se sobre o trabalho dos que perderam todos os direitos, com as jogadas dos casinos financeiros, com a especulação sobre o que até agora era um direito, com as rendas garantidas pelo Estado que afinal serve só para distribuir contratos milionários. Os de baixo sonham. Talvez um dia, pensam, enquanto aguentam mais uma jornada que não acaba, enquanto percebem que o pão e a casa estão cada vez mais caros. E olham para um ou dois casos de alguém que nada tinha e tudo conseguiu como num golpe de mágica, com criptomoedas ou visualizações de YouTube. Talvez um dia.
Sim, claro, mas ao menos são livres. Somos livres. Podemos dizer o que queremos, ser o que queremos. Podemos mesmo? Nos EUA acabam de ser presos 15 influencers acusados de “atividades antifascistas” pela forma como expuseram operações do ICE, a polícia anti-imigração de Donald Trump, nas redes sociais. São acusados de conspiração e a acusação considera que independentemente de terem ou não provocado danos reais às atividades do ICE, já incorreram em crimes.
Elon Musk, o grande libertário, também usou esta semana o seu poder financeiro ilimitado para obrigar um canal alemão de televisão a cortar uma peça na qual se fazia a relação entre as suas declarações incendiárias no X e o pogrom feito por racistas que perseguiram, atacaram e incendiaram casas de imigrantes em Belfast na sequência de um crime de esfaqueamento praticado por um imigrante. A Musk, o novo dono da mais colossal das fortunas, devidamente amparada pelos contratos públicos milionários que vai somando, bastou-lhe acenar com a ideia de um processo judicial contra a estação televisiva. O medo fez o resto. O medo faz sempre o resto.
Liberdade é não ter medo. Mas o poder desmedido de poucos assusta. A pobreza de muitos amedronta-os. A democracia é incompatível com a existência de poderes desmedidos e desigualdades galopantes. Não se pode ser livre sem se ser igual. Não se consegue ser igual perante a lei e nos direitos quando o fosso que nos separa se agiganta ao ponto de alguns ficarem ao nível dos deuses e outros tão rasteiros que deixam de ser humanos.
Quando vierem falar-vos em liberdade, lembrem-se de que ela não é uma palavra vazia. É uma palavra frágil, que definha quando o ar da igualdade se torna rarefeito, que se desfaz quando não a partilhamos. Se queremos a liberdade para nós, temos de saber dá-la aos outros. Se queremos a liberdade para todos, temos de partilhar direitos e redistribuir recursos. Se queremos liberdade, temos de a exigir por inteiro. Sem medo.
Margarida Davim
'Por una cabeza'
Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%.
O resultado colombiano vem enquanto o Peru ainda tenta determinar quem venceu o pleito presidencial do dia 7. A também direitista Keiko Fujimori lidera a contagem oficial por margem mínima (50,1% contra 49,9%). É impossível não recordar a vitória apertada de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022, por apenas 1,8 ponto percentual.
O que está acontecendo? As margens de vitórias eleitorais estão se estreitando? É possível que sim, mas é preciso cuidado para não superestimar o alcance desse efeito. Tivemos aqui mesmo na América Latina vários pleitos recentes, como o do Chile e o da Bolívia, que foram vencidos com maiorias bem mais confortáveis. O que parece mais seguro afirmar é que a polarização afetiva em ambiente de rápida circulação de informações (e desinformações) deixa o eleitorado mais arisco e isso, notadamente em disputas de segundo turno em que ambos os candidatos têm alta rejeição, produz as margens apertadas. Mesmo quem não é polarizado e não morre de amores por nenhum dos contenedores é forçado a optar pelo que considera menos ruim.
É interessante notar que essa maior volatilidade afeta também os líderes eleitos por maiorias mais expressivas. O tradicional período de lua de mel dos governantes foi drasticamente encolhido, como mostram os protestos na Bolívia e a rápida deterioração da popularidade de Kast no Chile.
Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.
O resultado colombiano vem enquanto o Peru ainda tenta determinar quem venceu o pleito presidencial do dia 7. A também direitista Keiko Fujimori lidera a contagem oficial por margem mínima (50,1% contra 49,9%). É impossível não recordar a vitória apertada de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022, por apenas 1,8 ponto percentual.
O que está acontecendo? As margens de vitórias eleitorais estão se estreitando? É possível que sim, mas é preciso cuidado para não superestimar o alcance desse efeito. Tivemos aqui mesmo na América Latina vários pleitos recentes, como o do Chile e o da Bolívia, que foram vencidos com maiorias bem mais confortáveis. O que parece mais seguro afirmar é que a polarização afetiva em ambiente de rápida circulação de informações (e desinformações) deixa o eleitorado mais arisco e isso, notadamente em disputas de segundo turno em que ambos os candidatos têm alta rejeição, produz as margens apertadas. Mesmo quem não é polarizado e não morre de amores por nenhum dos contenedores é forçado a optar pelo que considera menos ruim.
É interessante notar que essa maior volatilidade afeta também os líderes eleitos por maiorias mais expressivas. O tradicional período de lua de mel dos governantes foi drasticamente encolhido, como mostram os protestos na Bolívia e a rápida deterioração da popularidade de Kast no Chile.
Mesmo que consigamos restaurar o espaço do eleitor moderado, a impaciência algorítmica, creio, veio para ficar.
A política como continuação da guerra pela linguagem
A política moderna, além de se apresentar como espaço do diálogo, da negociação e do pacto, continua falando como se estivesse no campo de batalha. O candidato não disputa uma eleição: “entra na guerra”. O adversário não é concorrente: é inimigo. A campanha não se organiza apenas por ideias: monta “estratégias”, define “táticas”, escolhe “alvos”, concentra “fogo”, prepara “ataques”, executa “manobras”, “ocupa territórios” e busca “aniquilar” a resistência do outro.
A linguagem revela mais do que parece. Quando a política usa palavras da guerra, expõe a natureza conflitiva do poder. Toda campanha é uma disputa por corações, mentes, territórios sociais e simbólicos. Há generais de marketing, soldados de rua, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto transforma-se no território a conquistar.
Sun Tzu, o general-filósofo, que escreveu o livro A Arte da Guerra, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória superior é vencer sem combater. Na política, isso significa desarmar o adversário antes que ele ataque: ocupar sua agenda, confundir sua base, antecipar seus movimentos, atraí-lo para terreno desfavorável. Miyamoto Musashi, perito na arte desenvolvida pelos samurais (duas espadas presas â faixa da cintura, com a lâmina para cima); recomendava ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu livro famoso (Um Livro dos Cinco Anéis), oferece lições preciosas para campanhas: perceber o detalhe escondido, a fraqueza invisível, o momento certo de “cruzar o riacho”
Níccolò Machiavelli, considerado o artífice da Ciência Política, famoso por escrever o Principe, mostrou que o poder raramente caminha de mãos limpas. A aparência, a dissimulação, o cálculo e a administração do medo fazem parte do repertório dos que desejam mandar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro da França (1602-1661), um estadista italiano radicado na França, foi ainda mais cru: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte da sobrevivência.
Karl von Clausewitz, um filósofo da guerra, em seu livro, Da Guerra, publicado por sua esposa em 1832, cunhou a ideia de que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez, hoje, seja possível inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, um ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, considerado um dos mais respeitados militares do mundo, mostrou, em seu livro Grandes Guerras da História, como a estratégia indireta, ajuda a compreender a política contemporânea: nem sempre o ataque frontal é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e obriga o inimigo a errar.
O problema é quando a linguagem de guerra deixa de ser metáfora e passa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência vira ameaça. A negociação vira rendição. A prudência vira covardia. O centro vira pântano. A política, que deveria organizar o conflito civilizadamente, passa a incendiá-lo Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas democracia não é campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.
A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.
No fim, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.
A linguagem revela mais do que parece. Quando a política usa palavras da guerra, expõe a natureza conflitiva do poder. Toda campanha é uma disputa por corações, mentes, territórios sociais e simbólicos. Há generais de marketing, soldados de rua, artilharia digital, infantaria partidária, trincheiras ideológicas e bombardeios de versões. O voto transforma-se no território a conquistar.
Sun Tzu, o general-filósofo, que escreveu o livro A Arte da Guerra, há mais de 2.500 anos, ensinava que a vitória superior é vencer sem combater. Na política, isso significa desarmar o adversário antes que ele ataque: ocupar sua agenda, confundir sua base, antecipar seus movimentos, atraí-lo para terreno desfavorável. Miyamoto Musashi, perito na arte desenvolvida pelos samurais (duas espadas presas â faixa da cintura, com a lâmina para cima); recomendava ver o distante como próximo e o próximo com distância. Em seu livro famoso (Um Livro dos Cinco Anéis), oferece lições preciosas para campanhas: perceber o detalhe escondido, a fraqueza invisível, o momento certo de “cruzar o riacho”
Níccolò Machiavelli, considerado o artífice da Ciência Política, famoso por escrever o Principe, mostrou que o poder raramente caminha de mãos limpas. A aparência, a dissimulação, o cálculo e a administração do medo fazem parte do repertório dos que desejam mandar. O cardeal Mazarino, primeiro-ministro da França (1602-1661), um estadista italiano radicado na França, foi ainda mais cru: simular, dissimular, prever antes de agir, falar bem de todos e não confiar em ninguém. É a cartilha amarga da política como arte da sobrevivência.
Karl von Clausewitz, um filósofo da guerra, em seu livro, Da Guerra, publicado por sua esposa em 1832, cunhou a ideia de que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez, hoje, seja possível inverter a frase: a política muitas vezes parece a continuação da guerra por meios verbais, eleitorais e midiáticos. Já Liddell Hart, um ex-capitão e conselheiro do Gabinete inglês, considerado um dos mais respeitados militares do mundo, mostrou, em seu livro Grandes Guerras da História, como a estratégia indireta, ajuda a compreender a política contemporânea: nem sempre o ataque frontal é o mais eficaz. Muitas vezes, vence quem desgasta lentamente, corrói a credibilidade, mina a moral adversária e obriga o inimigo a errar.
O problema é quando a linguagem de guerra deixa de ser metáfora e passa a contaminar a democracia. O adversário vira traidor. A divergência vira ameaça. A negociação vira rendição. A prudência vira covardia. O centro vira pântano. A política, que deveria organizar o conflito civilizadamente, passa a incendiá-lo Campanhas precisam de estratégia, disciplina, método e foco. Mas democracia não é campo de extermínio. O objetivo da política não deveria ser destruir o adversário, mas convencer a sociedade. Não deveria ser esmagar o outro, mas construir maioria legítima. Não deveria ser manipular o eleitor, mas apresentar caminhos.
A política pode aprender com os estrategistas da guerra, desde que não esqueça sua finalidade civilizatória. Estratégia sem ética vira emboscada. Tática sem verdade vira fraude. Comunicação sem responsabilidade vira munição.
No fim, a grande batalha democrática não é contra este ou aquele adversário. É contra a tentação permanente de transformar a política em guerra total. Porque, quando a política abandona a palavra como ponte e a usa como espada, a democracia começa a sangrar.
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