sexta-feira, 7 de agosto de 2026
A implosão da mentira
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Affonso Romano de Sant’Anna, "A implosão da mentira e outros poemas"
Quando as nações deixam de aprender
“A maior necessidade de um Estado é a de governar-se segundo a razão, e não segundo a opinião.”Baruch Spinoza
Quando uma guerra termina, é relativamente fácil identificar os danos sofridos por um país. Pontes destruídas, cidades reduzidas a escombros, usinas bombardeadas, ferrovias interrompidas e fábricas transformadas em ruínas tornam-se imagens emblemáticas da devastação. A reconstrução costuma começar exatamente por esses símbolos mais visíveis: reerguem-se edifícios, restauram-se estradas, substituem-se máquinas, recompõem-se linhas de transmissão de energia. Aos poucos, a paisagem volta a transmitir a impressão de normalidade.
Existe, porém, uma forma de destruição mais silenciosa – e talvez mais profunda. Ela não aparece em fotografias aéreas, não pode ser detectada por satélites e não deixa colunas de fumaça, crateras ou edifícios em ruínas. Seus efeitos só se tornam visíveis muitos anos depois, quando uma sociedade percebe que já não consegue compreender a realidade, corrigir os próprios erros nem responder aos desafios de seu tempo. Trata-se da destruição de seus ecossistemas de aprendizagem.
Universidades, laboratórios nacionais, escolas de engenharia, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de fomento, empresas inovadoras e comunidades de pesquisadores constituem uma infraestrutura tão estratégica quanto os portos, as hidrelétricas ou as redes de transporte. É nesse ambiente que as informações se transformam em conhecimento; este converte-se em tecnologia, e tecnologia passa a sustentar prosperidade, segurança e soberania.
Uma fábrica produz muito mais do que bens. Ela articula engenheiros, fornecedores, técnicos especializados, universidades, laboratórios e competências produtivas acumuladas ao longo de décadas. Quando uma fábrica fecha, não desaparece apenas uma linha de produção. Desfaz-se um ecossistema inteiro de conhecimento tácito, relações de confiança e capacidades tecnológicas cuja reconstrução exige muito mais do que investimentos financeiros: exige tempo, continuidade e novas gerações de profissionais. O mesmo ocorre com as instituições científicas.
Um laboratório não produz apenas artigos. Uma universidade não produz apenas diplomas. Uma agência de pesquisa não distribui apenas recursos. Todas elas integram uma complexa rede de organizações cuja função mais importante talvez seja a mais difícil de perceber: permitir que uma sociedade aprenda continuamente com a realidade, revise suas convicções à luz das evidências e transforme esse aprendizado em desenvolvimento nacional.
Talvez essa seja uma das maiores conquistas institucionais da civilização: aprender continuamente com a realidade e corrigir os próprios erros.
E é justamente essa capacidade que o obscurantismo ameaça.
Existe uma pergunta simples capaz de iluminar alguns dos episódios mais dramáticos da história moderna.
O que acontece quando governos deixam de perguntar “o que a realidade nos ensina?” e passam a perguntar apenas “o que confirma aquilo em que já acreditamos?”
À primeira vista, a resposta parece evidente. A experiência histórica, entretanto, revela algo muito mais inquietante.
O obscurantismo raramente chega ao poder prometendo ignorância. Ao contrário, costuma apresentar-se como uma alternativa prática à lentidão da ciência, oferecendo respostas rápidas para os problemas reais e complexos. É justamente essa promessa de simplicidade que lhe confere enorme força política.
Na Alemanha nazista, a pseudociência racial buscava legitimar o projeto de supremacia ariana sob a aparência de rigor científico. Por influência de Heinrich Himmler, instituições como a Ahnenerbe mobilizaram arqueólogos, antropólogos e até ocultistas em expedições e estudos destinados a “comprovar” uma ancestralidade ariana superior. O objetivo não era produzir conhecimento, mas conferir autoridade científica a uma ideologia previamente definida. Sempre que a ideologia passa a determinar quais respostas são aceitáveis, a ciência deixa de corrigir os erros da sociedade e passa a servi-los.
Na União Soviética, o contexto era dramaticamente diferente. A Revolução de 1917 dera origem a um regime ainda jovem, que enfrentara guerra civil, intervenções militares estrangeiras, isolamento internacional e a profunda desorganização da produção agrícola. As políticas de coletivização agravaram ainda mais a instabilidade no campo, e as sucessivas quebras de safra transformaram a segurança alimentar em uma questão de sobrevivência política.
Os geneticistas ofereciam um caminho cientificamente sólido, mas inevitavelmente lento. O melhoramento genético exige sucessivas gerações de plantas, experimentação rigorosa e acumulação gradual de conhecimento. A natureza simplesmente não obedece ao calendário dos governos. O agrônomo Trofim Lysenko, ao contrário, prometia aumentar rapidamente a produtividade agrícola sem esperar pelo longo trabalho da pesquisa genética. Enquanto os cientistas pediam tempo para compreender a hereditariedade, Lysenko oferecia exatamente aquilo que dirigentes pressionados pela urgência desejavam ouvir: uma solução imediata.
No Haiti, após chegar ao poder em 1957, em um país marcado por extrema pobreza, uma baixa escolarização e instituições frágeis, François “Papa Doc” Duvalier compreendeu que o medo poderia ser um instrumento de governo tão eficaz quanto a violência. Em vez de depender apenas da repressão exercida pelos Tontons Macoutes, seu temido grupo paramilitar, apropriou-se deliberadamente do imaginário religioso popular, explorando símbolos associados ao vodu e cultivando a imagem de um líder dotado de poderes sobrenaturais. O objetivo não era promover uma religião, mas dificultar a distinção entre autoridade política, superstição e obediência, tornando a resistência psicológica tão difícil quanto a resistência física.
Os contextos históricos eram profundamente diferentes. As ideologias também.
O mecanismo, porém, era notavelmente semelhante.
Em todos esses casos, instituições destinadas a produzir conhecimento foram gradualmente substituídas por organismos dedicados a confirmar crenças. A evidência deixou de orientar o poder; passou a ser selecionada por ele. E, quando uma sociedade perde a capacidade de corrigir seus próprios erros, inicia-se um processo de deterioração que dificilmente se limita à ciência. Mais cedo ou mais tarde, ele alcança a economia, a tecnologia, a educação, a capacidade militar e, em última análise, a própria soberania nacional.
Quando uma civilização decide voltar a aprender
Se a história terminasse com Lysenko, Himmler ou Papa Doc, o quadro seria profundamente desalentador. Restaria concluir que sociedades que destroem seus ecossistemas de aprendizagem estão condenadas a um lento e inevitável declínio. A experiência histórica, entretanto, oferece uma resposta muito mais interessante. Ela mostra que essas capacidades podem ser reconstruídas. Não rapidamente. Não sem enormes custos humanos, econômicos e institucionais. Mas podem.
A história recente da China oferece um dos exemplos mais impressionantes desse processo de reconstrução.
Durante boa parte do século XIX, uma civilização que, por séculos, estivera entre as mais sofisticadas do mundo descobriu, da forma mais dolorosa possível, que havia perdido a liderança tecnológica. A derrota nas Guerras do Ópio representou muito mais do que um mero revés militar. Pela primeira vez, uma potência asiática milenar era obrigada a reconhecer que ciência, engenharia e indústria haviam se tornado os verdadeiros fundamentos do poder internacional. A humilhação não decorria apenas da derrota; decorria da constatação de que um império inteiro podia ser submetido por nações que haviam aprendido a transformar conhecimento em capacidade militar, econômica e tecnológica.
Nascia ali aquilo que os chineses passaram a chamar de “século de humilhação”. A expressão não designa apenas a perda de territórios ou imposição de tratados desiguais. Ela traduz uma memória histórica muito mais profunda: a percepção de que a dependência tecnológica representa uma vulnerabilidade nacional. Essa ideia atravessou gerações, sobreviveu à queda do Império, às guerras civis, à invasão japonesa e à própria fundação da República Popular. Tornou-se parte da maneira como a China passou a interpretar sua posição no mundo.
Porém, paradoxalmente, a própria Revolução Cultural produziu um segundo trauma. Ao fechar universidades, perseguir professores, interromper pesquisas científicas e enviar intelectuais para programas de “reeducação”, a China passou a destruir internamente exatamente aquilo que pretendia recuperar diante do mundo: sua capacidade de aprender. Poucas experiências históricas mostram de modo tão dramático até que ponto uma sociedade pode se voltar contra o próprio patrimônio intelectual.
A inflexão iniciada em 1978 foi, por isso, muito mais profunda do que uma simples abertura econômica. Ela representou uma mudança na própria compreensão do desenvolvimento. A prioridade deixou de ser a pureza ideológica das teorias e passou a ser a aptidão de resolver problemas concretos. Em vez de perguntar quais ideias eram politicamente mais corretas, o Estado passou a perguntar quais permitiam aumentar a produtividade, acelerar a inovação e ampliar a capacidade tecnológica do país.
Essa mudança de perspectiva reorganizou todo o ecossistema nacional de aprendizagem. Universidades foram reconstruídas, institutos de pesquisa voltaram a funcionar, laboratórios receberam investimentos maciços, milhares de estudantes foram enviados às melhores instituições do exterior e empresas passaram a incorporar, de forma crescente, o conhecimento produzido nas universidades. Tratava-se de reconstruir a capacidade de uma sociedade inteira de produzir, transmitir e renovar conhecimento.
Reconstruir universidades significava, portanto, muito mais do que restaurar campi destruídos. Significava ampliar extraordinariamente o acesso ao ensino superior, formar uma nova geração de pesquisadores, conectar ciência e indústria e transformar o conhecimento em patrimônio nacional compartilhado. A verdadeira reconstrução não ocorreu apenas nos laboratórios; ocorreu sobretudo na ampliação da base humana capaz de fazê-los funcionar.
Costuma-se atribuir o extraordinário desenvolvimento da Alemanha, do Japão, da Coreia do Sul e da China a fatores culturais, como a suposta valorização tradicional da educação. Embora essa interpretação contenha parte da verdade, dificilmente ela explica o conjunto da história.
Os quatro países passaram por algumas das maiores catástrofes do século XX. A Alemanha terminou a Segunda Guerra Mundial com cidades destruídas, infraestrutura em ruínas e boa parte de sua comunidade científica dispersa. O Japão sofreu duas bombas atômicas, devastação industrial sem precedentes e anos de ocupação estrangeira. A Coreia saiu da guerra dos anos 1950 como um dos países mais pobres do planeta. A China enfrentou décadas de guerra civil, invasão estrangeira e uma Revolução Cultural que praticamente desarticulou suas universidades.
Nenhum deles dispunha de abundância excepcional de recursos naturais. Nenhum encontrou atalhos tecnológicos. Nenhum escapou ao elevado custo da reconstrução.
O que reconstruíram, acima de tudo, foram instituições capazes de aprender.
Talvez essa seja a verdadeira riqueza das nações. Não apenas universidades, empresas ou laboratórios, mas também a capacidade de formar, geração após geração, engenheiros, pesquisadores, empresários, professores e gestores públicos capazes de aprender com a realidade e transformar esse aprendizado em inovação, produtividade e desenvolvimento. É essa capacidade – muito mais do que qualquer descoberta isolada, recurso natural ou vantagem geográfica – que ajuda a explicar por que algumas sociedades conseguem recuperar-se de derrotas aparentemente irreversíveis, enquanto outras permanecem aprisionadas, por décadas, nas consequências de seus próprios equívocos.
Naturalmente, essas relações não são mecânicas nem inevitáveis. Ecossistemas de aprendizagem podem preservar capacidades importantes mesmo sob ambientes políticos adversos, assim como países dotados de organizações científicas sólidas nem sempre conseguem convertê-las plenamente em desenvolvimento econômico. Ainda assim, a experiência histórica sugere que, no longo prazo, o aprendizado contínuo constitui uma condição necessária, embora não suficiente, para a prosperidade e a soberania das nações.
Os efeitos mais profundos do obscurantismo raramente recaem sobre os cientistas que ele persegue.
Recaem sobretudo sobre aqueles que ainda nem chegaram às universidades.
Existe uma característica das instituições de conhecimento que costuma não receber a devida atenção. Elas não produzem apenas descobertas; produzem sucessores. Cada professor forma novos professores. Cada pesquisador forma novos pesquisadores. Cada engenheiro experiente transmite aos mais jovens conhecimentos que dificilmente aparecem em livros: métodos experimentais, critérios de julgamento, maneiras de formular perguntas, hábitos intelectuais e, talvez acima de tudo, a disposição para abandonar convicções quando elas deixam de resistir às evidências.
Essa transmissão constitui um patrimônio essencialmente cultural. Ela ocorre lentamente, de geração em geração, e, exatamente, por isso representa uma das formas mais valiosas de riqueza acumulada por uma sociedade.
Raramente as sociedades ensinam o mundo tal como ele é no presente. Com frequência, ensinam o mundo tal como foi compreendido pela geração que ocupa as salas de aula, as redações, os governos e as instituições. Cada geração transmite à seguinte algo que vai além de informações: transmite mapas mentais, critérios sobre o que considera plausível, confiável, ameaçador ou verdadeiro. Por isso, mudanças profundas na maneira de pensar raramente acompanham o ritmo dos ciclos eleitorais. Elas se propagam lentamente, como uma herança cognitiva.
É justamente nesse ponto que o obscurantismo revela sua face mais duradoura.
Quando uma geração cresce aprendendo a desconfiar da ciência, dificilmente formará organizações que valorizem o conhecimento técnico. Quando especialistas passam a ser apresentados como inimigos, universidades como centros de doutrinação e evidências científicas como simples opiniões políticas, o dano ultrapassa em muito a esfera do debate público. Ele modifica a própria forma pela qual uma sociedade aprende a distinguir fatos de narrativas, conhecimento de crença, investigação de propaganda.
Por isso, reconstruir um ecossistema de aprendizagem é muito mais difícil do que reconstruir seus edifícios.
Universidades podem ser reabertas em poucos anos. Laboratórios podem receber novos equipamentos. As agências científicas podem recuperar seus orçamentos. Muito mais lenta, entretanto, é a reconstrução da confiança social na ciência, do respeito à investigação independente e da cultura intelectual necessária para que novas gerações voltem a produzir conhecimento de qualidade.
Essa talvez seja uma das maiores assimetrias do desenvolvimento.
Destruir leva poucos anos.
Reconstruir exige uma geração inteira.
Essa constatação convida a ampliar o próprio conceito de infraestrutura.
Costumamos associar essa palavra a pontes, portos, ferrovias, usinas hidrelétricas, rodovias ou redes elétricas. Todas são indispensáveis ao funcionamento da economia moderna. Existe, porém, outra infraestrutura, muito menos visível, sem a qual nenhuma delas consegue sustentar prosperidade por muito tempo.
O substrato cognitivo de uma sociedade é formado por escolas, universidades, laboratórios nacionais, institutos tecnológicos, bibliotecas, sociedades científicas, agências de pesquisa, sistemas de avaliação por pares, editoras acadêmicas e por uma cultura pública que reconhece o valor da evidência, da crítica e do debate racional.
Há, entretanto, um aspecto frequentemente negligenciado. Ecossistemas de aprendizagem não dependem apenas da existência dessas instituições; dependem também da capacidade de mobilizar o talento disponível em toda a população. Sempre que barreiras de origem social, raça, gênero, religião ou outras formas de discriminação impedem parte da sociedade de desenvolver plenamente suas capacidades, o prejuízo ultrapassa a esfera dos direitos individuais. Trata-se também de uma perda de inteligência coletiva. Nenhuma nação alcança liderança científica desperdiçando sistematicamente parte de seus próprios talentos.
Essa infraestrutura produz algo que nenhum decreto consegue criar: capacidade nacional.
Ao longo deste ensaio, argumentou-se que o fechamento de uma fábrica representa muito mais do que a simples interrupção de uma linha de produção. Desaparece um ecossistema de fornecedores, engenheiros, técnicos, laboratórios e conhecimentos acumulados durante décadas. Com as organizações científicas ocorre exatamente o mesmo. Quando uma universidade perde seus pesquisadores, quando uma agência científica é sistematicamente deslegitimada ou quando bibliotecas passam a retirar livros de circulação por razões ideológicas, não desaparecem apenas organizações isoladas. Começa a deteriorar-se o próprio sistema responsável por produzir e renovar conhecimento.
Os efeitos dessa erosão dificilmente aparecem nas estatísticas do ano seguinte. Manifestam-se 20 ou 30 anos depois, quando aquela geração chega às empresas, aos hospitais, às universidades, aos laboratórios, às escolas e aos governos. É nesse momento que um problema aparentemente cultural revela sua verdadeira dimensão. O atraso deixa de ser apenas científico. Converte-se em atraso tecnológico, econômico, institucional e, por fim, geopolítico.
É por isso que as grandes civilizações raramente entram em declínio de maneira súbita. Antes que suas fábricas parem de produzir ou que seus indicadores econômicos se deteriorem, seus ecossistemas de aprendizagem já começaram, silenciosamente, a perder a capacidade de formar as gerações que construirão o futuro.
Talvez a grande transformação geopolítica do século XXI ainda não tenha sido plenamente percebida.
Durante boa parte da Guerra Fria, a competição entre as grandes potências era medida pelo número de divisões militares, de ogivas nucleares, de navios, de aeronaves ou pela quantidade de aço produzida. Esses indicadores continuam importantes. Mas deixaram de ser suficientes.
A competição estratégica deslocou-se progressivamente para outro terreno: aprender mais rapidamente do que os concorrentes.
Inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, novos materiais, computação quântica, energia limpa, farmacêutica avançada ou sistemas espaciais pertencem a setores aparentemente distintos. Todos, entretanto, compartilham uma característica fundamental. Nenhum deles depende apenas de recursos financeiros ou de abundância de matérias-primas. Todos exigem ecossistemas de aprendizagem extraordinariamente sofisticados, capazes de produzir conhecimento novo, formar recursos humanos altamente qualificados e transformar descobertas científicas em capacidades produtivas.
É nesse contexto que as transformações recentes nos Estados Unidos adquirem uma importância que ultrapassa em muito a política doméstica norte-americana.
Quando o maior ecossistema de aprendizagem do mundo começa a vacilar
Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos haviam compreendido uma lição que moldaria toda a segunda metade do século XX. A superioridade militar conquistada durante o conflito não fora resultado apenas de sua capacidade industrial. Ela nascera da extraordinária articulação entre universidades, laboratórios, empresas, agências governamentais e Forças Armadas. O radar, a penicilina produzida em escala industrial, o Projeto Manhattan, os primeiros computadores eletrônicos e inúmeras outras inovações demonstravam que ciência, tecnologia e Estado haviam passado a constituir um único sistema de produção de capacidades nacionais.
Poucas semanas antes do fim da guerra, Vannevar Bush entregou ao presidente Harry S. Truman o relatório “Science, the Endless Frontier”. Mais do que um documento administrativo, aquele texto tornou-se um verdadeiro projeto de país. Sua mensagem era revolucionária: a pesquisa básica não deveria ser tratada como um luxo acadêmico, mas como infraestrutura estratégica para a prosperidade econômica, a saúde pública, a segurança nacional e a liderança tecnológica.
Foi essa visão que permitiu aos Estados Unidos construir, ao longo das décadas seguintes, o mais poderoso ecossistema de aprendizagem já organizado por uma nação.
Universidades, laboratórios nacionais, agências federais, fundações de pesquisa e empresas privadas passaram a atrair talentos do mundo inteiro. Brasileiros, chineses, indianos, coreanos, europeus e latino-americanos encontraram naquele ambiente financiamento e também uma cultura institucional baseada na liberdade de investigação, na competição de ideias e na permanente revisão crítica dos resultados.
Em certo sentido, aquele ecossistema deixou de pertencer apenas aos Estados Unidos.
Grande parte da ciência mundial passou a gravitar em torno dele.
Nada sugere um colapso iminente desse ecossistema. Pelo contrário. Sua densidade institucional – construída ao longo de oito décadas por universidades, laboratórios nacionais, agências federais, empresas inovadoras e redes internacionais de colaboração – lhe dá uma capacidade de adaptação e resiliência sem paralelo histórico. Por isso, mudanças que, em outros contextos, poderiam parecer pontuais devem ser observadas com atenção quando atingem organizações responsáveis por produzir, validar e difundir conhecimento.
É justamente por isso que as transformações recentes merecem atenção.
O debate não se limita a diferenças legítimas sobre prioridades orçamentárias, políticas energéticas ou modelos de desenvolvimento. Democracias vivem dessas divergências. A questão mais profunda é outra: o que acontece quando organizações encarregadas de produzir conhecimento passam, elas próprias, a ser alvo de desconfiança sistemática?
Celso P. de Melo
O que acontece quando universidades deixam de ser percebidas como um patrimônio nacional e passam a ser apresentadas como adversárias políticas? Quando agências científicas passam a ser julgadas menos pela qualidade de suas evidências do que por sua suposta orientação ideológica? Quando bibliotecas, currículos escolares e programas de pesquisa tornam-se objetos de disputas cuja lógica deixa de ser acadêmica e passa a ser predominantemente política?
Essas perguntas extrapolam qualquer governo e qualquer partido.
Elas dizem respeito ao funcionamento do próprio ecossistema de aprendizagem.
Ecossistemas dessa natureza dependem de confiança institucional, continuidade administrativa, liberdade intelectual e da capacidade de mobilizar talentos provenientes de toda a sociedade. Sempre que disputas políticas passam a restringir a autonomia dessas instituições, reduzir sua capacidade de atrair pesquisadores, questionar sistematicamente sua credibilidade ou limitar a participação de parcelas da população na produção do conhecimento, a questão deixa de ser apenas jurídica ou ideológica. Passa a envolver a própria capacidade nacional de inovar.
Nos últimos anos, e de forma particularmente evidente durante o atual governo de Donald Trump, essas tensões ganharam nova intensidade. Mudanças em agências federais de saúde, conflitos envolvendo universidades, disputas sobre políticas climáticas e de saúde pública, a crescente politização da atuação de especialistas e organizações científicas, bem como controvérsias em torno de livros, currículos escolares e programas de diversidade, não devem ser vistos como episódios isolados. Em conjunto, revelam algo mais profundo: uma disputa sobre quem detém a autoridade para definir o que constitui conhecimento legítimo na esfera pública.
Essa talvez seja a questão decisiva. Grandes ecossistemas de aprendizagem não entram em colapso de um dia para o outro. Seu declínio costuma começar de forma quase imperceptível: primeiro enfraquece-se a confiança nas instituições, depois reduz-se a capacidade de atrair talentos, em seguida são interrompidas as redes de colaboração e, somente muitos anos mais tarde, tornam-se visíveis os efeitos sobre a inovação, a competitividade e a própria capacidade estratégica do país.
Isso não significa, entretanto, que os primeiros sinais dessa erosão demorem a aparecer. Algumas consequências tornam-se visíveis quase imediatamente. Protocolos institucionais frequentemente incorporam conhecimentos acumulados ao longo de gerações; por isso, sua revisão exige cautela proporcional à experiência histórica que representam.
Uma geração de pesquisadores pode exigir 30 anos de formação. Um instituto de excelência consolida-se lentamente, ao longo de sucessivas gerações de professores, estudantes e pesquisadores. Sua degradação, entretanto, pode começar em poucos anos.
Essa assimetria do tempo institucional constitui uma das maiores vulnerabilidades das grandes civilizações. Construir ecossistemas de aprendizagem exige décadas de investimento contínuo. Desorganizá-los pode ser obra de um único ciclo político. Reconstruí-los, entretanto, jamais se fará no ritmo dos calendários eleitorais[13].
Essa constatação conduz a uma conclusão que transcende governos, partidos e conjunturas. Proteger universidades, laboratórios, escolas, bibliotecas e agências de fomento não significa defender interesses corporativos. Significa preservar a capacidade coletiva de aprender, corrigir erros e preparar-se para desafios ainda sequer imaginados.
Talvez essa seja a principal lição da história. Grandes civilizações raramente entram em declínio por falta de recursos naturais, de território ou de população. Antes disso, enfraquecem as instituições que transformam conhecimento em capacidade nacional. O futuro de uma nação depende menos das riquezas que herdou do passado do que da capacidade de preservar e renovar seus ecossistemas de aprendizagem.
Em última análise, o verdadeiro patrimônio estratégico de uma nação não é aquilo que ela possui, mas o que é capaz de aprender. Recursos naturais podem ser explorados. Infraestruturas podem ser reconstruídas. Exércitos podem ser reequipados. Ecossistemas de aprendizagem, porém, levam gerações para florescer. Protegê-los talvez seja, hoje, a forma mais profunda de defender a soberania nacional.
Réquiem por Karl Marx
Pior ainda com a escalada caótica das mudanças climáticas. Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social fora debatido desde o final do século XVIII, associado às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Saudades de Marx, Engels e, por que não, de Adam Smith. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini apresentara seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos. As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Mesmo assim, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.
O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, atraindo pensadores como Noam Chomsky, Lula, Boaventura, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer. Outro mundo seria possível. Manifestações como a ‘batalha de Seattle’ davam o tom de um Comércio Justo e uma Economia Solidária. Ninguém esperava que o atendado de 11 de setembro desencadeasse uma espécie de macarthismo (quem não estiver com o capitalismo está contra ele). O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, nos ativistas e organizações que cutucavam a ferida aberta das diferenças socioeconômicas.
Desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos e específicos, enfoques importantes para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, mas é preciso retomar o foco primordial – a questão política central – de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social. A polarização (com tempero de costumes) nas eleições brasileiras de 2026 reedita os extremos Lula x Bolsonaro, varrendo para baixo do tapete as causas e os propósitos que explicam porque tantas pessoas sofrem privações enquanto o andar superior do PIB e da Política detém o maior pedaço do poder e dos ganhos. Fala-se em nova esquerda pós-Lula 2030. Pura falácia. Novos políticos praticando a velha política. O caminho para o futuro é revitalizar a sociedade civil. Reacender a luz e reabrir as janelas do diálogo social. Deixar as convergências e as divergências aflorarem. A política e os políticos são produtos da sociedade.
Felipe Sampaio
Flávio joga parado na economia e não é cobrado
Ele tem sido beneficiado por não ser o candidato incumbente, diferentemente do presidente Lula, e pelo baixo nível de cobrança dos analistas do mercado financeiro, dos eleitores e também da mídia que acompanha seu périplo diário na disputa pelo Palácio do Planalto.
Instado a falar sobre medidas econômicas que adotará caso ganhe as eleições, o candidato do PL fala de "tesouraço" nas despesas do Orçamento, gatilhos para contenção de gastos, redução de ministérios, corte de cargos comissionados e mudanças na reforma tributária.
Enquanto pega carona nas críticas ao crescimento da dívida pública no governo Lula, ele promete o maior corte da história da carga tributária do país via redução de impostos e desoneração da folha de pagamento das empresas.
Com a declaração de que "não fará economia em cima de aposentados" —frase moldada pelos seus estrategistas de marketing político—, repete a tática do pai.
É sempre bom recordar. Para barrar medidas do seu ministro da Economia, Paulo Guedes, voltadas ao financiamento do Auxílio Brasil (o antecessor do atual Bolsa Família), Jair Bolsonaro saiu-se com a histórica frase de que "não tiraria de pobres para dar para paupérrimos".
Ao final, o Auxílio Brasil foi bancado pela PEC dos Precatórios, que empurrou parte do pagamento dessas despesas com sentenças judiciais.
Flávio também já admitiu em entrevista ao SBT que não daria detalhes sobre onde cortaria os gastos. Fazer isso, segundo ele, geraria "um castelo de cartas".
Por outro lado, ele já disse que não pretende dar fim aos pisos constitucionais da saúde e da educação nem acabar com a vinculação do salário mínimo à inflação ou realizar uma reforma da Previdência.
Com base no pouco que o candidato disse e também no que falou que não faria, a conclusão a que se chega é que a conta não fecha.
Ninguém acredita. Ou ele não fala a verdade, ou vai praticar estelionato eleitoral se ganhar a eleição.
Adriana Fernandes
O ajuste fiscal e a pergunta que o Brasil precisa fazer
Toda vez que o tema volta à mesa, a receita já vem pronta. Desindexar o salário mínimo do crescimento do PIB. Afrouxar os pisos constitucionais de saúde e educação. A justificativa é sempre a mesma: não há alternativa, o país precisa escolher entre o ajuste e o abismo. Há, de fato, um problema real. As despesas obrigatórias crescem mais rápido que a receita, e a trajetória da dívida pública preocupa quem acompanha o tema com seriedade.
O que incomoda não é o diagnóstico. É a certeza com que se encerra o debate antes mesmo de ele começar, como se existisse apenas um caminho possível e ele passasse, inevitavelmente, pelo bolso de quem tem menos margem para reclamar. Setenta por cento dos benefícios do INSS seguem o salário mínimo. O SUS depende de seu piso constitucional para manter o atendimento onde ele é mais necessário. Quando a sustentabilidade fiscal escolhe justamente esses dois alvos como prioridade, cabe perguntar: por que o ajuste começa sempre por quem mais depende do Estado? E, afinal, quem deve pagar essa conta?
Porque existe outra estrutura no orçamento brasileiro e ela raramente é submetida ao mesmo rigor crítico. Em 2026, o Congresso reservou R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, a maior parte de execução obrigatória. É mais do que o país investe no PAC. As renúncias fiscais concedidas a empresas e setores ultrapassam a meio trilhão de reais por ano, mais de um quinto da arrecadação federal, crescendo continuamente há duas décadas e concentradas, em sua maior parte, nas regiões mais ricas. O próprio ministro da Fazenda classificou esse conjunto como uma caixa-preta do orçamento.
A economia política chama esse fenômeno de institucionalismo discursivo: certas ideias se tornam dominantes não necessariamente porque venceram o debate, mas porque seus defensores ocupam espaços privilegiados de influência. Não se trata de questionar a boa-fé de ninguém. Trata-se de reconhecer que muitos dos economistas mais influentes trabalham em bancos e gestoras de patrimônio, setores diretamente afetados pela remuneração da dívida pública. Isso não invalida seus diagnósticos, mas ajuda a entender por que, entre várias soluções possíveis, sempre a mesma chega primeiro às manchetes.
Wolfgang Streeck descreveu esse deslocamento ao distinguir o povo que vota do povo que financia o Estado. Quando as decisões sobre as prioridades do orçamento passam a dar mais peso às expectativas de quem empresta dinheiro ao governo do que as necessidades de quem depende da aposentadoria, da saúde e dos outros serviços públicos, a democracia perde seu equilíbrio. O interesse financeiro passa a influenciar mais do que o interesse da maioria da população, dos que mais precisam do Estado. No Brasil, Leda Paulani já alertava, há quase duas décadas, que a política econômica frequentemente prioriza manter a confiança de quem financia a dívida pública, mesmo quando isso limita o crescimento da economia e o bem-estar da população.
Reconhecer esse quadro não significa negar a necessidade de ajuste. Significa que ele deve ser feito sem impor o maior sacrifício justamente a quem depende do Estado para viver com dignidade. Não se trata de privilégio, mas de justiça social. Existem alternativas que raramente recebem igual atenção: revisar benefícios tributários com prazo efetivo de validade; tributar dividendos, hoje isentos; reformar o sistema de emendas parlamentares impositivas; e, caso a desindexação avance, fazê-la de forma gradual, distinguindo benefícios previdenciários das políticas assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada - BPC.
Há ainda um efeito pouco lembrado. Desde 2006, a valorização do salário mínimo tornou-se um dos principais motores do consumo das famílias de menor renda, sobretudo nas pequenas e médias cidades. Esse dinheiro movimenta o comércio local, sustenta prestadores de serviço e alimenta a economia de milhares de pequenos empreendedores. Reduzir esse mecanismo em troca de um benefício futuro e incerto significa impor uma perda imediata justamente a quem dispõe de menos proteção. É também retirar recursos da economia real. A renda das famílias mais pobres retorna rapidamente ao consumo, movimentando o comércio, os serviços e os pequenos negócios das comunidades. Já a renda dos mais ricos tende, em maior proporção, a permanecer aplicada no sistema financeiro.
O Brasil não carece de conhecimento técnico para enfrentar seu desafio fiscal. O que falta é abrir espaço para que diferentes caminhos sejam discutidos com o mesmo respeito concedido à solução de sempre. A pergunta central já não é se o ajuste é necessário. É como ele será feito e sobre quem recairá seu custo.
Enquanto essa discussão permanecer restrita a um único roteiro, o ajuste continuará recaindo sobre quem sempre paga a conta e poupando quem quase nunca participa dela. Afinal, a pergunta que o Brasil ainda não fez é a mais importante de todas: quem deve pagar a conta do ajuste?
Giovanni Bevilaqua
