sábado, 12 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Flávio repete o pai e chega às urnas sob o peso de investigações da PF

Gente, acorda! Flávio Bolsonaro é o único candidato à Presidência da República, nas eleições daqui a 22 dias, investigado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — o único. E, convenhamos, não é pouca coisa.

De 1989 para cá, isso só aconteceu com outro candidato. Adivinhem qual… Sim, Jair Bolsonaro, em 2022, quando tentou se reeleger presidente. Por sinal, foi o único no exercício do cargo que acabou sendo derrotado. Não bastasse isso, é o único ex-presidente do Brasil formalmente julgado, condenado e preso pelo crime de tentativa de golpe de Estado. Família do barulho, essa.


Juntamente com seu irmão, Eduardo, que mora nos Estados Unidos sob a proteção de Donald Trump, Flávio é investigado desde julho último pela Polícia Federal. O inquérito foi autorizado pelo ministro ‘terrivelmente evangélico’ André Mendonça e apura suspeitas de crimes no financiamento do filme Dark Horse, em homenagem ao pai deles.

Mendonça levantou o sigilo sobre o caso a pedido de seu colega Edson Fachin, presidente do STF. Por ele mesmo, não o faria tão cedo; deixaria passar o primeiro e o segundo turno das eleições para não influir nos resultados nem prejudicar Flávio.

Para o escolhido pelo pai para herdar seus votos, a discussão sobre o filme ‘é página virada’ e ele não deve mais explicações. Esqueceu de combinar com Fachin. Esqueceu também de combinar com o cineasta, produtor e diretor do filme, o norte-americano Cyrus Nowrasteh, que utilizou sua conta na rede social X para afirmar que os valores amplamente divulgados pela imprensa sobre o custo do longa são ‘ridiculamente inflados’.

Eleitor que se diz contra a corrupção vota em candidato investigado por corrupção? Claro que sim. O antipetismo recusa qualquer coerência ou lógica.

Segundo Alice Maciel, repórter do ICL, empresas de Flávio dividem a mesma sala em Brasília com 16 firmas do empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como ‘Careca do INSS’. Antunes ganhou notoriedade nacional como o pivô de um esquema bilionário de fraudes e desvios envolvendo descontos associativos indevidos nas aposentadorias e pensões de milhões de beneficiários da autarquia. Ele está preso.

A sensação no entorno de Lula é que a semana termina melhor do que começou. Para Flávio, é o oposto.

O preço da negociação

Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.

Há que se distinguir algumas proezas nesse teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de ótima procedência. Tudo isso à custa da sangria de aposentados e pensionistas de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção foi o Distrito Federal. O Banco de Brasília (BRB) foi saqueado e chegou à beira da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.


É com esse pano de fundo que transcorre a eleição de 2026. Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição passada, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República por margem muito pequena. Mas não fez maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.

Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de um poder definido colocou o STF no centro dos debates. E os ministros, por consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O presidente da Corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana, quando o plenário da Casa se reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela TV Justiça?

Ao lado dessa confusão, é preciso estar atento a um detalhe: o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido, está em visita a três países no continente: Colômbia, Equador e Peru. Ele pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da Operação Lava-Jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento.

O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo, é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos norte-americanos.

A tradição política brasileira é a conciliação, desde a Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos. Em tempos recentes, Dias Toffoli foi flagrado em situação constrangedora. Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.

A crise no STF

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Não escapa aos olhos dos cidadãos mais atentos que a regra da separação e equilíbrio harmônico dos poderes tem sido substituída pela autonomização das instituições republicanas, em clara violação dos princípios erigidos e rediscutidos ao longo de séculos de consolidação do Estado de Direito.


A crise no Supremo Tribunal Federal expõe a rivalidade antirrepublicana entre poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas, usurpando a soberania do povo a quem devem a legitimidade de suas ações. Essa lógica fatal contamina as instâncias decisivas do poder estatal. Não se trata apenas de que as distintas instituições do Estado Democrático de Direito buscam abocanhar frações crescentes do poder. Pior que o pior: comportam-se, diante do cidadão, como forças estranhas e hostis, usurpando os poderes que deveriam ser exercidos em nome do interesse público. As autoridades judiciárias afundam sua ­reputação no lodaçal do narcisismo.

As recentes exibições de narcisismo das autoridades judiciárias na mídia e nas redes sociais são um exemplo impecável de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência aos valores do mundo das celebridades, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado da magistratura. Os cidadãos ainda vão ficar à mercê de um juiz youtuber.

Os processos sociais e econômicos que assolam o mundo contemporâneo são cruéis em suas contradições: adulam o sucesso individual e, no mesmo movimento, exercem o controle de mulheres e homens no propósito de aniquilar os resíduos de sua cidadania. Na era do ciberespaço, o domínio dos corações e das mentes é exercido com os métodos desenvolvidos nos laboratórios midiático-repetitivos encarregados de remover as sobras de razão que os indivíduos imaginam preservar.

A degradação do aparelho judiciário tem avançado sem qualquer reação daqueles que percebem o fenômeno e o abominam, mas que preferem se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam substituir as regras da (inter)dependência dos poderes pelos festivais de exibição midiática, encenados em um ambiente social entregue às farândolas do Pouco Pão e Muito Circo.

Não há limites à ação pessoal de autoridades atraídas pelos frêmitos e cintilações da “sociedade do espetáculo”, o brilhareco de 15 minutos de fama. São exemplos impecáveis de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência ao exibicionismo das telas e das manchetes, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado.

As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade. As conquistas da modernidade, das quais não se pode abrir mão, têm sido pisoteadas por quem deveria defendê-las. Ocultam à sociedade, em cujo nome dizem agir, a dedicação com que laboram para tecer a corda em que enforcarão as garantias individuais. É comum e corriqueira entre nós a transformação das prerrogativas funcionais em privilégios individuais e pessoais.

Nas repúblicas modernas, se é que temos aqui algo parecido com isso, figuram entre as cláusulas pétreas aquelas relativas à representação legitimada pelo voto, à impessoalidade na administração pública e à constituição de um sistema de poderes e garantias fundado na lei. O sistema de poderes e garantias ancorado na lei é o núcleo central do Estado de Direito. É isso que o obriga a punir, no exercício do monopólio da violência, as tentativas de opressão arbitrária de um indivíduo sobre o outro. O descumprimento dos deveres do ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel. Os códigos da cidadania moderna foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista daqueles que se consideram com mais direitos e poderes.

Diria Hannah Arendt que a banalidade do mal se transmuta no mal da banalidade.

Por que eleitor demorou a saber de investigação sobre Flávio?

A Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.


Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.

Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.

A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.

Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.

Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.

Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.

Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.

Do homem da mala para 'Dark Horse'

Antonio Carlos Freixo Junior, vulgo Mineiro, amigo de Flávio Bolsonaro, é o maior homem da mala que já existiu. Nos últimos quatro anos, segundo confessou à PGR, despachou R$ 1 bilhão em dinheiro vivo para os amigos de Daniel Vorcaro, a pedido deste. R$ 1 bilhão corresponde a 10 milhões de notas de R$ 100. Numa balança, pesariam 2,5 toneladas. Empilhadas, ocupariam um aposento de 5 metros quadrados do chão ao teto.


Mineiro fez todo esse carreto usando malas. Uma mala tamanho padrão comporta cerca de 20 mil notas, organizadas de forma a não deixar um milímetro vazio. Donde, se a aritmética não falha, 10 milhões de notas ocupam 500 malas. Mineiro as comprava no comércio de São Paulo, e tantas de uma vez que, segundo a repórter Malu Gaspar, de O Globo, o fabricante ofereceu vender-lhe as malas diretamente. Não se sabe ainda como essas malas viajavam aos felizes destinatários, se por correio, Sedex, motoboys ou estafetas. Mineiro também não sabe quem era a maioria desses destinatários nem seus endereços. Como fazia para as malas chegarem, ainda é um mistério.

Só se sabe que US$ 12,3 milhões desse dinheiro, equivalentes na época a R$ 61 milhões, foram destinados ao filme "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro, por intermédio do Havengate Development Fund, um fundo privado de investimentos sediado no Texas. O Havengate pertence a Paulo Calixto, advogado do ex-deputado e foragido Eduardo Bolsonaro, também residente no Texas. "Haven", em português, significa lugar seguro, abrigo, refúgio. "Havengate" é o portão do abrigo. Nome perfeito para, se for o caso, abrigar de forma segura o dinheiro de condenados refugiados.

O dinheiro enviado à Havengate voltou para o Brasil a fim de financiar a produção de "Dark Horse" pela Go Up Entertainment, produtora que nunca produziu um filme. Mas só vieram 28% do dinheiro, justamente o destinado à parte mais cara de uma produção: a filmagem.

É o único caso na história do cinema em que 72% do orçamento foram gastos antes de se rodar um só metro de filme.

A crise que nós plantamos

O chanceler da Alemanha disse que ficou chocado com a vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt. No entanto, essa vitória já era prevista pela quase totalidade dos observadores. Aqui, no Brasil, as pessoas parecem chocadas com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) como se ela fosse um raio em céu azul. No entanto, os contornos dessa crise já se desenhavam há algum tempo. Ela pode ser inédita, mas não inesperada.


Há muitos pontos de reflexão se não nos detivermos apenas no destino de ministros que se associaram ao banqueiro Daniel Vorcaro. As coisas não vinham bem no STF a começar pela compreensão de que os ministros nomeados deveriam ser aliados incondicionais do presidente que os indica. A indicação política foi contaminada pela polarização. Bolsonaro queria um ministro terrivelmente evangélico; Lula indicou dois aliados e sua última indicação foi barrada pelo Congresso. Existe uma tendência a naturalizar escolhas políticas, em detrimento das condições determinadas pela Constituição. Era de esperar que o confronto existente na sociedade se espelhasse ali, com todos os perigos que isso representa.

Não houve reação social à decisão de ministros de permitirem que seus parentes advogassem na Corte. Em alguns processos envolvendo bilhões de reais, parentes de mais de um ministro eram os advogados. De certa forma, essa decisão amplia as rendas familiares de forma exponencial.

Numa das análises sobre o STF no exterior, um jornal alemão chegou a dizer que a cobiça tinha arruinado a reputação dos ministros. Já era uma reação ao contrato entre o Banco Master e a família de Alexandre de Moraes, um acordo aparentemente com o escritório da mulher de Moraes, mas no fundo algo que envolvia diretamente o ministro, a julgar pela troca de mensagens.

Alexandre de Moraes combateu o bolsonarismo. Os outros ministros o apoiaram, mas deixaram que ele fosse a encarnação da luta. Era mais cômodo para eles. Também foi mais cômodo para a maioria não se intrometer nesse processo repressivo corrigindo seus excessos.

Nesse sentido, a experiência moderna do Brasil não foi muito diferente de outros países. A escritora iraniana Azar Nafisi conta, em seu livro "Leia Perigosamente", que a revolução islâmica foi muito dura com os seus adversários. Mas ninguém se importava muito, porque afinal as vítimas eram pessoas com quem não se concordava ou mesmo se desprezava. Essas soluções nunca dão bons resultados. Em alguns casos, a repressão se amplia, mas o silêncio de qualquer forma desumaniza aqueles que deveriam protestar, mas não o fazem.

Escrevi alguns discretos artigos sobre o tema, lembrando que a generosidade dos vencedores poderia ser um fator decisivo para abrandar o clima de hostilidade entre os brasileiros. Nos casos em que me envolvi pessoalmente, como o de uma jovem de Minas, que estava presa, fui atendido por Moraes, que a libertou imediatamente. Fiquei grato a ele, mas segui recebendo muitas denúncias.

O clima sempre foi de punição. Moraes era aplaudido em shows onde as pessoas gritavam “sem anistia”. Vozes que sugeriam outros caminhos para lidar com o problema tendiam a desaparecer. Esse clima de apoio ostensivo pode ter estimulado o ministro Moraes a seguir seu caminho em busca da fortuna material.

Todas essas coisas me vêm à cabeça no momento em que a extrema direita vence na Saxônia-Anhalt. O Brasil teve uma experiência de vitória de uma corrente radical em 2018. Bolsonaro fracassou na sua Presidência, tanto que, ao contrário dos outros, não conseguiu se reeleger.

Era para termos contido essa experiência radical. Mas ela volta a ser perigosa agora, nas eleições de 2026. Cabe uma pergunta importante: era para termos superado o problema. Como explicar que ela volte a aparecer como uma alternativa?

Essa é uma discussão importante. Infelizmente, não há clima para ela, pois as paixões não permitem dúvidas ou ambiguidades. Elas são preto e branco.

A vitória sobre Bolsonaro foi vista e proclamada como uma vitória da democracia. Dentro dos limites, ou até mesmo estourando os limites financeiros, foram realizadas políticas sociais de peso. A democracia triunfante em 2022, no entanto, não conseguiu responder à sensação de desânimo da população. Ela manteve muitos dos erros que deram a vitória a Bolsonaro.

Poderíamos ter feito de outro modo? Que mudanças deveriam ser feitas para que o distanciamento entre a política e as pessoas não fosse tão grande? Que políticas, como a segurança pública, precisaríamos adotar com seriedade e eficácia para evitar que o mercado eleitoral fosse inflacionado com imitadores de Bukele?

Tenho ainda uma visão de que a continuidade triunfará nas eleições, graças à popularidade do candidato e à dispersão e inexperiência da direita. No entanto, a vitória seria uma espécie de fim de linha. Se não caminharmos para reformas na política e na Justiça, o desgaste aumentará e o fantasma que ronda o mundo pode reaparecer com força no Brasil.

Se isso ocorrer, não teremos direito, como o chanceler alemão, de nos considerarmos chocados. Essas coisas não acontecem por acaso e têm uma longa gestação no trabalho incessante dos adversários e nas vacilações do processo democrático.