quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


E se pensássemos num Ministério da População?

Durante décadas, as contas foram sempre as mesmas e simples de fazer. Todos os anos, havia mais nascimentos do que mortes. E, naturalmente, entravam mais pessoas no mercado de trabalho do que aquelas que o abandonavam, por aposentação. Além de uma outra característica: com o crescimento da economia e a inflação, os salários de entrada em cada profissão também progrediam a um ritmo considerável, permitindo existir excedente para todos os meses pagar aos pensionistas – numa era em que a esperança média de vida era muito inferior à dos nossos dias.


Agora, tudo é diferente, embora tenhamos dificuldade em admiti-lo – de tal forma que ainda continuamos a chamar pirâmide etária a uma realidade demográfica que, em termos geométricos, passou a ter a configuração de um pentágono, visto que as crianças e jovens, que formavam a base do triângulo, deixaram de ser o sector mais numeroso da população. Esta é uma realidade transversal a quase todos os países desenvolvidos, onde as taxas de nascimento caem a pique, o crescimento económico é anémico em comparação com o de outras eras e, particularmente na Europa, a riqueza vem mais por herança do que por iniciativa empresarial, com todos os problemas de desigualdade que isso acarreta.

O Estado social e a nossa economia foram construídos no pressuposto de que a população iria sempre aumentar, que nunca perderíamos a base que alimenta o topo da pirâmide. O que sabemos, agora, é que a proporção dos idosos na população total está a crescer, enquanto a população ativa tende a diminuir cada vez mais. Essa realidade tem reflexos no sistema de pensões, mas também nos cuidados de saúde, no ordenamento do território, na educação e na economia em geral.




Até ao momento, o que se tem tentado fazer é olhar para cada uma das consequências de forma isolada. Como se fossem problemas de gestão sectoriais, quando, afinal, se trata de uma alteração muito mais profunda da sociedade e do nosso modo de vida. É preciso, urgentemente, mudar essa forma de olhar para a realidade. A demografia tem de passar a estar no centro das políticas e deixar de ser vista como um acessório ou uma nota de rodapé. E a política tem de voltar ao seu centro vital: servir as populações em vez de apenas querer ganhar os seus votos.

Tradicionalmente, a regra tem sido a de olhar para as políticas demográficas de forma sectorial, segundo a estrutura habitual de cada ministério. A Saúde preocupa-se com a natalidade e a longevidade, a Educação procura gerir os movimentos de matrículas, o Trabalho tem o foco na escassez ou no excesso de mão de obra e o Ambiente, tantas vezes, olha mais para a natureza do que para os movimentos populacionais. Para piorar as coisas, a recente onda populista no mundo tem procurado atirar os fluxos migratórios para os braços da Administração Interna e das forças de segurança, inquinando e impedindo o debate que era necessário.

A verdade é que só há três formas de fazer aumentar a população ativa, cada uma delas com prazos diferentes de concretização. Estimular e fazer aumentar os nascimentos é uma solução óbvia, mas qualquer política nesse campo demorará gerações a apresentar resultados. Elevar a idade da reforma ou aumentar a percentagem de idosos ativos, como se faz no Japão, será sempre um programa de médio prazo. Finalmente, a única solução que existe para resolver a equação depressa é importar mão de obra – acolher imigrantes e integrá-los convenientemente e com dignidade.

Todas essas três vias precisam de ser discutidas e debatidas dentro de uma política geral de população e de desenvolvimento do País. Se o fizermos, estaremos de certeza mais próximos de encontrar respostas sérias acerca da sustentabilidade da Segurança Social e até do próprio futuro do Estado-providência.

A demografia devia ser central na política dos nossos dias, com a taxa de fecundidade e as variações populacionais a serem debatidas com o mesmo fervor que se usa em relação ao défice orçamental ou ao valor da inflação. Se calhar, criar um Ministério da População poderia ser o primeiro passo para pôr a demografia no centro do debate. Com uma grande virtude: alinhar, dessa forma, a economia, o território, o trabalho, a educação, a imigração e a família sob uma mesma bússola estratégica. Planear em vez de nos limitarmos a reagir.
Rui Tavares Guedes

Quem vai prender a IA do Trump no drone do Putin?

Aconteceu finalmente! Um drone russo pilotado por uma IA dos EUA decidiu, por si próprio, matar três civis na Ucrânia. A palavra-chave aqui é “decidiu”. A pergunta-chave é “por que?”. Ou seja, por que uma arma decide que três pessoas abastecendo o carro representam uma ameaça de guerra a ser bombardeada? Foi uma tragédia histórica. Um ponto de virada. Uma máquina decide que seres humanos representam um risco e simplesmente atira contra eles, sem submeter sua decisão a nenhuma autorização superior humana.


Houve dilemas semelhantes em filmes de ficção onde computadores ou robôs tomam o controle de espaçonaves, aviões, armamentos e governos. Mas, na vida real é a primeira vez. Por que? A questão é polêmica. Assim que vi a TV noticiar o ataque do drone russo aos civis, comecei a perguntar a amigos (diplomata, militar, servidor público, político, empresário de TI e da sociedade civil) quem deveria ser responsabilizado pelo homicídio doloso praticado por um cérebro digital que resolveu emboscar e assassinar seres humanos inocentes.

Seis especialistas deram seis respostas diferentes: O próprio drone como efeito colateral; o operador do drone; o fabricante do drone; o fabricante do chip IA; o comandante da operação; a autoridade que comprou o drone… Uma pergunta foi frequente nas conversas: quem é o culpado quando alguém é morto por uma pistola, ou um míssil? Porém, no ataque na Ucrânia tem um detalhe que muda tudo. A máquina decidiu matar aquelas pessoas. Uma pistola e uma bomba não decidem matar pessoas. Não se dá voz de prisão a um revólver, nem mesmo ao seu fabricante, se a arma estiver em perfeito estado de funcionamento.

Aqui temos outra questão delicada no debate das armas autônomas. Que critérios um chip com IA utiliza para avaliar se alguém ou algo representa uma ameaça passível de eliminação? Por que um chip de uma empresa norte americana (Nvidia), implantado em um drone militar russo, sobrevoando a Ucrânia, concluiu que três pessoas comuns tocando seu dia a dia urbano deveriam ser bombardeadas? Pior ainda, a IA avaliou que aquelas pessoas seriam uma ameaça a quem? À Rússia? Ao drone? Ao chip? À Nvidia? Aos EUA? À humanidade? À vida? Ou representariam alguma espécie de ameaça aleatória genérica? Que características e atitudes sutis aquelas pessoas apresentavam naquele instante que fizeram com que a IA de Trump no drone de Putin identificasse uma ameaça digna de assassinato?

Os chips de IA, dotados de capacidade de aprendizado (machine learning), são fabricados e treinados para aprenderem respeitando parâmetros, critérios e propósitos pré-estabelecidos. Uma IA médica não toma decisões sobre engenharia hidráulica. Sendo assim, que tipo de ensinamento o fabricante do chip IA, o fabricante o drone, o comandante da operação, o ministro da Defesa, ou o presidente do País, estão introduzindo nos seus armamentos? Que acontece se a polícia utilizar drones autônomos em operações nas favelas e um chip com IA decidir que as crianças num parquinho representam uma ameaça a ser executada? Será que pobres e negros, por exemplo, parecerão mais ameaçadores? Tomara que aprendamos a lição com 2001 Uma Odisseia no Espaço e Matrix (antes que a IA o faça).

Um louco na Sala Oval

A verdade é que as coisas só têm piorado, o delírio agrava-se a olhos vistos e a tendência é para um agravamento progressivo. Uma das últimas pérolas trumpistas é a ameaça pública de que os Estados Unidos irão bombardear Omã “até à exaustão”, um país que é seu aliado no Médio Oriente, caso este acorde com a república islâmica uma rota de navegação segura através do estreito de Ormuz.

E nós a pensar que a atual crise na região se deveria ultrapassar através da diplomacia, de modo a acabar com o estrangulamento do estreito que está a afetar gravemente a economia mundial.

O louco da Sala Oval pensa que pode acordar um dia, maldisposto, e mandar bombardear não apenas um país inimigo, mas também um país amigo e aliado como o sultanato árabe de Omã, localizado no sudeste da Península Arábica, onde até tem uma base militar sua. E também acha que pode anunciar tal coisa ao mundo sem correr o risco de vir a ser internado num hospício.


Já sabemos que Trump se está a borrifar para o Direito Internacional e os tratados existentes ou a diplomacia e a ordem internacional. Já disse que o seu limite se reduz à sua consciência. Ora, a consciência de um louco deixa muito a desejar, por isso a lei considera os loucos como inimputáveis.

Mas a questão é esta, se o louco da Sala Oval ameaça bombardear um país aliado no Médio Oriente, o que fará com os europeus por quem repetidamente demonstra o seu desprezo e que insultou, ameaçou e atacou politicamente através do movimento MAGA, ao apoiar os seus adversários radicais?

Bem, poderíamos dizer que Trump é um problema dos estadunidenses. Foram eles que o levaram ao poder pelo voto, por isso agora aturem-no. Só que os Estados Unidos não são um país qualquer, muito embora esteja em acentuado declínio e em perda de influência global. Mas é evidente que ainda influencia o mundo ocidental, neste momento mais para o mal do que para o bem.

Por outro lado, existe um descontentamento interno cada vez maior com a política económica do presidente norte-americano e com o custo de vida no país. Segundo o Jornal de Negócios, “A menos de três meses das eleições intercalares de novembro, a sondagem nacional realizada pela Focaldata para o Finantial Times revelou que ‘mais de 53 por cento dos eleitores registados dizem que a sua situação financeira se deteriorou desde que Trump regressou à Casa Branca’, em janeiro de 2025.”

Além disso, a dívida pública do país ultrapassou, pela primeira vez na sua história, os 40 biliões de dólares (34,2 biliões de euros). A popularidade de Trump está incrivelmente baixa, rondando os 30 por cento.

Uma das últimas habilidades foi o regresso da reunião da NATO na Turquia quando, perante uma suposta ameaça, o presidente saiu às escondidas do avião oficial para não correr perigo mas deixou os seus colaboradores e jornalistas servirem de isco, entre eles a sua porta-voz que tinha sido mãe há poucas semanas e se demitiu de seguida.

A próxima jogada parece ser retirar aos estados as competências eleitorais a poucas semanas do ato eleitoral, de modo a manipulá-lo à vontade e tentar alterar a lei para correr de novo à Casa Branca. Em suma, Trump está a transformar um país de referência numa república das bananas.

Mas não podemos concentrar-nos em culpar apenas o louco da Sala Oval. Todo o seu círculo próximo tem elevada responsabilidade no estado a que chegou a Casa Branca. E nem sequer os jornalistas são capazes de tomar uma posição conjunta de boicotar a informação da Casa Branca enquanto o cavalheiro os continua a insultar em todas as conferências de imprensa.

É uma vergonha ver um governante dum país (ainda) democrático mandar calar os profissionais da informação e insultá-los com epítetos como “porca”, “falsa” e “uma desgraça”. Ninguém está a ver qualquer presidente republicano ou democrata a fazer nada que se pareça. Basta lembrar Obama, Biden, Clinton, Bush ou George W. Bush para não ir mais para trás.

Trump é o tipo de pessoa altamente tóxica com quem eu nunca deixaria que filhos meus ainda pequenos convivessem, por razões de higiene mental e moral.

Esperanças e utopias

Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-lo a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.
José Saramago, "O caderno"

O juiz de Deus

O salário, ainda que seja um bom salário, não te dá condições de ter uma vida sem preocupações financeiras. A gente tem que controlar a despesa no dia a dia.

André Mendonça, ministro do Supremo, ganha R$ 46 mil de subsídio por mês

A gramática da catástrofe e o fim do mundo

Há muito tempo aprendemos a reconhecer o fim do mundo. Ele tem uma gramática.

No Apocalipse, chega a cavalo. Conquista, guerra, fome e morte atravessam a Terra como sinais de que o tempo se esgota. A literatura cristã ocidental transformou essa gramática da catástrofe em uma poderosa narrativa de futuro: haverá um dia em que aquilo que conhecemos terminará. Um último dia. Um último julgamento. Um último mundo.

Séculos passaram e continuamos reconhecendo os cavaleiros.

Eles atravessam cidades bombardeadas, campos devastados, rios secos, florestas incendiadas. Chegam com a fome, as epidemias, os deslocamentos forçados, as violências que se acumulam e se sobrepõem. Mudam os cavalos, as armas, as fronteiras, as tecnologias. A gramática permanece. Guerra, fome, peste, seca, morte. E agora, a emergência climática.

A profecia parece estranhamente familiar porque o fim do mundo nunca pertenceu apenas ao futuro.

Em um conto de Dezső Kosztolányi (
O fim do mundo), Kornél Esti pergunta a seu interlocutor se ele costuma sonhar com o fim do mundo. A resposta surpreende menos pela frequência do que pela naturalidade. Cinco ou seis vezes por ano ele acaba com o mundo em seus sonhos. E conclui: “Parece que precisamos disso.”

Precisamos imaginar o fim.

A literatura faz isso há séculos. O cinema, a tv e as redes sociais, há menos tempo, porém, com majestática habilidade. Narram o fim, destroem cidades, exterminam civilizações, inventam dilúvios, pestes, alienígenas, monstros e guerras. Derrubam o céu para experimentar o que restaria depois. Kosztolányi parece compreender que imaginar o fim também é uma maneira de pensar sobre o mundo que construímos.

Julio Cortázar escolhe outro caminho. Em "O fim do mundo do fim", o apocalipse perde solenidade e ganha burocracia. A humanidade escreve. Escreve cada vez mais.

Os leitores tornam-se escribas. Multiplicam-se as fábricas de papel e tinta. Os escribas trabalham durante o dia, as máquinas imprimem durante a noite. A produção cresce até ocupar o espaço disponível. Livros acumulam-se, invadem territórios, chegam ao mar.

Cortázar inventou uma imagem quase perfeita do nosso tempo.


Produzir tornou-se uma espécie de prova de existência. Produzimos textos, dados, relatórios, mercadorias, indicadores, imagens, resíduos, informações, metas, avaliações. Criamos os produtores de conteúdo, como se alguém produzisse algo sem ele. Nunca escrevemos tantas mensagens, stories e reels. Produzimos conhecimento e também ruído. Registramos a vida enquanto a vida acontece. Medimos o mundo enquanto o consumimos.

No conto, quando os livros finalmente ocupam espaço demais, encontra-se uma solução perfeitamente racional: lançá-los ao mar. Enquanto isso, presidentes das repúblicas refugiam-se em transatlânticos transformados em ilhas, celebrando grandes festas e trocando mensagens entre si. Na Terra, os escribas sobrevivem precariamente.

É difícil encontrar uma metáfora mais adequada para uma civilização capaz de produzir as condições de sua própria destruição e continuar chamando esse movimento de progresso. Aqui podemos enxergar os bilionários dos combustíveis fósseis e dos data centers, as fazendas de sacrifício de milhões de animais criados para nos alimentar.

Durante muito tempo, aprendemos que a história caminhava para a frente. Desenvolvimento social, crescimento econômico, ciência e tecnologia pareciam conduzir inevitavelmente a mais conhecimento, mais conforto, mais liberdade, mais futuro. A própria ideia de progresso organizou uma linha do tempo na qual alguns povos estavam adiante e outros permaneciam atrás. Os que viviam de outras maneiras receberam nomes conhecidos: atrasados, primitivos, arcaicos, subdesenvolvidos.

O problema dessa linha é que ela termina sempre no mesmo lugar.

Existe um único destino desejável, uma única forma de desenvolvimento, uma única relação possível com a natureza, uma única ideia de riqueza, uma única medida de sucesso. Para chegar até lá, florestas podem cair, rios podem morrer, povos podem desaparecer. Tudo cabe na contabilidade do progresso.

É uma curiosa pedagogia do fim do mundo. Ensina-se que destruir certos mundos é o preço necessário para construir o mundo. Por isso a pergunta precisa mudar. De que mundo estamos falando quando falamos do fim do mundo?

Para muitos povos, o mundo já acabou. Acabou quando perderam seus territórios. Quando suas línguas desapareceram. Quando suas crianças foram arrancadas de suas comunidades. Quando seus conhecimentos foram tratados como superstição. Quando seus deuses receberam o nome de demônios. Quando suas maneiras de viver foram transformadas em atraso e suas terras, em recursos.

O fim do mundo, para milhões de pessoas, nunca foi uma hipótese distante. É experiência histórica e ameaça cotidiana: o desaparecimento de línguas, culturas, cosmovisões, práticas, saberes, territórios, identidades e, no limite, dos próprios corpos.

É por isso que Ailton Krenak respondeu de maneira tão desconcertante quando lhe perguntaram, em 2018, como os povos indígenas sobreviveriam àquilo que se anunciava no Brasil. Há quinhentos anos os povos indígenas resistem, respondeu. Sua preocupação era outra: como os brancos escapariam dessa?

A resposta-pergunta, astuta e disruptiva, inverte a gramática da catástrofe.

Quem imaginava estar conduzindo a humanidade ao futuro descobre-se incapaz de garantir o próprio futuro. Quem foi inúmeras vezes declarado condenado ao desaparecimento conhece há séculos tecnologias de sobrevivência, memória e resistência.

O fim do mundo muda de lugar. E muda também de tempo.

Ele deixa de ser apenas o grande acontecimento futuro que encerrará a história e passa a ser compreendido como experiência repetida. Mundos acabam todos os dias. Alguns desaparecem silenciosamente. Outros sobrevivem porque alguém conta uma história, ensina uma língua, preserva uma memória, planta novamente, canta, dança, escreve, cuida, lembra.

É nesse ponto que a gramática da catástrofe encontra outra gramática: a gramática do adiamento.

Ailton Krenak propõe adiar o fim do mundo ampliando nossa experiência, reconhecendo outras formas de estar aqui, contando mais uma história. Adiar significa abrir espaço para outros presentes e, com eles, outros futuros. Chama atenção para essa possibilidade de ampliar o presente, retirando do futuro único o poder de condenar todas as experiências que seguem outros caminhos.

É aqui que entram as escolas.

Todos os dias, milhões de crianças e jovens entram em salas de aula levando mundos consigo. Levam histórias de suas famílias, territórios, religiões, culturas, músicas, medos, desejos, conhecimentos, palavras e perguntas. Encontram professores que também carregam seus mundos. E dessa conversa, sempre imperfeita, surgem conhecimentos que nenhum documento curricular conseguiria prever por inteiro.

Currículo é também isso: o encontro entre mundos, o fim de uns mundos e o sonho com outros. Sonhar com outros mundos possíveis é parte do currículo escolar todos os dias.

Uma professora altera o planejamento porque uma criança fez uma pergunta. Uma história contada por uma avó entra na sala. Um evento climático extremo na cidade muda a aula. Uma palavra desconhecida obriga todos a pesquisar. Um conflito exige conversa. Uma memória reaparece. Um conhecimento que permanecia do lado de fora encontra lugar.

São acontecimentos pequenos diante dos cavaleiros do Apocalipse.

Ainda assim, carregam uma enorme força política.

A escola pode funcionar como máquina de repetição da história única, ensinando que existe um conhecimento legítimo, uma cultura superior, um caminho correto e um futuro já desenhado. Também pode transformar-se em lugar onde muitas histórias encontram condições de existir. Contar histórias é também enfrentar genocídios porque todo genocídio começa ou se completa tentando apagar histórias.

Essa segunda escola interessa especialmente quando o mundo parece diminuir.

Nos cotidianos escolares, professores criam currículos aproveitando as ocasiões que aparecem, inventando aquilo que cada circunstância pede e possibilita. Seus currículos são feitos de conhecimentos pessoais, sociais e culturais colocados em conversa. É nessa criação cotidiana que a escola amplia o mundo em vez de reduzi-lo.

Podemos chamá-las de escolas da gramática do adiamento.

Uma escola que conta para conhecer e conta para existir. Que entende cada história como presença e cada presença como possibilidade de mundo. Uma escola capaz de ensinar que nenhuma narrativa esgota a experiência humana e que o futuro permanece aberto enquanto pudermos imaginar mais de um.

Contar histórias, nesse sentido, é enfrentar apagamentos.

É guardar mundos e adiar seu fim.

É oferecer às crianças aquilo que toda gramática da catástrofe tenta sequestrar primeiro: a possibilidade de imaginar futuro.

Há uma ironia bonita em voltar, então, a Cortázar. Seus escribas escreveram tanto que acabaram soterrados pela própria escrita. As escolas da gramática do adiamento fazem outro movimento. Escrever para circular. Contar para encontrar. Escutar para aprender. Guardar aquilo que merece atravessar o tempo e abrir espaço para aquilo que ainda não foi contado.

Porque o fim do mundo é antigo. A sabedoria está em aprender a adiá-lo.

Krenak lembra que povos submetidos a sucessivos fins do mundo continuam aqui. Empurraram o céu para cima, produziram resistência, preservaram histórias e inventaram maneiras de continuar. Em nossos trabalhos sobre educação, essa imagem já nos levou a pensar escolas e outros espaços educativos como lugares capazes de empurrar o céu para cima e adiar o fim do mundo.

Essa é uma das tarefas mais bonitas da educação.

Ensinar que o mundo pode ser contado de muitas maneiras.

Fazer circular histórias que sobreviveram às tentativas de apagamento.

Criar condições para que histórias ainda desconhecidas possam nascer. Assim fizemos nas escolas, quando, ainda recentemente, a pandemia de Covid acabava com o mundo de forma catastrófica e, nas escolas, tentávamos adiar seu fim, fosse contando sobre os vivos, ou homenageando os mortos.

E, enquanto os velhos cavaleiros apocalípticos continuam atravessando o presente, manter aberta uma escola onde caibam muitos mundos é uma gramática anti-catástrofe.

Contar mais uma história pode ser apenas isso: adiar o fim do mundo por mais um dia.
Maria Luiza Süssekind