domingo, 13 de setembro de 2026

Pensamento do Dia



Pode acontecer

Pode acontecer o seguinte. As revelações sobre o envolvimento de figuras do governo passado em crimes e escândalos chegam a ponto crítico. Civis e militares de graduação inimaginável veem-se na iminência não de ir para a cadeia, o que contraria os hábitos brasileiros, mas de serem expostos como corruptos, torturadores, etc. O que, sei lá, seria chato. Os protestos contra “revanchismo” não adiantam. É preciso agir para deter a torrente de denúncias que ameaça destruir, na sua fúria persecutória, tudo o que o regime passado deixou de bom. 


Como, por exemplo, o, a… hm. Bem, é preciso agir. O golpe é decidido num telefonema no meio da noite. Falam em código.


– Alô, Mão em Cumbuca? Boca na Botija.

– Fala, Boca.

– Tudo certo para amanhã?

– Tudo.

– Tem certeza?

– Tenho. Houve resistência, mas o argumento de que até o Antônio Carlos está nas mãos dos comunistas foi decisivo. A maioria aderiu.

– Quer dizer que…

– Lá vamos nós outra vez.

– Será que não há mesmo outro jeito?

– Bem, se você quer ver nos jornais a história de como você roubava material do seu gabinete para vender…

– Ssssh!

– Nunca entendi. Você não se contentava com seu salário de…

– Sssshh!

– Tinha que vender os clipes de papel?!

– E você? E você?

– O que que tem eu?

– E o cabaré no porão do

– Ssshhh!

– Bom, agora não adianta ficar lamentando. O importante é que ninguém descubra. Como está o plano?

– Não pode falhar. Cercaremos o Congresso. Os congressistas se renderão. Usando os congressistas como reféns, exigiremos a capitulação do governo e das forças leais a Sarney.

– Uma vez no poder, censuraremos a imprensa. De novo.

– Exato.

– Boa sorte, Mão!

– Certo, Boca. No dia seguinte.

– Alô, Mão em Cumbuca?

– Não tem ninguém aqui com esse codinome.

– Já vi que não deu certo…

– É.

– O que houve?

– Atacamos o Congresso. Fomos direto ao cerne da democracia. Cercamos o prédio. Entramos para render os congressistas.

– E?

– E não encontramos ninguém!

– O quê?!

– Bom, para não dizer que não tinha ninguém, tinha uma taquígrafa. Pensamos em usá-la como refém mas acabamos desistindo.

– Assim não dá!

– É. É impossível golpear as instituições se elas não estão onde deviam estar!

– O que vamos fazer agora, Mão?

– Eu se fosse você dava o fora do país, Boca.

– E de onde você pensa que eu estou falando, Mão?
Luis Fernando Veríssimo

O arco conservador nas Américas

Enquanto Marco Rubio costurava em Bogotá, Quito e Lima um arco andino de governos alinhados a Donald Trump, o Brasil assistia à debacle moral do Supremo. Não é uma confluência feliz: os Estados Unidos intensificam drasticamente sua projeção de poder no hemisfério, quando o Estado de Direito no Brasil expõe fissuras em sua esfera de decisão última.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.

No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.


No Peru, Keiko Fujimori aderiu ao Escudo das Américas, coalizão de Trump contra cartéis. Por determinação de Trump, o país já havia sido tornado aliado extra-Otan. Segurança, minerais críticos e contenção da China são os vetores de atração para os EUA. É a “Doutrina Donroe” em marcha: prioridade ao hemisfério, combate aos cartéis, redução da presença chinesa e uso combinado de poder militar, comercial e financeiro. Washington constrói uma faixa de alianças na costa do Pacífico, contígua às fronteiras brasileiras.

Se Flávio Bolsonaro vencer, o maior país da região poderá completar esse arco por afinidade ideológica. Se Lula for reeleito, Trump procurará moldar o comportamento brasileiro por meio de pressões econômicas e a sinalização de coerção militar. Não será preciso romper com Brasília. Bastará aumentar o preço da autonomia.

É aí que a crise do STF ganha dimensão externa. A guerra entre ministros, as suspeitas envolvendo o Banco Master e a dificuldade da própria Corte de investigar seus integrantes corroem sua autoridade moral. Isso não leva necessariamente à falência da democracia. Mas reduz o capital institucional e político para resistir a pressões estrangeiras.

O governo americano impôs sanções a Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, em julho de 2025, retirou a punição meses depois e agora discute retomá-la. Quanto menos legítima parecer a Corte, mais fácil será apresentar sanções contra ministros como defesa de direitos, e não ingerência.

A vulnerabilidade brasileira não está apenas na Amazônia, no crime organizado, nos minerais ou na precariedade militar. Está também na qualidade de suas instituições. Potências exploram divisões internas. A melhor defesa contra a nova projeção americana não é retórica soberanista. É recuperar credibilidade em casa.

Cerimedo: Bots, desinformação e poder na América Latina

"Mercenário digital" é um termo frequentemente usado para descrever Fernando Cerimedo. O consultor político argentino fez das redes sociais seu principal campo de atuação e levou suas estratégias muito além das fronteiras do seu país. Seu nome tem sido associado a campanhas e figuras políticas no Brasil, Chile, Bolívia e Honduras, além da Argentina.

Sua prisão na Bolívia, em 18 de agosto, sob a acusação de contratar assassinos para matar sua ex-companheira grávida, desencadeou um escândalo que revelou a extensão de suas operações na América Latina: ligações políticas, campanhas de desinformação, fazendas de trolls e contas falsas.

Cerimedo é "um especialista em estratégias de desinformação, manipulação de redes sociais, criação de bots e treinamento de pessoas para atuarem como trolls", disse Soledad Vallejos, autora de "Os Donos da Liberdade", livro sobre as redes da nova direita na América Latina. Essas estratégias, explica ela, permitem que eles criem e amplifiquem conteúdo nas redes sociais até que ele chegue à grande mídia e, por fim, ao discurso político.

"O que aconteceu na Bolívia trouxe à tona muito do que Cerimedo vinha fazendo por toda a América Latina", disse o jornalista Mauro Federico, que investiga suas atividades e conexões há anos. O padrão, ele destaca, se repete com variações locais em diferentes países: forte presença digital, campanhas negativas apoiadas por contas automatizadas e, após uma vitória eleitoral, uma aproximação ao círculo íntimo do poder, muitas vezes sem um cargo formal que implique responsabilidade. Esse comportamento, afirma ele, "caracterizou-se pela impunidade com que ele operava".


No Brasil, onde trabalhou para Jair Bolsonaro, o controverso estrategista digital foi investigado pela Polícia Federal por seu papel na conspiração golpista após as eleições de 2022. Na Argentina, ele fez parte da estratégia de comunicação de Javier Milei durante a campanha presidencial de 2023. O especialista consultado afirma que sua influência na rede digital de Milei era tamanha que, após sua recente prisão, "a fazenda de bots e trolls que apoiava o presidente argentino parou de funcionar ".

No Chile, uma comissão da Câmara dos Deputados está investigando possíveis ligações entre Cerimedo e o círculo íntimo do presidente José Antonio Kast, bem como o uso de bots em campanhas políticas. Kast admite conhecer o consultor argentino, mas nega que ele tenha trabalhado para ele.

Em Honduras, Cerimedo levou suas estratégias de comunicação digital para a campanha presidencial de Nasry Asfura em 2025. No México, a presidente Claudia Sheinbaum acusou o jornal La Derecha Diario, cofundado por Cerimedo, de usar bots e contas pagas para disseminar informações falsas e influenciar a opinião pública. E na Bolívia, ele colaborou na campanha de Rodrigo Paz e, como o próprio presidente reconheceu, continuou a cooperar no início de seu governo.

As conexões, no entanto, não terminam na América Latina. Vallejos lembra que a Cerimedo registrou o domínio da CPAC Argentina em 2021, a versão local da Conferência de Ação Política Conservadora, que teve origem nos Estados Unidos e está ligada ao trumpismo. Federico a situa dentro de "uma rede que se originou das atividades de grupos nos Estados Unidos que trabalharam com Trump" e que posteriormente se espalhou por toda a região, com componentes financeiros, logísticos e políticos.

Ao analisar esses tipos de redes, o advogado boliviano Ramiro Orias, diretor do Programa de Corrupção e Direitos Humanos da Fundação Devido Processo Legal (DPLF), concentra-se na opacidade. Em entrevista a esta publicação, ele argumenta que a cooperação política internacional é legítima, mas que a falta de transparência dificulta saber "quem financia, quem decide, quem executa" essas operações e se elas perseguem objetivos ilegítimos.

O alcance regional dessas redes também contrasta fortemente com a capacidade de resposta das instituições. "Há uma clara assimetria: as redes políticas e digitais podem operar regionalmente em tempo real, enquanto as instituições continuam a funcionar principalmente dentro das jurisdições nacionais", destaca Orias. "Nossas democracias ainda estão regulamentando a política do século XXI com ferramentas projetadas para a política do século XX", resume ele.

Nesse cenário, Cerimedo é, em última análise, uma "peça operacional" em uma rede muito maior, nas palavras de Federico. "Ele é facilmente substituível", concorda Vallejos, definindo-o mais como um ponto de interseção de interesses, trajetórias e fundos do que como o mentor por trás dessas redes.

A prisão desse rei caído da desinformação provavelmente mal revelou a dimensão do que operava nos bastidores.

Narcisismo patológico de Trump é um perigo

Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.


No início, escreveu o jornalista, o feed do presidente americano nas redes sociais era visto como espelho de seu “id”. Mas, desde a incorporação de recursos de IA às postagens, elas passaram também a expressar como Trump deseja ser visto pelo mundo: um guerreiro, um conquistador, uma figura histórica, uma versão mais jovem, mais magra e mais musculosa de si mesmo. Elas servem, sobretudo, de termômetro de seu estado mental aos 80 anos. Uma mente movida a delírios, vaidade e violência.

Os fins de semana e feriados, quando Trump dispõe de menos assessores e mais tempo ocioso, parecem despertar seus fantasmas interiores. As 60 postagens analisadas foram disparadas em rajadas intermitentes de seu clube de golfe em Bedminster, estado de Nova Jersey. Nelas, há muito de (Trump esmaga o Irã com um martelo gigante, subjuga o primeiro-ministro do Canadá com um taco de beisebol) e uma montanha de infantilidades, como o redesenho do mapa-múndi em versões cada vez mais vorazes.

Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar. Como é sabido, Trump evitou o alistamento militar durante a Guerra do Vietña graças a um diagnóstico de esporões ósseos assinado por um médico que era inquilino de seu pai. Ainda que nunca tenha servido ao país, surge num uniforme militar para posar entre os generais históricos George S. Patton e Douglas MacArthur — cortesia da inteligência artificial.

Para os apoiadores de Trump, essa forma de comunicação direta e sem filtros é considerada “autêntica” e eficaz, pois consegue desencadear horror e alarme nas hostes democratas. Há um deleite ostensivo em ver o adversário levar a sério o que seriam meros trolls bem-humorados. Na verdade, o que precisa, sim, ser considerada é a capacidade mental, física, intelectual e moral de Trump no comando da grande potência em declínio.

— Chega. Nada disso é normal ou aceitável — escreveu Chellie Pingree, democrata do Maine citada por Peter Baker.

Um narcisista patológico no poder — com apenas 30% de aprovação popular, atolado até a cintura na guerra que desencadeou contra o Irã, sem solução para as guerras na Ucrânia e em Gaza, e às vésperas de uma eleição de meio de mandato em que arrisca perder maioria na Câmara e no Senado — é um perigo real. E mundial.

Um indivíduo que se utiliza do dantesco atentado terrorista múltiplo de 2001 contra as Torres Gêmeas para se vangloriar de proezas pessoais, inventadas, não pode ser considerado pessoa equilibrada. Na sexta feira, 11 de setembro, Trump não se perfilou junto aos ex-presidentes dos Estados Unidos reunidos no local da hecatombe de 25 anos atrás para a sempre pungente homenagem aos mortos na tragédia. A cerimônia anual não abre espaço a discursos de políticos, e comove precisamente por isso. A leitura do nome e sobrenome de cada uma das 3 mil vítimas — feita por algum pai, mãe, avô, irmão, filha, neto ou amigo da família — basta. São centenas de origens, etnias, naturalidades e procedências unidas pela morte.

Trump preferiu comparecer à cerimônia realizada em Washington, pelo Pentágono, cujo prédio também foi atingido por um dos voos suicidas de 25 anos atrás. Ali, pôde falar à vontade. E Narciso falou. Descreveu com requintes uma cena de que não existe a mais remota comprovação: ele teria se deslocado ao local das Torres Gêmeas logo depois do atentado e sido carregado para fora da zona de perigo por dois bombeiros:

— Dois caras grandes e fortes — recordou com nostalgia.

Tampouco existe qualquer evidência de outra alegação feita por Trump, de ter ajudado na limpeza da área e testemunhado cenas horríveis de corpos espalhados pelos escombros. Tem mais: nenhum bombeiro, socorrista ou policial jamais viu os 100 ou 200 operários que Trump alega ter despachado para o local em ruínas. O único fato concreto é que ele acompanhou o 11 de Setembro do alto da Trump Tower, localizada na Quinta Avenida em Midtown Manhattan, a seis quilômetros de distância do horror.

O atentado que fez desmoronar certezas consolidadas desde o final da Segunda Guerra emociona a família humana até hoje — à exceção dos terroristas islâmicos e de Donald Trump.
Dorrit Harazim

No que Flávio Bolsonaro quer que acreditemos, vejam só...

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Vale o mesmo quando se trata de vazamento de informações. Quer um exemplo? Pois bem: Flávio Bolsonaro celebrou o vazamento de informações que emporcalhou para sempre a reputação do ministro Alexandre de Moraes, conselheiro informal do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. No imaginário coletivo, Moraes é Lula e Lula é Moraes, que condenou à prisão o pai de Flávio por tentativa de golpe de Estado.


Agora, é Flávio quem se diz atingido por um vazamento de informações que tem como objetivo enfraquecer sua candidatura à Presidência da República, quando faltam apenas 21 dias para o primeiro turno das próximas eleições. Isso é uma falsa equivalência. No caso dele, não se trata de vazamento, mas de levantamento de sigilo, por ordem do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), do inquérito que o investiga por crimes de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O povo tem o direito de saber de tudo. Por que não?

Moraes, por sua vez, recusa-se a explicar suas relações estreitas com Vorcaro desde que o Banco Master começou a quebrar. Os dois trocaram 28 mensagens às vésperas de Vorcaro ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. Numa delas, do dia 15, o ex-banqueiro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Em outra, no dia 16, sobre a possibilidade de ser detido, insistiu: “Você acha que existe alguma chance de isso acontecer amanhã de manhã?”. Ele acabou sendo preso na noite do dia 17 ao tentar fugir do país.

No total, peritos da Polícia Federal identificaram que Vorcaro utilizou 52 notas em seu aplicativo para redigir textos que, posteriormente, eram transformados em imagens e enviados a Moraes. Pelo lado do ministro, foi mapeado o envio de quatro mensagens com visualização única destinadas a Vorcaro no próprio dia da prisão do banqueiro. O que complica ainda mais a situação de Moraes é o fato de que sua mulher atuou como advogada do Master, cobrando por isso a bagatela de R$ 131,2 milhões.

Mão aberta, esse Vorcaro. Ele repassou cerca de R$ 65 milhões para financiar o filme Dark Horse a pedido de Flávio. “Dinheiro privado”, segundo o candidato, apesar de Vorcaro, por meio de fraudes e do pagamento de subornos, ter tido acesso a farto dinheiro público.

Flávio simula tranquilidade. Desde o fim da ditadura militar de 1964, ele é o segundo político a cobiçar a Presidência na condição de investigado pelo STF – o primeiro foi seu pai nas eleições de 2022. “Graças a Deus, o sigilo foi afastado de tudo e às claras para todo mundo ver o que eu sempre disse, que não tem absolutamente nada de errado nesse filme”, declara. Parodiando Fernando Pessoa, o poeta português: “O político é um fingidor. Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”.

A biblioteca, a fogueira e o feed

Em 2008 estive na Biblioteca Angélica, em Roma. Fica ao lado da Piazza Navona, escondida atrás de uma igreja agostiniana. E mudou-me a forma de ver o mundo. Mas calma, que eu explico.

Eu era bibliotecária. E nesse dia, tive nas mãos um manuscrito com quase mil anos. Pergaminho a sério, não é papel. Tinta feita à mão por alguém que morreu séculos antes de eu nascer. E tremia. Não o manuscrito. Eu.

Houve bibliotecas abertas a toda a gente no mundo antigo. Alexandria teve a maior de todas. Há dois mil e trezentos anos, uma pessoa que não sabia ler podia sentar-se e ouvir alguém a ler para ela. Grátis. Ao ar livre. O primeiro podcast da história era em papiro e não tinha patrocínios. E depois perdeu-se. Ninguém sabe ao certo se ardeu, se foi destruída, se simplesmente a deixaram morrer. Mas o saber desapareceu. E durante quase mil anos, ficou trancado em mosteiros. Quem o guardou foi a Igreja. Quem o trancou também.


Em 1604, um bispo chamado Angelo Rocca fez uma coisa estranha: abriu uma biblioteca em Roma para toda a gente. Sem limites de classe. Sem limites de riqueza. Qualquer pessoa podia entrar. A Biblioteca Angélica guarda duzentos mil volumes. Mas a parte mais bonita não é o tamanho. É que a Igreja lhe deu autorização especial para guardar livros proibidos. Livros que a própria Igreja mandou queimar estão lá dentro, intactos. O homem do Vaticano abriu a porta que o Vaticano queria fechada. E guardou o que o Vaticano queria destruir. Se isto não é subversão, não sei o que é. Um padre subversivo. Filha, isto é o meu tipo de padre.

Eu tive um desses livros nas mãos. E percebi que sem aquele objeto, sem a cadeia de gente que passou a vida a copiar à mão o que outros tinham pensado, não haveria ciência, não haveria democracia, não haveria nada do que hoje damos como adquirido. A civilização é um manuscrito copiado à mão. E quem controla o manuscrito, controla a civilização.

Durante quase dois mil anos, quem controlou o manuscrito foi a Igreja. O Vaticano é o data center mais antigo do mundo. Não usa servidores. Usa abóbadas. Não guarda ficheiros. Guarda segredos. Os Arquivos Apostólicos, que até 2019 se chamavam Arquivos Secretos, não são de livre acesso. Dois mil anos de informação controlada por uma instituição que decidiu que o conhecimento era perigoso demais para ser partilhado.

Não é paranoia. É modelo de negócio. Quem detém o conhecimento, detém o poder. E durante séculos, a Igreja não só controlou o que se sabia. Controlou o que se sentia. A relação das pessoas com o sagrado, com o corpo, com o medo, com a morte, com o amor. Não precisou de algoritmo. Precisou de púlpito. E de fogueira para quem perguntasse demais.

E o que é que esconderam? Tudo o que não cabia na narrativa. Antes de Abraão, antes do deus único e masculino, havia deusas. Inanna na Suméria, Ishtar na Babilónia, Astarte em Canaã. Havia sacerdotisas. Na Mesopotâmia, os templos tinham sacerdotes chamados gala, que não eram homens nem mulheres, e que eram considerados sagrados precisamente por isso. A arqueologia documenta-o. A ciência confirma-o. Havia Lilith, que, segundo o próprio texto hebraico, recusou ser submissa e saiu do Paraíso por vontade própria. O monoteísmo não inventou Deus. Inventou o masculino de Deus. E tudo o que era feminino, fluido, ambíguo, múltiplo, ficou trancado na cave dos arquivos ou ardeu na fogueira. O manuscrito que eu tive nas mãos sobreviveu. Eu também. E olhem que as probabilidades não eram grandes para nenhum dos dois. Milhares não tiveram essa sorte. E o que eles diziam, nunca saberemos.

Se meia dúzia de escribas conseguiram manter este poder durante dois milénios com tinta e pergaminho, imaginem o que vem a seguir.

Os donos das plataformas digitais não são os novos reis. São os novos papas. Não controlam territórios. Controlam atenção. Não têm exércitos. Têm algoritmos. Não escrevem bulas papais. Escrevem termos de serviço que ninguém lê e que dizem, no fundo, o mesmo que a Igreja sempre disse: confia em nós, não precisas de perceber como funciona, basta aceitar. Como a missa em latim. Séculos de gente a rezar sem perceber o que dizia, a quem dizia, nem porquê. E aceitava. Porque quem não aceita, arde. Agora em vez de latim é código. Em vez de incenso é dados. Mas a congregação continua de joelhos.

A IA vai colonizar o pensamento. Não com violência. Com conveniência. Com respostas antes de teres feito a pergunta. Não vais perceber que já não estás a pensar. Estás a ser pensado.

A Igreja opera sem escrutínio. A Santa Casa fiscaliza os seus próprios jogos. A Igreja investigou os seus próprios abusos de crianças. O réu é o juiz. O padrão é sempre o mesmo.

Uma Igreja fundada no mito de um homem que jantou com prostitutas e lavou os pés aos pobres. E o que fizeram com ele? Construíram o edifício mais rico do mundo. E continuam a chamar-se seguidores de um homem que não tinha onde dormir.

Eu não tenho problema com a fé. Tenho problema com a empresa que a sequestrou.

Do manuscrito ao algoritmo, a lógica é a mesma: quem controla a informação, controla o mundo. A diferença é que o monge copiava um manuscrito por ano. O algoritmo copia-te a ti em milissegundos. E quando te copia, não te está a preservar. Está a prever. E quem te prevê, controla-te antes de saberes que foste controlado.

Naquela tarde em Roma, com o manuscrito nas mãos, senti o peso do que foi preciso para chegarmos até aqui. Séculos de mãos a copiar. De olhos a arder à luz de velas. De gente que morreu para que o saber não morresse com eles. E agora olho para o ecrã e pergunto: quem está a copiar agora? E para quem?

A biblioteca era de todos. O algoritmo é de sete. Sete. Como os pecados capitais. A cabeça e o cofre.

E enquanto o algoritmo te distrai com o feed, alguém está a comprar o monte onde acampavas, o prédio onde moravas, o bairro onde cresceste. Os novos papas não precisam de abóbadas. Precisam de escrituras.

E a pergunta que ninguém faz: se a Igreja precisou de dois mil anos para perder o monopólio da verdade, quanto tempo vão demorar estes? Eu cá já estou a contar.

Flávio e Moraes receberam a mesma grana do mesmo esquema

Se as acusações contra Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes forem verdadeiras, os dois foram cúmplices.

É estranho, eu sei.

Flávio Bolsonaro é filho do maior criminoso da história do Brasil. Alexandre de Moraes foi o juiz que prendeu o pai de Flávio por seu segundo pior crime, a tentativa de golpe de 2022 (o maior foi o assassinato em massa durante a pandemia).

É possível que o filho do bandido e o juiz que o prendeu estejam no meio da mesma mutreta?

Ao que parece, sim.


Flávio Bolsonaro é o herdeiro do movimento político que deu autorização para que Vorcaro virasse banqueiro, que deu bilhões em dinheiro de aposentados para o Master, que tentou salvar o Master elevando a cobertura do FGC, que tentou dar ao Congresso poder para demitir diretores do Banco Central que não aceitassem suborno de Vorcaro, que deu bilhões de reais do BRB (Banco Regional de Brasília) para evitar que o Master quebrasse.

Recebeu de Vorcaro a promessa de R$ 140 milhões. Não, não foi para fazer filme. Está cada vez mais claro que "Dark Horse" era um esquema que permitia aos deputados e prefeitos bolsonaristas, além do eternamente grato Daniel Vorcaro, desviarem dinheiro para o grande caixa 2 bolsonarista.

Se as suspeitas contra ele forem verdadeiras, Alexandre de Moraes chegou ao escândalo no final, quando o Master já estava indo para o buraco e precisava comprar juízes. Chegou atrasado, mas chegou gloriosamente: com uma promessa de R$ 130 milhões de Vorcaro.

Ainda não sabemos o que Moraes fez, ou teria feito, para justificar um investimento dessa grandeza da parte de Vorcaro. No mínimo, o Farialimer picareta esperava decisões favoráveis depois que o banco quebrasse e os processos começassem a chegar.

Se tudo for verdade, Moraes e Flávio trabalharam, de formas diferentes, para o mesmo criminoso: Daniel Vorcaro.

O futuro da eleição presidencial deste ano depende do público brasileiro entender ou não que Moraes e Flávio são acusados de terem ganho a mesma grana do mesmo esquema.

Tem gente grande trabalhando para que esta obviedade não venha à luz. E não, não são só os suspeitos de sempre na grande imprensa.

Com os vazamentos de André Mendonça, o caso Master voltou a ser, aos olhos do público, sobre Alexandre de Moraes.

Graças a isso, Flávio, que concorre à Presidência como avatar da aliança Daniel Vorcaro/Marco Rubio, já aparece numericamente à frente de Lula nas pesquisas. Moraes é o cara que prendeu o pai dele, certo?

Na verdade, Flávio Bolsonaro ganhou votos porque a população está indignada com um juiz acusado de ser cúmplice de Flávio Bolsonaro no caso Master.

A retirada do sigilo do inquérito Master por Edson Fachin é a última chance que teremos para explicar ao público quem, entre os candidatos, está de fato envolvido com o maior escândalo financeiro da história do Brasil. Espero que aproveitemos a oportunidade. Até agora, fracassamos.

Finalmente, é bom ressaltar: o caso Master não desqualifica o trabalho de Moraes no inquérito do golpe. Muito pelo contrário. O Master mostra o tamanho dos escândalos que os bolsonaristas promoveriam depois de terem se livrado do Judiciário independente e da imprensa livre.

A ascensão violenta da mentira

Na última conversa com Trump, Lula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news, portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque, pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.

Políticos mentem individualmente, como recurso retórico. Acredita ou finge acreditar quem quer, a depender do grau de confiança. O cientista e compositor Paulo Vanzolini sugeriu em canção ("Mente") um arguto caminho reflexivo para a questão: mentira como "uma hipótese de vida", na falta de qualquer outra. Mas com ressalva: "Pois na mentira, meu amor / crer, eu não creio / só pretendo que de tanto mentir / repetir que me ama / você mesma acabe crendo".

Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica. Mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico. Jacques Derrida (em "História da Mentira", 1995) detecta, assim como Vanzolini, um paradoxo: o mentiroso não é mero autor de uma falsidade, pois quer impingir como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso. Há intenção de enganar, portanto, um grau real de violência na quebra oral da responsabilidade que se deva ter para com o outro.


Por isso, o fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado, no funcionamento operativo de seus aparelhos coercitivos e ideológicos. É quando, na produção deliberada de falsidades, transparece o arbítrio hegemônico e cruel de um poder, a conversão do que Vanzolini chamou de "hipótese de vida" em hipótese de morte do sentido político. Acontece quando um pretenso modelo global da vida democrática tenta legitimar com mentiras suas agressões à soberania externa e seus assassinatos seletivos. São os Estados (não tão) Unidos da América, centralizados como potência imperial.

Assim, podem matar dirigentes de nações, sob qualquer pretexto. Afundar lanchas no Caribe, sem comprovação de narcotráfico nem resgate de sobreviventes, criando a figura (jurifascista) do "suposto criminoso", extensiva a imigrantes. Senão, extorquir petróleo a preço de custo ou transferir bilhões das reservas venezuelanas para os cofres americanos, enquanto assistem impávidos aos pedidos de socorro financeiro das vítimas do terremoto. É a mesma lógica das tarifas. A mentira respalda uma nova forma de colonização administrativa.

Tudo isso incrementa, na aba da internacional direitista, a desintegração dos direitos do homem em escala continental. Entre nós, o fenômeno pôde ser vivido no auge bolsonarista, quando a disseminação oficial de mentiras impregnava a vida cotidiana. Hoje se aperfeiçoa de pai para filho na forma do cinismo cara-de-pau e tira a capa no âmago da mais alta magistratura do país.

Nos frouxos de riso, caberia entoar juntos "todo es mentira", como no tango ("Yra, Yra") celebrizado por Gardel. É que a violência da enganação entubada pelos enganados parece mesmo uma triste hipótese de vida pública.
 Muniz Sodré