segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela

Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.


Ao contrário do que esperava a direita venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os espólios", disse Trump na ONU).

Nenhum governo venezuelano que dependesse de voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.

Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição venezuelana, postou no falecido Twitter: "Secretário Marco Rubio: você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com nossos opressores".

Por outra dessas ironias latino-americanas, os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.

Nos últimos meses, antigos assessores de Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.

O verdadeiro programa econômico de Flávio foi escrito em Washington.

Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.

O próprio Marco Rubio já nos contou que Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições, para implementar o plano.

Em entrevista recente ao ICL, o cientista político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Isso daria margem a novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

Afinal, Trump vê o autoritarismo da família Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já prometeu aceitar.

As mentiras de Flávio Bolsonaro sobre as apostas online

Em uma eleição, costuma-se dizer, que a primeira vítima é a verdade. Então a construção de uma versão que não corresponde a fatos acontece. Mas no caso do senador Flávio Bolsonaro as mentiras são grandes demais e viram uma forma de engodo e manipulação.

Sobre as apostas esportivas a verdade é que a permissão foi aprovada no governo de Michel Temer para serem regulamentadas no governo seguinte. Jair Bolsonaro não regulamentou de propósito, as empresas não queriam limitações, nem o pagamento de impostos. O lobby era este. Nessa terra sem lei, que foi o governo de Jair Bolsonaro, elas cresceram sem regulamentação.


O governo Lula decidiu regulamentar e cobrar impostos. Enfrentou um duro lobby no Congresso. A autorização para os cassinos tipo Jogo do Tigrinho, foi incluída na Câmara dos Deputados. O Senado tentou tirar, mas a Câmara restabeleceu. O governo Lula propôs 18% de impostos e o Congresso baixou para 12%. Esses são os fatos.

A questão é que, mesmo regulamentadas, o que se vê agora é que essas empresas estão provocando um problema econômico e social, o que tornou o tema crucial na campanha eleitoral. A expectativa é que o presidente Lula assine nesta sexta-feira uma Medida Provisória que passará a proibir a atividade no Brasil, mas isso não encerrará a questão. Isso porque a medida provisória vai tramitar no Congresso, precisa ser aprovada pelos parlamentares e, se isso não acontecer, perde a validade. Então, vamos ver, nos próximos meses, qual será o resultado final. As bets têm um lobby muito forte no Congresso, e já se sabe que essa não será uma batalha simples.

O que está claro é que as bets precisam de contenção.

Flávio e a milícia

Em um debate na quarta-feira, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo, pôs o dedo na ferida: “o país corre o risco de colocar a milícia do Rio de Janeiro na Presidência da República”. O alerta provocou reações veementes de apoiadores de Flávio Bolsonaro, mas, curiosamente, não foi contestado pelos advogados da campanha do senador, que costumam litigar por pelo em ovo. Uma forma de evitar o tema na última semana antes do primeiro turno das eleições, visto que as ligações de Flávio com milicianos são incontestáveis.

Os vínculos de Flávio com a milícia são antigos. Os mais vistoso deles com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” – uma gangue de matadores de aluguel que atuava junto às milícias de Rio das Pedras e Muzema, Zona Oeste do Rio -, morto (ou apagado) em um confronto policial na Bahia, há seis anos.


Estreante como deputado estadual do Rio, o primogênito de Jair Bolsonaro apresentou uma moção de louvor a Adriano. Acusado de homicídio, ele já estava em prisão preventiva havia mais de um ano quando, em 2005, Flávio não só lhe concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria do Estado, como foi pessoalmente entregá-la no Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar.

Em sua defesa, Flávio diz que tudo isso faz mais de 20 anos e que à época Adriano era “louvado por bravura”. Mentira pura, como tantas outras do Zero Um, que continua sem ter como explicar a condecoração a um criminoso. Amparou também a família de Adriano, contratando a mulher do ex-capitão, Danielle Nóbrega, e a mãe, Raimunda Vera Magalhães, para o seu gabinete em 2010 e 2015, respectivamente. Elas só deixaram os cargos em 2018, ano em que eclodiu o escândalo das rachadinhas – desvios comprovados mas varridos para debaixo do tapete por firulas judiciais.

Em 2008, durante os debates em torno da criação da CPI das Milícias na Assembleia do Rio, Flávio chegou a defender o poder de polícia paralelo. Dizia que os grupos paramilitares se organizavam “para impedir que o tráfico imperasse nas regiões” e que policiais faziam segurança privada para complementar o salário.

De iniciativa do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), hoje candidato à Câmara Federal, a CPI das Milícias só contou com dois votos contrários: de Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão, condenado, ao lado do irmão Chiquinho, como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Os irmãos Brazão tiveram penas fixadas em 76 anos e três meses pelos crimes de duplo homicídio qualificado e organização criminosa armada.

O fantasma de Marielle voltou a assombrar Flávio na semana passada. Segundo investigações da Polícia Federal, o senador negociou emenda parlamentar de quase R$ 200 mil para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, também na Zona Oeste do Rio. O repasse teria sido articulado por Robson Calixto, miliciano conhecido como Peixe, assessor de Domingos Brazão. Cabe repetir: o mesmo Domingos Brazão, mentor do assassinato da vereadora e de seu motorista, e que, ao lado de Flávio, votou contra a criação da CPI das Milícias. Em nota, Flávio negou qualquer ilicitude, mas não deu um pio quanto aos diálogos incriminadores entre Peixe e Maria de Fátima, sua secretária.

Desde muito jovem, Flávio tem vida pública no mínimo controversa. Iniciou sua carreira como funcionário fantasma do PPB na Câmara dos Deputados, partido pelo qual seu pai se elegeu à época. Tinha 19 anos, estudava Direito no Rio e recebia salário em Brasília. Dois anos mais tarde, chegou ao Legislativo fluminense e lá ficou por quatro mandatos, com atuação voltada à segurança pública e, como se viu, por vezes em defesa da parte podre das polícias.

Está no Senado há quase sete anos, com baixíssimo rendimento – apenas um projeto aprovado e outro em análise na Câmara. Não apareceu para votar a proposta trumpista, afinal derrotada, de enquadrar facções criminosas como terroristas, agora incluída em seu programa de governo. E como presidente da Comissão de Segurança da Casa faltou em dois terços das sessões. De 2024 para cá, enrolou-se com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 130 milhões e recebeu mais de R$ 60 milhões para, supostamente, custear o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o pai.

Seu currículo definitivamente não combina com a explosiva multiplicação de seu patrimônio. Em 2002, Flávio declarou possuir apenas um carro popular. Em 2018, R$ 1,76 milhão, que saltaram nada menos do que 370%, batendo em R$ 8,1 milhões em 2026. Diz ele que a fortuna se deve à sua atuação como advogado e empresário, embora não seja de conhecimento público causas judiciais defendidas por ele, ou negócios rentáveis além da franquia da loja de chocolates que ele detinha.

Enriquecer não é pecado. Mas no caso de homens públicos a declaração de renda tem de vir acompanhada de confissão, sob pena de alimentar suspeições. Mais ainda quando o histórico inclui relações próximas com criminosos condenados.

Ao fazer o alerta, Simone Tebet acertou em cheio.

Daqui a dias

Falta pouco para as eleições e o clima anda tenso. Há um medo generalizado de que o brasileiro vote errado e ponha tudo a perder, mergulhando o país num futuro incerto, desastroso para a maioria.

Somos esperançosos por natureza, mas o marketing do lado de lá é de boa qualidade e pode iludir os incautos. Como convencê-los de que o que foi conquistado a duras penas pode desaparecer, se o candidato da oposição vencer, seja ele quem for, pois todos rezam na mesma cartilha?

E mais: não adianta apenas elegermos o presidente ideal, se Câmara e Senado permanecerem nas mãos de oposicionistas nebulosos, dispostos a boicotar qualquer medida progressista que traga mais prestígio aos governantes e novos benefícios para o povo. Diminuir a distância entre as diversas camadas sociais é a meta da esquerda, mas manter cada uma em sua casta faz parte dos planos nada secretos da direita.


Há outros riscos, igualmente assustadores. O namoro com Trump pode se tornar casamento e o dote serão nossas terras raras, nosso modelo independente de economia, nossa soberania até agora preservada, sem falar na anistia geral e irrestrita aos lesa-pátria que tanto nos prejudicaram e ainda prejudicarão.

Na acirrada disputa, os idosos tornam-se a bola da vez: todos querem seus votos que podem ser decisivos. Os que estrearão como eleitores igualmente estão na mira dos candidatos. E há, ainda, os indecisos cuja quantidade diminui a cada pesquisa prévia, sem tornar mais nítido o cenário. Impossível prever quantos serão os votos nulos ou em branco…

Tenho assistido a vários depoimentos de eleitores sobre sua preferência partidária. Alguns se dizem desesperados com a concorrência mentirosa e desleal que desfila ante nossos olhos, prometendo maravilhas. Outros, aturam o horário gratuito eleitoral à procura de candidaturas aceitáveis, mas a velha fórmula deixada por Tiririca e afins fez escola e expõe seu show de horrores duas vezes ao dia.

Nossos ídolos ainda são os mesmos, mais idosos a cada eleição. Velhas raposas também sobrevivem à passagem do tempo, pregando credibilidade com seus cabelos brancos. Cínicos profissionais tentam passar jovialidade com promessas vazias e muitos fazem uso de jargões tradicionais que envolvem crianças, deficientes, minorias, sem apresentar medidas efetivas em sua defesa.

Vivemos um tempo de promessas que só poderemos cobrar após a definição dos escolhidos. Que frases de efeito não nos impressionem e nossa escolha seja consciente, consequente.

JB Carvalho defendeu em livro retirar NS Aparecida como padroeira do Brasil

A informação de que Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é uma fake news e isso foi amplamente divulgado. O candidato, inclusive, negou a existência deste plano.

Mas há um fato documentado que precisa ser distinguido desta falsa acusação: JB Carvalho, pastor da igreja frequentada por Flávio e onde ele e a esposa foram batizados, defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Aparecida e registrou esta posição em livro.

Em A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, o bispo não se limita a criticar a devoção católica. Ele questiona a legalidade do feriado de 12 de outubro, defende que Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira e convoca cristãos e parlamentares a se mobilizarem pela mudança.


No capítulo 10, intitulado A Rainha dos Céus no Brasil, Carvalho argumenta que o reconhecimento nacional de Aparecida seria incompatível com a separação entre Igreja e Estado. No livro, afirma que a lei que estabelece a padroeira é ilegal e sustenta que Jesus Cristo seja reconhecido como único Senhor do Brasil. Trata-se da interpretação jurídica do pastor, não de uma declaração de inconstitucionalidade feita pela Justiça.

A proposta reaparece na nota final da obra. JB Carvalho convoca os cristãos a protestarem contra o que considera a institucionalização da adoração pagã no país. Ele também pede que deputados e senadores se manifestem para que Aparecida deixe de ser reconhecida como padroeira nacional.

A relação entre JB Carvalho e Flávio Bolsonaro vai além de uma participação ocasional em eventos religiosos.

Em 2024, Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo em Brasília. O senador passou a frequentar os cultos e manteve sua ligação pública com a instituição.

Em 7 de dezembro de 2025, dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República, Flávio escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública após o anúncio.

A proximidade religiosa também alcança outros integrantes da família Bolsonaro. Em novembro de 2025, Flávio levou ao pai, Jair Bolsonaro, um exemplar de Metanoia: A chave está em sua mente, escrito por JB Carvalho. Em janeiro de 2026, Michelle Bolsonaro também levou ao marido outra obra do bispo, A jornada de meninos a homens.

Esses episódios documentam a relação entre o pastor e a família Bolsonaro. Não demonstram, entretanto, que Flávio tenha adotado todas as posições religiosas ou políticas publicadas por Carvalho.

Em vídeo divulgado em agosto de 2026, Flávio Bolsonaro prometeu que, se fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo.

A declaração se aproxima da formulação utilizada por JB Carvalho em seu livro.

Há, porém, uma diferença decisiva: enquanto o pastor defendeu expressamente a retirada do reconhecimento nacional de Aparecida, Flávio não mencionou a padroeira em sua declaração.

A relação entre ambos torna pertinente perguntar se o candidato conhece a proposta do bispo e se concorda com ela, mas a semelhança entre as declarações não comprova que exista um plano conjunto.

Diante da repercussão de publicações que lhe atribuíam apoio a uma proposta para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro negou que pretendesse adotar essa medida.

Em meio à controvérsia, a campanha de Flávio também realizou uma transmissão ao vivo com representantes de diferentes religiões, incluindo Sérgio Pina, pai de santo do candomblé.
Matheus Leitão