Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a jornalista, autora e tradutora alemã Jella Lepman (1891-1970) mobilizou um grupo de pessoas ligadas à literatura infantil em torno de uma ideia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a construção da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).
A ideia de Lepman era simples e poderosa: crianças que conhecem as histórias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete décadas depois, essa missão permanece atual, embora tenha adquirido novas dimensões.
Sociedades democráticas não dependem apenas da liberdade de falar, mas também da disposição para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida às novas gerações, constitui um dos primeiros espaços em que se aprende a conviver com experiências, valores e visões de mundo diferentes.
O tema escolhido para o 40º Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, “escutar as vozes uns dos outros”, oferece uma chave interessante para compreender essa transformação. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudança de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta: que livros devemos oferecer às crianças; para outra, mais abrangente: quais vozes conseguem chegar até elas?
A programação do congresso tornou essa evolução particularmente evidente. Povos indígenas, crianças refugiadas, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nos debates. Temas distintos, mas unidos por uma preocupação comum: assegurar que toda criança possa encontrar nos livros tanto um espaço de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.
Essa perspectiva amplia a compreensão do papel da produção voltada à infância. Além da alfabetização, da formação e do incentivo à leitura, ganha espaço outra dimensão: a construção da alteridade. A boa literatura oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.
A produção destinada aos adolescentes, assim como a tradução, a ilustração e a bibliodiversidade, faz parte desse mesmo movimento. Ampliar o repertório significa permitir que diferentes experiências, idiomas, culturas e formas de representar a infância e a juventude cheguem aos leitores. O Brasil, com uma sólida tradição de literatura infantil e juvenil, construída por nomes como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Ruth Rocha, tem muito a contribuir para esse debate, e também razões para refletir sobre ele.
O contraste com alguns episódios recentes no país é inevitável. Obras vêm sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas não por sua qualidade literária, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou visões de mundo. É legítimo discutir adequação etária, critérios pedagógicos e mediação da leitura. Outra coisa é pretender proteger crianças eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convicções dos adultos.
Nesse ponto, Ottawa oferece uma inversão reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda não estão sendo escutadas. São movimentos em direções opostas. Um reduz o repertório; o outro procura ampliá-lo.
A diferença não é apenas literária ou pedagógica. É também política. Uma sociedade democrática não se constrói oferecendo às novas gerações apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examiná-las criticamente e conviver com a divergência. O oposto do cancelamento não é a concordância. É a convivência.
Isso não significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das famílias e dos educadores a responsabilidade sobre a formação das crianças. Significa reconhecer a diferença entre mediação e interdição. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o diálogo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.
A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a formação de leitores. Ela participa da formação de cidadãos capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferenças não são acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.
“Escutar as vozes uns dos outros” recupera, mais de 70 anos depois, a intuição de Jella Lepman. Livros não eliminam conflitos nem fazem desaparecer divergências. Podem, entretanto, ensinar algo indispensável às sociedades democráticas: o outro não precisa pensar como nós para ter o direito de contar sua história. Antes de aprender a conviver com a diferença, é preciso reconhecer sua existência. E estar disposto a ouvi-la.
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Oligopólios são uma ameaça à democracia, não o diploma de jornalismo
O debate em torno da exigência do diploma de Jornalismo para o exercício profissional ganhou escala nos últimos dias, a partir das declarações favoráveis dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e incendiaram as redes sociais. Não demorou para que o setor empresarial da mídia se insurgisse ostensivamente contra essa possibilidade, firmando o brado retumbante contra uma suposta evocação aos tempos do regime militar. Editoriais e colunas de opinião em alguns dos maiores jornais do país, como Folha de São Paulo e Estadão, que no passado foram eles próprios colaboradores da ditadura, voltaram a rotular a luta pelo diploma como “entulho autoritário” e como um risco para a liberdade de imprensa.
Na verdade, o que ameaça a liberdade de imprensa e a democracia brasileira é justamente um ambiente informacional marcado por alta concentração da propriedade dos meios de comunicação e precarização dos/as trabalhadores/as do setor. Cenário este que não apenas permaneceu tal qual, como foi piorado, na atualidade, pela arquitetura de funcionamento das corporações digitais oligopólicas. Elas passaram a dominar a infraestrutura de distribuição da informação, definindo o alcance de praticamente qualquer tema no debate público, sem nenhuma transparência algorítmica ou responsabilidade social, deslocando inclusive parte do poder de agendamento e da sustentabilidade econômica dos monopólios hegemônicos de outrora.
Entre as perguntas que precisam ser feitas no debate atual sobre o diploma de jornalista, estão: a dispensa da formação profissional obrigatória, decidida em 2009 pelo STF, trouxe ganhos sociais concretos na garantia das liberdades constitucionais? Melhorou a qualidade do Jornalismo brasileiro em relação ao período anterior? Em ambas as questões, as evidências disponíveis mostram que não.
Do ponto de vista das relações de trabalho, a desregulamentação profissional do Jornalismo só ajudou a aprofundar o processo de redução de postos de trabalho e salários, além de ampliar a perda de direitos por meio de contratações ultra precarizadas, situação agravada pela Reforma Trabalhista de 2017.
Obviamente que o fim da exigência do diploma não é a única explicação para a piora das condições trabalhistas, mas é inegável que foi, e segue sendo, um fator de desestabilização profissional, com impactos negativos sobre a independência e a autonomia dos/as jornalistas, que ficam ainda mais suscetíveis a pressões editoriais, processos judiciais de censura e assédio político.
Já do ponto de vista das prerrogativas constitucionais, como o sigilo da fonte, tão alardeado na última semana, a desregulamentação profissional criou foi mais insegurança jurídica para o seu exercício real, pois turvou a distinção entre quem atua como jornalista profissional, amparado em parâmetros técnicos e éticos, daqueles que se valem de uma garantia fundamental para operar desinformação, alimentar canais de difamação e, nos casos mais graves, acobertar ou sustentar o crime organizado.
Ao contrário do que propaga o senso comum corporativo, a exigência de diploma não cerceia vozes; ela organiza a profissão diante do abismo contemporâneo da desinformação e da precarização das condições de trabalho. Infelizmente, mitos e imprecisões têm prevalecido neste debate, e é preciso desfazê-los, como buscaremos a seguir.
Um dos argumentos mais frequentes de quem se opõe ao diploma é o de que ele representaria uma barreira de acesso excludente ao mercado de trabalho. Essa visão, no entanto, ignora as transformações socioeconômicas estruturais do Brasil recente. Se há algumas décadas o ingresso no ensino superior era um privilégio quase exclusivo de pessoas majoritariamente brancas das classes média e alta, e a oferta de cursos de Jornalismo era restrita, hoje o cenário se democratizou de forma significativa, com a expansão e a descentralização das universidades. É verdade que as instituições privadas são maioria e o custo ainda representa um obstáculo, mesmo que o financiamento estudantil seja política pública consolidada, mas falar em barreira elitista de acesso ao nível superior na atualidade é ignorar uma realidade concreta.
A profissão continua exigindo um registro formal para ser exercida legalmente no Brasil. Isso jamais chegou a ser abolido. Ou seja, qualquer pessoa que queira exercer o Jornalismo como profissional, nos dias atuais, precisa ser registrada no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através das delegacias regionais de trabalho (DRTs). Antes da decisão do STF, o registro era apenas emitido a quem apresentasse diploma de conclusão de curso em jornalismo. Ocorre que, após a “queda do diploma”, não foram definidos, muito menos aplicados, parâmetros fixos, sérios e seguros para sua concessão. Importante lembrar que outras funções técnicas da comunicação, como repórteres fotográficos e repórteres cinematográficos, seguem exigindo registros profissionais específicos, que são emitidos mediante apresentação de portfólio e, muitas vezes, com participação sindical.
Mesmo nos países em que o diploma específico não é exigido, há sim, na grande maioria deles, critérios de acesso à profissão, que incluem obrigações como a sindicalização, a comprovação de atuação profissional (reconhecida por pares ou organizações de trabalhadores) ou algum registro formal que demonstre o vínculo com a atividade jornalística.
Se para exercer o Jornalismo ainda é necessário o registro, o caos se materializa, no caso brasileiro, pelo fato de que qualquer pessoa consegue esse documento sem maiores demonstrações. Memorial elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), e distribuído aos ministros do STF, aponta que pessoas que não foram alfabetizadas e até mesmo menores de 18 anos tiveram acesso ao registro profissional de jornalista. Sem contar os inúmeros oportunistas que hoje oferecem serviços pagos para auxiliar na emissão do registro – algo que é feito gratuitamente pelas DRTs.
Diante desse cenário de descaso e de outras propostas regulatórias complexas, o diploma acadêmico destaca-se como o critério mais objetivo, justo e transparente para organizar a prática jornalística. O diploma certifica que o profissional passou por um processo sistemático de aprendizado sobre ética, métodos de apuração e responsabilidade social. Ele deve ser o ponto de partida, não o diferencial. Sem esse anteparo, a profissão afunda em um cenário de desestruturação que mais interessa ao setor patronal do que ao conjunto da sociedade. E no qual qualquer critério subjetivo pode ser usado para fins de exclusão ou favorecimento. Apesar de ser considerada uma profissão essencial para a sociedade e pilar da democracia, não há qualquer zelo sobre quem pode atuar como jornalista.
A exaustiva narrativa de que a exigência de diploma ameaça a liberdade de expressão é uma inversão retórica aparentemente sofisticada, mas frágil. Como já destacado e amplamente verificável, a verdadeira mordaça ao pluralismo e à livre circulação de ideias não vem das salas de aula das faculdades, mas sim da altíssima concentração econômica exercida pelos oligopólios de mídia e, de forma crescente, pelos oligopólios digitais. São esses gigantes econômicos que controlam os canais de distribuição de informação, ditam e interditam as condições do debate público e sufocam iniciativas independentes.
Essa contradição fica evidente ao analisar o uso de exemplos demagógicos por parte de formadores de opinião da grande imprensa para se opor à necessidade de diploma. Nos últimos dias, tornou-se frequente o argumento de que a exigência do diploma impediria o funcionamento e as denúncias de emissoras comunitárias, por exemplo. No entanto, a questão das rádios comunitárias é historicamente invisibilizada por essa mesma grande imprensa.
Na prática, as rádios comunitárias sofrem há décadas com entraves para ampliar sua potência e obter sustentabilidade econômica devido à pressão direta de associações patronais de empresas de comunicação. Utilizar a radiodifusão comunitária como escudo para atacar o diploma é uma ironia que esconde o real sufocamento da liberdade de expressão e da comunicação democrática promovido pelos monopólios midiáticos. Além disso, antes de 2009, quando o diploma era obrigatório, a atuação de comunicadores populares e a liberdade de expressão comunitária nunca deixaram de existir, e eles já sofriam com a opressão dos setores empresariais que deveriam estimulá-los.
Outro argumento falso é o de que a exigência foi uma invenção autoritária da ditadura. Trata-se de reivindicação histórica do próprio movimento sindical de jornalistas iniciada na década de 1940. Os militares nunca precisaram se valer da regulamentação profissional para perseguir jornalistas. Eles o faziam de forma direta pela censura, pela cassação de licenças de emissoras e pela colaboração dos próprios empresários proprietários dos meios de comunicação. Vladimir Herzog, por exemplo, não foi perseguido, torturado e assassinado durante a ditadura em decorrência da legislação profissional, mas pelo exercício do poder de repressão política e ideológica do regime, operado por meio de órgãos como o DOI-CODI.
Usar a origem cronológica do decreto de regulamentação profissional para desqualificar a regra ignora que direitos trabalhistas cruciais, como a CLT, criada na era Vargas, também nasceram em períodos de exceção e nem por isso perdem seu valor de proteção social.
A conjuntura atual, em 2026, impõe desafios tecnológicos e trabalhistas muito mais complexos do que aqueles enfrentados em 2009. O avanço descontrolado da inteligência artificial (IA) generativa, o uso de deepfakes e a disseminação industrializada de desinformação ameaçam efetivamente a própria integridade da democracia. Nesse ecossistema de alta complexidade, a qualificação técnica rigorosa, baseada em métodos científicos de apuração e em um sólido código de ética profissional, torna-se um pilar inegociável para a integridade da informação de interesse público. Se, mesmo com a exigência de formação acadêmica, o mercado já se mostra vulnerável a abusos, sem o diploma a situação tende a se deteriorar de forma irreversível. Além de cobrar a volta da exigência do diploma, devemos também exigir a fiscalização da qualidade do ensino oferecido pelas faculdades de Jornalismo, em especial as particulares.
Ademais, a queda do diploma contribuiu significativamente para a degradação das relações trabalhistas na área, como já destacado. A desregulamentação da formação criou um ambiente extremamente favorável à precarização sistêmica, ao desemprego e à expansão da pejotização irregular. Esse quadro de fragilidade laboral se agravou mais recentemente com a aprovação da Lei nº 15.325/2026 (Lei do Multimídia).
Ao criar a figura do profissional de “multimídia”, essa legislação promoveu a sobreposição de funções e acendeu o alerta das entidades representativas, motivando uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), no STF, por parte da Fenaj e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Organizar o exercício profissional por meio de critérios objetivos não se confunde com censura ou restrição da fala. Como defendem a Fenaj e seus sindicatos, o direito à livre expressão é universal e garantido a qualquer cidadão. O jornalismo, contudo, é um trabalho especializado que exige método, verificação empírica, técnicas de apuração e responsabilidade jurídica.
Superar o cenário atual de precariedade laboral e institucional passa, inevitavelmente, pelo resgate do diploma universitário de jornalismo como critério de registro profissional. Trata-se de uma medida a mais para proteger os direitos trabalhistas e conter as fraudes de registros falsos, e, sobretudo, para salvaguardar a sociedade na era da desinformação, garantindo a higidez da informação profissional indispensável à democracia.
Seria ingênuo e apelativo argumentar que a exigência do diploma resolveria o problema da desinformação. Essa epidemia precisa ser enfrentada com um conjunto amplo de políticas públicas, que vão desde a institucionalização da educação midiática nas escolas até a efetiva regulação democrática, pública e transparente do ambiente digital. Mas a exigência da formação em Jornalismo é um passo acertado na direção de proteger e promover esse pilar tão importante da democracia: o jornalismo profissional.
Renata Roncali Maffezoli / Pedro Rafael Vilela
Na verdade, o que ameaça a liberdade de imprensa e a democracia brasileira é justamente um ambiente informacional marcado por alta concentração da propriedade dos meios de comunicação e precarização dos/as trabalhadores/as do setor. Cenário este que não apenas permaneceu tal qual, como foi piorado, na atualidade, pela arquitetura de funcionamento das corporações digitais oligopólicas. Elas passaram a dominar a infraestrutura de distribuição da informação, definindo o alcance de praticamente qualquer tema no debate público, sem nenhuma transparência algorítmica ou responsabilidade social, deslocando inclusive parte do poder de agendamento e da sustentabilidade econômica dos monopólios hegemônicos de outrora.
Entre as perguntas que precisam ser feitas no debate atual sobre o diploma de jornalista, estão: a dispensa da formação profissional obrigatória, decidida em 2009 pelo STF, trouxe ganhos sociais concretos na garantia das liberdades constitucionais? Melhorou a qualidade do Jornalismo brasileiro em relação ao período anterior? Em ambas as questões, as evidências disponíveis mostram que não.
Do ponto de vista das relações de trabalho, a desregulamentação profissional do Jornalismo só ajudou a aprofundar o processo de redução de postos de trabalho e salários, além de ampliar a perda de direitos por meio de contratações ultra precarizadas, situação agravada pela Reforma Trabalhista de 2017.
Obviamente que o fim da exigência do diploma não é a única explicação para a piora das condições trabalhistas, mas é inegável que foi, e segue sendo, um fator de desestabilização profissional, com impactos negativos sobre a independência e a autonomia dos/as jornalistas, que ficam ainda mais suscetíveis a pressões editoriais, processos judiciais de censura e assédio político.
Já do ponto de vista das prerrogativas constitucionais, como o sigilo da fonte, tão alardeado na última semana, a desregulamentação profissional criou foi mais insegurança jurídica para o seu exercício real, pois turvou a distinção entre quem atua como jornalista profissional, amparado em parâmetros técnicos e éticos, daqueles que se valem de uma garantia fundamental para operar desinformação, alimentar canais de difamação e, nos casos mais graves, acobertar ou sustentar o crime organizado.
Ao contrário do que propaga o senso comum corporativo, a exigência de diploma não cerceia vozes; ela organiza a profissão diante do abismo contemporâneo da desinformação e da precarização das condições de trabalho. Infelizmente, mitos e imprecisões têm prevalecido neste debate, e é preciso desfazê-los, como buscaremos a seguir.
Um dos argumentos mais frequentes de quem se opõe ao diploma é o de que ele representaria uma barreira de acesso excludente ao mercado de trabalho. Essa visão, no entanto, ignora as transformações socioeconômicas estruturais do Brasil recente. Se há algumas décadas o ingresso no ensino superior era um privilégio quase exclusivo de pessoas majoritariamente brancas das classes média e alta, e a oferta de cursos de Jornalismo era restrita, hoje o cenário se democratizou de forma significativa, com a expansão e a descentralização das universidades. É verdade que as instituições privadas são maioria e o custo ainda representa um obstáculo, mesmo que o financiamento estudantil seja política pública consolidada, mas falar em barreira elitista de acesso ao nível superior na atualidade é ignorar uma realidade concreta.
A profissão continua exigindo um registro formal para ser exercida legalmente no Brasil. Isso jamais chegou a ser abolido. Ou seja, qualquer pessoa que queira exercer o Jornalismo como profissional, nos dias atuais, precisa ser registrada no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através das delegacias regionais de trabalho (DRTs). Antes da decisão do STF, o registro era apenas emitido a quem apresentasse diploma de conclusão de curso em jornalismo. Ocorre que, após a “queda do diploma”, não foram definidos, muito menos aplicados, parâmetros fixos, sérios e seguros para sua concessão. Importante lembrar que outras funções técnicas da comunicação, como repórteres fotográficos e repórteres cinematográficos, seguem exigindo registros profissionais específicos, que são emitidos mediante apresentação de portfólio e, muitas vezes, com participação sindical.
Mesmo nos países em que o diploma específico não é exigido, há sim, na grande maioria deles, critérios de acesso à profissão, que incluem obrigações como a sindicalização, a comprovação de atuação profissional (reconhecida por pares ou organizações de trabalhadores) ou algum registro formal que demonstre o vínculo com a atividade jornalística.
Se para exercer o Jornalismo ainda é necessário o registro, o caos se materializa, no caso brasileiro, pelo fato de que qualquer pessoa consegue esse documento sem maiores demonstrações. Memorial elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), e distribuído aos ministros do STF, aponta que pessoas que não foram alfabetizadas e até mesmo menores de 18 anos tiveram acesso ao registro profissional de jornalista. Sem contar os inúmeros oportunistas que hoje oferecem serviços pagos para auxiliar na emissão do registro – algo que é feito gratuitamente pelas DRTs.
Diante desse cenário de descaso e de outras propostas regulatórias complexas, o diploma acadêmico destaca-se como o critério mais objetivo, justo e transparente para organizar a prática jornalística. O diploma certifica que o profissional passou por um processo sistemático de aprendizado sobre ética, métodos de apuração e responsabilidade social. Ele deve ser o ponto de partida, não o diferencial. Sem esse anteparo, a profissão afunda em um cenário de desestruturação que mais interessa ao setor patronal do que ao conjunto da sociedade. E no qual qualquer critério subjetivo pode ser usado para fins de exclusão ou favorecimento. Apesar de ser considerada uma profissão essencial para a sociedade e pilar da democracia, não há qualquer zelo sobre quem pode atuar como jornalista.
A exaustiva narrativa de que a exigência de diploma ameaça a liberdade de expressão é uma inversão retórica aparentemente sofisticada, mas frágil. Como já destacado e amplamente verificável, a verdadeira mordaça ao pluralismo e à livre circulação de ideias não vem das salas de aula das faculdades, mas sim da altíssima concentração econômica exercida pelos oligopólios de mídia e, de forma crescente, pelos oligopólios digitais. São esses gigantes econômicos que controlam os canais de distribuição de informação, ditam e interditam as condições do debate público e sufocam iniciativas independentes.
Essa contradição fica evidente ao analisar o uso de exemplos demagógicos por parte de formadores de opinião da grande imprensa para se opor à necessidade de diploma. Nos últimos dias, tornou-se frequente o argumento de que a exigência do diploma impediria o funcionamento e as denúncias de emissoras comunitárias, por exemplo. No entanto, a questão das rádios comunitárias é historicamente invisibilizada por essa mesma grande imprensa.
Na prática, as rádios comunitárias sofrem há décadas com entraves para ampliar sua potência e obter sustentabilidade econômica devido à pressão direta de associações patronais de empresas de comunicação. Utilizar a radiodifusão comunitária como escudo para atacar o diploma é uma ironia que esconde o real sufocamento da liberdade de expressão e da comunicação democrática promovido pelos monopólios midiáticos. Além disso, antes de 2009, quando o diploma era obrigatório, a atuação de comunicadores populares e a liberdade de expressão comunitária nunca deixaram de existir, e eles já sofriam com a opressão dos setores empresariais que deveriam estimulá-los.
Outro argumento falso é o de que a exigência foi uma invenção autoritária da ditadura. Trata-se de reivindicação histórica do próprio movimento sindical de jornalistas iniciada na década de 1940. Os militares nunca precisaram se valer da regulamentação profissional para perseguir jornalistas. Eles o faziam de forma direta pela censura, pela cassação de licenças de emissoras e pela colaboração dos próprios empresários proprietários dos meios de comunicação. Vladimir Herzog, por exemplo, não foi perseguido, torturado e assassinado durante a ditadura em decorrência da legislação profissional, mas pelo exercício do poder de repressão política e ideológica do regime, operado por meio de órgãos como o DOI-CODI.
Usar a origem cronológica do decreto de regulamentação profissional para desqualificar a regra ignora que direitos trabalhistas cruciais, como a CLT, criada na era Vargas, também nasceram em períodos de exceção e nem por isso perdem seu valor de proteção social.
A conjuntura atual, em 2026, impõe desafios tecnológicos e trabalhistas muito mais complexos do que aqueles enfrentados em 2009. O avanço descontrolado da inteligência artificial (IA) generativa, o uso de deepfakes e a disseminação industrializada de desinformação ameaçam efetivamente a própria integridade da democracia. Nesse ecossistema de alta complexidade, a qualificação técnica rigorosa, baseada em métodos científicos de apuração e em um sólido código de ética profissional, torna-se um pilar inegociável para a integridade da informação de interesse público. Se, mesmo com a exigência de formação acadêmica, o mercado já se mostra vulnerável a abusos, sem o diploma a situação tende a se deteriorar de forma irreversível. Além de cobrar a volta da exigência do diploma, devemos também exigir a fiscalização da qualidade do ensino oferecido pelas faculdades de Jornalismo, em especial as particulares.
Ademais, a queda do diploma contribuiu significativamente para a degradação das relações trabalhistas na área, como já destacado. A desregulamentação da formação criou um ambiente extremamente favorável à precarização sistêmica, ao desemprego e à expansão da pejotização irregular. Esse quadro de fragilidade laboral se agravou mais recentemente com a aprovação da Lei nº 15.325/2026 (Lei do Multimídia).
Ao criar a figura do profissional de “multimídia”, essa legislação promoveu a sobreposição de funções e acendeu o alerta das entidades representativas, motivando uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), no STF, por parte da Fenaj e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Organizar o exercício profissional por meio de critérios objetivos não se confunde com censura ou restrição da fala. Como defendem a Fenaj e seus sindicatos, o direito à livre expressão é universal e garantido a qualquer cidadão. O jornalismo, contudo, é um trabalho especializado que exige método, verificação empírica, técnicas de apuração e responsabilidade jurídica.
Superar o cenário atual de precariedade laboral e institucional passa, inevitavelmente, pelo resgate do diploma universitário de jornalismo como critério de registro profissional. Trata-se de uma medida a mais para proteger os direitos trabalhistas e conter as fraudes de registros falsos, e, sobretudo, para salvaguardar a sociedade na era da desinformação, garantindo a higidez da informação profissional indispensável à democracia.
Seria ingênuo e apelativo argumentar que a exigência do diploma resolveria o problema da desinformação. Essa epidemia precisa ser enfrentada com um conjunto amplo de políticas públicas, que vão desde a institucionalização da educação midiática nas escolas até a efetiva regulação democrática, pública e transparente do ambiente digital. Mas a exigência da formação em Jornalismo é um passo acertado na direção de proteger e promover esse pilar tão importante da democracia: o jornalismo profissional.
Renata Roncali Maffezoli / Pedro Rafael Vilela
A vanguarda do atraso
Não sei se Lulinha é inocente ou culpado por tudo que lhe atribuem. Isso está sob investigação. O inquérito corre em segredo de Justiça. Mas não preciso ser um jornalista diplomado (e sou) para concluir que grande parte da imprensa quer ver Lulinha enterrado na lama para, assim, prejudicar as chances de seu pai se reeleger. Nada muito diferente do que aconteceu durante o período da Lava Jato, que resultou na prisão de Lula por 580 dias e no impedimento de disputar a eleição presidencial de 2018, vencida por Jair Bolsonaro.
Todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura militar de 64 se deram à sombra do pernambucano nascido em 1945, registrado com o nome de Luiz Inácio da Silva e filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, que depois se tornaria conhecida como Dona Lindu. Ambos trabalhavam na agricultura de subsistência, cultivando a terra para o sustento da própria família. Como líder sindical na região do ABC paulista, Luiz Inácio virou Lula; e em 1982, para disputar o governo de São Paulo, adotou oficialmente o nome Luiz Inácio Lula da Silva.
Foi candidato a presidente da República pela primeira vez em 1989, sendo derrotado por Fernando Collor de Mello. Perdeu as eleições de 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso. Elegeu-se presidente em 2002, reelegeu-se em 2006 e venceu novamente em 2022. É o único presidente desde 1930 que elegeu e reelegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Ganhe ou perca a eleição deste ano, passará à História como o brasileiro que pelo voto popular governou o Brasil por mais tempo. Getúlio Vargas governou 15 anos como ditador e apenas quatro como presidente eleito.
Por sua origem e suas ideias, Lula jamais foi aceito pelas elites que construíram um dos países mais desiguais do mundo – o último do Ocidente a acabar oficialmente com o sistema escravocrata. Quando o Brasil criou sua primeira universidade, já existiam 76 universidades na América do Norte e 26 na América do Sul. Embora figure entre as maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking global de PIB nominal per capita, e a 87ª posição quando o cálculo considera a Paridade do Poder de Compra (PPC).
Daí a alta rejeição de Lula, que conseguiu incluir os mais pobres na agenda nacional. Na época da ditadura, dizia-se que era preciso deixar crescer o bolo das riquezas para depois reparti-lo. Um logro. A concentração de renda continua rígida no topo da pirâmide. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que a divisão atual do bolo penaliza os mais necessitados. O grupo dos 10% mais ricos detém mais de 40% de toda a renda gerada no país. Essa única fatia é maior do que toda a renda somada dos 70% mais pobres da população
Respondam com sinceridade: será Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, que se empenhará em mudar essa situação, ou pelo menos atenuá-la? Se a resposta for sim, por que ele é contra a redução da jornada de trabalho de 6×1? Por que se esforça tanto para que ela não seja votada no Senado?
Ricardo Noblat
Todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura militar de 64 se deram à sombra do pernambucano nascido em 1945, registrado com o nome de Luiz Inácio da Silva e filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, que depois se tornaria conhecida como Dona Lindu. Ambos trabalhavam na agricultura de subsistência, cultivando a terra para o sustento da própria família. Como líder sindical na região do ABC paulista, Luiz Inácio virou Lula; e em 1982, para disputar o governo de São Paulo, adotou oficialmente o nome Luiz Inácio Lula da Silva.
Foi candidato a presidente da República pela primeira vez em 1989, sendo derrotado por Fernando Collor de Mello. Perdeu as eleições de 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso. Elegeu-se presidente em 2002, reelegeu-se em 2006 e venceu novamente em 2022. É o único presidente desde 1930 que elegeu e reelegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Ganhe ou perca a eleição deste ano, passará à História como o brasileiro que pelo voto popular governou o Brasil por mais tempo. Getúlio Vargas governou 15 anos como ditador e apenas quatro como presidente eleito.
Por sua origem e suas ideias, Lula jamais foi aceito pelas elites que construíram um dos países mais desiguais do mundo – o último do Ocidente a acabar oficialmente com o sistema escravocrata. Quando o Brasil criou sua primeira universidade, já existiam 76 universidades na América do Norte e 26 na América do Sul. Embora figure entre as maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking global de PIB nominal per capita, e a 87ª posição quando o cálculo considera a Paridade do Poder de Compra (PPC).
Daí a alta rejeição de Lula, que conseguiu incluir os mais pobres na agenda nacional. Na época da ditadura, dizia-se que era preciso deixar crescer o bolo das riquezas para depois reparti-lo. Um logro. A concentração de renda continua rígida no topo da pirâmide. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que a divisão atual do bolo penaliza os mais necessitados. O grupo dos 10% mais ricos detém mais de 40% de toda a renda gerada no país. Essa única fatia é maior do que toda a renda somada dos 70% mais pobres da população
Respondam com sinceridade: será Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, que se empenhará em mudar essa situação, ou pelo menos atenuá-la? Se a resposta for sim, por que ele é contra a redução da jornada de trabalho de 6×1? Por que se esforça tanto para que ela não seja votada no Senado?
Ricardo Noblat
Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump
Além dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior, que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.
Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.
Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.
"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.
Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.
Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".
Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.
"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.
"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."
Crédito,AFP via Getty ImagesLegenda da foto,Estudo recente estima que brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025
Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.
Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.
A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.
"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.
"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."
Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.
De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia..
"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.
"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o crescimento que a gente teve em 2025."
Klein observa que, mesmo levando em conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia — esse impacto negativo pouco muda.
Um outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.
Segundo a CNC, o impacto somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais", principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$ 70 bilhões.
"As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo", destaca a confederação.
A partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a arrecadação do governo.
"Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein.
Ele cita como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou a ser implementada este ano.
No estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a 1,2% na arrecadação.
Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas de apostas.
O economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas, devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis".
"E isso sem nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao vício", destaca o professor da UFRJ.
Por fim, para estimar o potencial impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários: um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99% da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras, então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).
Nesses dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico) varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais desiguais do mundo.
Para Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.
"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de externalidades", observa.
O pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados.
"Faz todo o sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses custos a mais que essa atividade gera."
Questionada sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que "tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem divulgadas como verdadeiras e robustas".
Segundo a entidade, o exercício é "fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB".
A ANJL considera que o multiplicador adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro, streaming e futebol.
A associação refuta ainda a comparação com o crescimento de 2025, observando que as bets já existiam em 2024.
"Para avaliar quanto sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele ano", pondera.
Já o IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras"; questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente redirecionados ao consumo.
"O estudo também não mensura, com metodologia equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.
"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus resultados", diz o instituto.
"Em uma questão de tamanha relevância econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o conjunto das evidências disponíveis."
Thais Carrança
Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.
Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.
"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.
Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.
Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".
Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.
"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.
"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."
Crédito,AFP via Getty ImagesLegenda da foto,Estudo recente estima que brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025
Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.
Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.
A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.
"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.
"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."
Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.
De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia..
"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.
"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o crescimento que a gente teve em 2025."
Klein observa que, mesmo levando em conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia — esse impacto negativo pouco muda.
Um outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.
Segundo a CNC, o impacto somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais", principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$ 70 bilhões.
"As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo", destaca a confederação.
A partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a arrecadação do governo.
"Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein.
Ele cita como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou a ser implementada este ano.
No estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a 1,2% na arrecadação.
Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas de apostas.
O economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas, devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis".
"E isso sem nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao vício", destaca o professor da UFRJ.
Por fim, para estimar o potencial impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários: um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99% da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras, então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).
Nesses dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico) varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais desiguais do mundo.
Para Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.
"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de externalidades", observa.
O pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados.
"Faz todo o sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses custos a mais que essa atividade gera."
Questionada sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que "tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem divulgadas como verdadeiras e robustas".
Segundo a entidade, o exercício é "fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB".
A ANJL considera que o multiplicador adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro, streaming e futebol.
A associação refuta ainda a comparação com o crescimento de 2025, observando que as bets já existiam em 2024.
"Para avaliar quanto sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele ano", pondera.
Já o IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras"; questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente redirecionados ao consumo.
"O estudo também não mensura, com metodologia equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.
"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus resultados", diz o instituto.
"Em uma questão de tamanha relevância econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o conjunto das evidências disponíveis."
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