quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Os inimigos errados

Há poucos dias o Papa encerrou o encontro internacional da juventude franciscana em Assis, Itália, apelando à mobilização dos cristãos nas situações de injustiça social mais profunda assim como à rejeição dos preconceitos. Segundo a Agência Ecclesia, terá desafiado os milhares de participantes num encontro franciscano de jovens: “Ousai acreditar na palavra do Evangelho, tornai-vos humanos com a liberdade de Jesus Cristo.”

E acrescentou que os jovens deviam “evitar a cultura do poder” porque “derrubar os muros que separam os seres humanos uns dos outros não é, de forma alguma, trair a família, a cidade ou a tradição, mas sim libertá-las dos seus fantasmas, dos inimigos inventados pelo medo e pela ignorância, da violência com que se quer impor”.

Leão XIV alertou em Assis, sobretudo, para os verdadeiros inimigos que são inventados pelo medo e pela ignorância. E aqui o pontífice tocou no cerne da questão.


Os tiranos sempre governaram com estes dois “ajudantes”. Por um lado instilando medo sobre os seus governados, em especial o medo de penalizações derivadas das arbitrariedades do poder. Mas, nos tempos que correm, tornou-se muito comum um outro tipo de medo, o medo do que é diferente na cor de pele, cultura, língua, costumes ou religião.

Depois, e porque o medo é filho da ignorância, ambos seguem juntos, amparam-se e retroalimentam-se um ao outro. O medo é a causa de muitos erros e até há quem mate por medo.

No que toca ao povo português, é estranho como aqueles que foram os atores da primeira globalização da História, a partir deste jardim plantado à beira-mar, se vejam agora incomodados pelo diferente. A Lisboa do século XVI foi chamada um tabuleiro de xadrez, tal era a presença de tantas e tão desvairadas gentes de outras cores e regiões do mundo, que conviviam de forma ordeira na capital do império.

Além do mais, este é o mesmo povo que “deu novos mundos ao mundo”, que conviveu e se misturou durante meio milénio com gentes americanas, africanas e asiáticas, e que ainda hoje se integra sem grandes dificuldades noutras sociedades bem diferentes daquela onde nasceram.

A verdade é que o medo e a ignorância continuam a ter muita força. Mas se o primeiro resulta de fatores externos que nos podem influenciar e condicionar, já a solução para a segunda está inteiramente na mão de cada um. Basta querer aprender, conhecer e informar-se, para lá da espuma dos dias, do sensacionalismo mediático e da vertigem das redes sociais.

Afinal, os nossos verdadeiros inimigos são o medo e a ignorância, exatamente as armas preferidas dos ditadores de todos os tempos.
José Brissos-Lino

A Inteligência Artificial perdeu o direito de fingir

Em 1950, Alan Turing propôs um experimento simples. Se um ser humano conversasse com uma máquina sem conseguir distingui-la de outro ser humano, faria sentido continuar a dizer que aquela máquina não pensa?

Durante décadas, a humanidade perseguiu esse objetivo. Chatbots, assistentes virtuais e modelos de linguagem foram avaliados justamente pela capacidade de soar naturais, e quanto mais humana a interação, melhor parecia ser a tecnologia. Mas, agora, parece que os papéis se invertem. As máquinas precisam anunciar que são máquinas, já que a interação é quase natural.

O AI Act europeu estabelece que sistemas de IA concebidos para interagir diretamente com pessoas devem, em determinadas circunstâncias, informar o utilizador de que este está a interagir com um sistema de Inteligência Artificial. Da mesma forma, conteúdos sintéticos como imagens, vídeos, áudios e textos gerados artificialmente estão sujeitos a requisitos de transparência e identificação da sua origem artificial, nos termos previstos no regulamento europeu.


Em outras palavras, ainda que uma IA consiga passar no Teste de Turing, ela não poderá fazê-lo sem antes denunciar a sua verdadeira identidade.

Essa mudança revela algo importante sobre a nossa relação com a IA, que se torna cada vez mais presente no nosso quotidiano. Durante décadas, acreditámos que o grande desafio seria construir máquinas suficientemente sofisticadas para parecerem humanas. Hoje, o desafio parece ser exatamente o contrário: garantir que elas não escondam que não são.

A exigência de transparência, entretanto, não nasce de uma preocupação filosófica, mas prática. Deepfakes, golpes, manipulação política, atendimento automatizado, influência nas redes sociais e relações de consumo dependem, muitas vezes, da perceção de quem está do outro lado da conversa.

Saber se estamos a falar com uma pessoa ou um algoritmo tornou-se uma informação relevante para o exercício da autonomia.

Mais do que uma questão de transparência tecnológica, está em causa uma nova relação de poder. Quem controla a tecnologia e sabe quando, como e por que razão ela está a interagir connosco possui uma vantagem sobre quem desconhece a natureza dessa interação. A transparência procura, precisamente, reduzir essa assimetria: permitir que o cidadão saiba quando está a ser informado, persuadido, atendido ou influenciado por uma pessoa e quando está perante um sistema automatizado. Num ambiente digital em que a fronteira entre conteúdo humano e conteúdo sintético se torna cada vez mais difícil de perceber, saber quem — ou o quê — está do outro lado deixa de ser um detalhe e passa a ser uma condição básica para uma escolha verdadeiramente livre.

E pensar que há quase 75 anos, o Teste de Turing perguntava se os humanos seriam capazes de identificar uma máquina. O AI Act acaba por inverter essa lógica, ao estabelecer obrigações de transparência que procuram garantir que os utilizadores saibam quando estão perante determinados sistemas de IA ou conteúdos gerados artificialmente.

O “sucesso” de um sistema de IA deixa de ser medido apenas pela sua capacidade de imitar pessoas e passa a incluir a sua capacidade de ser transparente enquanto o faz.

À procura de lixo

Vamos parar de procurar modelos, ao menos nisto não sejamos tão colonizados, não permitamos que mais lixo contamine nosso pensamento. Os americanos é que têm obsessão por raça (lá nós, brasileiros, somos “hispânicos”), nós temos é a glória e o privilégio de ser o único país em que homens e mulheres de todas as raças se misturaram e misturam e onde a raça, Deus há de ser servido, ainda terá o lugar que merece, ou seja, nenhum.
João Ubaldo Ribeiro

A família Bolsonaro e o uso de imagem por sistemas de IA

O candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, usou um vídeo sintético do pai, Jair Bolsonaro, declarando apoio à sua candidatura em uma convenção nacional do PL. Na peça em questão, o avatar do ex-presidente começa avisando que trata-se de conteúdo sintético, faz críticas à prisão de Jair Bolsonaro e conclui que o “o Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro Presidente”. O anúncio de que o vídeo não se tratava de uma mídia real ficou por conta de um aviso verbal do avatar, logo ao início do vídeo, que informava que o conteúdo havia sido fabricado artificialmente.

A decisão de uso de mídia sintética do ex-presidente se deu em função da atual proibição de que o mesmo demonstre apoio ou realize atos de apoio político no decorrer das eleições de 2026. Ao optar por um avatar e não um vídeo diretamente gravado, a campanha de Flávio Bolsonaro visava incendiar a base de apoio ao bolsonarismo sem que isso representasse mais uma violação de Jair Bolsonaro da decisão judicial que declarou a sua inelegibilidade. No entanto, o ato não é novo.

Em 2024, nas eleições gerais da Indonésia, o ex-general do exército e ditador Suharto foi ressuscitado por meio de vídeos sintéticos criados pelo partido Golkar com o objetivo de lembrar eleitores sobre o valor do voto e para demonstrar apoio ao candidato Prabowo Subianto. Já em 2025, na Bolívia, conversas vazadas do candidato à vice-presidência Jorge Richter, onde ele supostamente teria planejado um golpe contra o presidente Evo Morales, também foram fabricadas com ferramentas de imagem e vídeo sintéticos. Mais recentemente, o governo Trump manipulou uma imagem da ativista de direitos humanos Nekima Levy Armstrong, detida em um protesto contra o ICE, com o objetivo de retratá-la chorando e com uma tonalidade de pele mais escura.

Em 2026, com rápidos avanços em realismo, sincronização e geração de conteúdos extensos, a capacidade de manipulação de eleitores e processos eleitorais com mídias sintéticas fica cada vez maior. E, neste cenário, estamos passando de casos isolados do uso de mídias sintéticas para um estado de incerteza contínua.


Mídias sintéticas agora podem gerar e manipular conteúdo em diversos formatos – imagens, vídeo, voz e identidades totalmente sintéticas. O que estamos presenciando é uma mudança mais profunda: a perda da verdade visual e um desgaste significativo na realidade compartilhada. Uma vez que o que vemos já não pode ser aceito pelo seu valor aparente, a dúvida não é mais algo ocasional – é constante. Assim, a verdade não é apenas debatida – ela é continuamente desestabilizada.

Nas resoluções lançadas para o pleito de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral regulamentou o uso de inteligência artificial em campanhas e propaganda eleitoral. A resolução n. 23.755, de 2 de março de 2026, determina que o uso de mídias sintéticas em propaganda eleitoral com o objetivo de criar, substituir, omitir, mesclar ou alterar a velocidade ou sobrepor imagens ou sons prescinde da obrigação de informar, de modo explícito, destacado e acessível, que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi utilizada. Adicionalmente, a nova resolução eleitoral veda a “publicação e a republicação, ainda que gratuitas, bem como o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial ou por tecnologias equivalentes que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidata ou candidato ou de pessoa pública, mesmo que rotulados e em conformidade com as demais exigências deste artigo, no período compreendido entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito”.

Mais recentemente, o órgão lançou uma cartilha de boas práticas sobre inteligência artificial com o objetivo de orientar eleitores e partidos em torno do uso responsável da IA, protegendo a democracia e as eleições gerais 2026. O documento incentiva a atuação de campanhas, coligações e candidatos dentro da legalidade, reforça a necessidade do compromisso com a verdade e incentiva a transparência sobre o uso e origem dos conteúdos, dentre outras coisas.

Apesar do caso da campanha de Flávio Bolsonaro não ser um fato novo, ele revela algumas falhas ou ausências na resolução eleitoral e que merecem uma reflexão: (a) como incentivar transparência sobre conteúdos sintéticos por meio da adoção de práticas de proveniência de conteúdo, (b) mais proteções sobre o uso de imagem, voz ou manifestação de pessoas públicas e individuais a fim de evitar a manipulação de eleitores e (c) medidas mais concretas por parte das plataformas e demais atores parte do ecossistema digital na implementação de ferramentas de detecção de deepfakes.

Em linhas gerais, isso significa que apesar dos repetidos e bem vindos esforços do TSE em delimitar o uso de inteligência artificial e mídias sintéticas em campanhas políticas, a corte ainda precisa incrementar as medidas relativas à transparência de conteúdos compartilhados e também discutir a proteção dos usuários quando confrontados com conteúdos sintéticos que possuem o objetivo de manipular eleitores. 

Na organização WITNESS temos trabalhado diretamente com casos de mídias sintéticas e em torno de tentativas de reforçar os compromissos assumidos pelas empresas a respeito da transparência de conteúdos de IA. Isso porque não estamos mais lidando com incidentes isolados e o próprio ambiente se transformou.

A mídia sintética instaurou um estado persistente de dúvida, onde a incerteza deixa de ser exceção para se tornar a regra. Essa dúvida, chamada de “dividendo do mentiroso”, permite que evidências reais sejam descartadas como “falsas” e enfraquece a confiança nas vítimas, abrindo caminho para a negação, a postergação e a impunidade. O impacto da inteligência artificial, neste sentido, não se limita à tecnologia em si, mas resulta da convergência de quatro fatores críticos: a facilidade de acesso (o processo tornou-se simples, exigindo pouco input), a alta qualidade e realismo dos outputs, a sofisticação das capacidades (movimento, voz e interação em tempo real) e, por fim, a escala massiva, que sobrecarrega as plataformas e torna cada vez mais difícil distinguir o que é real do que é sintético.

No entanto, algumas soluções ajudam a fortalecer a necessidade de mais transparência sobre conteúdo sintético.

A primeira delas é a proveniência e autenticidade de conteúdos, uma prática que se refere à fonte e à história do conteúdo de mídia online, funcionando como uma “receita” que detalha como uma peça foi criada, editada e distribuída, permitindo traçar sua cadeia de custódia e verificar a autenticidade da mesma. Esses conceitos são pilares essenciais para a transparência de IA, pois fornecem sinais verificáveis que restauram a confiança em um ambiente digital onde a fronteira entre o real e o sintético se tornou fluida. Ao disponibilizar essa infraestrutura de transparência, capacitamos usuários, reguladores e defensores de direitos humanos a distinguir fatos de ficção, combatendo o fenômeno do “dividendo do mentiroso” e garantindo que o público possa avaliar a veracidade das informações com base em dados concretos, e não apenas na aparência visual do conteúdo.

No caso da resolução eleitoral, o texto poderia recomendar a implementação de proveniência dos conteúdos por meio de metadados encriptados que informam como o conteúdo foi feito, somados a um simples rótulo que avisa se o conteúdo é feito ou manipulado com ferramentas de inteligência artificial. Essa sugestão seria importante para evitar que ferramentas de edição ou corte de vídeos retirem eventuais disclaimers que sejam feitos verbalmente – como no vídeo da campanha de Flávio Bolsonaro – e permitam que a “receita” do conteúdo de IA viaje com ele.

A segunda diz respeito a implementação de ferramentas de detecção de deepfakes que consigam reconhecer e limitar o alcance de conteúdos sintéticos com potencial de influenciar eleitores e o processo eleitoral. Ao longo dos últimos anos, a experiência da Deepfakes Rapid Response Force demonstrou que modelos hiper-realistas de áudio e vídeo produzem fraudes difíceis de identificar, sobretudo quando os arquivos passam por recompressão em redes sociais, edições regionais cirúrgicas (inpainting) ou retratam cenários de conflito sem rostos humanos. Além disso, a facilidade de criar falsificações provocou um aumento na desconfiança do público, que passou a contestar registros reais autênticos sob a justificativa de serem gerados por IA.

Fatores como este denotam o quão urgente é a necessidade de promoção de melhorias nas ferramentas de detecção de deepfakes a fim de promover a remoção e retirada de conteúdos desinformadores a partir da sua ocorrência. Isso significa criar sistemas que funcionem com a mídia que as pessoas realmente compartilham – reenvios de arquivos compactados, gravações de tela e áudio com qualidade reduzida – e não apenas com arquivos originais de alta qualidade. Significa também priorizar métodos capazes de lidar com os cenários do mundo real mais desafiadores (e comuns): imagens dinâmicas ou sem rostos visíveis, áudio multilíngue com ruído e edições sutis e “cirúrgicas”. Além disso, implica tratar a explicação como parte da intervenção – não apenas determinar se algo foi gerado por IA, mas apresentar as evidências e o grau de confiança na análise.

Por fim, precisamos evoluir na direção de mais proteções ao uso de imagem, voz ou manifestação de pessoas públicas e individuais a fim de evitar a manipulação de eleitores. A “likeness protection” (proteção do direito à própria imagem e voz) emerge como uma pauta essencial no advocacy atual, exigindo uma abordagem que transcenda a lógica de direitos autorais ou propriedade comercial. O foco deve ser uma resposta baseada em direitos humanos que centre a proteção de pessoas comuns, ativistas e jornalistas contra a manipulação indevida de sua identidade, evitando danos reais à dignidade, à reputação e à segurança. O desafio regulatório é desenvolver diretrizes que impeçam o uso de avatares ou vozes sintéticas para difamar ou silenciar indivíduos, sem, contudo, criar mecanismos que possam ser instrumentalizados pelo Estado para censurar o ativismo, a sátira ou a documentação de direitos humanos. Essa agenda deve ser articulada de forma integrada a outras proteções contra abusos digitais, como a divulgação de imagens íntimas não consentidas (NCII), garantindo que a proteção da identidade seja um direito universal e não apenas um ativo de mercado.

A emergência das mídias sintéticas exige uma transição urgente de uma postura reativa para um compromisso proativo com a integridade do ecossistema de informação e promoção de transparência de sistemas de IA. O uso crescente de avatares e manipulações visuais em campanhas eleitorais sublinha que a transparência sobre a origem do conteúdo, o aprimoramento das ferramentas de detecção para cenários reais e a implementação de proteções à identidade baseadas em direitos humanos não são apenas diferenciais técnicos, mas pilares indispensáveis para a preservação da democracia. Apesar de estarmos lidando com um problema “novo”, o futuro do processo eleitoral brasileiro depende de nossa capacidade coletiva de restaurar a confiança na evidência visual, garantindo que o debate público permaneça ancorado na realidade e não seja refém da desestabilização contínua proporcionada pela manipulação algorítmica.

Sudão do Sul: Como as mudanças climáticas podem ser tóxicas

A cidade de Bentiu já viu de tudo. Localizada no norte do Sudão do Sul, perto da fronteira com o Sudão, a capital do Estado de Unity já teve apenas alguns milhares de habitantes.

Mas a guerra, a violência e outras crises levaram cerca de 140 mil pessoas deslocadas a buscar refúgio ali desde 2013, resultando em um enorme campo para deslocados internos.

Diversas agências da ONU operam no campo de Proteção de Civis (POC), que hoje se assemelha mais a um assentamento permanente do que a um abrigo temporário.

Num cais improvisado, chegam canoas carregadas de peixe para alimentar a população do acampamento, onde a insegurança alimentar continua sendo uma preocupação constante.

Simon Gatkuoth, um morador na casa dos quarenta anos, tira um peixe de um carrinho de mão e explica que os peixes pescados perto dos campos de petróleo estão contaminados. "Quando os cozinhamos, a sopa às vezes cheira a penicilina", diz ele. "Mas não temos alternativa. Precisamos comer. Não podemos parar porque não há outra opção."

As comunidades de Unity convivem com as inundações sazonais dos pântanos de Sudd há gerações.

Mas, em 2021, inundações sem precedentes, ligadas às mudanças climáticas, destruíram plantações, meios de subsistência e milhares de cabeças de gado.

O Sudão do Sul não possuía a infraestrutura necessária para lidar com essa catástrofe e as inundações subsequentes.

Mais de quatro anos depois, a água ainda não recuou completamente.


Um simples dique mantido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) é a única coisa que separa o acampamento da planície alagada.

A população, primeiro deslocada pela guerra e depois atingida por inundações, depende fortemente da ajuda humanitária.

Nos últimos anos, as inundações de 2021 também expuseram um grave risco ambiental. Unity é a principal região produtora de petróleo do Sudão do Sul.
Apesar da poluição, a região de Rotriak tem experimentado uma rápida expansão de assentamentos devido ao deslocamento contínuo de habitantes.

Uma análise geoespacial revelou que, durante as inundações de 2021, 159 dos mais de 400 poços de petróleo da região ficaram submersos.

A DW, em colaboração com a PlaceMarks Africa, confirmou que mais de 50 delas ainda estão submersas.

Os rios e lagos dos quais dependem centenas de milhares de pessoas parecem ter sido poluídos, com potenciais consequências para o meio ambiente e a saúde.

"Muitos animais estão morrendo por causa dessa poluição, e as pessoas também estão sofrendo sintomas que atribuem a ela. Tudo isso é visível, mas ainda não temos evidências suficientes ou estudos epidemiológicos para afirmar isso com certeza", explica o pesquisador Marko Gatkuoth, afiliado ao Instituto do Vale do Rift.

"As inundações que começaram há mais de quatro anos se tornaram um veículo de poluição. Elas fizeram com que os poluentes se espalhassem."
"Negligência deliberada"

Bul Duot Kuer, um pesquisador sul-sudanês da Universidade Kenyatta, no Quênia, encontrou concentrações de chumbo quase duas vezes maiores que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em rios ao redor de Bentiu, perto de Rotriak. Ele também detectou níveis de hidrocarbonetos acima dos limites recomendados.

"A água é o elemento mais poluído", afirma ele. "Não há qualquer controle. As leis ambientais existem no papel, mas simplesmente não são aplicadas. Isso é negligência. O governo e as companhias petrolíferas não se importam com a saúde da população."

A moradora local Anna Nyashing Bul contou à DW que ela e sua família se mudaram para Rotriak após as enchentes de 2021 porque era "o único lugar que ainda estava seco". A água não tratada que consomem frequentemente apresenta uma "película preta na superfície" e causou repetidos surtos de doenças em sua família, explicou ela. "Mas não tínhamos mais nada para beber."

No Hospital Estadual de Bentiu, médicos e parteiras relatam ter observado um aumento nos casos de defeitos congênitos, abortos espontâneos e complicações na gravidez, especialmente entre mulheres de áreas produtoras de petróleo.

Nyapuka Nios, de 19 anos, acaba de dar à luz um bebê com malformações visíveis. "Não sei o que será dele", sussurra. "É a vontade de Deus. Deus o deu a mim assim." Em outro cômodo, Nyekal Nuok cuida de sua filha, que nasceu cinco dias antes com espinha bífida.

Diversos estudos relacionam a proximidade a poços de petróleo com um risco maior de defeitos congênitos.

"Desde as inundações, temos visto mais abortos espontâneos e mais bebês nascidos com defeitos congênitos", concorda Dorgan Patai, diretor dos serviços de saúde do Condado de Rubkona. "A longo prazo, isso pode até levar à infertilidade."

Segundo a OMS, não existem dados conclusivos para estabelecer se esses casos estão realmente relacionados à poluição ambiental.
À deriva

Ayen Mijok Kiir, primeira vice-presidente do Conselho dos Estados, vem pedindo providências há anos.

"Não somos um país estável", enfatiza ele. "Temos dificuldade em alocar recursos para diferentes setores. Estamos sob pressão para priorizar a segurança. Mas sim, mesmo com esses desafios, deveríamos ter feito mais."

Apesar das investigações e reuniões oficiais, ela afirma que a situação praticamente não mudou. "Que diferença fará se eu falar sobre isso de novo?", diz ela em voz baixa. "Já falei sobre isso inúmeras vezes, dei inúmeras entrevistas, e nada aconteceu."

Quinze anos após conquistar a independência, o Sudão do Sul ainda carece de sistemas eficazes de monitoramento ambiental. Combater o impacto ambiental provavelmente continuará sendo uma meta inatingível em um país ainda mergulhado em sofrimento e conflitos
Buster Emil Kirchner / Marco Simoncelli

Falar bem de brasileiros em Portugal é um perigo

O que era para ser meu dia de folga depois de uma pesada semana de trabalho começou com o telefone tocando ainda muito cedo. Relutei em atender, mas o instinto de repórter falou mais alto. Do outro lado da linha havia uma pessoa chorando copiosamente, mal conseguia falar. Pedi calma e que me explicasse o que estava acontecendo. Fui ouvindo com atenção e, a cada palavra, meu espanto aumentava. A minha interlocutora, que é portuguesa, havia recebido uma série de ameaças simplesmente porque tinha elogiado os brasileiros que vivem em Portugal, cidadãos, segundo ela, muito comprometidos com o trabalho.

Fiquei em choque quando a minha interlocutora contou que uma pessoa de sua família havia sido agredida verbalmente na rua. E o motivo: as declarações que ela tinha dado em relação aos brasileiros. Foi preciso que a turma do deixa disso entrasse em ação para que o familiar da minha interlocutora não fosse vítima de violência física. Ouvindo aquelas barbaridades, fiquei me perguntando o porquê de um elogio a brasileiros provocar tanta revolta em Portugal. Por que um elogio a cidadãos oriundos do Brasil está se tornando um perigo num país que se apresenta como o sétimo mais seguro do mundo?


Os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira em Portugal. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que quase 600 mil cidadãos do Brasil cruzaram o Atlântico para se estabelecerem em terras lusas, muitos, em busca de uma vida melhor. Que mal há nisso? Os brasileiros são hoje quase 10% dos trabalhadores que contribuem todos os meses para a Segurança Social de Portugal. Somente em 2025, pagaram 1,47 bilhão (mil milhões) de euros.

Entre os trabalhadores estrangeiros que vivem em Portugal, os brasileiros só não são maioria em dois setores econômicos: agricultura e construção civil. E têm sido fundamentais para as áreas de restaurante e de hotelaria. Como disse a minha interlocutora, quando elogiou os brasileiros, eles estão sempre dispostos a fazer horas extras, a trabalhar nos fins de semana, mesmo os salários em Portugal estando entre os mais baixos da União Europeia. Isso é um pecado?

Os brasileiros também têm ampliado os investimentos em Portugal. Já detêm, em valores, mais imóveis no país do que nos Estados Unidos. Nada fixa tanto uma pessoa em um território que ter a casa própria. É comprometimento. Somente em Cascais, onde quase 10% da população atual têm origem no Brasil, dois empreendimentos vão movimentar pelo menos 300 milhões de euros. Esse montante corresponde a mais da metade do Orçamento deste ano da vila portuguesa e movimenta a economia local e os empregos.

A brasileira Embraer, que controla a OGMA em Portugal, vai construir uma fábrica no país. É na sua unidade em Alverca que estão sendo montados os aviões do modelo Super Tucano A-29N, já preparados para atender as exigências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A fabricante de aeronaves foi fundamental para aumentar o salário médio pago na região. Em Santo Tirso, no Norte de Portugal, a brasileira WEG, maior fabricante de motores do mundo, é um dos pilares da economia.

Pelos dados do Observatório das Migrações, há cerca de 10 mil empreendedores brasileiros espalhados por Portugal, sendo 80% deles, mulheres. Entre os imigrantes, os empreendedores brasileiros são os que mais empregam, seguidos pelos chineses. Estamos falando de pequenos negócios, mas que, no conjunto, se tornam fundamentais para movimentar um país que ainda é pobre e dependente de subsídios repassados pela União Europeia.

Por todos os ângulos que se olhe, os brasileiros e os demais imigrantes são, sim, uma benção para Portugal. Não fossem eles, como revelou o INE, a população do país teria encolhido e, certamente, a economia, mesmo com o turismo fortalecido, estaria próxima da recessão. Os portugueses, portanto, não deveriam embarcar no discurso racista e xenófobo da extrema-direita. Deveriam estar agradecendo por poder contar com essa parceria. Sim, porque é uma parceria, em que todos ganham.

A dica vale, inclusive, para o Governo de Luís Montenegro, que, erroneamente, embarcou no discurso preconceituoso liderado pelo extremista André Ventura acreditando que teria amplo apoio da sociedade portuguesa. Isso não só não aconteceu, como, aos poucos, o Chega está implodindo o PSD, o partido do primeiro-ministro. Em vez de endossar a xenofobia, Montenegro deveria romper com o atraso que dá as cartas em Portugal.

Vamos ficar apenas na infraestrutura para escancarar a ineficiência do Estado. O Governo sequer consegue construir um novo aeroporto em Lisboa, promessa que se arrasta por quase 50 anos. Também é incapaz de construir uma ponte ou um túnel ligando Lisboa à Margem Sul, impondo sofrimento diário à população que precisa fazer a travessia entre os dois lados, com horas de engarrafamento.

No modal ferroviário, a situação é calamitosa. Um país mínimo, como Portugal, não tem ligação expressa com o restante da Europa. A vizinha Espanha tem a segunda maior malha de trem de alta velocidade do mundo, só ficando atrás da China. Não vou dizer que é incompetência portuguesa, para não ser deselegante. Mas a alcunha de ineficiência cai bem.

Diante desse quadro, só resta lamentar o fato de um bando de gente maluca, sem a menor noção da realidade, ficar atacando quem fala bem dos brasileiros que vivem em Portugal. Essas pessoas deveriam tomar vergonha na cara!
Vicente Nunes