No dia 19 de agosto, a Oxfam Brasil lançou o relatório Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia. O documento mostra uma aparente contradição: embora alguns indicadores de renda dos brasileiros tenham apresentado melhora nos últimos anos, uma parcela desproporcional dos ganhos foi apropriada pelos grupos situados no topo da pirâmide social. Entre 2017 e 2023, por exemplo, a participação do 1% mais rico na renda nacional passou de 20,4% para 24,3%; desse avanço, 85% ficaram com o 0,1% mais rico. Para compreender essa aparente contradição, porém, é preciso ir além da constatação de que o Brasil apresenta uma das mais elevadas concentrações de renda do mundo. É necessário, antes de tudo, distinguir uma questão fundamental: salário é renda, mas renda não se resume ao salário.
Essa diferenciação exige uma breve pausa para alinhar três conceitos que, embora frequentemente tratados como sinônimos no debate público, possuem papéis completamente distintos na dinâmica econômica:
Salário: É a remuneração recebida pelo trabalho realizado. Para a esmagadora maioria da população, ele constitui a única fonte de recursos para a manutenção da vida cotidiana, garantindo o acesso a bens essenciais como alimentação, moradia e transporte. O salário, portanto, está diretamente vinculado à venda da força de trabalho no mercado.
Renda: Trata-se de um conceito mais amplo. Ela corresponde ao conjunto de recursos que uma pessoa ou família recebe em determinado período e pode ter diferentes origens. Além dos salários, a renda pode resultar de aposentadorias, benefícios, aluguéis, juros, lucros, dividendos e outras formas de remuneração. Essa distinção é fundamental para compreender a desigualdade, pois pessoas que possuem patrimônios elevados podem obter rendimentos significativos mesmo sem depender diretamente do trabalho para gerar sua renda.
Patrimônio: O patrimônio, por sua vez, representa o conjunto de bens e ativos acumulados por uma pessoa ou família. Nele podem estar incluídos imóveis, veículos, empresas, participações societárias, aplicações financeiras e outros ativos. Diferentemente da renda, que representa um fluxo contínuo de recursos recebido ao longo do tempo, o patrimônio constitui um estoque de riqueza acumulada. E essa diferença é fundamental: o patrimônio não representa apenas riqueza acumulada no passado; ele constitui também um ativo capaz de produzir novas rendas e, consequentemente, ampliar a própria riqueza por meio de aluguéis, juros, lucros e dividendos.
Renda do capital: É no encontro entre patrimônio e renda que surge a renda do capital. Ela corresponde aos rendimentos gerados a partir da propriedade de ativos: lucros distribuídos, dividendos, juros e aluguéis. A diferença crucial reside no fato de que o patrimônio não representa apenas uma riqueza passada, mas o motor da riqueza futura. Assim, quanto maior o patrimônio acumulado, maior a capacidade de gerar novas rendas de forma autônoma, sem qualquer dependência da venda da força de trabalho.
A desigualdade brasileira não resulta apenas da distribuição desigual da renda produzida pelo trabalho. Ela está assentada em uma estrutura de propriedade que permite a uma pequena parcela da sociedade transformar patrimônio em renda, renda em riqueza e riqueza em poder – processo que também se materializa de forma desigual no território.
Na prática, esse mecanismo opera como uma espiral de privilégios. A propriedade do capital gera uma renda que não apenas sustenta o indivíduo, mas se reverte continuamente em novo patrimônio. É na continuidade desse ciclo que a desigualdade deixa de ser um evento ocasional e passa a constituir uma estrutura permanente. Por isso, para compreender a concentração da renda, não basta perguntar quanto cada pessoa ganha; é preciso perguntar também quem possui os ativos que a produzem. E, diante da enorme concentração no topo da pirâmide, surge uma questão fundamental: de onde vem uma parcela tão grande desse montante?
Uma parcela significativa dessa renda pouco ou nada depende da remuneração do trabalho, mas do fato de a propriedade do capital produzir novos rendimentos e se multiplicar continuamente. No Brasil, os dados apresentados pela Oxfam evidenciam que a concentração no topo da pirâmide social está estreitamente relacionada à posse de ativos financeiros, imobiliários e empresariais. À medida que esses ativos geram lucros, dividendos, juros, aluguéis e ganhos patrimoniais, seus proprietários ampliam sua capacidade de acumulação e de reprodução da riqueza. Esse processo é ainda mais intenso entre o 1% mais rico e, de forma particularmente concentrada, no interior desse grupo, entre os integrantes do 0,1% do topo.
Desse modo, uma parcela expressiva dos rendimentos dos mais ricos não depende exclusivamente da remuneração obtida pelo trabalho, mas da capacidade de um patrimônio já acumulado produzir novos rendimentos e ser continuamente ampliado.
Assim, a questão sobre a origem de tamanha concentração nos conduz inevitavelmente à estrutura de propriedade: o patrimônio acumulado deixa de ser mero bem individual e passa a atuar como um mecanismo de reprodução da riqueza, capaz de gerar novos fluxos de renda e multiplicar a riqueza daqueles que já ocupam o topo da estrutura social.
Essa conversão da riqueza privada em poder político manifesta-se com clareza na própria composição do Congresso Nacional. Segundo o relatório da Oxfam, 45% das pessoas eleitas declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão, revelando uma presença massiva de milionários no Legislativo. No Senado Federal, o contraste é ainda mais expressivo: entre as 207 candidaturas analisadas, apenas 15, cerca de 7% do total, possuíam patrimônio de até R$ 100 mil.
Esses dados revelam uma assimetria que vai muito além da renda: o abismo econômico converte-se em desigualdade nas condições de acesso ao poder político. Embora o Parlamento seja formalmente democrático, sua composição está muito distante da estrutura patrimonial da sociedade brasileira, marcada por uma forte concentração de representantes pertencentes aos estratos de maior patrimônio e pela presença reduzida daqueles situados nas camadas patrimoniais inferiores. A riqueza deixa, assim, de ser mero recurso privado e passa a atuar como alavanca de influência pública, permitindo que as elites econômicas moldem as regras do jogo e a distribuição de recursos do Estado. Em última análise, a desigualdade econômica passa a produzir também uma desigualdade política, restringindo a diversidade social nas instituições e favorecendo a reprodução das estruturas de poder existentes.
Essa engrenagem de acumulação e poder não fica solta no ar: ela ganha corpo, toma forma e se fixa diretamente no território. É no espaço geográfico que a passagem do patrimônio ao poder se torna mais concreta, transformando a desigualdade econômica e política em uma profunda desigualdade territorial, cujos efeitos se materializam diariamente no campo e na cidade.
No espaço urbano, a produção da segregação estabelece novas fronteiras de exclusão à medida que a mobilidade do capital financeiro e imobiliário transforma o solo em um ativo estratégico de valorização e especulação. Esse processo contribui para concentrar investimentos públicos e privados em áreas dotadas de maior infraestrutura e capacidade de valorização, ao mesmo tempo em que produz novas centralidades e enclaves fortificados, como condomínios fechados, shopping centers e complexos empresariais, que fragmentam o tecido urbano e estabelecem diferentes regimes de acesso à cidade. Essas estruturas redefinem a centralidade urbana por meio de espaços seletivos e controlados, reproduzindo, sob formas privadas, funções tradicionalmente associadas ao espaço público. Enquanto o capital imobiliário se apropria de parcelas da valorização produzida coletivamente pela cidade e concentra investimentos nas áreas mais valorizadas, a população trabalhadora, cuja principal fonte de renda é o salário, é submetida aos efeitos da espoliação urbana e empurrada para periferias cada vez mais distantes. A ausência ou precariedade de saneamento, transporte, iluminação e equipamentos públicos transforma, assim, a distância geográfica em barreira concreta ao acesso a direitos fundamentais.
No campo, por sua vez, a materialização da riqueza expressa a continuidade de condicionantes históricos de longa duração que estruturam o capitalismo agrário brasileiro. A estrutura fundiária contemporânea é herdeira de uma longa história de concentração da terra, marcada pelo regime de sesmarias, por quase quatro séculos de escravidão e, posteriormente, pela Lei de Terras de 1850, que estabeleceu a compra como principal forma de acesso à propriedade e dificultou sua obtenção por aqueles que não dispunham de recursos para adquiri-la. Em um contexto de profunda desigualdade social e racial, esse processo contribuiu para restringir o acesso à terra por grande parte da população negra e trabalhadora. Essa herança histórica permanece inscrita no poder econômico das grandes propriedades rurais e na capacidade de expansão do agronegócio sobre novas áreas, inclusive em territórios públicos e tradicionais ocupados por povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas. A propriedade da terra opera, nesse contexto, simultaneamente como reserva de valor, fonte de renda e instrumento de poder, enquanto o território rural é incorporado às cadeias de produção e exportação de commodities.
Essa estrutura também é atravessada pela ação do Estado, que historicamente desempenha papel decisivo na organização do espaço agrário por meio de crédito, infraestrutura, políticas de financiamento, pesquisa e incentivos econômicos. Quando esses instrumentos são distribuídos de forma desigual entre os diferentes agentes do campo, contribuem para ampliar as vantagens dos segmentos mais capitalizados, enquanto agricultores familiares e pequenos produtores enfrentam maiores restrições de acesso a recursos, mercados e infraestrutura. A desigualdade patrimonial, portanto, não apenas se reproduz no campo: ela participa da produção de profundos contrastes territoriais e regionais.
Em última análise, o relatório da Oxfam ganha uma dimensão mais potente quando lido sob a perspectiva da Geografia Política. A desigualdade brasileira não é apenas um indicador estatístico abstrato, mas uma estrutura de poder espacializada. O capital acumulado no topo amplia a capacidade de influência sobre as instituições, enquanto a concentração da propriedade e dos investimentos organiza de maneira desigual o acesso ao território, à infraestrutura, aos serviços e às oportunidades. A desigualdade econômica, convertida em poder político e inscrita no espaço geográfico, transforma o território em uma das principais dimensões da reprodução dos privilégios.
“Vêm aí os primos do norte.” É assim que me lembro de terem sido anunciados, embora talvez a memória me atraiçoe, uma vez que o anúncio foi feito por avós e tios que viviam no Porto. Foi a primeira e a última vez que os vi. Mas o dia ficou-me na memória, porque me explicaram que era a primeira vez que vinham ao Algarve. Eu, que ali passava férias ainda na barriga da minha mãe, registei este dado com estranheza de coisa exótica. O privilégio é assim. Ofusca o que está mesmo ao lado, apaga quem não é igual a nós.
Esta semana, enquanto comprava os livros escolares, a minha filha ia e vinha ao balcão, insistindo para que eu lhe comprasse um livro de histórias. E eu, assoberbada com a verificação da encomenda escolar e um pouco perplexa com a soma que se agigantava, ia-a afastando. “Já vamos ver isso.” O rapaz que me atendia apressou-se logo a fazer um comentário simpático, deixando claro que nesta época do ano já se habituou a ver pais aflitos com a conta do material escolar. E eu, que até tenho a sorte de poder dar-me ao luxo de comprar aos meus filhos os livros que eles querem, pedi para juntar à conta aquele livro que a minha filha tanto desejava, enquanto aproveitava para lhe explicar como nem todos os pais podiam fazer o mesmo, apesar dos vouchers que o Estado dá a quem anda nas escolas públicas e tem, assim, pelo menos, os manuais gratuitos.
Entre uma e outra história, deve haver uns 30 anos de diferença. Parece que estes dois episódios não têm qualquer relação entre si. Mas eles contam-nos um pouco do que aconteceu ao País nestas décadas de intervalo.
Quando nos anos 90 aqueles primos afastados vieram pela primeira vez passar férias ao Algarve, dava os primeiros passos mais sólidos aquilo a que poderia chamar-se uma classe média. Para muitas famílias, foi o tempo das primeiras férias fora de casa, da compra do primeiro carro ou da primeira casa, dos eletrodomésticos (comprados a prestações ou não) que eram grande novidade antes de se tornarem banais, como os micro-ondas, as arcas frigoríficas, as aparelhagens de som, as VHS primeiro e depois os DVDs. Havia no ar um cheiro a otimismo. Os hipermercados eram um sítio onde se passeava e os refrigerantes e iogurtes começaram a encher os frigoríficos. Sim, foi o tempo dos dinheiros que vinham da Europa e de um excesso de consumismo, que vinha de uma espécie de fome de tudo dos anos sombrios da ditadura. Mas foi também muito o tempo em que a Educação e a Saúde deixaram de ser privilégios e se tornaram direitos e essa é uma parte importante da história.
Nessa altura, estavam na idade adulta aqueles a quem a Revolução abriu as portas para uma vida melhor. Eram os professores, médicos, enfermeiros e engenheiros de uma nova geração, alguns filhos de pedreiros ou camponeses, que conseguiam empregos com que os seus pais nunca tinham sequer sonhado e direitos laborais, como férias pagas e baixas por doença, que poucos anos antes pareciam uma ficção. Num país onde tudo faltava, não lhes faltava trabalho. E, mais do que isso, parecia que nada faltaria aos seus filhos.
Ninguém fazia contas de cabeça para pagar um seguro de saúde. Ninguém sentia que se não fossem para uma escola privada estava a condenar os filhos a um futuro pior. Nós, os que nos sentávamos nos bancos da escola pública, tínhamos ao lado os filhos dos professores universitários e das empregadas de limpeza, os filhos dos engenheiros e dos trabalhadores do comércio. E, no máximo, a grande diferença era que uns compravam Levi’s legítimas e os outros iam à feira. Mas a escola não era um quebra-cabeças financeiro. Parecia (mesmo que houvesse uma grande ilusão nisso) que podíamos todos chegar aos mesmos lugares.
Trinta anos depois, pagar pela Saúde e pela Educação banalizou-se tanto que quase parece que o fazemos por escolha. E quase nem pensamos em como poderíamos gastar esse dinheiro e na diferença que ele faria se não nos sentíssemos impelidos a procurar nos privados um serviço que se degradou tanto no público. Sei bem que continua a haver escolas públicas extraordinárias e que só o SNS garante alguns cuidados que são impossíveis de pagar em hospitais privados. Mas não é disso que falo. Do que falo é desta classe média que está a deixar de o ser, não porque os impostos lhe comem o salário (embora, sim, os impostos sobre o trabalho estejam demasiado altos, sobretudo quando comparados com o que se taxa a riqueza), mas sobretudo pela falta de investimento público.
Em Portugal, cerca de 33% das famílias não têm dinheiro para pagar uma semana de férias fora de casa. E este não é um problema exclusivamente português: na Europa, a média dos que não podem dar-se a esse luxo está nos 27,5%. Claro que é preciso não esquecer que, dependendo se se considera o salário base ou a remuneração total declarada, em Portugal cerca de 55% a 75% dos trabalhadores ganham até mil euros por mês. Mas mesmo os 2,7% que ganham mais de três mil euros líquidos (e que quadruplicaram nos últimos dez anos) sentem que esses três mil euros valem cada vez menos. E não é só (embora também seja) porque a inflação está a comer-lhes o salário. É também porque há uma fatia de rendimento cada vez maior que vai para o que antes era assegurado gratuitamente e com qualidade pelo Estado. Se somarmos a isso os efeitos da especulação imobiliária (em média, os portugueses destinam cerca de 80% do salário para pagar a casa), percebemos melhor a história deste fim da classe média.
A classe média foi, em certa medida, uma espécie de amortecedor social. Uma ideia política, feita de capacidades aquisitivas simbólicas (como as férias fora de casa, o carro próprio e a casa), que servia para tornar mais aceitáveis algumas desigualdades. A ideia central era a de que o esforço e o trabalho podiam servir de elevador social. Hoje, o simples facto de apenas 3% dos estudantes que entraram este ano no Ensino Superior na primeira fase virem das famílias mais pobres desmonta bem essa ideia. Se juntarmos a isso a própria erosão da noção de propriedade, com as hipotecas sobre hipotecas feitas para se conseguir viver, as licenças que nos permitem ser utilizadores de tantos serviços, mas não proprietários, e uma precariedade que perpassa todas as esferas das nossas vidas, percebemos que a classe média é uma espécie de ideia fora de moda.
As elites parecem ter deixado de precisar das classes médias. A aceitação das desigualdades como naturais (às vezes, até tidas como um dado biológico) ajuda a perceber em parte porquê. A promoção de uma meritocracia aspiracional e uma pornografia do luxo difundida por influencers que nos dizem que a riqueza virá se a “visualizarmos” são outra parte desta domesticação dos que antes reivindicavam direitos. A apatia política geral das massas explica o resto. Os super-ricos não sentem medo do poder popular. A própria ideia de que é preciso conquistar a opinião pública está enfraquecida, à medida que cada vez mais decisões se transferem da esfera política para a técnica e as soluções são apresentadas como inevitabilidades.
Não escrevo nada disto para assumir uma derrota. Pelo contrário. Escrevo-o, porque sei que é preciso nomear as coisas para as entender. E também sei que é cada vez mais importante perceber que o mesmo poder que fez ascender as classes médias está a agora a fazê-las desaparecer. O que não desaparece é o facto de que as classes trabalhadoras serão sempre mais do que as elites que querem oprimi-las. Assim elas entendam o seu poder.
As eleições constituem o principal instrumento para que os políticos ouçam, dialoguem e respondam à sociedade. Isso não quer dizer que os governantes e representantes também não tenham de prestar contas ao longo de seus mandatos. Ocupar um cargo eletivo sempre envolve ser monitorado e responsabilizado por seus atos. Mas é no processo eleitoral que os cidadãos têm mais força para listar as prioridades e buscar soluções para os problemas públicos. O que estamos vendo em 2026, infelizmente, é um uso muito insatisfatório e reduzido desse momento estratégico da democracia.
O Brasil passou por muitas transformações positivas desde o início da redemocratização. Nesta lista estariam o acesso universal à saúde, a expansão da educação para camadas sociais que tinham sido alijadas ou expulsas das escolas, a criação de políticas que reduziram a pobreza, a estabilização da economia com o Plano Real, bem como a adoção de programas para proteger o meio ambiente e minorias sociais, como negros, mulheres e indígenas. Tudo isso só foi possível porque houve eleições, com participação dos cidadãos, pressões de organizações da sociedade e apresentação de propostas por candidatos competindo entre si.
A eleição de 2026 tem toda a estrutura para ser o terreno de construção de melhores políticas públicas frente aos diversos problemas que o país terá de enfrentar nos próximos quatro anos. Entretanto, até agora, o debate e as disputas eleitorais têm sido pobres em ideias, fugindo dos principais problemas que vão afligir o próximo presidente e o Congresso Nacional. Trata-se de um pleito em que a política está rodando em torno de si mesma, quase num mundo paralelo.
A explicação para esse comportamento no plano dos concorrentes ao Legislativo resume-se a uma palavra da ciência política: oligarquização. Essa é a característica mais marcante do sistema político brasileiro iniciada pelo comando de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara Federal e que foi lapidada nos últimos dez anos por uma série de reformas institucionais. Quem entrou no clube dos eleitos nos últimos anos dificilmente sairá do jogo, e quem está fora começa a corrida eleitoral em grande desvantagem.
Entre as medidas que produziram a oligarquização, destacam-se, primeiramente, a ampliação gigantesca do tamanho das emendas parlamentares, que se tornaram menos transparentes e dominadas por uma pequena elite política, formada pelos cardeais do Congresso Nacional e alguns presidentes de partidos. Soma-se a isso o crescimento enorme dos Fundos Partidário e Eleitoral, comandados pelas cúpulas das agremiações partidárias, definindo assim os pouco donos do dinheiro e vencedores dentro das legendas. Também pode ser agregada aqui a redução do tempo de campanha, o que cria uma barreira de entrada para os que estão fora desse sistema oligárquico, diminuindo a competição eleitoral.
O predomínio da oligarquização política torna mais difícil o debate sobre as disputas legislativas, ainda mais no sistema eleitoral brasileiro, em que voto proporcional por lista aberta enfileira nomes e mais nomes sem que o eleitor saiba claramente as propostas partidárias. A vinculação do voto às benesses locais clientelistas ficou mais poderosa nos últimos dez anos, num retrocesso em relação aos avanços que tínhamos conseguido com a criação de normas mais objetivas e impessoais para o acesso às políticas públicas, especialmente a partir do governo Fernando Henrique.
As eleições majoritárias - Senado, governadorias e Presidência da República - fornecem melhores condições para um debate além do clientelismo localista ou do voto ligado a identidades religiosas ou profissionais. Não obstante, o contexto importa muito, e a grande maioria do eleitorado brasileiro hoje está dividida entre a polarização e o cansaço, mostram as pesquisas qualitativas.
A maioria do eleitorado, cerca de 70%, abraçou o comportamento polarizado, e dentro destes a maior parcela discute cada vez menos as questões nacionais a fundo, e espera saber o que seu lado fala sobre o assunto. Entre os que estão cansados, há um forte sentimento de desânimo, o que leva tais eleitores a procurar mais um perfil fora das brigas e escândalos recentes do que propostas concretas - isso explica o crescimento nas últimas semanas de Augusto Cury.
A lógica da guerra das rejeições entre os dois líderes das pesquisas é mais um ponto que dificulta o debate de ideias. Evidentemente que a sociedade precisa saber tudo sobre os candidatos, com destaque para suas condutas éticas. A questão é que as respostas para tais escândalos tendem a ser mais objetivas quando feitas por apurações independentes. Sabendo que o outro lado também tem telhados de vidro, Flávio Bolsonaro e Lula continuarão discutindo os erros do outro para aumentar a rejeição alheia, fator que deve ser decisivo numa eleição em que os independentes e indecisos, verdadeiros fiéis da balança, tendem a anular ou escolher o menos rejeitado entre os dois.
No conjunto dos candidatos, outro problema tem dificultado o debate: a adoção de paradigmas equivocados de políticas públicas. O apoio à política de segurança pública em El Salvador é um desses casos. Sem analisar o funcionamento efetivo do modelo, presidenciáveis têm abraçado integralmente o que mal conhecem. Mas o que importa aqui é criar um discurso salvacionista, em que as impressões valem mais do que as evidências. Seria muito mais importante analisarem os números brasileiros, as experiências subnacionais mais bem-sucedidas, como Niterói e Rio Grande do Sul, em vez de propor algo estranho às nossas singularidades.
A fragilidade do diagnóstico dos acertos e erros do passado também enfraquece o debate público. Algumas discussões e propostas sobre juros ou Bolsa Família ignoram o que já conhecemos sobre tais temas. Vale mais dizer que será feita uma mudança grande mesmo que o diagnóstico seja pobre e equivocado. Neste campo, o apoio à anistia de Bolsonaro é uma amnésia perigosíssima porque poderá abrir portas para golpes no futuro, jogando uma pá de cal na democracia.
Sabe-se que políticos, em muitas democracias, tendem a evitar os temas espinhosos que exigem soluções que desagradarão a parte importante do eleitorado. Políticos brasileiros não fogem dessa regra. Porém, é igualmente verdadeiro que quem promete o céu e entrega o ajuste logo no início do mandato, especialmente levando-se em conta que os resultados positivos do processo demandam algum tempo, pode ter dificuldades de governabilidade. Por isso, o pragmatismo político indica que é melhor não fugir do diagnóstico e ser mais honesto com o eleitorado. Há espaço eleitoral para dizer que uma repactuação do problema fiscal trará ganhos para todos. Todavia, a pobreza do debate prefere o silêncio ou o populismo.
Mais problemático é o fato de que a maioria dos candidatos não está discutindo a fundo propostas apresentadas por organizações da sociedade para resolver os problemas do país e estabelecer um projeto de futuro ao país. Participei de algum modo de proposições feitas pela Todos Pela Educação, pelo Iedi e pelo Derrubando Muros, que podem ter defeitos, mas apresentam um conjunto rico de diagnósticos e prognósticos que está sendo ignorado pelos principais presidenciáveis. Citei tais documentos e poderia falar de outros posicionamentos setoriais muito interessantes que foram publicados recentemente e que não foram nem citados pelos programas de governo.
Por culpa da grande maioria dos políticos e também de boa parte da cobertura da imprensa, o debate eleitoral está muito distante de uma radiografia precisa dos problemas e de modelos baseados em evidências que construam soluções exequíveis. Seria muito mais interessante confrontar as ideias dos candidatos com as propostas formuladas por várias entidades da sociedade civil. E se concordarem com tais propostas ou com parcela delas, os candidatos à Presidência da República poderiam se comprometer e assinar compromissos que deixariam mais claro o que farão se vencerem as eleições.
Naquilo em que haja polêmica ou concordância parcial em relação às propostas da sociedade civil, o diálogo com os presidenciáveis poderia gerar um cardápio de soluções, dentro do qual as linhas ideológicas dos candidatos optariam por ficar um pouco mais à esquerda ou à direita. De todo modo, sair das meras generalidades ou de mitos equivocados sobre políticas públicas seria um passo muito positivo para usar a democracia como um meio potente de melhorar o país. Até agora, estamos distantes disso, e o mundo paralelo da política prevalece no debate eleitoral. O problema é que o distanciamento do que é efetivamente relevante nos trará uma conta bem pesada nos próximos quatro anos.
Para os eleitores fora da polarização, a eleição de 2026 parece caminhar pela escolha de quem é menos pior. Evitar um caminho mais equivocado ou perigoso para o Brasil é uma justificativa legítima e correta do voto. Mas o momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse. O papel da sociedade é aumentar o sarrafo, o máximo possível, pressionando para que projetos estruturados de país sejam, no mínimo, discutidos e levados em conta pelos presidenciáveis.
Duzentos anos depois, o Brasil ainda peleja no divã da história com seu transtorno obsessivo colonial, dessa vez, assombrado pelo pesadelo de um banco Master. Quem sabe, seja uma vocação daquelas, de nascença. Talvez, um gene, hereditário. Ou, Deus nos livre, um cancro, incurável. Em 2022, Laurentino Gomes transcrevia em seu avassalador “Escravidão III” alguns trechos do abolicionista Joaquim Nabuco, que vestem perfeitamente a nossa Terra da Santa Cruz ainda hoje.
“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”. (O Abolicionismo, 1883).
O que Nabuco descrevera acima – seis décadas corridas da Independência e às vésperas da República – estava em conformidade com o modelo colonial europeu em geral, abrindo galinhas dos ovos de ouro, às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos. Vale refletir se o Brasil de hoje não permanece uma República pela metade, onde interesses políticos e econômicos inconfessáveis ainda se aliam a valores arcaicos da sociedade, como se ainda fôssemos segregados, piratas, bandeirantes… simplesmente Vorcaros. Todos gigantes de botas, cada um a seu modo, apenas de passagem pelo Brasil para raspar-lhe o tacho.
Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto. Os EUA já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades e a escravidão era abolida mundo afora. Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!). Não era à toa que, enquanto o mundo criava a máquina a vapor, telefone, eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguia convictamente agrário, tendo como principal fator de competitividade o massacre de pessoas negras sequestradas. Não surpreende que, em pleno caos climático e geopolítico, brasileiros continuem distraídos na contramão, sem uma atitude que corresponda à estatura do desafio global, sequer das nossas limitações e desvios locais. Basta ver quanta gente bacana frequentava as poltronas (e o caixa) do Master.
Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, milhões de africanos e indígenas haviam sido raptados, escravizados ou mortos (de fazer inveja a qualquer maníaco do holocausto). A República só chegaria um ano depois – um golpe de Estado patrocinado por escravocratas ressentidos com o rei – liberal demais para nossas elites. O conceito brasileiro de República no século XIX ainda era dissociado da definição de democracia (por aqui considerada uma ideia anárquica). Quem sabe, aquela primeira visão de república – autoritária e concentradora – persista no DNA brasileiro. Quem sabe, explique, até hoje, a naturalidade das desigualdades, da devastação ambiental, da violência e dos arrotos antidemocráticos, bancados por tantos Vorcaros festejados na vida brasileira.
O mais recente sucesso de bilheteria do diretor Christopher Nolan transportou milhões de espectadores a um mundo de mares tempestuosos e cidades em chamas.
Com exceção dos monstros, esse é um mundo baseado na realidade. A Odisseia – uma história de sobrevivência num contexto pós-Guerra de Tróia – se passa durante o colapso da civilização na Idade do Bronze.
De acordo com um novo estudo, essa situação de crise foi causada por uma grave mudança climática. Na pesquisa, os autores alertam sobre "implicações para o futuro".
Os cientistas já sabem há muito tempo da existência de seca misteriosa e severa que ocorreu há mais de 3 mil anos, coincidindo com a desintegração de reinos e estados em toda a região do Mediterrâneo.
Mas a pesquisa publicada no mês passado lança luz sobre a possível causa dessa crise. De acordo com o estudo, uma tendência lenta de ressecamento, combinada com um ciclo natural mais rápido de clima seco, acabou se sobrepondo e intensificando o fenômeno.
No final da Idade do Bronze, o sistema de monções da África Ocidental já vinha se reduzindo havia milhares de anos, transformando um Saara verde em deserto. Menos chuvas na África significaram menos chuvas no Mediterrâneo.
Essa tendência se intensificou quando a região passou por um período de seca causado por ciclos climáticos naturais do Atlântico, que fazem com que a região oscile entre períodos úmidos e de estiagem que duram décadas.
Katherine Power, pesquisadora da Universidade de Estocolmo que liderou o estudo, afirma que as condições ambientais da época poderiam explicar a migração em massa e os conflitos da era da Odisséia.
Há décadas, os estudiosos vêm especulando sobre a razão por trás desse movimento em grande escala durante o período — também conhecido como a era dos "Povos do Mar".
Arqueólogos argumentam que as mudanças climáticas poderiam ajudar a explicar a migração e o colapso político no final da Idade do Bronze. Agora, as novas descobertas acrescentam mais peças a esse quebra-cabeça.
"Não sabemos necessariamente por que essas pessoas se deslocaram", diz Power. "Mas se pudermos dizer que o clima estava ficando cada vez mais difícil para a sobrevivência, essa poderia ser uma possível causa."
Essa situação, afirma a pesquisadora da Universidade de Estocolmo, é relevante para os dias de hoje. Os principais rios da Europa estão com níveis recordes de baixa, e a estiagem está criando condições para incêndios florestais devastadores, além de causar perdas históricas nas colheitas. A França, por exemplo, enfrenta a menor safra de milho em 50 anos.
Os mesmos ciclos de umidade e seca provenientes do Atlântico ainda existem, mas agora ocorrem no contexto de um mundo que está se aquecendo como resultado da queima de petróleo, gás e carvão pelos seres humanos.
"Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior", argumenta Power.
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, autor de um livro sobre as origens da crise da Idade do Bronze, acrescenta que a seca e as doenças fizeram parte da "tempestade perfeita de calamidades" que levou ao colapso da sociedade naquela época.
Ele vê paralelos entre a crise na Idade do Bronze e o contexto atual. Cline diz que "devemos ficar muito preocupados" com a possibilidade de que as mudanças climáticas se tornem um fator de estresse para o colapso da civilização. "Esse temor não é nada exagerado."
Mas o arqueólogo afirma que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade vai "cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento".
A pesquisa de Power buscou desvendar os padrões por trás dos eventos isolados de seca na Idade do Bronze.
Foram examinados esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais que indicavam a ocorrência de estiagem. Em seguida, a pesquisadora e a coautora, a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, recorreram à modelagem para obter uma visão mais ampla do contexto geral da época.
O modelo analisou todo o planeta, sobreposto por uma grade em que cada célula abrangia uma área de aproximadamente 125 quilômetros quadrados. Um supercomputador calculou então as condições em cada uma dessas células, para cada mês, ao longo de milhares de anos. Isso permitiu que as cientistas analisassem toda a região do Mediterrâneo.
"Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna", disse Power. "Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo."
O que as pesquisadoras descobriram não foi um único evento que alterou o clima de forma dramática e repentina. Em vez disso, ciclos mais curtos de umidade e seca se alinharam a uma tendência mais longa de aquecimento.
"Quando procuramos conexões entre as mudanças climáticas e as mudanças na civilização, muitas vezes estamos à procura daquele evento grande, gigantesco, abrupto e catastrófico", aponta Power, acrescentando que são mudanças lentas e graduais que levam uma sociedade a "ultrapassar um limiar".
Segundo a pesquisadora, poderia ter sido uma queda constante no abastecimento de água que levou a um declínio gradual nas colheitas, o que fez pessoas migrarem, desencadeando conflitos.
"Não é preciso muito para empurrar uma sociedade para além do limite com o qual ela se sente confortável", diz Power. "E se você acrescentar mais algum fator à equação? Talvez isso a empurre um pouco mais adiante, e você não consiga se recuperar totalmente disso."