“Vêm aí os primos do norte.” É assim que me lembro de terem sido anunciados, embora talvez a memória me atraiçoe, uma vez que o anúncio foi feito por avós e tios que viviam no Porto. Foi a primeira e a última vez que os vi. Mas o dia ficou-me na memória, porque me explicaram que era a primeira vez que vinham ao Algarve. Eu, que ali passava férias ainda na barriga da minha mãe, registei este dado com estranheza de coisa exótica. O privilégio é assim. Ofusca o que está mesmo ao lado, apaga quem não é igual a nós.
Esta semana, enquanto comprava os livros escolares, a minha filha ia e vinha ao balcão, insistindo para que eu lhe comprasse um livro de histórias. E eu, assoberbada com a verificação da encomenda escolar e um pouco perplexa com a soma que se agigantava, ia-a afastando. “Já vamos ver isso.” O rapaz que me atendia apressou-se logo a fazer um comentário simpático, deixando claro que nesta época do ano já se habituou a ver pais aflitos com a conta do material escolar. E eu, que até tenho a sorte de poder dar-me ao luxo de comprar aos meus filhos os livros que eles querem, pedi para juntar à conta aquele livro que a minha filha tanto desejava, enquanto aproveitava para lhe explicar como nem todos os pais podiam fazer o mesmo, apesar dos vouchers que o Estado dá a quem anda nas escolas públicas e tem, assim, pelo menos, os manuais gratuitos.
Entre uma e outra história, deve haver uns 30 anos de diferença. Parece que estes dois episódios não têm qualquer relação entre si. Mas eles contam-nos um pouco do que aconteceu ao País nestas décadas de intervalo.
Quando nos anos 90 aqueles primos afastados vieram pela primeira vez passar férias ao Algarve, dava os primeiros passos mais sólidos aquilo a que poderia chamar-se uma classe média. Para muitas famílias, foi o tempo das primeiras férias fora de casa, da compra do primeiro carro ou da primeira casa, dos eletrodomésticos (comprados a prestações ou não) que eram grande novidade antes de se tornarem banais, como os micro-ondas, as arcas frigoríficas, as aparelhagens de som, as VHS primeiro e depois os DVDs. Havia no ar um cheiro a otimismo. Os hipermercados eram um sítio onde se passeava e os refrigerantes e iogurtes começaram a encher os frigoríficos. Sim, foi o tempo dos dinheiros que vinham da Europa e de um excesso de consumismo, que vinha de uma espécie de fome de tudo dos anos sombrios da ditadura. Mas foi também muito o tempo em que a Educação e a Saúde deixaram de ser privilégios e se tornaram direitos e essa é uma parte importante da história.
Nessa altura, estavam na idade adulta aqueles a quem a Revolução abriu as portas para uma vida melhor. Eram os professores, médicos, enfermeiros e engenheiros de uma nova geração, alguns filhos de pedreiros ou camponeses, que conseguiam empregos com que os seus pais nunca tinham sequer sonhado e direitos laborais, como férias pagas e baixas por doença, que poucos anos antes pareciam uma ficção. Num país onde tudo faltava, não lhes faltava trabalho. E, mais do que isso, parecia que nada faltaria aos seus filhos.
Ninguém fazia contas de cabeça para pagar um seguro de saúde. Ninguém sentia que se não fossem para uma escola privada estava a condenar os filhos a um futuro pior. Nós, os que nos sentávamos nos bancos da escola pública, tínhamos ao lado os filhos dos professores universitários e das empregadas de limpeza, os filhos dos engenheiros e dos trabalhadores do comércio. E, no máximo, a grande diferença era que uns compravam Levi’s legítimas e os outros iam à feira. Mas a escola não era um quebra-cabeças financeiro. Parecia (mesmo que houvesse uma grande ilusão nisso) que podíamos todos chegar aos mesmos lugares.
Trinta anos depois, pagar pela Saúde e pela Educação banalizou-se tanto que quase parece que o fazemos por escolha. E quase nem pensamos em como poderíamos gastar esse dinheiro e na diferença que ele faria se não nos sentíssemos impelidos a procurar nos privados um serviço que se degradou tanto no público. Sei bem que continua a haver escolas públicas extraordinárias e que só o SNS garante alguns cuidados que são impossíveis de pagar em hospitais privados. Mas não é disso que falo. Do que falo é desta classe média que está a deixar de o ser, não porque os impostos lhe comem o salário (embora, sim, os impostos sobre o trabalho estejam demasiado altos, sobretudo quando comparados com o que se taxa a riqueza), mas sobretudo pela falta de investimento público.
Em Portugal, cerca de 33% das famílias não têm dinheiro para pagar uma semana de férias fora de casa. E este não é um problema exclusivamente português: na Europa, a média dos que não podem dar-se a esse luxo está nos 27,5%. Claro que é preciso não esquecer que, dependendo se se considera o salário base ou a remuneração total declarada, em Portugal cerca de 55% a 75% dos trabalhadores ganham até mil euros por mês. Mas mesmo os 2,7% que ganham mais de três mil euros líquidos (e que quadruplicaram nos últimos dez anos) sentem que esses três mil euros valem cada vez menos. E não é só (embora também seja) porque a inflação está a comer-lhes o salário. É também porque há uma fatia de rendimento cada vez maior que vai para o que antes era assegurado gratuitamente e com qualidade pelo Estado. Se somarmos a isso os efeitos da especulação imobiliária (em média, os portugueses destinam cerca de 80% do salário para pagar a casa), percebemos melhor a história deste fim da classe média.
A classe média foi, em certa medida, uma espécie de amortecedor social. Uma ideia política, feita de capacidades aquisitivas simbólicas (como as férias fora de casa, o carro próprio e a casa), que servia para tornar mais aceitáveis algumas desigualdades. A ideia central era a de que o esforço e o trabalho podiam servir de elevador social. Hoje, o simples facto de apenas 3% dos estudantes que entraram este ano no Ensino Superior na primeira fase virem das famílias mais pobres desmonta bem essa ideia. Se juntarmos a isso a própria erosão da noção de propriedade, com as hipotecas sobre hipotecas feitas para se conseguir viver, as licenças que nos permitem ser utilizadores de tantos serviços, mas não proprietários, e uma precariedade que perpassa todas as esferas das nossas vidas, percebemos que a classe média é uma espécie de ideia fora de moda.
As elites parecem ter deixado de precisar das classes médias. A aceitação das desigualdades como naturais (às vezes, até tidas como um dado biológico) ajuda a perceber em parte porquê. A promoção de uma meritocracia aspiracional e uma pornografia do luxo difundida por influencers que nos dizem que a riqueza virá se a “visualizarmos” são outra parte desta domesticação dos que antes reivindicavam direitos. A apatia política geral das massas explica o resto. Os super-ricos não sentem medo do poder popular. A própria ideia de que é preciso conquistar a opinião pública está enfraquecida, à medida que cada vez mais decisões se transferem da esfera política para a técnica e as soluções são apresentadas como inevitabilidades.
Não escrevo nada disto para assumir uma derrota. Pelo contrário. Escrevo-o, porque sei que é preciso nomear as coisas para as entender. E também sei que é cada vez mais importante perceber que o mesmo poder que fez ascender as classes médias está a agora a fazê-las desaparecer. O que não desaparece é o facto de que as classes trabalhadoras serão sempre mais do que as elites que querem oprimi-las. Assim elas entendam o seu poder.
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