quarta-feira, 29 de julho de 2026
A obsessão com a decadência é a antecâmara do autoritarismo
Há cem anos o mundo descobriu que o livro mais influente na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial era um volume de 600 impenetráveis páginas escritas por um ex-professor de escola secundária e acadêmico frustrado, dispensado do serviço militar pelas suas vistas curtas, que usou uma magra herança para explicar toda a história sem precisar analisar um documento.
O livro era intitulado "Der Untergang des Abendlandes" ("A Decadência do Ocidente", em português), e o autor, Oswald Spengler (1880-1936), dizia que o tinha começado a escrever ainda antes do início da Primeira Guerra (1914-1918), que supostamente tinha previsto, e que a revisão final do livro se dera quando ainda parecia que a Alemanha poderia ganhar no campo de batalha.
Mas, na verdade, a publicação da primeira metade do livro ocorreu em 1918 e só quando saiu o segundo volume, em 1922, é que o enorme sucesso editorial se produziu.
O livro em si é complicado, mas a explicação para o que aconteceu não precisa ser: a narrativa de Spengler era conveniente a uma Alemanha que perdeu a guerra depois sem conseguir perceber bem por quê. Acreditar que essa derrota não era só sua, mas de todo o Ocidente, sempre ajudava a tirar um pouco daquele sabor amargo.
Ainda assim, o livro não se tornou famoso só na Alemanha, mas em todo o Ocidente cuja decadência ele anunciava. Em breve, Spengler era um dos filósofos favoritos de fascistas, integralistas e nazistas (apesar de achar Hitler um cabotino) e ainda hoje é a fonte de ideias que animam toda a estirpe de tradicionalistas, supremacistas brancos e nacional-populistas.
Saibam eles ou não, as direitas radicalizadas e extremas direitas podem diferenciar-se de várias maneiras, mas todas acham, de uma forma ou de outra, que a civilização ocidental está em perigo.
É esse estilo apocalíptico que lhes dá a convicção de que é preciso esmagar ou erradicar os seus adversários, estejam eles na esquerda, nas minorias ou do outro lado do mundo. Com exceção do islamismo político, não há hoje outra família política com tal repositório de certeza fanática.
Como há cem anos, a obsessão com a decadência do Ocidente serve para mascarar primeiro e, depois, justificar projetos autoritários. A novidade não está aí. Mais assustador é o separatismo tecnológico e, em última análise, biológico que se esconde por detrás desse discurso antigo.
A propósito da tecnologia comecemos por notar o seguinte: em nenhuma das revoluções tecnológicas anteriores, da nuclear à internet, foi tão reduzido o espaço para o público (o interesse público, o investimento público, a regulação, o bem-comum).
A IA está dominada por atores privados e tem como base uma desigualdade de acesso crescente: os cidadãos comuns ficam com vídeos engraçados, e as ferramentas verdadeiramente poderosas estão nas mãos de poucos. Se isso já é assim, imagine-se o potencial de diferenciação biológica se as maiores promessas de investigação científica e tratamentos médicos movidas por IA se concretizarem.
Os neotradicionalistas bem podem rasgar as vestes, mas o que os seus líderes nos prometem é um futuro bem mais distorcido do que qualquer decadência do Ocidente.
O livro era intitulado "Der Untergang des Abendlandes" ("A Decadência do Ocidente", em português), e o autor, Oswald Spengler (1880-1936), dizia que o tinha começado a escrever ainda antes do início da Primeira Guerra (1914-1918), que supostamente tinha previsto, e que a revisão final do livro se dera quando ainda parecia que a Alemanha poderia ganhar no campo de batalha.
Mas, na verdade, a publicação da primeira metade do livro ocorreu em 1918 e só quando saiu o segundo volume, em 1922, é que o enorme sucesso editorial se produziu.
O livro em si é complicado, mas a explicação para o que aconteceu não precisa ser: a narrativa de Spengler era conveniente a uma Alemanha que perdeu a guerra depois sem conseguir perceber bem por quê. Acreditar que essa derrota não era só sua, mas de todo o Ocidente, sempre ajudava a tirar um pouco daquele sabor amargo.
Ainda assim, o livro não se tornou famoso só na Alemanha, mas em todo o Ocidente cuja decadência ele anunciava. Em breve, Spengler era um dos filósofos favoritos de fascistas, integralistas e nazistas (apesar de achar Hitler um cabotino) e ainda hoje é a fonte de ideias que animam toda a estirpe de tradicionalistas, supremacistas brancos e nacional-populistas.
Saibam eles ou não, as direitas radicalizadas e extremas direitas podem diferenciar-se de várias maneiras, mas todas acham, de uma forma ou de outra, que a civilização ocidental está em perigo.
É esse estilo apocalíptico que lhes dá a convicção de que é preciso esmagar ou erradicar os seus adversários, estejam eles na esquerda, nas minorias ou do outro lado do mundo. Com exceção do islamismo político, não há hoje outra família política com tal repositório de certeza fanática.
Como há cem anos, a obsessão com a decadência do Ocidente serve para mascarar primeiro e, depois, justificar projetos autoritários. A novidade não está aí. Mais assustador é o separatismo tecnológico e, em última análise, biológico que se esconde por detrás desse discurso antigo.
A propósito da tecnologia comecemos por notar o seguinte: em nenhuma das revoluções tecnológicas anteriores, da nuclear à internet, foi tão reduzido o espaço para o público (o interesse público, o investimento público, a regulação, o bem-comum).
A IA está dominada por atores privados e tem como base uma desigualdade de acesso crescente: os cidadãos comuns ficam com vídeos engraçados, e as ferramentas verdadeiramente poderosas estão nas mãos de poucos. Se isso já é assim, imagine-se o potencial de diferenciação biológica se as maiores promessas de investigação científica e tratamentos médicos movidas por IA se concretizarem.
Os neotradicionalistas bem podem rasgar as vestes, mas o que os seus líderes nos prometem é um futuro bem mais distorcido do que qualquer decadência do Ocidente.
O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90
Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira.
O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.
Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.
Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.
“Você sabe com quem está falando?” A frase clássica do brasileiro virou objeto de estudo de DaMatta, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário. Segundo o antropólogo, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos.
Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando?
Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.
Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.
Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.
O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?
O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota.
Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam.
O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra
“Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos.
Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância.
Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.
Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?
O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.
O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência?
Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.
Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita?
Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento.
Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.
Indígenas ou índios?
Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias.
Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?
O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte.
As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.
Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?
Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.
O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.
Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.
Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.
Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando?
Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.
Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.
Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.
'Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos'
O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?
O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota.
Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam.
O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra
“Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos.
O sr. está chegando aos 90 anos. Como se sente?
Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância.
Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.
Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?
O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.
O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência?
Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.
Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita?
Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento.
Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.
Indígenas ou índios?
Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias.
Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?
O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte.
As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.
Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?
Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.
Roberta Jansen
Aliado a Rubio, Milei e Netanyahu, Flávio dobra aposta na crise externa
Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.

A operação pode até mobilizar o eleitorado bolsonarista mais radical, porém ameaça interesses econômicos do país e expõe Flávio à acusação de colocar a estratégia eleitoral de sua família acima do interesse nacional. Convidado de honra da convenção do PL, em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” e dirigiu ao ministro Alexandre de Moraes uma ofensa incompatível com o cargo que ocupa: “lixo careca”.
Foi um discurso truculento, realizado num evento partidário brasileiro. Por isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou a manifestação como interferência nos assuntos internos do Brasil e uma agressão ao Executivo, ao Judiciário, ao Congresso e ao povo brasileiro. Lula tentou tirar por menos: “Eu? Quem é esse cara?”, mas a reação de alguns ministros foi no mesmo diapasão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, abandonou o estilo diplomático e chamou Milei de “palhaço”.
Essa escalada verbal não interessa aos dois países. Brasil e Argentina construíram, desde o governo José Sarney, uma parceria que permitiu superar a antiga rivalidade estratégica, criar o Mercosul e integrar cadeias produtivas fundamentais, principalmente na indústria automobilística. A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras. Pelos dados apresentados, comprou US$ 9,12 bilhões em produtos do Brasil, atrás apenas da China, com US$ 47,68 bilhões, e dos Estados Unidos, com US$ 20,02 bilhões.
A pauta destinada à China é concentrada em commodities, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro. Estados Unidos e Argentina absorvem uma parcela proporcionalmente maior de bens industrializados, de maior valor agregado e com capacidade de gerar empregos qualificados no Brasil. Automóveis, autopeças, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, aeronaves, combustíveis processados e outros manufaturados ocupam espaço relevante nas vendas aos mercados norte-americano e argentino. A retração das exportações pode reduzir a produção industrial, interromper cadeias de fornecedores, adiar investimentos, afetar a arrecadação e eliminar empregos
A presença de Milei na convenção não foi um acaso, reflete o eixo das alianças internacionais de Flávio Bolsonaro, ao lado da mensagem de Benjamin Netanyahu exibida no evento e da atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. As relações entre Brasil e Israel chegaram ao nível mais baixo desde 1949. Os dois países deixaram suas representações sob encarregados de negócios, sem embaixadores. Ao gravar uma mensagem para a convenção do PL, o primeiro-ministro israelense ingressou diretamente no ambiente eleitoral brasileiro e reforçou a identificação do bolsonarismo com seu governo.
Forma-se uma conexão internacional de extrema direita: Milei representa o ultraliberalismo econômico e a guerra cultural contra a esquerda; Netanyahu é um senhor da guerra marcado pela prolongada ofensiva militar em Gaza; e Rubio executa uma política externa voltada para conter a expansão chinesa e alinhar governos da América do Sul às prioridades de Washington.
Com os Estados Unidos, o problema é economicamente mais grave. A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump já interferiu na eleição brasileira e atingiu setores exportadores. Rubio tornou-se um dos principais formuladores dessa pressão, associando medidas diplomáticas, comerciais e políticas a críticas ao Supremo e aos processos contra Jair Bolsonaro.
Flávio procura transformar essa ofensiva numa prova de que Lula isolou o país. O efeito pode ser aumentar as tensões com dois dos três maiores compradores dos produtos brasileiros, ampliar a insegurança dos empresários e criar dificuldades para os setores industriais. Uma ruptura mais profunda elevaria custos, pressionaria preços e prejudicaria a renda e o emprego.
A operação pode até mobilizar o eleitorado bolsonarista mais radical, porém ameaça interesses econômicos do país e expõe Flávio à acusação de colocar a estratégia eleitoral de sua família acima do interesse nacional. Convidado de honra da convenção do PL, em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” e dirigiu ao ministro Alexandre de Moraes uma ofensa incompatível com o cargo que ocupa: “lixo careca”.
Foi um discurso truculento, realizado num evento partidário brasileiro. Por isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou a manifestação como interferência nos assuntos internos do Brasil e uma agressão ao Executivo, ao Judiciário, ao Congresso e ao povo brasileiro. Lula tentou tirar por menos: “Eu? Quem é esse cara?”, mas a reação de alguns ministros foi no mesmo diapasão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, abandonou o estilo diplomático e chamou Milei de “palhaço”.
Essa escalada verbal não interessa aos dois países. Brasil e Argentina construíram, desde o governo José Sarney, uma parceria que permitiu superar a antiga rivalidade estratégica, criar o Mercosul e integrar cadeias produtivas fundamentais, principalmente na indústria automobilística. A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras. Pelos dados apresentados, comprou US$ 9,12 bilhões em produtos do Brasil, atrás apenas da China, com US$ 47,68 bilhões, e dos Estados Unidos, com US$ 20,02 bilhões.
A pauta destinada à China é concentrada em commodities, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro. Estados Unidos e Argentina absorvem uma parcela proporcionalmente maior de bens industrializados, de maior valor agregado e com capacidade de gerar empregos qualificados no Brasil. Automóveis, autopeças, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, aeronaves, combustíveis processados e outros manufaturados ocupam espaço relevante nas vendas aos mercados norte-americano e argentino. A retração das exportações pode reduzir a produção industrial, interromper cadeias de fornecedores, adiar investimentos, afetar a arrecadação e eliminar empregos
A presença de Milei na convenção não foi um acaso, reflete o eixo das alianças internacionais de Flávio Bolsonaro, ao lado da mensagem de Benjamin Netanyahu exibida no evento e da atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. As relações entre Brasil e Israel chegaram ao nível mais baixo desde 1949. Os dois países deixaram suas representações sob encarregados de negócios, sem embaixadores. Ao gravar uma mensagem para a convenção do PL, o primeiro-ministro israelense ingressou diretamente no ambiente eleitoral brasileiro e reforçou a identificação do bolsonarismo com seu governo.
Forma-se uma conexão internacional de extrema direita: Milei representa o ultraliberalismo econômico e a guerra cultural contra a esquerda; Netanyahu é um senhor da guerra marcado pela prolongada ofensiva militar em Gaza; e Rubio executa uma política externa voltada para conter a expansão chinesa e alinhar governos da América do Sul às prioridades de Washington.
Com os Estados Unidos, o problema é economicamente mais grave. A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump já interferiu na eleição brasileira e atingiu setores exportadores. Rubio tornou-se um dos principais formuladores dessa pressão, associando medidas diplomáticas, comerciais e políticas a críticas ao Supremo e aos processos contra Jair Bolsonaro.
Flávio procura transformar essa ofensiva numa prova de que Lula isolou o país. O efeito pode ser aumentar as tensões com dois dos três maiores compradores dos produtos brasileiros, ampliar a insegurança dos empresários e criar dificuldades para os setores industriais. Uma ruptura mais profunda elevaria custos, pressionaria preços e prejudicaria a renda e o emprego.
O que aprendi depois que comecei a criar minhocas
Eu estava aqui pensando que um dos melhores lugares para se estar hoje nos Estados Unidos é o meu minhocário. Um espaço confortável, arejado e seguro, com as condições ideais de convivência e reprodução. Uma vez por semana o teto do minhocário se abre e o que pode ser entendido como uma deusa (eu) acrescenta ao habitat uma vasta quantidade de víveres, ou seja, a comida cai literalmente do céu. Livres da luta pela sobrevivência, estes seres de imenso privilégio podem simplesmente viver suas melhores vidas.
Comecei a criar minhocas depois de ganhar um espaço na horta comunitária de Santa Mônica. Foram 11 anos na lista de espera para usufruir de uns oito metros quadrados perto do mar. Botei a família no projeto e ao fim de três meses lutando contra as formigas (Policarpo Quaresma tinha razão), obtivemos a nossa primeira colheita na forma de quatro cenouras. Fôssemos subsistir com o que plantamos, teríamos que cozinhar o cachorro.
Apesar da assumida incompetência, tem sido um exercício maravilhoso, de humildade e percepção. Plantar a semente, celebrar o rasgo da muda sobre a terra, ver algo tão frágil se transformar em planta, e de planta viçosa em matéria morta. Um jardim, como a vida, é marcado pela impermanência. A gente sabe, mas acompanhar o processo na terra é como ler uma cartilha na forma de couve. Tudo tão simples e também um dos milhões de milagres acontecendo constantemente à nossa volta. Passando despercebido, pela miopia sobre os mecanismos extraordinários da vida.
Mas de volta às minhocas. Elas ficam na caixinha vivendo suas boas vidas de minhoca. Exercendo o que eu imagino ser a prosaica consciência de minhoca, algo como: oba-chegou-morango-mofado-comer-bom-agora-amorzinho de minhoca com minhoco-bom-dormir-mover-cocô-comer-abobrinha-podre-bom.
E a gente tem esse privilégio? Não tem. Saímos do nosso minhocário (a caverna de Platão) e estamos até agora tentando aprender como se vive, e não é por falta de sabedoria. Há milhares de anos que os gregos, os indianos, os chineses, os povos milenares das florestas definiram o que é viver bem, em harmonia consigo e com o entorno. Essa roda já foi inventada e a gente teima em não usar, e também não dá para voltar para o minhocário, é o que temos. Uma existência complexa, marcada pelo sublime e pelo pior, e quando eu penso que as minhas minhocas jamais saberão dos sufocos de fora da caixinha eu sinto inveja (eu, um exemplar humano em complexa forma de pensar, maluca a ponto de sentir inveja de um anelídeo). Inveja destes seres ínfimos que eu alimento em troca de seu cocô, que vai para a terra e para as cenouras e de volta para mim. Somos feitos de pó de estrelas (como disse Carl Sagan) e de cocô de minhoca.
Um mantra da literatura distópica é que ignorância é felicidade. Discuto um bocado isso com o meu filho, recém-saído do pileque da infância, e que, no auge da lucidez da adolescência, está obcecado com as grandes questões. Ele é meio minhoco e gostaria de saber menos. Eu invejo as minhocas mas prefiro sempre saber mais. Mesmo sabendo que eu não posso saber tudo. E também, nunca saberemos se somos as minhocas da caixinha de alguém.
Comecei a criar minhocas depois de ganhar um espaço na horta comunitária de Santa Mônica. Foram 11 anos na lista de espera para usufruir de uns oito metros quadrados perto do mar. Botei a família no projeto e ao fim de três meses lutando contra as formigas (Policarpo Quaresma tinha razão), obtivemos a nossa primeira colheita na forma de quatro cenouras. Fôssemos subsistir com o que plantamos, teríamos que cozinhar o cachorro.
Apesar da assumida incompetência, tem sido um exercício maravilhoso, de humildade e percepção. Plantar a semente, celebrar o rasgo da muda sobre a terra, ver algo tão frágil se transformar em planta, e de planta viçosa em matéria morta. Um jardim, como a vida, é marcado pela impermanência. A gente sabe, mas acompanhar o processo na terra é como ler uma cartilha na forma de couve. Tudo tão simples e também um dos milhões de milagres acontecendo constantemente à nossa volta. Passando despercebido, pela miopia sobre os mecanismos extraordinários da vida.
Mas de volta às minhocas. Elas ficam na caixinha vivendo suas boas vidas de minhoca. Exercendo o que eu imagino ser a prosaica consciência de minhoca, algo como: oba-chegou-morango-mofado-comer-bom-agora-amorzinho de minhoca com minhoco-bom-dormir-mover-cocô-comer-abobrinha-podre-bom.
E a gente tem esse privilégio? Não tem. Saímos do nosso minhocário (a caverna de Platão) e estamos até agora tentando aprender como se vive, e não é por falta de sabedoria. Há milhares de anos que os gregos, os indianos, os chineses, os povos milenares das florestas definiram o que é viver bem, em harmonia consigo e com o entorno. Essa roda já foi inventada e a gente teima em não usar, e também não dá para voltar para o minhocário, é o que temos. Uma existência complexa, marcada pelo sublime e pelo pior, e quando eu penso que as minhas minhocas jamais saberão dos sufocos de fora da caixinha eu sinto inveja (eu, um exemplar humano em complexa forma de pensar, maluca a ponto de sentir inveja de um anelídeo). Inveja destes seres ínfimos que eu alimento em troca de seu cocô, que vai para a terra e para as cenouras e de volta para mim. Somos feitos de pó de estrelas (como disse Carl Sagan) e de cocô de minhoca.
Um mantra da literatura distópica é que ignorância é felicidade. Discuto um bocado isso com o meu filho, recém-saído do pileque da infância, e que, no auge da lucidez da adolescência, está obcecado com as grandes questões. Ele é meio minhoco e gostaria de saber menos. Eu invejo as minhocas mas prefiro sempre saber mais. Mesmo sabendo que eu não posso saber tudo. E também, nunca saberemos se somos as minhocas da caixinha de alguém.
Quem decide por trás de cada algoritmo?
No campo da inteligência artificial, os homens continuam sendo vistos como líderes, cientistas ou especialistas em tecnologia. As mulheres, por outro lado, são frequentemente associadas ao lar, à família, aos cuidados e ao trabalho doméstico.
Mas esses resultados não são acidentais. " A inteligência artificial não é neutra: ela reflete as sociedades que a projetam, os dados com os quais é treinada e as decisões políticas que orientam seu uso", explica Bibiana Aido, diretora regional da ONU Mulheres para a América Latina e o Caribe, em entrevista à DW. Se esses dados contêm estereótipos, exclusões ou discriminação, acrescenta ela, a IA pode reproduzi-los e até mesmo amplificá-los.
As consequências vão muito além de um erro técnico. "Se a IA reproduzir desigualdades históricas, estereótipos de gênero, racismo, exclusão ou violência, não estaremos diante de um problema tecnológico isolado; estaremos diante de um desafio democrático, ético e de direitos humanos ", destaca Aido.
Segundo Paola Ricaurte Quijano, pesquisadora sênior do Tecnológico de Monterrey e coordenadora da Rede Feminista de IA para a América Latina e o Caribe, consultada pela DW, os vieses da IA afetam desproporcionalmente pessoas trans, racializadas e com deficiência, ampliando as desigualdades e os danos gerados por essas tecnologias.
Além disso, não se tratam de falhas isoladas. "Esses vieses não são erros isolados que podem ser corrigidos com uma atualização; são propriedades intrínsecas de modelos centralizados", destaca Luciana Benotti, professora da Universidade Nacional de Córdoba e especialista em auditoria algorítmica, em entrevista a esta publicação.
Como surgem esses vieses? A explicação começa muito antes de a IA gerar uma resposta. "Por trás de todo sistema, existem decisões humanas: quais dados são usados, o que é medido, o que é deixado de fora, quem define o problema, quem programa a solução e quem monitora seus impactos", acrescenta a diretora regional da ONU Mulheres.
Grande parte dessa tecnologia é desenvolvida em espaços onde mulheres e outros grupos historicamente excluídos permanecem sub-representados, especialmente em cargos técnicos e de liderança (veja o gráfico acima). "Equipes homogêneas tendem a enxergar menos riscos, antecipar menos impactos diferenciados e projetar soluções que respondem a experiências parciais", alerta Aido.
O desenvolvimento da inteligência artificial permanece nas mãos de uma "indústria altamente dominada por homens", enfatiza Ricaurte Quijano. "Por área, a disparidade tende a aumentar. Por exemplo, em cibersegurança, apenas 12% são mulheres ou pessoas de minorias étnicas." (Veja o gráfico abaixo).
Nesse sentido, ela acredita que "as mulheres e as comunidades historicamente excluídas" dos circuitos de inovação devem ser reconhecidas como produtoras de conhecimento.
As mulheres continuam sub-representadas em muitas das áreas onde os sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos, especialmente em funções técnicas.
"Quando as mulheres não estão envolvidas no desenvolvimento dessas tecnologias, as decisões sobre o futuro digital são tomadas sem levar em conta suas experiências, necessidades e conhecimentos", destaca Aido. "E isso tem consequências: os sistemas podem tornar realidades invisíveis, reproduzir estereótipos ou causar danos que poderiam ter sido evitados com equipes mais diversas e processos de avaliação mais inclusivos."
A isso se soma outra questão. "O desenvolvimento dos sistemas de IA mais avançados está concentrado em um oligopólio de algumas grandes empresas de tecnologia que controlam não apenas os modelos, mas também os mecanismos para medir sua eficácia", afirma Benotti, diretor de Inteligência Artificial da Fundação Vía Libre, especializada no assunto.
Segundo o acadêmico, esses modelos não priorizam as "necessidades locais". Assim, na América Latina e no Caribe, "consumimos tecnologias projetadas com metodologias que não compreendem nossos contextos complexos", afirma Benotti.
Essa falta de adaptação também se reflete na linguagem. Ao traduzir textos do inglês, aponta Ricaurte Quijano, os sistemas tendem a reproduzir estruturas características desse idioma e, ao fazê-lo, reforçam a dominância das línguas dominantes.
"Os vieses dos sistemas de IA devem ser considerados prejudiciais, uma vez que violam os direitos das pessoas", afirma o especialista.
Benotti alerta que essas tecnologias deixaram de ser apenas ferramentas de laboratório e estão sendo implementadas em áreas sensíveis, como a educação. Nesse contexto, ele defende a necessidade de desenvolver metodologias locais e auditorias algorítmicas independentes para avaliar o impacto desses sistemas.
Aido, por sua vez, levanta outro desafio fundamental. "Precisamos que as mulheres participem da concepção, desenvolvimento, regulamentação e avaliação dessas tecnologias. Não pode haver decisões sobre o futuro digital sem a presença das mulheres."
Para a América Latina, o desafio é garantir seu próprio espaço no desenvolvimento dessas tecnologias. "Não queremos uma região que chegue atrasada à discussão global sobre IA", alerta ele.
Ela acrescenta: "O futuro não é algo que se espera, é algo que se constrói. E se queremos um futuro digital justo, seguro e inclusivo, temos de construí-lo com mulheres e meninas no centro."
Maricel Drazer
Mas esses resultados não são acidentais. " A inteligência artificial não é neutra: ela reflete as sociedades que a projetam, os dados com os quais é treinada e as decisões políticas que orientam seu uso", explica Bibiana Aido, diretora regional da ONU Mulheres para a América Latina e o Caribe, em entrevista à DW. Se esses dados contêm estereótipos, exclusões ou discriminação, acrescenta ela, a IA pode reproduzi-los e até mesmo amplificá-los.
As consequências vão muito além de um erro técnico. "Se a IA reproduzir desigualdades históricas, estereótipos de gênero, racismo, exclusão ou violência, não estaremos diante de um problema tecnológico isolado; estaremos diante de um desafio democrático, ético e de direitos humanos ", destaca Aido.
Segundo Paola Ricaurte Quijano, pesquisadora sênior do Tecnológico de Monterrey e coordenadora da Rede Feminista de IA para a América Latina e o Caribe, consultada pela DW, os vieses da IA afetam desproporcionalmente pessoas trans, racializadas e com deficiência, ampliando as desigualdades e os danos gerados por essas tecnologias.
Além disso, não se tratam de falhas isoladas. "Esses vieses não são erros isolados que podem ser corrigidos com uma atualização; são propriedades intrínsecas de modelos centralizados", destaca Luciana Benotti, professora da Universidade Nacional de Córdoba e especialista em auditoria algorítmica, em entrevista a esta publicação.
Como surgem esses vieses? A explicação começa muito antes de a IA gerar uma resposta. "Por trás de todo sistema, existem decisões humanas: quais dados são usados, o que é medido, o que é deixado de fora, quem define o problema, quem programa a solução e quem monitora seus impactos", acrescenta a diretora regional da ONU Mulheres.
Grande parte dessa tecnologia é desenvolvida em espaços onde mulheres e outros grupos historicamente excluídos permanecem sub-representados, especialmente em cargos técnicos e de liderança (veja o gráfico acima). "Equipes homogêneas tendem a enxergar menos riscos, antecipar menos impactos diferenciados e projetar soluções que respondem a experiências parciais", alerta Aido.
O desenvolvimento da inteligência artificial permanece nas mãos de uma "indústria altamente dominada por homens", enfatiza Ricaurte Quijano. "Por área, a disparidade tende a aumentar. Por exemplo, em cibersegurança, apenas 12% são mulheres ou pessoas de minorias étnicas." (Veja o gráfico abaixo).
Nesse sentido, ela acredita que "as mulheres e as comunidades historicamente excluídas" dos circuitos de inovação devem ser reconhecidas como produtoras de conhecimento.
As mulheres continuam sub-representadas em muitas das áreas onde os sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos, especialmente em funções técnicas.
"Quando as mulheres não estão envolvidas no desenvolvimento dessas tecnologias, as decisões sobre o futuro digital são tomadas sem levar em conta suas experiências, necessidades e conhecimentos", destaca Aido. "E isso tem consequências: os sistemas podem tornar realidades invisíveis, reproduzir estereótipos ou causar danos que poderiam ter sido evitados com equipes mais diversas e processos de avaliação mais inclusivos."
A isso se soma outra questão. "O desenvolvimento dos sistemas de IA mais avançados está concentrado em um oligopólio de algumas grandes empresas de tecnologia que controlam não apenas os modelos, mas também os mecanismos para medir sua eficácia", afirma Benotti, diretor de Inteligência Artificial da Fundação Vía Libre, especializada no assunto.
Segundo o acadêmico, esses modelos não priorizam as "necessidades locais". Assim, na América Latina e no Caribe, "consumimos tecnologias projetadas com metodologias que não compreendem nossos contextos complexos", afirma Benotti.
Essa falta de adaptação também se reflete na linguagem. Ao traduzir textos do inglês, aponta Ricaurte Quijano, os sistemas tendem a reproduzir estruturas características desse idioma e, ao fazê-lo, reforçam a dominância das línguas dominantes.
"Os vieses dos sistemas de IA devem ser considerados prejudiciais, uma vez que violam os direitos das pessoas", afirma o especialista.
Benotti alerta que essas tecnologias deixaram de ser apenas ferramentas de laboratório e estão sendo implementadas em áreas sensíveis, como a educação. Nesse contexto, ele defende a necessidade de desenvolver metodologias locais e auditorias algorítmicas independentes para avaliar o impacto desses sistemas.
Aido, por sua vez, levanta outro desafio fundamental. "Precisamos que as mulheres participem da concepção, desenvolvimento, regulamentação e avaliação dessas tecnologias. Não pode haver decisões sobre o futuro digital sem a presença das mulheres."
Para a América Latina, o desafio é garantir seu próprio espaço no desenvolvimento dessas tecnologias. "Não queremos uma região que chegue atrasada à discussão global sobre IA", alerta ele.
Ela acrescenta: "O futuro não é algo que se espera, é algo que se constrói. E se queremos um futuro digital justo, seguro e inclusivo, temos de construí-lo com mulheres e meninas no centro."
Maricel Drazer
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