quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O 7 de Setembro de André Mendonça

A primeira a falar foi Sonia Hernandes, pastora, empresária e autoproclamada a “primeira bispa do Brasil”. “Que o Senhor guarde, livre e dê graça ao nosso irmão André Mendonça. Em nome de Jesus!”, glorificou. A líder da Igreja Renascer em Cristo estava no alto de um trio elétrico na Avenida Paulista. A seu lado, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Planalto.

“Quero prestar meu apoio ao ministro André Mendonça. Aplausos ao ministro André Mendonça! Quero que o povo brasileiro manifeste o apoio ao ministro André Mendonça!”, prosseguiu a deputada Bia Kicis, do PL do Distrito Federal.


Terceiro a usar o microfone, o deputado Gustavo Gayer, do PL goiano, exaltou “o homem que está lutando contra o sistema e voltou a dar esperança ao povo brasileiro”. “O ditado diz que um homem sozinho, mas ao lado de Deus, faz maioria. Então quero pedir uma salva de palmas para o nosso querido ministro do STF, o único verdadeiramente que tem coragem: André Mendonça!”, empolgou-se.

O público respondeu em coro: “Men-don-ça! Men-don-ça!”. No asfalto, patriotas tiravam selfies com um boneco inflável gigante do ministro do STF. Com o capitão preso por tentativa de golpe, a direita verde-amarela encontrava um novo mito para reverenciar.

“Qual é o jogo de denegrir e implodir o André Mendonça?”, perguntou Silas Malafaia, dublê de pastor e animador de comícios bolsonaristas. Com voz esganiçada, ele pregou a eleição de senadores dispostos a “botar um pé na porta de ditadores como Alexandre de Moraes”. Kicis e Gayer, que discursaram antes, são candidatos ao Senado.

Mendonça não compareceu ao 7 de Setembro bolsonarista. Mesmo ausente, foi mais festejado que o presidenciável do PL. Três dias antes, o ministro produziu um vídeo para as redes. Em tom pastoral, dirigiu-se a “irmãos e irmãs” para “agradecer tantas mensagens de oração e de carinho”. “Estejam certos de que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar”, derramou-se. “Que Deus os abençoe, e que Deus abençoe nosso país.”

Flávio, o STF e um plano para o fim da reeleição

Pode se enganar quem acredita que o senador Flávio Bolsonaro deve partir com tudo para cima do Supremo Tribunal Federal (STF), se for eleito, e abandonar a promessa de acabar com a reeleição. Em caso de vitória nas urnas em outubro, dizem aliados do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato do PL à Presidência, Flávio subirá a rampa do Palácio do Planalto com planos sobre ambos os assuntos.

Flávio iniciou a disputa decidido a evitar alguns dos erros estratégicos cometidos pelo pai. Montou, por exemplo, um comitê com uma área jurídica bem estruturada para fazer frente à campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Afinal, todos sabiam da relevância que mais uma vez ganhariam as discussões travadas no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Este “departamento” é liderado pela advogada Maria Claudia Bucchianeri, que foi ministra do TSE em 2022. Já o time jurídico responsável pelas partes civil e penal é coordenado pelo advogado Tracy Reinaldet, que ganhou notoriedade nacional pelas defesas que conduziu durante a Operação Lava-Jato.


Para neutralizar as críticas à postura do pai em relação à pandemia de covid-19, primeiro Flávio disse ser um Bolsonaro “vacinado” e “mais centrado”. Mais recentemente, antecipou que o médico Claudio Lottenberg é o seu nome para o Ministério da Saúde. Com isso, incluiu em seu discurso o mote segundo o qual o Sistema Único de Saúde (SUS) terá o “padrão Einstein”, em referência ao hospital de primeira linha que o profissional dirigia até entrar oficialmente na campanha.

Fez-se, também, um “mea culpa” quanto à necessidade de ter um bom relacionamento com o Supremo. Há um reconhecimento que os ataques institucionais feitos pelo ex-presidente à Corte atrapalharam. Flávio sinaliza que manterá um embate pessoal contra Alexandre de Moraes, como fez na manifestação de segunda na Avenida Paulista, ao mesmo tempo que tentará marcar uma diferença entre o ministro e o restante do STF, do Poder Judiciário e da magistratura em geral.

Um movimento importante foi dado na semana passada. Como antecipou o Globo e depois também reportou o Valor, o senador Rogério Marinho (PL-RN) procurou o ministro Gilmar Mendes, do STF, com a missão de manter uma ponte com a Corte.

Segundo o relato feito pelo parlamentar, Marinho disse ao decano do Supremo ter a convicção que Flávio sairá vitorioso das eleições e, diante desse cenário, assegurou que o eventual próximo governo estará comprometido com a preservação do diálogo institucional com o Supremo, o respeito às instituições e a normalidade democrática.

“A conversa foi objetiva, sou o coordenador da campanha e fui para dizer o óbvio: que temos todo o interesse de manter a relação institucional e queremos a compreensão do ministro de que iremos cobrar a Suprema Corte, mas o tribunal não é nosso adversário. Podemos ter coisas objetivas contra um ministro que cometer irregularidades, mas fui lá conversar e dizer que a campanha e o futuro novo governo têm todo interesse em manter as relações institucionais”, afirmou Marinho à repórter Beatriz Roscoe.

Mas há um detalhe importante. Marinho apresentou-se a Gilmar com a patente de coordenador de campanha, função que de fato exerce. Porém, também está consolidado como o preferido de Flávio e seu grupo para concorrer à eleição para presidente do Senado que ocorrerá em fevereiro de 2027. E é o presidente do Senado quem tem a prerrogativa de dar andamento a pedidos de impeachment de ministros do Supremo: a expectativa entre os bolsonaristas é que a nova composição do Senado dê maioria à atual oposição e, assim, alce Marinho ao comando da Mesa.

Se o plano der certo, dizem os conselheiros de Flávio, primeiro os articuladores bolsonaristas tentarão consolidar o apoio dos novatos antes de tentar dar o passo seguinte. Muitos deles podem ser eleitos justamente com a bandeira de reformar o Judiciário, o que inclui o impeachment de ministros do Supremo, mas uma reação da Corte também seria esperada. Dependendo do cenário, o mais provável é que Flávio primeiro tente emplacar seus indicados para o Supremo antes de uma eventual crise ser instalada. Assim, teria mais respaldo no plenário.

E a promessa de acabar com a reeleição, que aliás enfrenta grande ceticismo no mundo político?

Primeiro, o senador acolheu a sugestão de aliados e protocolou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que mantém a reeleição para governadores e prefeitos, mas proíbe a recondução do presidente da República, quem o tiver sucedido ou substituído nos seis meses anteriores ao pleito. “Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua promulgação, aplicando-se inclusive ao Presidente da República eleito em 2026”, diz o texto da PEC.

Nos bastidores, para obter o apoio necessário para a proposta andar no novo Congresso, Flávio tem sido aconselhado a acrescentar à PEC original a extensão do mandato do próximo presidente da República, governadores, deputados federais e senadores até 2032. A reeleição para governador e prefeito também poderia acabar. As eleições seriam unificadas. O mandato dos senadores, hoje de oito anos, seria ampliado para 12.

Os defensores da ideia adotariam o discurso de que a unificação das eleições representaria uma economia de recursos públicos. O presidente teria mais liberdade para adotar ações impopulares. Já os críticos certamente argumentariam que a medida seria implementada por aqueles que na verdade acabariam se beneficiando das mudanças, questionando se não haveria ainda algum risco à democracia embutido na iniciativa.

Para pensar



Quem tem dinheiro põe no bolso quem não tem
Lev Tolstoi

A manipulação dos crédulos

Em tempos, já vimos na televisão um bispo da IURD a dar pontapés numa imagem de Nossa Senhora Aparecida, cujo culto os evangélicos consideram manifestação de idolatria e o pai Bolsonaro chegou a dedicar-lhe o Brasil. Agora, o filho prefere dá-lo a Jesus. Entendam-se! Mas desde quando o Brasil é uma coisa que se entrega a alguém, mesmo a uma divindade? E com que autoridade se faz isto?

Há aqui vários problemas. Desde logo de natureza constitucional. O país é laico. Se levadas a sério, estas declarações deveriam constituir crime. Fazer este tipo de afirmações é retirar dignidade, liberdade e cidadania a todos os brasileiros que não são cristãos. É empurrar para um gueto todos os que têm uma fé diferente ou simplesmente não são portadores de fé religiosa. É pura discriminação.

Mas o mais importante é que tais declarações ferem de morte as bases fundamentais do Evangelho e da fé cristã. Quem faz tais afirmações desconhece a postura do próprio Jesus Cristo, que declarou preto no branco “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36).


Trata-se, portanto, de pura caça ao voto dos evangélicos, a mais despudorada manipulação dos crédulos, num país onde o perfil tipo do crente pentecostal é mulher, negra, pobre e com pouca ou nenhuma instrução. Uma massa acrítica facilmente manipulável pelos espertalhões que fazem do mercado religioso o seu chão.

Durante quase todo o século passado, o povo evangélico no Brasil foi avesso à participação na vida política, partindo do princípio de que a Igreja se situava essencialmente num plano espiritual, o que lhe permitia ser uma espécie de reserva moral da sociedade, mas também lhe abria a possibilidade para ser uma voz profética.

Porém, há algumas décadas tudo mudou. Hoje vivem-se tempos de frenesim mediático e de vertigem do poder. Inebriada por tal prato de lentilhas parte da igreja evangélica brasileira vendeu o seu direito de primogenitura, qual Esaú, ou seja, a sua condição única de intervir espiritualmente na sociedade pela palavra e pelo exemplo.

Desceu à arena da baixa política, infiltrou-se nas catacumbas da corrupção, lançou mão dos meios tenebrosos da manipulação, das notícias falsas, da falsa ciência, do negacionismo, do extremismo e posicionou-se politicamente como nunca antes. Líderes religiosos sem escrúpulos projetaram-se nos meios de comunicação de massas, ganharam visibilidade e conduziram essa parte da igreja para um verdadeiro pântano, com os resultados desastrosos que se conhecem.

Depois das patetices de Trump, parece que outros estão tentados a destruir o estado laico e a construir uma teocracia, à semelhança do Irão xiita ou do Israel sionista. O sistema judicial colombiano ordenou recentemente ao Presidente eleito que se desculpe por ter violado a neutralidade religiosa do Estado no seu ato de posse, convocando igualmente Abelardo de la Espriella a emitir uma diretriz que ordene aos funcionários públicos que respeitem e façam respeitar a neutralidade em todos os atos públicos.

A tentação teocrática consubstancia não só a negação dos princípios do Evangelho e da própria fé e tradição cristã, mas também do estado de direito, da democracia e do respeito pelos direitos, a liberdade e a identidade de todos os cidadãos, sem exceção.

É justo dizer que uma parte do segmento evangélico brasileiro permaneceu fiel aos princípios da sua fé, não se deixando arrastar pela enxurrada populista, mas o que se vê mais são os grupos neopentecostais pelo facto de dominarem os meios de comunicação de massas.

Estamos no reino da manipulação dos crédulos. Em especial daqueles que sofrem do complexo da manada, e que por isso não são capazes de parar para refletir um pouco. Ainda não entenderam que o seu mestre, Jesus Cristo, sempre respeitou e honrou quem pensava pela própria cabeça.

A roupa barata que sai caro para o planeta

Durante décadas, a indústria da moda aperfeiçoou uma espécie de truque de ilusionismo econômico. A roupa chega barata à vitrine, cabe no orçamento, acompanha a tendência da semana e parece não deixar dívidas. Spoiler alert: ela deixa. Só que a conta não vem no caixa da loja. Ela aparece mais tarde – na atmosfera, nos rios, nos aterros sanitários e, com frequência, no território de comunidades que jamais participaram da festa do consumo.

O estado da Califórnia, nos Estados Unidos, decidiu começar a revelar esse preço escondido. Uma reportagem de Rachel Cernansky, publicada pelo The New York Times, mostra como uma lei aprovada em 2024 pode alterar a lógica do setor. A Lei de Recuperação Têxtil Responsável transfere para fabricantes, importadores e varejistas parte do custo de recolher, separar, consertar, reutilizar e reciclar roupas e outros produtos têxteis depois que deixam as mãos do consumidor.

É uma mudança pequena na aparência e enorme no princípio: quem coloca um produto no mercado também deve responder pelo que acontece quando ele vira resíduo.


Hoje, essa conta costuma ser paga pelo consumidor e pelo poder público (ou simplesmente empurrada para outro lugar). Segundo o jornal americano, moradores da Califórnia descartaram quase 1,2 milhão de toneladas de têxteis somente em 2021. O novo sistema deverá oferecer pontos de entrega, programas de devolução pelo correio e participação de brechós. As empresas financiarão a estrutura e as regras deverão favorecer peças duráveis, reparáveis e feitas com material reciclado, enquanto produtos difíceis de reciclar, como tecidos de fibras misturadas, poderão pagar mais.

Não se trata apenas de organizar melhor o lixo. A ideia é interferir no projeto da roupa antes mesmo de ela existir.

É que quando uma empresa sabe que terá de pagar pelo fim da vida de uma peça, ganha um motivo econômico para fazê-la durar mais. Esse mecanismo tem nome burocrático: responsabilidade estendida do produtor. Uma ideia bastante simples: o lucro não pode ser privatizado enquanto o prejuízo ambiental é socializado.

Para compreender a dimensão do problema, basta descer pelo mapa do continente até o norte do Chile. O deserto do Atacama se tornou uma das imagens mais brutais da moda descartável. Ali, pilhas gigantescas de vestidos, casacos, calças, camisetas e sapatos formam montanhas coloridas sobre uma das paisagens mais áridas do planeta.

Não são herança de uma civilização antiga. São ruínas do consumo da semana passada.

O Ministério do Meio Ambiente do Chile informa que, em 2021, o país importou 156 mil toneladas de roupas usadas ou sem uso e que cerca de 60% desse volume terminou em depósitos ilegais e no Atacama. Um diagnóstico oficial estima que aproximadamente 40 mil toneladas de roupas chegam ao deserto a cada ano. Parte desembarca pela zona franca de Iquique para revenda; o que não encontra comprador perde valor comercial, mas não desaparece. Permanece no solo, libera substâncias, espalha microfibras plásticas e, quando queimado clandestinamente, transforma o descarte também em poluição do ar.

O Atacama expõe a geografia desigual do desperdício. Países e consumidores mais ricos renovam o guarda-roupa; territórios mais pobres recebem o excesso. Exportar roupa usada pode parecer reaproveitamento, mas, quando o volume supera a procura e a capacidade local de gestão, é apenas exportação de lixo com outro nome.

Os números globais ajudam a medir o tamanho dessa montanha. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que o mundo gere 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano – o equivalente a um caminhão de lixo cheio de roupas enviado a um aterro ou à incineração a cada segundo. Entre 2000 e 2015, a produção de roupas dobrou, enquanto o tempo de uso das peças caiu 36%.

A moda e os têxteis respondem por algo entre 2% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a ONU. A amplitude da estimativa revela a dificuldade de medir uma cadeia longa, pulverizada e opaca, que começa no cultivo do algodão ou na extração do petróleo usado no poliéster, passa por fiação, tingimento, acabamento, transporte e varejo e termina no descarte. O setor também consome cerca de 215 trilhões de litros de água por ano e responde por uma parcela relevante da poluição por microplásticos que chega aos oceanos.

Ainda assim, é tentador tratar o problema como uma soma de escolhas individuais: comprar menos, usar por mais tempo, frequentar brechós, reparar uma peça rasgada. Tudo isso importa. Mas a escala da crise mostra o limite de entregar ao consumidor a tarefa de corrigir sozinho um sistema desenhado para produzir depressa, vender muito e substituir antes que seja necessário.

Não há consumo consciente capaz de compensar indefinidamente uma produção inconsequente. A economia circular não começa na lixeira. Ela acontece na prancheta de quem desenha, na planilha de quem define os materiais, na estratégia de quem estimula desejos e na responsabilidade de quem lucra com cada nova coleção.

Durante muito tempo, chamamos de barata uma roupa cujo custo real era pago por alguém distante e por um planeta sem direito a apresentar a fatura. As montanhas do Atacama mostram que essa conta existe. A Califórnia tenta agora endereçá-la a quem também deve pagá-la.

Se der certo, a maior inovação não será reciclar melhor aquilo que descartamos. Será finalmente deixar de desenhar o mundo, e o guarda-roupa, como se tudo fosse descartável.